terça-feira, janeiro 20, 2015

Morte de procurador argentino exige investigação clara - Jornal O Globo

Morte de procurador argentino exige investigação clara - Jornal O Globo

Editorial o Globo

A Argentina iniciou a semana em estado de choque, após a morte suspeita do procurador argentino Natalio Alberto Nisman, de 51 anos, às vésperas de apresentar a uma comissão parlamentar o relatório de sua investigação sobre o atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (Amia) em 1994, que deixou 85 mortos e centenas de feridos — e que, 20 anos depois, permanece impune.

A tragédia ganha contornos de uma crise institucional, após as denúncias do procurador, que acusou a presidente Cristina Kirchner de participar de um plano para impedir a punição dos autores do ataque à Amia e acobertar a participação de terroristas iranianos no atentado.

Nisman foi encontrado morto no banheiro de seu apartamento em Puerto Madero, com um tiro na cabeça disparado por arma da baixo calibre. O local estava trancado por dentro e os promotores que investigam o caso não descartam qualquer hipótese, inclusive suicídio. As circunstâncias e o momento da morte, porém, dão margem a toda sorte de especulação e desconfiança.

O próprio "estilo" da gestão kirchnerista alimenta o clima de suspeita. Nos últimos anos, o governo de Cristina Kirchner, na sequência da gestão do marido Néstor, impôs um modelo hostil e, muitas vezes, truculento contra seus adversários políticos, a quem vê como inimigos. Nesse processo, cerceou a liberdade e o fluxo de informações no país, com ações na Justiça e de cunho político contra grupos de comunicação profissionais, visando a limitar a liberdade de imprensa e de expressão.

Além disso, a tragédia ocorre num momento em que o país atravessa uma séria crise econômica que extrapola a mera conjuntura adversa geral. Ela também é oriunda do estilo de gestão do governo, marcado, por exemplo, pelo embate com investidores internacionais, ainda consequência do calote de 2001; e pela adoção de políticas intervencionistas, em que nem mesmo os dados estatísticos mais básicos do país, como o índice de inflação, são confiáveis.

Com o histórico do estilo de governo kirchnerista é fácil perceber que a morte de Nisman, nas circunstâncias suspeitas em que ela se deu, traz o potencial de uma grave crise institucional. Pois o problema vai bem além da apuração de um possível crime político — o que por si só já é assunto da maior gravidade. O que está em jogo, no fundo, é a própria credibilidade republicana e a maturidade das instituições da Argentina.

Por isso, espera-se que as investigações sobre a morte do procurador sejam levadas às últimas consequências, como prometeu o secretário-geral da presidência, Aníbal Fernández. Isso significa realizar uma apuração clara, transparente e convincente, de preferência por autoridades independentes.



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