O GLOBO
Perdas e ganhos 1
As boas notícias que as pesquisas de opinião trazem para a sua candidatura à reeleição parecem estar subindo à cabeça do presidente Lula, e aí reside a melhor chance de o candidato tucano Geraldo Alckmin procurar uma reação, aparentemente impossível. Sentindo-se imbatível e "predestinado", o presidente Lula vem abusando do dom de iludir. Diz que permitiu o uso de imagens externas na campanha eleitoral para que a oposição mostrasse imagens da CPI, num desafio pueril e perigoso, classificado de cinismo pelo candidato Alckmin. Na verdade, quer é mostrar as inaugurações que vem fazendo a toque de caixa pelo país.
Já não se preocupa em camuflar as ações eleitoreiras, a ponto de receber no seu gabinete do Palácio do Planalto um líder político como Orestes Quércia — a quem já chamou de ladrão diversas vezes — para tratar de uma aliança política com o PMDB, atropelando ao mesmo tempo a legislação eleitoral e a ética na política.
Nada mais exemplar da cultura do cinismo e da esperteza que domina o momento do país do que a mentira que o lateral-direito da seleção brasileira Roberto Carlos contou aos jornalistas sobre o dia de folga da seleção. Em vez de terem ficado no hotel, "de bermuda e chinelos, conversando sobre futebol", ele e outros jogadores haviam ido a uma boate e lá foram fotografados.
Ao ser flagrado na mentira, Roberto Carlos não se desculpou, deu uma de "esperto", alegando, entre sorrisos, que não entendera a pergunta. O mesmo Roberto Carlos que, dias antes de viajar para a Europa, fora ao Palácio do Planalto, num gesto espontâneo de adesão oportunista, entregar ao presidente Lula uma camisa da seleção.
Hoje, estamos assim no país: se não aparece uma foto, ou uma testemunha, nunca se saberá a verdade, seja num caso banal como esse dos jogadores, seja nos casos envolvendo nossas "altas autoridades", que desfilam suas mentiras com a cara mais deslavada do mundo.
O momento decisivo desse processo parece ter sido o depoimento do publicitário Duda Mendonça admitindo, na CPI dos Correios, que recebera dinheiro do lobista Marcos Valério em uma conta num paraíso fiscal pela campanha eleitoral de Lula.
Houve choro e ranger de dentes nas hostes petistas, o próprio presidente Lula se viu constrangido a admitir que fora "traído", e desabou nas pesquisas eleitorais, num sinal claro de que, naquele momento, a população rejeitava maciçamente o tipo de política que estava sendo adotada pelo governo petista.
A oposição, arrogante, considerou que Lula e o PT estavam mortos, e resolveu que o melhor politicamente seria deixá-lo sangrando até as eleições, como um fantasma de si mesmo, imobilizado pelas denúncias e incapaz de se recuperar. Os caçadores dizem que o bicho mais traiçoeiro é o que parece estar morto. O caçador chega perto para verificar e pode ser atingido pelo derradeiro, mas fatal, bote.
Foi o que aconteceu com a oposição. Superado o momento traumático, a partir daí, com a versão de que tudo não passava de caixa dois que todo mundo utilizava no país, avalizada pelo próprio Lula, tudo foi sendo aceito como inevitável e corriqueiro.
Lula confraternizou diversas vezes publicamente com seus "traidores", chegou mesmo a dizer que ninguém deveria "baixar a cabeça", e passou a enfrentar as acusações com doses cada vez maiores de arrogância e dissimulação, se afastando formalmente do PT, mas mantendo o controle, que sempre foi seu.
A serem confirmadas as pesquisas qualitativas, que captam as razões que levam o eleitor a escolher seu candidato, o presidente Lula está se consolidando nos corações e mentes das classes C,D e E, que representam 85% da população brasileira, embora existam brechas por onde o candidato tucano Geraldo Alckmin pode tentar entrar.
A força da candidatura de Lula está num sentimento de "felicidade" disseminado nas classes sociais mais baixas e constatado em recente pesquisa da Ipsos Public Affairs em Londrina, Recife e São Paulo. Essa sensação de bem-estar supera, mas no entanto não elimina um sentimento de frustração com Lula. Mas, por não quererem sofrer mais decepções, esses eleitores preferem Lula a tentar mais uma vez. Especialmente se não há qualquer candidato que lhes transmita confiança suficiente.
O pobre está mais feliz porque "está comendo mais e melhor". Além disso, estão conseguindo comprar bens eletrônicos e móveis para o lar. Todos reconhecem os benefícios do crédito consignado, que dobrou de um ano para o outro, passando de R$ 17.535 milhões em 2004 para R$ 32.312 milhões no ano passado, e dos juros mais baixos, uma sensação de acesso ao consumo que atribuem ao governo Lula.
Mas existe também uma insegurança com relação ao futuro dos programas sociais assistencialistas — o que pode ser explorado por Lula — mas, sobretudo, com as perspectivas do país. Segundo a pesquisa da Ipsos, há um entendimento claro das camadas mais pobres da população de que somente com o crescimento da economia será possível manter a oferta de empregos necessária.
Parece estar ficando claro que a alta carga tributária impede a criação de mais empregos. Há ainda a percepção de que o governo Lula não deu atenção a setores importantes do dia-a-dia do cidadão, como a educação, a saúde e a segurança.
O economista Luiz Guilherme Schymura, do Ibre-FGV, analisando como a desigualdade está sendo combatida no país, com políticas de redistribuição baseadas na alta taxação e no aumento dos gastos públicos, lembra que os fatores negativos da redistribuição sobre o crescimento tendem a ser tão maiores quanto maior for a desigualdade. E que, sendo assim, a própria redução da desigualdade se tornou um importante entrave ao crescimento econômico do Brasil.
Continua amanhã
Entrevista:O Estado inteligente
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