Entrevista:O Estado inteligente
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domingo, janeiro 27, 2008
Merval Pereira Água, fogo e terra
Se os biocombustíveis são uma alternativa limpa ao petróleo, a plantação de cana de açúcar e milho, ou oleaginosas, para a produção de combustível pode incentivar desmatamentos e provocar o aumento dos preços dos alimentos.
Jacques Diouf, diretor da FAO, não teve dúvidas de incluir entre as causas do aumento do preço a procura por biocombustíveis.
Ao mesmo tempo, esses esforços por biocombustíveis estimulariam também o esgotamento dos recursos hídricos. Por estar no centro de todas essas questões, o Brasil tem seu peso específico reconhecido, e exatamente por isso o presidente da Petrobras, Sérgio Gabrielli, uma das poucas autoridades brasileiras presentes no Forum Econômico Mundial, está participando de todas as discussões que envolvem esses temas recorrentes aqui, além da politização do fornecimento de energia.
Mais uma vez esteve em discussão em Davos o nacionalismo que transforma o fornecimento de recursos naturais dos países exportadores, sejam eles a Rússia de Putin ou a Venezuela de Chávez, em instrumentos de pressão política. O mundo continua a debater a questão da energia como arma politica, que está dando a países emergentes poder de protagonistas da cena internacional.
A energia deve ser vista não apenas como um assunto econômico, mas sobretudo geopolítico, especialmente quando países como a Venezuela e a Bolívia são liderados por governos que usam petróleo e gás como instrumentos políticos, tanto interna quanto externamente.
Num debate sobre as consequências das misturas de nacionalismo com recursos naturais, foi a vez de Gabrielli ser político em relação aos problemas com nossos vizinhos, afirmando que o que eles fazem é o que sempre foi feito historicamente. Isto é, tentar tirar o maior proveito possível de seus recursos naturais: “É compreensível, e é preciso ter paciência, paciência e paciência” — frisou.
Em outro debate, no entanto, ficou patente a preocupação de países da América Latina com a possibilidade de que a construção de grandes gasodutos regionais possibilite uma ação política, como já aconteceu com a Rússia, que provocou interrupções de suprimento com a Ucrânia, ou para abastecimento interno devido aos rigores do inverno, deixando parte da Europa desprotegida.
Uma maneira de reduzir esse risco seria criar uma interdependência entre os países, aumentando os investimentos regionais. O preço do barril do petróleo levanta questões: a maioria das recessões após a Segunda Guerra Mundial foi provocada por choques de petróleo.
Agora, juntamente com o preço em alta, a crise financeira americana cria um ambiente econômico deprimido que pode levar a uma redução do consumo e consequente diminuição do preço do barril, como também poderá fazer com que o preço atinja patamares impensáveis, criando um ambiente mais atritado ainda entre países consumidores e produtores.
Num seminário especial sobre o futuro dos biocombustíveis, houve quem garantisse que chegou o momento em que investimentos em novas formas de energia se fazem obrigatórios.
A crise aumenta a importância dos combustíveis alternativos como o biodiesel e o etanol, no qual o Brasil se destaca.
Questionado sobre o desmatamento da Amazônia num simpósio sobre energia, o presidente da Petrobras disse que a utilização de soja para biocombustível é ainda muito incipiente, e que esta não deve ser a principal causa do problema.
Lembrou ainda que o Brasil tem uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, baseado principalmente nas hidrelétricas, e é pioneiro na produção e utilização do etanol. Em vários painéis, a questão da água foi abordada por diversos ângulos. A escalada internacional de demanda por água, e a inadequada oferta seria um problema tão urgente e ainda mais complexo do que os esforços para proteger o meio-ambiente.
O Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, ressaltou em um painel que a Guerra em Darfur teve início entre fazendeiros quando, devido à falta de chuvas, a água ficou escassa. A falta de água pode colocar em risco o crescimento econômico, a saúde, aos direitos humanos e até mesmo à segurança nacional de países. A diminuição no volume de água do Lago Chad, na África, coloca em risco cerca de 30 milhões de pessoas, e até mesmo afluentes do Rio Amazonas secaram, segundo relatos em painéis no Forum Econômico Mundial.
A crise não atinge apenas os povos mais pobres: escassez de água afeta 1/3 dos Estados Unidos e 1/5 da Espanha.
Uma idéia lançada em um dos debates pode ser tão perigosa quanto lucrativa para países que, como o Brasil, têm as maiores reservas de água do planeta: transformar a água em commodity, dando-lhe um valor econômico correspondente à sua importância.
Em alguns exemplares da coluna de ontem foi atribuído ao banco Morgan Stanley o estudo sobre os Brics ( Brasil, Russia, Índia e China), apontados como os futuros líderes econômicos mundiais. Na verdade, o estudo é da Goldman Sachs.
domingo, dezembro 02, 2007
FERREIRA GULLAR Rumo à estação Lulândia 2
Lula vai aceitar deixar o Planalto sem ter a garantia de que voltará à presidência em 2014? |
EXISTIRÁ UM plano, em marcha, para permitir que Lula dispute o terceiro mandato? Ninguém me contou, não consultei nenhuma pitonisa. Cogito da existência desse plano, por dedução, prendendo-me à lógica dos fatos. Pode ser que Lula não consiga realizá-lo, mas há indícios de que o presidente e sua turma arquitetam-no sigilosamente.
E não só eu penso assim; muita gente acredita nisso ou desconfia. Já há bastante tempo, após a reeleição de Lula, quando se confirmou a persistência de sua popularidade, era natural perguntar: Lula vai aceitar deixar o Planalto sem a garantia de que voltará à presidência em 2014?
Difícil de acreditar. Acreditaria nisso com menos dificuldade se o PT tivesse um nome presidenciável capaz de ganhar as eleições em 2010. Só que não tem, e esse dado viabiliza uma possível vitória do PSDB, seja com a candidatura de José Serra, seja com a de Aécio Neves. Se os dois se unirem numa só chapa, então, a derrota de um candidato lulista será inevitável, e Lula sabe disso. Para evitá-lo, só sendo Lula o candidato de Lula.
Mas não é só isso que me faz suspeitar da existência do plano para o terceiro mandato. O quadro político latino-americano também deve ser levado em conta, especialmente a atuação de Hugo Chávez, na Venezuela, que pretende reeleger-se indefinidamente. Lula há de perguntar: se ele pode, por que não eu? Lembro-me de uma declaração de Fernando Henrique Cardoso dizendo que Lula não seguiria os passos de Chávez, porque, ao contrário daquele, não tem espírito autoritário, mas soube agora que FHC já não está tão certo do espírito democrático de Lula. É que as coisas vão se tornando mais claras e as intenções, mais evidentes.
Ninguém duvida de que, para o PT, a reeleição de Lula é fundamental, mesmo porque deixar o poder não está em seus planos. Já imaginou ter que devolver os milhares de cargos e posições estratégicas conquistados nestes dois mandatos? Com que cara os parlamentares petistas iriam se comportar, no Congresso, outra vez no papel de oposição, a votar contra tudo e a propor uma CPI por semana? Não dá para crer. Mas quando alguns petistas começaram a falar no terceiro mandato, Lula os mandou calar. Claro, talvez porque ainda não tenha chegado a hora, pois isso teria que ser conduzido com total cuidado e discrição.
O plano que estaria em marcha ainda não envolveria o PT, embora conte com ele, claro. Lula sempre conta com ele, não tem de se preocupar com isso e, sim, com os possíveis aloprados que, na ânsia de não largar as tetas do poder, metem os pés pelas mãos. Do plano, não tenho dúvida, só participa o pessoal mais próximo a Lula e de estrita confiança.
Lula não é igual a Hugo Chávez, boquirroto e truculento. Não, Lula pode ser falastrão, mas é também manhoso e disfarçado. Afirma coisas contraditórias para confundir a opinião pública, que fica sem saber o que ele de fato pensa. Esperto, calcula o momento exato em que deve dar um passo adiante e, se preciso, recua, para avançar depois. Nem sempre acerta nessa tática de morde e sopra, mas a verdade é que não pode deixar o povão pensar que ele desistiu do novo mandato. Certa vez, declarou que isso estava fora de cogitação, pois "a alternância no poder é essencial para a democracia". Muita gente deve ter pensado: "Lula respeita mesmo as normas constitucionais". No entanto, semanas depois, defendia com veemência o golpe eleitoral que permitirá a Chávez reeleger-se indefinidamente.
As coisas que Lula afirmou naquela ocasião pareciam evidenciar a existência do plano. Para surpresa geral, disse, em defesa de Chávez, que os que hoje o criticam não fizeram restrições à longa permanência no poder de Margaret Thatcher, Felipe González, François Miterrand e Helmut Kohl. Alguém acredita que tais observações surgiram de repente na cabeça de Lula? Naquele momento, ele expressou intencionalmente argumentos que pareciam legitimar a sua própria reeleição. Pensem bem: nunca se viu Lula sair em defesa de alguém, a não ser quando isso reverte em seu próprio benefício. Tampouco ele compraria uma briga com Zapatero e o rei Juan Carlos para defender Chávez.
Tudo isso terá sido feito de caso pensado, já que a deterioração da imagem de Chávez não convém a Lula que, como ele, pretenderia perpetuar-se no poder. Se os governos prolongados de Thatcher, González, Miterrand e Kohl eram legítimos, por que os de Chávez não o seria? A resposta, Lula sabe qual é: aqueles governantes não mudaram as regras do jogo para se reeleger.
São especulações, sem dúvida, mas não implausíveis.
sábado, julho 21, 2007
Colapso Celso Ming
Não é preciso análise de nenhuma caixa-preta para entender que estamos diante de algo bem mais grave do que um “Apagão Aéreo”, nome da crise dado pela CPI que tramita no Senado.
O setor da aviação civil entrou em colapso e, nessa situação, aviões se descontrolam, morrem centenas de inocentes e quem devia assumir a responsabilidade, se omite ou reage com “top-tops”, como o secretário da Presidência, Marco Aurélio Garcia.
O governo Lula não foi capaz de antecipar a impressionante expansão do setor e, muito menos, de responder adequada e prontamente a ela. O Ministério da Defesa, de Waldir Pires, é reconhecidamente inoperante na tarefa de coordenar a aviação civil. O levantamento feito pela CPI denuncia que não é capaz de supervisionar nem a Infraero nem o Comando da Aeronáutica, como é sua incumbência.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, preferiu ver o lado cândido do problema: como demonstração do aumento do consumo e da pujança da economia. A ministra do Turismo, Marta Suplicy, sugeriu que o desconforto e as longas esperas nos aeroportos sejam aproveitados com o desfrute possível nas circunstâncias.
A julgar pelas suas reações diante do caos dos controladores do tráfego aéreo, o presidente Lula vem tendo dificuldade até para entender a natureza do problema. Chegou a pedir que o então ministro do Trabalho, Luiz Marinho, encontrasse uma solução sindical-trabalhista para a crise desses profissionais, que são sargentos da Aeronáutica. O governo não tem uma política nacional de aviação civil.
O relativo barateamento das passagens, conjugado ao aumento de renda da população, vem puxando a demanda por transporte aéreo em torno de 20% ao ano. Isso significa que, em apenas dez anos, aumentará 520%. Esse não é fenômeno restrito ao Brasil e, assim, não poderia ser conseqüência da melhora dos fundamentos da economia, conforme alardeia Mantega. Mas tende a se acentuar por aqui.
A capacidade da infra-estrutura aeroportuária brasileira está esgotada. Alguns números da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) bastam para entender a extensão da calamidade. No relatório da CPI ficou registrado que, em 2005, o Aeroporto de Congonhas, com capacidade para 12 milhões de passageiros por ano, recebeu 17,1 milhões. Brasília, com capacidade de 7,4 milhões, recebeu 9,4 milhões. Vitória e Porto Seguro, embora menores, também estão assim.
A Anac entende que, se tudo continuar como está, o congestionamento alcançará 11 aeroportos em 2010; 23 em 2015; e 27 em 2025. O custo das providências necessárias para reverter a situação é de R$ 7,3 bilhões até 2010. Mas a Infraero dispõe de apenas R$ 3 bilhões.
O problema de Congonhas é ainda mais sério porque, além de ser o aeroporto de maior movimento no País, é a principal conexão (hub). Qualquer anomalia lá tem repercussão no País inteiro: é o avião que não decola e atrasa a chegada a seu destino; é a tripulação que fica retida em outro centro; são as conexões que não se realizam e tumultuam todo o movimento. (Amanhã tem mais.)
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