O que beira as raias do chocante é que a sociedade brasileira tenha
aquiescido e aquietado-se. Que tenha aceitado mansamente escândalo
depois de escândalo
ESPECIAL PARA A FOLHA
O MAIS surpreendente destes doze meses em que começamos a chamar
parlamentares de "mensaleiros" não é que uma fatia aparentemente
expressiva de nossos deputados recebesse uma mesada para votar com o
governo. Nem que os deputados achassem que podiam se inocentar desse
crime através da confissão de outro (caixa dois). Nem que eles
efetivamente tenham sido inocentados. Nem que um deles tenha
conjurado para sua absolvição uma trama certamente demasiado
rocambolesca para ser aceita no mais mexicano dos folhetins: a esposa
foi ao banco pagar a conta da TV a cabo e saiu de lá com 50 mil
reais. Nem que o escárnio tenha chegado a tal ponto que uma
congressista tenha se sentido suficientemente à vontade no ambiente
prostibular que se tornou o belo prédio de Niemeyer para desfilar
seus desajeitados passes do funk da sem-vergonhice. Nem que recursos
de empresas estatais fossem uma fonte do numerário usado para
alimentar os mensaleiros, configurando um novo e tenebroso nível de
estelionato no país, em que os recursos do Estado são utilizados para
irrigar um partido a chegar e manter-se no poder, solapando a
isonomia que é a essência do regime democrático. Nem que o
marqueteiro do presidente tenha reconhecido, aos prantos, que recebeu
dinheiro no exterior -uma única vez!- para realizar a campanha
política de petistas. Nem que depois tenhamos descoberto que aquela
não havia sido a única. Nem que, do "núcleo duro" do governo, um
membro tenha sido cassado e indiciado por suspeitas de chefiar a
máfia, outro tenha sido forçado a pedir demissão e tenha também sido
indiciado por abiscoitar propinas em seus tempos de prefeito e o
terceiro tenha abandonado seu ministério por negócios escusos com um
familiar. Nem que um ministro da Fazenda tenha entrado em conluio com
o presidente do segundo maior banco público do país para violar o
direito à privacidade de um caseiro e divulgar seu sigilo bancário à
imprensa. Nem que o procurador-geral da República tenha oferecido
denúncia contra 40 das mais altas cabeças da República por formação
de quadrilha e tenha chamado o partido ora no poder de "sofisticada
organização criminosa". Nem que dinheiro público tenha aparecido numa
cueca em um detector de metais de um aeroporto. Nem mesmo que o nosso
presidente -aquele que nomeou e chefiou toda a gangue e que tem ao
seu dispor todo o aparato de informação e inteligência das forças de
investigação civis e militares- consiga se manter no cargo única e
exclusivamente por alegar desconhecimento de tudo e todos que estavam
à sua volta e que foi traído. (Em outros países, desconhecimento,
autismo e ingenuidade desqualificam a pessoa para o exercício da
Presidência. No Brasil, tornam-na favorita para a reeleição.)
Não. Tudo isso é grotesco, é revoltante, é pusilânime, é roto e
vergonhoso. Mas não chega a ser surpreendente porque, infelizmente, a
única coisa que nos surpreende em nossos homens públicos é a
correção, a ética, a honestidade.
O que é verdadeiramente surpreendente, o que beira as raias do
chocante é que, envolta e soterrada por essa avalanche de esterco,
enganada e vilipendiada por seus representantes eleitos e sabendo que
os contos da carochinha contados por eles em sua defesa não passavam
de empulhação da grossa, a sociedade brasileira tenha aquiescido e
aquietado-se. Que tenha aceitado mansamente escândalo depois de
escândalo. Que tenha relevado aquilo que povos sadios teriam visto
como acinte. Que num país de 180 milhões de almas penadas não tenha
havido um partido, um sindicato, um grêmio estudantil, uma ONG ou uma
roda de bocha sequer com a disposição de ir às ruas, de convocar uma
passeata, de jogar um mísero tomate ou dar um grito solitário contra
essa patifaria que nos confisca a nação.
Com o silêncio, tornamo-nos cúmplices. Por que essa inação? Será que
as duas décadas de miasma econômico nos deixaram suscetíveis a
acreditar que um crescimento econômico que só superou o haitiano é
realmente uma boa performance? Nos vendemos por tão pouco? Ou será
que a fadiga com o sistema político chegou ao ponto da total
indiferença? Será que depois de apostarmos na redemocratização, no
presidente-carateca, no presidente-sociólogo e no presidente-operário
e vermos nossas expectativas cada vez mais frustradas finalmente
abandonamos o barco? Não sei. O certo é que esses últimos doze meses,
esses sombrios e desalentadores doze meses marcam a nossa
desistência. Lavamos as mãos.
Daqui pra frente nossa democracia será como aqueles casamentos em que
os cônjuges mal disfarçam sua infidelidade. Permanecem casados por um
misto de conveniência e obrigação, mas ambos sabem que nenhuma das
partes pode ser confiada, nem tampouco que cabe qualquer indignação
frente aos abusos e omissões do outro. Os eleitos nos enganam e os
eleitores tentamos burlar leis, sonegar taxas e tratar a urna como
penico, e ficamos acertados que ninguém denunciará as impropriedades
do outro.
Estamos num grande e árido deserto, sem ninguém que possa nos
conduzir pelo mar vermelho-lama que cada vez ocupa mais espaços.
Talvez um dia nosso povo chegue à Terra Prometida, mas não será nesta
geração.
GUSTAVO IOSCHPE , 29, mestre em desenvolvimento econômico pela
Universidade Yale (Estados Unidos), é autor de "A Ignorância Custa um
Mundo - O Valor da Educação no Desenvolvimento do Brasil" (Editora
Francis, 2004) e "Vestibular Não é o Bicho" (Editora Artes e Ofícios,
1996). Foi colaborador da Folha nos cadernos Fovest (1996-1997) e
Folhateen (1997-2000).