Entrevista:O Estado inteligente

domingo, junho 20, 2010

MERVAL PEREIRA Efeitos colaterais


O GLOBO - 20/06/10

A aprovação da Lei da Ficha Limpa pode provocar uma reviravolta na eleição para governador do Rio de Janeiro, com o ex-governador Garotinho tendendo a não disputar mais a eleição, antecipando assim o segundo turno com o apoio à candidatura de Fernando Gabeira.

Esse apoio viria de maneira indireta, através da vereadora Clarisse Garotinho, uma liderança política jovem que tem bom trânsito em setores que os pais, Garotinho e Rosinha, não alcançam.

Condenado a uma inelegibilidade de três anos, a contar de 2008, pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Rio, por abuso de poder econômico, Garotinho tentava meios jurídicos para manter sua candidatura na convenção do PR no dia 27, até que um recurso seja julgado.

Com a aprovação da Lei da Ficha Limpa, ele terá mais uma frente de luta jurídica, o que o estaria desanimando.

A primeira alternativa que buscou foi montar uma chapa "evangélica", com o apresentador da TV Record Wagner Montes , do PDT, — que já apareceu como candidato bem cotado nas primeiras pesquisas de opinião —, o bispo Marcelo Crivela para o Senado e ele próprio para deputado federal, uma candidatura que não exigiria grandes esforços de sua parte e que poderia ser mantida por recursos judiciais.

Mas o PDT está fechado com a candidatura à reeleição do governador Sérgio Cabral, com o apoio da sua direção nacional, e as negociações não evoluíram.

Restou ao clã Garotinho, que ainda mantém o controle de Campos, onde Rosinha é a prefeita também às voltas com a condenação à inelegibilidade, a alternativa de lutar juridicamente para manter a candidatura ao governo do estado, mesmo correndo o risco de se frustrar no meio do processo, ou apoiar a candidatura oposicionista de Fernando Gabeira, da coligação PVPSDBPPS.

Com a vantagem para Gabeira de que esse apoio viria naturalmente, sem compromissos que comprometessem sua candidatura ao governo do estado.

Até o momento a disposição do ex-governador é sair da disputa e levar o apoio de seu grupo político a Gabeira.

De uma coisa ele não abre mão: disputar a liderança política do estado com o governador Sérgio Cabral.

Mesmo fazendo parte da base aliada do governo federal, Garotinho não estaria disposto a apoiar a reeleição do governador.

Seu engajamento forçado na campanha da oposição pode levá-lo também a apoiar para presidente um dos dois candidatos da coligação de Gabeira, Marina Silva, do PV, ou José Serra, do PSDB.

A eleição do Rio, por sinal, está ganhando uma importância maior na definição da candidatura à Presidência dos tucanos, cuja coordenação nacional, por isso mesmo, queria mais destaque para o número 45 do partido na propaganda eleitoral, especialmente na televisão.

A tentativa de última hora de alterar os termos da coligação, lançando um candidato ao Senado em lugar do PPS, gerou uma crise interna que quase a inviabilizou.

Diante da possibilidade de perder um palanque fundamental no Rio, ainda mais com a perspectiva inicial de a candidatura oficial de Dilma Rousseff ter dois palanques fortes, o de Sérgio Cabral, favorito para vencer no primeiro turno, e o de Garotinho, que aparece em segundo lugar nas pesquisas com cerca de 20% da preferência do eleitorado, com força sobretudo no interior, o PSDB desistiu de mudar a formatação do consórcio partidário.

O que se busca agora é uma maneira de manter o número da legenda nas apresentações de todos os candidatos da coligação.

A coligação oposicionista já tivera uma primeira desavença também por causa da candidatura ao Senado.

O Partido Verde não queria se coligar com o DEM para apoiar a candidatura do ex-prefeito Cesar Maia e lançou a vereadora Aspásia Camargo para o Senado.

Tribunal Superior Eleitoral, no entanto, entendeu que a coligação só poderia lançar dois candidatos na chapa, não havendo possibilidade de uma candidatura avulsa fora da coligação.

Todos esses desencontros pareciam superados ontem, quando se realizaria a convenção do PV para lançar Gabeira ao governo do estado com a presença dos candidatos Marina Silva e José Serra.

Mas há por baixo dos panos um sentimento de que a confiança entre os membros da coligação tem que ser recuperada.

O PPS sentiu-se traído com a tentativa do PSDB de tirar-lhe a candidatura ao Senado, com o agravante de que o candidato do PPS é o ex-deputado Marcelo Cerqueira, amigo dos tempos da UNE de Serra.

Também o DEM sente-se desconfortável com a rejeição do PV, uma disputa particular entre o vereador Alfredo Sirkis, que foi secretário de Cesar Maia em sua primeira encarnação como prefeito do Rio, e depois romperam.

Com tudo isso, porém, o deputado Fernando Gabeira considera que a depuração do quadro de candidaturas está revelando a verdadeira tradição política do Estado do Rio, que teria que ter um forte candidato ao governo de oposição.

Também para o Partido Verde a eleição do Rio tem especial importância, pois há sinais em diversas pesquisas de que a candidatura de Marina Silva à Presidência pode ter aqui um destaque e a impulsione no resto do país.

Apesar de o prestígio do presidente Lula ser grande no Rio, a oposição considera que um dos dois candidatos oposicionistas à Presidência tem condições de superar Dilma Rousseff, justamente pela tendência política rebelde do eleitorado do estado.

MÍRIAM LEITÃO A força da Copa


O GLOBO - 20/06/10

Quando a Jabulani começou a rolar na África do Sul, a Fifa já tinha faturado só com direitos de transmissão quase quatro vezes o que se faturou pela transmissão das Olimpíadas de Inverno. Se é imprevisível a trajetória da nova bola, é certo o fato de que nada mobiliza mais pessoas pelo mundo do que o futebol, movimentando a economia com números astronômicos

Uma comparação feita pelo FastCompany.com mostra que o Tour de France, famosa corrida de bicicletas, é transmitida por 118 canais em 186 países; a Copa do Mundo vai ao ar por 376 canais em 214 países. O futebol tem sete vezes mais audiência que uma final do Super Bowl. Tentam se classificar para uma Copa, times de 204 países, o mesmo que numa Olimpíada, só que a mobilização é em torno de um único esporte, nos Jogos Olímpicos são 28 esportes.

Insuperável, arrebatador, inclusivo, o futebol, que os brasileiros amam, derruba até as fronteiras do mais isolado dos países, a Coreia do Norte. E se seus jogadores entram no campo marchando, quase com o passo de ganso dos seus milhões de soldados, eles são capazes até de fazer gol no mais temido dos adversários, o Brasil, o único pentacampeão.

As novas supercâmeras captam movimentos de beleza extrema no quase bailado de certas jogadas. A imigração para a Europa se vê nas cores misturadas de times antes tão monocromáticos.

O inesperado se constata em derrotas como a que teve, diante do México, a França, os poderosos Les Bleus dos quais guardamos certas mágoas; ou a vitória da economicamente destroçada Grécia sobre a Nigéria.

Mesmo assim, permanece misterioso o motivo do magnetismo do esporte que começa a vencer a barreira até do mais resistente dos países, os Estados Unidos, onde a imprensa já se pergunta por que eles chamam o esporte de soccer.

Pois é. Não faz mesmo sentido algum contrariar o mundo inteiro, mesmo sendo a maior economia.

E por falar em economia, que é o tema natural desse espaço, a Copa do Mundo de 2010 chega num momento em que o continente africano começou a derrubar mitos. A "Economist" admite seu erro. Há 10 anos escreveu "África, o continente sem esperança". Agora constata que de 2000 a 2008, a África cresceu em média 4,9% ao ano, o dobro da década anterior e mais que a média do resto do mundo, 3,8%. O Investimento Estrangeiro Direto saiu de magros US$ 10 bilhões ao ano para US$ 88 bilhões, mais que a Índia, quase os US$ 108 bi da China. As receitas das 500 maiores empresas no continente cresceram 8,3% ao ano desde 1998, segundo The Boston Consulting Group.

A China explorando os imensos recursos naturais da África é uma das razões, mas o Brasil também tem surfado na mesma onda, a ponto de a Odebrecht hoje ser um poder para além das suas especialidades em países como Angola e Moçambique. No esforço para se organizar, o governo moçambicano tem atribuído à empresa brasileira cada vez mais tarefas. Petrobras, Vale também crescem no continente.

Sediar uma Copa do Mundo traz um crescimento de 0,3% ao ano para o país, segundo medição da experiente Alemanha. O economista Cláudio Felisoni, da USP, especialista em mercado de consumo, disse que o impulso às compras que uma copa produz atinge as economias em geral.

O consumidor vai ao mercado pela TV nova — cujas vendas este ano crescem 20% — e aproveita para adquirir outras necessidades.

Sem falar na cerveja para acompanhar os inquietantes momentos como os que teremos hoje contra a Costa do Marfim.

Os economistas se esforçam para entrar na conversa dominante inventando medições duvidosas. Uma delas é do ABNAmro que inventou uma tese que, a começar, tem o equivocado nome de Soccernomics. O estudo deles sustenta que país que ganha a Copa tem um impulso econômico de 0,7% do PIB. O otimismo pode elevar o consumo, mas olhando para a nossa história, a gente constata que em 1958 o Brasil crescia pela força do desenvolvimentismo juscelinista; em 1962, já foi um ano mais estranho, de crise política. Em 1970, era o começo do milagre econômico. Em 1994, era o Plano Real. Em 2002, o país estava num difícil ano de incerteza econômica e assim ficou mesmo depois dos fogos da comemoração. Na inesquecível derrota de 1982, o que bateu a economia não foi a temida Azzura, mas sim a economia do México, que quebrou arrastando o Brasil e a América Latina para a década em que perdemos mais do que aquele jogo doloroso. Se na década perdida conquistamos a democracia, daquele 3 a 2 ficou apenas a dor incurável de quem tinha uma seleção brilhante e precisava apenas do empate.

As alegrias também são inesquecíveis, mas essa coluna tentou falar de economia e se não conseguiu inteiramente foi pelo magnetismo do futebol. O que nos espera em 2014 é ser a sede da Copa. O economista Francisco Baroni, do núcleo de esportes da FGV, lembra que essa vantagem econômica de investir, superar gargalos logísticos e colher os dividendos econômicos de sediar o evento esportivo pode ser perdida.

É, tudo se perde se não tivermos estratégia, esquema tático e se o time não correr em campo. O gol da Coreia do Norte na nossa rede, a exclusão do Morumbi de 2014 ensinam que é preciso aproveitar melhor a oportunidade de cada momento.

Na preparação de 2014, não valem treinos secretos.

O país tem que se preparar de forma transparente e urgente para ganhar na economia a chance aberta pela vantagem de sediar o Mundial do mais amado e global dos esportes. E hoje? Hoje é só torcer por nós.

Diplomacia brasileira, novas variações críticas CELSO LAFER

 
O Estado de S.Paulo - 20/06/10

A política externa do governo Lula tem sido objeto de crescentes críticas. São muitos os rumos que vêm sendo questionados. No plano mais geral, aponta-se que o Itamaraty não tem escolhido os campos de atuação que oferecem ao nosso país, que alcançou um novo patamar internacional em função das transformações internas iniciadas com a redemocratização, as melhores oportunidades para se beneficiar da nova multipolaridade do cenário mundial.

É o caso da prioridade dada à busca de um reconhecimento protagônico na esfera da alta política da paz e da guerra no Oriente Médio (Irã), em detrimento da ênfase em resultados mais significativos em áreas mais próximas da influência real do Brasil. As tensões do contexto da nossa vizinhança (a animosidade Colômbia-Venezuela) e as que afetam nossas fronteiras e a vida nacional (trânsito de drogas da Bolívia) são minimizadas no dia a dia da condução diplomática. Interesses específicos do País e os seus interesses gerais, na boa dinâmica de funcionamento da ordem mundial, em síntese, não vêm sendo articulados de maneira eficiente em razão da obsessiva prevalência atribuída à paixão pelo prestígio.

Em contraste com as paixões, interesses são aspirações que levam em conta uma raciocinada avaliação do como efetivá-las. O como é fundamental, pois a realidade oferece resistência a aspirações que são apenas desejos. Daí a importância do bom juízo diplomático, que conjuga, com criatividade, o que se quer com o que se pode. É precisamente um exemplificativo rol de inadequados juízos diplomáticos do governo Lula o que listo a seguir.

As difíceis negociações na OMC não foram acompanhadas por concomitante interesse em buscar acordos comerciais regionais ou bilaterais propiciadores de acesso a mercados para os produtos brasileiros que carecem de preferências no continente e no mundo. A diluição crescente do significado econômico e político do projeto Mercosul não só está sendo passivamente aceita, mas viu-se agravada pelo empenho governamental em incorporar a Venezuela de Hugo Chávez, cuja visão de integração é apenas a de juntar forças para se opor aos EUA.

Sólidas iniciativas do governo FHC, como a Irsa, direcionadas para projetos de integração de infraestrutura regional sul-americana, ficam na penumbra e destaque é dado à criação de inócuos foros novos, como a União Sul Americana de Nações (Unasul). O Tratado de Cooperação da Amazônia, que reúne todos os países da Bacia Amazônica e poderia impulsionar a cooperação regional voltada para a preservação sustentável do bioma amazônico e, assim, contribuir para o encaminhamento de um dos grandes itens da agenda ambiental, dorme nos escaninhos do Itamaraty.

O benevolente endosso à violência e à fraude do processo eleitoral no Irã contrapõe-se à "birra" (na terminologia do presidente) na intransigente defesa de Zelaya, dificultando o equacionamento da questão democrática em Honduras. É patente a incoerência com que se invoca o princípio da não-intervenção para favorecer a omissão quanto aos riscos para a democracia e os direitos humanos provenientes da atuação do presidente Chávez na Venezuela e o seu ostensivo desrespeito para benefício eleitoral do presidente Evo Morales na Bolívia.

É lamentável a insensibilidade em relação a valores com que a repressão do governo cubano a dissidentes em greve de fome foi desqualificada pelo presidente como uma ação de criminosos comuns. É um desrespeito ao princípio constitucional da prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais do Brasil a omissão perante o genocídio em Darfur.

É altamente discutível se o princípio constitucional da eficiência da administração pública se vê atendido seja pela indiscriminada abertura de novas embaixadas e de consulados-gerais (mais de 40), seja pela exagerada ampliação das vagas de ingresso na carreira, que compromete o padrão de qualidade da formação profissional dos quadros diplomáticos.

O princípio constitucional da impessoalidade da administração pública é continuamente posto em questão pela sofreguidão com que os responsáveis pela diplomacia brasileira se dedicam a glorificar o impacto da presença do chefe de Estado no cenário mundial. Essa celebração do prestígio do presidente aponta para um personalismo populista que impede a construção de um consenso mínimo em torno da política externa como uma política pública de interesse nacional.

A partidarização da política externa, com seu viés ideológico, tem sido um caminho para obscurecer e colocar em segundo plano a sua dimensão de política de Estado que, levando em conta os fatores da persistência da inserção internacional do Brasil, contribui para assegurar a previsibilidade e a confiabilidade externa do País. Observo que para a contundência crítica à política externa do atual governo muito tem cooperado a postura partidária dos seus responsáveis, que, sem base histórica, configuram a presidência Lula como o marco zero da diplomacia brasileira. Quem semeia os ventos da desqualificação colhe as tempestades do dissenso.

Em síntese, o que os críticos da política externa do governo Lula apontam é que a diplomacia brasileira está optando pelo inefável do prestígio em detrimento da realidade dos resultados. Por isso não vem traduzindo apropriadamente necessidades internas em possibilidades externas; não identifica corretamente as prioridades nacionais a serem defendidas no plano internacional; não escolhe com discernimento nem os campos de atuação nos quais o Brasil pode colher os melhores frutos para a efetiva defesa dos seus reais interesses nem os parceiros mais compatíveis com o progresso democrático interno; desconsidera valores e, deste modo, descapitaliza o legado do soft power do nosso país.

É a expressão intransitiva da "glória de mandar", "desta vaidade a quem chamamos Fama", para concluir com Camões.

EDITORIAL - O ESTADO DE SÃO PAULO Franqueza durou um dia


O Estado de S.Paulo - 20/06/10

Conversa franca e autocrítica não são para o governo Lula. O primeiro e único balanço honesto oferecido ao público num site oficial saiu rapidamente do ar. Segundo o balanço, a educação continua tão ruim quanto em 2003, a reforma agrária não funcionou, falta coordenação aos programas de infraestrutura e a política industrial só tem beneficiado alguns setores, em vez de favorecer o aumento geral da competitividade. Todos esses problemas são bem conhecidos e todo dia são citados na imprensa. Mas nunca haviam sido reconhecidos com tanta sinceridade por qualquer órgão do Executivo, até ser lançado o novo Portal do Planejamento. O portal foi apresentado pelo ministro Paulo Bernardo, na quarta-feira, como contribuição às políticas do governo e uma forma de difundir o conhecimento de seus programas. Ficou no ar até quinta-feira e na sexta de manhã já se havia tornado inacessível. Até cerca de meio-dia, quem tentava o acesso encontrava um aviso: "Em manutenção." Depois, nem isso.

Técnicos do Ministério do Planejamento levaram um ano e meio para montar o portal, com 53 temas apresentados e discutidos em cerca de 3 mil páginas. A cerimônia de lançamento foi gravada e difundida pelo YouTube e a novidade foi alardeada por vários canais do governo.

Segundo o ministro do Planejamento, vários de seus colegas telefonaram para reclamar, dizendo não terem sido procurados para discutir as informações. O ministro da Educação, Fernando Haddad, alegou haver dados incorretos no material divulgado. Segundo Paulo Bernardo, não teria sentido ele ficar numa posição de quem tenta detonar o trabalho do governo. Diante das críticas e reclamações, ele achou melhor, segundo contou numa entrevista à Rádio CBN, suspender o funcionamento do portal para uma revisão. Uma reunião, acrescentou, foi marcada para segunda-feira com o pessoal de seu Ministério para discussão do assunto.

Na mesma entrevista, comentou a reportagem publicada na sexta-feira no jornal Valor e reclamou do destaque atribuído às análises críticas, quando havia um material muito mais amplo, de 3 mil páginas. Mas a reportagem menciona também as avaliações positivas e as sugestões para aperfeiçoamento de programas como o Bolsa-Família e o de valorização do salário mínimo.

A parte crítica é obviamente a mais interessante, porque indica a existência, na administração federal, de técnicos capazes de avaliar com independência e objetividade a formulação e a execução de planos e programas. Além do mais, as críticas mais importantes não chegam a ser novas. O ministro da Educação talvez possa reclamar de um ou outro detalhe, mas não pode negar, por exemplo, a existência de um enorme número de analfabetos funcionais, cerca de um quinto da população com idade igual ou superior a 15 anos, nem a baixa qualidade do ensino fundamental. Também não é novidade a avaliação crítica dos planos de produção de biodiesel, apontada como economicamente inviável. As tentativas conhecidas no Brasil têm confirmado essa conclusão. Da mesma forma, qualquer pessoa informada é capaz de apontar o fracasso da chamada política agrária, marcada por muito barulho e violação de direitos e quase nenhum resultado positivo em termos de produção e produtividade dos assentados.

As avaliações da política industrial, dos programas de infraestrutura, da burocracia e da persistência de um sistema tributário de baixa qualidade apenas confirmam as análises de especialistas da academia, do setor privado e até de algumas áreas oficiais.

O portal pode ter sido uma surpresa incômoda para alguns ministros e também para os envolvidos na campanha da candidata oficial, a ex-ministra Dilma Rousseff. A análise mostra a pobreza de realizações em áreas importantes e confirma as falhas de coordenação dos investimentos - uma tarefa jamais cumprida pela ex-ministra da Casa Civil. À tarde, uma nota da Secretaria de Planejamento e Investimento Estratégico (SPI), criadora do portal, foi incluída no site do Ministério. Segundo a longa nota, as 3 mil páginas continham muitas avaliações positivas da ação do governo e a intenção não foi produzir um balanço crítico. Foi a autocrítica da autocrítica.

JOÃO UBALDO RIBEIRO COBERTURA MODERNA


O Estado de S.Paulo - 20/06/10
Esse que entrou agora aí é o Güterwagen, que joga no Strappaziert de Colônia, não é isso mesmo?
- Isso mesmo, é a sexta participação dele num jogo dessa seleção alemã. A primeira foi num amistoso em Munique, em 15 de maio de 2008, quando ele entrou em campo para substituir Trockenbagger, que saiu contundido exatamente aos 23 minutos do segundo tempo. E a anterior a esta foi na última partida das eliminatórias, quando ele ficou no banco. Foi a 19ª vez em que ele ficou no banco e, curiosamente, sempre sentado do lado direito do técnico, exatamente como está agora.
-Perfeito. Mas parece que ele não está sozinho nessa mania, não tem um outro jogador que faz a mesma coisa?
- Você está lembrando o zagueirão Plusqueparfait, dos Camarões.
- Isso mesmo, o Plusqueparfait, o popularíssimo Pupu! Eu conheço muito os pais do Pupu, estive lá com eles, em minha última visita à aprazível Yaoundé, capital da República dos Camarões. O Plusqueparfait naturalmente mora na França, onde joga no Bêtise de Toulouse, mas seus pais, d. Muana e s. Buano, ainda moram lá em Yaoundé, naquela vida simples a que estão acostumados. Não creio que eles estejam me assistindo agora, mas, de qualquer forma, quero enviar um abraço especial para d. Muana, carinhosamente chamada de Muanette pelos seus familiares. Um beijo para a d. Muanette aqui de nossa equipe, o esporte é assim mesmo, o futebol é assim mesmo, aproxima as pessoas e os povos. Epa! Enquanto eu estava distraído aqui, o Wagenspinner irrompeu pela grande área adentro e mandou uma bomba que o goleirão espalmou de susto! Eu acho que essa ele espalmou de susto, não foi, não?
- É o que parece. Essa bola saiu a 126 quilômetros por hora, quer dizer, um pontapezinho respeitável.
- É verdade, essa foi apenas a terceira bola de mais de 125 quilômetros disparada do lado esquerdo da grande área, no primeiro tempo de um jogo entre seleções de continentes diferentes, este ano!
- Também com aquele pezão, o Wagenspinner... Olha só o tamanho, o pé dele parece uma prancha de surfe.
- É o maior número de chuteira da Copa, 48, bico largo, e assim mesmo feita sob medida para ele. O Wagenspinner superou o Schlepper, também da seleção alemã, que até a Copa passada era o recordista, calçando 47. Hoje o recorde do Schlepper já foi igualado por Nicomakowsky, da Rússia, e Zambetovic, da Sérvia. E o recorde absoluto do chuteirão agora é indiscutivelmente do Wagenspinner.
- Que não gostou, porque o árbitro já havia invalidado o lance anterior ao chute dele, marcando impedimento do seu companheiro Wildeber. Para mim, não estava, eu acho que o Sakonakara dava condição ao Wildeber, bem ali do lado direito. Vamos rever aqui.
- Marcação perfeita. No instante do lançamento, o Wildeber estava quatro centímetros à frente do Sakonakara, em clara posição de impedimento. Acertou o árbitro, mais uma vez.
- É, realmente, quatro centímetros, dá pra ver aqui sem a menor sombra de dúvida. A arbitragem tem tido um padrão muito bom, nesta Copa, não tem?
- De modo geral, sim. Nesse caso mesmo, trata-se de um trio grego de muita tarimba. Os auxiliares, Oipopoulos Saidopoulos e Papapoulos Catapoulos, estão em sua primeira Copa, mas são muito experientes, cada um com mais de 15 anos na liga grega. E o árbitro principal, Seforpênaltis Eudoulos, está em sua segunda copa. Esse é um árbitro com grande história pessoal, neto do lendário Mandoulous Prochuveirous, que fez escola em toda a Europa balcânica, apitando pela liga macedônia. Seu neto pode não ser igual a ele, até porque são outros tempos, mas é um árbitro muito bom. E tem um senso de colocação também muito bom, você vê que ele está presente em todos os lances, mas não corre muito, desloca-se sempre na medida do necessário. Veja aqui, só correu até agora um total de 0,9 quilômetros, o que é muito pouco, quando se sabe que, nesta Copa, a média de distância percorrida pelos árbitros está bem acima de dois quilômetros e acho que quem cravou três quilômetros no bolão das distâncias percorridas pelos árbitros vai se dar bem, apesar da contenção aqui do sr. Eudoulos.
- É verdade, eu também tenho essa opinião. E quanto ao futebol que está sendo jogado no momento? Por enquanto, a posse de bola está bem equilibrada, com 51 por cento para os alemães e 49 por cento para os japoneses. Um instante, mudou agora! Ah, sim, a última verificação dá 52 por cento para os alemães e 48 por cento para os japoneses, alterou-se o panorama!
- É, pode ser até empolgante, mas não creio que venha a se refletir no resultado da partida. Eu acho que o problema enfrentado pelas duas equipes, talvez um pouco mais pela japonesa, é uma questão de atitude.
- Que é isso, cara, a questão da atitude era na Copa passada, nesta é a qualidade.
- Tem razão, distração minha. Qualidade, claro. É óbvio que a seleção da Alemanha, até pela sua tradição futebolística, tem mais qualidade do que a japonesa. Mas...
- Termina o primeiro tempo! Não vá embora, porque no intervalo teremos a execução do Concerto Número Um para Vuvuzela e Orquestra, com o famoso solista Tispandongo Uzuvido, a Copa é uma festa! 

Si la oposición no se une, Kirchner ganará Por Mariano Grondona 20 de junio de 2010

Segun Pitágoras, los números son los protagonistas del Universo. Su tesis convirtió a las matemáticas en la ciencia fundamental. En la Edad Moderna, las matemáticas revolucionaron la física y la astronomía y en la Edad Contemporánea alcanzaron también a otras disciplinas supuestamente más distantes como la economía y la política, creando nuevas áreas del saber como la econometría y la politicometría. La ventaja que tiene la economía sobre la política es que, aun cuando se equivocan, los economistas siempre son "exactos"; si dicen por ejemplo que el crecimiento del producto bruto será de un 5 por ciento y éste resulta al fin de sólo un 2,5 por ciento, pueden alegar que su error fue apenas una cuestión de "grado". Desde el momento en que sus pronósticos son más vagos porque atinan solamente a marcar un "rumbo", a decir por ejemplo que un político "probablemente" ganará las elecciones, la política es menos contundente. Por eso es que, cuando formulan sus pronósticos, los analistas políticos son especialmente cautos.

Teniendo en cuenta esta advertencia, podríamos internarnos en el escabroso terreno de la politicometríadiciendo que, a la luz de lo que sabemos hasta ahora, el universo electoral argentino podría dividirse en tres porciones equivalentes de un 30 por ciento para el kirchnerismo, otro 30 por ciento para el radicalismo y sus aliados, y un 30 por ciento para el peronismo federal, quedando el 10 por ciento restante para el sector ni peronista ni radical que lidera Pino Solanas. A partir de esta cuenta básica, ¿cómo se insinúa entre nosotros la lucha por el poder?

La unión hace la fuerza

En las elecciones del 28 de junio de 2009, hace casi un año, Kirchner quedó en franca minoría frente a sus opositores en una proporción de 30 a 70. Si esta proporción se repitiera el año que viene, ¿Kirchner sería vencido? Este cálculo es todavía provisional porque, para ser confirmado, debería partir de un supuesto que aún no es seguro: que el arco no kirchnerista, al fin, se una. Si la reunión de los opositores se concretara, dividiéndose en consecuencia sólo por uno, la derrota del hombre fuerte de la Argentina quedaría sellada. ¿Qué pasaría, en cambio, si la oposición se dividiera por dos, por tres o por cuatro? Que, en algún punto de esta dispersión, el kirchnerismo podría ganar. Es que si dividiéramos los 70 puntos eventuales de la oposición por cuatro, a cada uno de los futuros rivales del Gobierno le correspondería en promedio alrededor del 18 por ciento. En estas condiciones, la aspiración de Kirchner de retener el poder en 2011 tendría un sólido fundamento. Si la división fuera por tres en vez de cuatro, el promedio de cada opositor ascendería al 23 por ciento, y si la oposición se dividiera finalmente por dos, con un promedio del 35 por ciento el no kirchnerismo podría vencer al kirchnerismo. La pregunta que queda pendiente es, por ello, la siguiente: ¿en cuántas candidaturas presidenciales se dividirá la oposición? Cuanto más se divida, menos probabilidades tendrá de ganar.

Habida cuenta de que esta pregunta tendrá su respuesta definitiva sólo en octubre de 2011, alguien podría afirmar que todavía falta mucho para responder a ella. Pero, si bien falta un año y cuatro meses para esa " hora de la verdad", también ha de consignarse que la campaña electoral de 2011, al menos del lado kirchnerista, ha empezado ya.

Por eso es que los cálculos sobre el destino final de la lucha por el poder que decidirá la suerte de los argentinos se han vuelto urgentes . De ahí que varios referentes de la oposición estén apurando a sus socios potenciales hacia esta decisiva pulseada y anden diciendo, no sin razón, que la oposición debería configurar su estrategia cuanto antes, quizá no bien termine el "veranito" del fúbol que estamos disfrutando.

Su majestad el miedo

Después de los estudios pioneros de Thomas Hobbes, sabemos que el miedo es uno de los grandes motivadores de la conducta humana. ¿A qué le tiene miedo, por lo pronto, Kirchner? A no alcanzar ese 40 por ciento en la primera vuelta electoral que, de no llegar ningún candidato opositor al 30 por ciento, le daría la victoria. Esta es su única esperanza, ya que en la segunda vuelta, concentrándose necesariamente todos los votos opositores en un solo candidato, la derrota del kirchnerismo sería inevitable. Para llegar al número dorado del 40 por ciento, el kirchnerismo está derrochando cuantiosos recursos fiscales en la tarea de captar votos. Esta intensa campaña podría sumarle sufragios. De esta suma, empero, ¿no habría que descontar todavía la irritación que genera en todas las capas sociales el estilo autoritario de los esposos Kirchner? La pugna entre los nuevos votos kirchneristas que podrían resultar de la "compra" de sufragios tanto en el conurbano como en el norte del país y los viejos votos que aún podría perder el matrimonio del poder por su agresividad comunicacional genera agudas tensiones en el interior del Gobierno, la última de las cuales ha sido la súbita renuncia del canciller Taiana.

A esta ecuación aún no resuelta entre los votos que gane y los votos que pierda el oficialismo en su lucha por lograr su tercera elección consecutiva habría que oponerle la otra ecuación tampoco resuelta que surja de la división en uno, dos o tres de la oposición. En su seno ya han sonado en todo caso las primeras señales de alarma cuyo efecto ha sido "simplificarla" en busca de una menor cantidad de candidatos. Al "bajarse" de su pretensión presidencial para concentrarse en la provincia de Buenos Aires, Francisco de Narváez ha servido a este propósito. También lo ha hecho Ricardo Alfonsín no sólo al vencer a Julio Cobos en la interna radical sino también al anunciar una intención frentista que podría acercarlo a la Coalición Cívica de Elisa Carrió y al socialismo de Hermes Binner. Si el peronismo federal confirma la "foto" convergente que logró al reunir a sus principales referentes, también contribuiría a la simplificación opositora.

Si peronistas federales y "panradicales" sumaran sus huestes alrededor de sus propias candidaturas, la oposición podría reducir sus alternativas sólo a dos. ¿A dos o a tres? La pregunta es válida porque en el espacio no kirchnerista quedaría por dilucidar un enigma que aún lo asedia: la candidatura presidencial de Mauricio Macri. Si lo "ponen" cerca del peronismo federal, todavía la oposición podría dividirse en dos. Si Macri quedase aislado, en cambio, la división opositora ya no sería por dos sino por tres, y ya sabemos que, en la medida en que Kirchner contara con una mayor división de los opositores, sus posibilidades aumentarían.

Una pregunta central se cierne entonces ante nosotros: ¿qué hará el peronismo federal en relación con Macri? ¿Querrá sumarlo? ¿Lo aceptará el propio Macri? ¿Es concebible un acuerdo mediante el cual macristas y peronistas federales redujeran sus dos candidaturas a una sola? ¿Y cuál sería el camino hacia esta simplificación quizá decisiva? ¿Elecciones internas? ¿El vuelo de las encuestas? ¿Una crucial negociación? ¿Es posible que Macri, Solá y De Narváez restauren aún el espíritu de unidad que desplegaron en vísperas del 28 de junio?

El miedo de perder es el poderoso impulso que gravita tanto en las filas del kirchnerismo como en las filas del no kirchnerismo. Ante la mirada expectante del pueblo, son los propios dirigentes de uno y otro bando quienes tienen en sus manos el destino de esta Argentina cruzada por la colisión entre dos proyectos antagónicos de poder, uno hegemónico y el otro republicano.

sábado, junho 19, 2010

Senhor polêmica


O escritor e Nobel português José Saramago morre aos 87,
em sua casa nas Ilhas Canárias

Alessandro Albert/Contours by Getty Images
ESTILO E EQUÍVOCO
José Saramago: provocações à Igreja e amizade com Cuba


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Único prêmio Nobel de Literatura da língua portuguesa, José Saramago morreu em Lanzarote, nas Ilhas Canárias, na sexta-feira 18, aos 87 anos. Foi cronista, poeta, contista, dramaturgo, jornalista – mas consagrou-se no romance, gênero que exerceu com fôlego enciclopédico. Seus temas incluíram a revisão histórica(Memorial do Convento, História do Cerco de Lisboa), tributos a personalidades literárias (O Ano da Morte de Ricardo Reis) e alegorias críticas da condição moderna (Ensaio sobre a Cegueira). A carreira do escritor português foi marcada pela polêmica, sobretudo com a Igreja – ateu e comunista militante, ele fez provocações com a religião em O Evangelho segundo Jesus Cristo e em Caim, seu último livro.

Nascido na aldeia de Azinhaga, em 1922, Saramago teve uma infância pobre e nunca frequentou uma universidade. Estreou com o romance Terra do Pecado, em 1947, mas depois passou quase vinte anos sem publicar. Sua consagração, tardia, deu-se sobretudo a partir de Levantado do Chão, de 1980. Agraciado com o Nobel em 1998, Saramago é dos poucos autores contemporâneos em língua portuguesa que conseguiram cristalizar um estilo particular e inconfundível. Ao lado da criação literária, manteve-se sempre ativo, e equivocado, na política. Embora tenha feito críticas insignificantes a execuções de opositores em Cuba, declarava-se um "amigo" da ditadura dos irmãos Castro. Saramago morreu tranquilamente, em sua casa, na Espanha, vítima de complicações pulmonares. Nos países cujos regimes ele defendia, nenhum escritor que ousou discordar teve o luxo de uma morte tranquila.

O criador dos prédios espetaculares


Ninguém passa incólume pelos edifícios do espanhol
Santiago Calatrava. Sua mais recente criação é um
museu no Rio de Janeiro


Marcelo Bortoloti e Silvia Rogar

Fotos Massimo Borchi/Corbis/Latin Stock e David Brabyn/Latin Stock
O arquiteto e sua obra
Calatrava (à dir.) e o complexo cultural que ergueu em Valência, sua cidade natal:
transformação da paisagem

Expoente da chamada arquitetura-espetáculo com seus prédios de vidro e aço que lembram verdadeiras esculturas gigantes, o espanhol Santiago Calatrava, 58 anos, isolou-se dois meses atrás num chalé encravado nos Alpes suíços para debruçar-se sobre seu mais novo e ambicioso projeto: o edifício que, em 2012, abrigará um museu dedicado à ciência e à tecnologia, no Rio de Janeiro. Depois de duas visitas à cidade, mais de 200 desenhos e um disciplinado estudo sobre o movimento das plantas, Calatrava chegou à forma estilizada de um caule recoberto por painéis de aço, que se abrem e fecham como pétalas. Pode-se dizer que o prédio – cujo projeto será apresentado pelo próprio arquiteto na próxima segunda-feira, no Rio (veja foto abaixo) – é uma boa síntese de sua obra. Ali, veem-se as grandes dimensões típicas de seus edifícios, os traços inspirados na natureza e a estrutura em movimento, um efeito produzido com base em cálculos milimétricos conduzidos pelo próprio Calatrava. No museu carioca, caberá a um sistema hidráulico, controlado por um sofisticado programa de computador, fazer com que tais placas se movimentem de modo que permaneçam mais tempo na direção do sol e em 90 graus. A ideia é que, assim, elas absorvam a maior quantidade possível de energia para mover a engrenagem. Também engenheiro de formação, Calatrava resume a VEJA: "Para mim, é justamente o rigor da engenharia que alça a arquitetura a um patamar mais elevado".

Os edifícios que levam a assinatura do arquiteto espanhol têm em comum o fato de jamais se integrarem harmonicamente à paisagem – ao contrário, eles sempre chocam. Sua obra está espalhada pela Europa, Estados Unidos, Canadá e Argentina, onde Calatrava ergueu uma das mais engenhosas de suas quarenta pontes. Debruçada sobre o Rio da Prata, em Buenos Aires, a estrutura foi projetada para girar em torno de um único eixo fincado sob as águas, de maneira a abrir passagem para navios de grande porte. Entre seus mais ousados trabalhos, figura o Museu de Arte de Milwaukee, nos Estados Unidos, que atrai atenção pelos tubos de aço formando a silhueta de um pássaro cujas asas atingem 66 metros de comprimento. Num discreto movimento, elas se posicionam ora para cima, ora para baixo. O mais impressionante conjunto de autoria de Calatrava, no entanto, fica em Valência, sua cidade natal. Ali, ele ergueu um planetário em formato de olho humano adornado com gigantescas pálpebras de aço em constante abre e fecha e ainda uma ópera que lembra a cabeça de uma serpente (nem todo mundo gosta, mas não há como não parar para ver). Diz-se na Espanha que Calatrava representa para Valência o mesmo que o catalão Antonio Gaudí significou para Barcelona, no princípio do século XX. Diz Paulo Fonseca, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo: "Ambos deixaram marcas que hoje são indissociáveis dessas cidades".

Obcecado pela arquitetura – a ponto de um de seus quatro filhos, Gabriel, um engenheiro de 27 anos com quem ele trabalha, dizer que "meu pai não tem outro hobby na vida" –, Calatrava é dono de um processo criativo singular. A começar pelo fato de seu ponto de partida não serem apenas desenhos, mas também aquarelas, que ele produz às centenas com verdadeira ambição artística, até chegar à forma final. Para se ter uma ideia, a cada projeto Calatrava chega a publicar um novo livro com seus esboços. Outra de suas particularidades diz respeito a um apreço fora do comum por maquetes – tanto que ele mantém uma fábrica na Suíça, onde um grupo de engenheiros especializados desenvolve modelos de até 2 metros de altura que simulam em miniatura todas as engrenagens concebidas para os edifícios. Ao referir-se ao próprio processo de criação, Calatrava gosta de citar o escultor francês Auguste Rodin (1840-1917): "Inspiração é algo que não existe". Vaidoso, ele guarda seus 100 000 desenhos (até os esboços mais rudimentares) e 500 maquetes em suas três residências – em Valência, Zurique e Nova York, onde passa mais tempo. Ali, ocupa com os filhos e a mulher, a advogada sueca Tina Marangoni, 57 anos, três casas geminadas na elegante Park Avenue. À frente de uma equipe de 100 funcionários, é Calatrava quem dá a palavra final sobre tudo. "Meu marido é um centralizador", define Tina.

A arquitetura-espetáculo representada por ele não compõe exatamente uma nova corrente – tais são as diferenças de estilo entre seus mais proeminentes nomes, como o americano Frank Gehry (autor do Museu de Bilbao) e o holandês Rem Koolhaas (do Museu Gug-genheim de Las Vegas). Suas obras, no entanto, guardam uma notável semelhança: amparadas por programas de computador e técnicas de construção que permitem edificar prédios em formatos tão ousados que parecem desafiar as leis da física, elas sempre provocam uma transformação radical no cenário. "Pela liberdade extrema dos traços, é uma arquitetura que se aproxima muito do design", diz Mônica Junqueira, doutora em história da arquitetura. Caso exemplar desse conceito é o edifício Turning Torso, na cidade sueca de Malmö, assinado por Calatrava. Trata-se de um espigão residencial de 54 andares que imita um tronco humano retorcido até 90 graus (ideia que surgiu a partir de uma escultura feita pelo arquiteto dez anos antes). Não raro, Calatrava é alvo de críticos que o acusam de repetir-se nas fórmulas – só de prédios com estruturas em formato de asa, criou três. Ele e seus colegas também são frequentemente atacados com argumentos como o do crítico americano Kenneth Frampton, professor da Universidade Colúmbia. Em seus artigos, Frampton afirma que o exagero gratuito nas formas por vezes compromete a funcionalidade, quando não o bom gosto.

Apreciem-se ou não, os prédios-esculturas têm se prestado à função de lançar luz sobre áreas decadentes e abandonadas – sendo às vezes decisivos na sua revitalização. Foi com o Museu Guggenheim, por exemplo, que a cinzenta e sem graça cidade de Bilbao, na Espanha, se tornou um fervilhante polo turístico. Em Lisboa, Calatrava deixou como legado a monumental Estação do Oriente, cuja cobertura está equilibrada sobre curiosas colunas que se assemelham a palmeiras. Quando surgiu, em 1998, a construção chamou atenção para uma área industrial até então degradada, ajudando a atrair para lá novos prédios residenciais e hotéis. Outro terminal concebido por Calatrava, este para a região onde ficava o World Trade Center, em Nova York, inclui um teto que tem a pretensão de imitar, por meio de enormes estruturas de aço, as mãos de uma criança segurando uma pomba – projeto que deve ser inaugurado em 2014 e que o espanhol apresentou tal como um show, fazendo vários rabiscos diante de uma plateia espantada. Seu museu para o Rio de Janeiro, uma parceria entre a prefeitura e a Fundação Roberto Marinho, surgiu como peça-chave de um ambicioso projeto de revitalização da empobrecida região do porto, prometida até a Olimpíada de 2016. A expectativa é que o gigantesco caule de vidro e aço debruçado sobre a Baía de Guanabara, de autoria de Calatrava, ajude a resgatar uma área que, antes próspera, é hoje um símbolo de decadência.

Fernando Alda/Corbis/Latin Stock
Edifício em movimento
O projeto do Museu do Amanhã (abaixo), que será erguido no Rio de Janeiro até 2012, é uma boa síntese da obra de Calatrava. Ali, veem-se as grandes dimensões típicas de seus prédios, estruturas em constante movimento e o desenho inspirado em formas da natureza – neste caso, o caule de uma planta, segundo ele. lá funcionará um museu dedicado à ciência e à tecnologia, orçado em 130 milhões de reais, em que o visitante terá experiências como um passeio virtual pelo universo e até pelas estruturas de uma célula.


Fotos Joseph Sohm/Corbis/Latin Stock e Divulgação
Gigantes de aço
O museu de Milwaukee, nos Estados Unidos (à esq.), e a ponte Alamillo,
em Sevilha (à dir.): junção da engenharia com a arquitetura.

Galáxias subterrâneas

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O fotógrafo americano Kevin Downey – que comenta
as imagens destas páginas – tem uma paixão: revelar 
as paisagens estelares ocultas na escuridão das cavernas


Bruno Meier

Fotos Kevin Downey
CRISTAIS GIGANTES
"Esta foto foi feita na caverna de Naica, no México, logo após a descoberta desta sala por homens que trabalhavam em uma mina de prata. Várias áreas como esta, com cristais de gipsita gigantes, foram encontradas quando a perfuração da mina atingiu a caverna natural, que estava sob a água. A água foi bombeada para fora. Foi muito desafiador fazer esta foto, já que a temperatura na caverna variava de 64 a 72 graus. Construí uma roupa especial com refrigeração, e cada tomada foi realizada com um modelo diferente, pois eles suportavam no máximo três minutos nas zonas quentes. Hoje, a caverna é protegida por uma porta de aço e a temperatura é mais baixa – cerca de 57 graus –, devido ao ar refrigerado da mina"


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O fotógrafo americano Kevin Downey teve de produzir uma roupa especial, com refrigeração, para desbravar a Caverna dos Cristais, em Naica, remota região do norte do México. No interior da caverna, descoberta há dez anos por dois irmãos que faziam perfurações em uma das minas de prata mais produtivas do país, a temperatura variava de 64 a 72 graus. Devido a esse calor sufocante, os exploradores e espeleólogos – como são chamados os estudiosos de cavernas – que posaram para as fotos não podiam permanecer mais do que três minutos no ambiente. Como se vê abaixo, o resultado é espantoso: um homem, aparentemente diminuto, rodeado de cristais imensos. Formado em geologia e fotografia pela Universidade de Massachusetts, Downey possui o maior banco de imagens do mundo sobre cavernas, com cerca de 200.000 fotos subterrâneas. Foi por causa das expedições de exploração e mapeamento, em que ele se empenha desde 1971, que o interesse por fotografia surgiu. "Vi que ninguém fazia boas fotos desses lugares. Queria ter belas imagens das nossas descobertas, e pensei que isso seria fácil, rápido e simples. Pensei errado", disse a VEJA o espeleólogo, que visita o Brasil pela primeira vez a partir desta sexta-feira, para uma série de palestras e cursos em São Paulo e Belo Horizonte, promovidos pelo Instituto do Carste, dedicado à espeleologia. Downey trará sua vasta experiência em mais de 2.400 excursões em cavernas de 44 países, cada uma delas com suas maravilhas visuais e suas dificuldades técnicas (nas legendas das fotos destas páginas, o especialista comenta os desafios de cinco das cavernas que desbravou).

Recomenda-se que todo explorador de cavernas carregue pelo menos três fontes de luz, uma delas acoplada ao capacete. Os fotógrafos, porém, precisam de mais. Para registrarem imagens em ambientes de quase total escuridão, carregam um poderoso arsenal de flashes e baterias. Nos Estados Unidos e na Europa, costumam usar bulbos descartáveis de magnésio, que explodem quando acionados e produzem uma luz muito intensa. A ausência de iluminação nos subterrâneos é a principal, mas não a única, dificuldade. A umidade também pode atrapalhar: Downey desceu oito vezes o abismo de 180 metros de profundidade de uma caverna no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, até conseguir a condição mais seca possível. Existem, ainda, ambientes delicados, em que um movimento descuidado pode destruir formações de rocha que levaram séculos para surgir. Em alguns casos, são agentes biológicos que oferecem riscos – em cavernas da Amazônia habitadas por morcegos, só é possível entrar de máscara, pois as fezes dos animais, além de insuportavelmente malcheirosas, contêm microrganismos nocivos.

"As cavernas hoje são a única área de exploração do mundo em que ainda temos a sensação do desconhecido. O prazer de não saber o que se vai encontrar pela frente é o que mais nos atrai", diz o geólogo Augusto Auler, do Instituto Carste. Os fotógrafos desses vastos sistemas subterrâneos revelam florestas pétreas, cogumelos gigantes, cristais magníficos – paisagens estelares ocultas na escuridão subterrânea.

COMO EM UM SALÃO DE BAILE
"Esta é uma formação de cristais de selenita – gesso, basicamente – na caverna Lechuguilla, no estado do Novo México. Esta sala possui dezenas desses 'candelabros', e eles são as maiores e mais perfeitas formações desse tipo conhecidas no mundo. Lechuguilla é, talvez, a caverna mais ornamentada encontrada até hoje. O acesso a ela é permitido apenas para fins de exploração e pesquisa. Atualmente, por exemplo, ela tem cerca de 200 quilômetros 'desenvolvidos', como dizemos, e a cada expedição esse número aumenta"



UM POÇO SEM FUNDO
"Este abismo na caverna Ellison, no estado americano da Geórgia, tem cerca de 180 metros em queda livre e está situado abaixo de dois outros abismos menores. A iluminação foi feita por um único espeleólogo: à medida que descia pela corda, ele ia disparando flashes potentes, com uma exposição longa. Em geral, uma cachoeira cai por este abismo, e o ambiente fica repleto de gotículas de água em suspensão. Fiz oito viagens ao local no período de um ano até encontrá-lo assim, quase seco. Ainda havia um pouco de névoa, mas ela ajuda a dimensionar a profundidade do poço. Muitas das técnicas usadas na exploração de grandes abismos no mundo inteiro foram desenvolvidas aqui"



COGUMELOS EXÓTICOS
"Esta estalagmite gigante em forma de cogumelo é feita de calcita e dolomita e fica em um sistema de cavernas batizado de Jarrito, no norte de Cuba. Essas cavernas sofreram uma longa série de inundações e secas, e em várias ocasiões estiveram no nível da haloclina, onde água salgada e água doce se misturam – ou seja, praticamente no nível do mar. Tais formas exóticas são muito raras e contêm um registro perfeito das condições da caverna ao longo do tempo. Isso é essencial para compreender as variações climáticas que ocorreram nessa região no passado. Dezenas de quilômetros de galerias já foram mapeadas em Jarrito, mas o potencial para novas descobertas ainda é grande"


 

UMA FLORESTA SECRETA
"Chamo esta formação de 'floresta secreta de canudos'. Ela fica no interior de uma caverna do sul da França cuja localização exata é mantida em sigilo, a fim de proteger esses canudos extremamente delicados. Tratam-se de tubos ocos de calcita cristalina, e um único toque é suficiente para destruí-los. Fazer esta foto envolveu uma considerável equipe de apoio, além de grande cuidado, para garantir que tudo permanecesse intacto"


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