Entrevista:O Estado inteligente

sábado, junho 10, 2006

Roberto Pompeu de Toledo Bruno e Francielli

VEJA

Eles estavam no mesmo barco,
mas as origens são opostas e as
perspectivas de futuro, mais ainda

Num dia é Marcos Valério, no outro é Delúbio, no outro, Marcola...
Vão se sucedendo os nomes que abruptamente deixam os bastidores para
ocupar em cheio a cena nacional. Agora é Bruno Maranhão. Maranhão,
como todo mundo a esta altura sabe, é o chefe do MLST, que, como todo
mundo a esta altura sabe, é a dissidência do MST que invadiu o
Congresso com ímpetos de Átila, o Huno. Poucos saberão quem é
Francielli Denizia Asêncio. Mas, ao se darem conta de que é a moça
que atacou com fúria um par de terminais de computador durante a
alucinada jornada do MLST, muitos ligarão o nome à pessoa. Bruno
Maranhão, de 66 anos, é um veterano da militância política, inclusive
a militância baderneira. Francielli, de 21 anos, é uma caloura. Na
última terça-feira estavam no mesmo barco. Mas entre os dois há
grandes diferenças – para sorte de Maranhão e azar de Francielli.

Bruno Maranhão nasceu de família rica de Pernambuco, dona de usina de
cana-de-açúcar. Em vez de ir cuidar da usina, porém, desde cedo se
viu enfeitiçado pela política, ou, mais propriamente, por essa
entidade religiosa a que seus crentes dão o nome de "revolução". A
"revolução", como se sabe, é o momento em que o povo tomará o poder e
instalará o socialismo. A partir de então reinarão a justiça e a
igualdade no mundo, e o ser humano será reformado, de modo a dar
lugar a um homem novo. Os revolucionários se dizem ateus, mas é
preciso muita religiosidade para criar ateus como esses. Jogam com
conceitos como culpa (dos agentes do capitalismo) e redenção (que
proporcionarão ao mundo). Bruno Maranhão, despojando-se, como São
Francisco, da fortuna familiar, cumpriu uma trajetória de engajamento
que foi das Ligas Camponesas de Francisco Julião, no pré-1964, ao PT,
passando pelo exílio durante o regime militar.

Francielli nasceu pobre. Na verdade isso nem precisaria ser dito,
basta atentar para seu nome. Só pobre se chama Francielli, e ainda
por cima Denizia, e ainda por cima Asêncio. O primeiro nome é exótico
como é voga entre os pobres. Os outros dois parecem resultar de erros
de ortografia. Mas, assim como Maranhão, nascido rico, optou por
estilo de pobre, Francielli... Bem, Francielli, ao abaixar-se para
depredar os terminais, deixou entrever uma tatuagem nas costas, na
altura da cintura. Depois, ao virar-se de frente, revelou um piercing
na sobrancelha. Ela nasceu pobre, mas aspira ao estilo das meninas de
lares mais bem aquinhoados.

Bruno Maranhão galgou altos postos no PT. Foi presidente do partido
em Pernambuco e, até os acontecimentos de terça-feira, quando os
constrangidos correligionários foram forçados a destituí-lo, era
membro da Executiva Nacional. Ele encarna à perfeição a ambivalência
que volta e meia vem à tona entre militantes petistas. O partido está
no poder. Chegou lá dentro das regras do sistema. Ele é dirigente do
partido. Como tal, presume-se que deveria zelar pelo sistema. Em vez
disso, trabalha para destruí-lo.

Francielli encarna outro tipo de ambivalência. Faz só três meses que
deixou sua casa na zona urbana de Uberaba, onde morava com a mãe, e
integrou-se ao acampamento do MLST nos arredores da cidade. Tem uma
filha de 5 anos. Foi, portanto, como é comum no Brasil dos
desassistidos, uma mãe adolescente. Do MLST, segundo declarou à Folha
de S.Paulo, não esperava senão uma área para cultivar. O emprego na
cidade estava difícil. As aspirações são limitadas, mas, vista a
malhar os terminais, como que tomada pela sagrada chama da revolução,
parecia uma bolchevique a avançar contra os salões acintosos do
Palácio de Inverno.

Bruno Maranhão despojado como São Francisco? Engano. Ele mora num
prédio de um apartamento por andar em bairro rico do Recife. Já viveu
no exterior. Entre as pessoas de suas relações conta-se o próprio
presidente da República, que por duas vezes o recebeu no Palácio. Sua
autoconfiança e seu aprendizado nas artes da dissimulação permitiam-
lhe considerar-se, na semana passada, um "prisioneiro político". Suas
origens e sua história fazem prever que de uma forma ou de outra se
recuperará do mau momento. Tudo tende a acabar bem quando a vida
começa bem.

Já Francielli... "Não sei como explicar, foi uma coisa errada", disse
ela à Folha, sobre a agressão aos terminais. Baixou nela uma corrente
de fúria que veio de cima, dos chefes do movimento, e em última
instância do chefe supremo, Bruno Maranhão, nela que no fundo o que
quer é uma situação na vida que lhe permita portar sua tatuagem e seu
piercing como as meninas de melhor sorte. Saiu do Congresso algemada
e vai ser processada. A cena de que foi protagonista, vista por
milhões de brasileiros, fez dela o símbolo da maior selvageria dos
últimos tempos contra um prédio público no país. Não há final feliz à
vista para ela, e isso deveria ir para a conta de Bruno Maranhão –
mas, para ele, o que é uma Francielli? O que é uma Francielli diante
do objetivo supremo, a revolução que salvará o país, o continente, a
humanidade?

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