Entrevista:O Estado inteligente

sábado, maio 31, 2008

MilLÔR

Mas o que este país precisa mesmo é de alguém que apague a luz no fim do túnel.

ORELHINHAS E ORELHUDOS

Repito de Veja, 28 de maio: Silva Mello, respeitável médico e admirável pesquisador, escreveu em 1973: "Uma particularidade que nos tem surpreendido é dos negros possuírem, freqüentemente, orelhas pequenas e admiravelmente bem conformadas, jamais tão grandes e feias como as dos brancos".

Bem, como disse, fui às pesquisas para verificar se Silva Mello (Darwin também andou nessa) estava certo quanto à superioridade estética das orelhas dos negros. Escolhi (como cientista que sou, reconhecido internacionalmente) comparar as personalidades por profissão, por contemporaneidade, por importância. Cientista não se perde em divagações. Eis o resultado.

À esquerda os brancos
(orelhas grandes)

À direita os negros
(orelhas pequenas)

I

Marcos Palmeira, consagrado ator global.
Lázaro Ramos, ator global em vertiginosa ascensão.

II

Abraão Lincoln, presidente americano, morto por defender a unidade da nação americana.
Martin Luther King, líder social americano, morto quando defendia a integração racial.

III

Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República dos Estados do Brasil que alguns chamam Brasil dos Estados Unidos.
Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da mesma escola de samba. Na verdade as orelhas de Fernando Henrique não são muito pequenas pelos nossos padrões de pesquisa. Porque Fernando Henrique Cardoso não é totalmente negro. Apenas tem um pé na cozinha.

IV

Ricardo Eugênio Boechat, comentarista portenho da antiga tevê Bandeirantes.
Heraldo Pereira, comentarista substituto do JN, da Globo.

V

Gana X Camarões (jogo em 7 de fevereiro de 2008). Não precisa comparar com brancos. Os vinte e dois jogadores em campo, todos mostravam orelhas pequenas e redondinhas.
Gana X Brasil, futebol feminino (jogo em 20 de abril de 2008). Elas, ganenses, todas de orelhas bem pequenas. As brasileiras são mais miscigenadas, com orelhas grandes e pequenas.

VI

Kaká, jogador paulista, caucasiano típico, polêmico por seu puritanismo ostensivo.
Robinho, jogador paulista, polêmico pela maneira como usa seu talento pedestre – pedalando.

VII

Dom Euzébio Scheid, arcebispo de vocês.
Robson Cristo de Oliveira, padre negro que precede o dom na missa dos domingos de manhã na Globo.

VIII

McAvoy, ator branco que, no filme-biografia de Idi Amin Dada, faz o médico-cirurgião escocês.
Idi Amin Dada, o excelente ator Forest Whitaker, representando o ditador, na mesma biografia – The Last King of Scotland.

IX

Blair, ex-primeiro-ministro inglês, sócio de Bush na hora errada.
Obama, sucessor de Bush, se o pessoal de orelha grande permitir.

X

Millôr, o maior intelequitual do Meyer, de 13 de dezembro de 1965 a 8 de janeiro de 1966.
Pelé, o maior atleta de todos os tempos, de todos os esportes, de todos os lugares, compositor, cantor popular e campeão de cuspe em distância.

P.S.: Um UF! final. Ainda bem que minha pesquisa conseguiu se enquadrar no politicamente correto (ou politicamente fascista, como querem outros). Imaginem se eu concluísse que as orelhas negras eram maiores e mais feias do que as dos brancos... No mínimo seria expulso da reitoria da Universidade do Meyer.

Roberto Pompeu de Toledo

…e o governo se diverte

O desafio à soberania brasileira na Amazônia deixou
de ser apenas produto de teorias conspiratórias

Aos 186 anos de vida independente, 119 de regime republicano e cinco de governo Lula da Silva, o Brasil assistiu, na semana passada, a uma cena histórica. Numa cerimônia pública, um ministro beijou a testa do presidente. Nunca antes neste país. O beijo foi perpetrado pelo performático e caloroso novo ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, na testa do presidente Lula. Como Minc é quase uma cabeça mais alto que Lula, a imagem resultante era a do pai abençoando o filho, o mestre o discípulo, o chefe o subordinado. Impunha-se uma vez mais o estilo espantosamente desinibido do ministro Minc. Sua mão segurava o pescoço do presidente, com o carinho e a condescendência que os grandes devem aos pequenos.

Ora, direis, que mal há num beijo na testa? Manifestações semelhantes são hoje em dia banais, e não apenas beijo na testa como também na boca, entre pessoas apenas amigas, e mesmo homem com homem e mulher com mulher. No ambiente do show business, são até obrigatórias. Compõem a etiqueta do setor, assim como a genuflexão diante da rainha compõe a etiqueta do Palácio de Buckingham. Eu vos direi no entanto que o problema é justamente que, em que pesem os coletes do novo ministro, governo não é showbiz. O beijo ocorreu durante a posse de Minc, no Palácio do Planalto. Foi o ponto culminante de uma cerimônia toda ela ocorrida num clima de gandaia, o presidente se esmerando no papel, a ele tão caro, de animador de auditório.

O Brasil em geral, e o governo em particular, ainda não entendeu o que está acontecendo. A questão do meio ambiente mudou de patamar, mundo afora. Trinta anos atrás era uma bizarria de uns poucos. Vinte anos atrás começava a ser acolhida pelos governos, mas numa posição marginal. De dez anos para cá foi se deslocando da margem para o centro e, ao impulso das notícias sobre mudança climática, chegou ao coração dos governos e das sociedades, principalmente no mundo desenvolvido. É reflexo disso que em sua recente visita ao Brasil a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, a tenha trazido como item nº 1 da agenda.

Muito menos, o Brasil em geral, e o governo em particular, se mostra atento ao que está por vir. A mudança de presidente nos Estados Unidos, qualquer que seja o vencedor da eleição, promete outro giro do torniquete. Por enquanto os EUA estão atrás da Europa na atenção às políticas ambientais. Têm o rabo preso no ceticismo com que o governo Bush encara os alertas de aquecimento global e em sua recusa em assinar o Protocolo de Kioto. Isso vai mudar. Tanto John McCain quanto Barack Obama e Hillary Clinton já incluíram no centro de seus discursos a questão climática e em seus programas a adesão a Kioto. Com quem vão estrilar, com quem, com quem? O Brasil. Quando se fala em clima e ambiente, fala-se em Amazônia.

O Brasil já está, e estará mais ainda, na berlinda. A posse do novo ministro do Meio Ambiente era ocasião para um discurso sério e firme do presidente, dirigido ao país e ao mundo. Ainda mais que Minc entra no lugar de Marina Silva, símbolo da luta pela preservação da floresta, cuja saída ela própria fez questão de revestir de um ar de derrota da causa. Em vez disso, tivemos beijo na testa e, da parte do presidente, as piadas e as costumeiras "apologias" (ele queria dizer "analogias") com o futebol. A única coisa séria era a cara da ministra demissionária. Marina Silva não ria das graças do ex-chefe. Seu rosto emitia um mau sinal para os interessados na questão ambiental ao redor do mundo.

Na mesma medida em que o meio ambiente foi se deslocando para o centro das preocupações de sociedades e governos, o fantasma da internacionalização da Amazônia foi se tornando menos fantasma. O que antes não podia ser dito em voz alta por um estrangeiro perdeu a vergonha no brado do jornal inglês The Independent ao comentar a demissão de Marina da Silva: "A Amazônia é importante demais para ser deixada aos brasileiros". O que antes era produto de teorias conspiratórias ficou mais perto de virar proposta em foros internacionais. "A Amazônia tem dono", afirmou Lula, em outra ocasião durante a semana. É a velha síndrome, dos brasileiros em geral, e deste presidente em particular, de tratar as questões a golpe de retórica.

Está na hora, aliás já passou da hora, de o dono agir com firmeza contra as forças da motossera. De inventar alternativas para as populações amazônicas que não impliquem a destruição do meio ambiente. De quebra, de iniciar, antes que outros o façam, um trabalho sério de pesquisa das propaladas riquezas da floresta – por exemplo, criando uma Universidade da Amazônia, com recursos e programas ambiciosos o suficiente para atrair os melhores cérebros, o que poderia representar um projeto científico muito mais coerente do que a proliferação sem rumo das universidades federais e uma obra de governo com a grandeza e o investimento no futuro que tentações faraônicas como a transposição do São Francisco não têm. Senão... É esperar o avanço do torniquete. Ele mal começou a se mover.

Garotinho é indiciado por formação de quadrilha


Desta vez, "quadrilha armada"

O ex-governador Anthony Garotinho é acusado
pela PF de ser o chefe político do bando que agia
na cúpula da Polícia do Rio de Janeiro


Ronaldo Soares

Gabriel de Paiva/Ag. O Globo

PEGOS COM A MÃO NA MASSA
Lins e Garotinho em exposição de armas apreendidas: dupla do barulho

Há muito tempo se sabe que a polícia fluminense é contaminada pela corrupção e pelo envolvimento com bicheiros e traficantes de drogas. Também era notória sua ineficiência. Com 51 homicídios para cada 100 000 habitantes, o Rio é o segundo estado mais violento do país. Mesmo assim, a operação da Polícia Federal, chamada Segurança Pública S.A., que prendeu sete policiais na semana passada, causou surpresa. Dela resultou o indiciamento do ex-governador Anthony Garotinho por formação de quadrilha armada. Nunca antes um político tão proeminente havia sido acusado de crime tão grave. Garotinho, que já foi candidato à Presidência da República e atualmente preside o PMDB no estado, representa o que há de pior na política: populismo, fisiologismo e nepotismo, entre outras mazelas. Ao seu currículo, soma-se agora a suspeita de ter usado seu período no Palácio Guanabara (e também o de sua mulher, Rosinha) para acobertar as ações de um grupo de policiais que, encastelados na chefia da Polícia Civil, barbarizou o Rio de Janeiro cometendo ilícitos variados. A lista inclui facilitação de contrabando, formação de quadrilha, proteção a contraventores, cobrança para nomeação de delegados, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva.

Para a PF, Garotinho era o chefe político do bando, embora não haja provas até o momento de que tenha se beneficiado financeiramente. Abaixo dele estava o deputado estadual do PMDB Álvaro Lins, que durante seis anos foi o chefe da Polícia Civil do estado. Lins chegou a ser preso em um dos quatro imóveis que, segundo as investigações, foram comprados com a finalidade de lavar o dinheiro obtido ilegalmente. Todos em nome de parentes. Seu patrimônio é avaliado, por baixo, em 2,2 milhões de reais, e inclui carros de mais de 160 000. Tudo isso comprado no momento em que seu salário era de 7 000 reais, ao passo que suas despesas mensais somavam 25 000, segundo uma planilha apreendida na casa de um dos integrantes da quadrilha.

O bando tinha como atividade principal dar cobertura a bicheiros ligados à máfia dos caça-níqueis. Além de venderem proteção para um dos grupos que operam o jogo, Lins e seus camaradas são suspeitos de realizar operações contra bicheiros rivais somente para enfraquecê-los na disputa pelos pontos mais quentes. A quadrilha também promoveu o loteamento de delegacias no Rio, nomeando delegados de confiança que cobravam propina dos investigados. "Os nomeados tinham o compromisso de fazer mensalmente um repasse em dinheiro que servia não só para o enriquecimento da quadrilha mas para financiar campanhas políticas", diz o superintendente da PF no Rio, Valdinho Jacinto Caetano. Num dos casos investigados, a polícia descobriu que a "caixinha" a ser repassada ao bando era de 25.000 reais.

Domingos Peixoto/Ag. O Globo

RUMO AO XADREZ
Álvaro Lins (no centro), no momento da prisão: patrimônio avaliado em 2,2 milhões de reais

Embora não tenha sido preso, Garotinho viu sua casa ser revistada por mais de quatro horas. O ex-governador teria nomeado integrantes da quadrilha para funções estratégicas e, em pelo menos uma ocasião, teria falado ao telefone sobre as atividades ilícitas. "Sem a participação do ex-governador, a quadrilha não conseguiria se manter", afirma o procurador regional da República Paulo Fernando Corrêa. Entre as escutas telefônicas feitas pela PF, há uma em que Lins, já afastado para disputar as eleições, pede a Garotinho a troca de um delegado que não estaria colaborando com o bando. O ex-governador se compromete a providenciar a mudança. "Então deixa que eu vou mandar fazer. Deixa aqui. Qual é o nome?", diz Garotinho. A mudança se consumou.

A denúncia do Ministério Público contra os dezesseis integrantes do bando será analisada pelos juízes do Tribunal Regional Federal da 2ª Região. Na última sexta-feira, a Assembléia Legislativa do Rio (Alerj) mandou soltar Lins. A instituição tem o poder constitucional de decidir sobre a manutenção da prisão de deputados, nos casos em que considere ter havido arbitrariedade. Um parecer da procuradoria da Casa julgou a prisão ilegal. Ele foi preso porque estava em um dos apartamentos supostamente comprados com dinheiro ilegal e colocados em nome de terceiros. Na visão do MP e da PF, o fato de morar no imóvel caracterizaria o "estado permanente de flagrante", figura jurídica que se aplica ao crime de lavagem de dinheiro. A Alerj entendeu de outro modo. A casa é presidida pelo deputado peemedebista Jorge Picciani, representado pelo mesmo escritório de advocacia ao qual Lins entregou sua defesa, o do criminalista Sergio Mazzillo – também advogado de Garotinho. Caso seja condenado, o deputado poderá pegar entre onze e 36 anos de prisão.

Nos últimos anos, o Rio de Janeiro, em especial a cidade, tem vivido a angústia da criminalidade crescente e da inação da polícia. Duas décadas atrás, isso ocorria porque o ex-governador Leonel Brizola se perdia em ações de puro populismo. A polícia não subia às favelas para combater vendedores de drogas e, com isso, o tráfico se desenvolveu como um câncer pelas encostas da capital fluminense. A escadinha do populismo, é claro, produziu oportunidades. No governo Garotinho criou-se uma engrenagem de arrecadação marginal, revelada agora. Também nesse período, milícias de policiais passaram a disputar espaço com traficantes no domínio de territórios em favelas e, uma vez instalados, eles começaram a explorar o jogo de caça-níqueis – além de ganhar em cima de atividades como distribuição de gás, canais de TV piratas e transporte alternativo.

Cada um a seu modo, os governos Brizola e Garotinho foram terríveis para a segurança no Rio de Janeiro. O efeito da infiltração de grupos criminosos e corruptos na máquina estatal foi devastador. Inclusive porque minou a confiança dos cidadãos nas instituições. Na Chicago do período da Lei Seca, que vigorou entre 1920 e 1933, a organização criminosa controlada por Al Capone não só espalhou o medo e a violência pelas ruas da cidade como pôs na cadeira de prefeito, por três mandatos, o gângster "Big Bill" Thompson. O Rio de Janeiro que surge das páginas do inquérito da Polícia Federal ao longo da operação Segurança Pública S.A é a Chicago brasileira.

Experiências internacionais recentes mostram que é possível limpar a corporação policial. Um dos exemplos pioneiros ocorreu em Hong Kong. Até os anos 70, a cidade tinha uma polícia tão corrupta que o chefe da corporação acabou fugindo para o exterior para não ser preso. O episódio inspirou a criação de uma agência anticorrupção com poderes para passar em revista todas as atividades policiais e aplicar pesadas punições. Ela acabou se tornando referência para outros países. Em Nova York, nos anos 90, policiais envolvidos com o crime foram afastados e novos agentes foram treinados para preencher os cargos de confiança em setores estratégicos da polícia. A faxina incluiu até mesmo uma mudança de uniformes, para romper com qualquer associação com a imagem de banditismo que a corporação tinha no passado. A operação da última semana pode representar um marco na tentativa de limpar a corrupção na máquina fluminense. Mas é preciso que o trabalho não pare por aqui. Diz o procurador Paulo Fernando Corrêa: "O que chegou às nossas mãos é só a pontinha de um iceberg".

Supermercado do crime

A quadrilha que agia na Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro montou um verdadeiro balcão de negócios escusos, que operava a partir da cúpula da Polícia Civil

Fotos Marcos Fernandes/Luz e Severino Silva/ODR
Máfia dos caça-níqueis
Os policiais não reprimiam o funcionamento de máquinas caça-níqueis em regiões da cidade em que bicheiros exploram essa atividade. Além disso, facilitavam o contrabando para o funcionamento dessas máquinas

Lavagem de dinheiro
Boa parte dos recursos provenientes da ação da quadrilha foi usada na aquisição de bens e imóveis colocados em nome de "laranjas" do deputado Álvaro Lins

Proteção de bicheiros
A quadrilha vendia proteção ao grupo do bicheiro Rogério Andrade, sobrinho de Castor de Andrade, morto em 1997. Além disso, os policiais faziam operações para reprimir contraventores inimigos de seus protegidos

Loteamento de delegacias
A quadrilha nomeava policiais de sua confiança para chefiar delegacias. Os indicados tinham a incumbência de fazer repasses mensais ao bando, provenientes da cobrança de propina. A caixinha servia para enriquecimento do grupo e para campanhas políticas

STF A decisão: pesquisa com células-tronco é constitucional

Nem ciência, nem religião

No julgamento sobre o uso de células-tronco de
embriões humanos nos laboratórios, o Supremo
se ateve ao direito – e fez história


Carlos Graieb

Andre Dusek/AE

Pressão e esperança
Portadores de deficiências acompanharam o julgamento na semana passada, no auditório do STF



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Na quinta-feira passada, o Supremo Tribunal Federal concluiu um julgamento histórico e liberou o uso de células-tronco de embriões humanos em pesquisas científicas. O processo havia chegado ao Supremo em 2005, suscitando uma questão mais que espinhosa: quando começa a vida? Numa iniciativa inédita, o tribunal convocou uma audiência pública em que consultou 22 estudiosos com treino em genética e neurociência. Mas havia outra visão em jogo – a da religião. Nos três anos pelos quais se estendeu a discussão em torno do caso, foi exatamente isto o que mais sobressaiu: a disputa entre ciência e fé. Seria um erro, contudo, supor que a discussão no Supremo seguiu esse mesmo script. Foi isso que a tornou memorável. Os ministros não tentaram resolver o enigma milenar da gênese da vida, quer com uma tese metafísica, quer adotando um ponto de vista científico, num assunto sobre o qual a própria ciência não tem uma palavra final. Transformaram o enigma numa questão técnica (o direito brasileiro protege a vida humana com a mesma intensidade em suas várias etapas de desenvolvimento, ou há gradações?), fizeram apenas o que deviam fazer – interpretar as leis e a Constituição – e deram uma decisão à sociedade. "Agora, pode-se é voltar ao laboratório", diz a geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, da Universidade de São Paulo. "Estamos muito atrasados em relação ao Primeiro Mundo. Precisamos trabalhar para recuperar esse atraso."

Em maio de 2005, o então procurador-geral da República, Claudio Fonteles, propôs uma ação de inconstitucionalidade alegando que o artigo 5º da Lei de Biossegurança, editada dois meses antes, não poderia valer. O artigo autorizava a pesquisa com células-tronco de embriões humanos, dadas certas condições (veja quadro). Fonteles afirmou que "a vida humana acontece na, e a partir da, fecundação". Assim, qualquer ato que impedisse o desenvolvimento do embrião deveria ser interpretado como um atentado à vida e à dignidade da pessoa humana, dois direitos fundamentais. Quase sempre que células-tronco são retiradas de um embrião humano ele é destruído. Logo, a norma tinha de ser derrubada. No plenário do STF, Carlos Alberto Direito seguiu essa mesma lógica. Na verdade, com um pequeno passo lateral. Observando que o pesquisador americano Robert Lanza anunciara ter obtido células-tronco de embriões sem destruí-los, Direito disse que pesquisas realizadas com essa técnica seriam, sim, constitucionais. Ou seja, tentou restringir as pesquisas, mas não bani-las totalmente. (Na prática, contudo, a experimentação ficaria emperrada, porque, além de ser controvertida, a técnica de Lanza nunca foi replicada por outros.)

Direito e Fonteles são notoriamente católicos. No curso do processo, foram acusados de obscurantismo, de tentar sobrepor preconceitos religiosos à razão. São acusações injustas. Primeiro, porque o argumento da Igreja – o de que a vida é um bem sagrado, um valor absoluto e inviolável do primeiro instante até o suspiro final – não tem nada de absurdo do ponto de vista da ética. Ao longo dos séculos, inúmeras conquistas da civilização se deram graças a esse raciocínio. Em segundo lugar, porque ambos sabem que ética e direito são reinos vizinhos, mas não coincidentes. Eles não trouxeram a fé para o debate e raciocinaram de acordo com princípios do direito brasileiro. Não conseguiram, contudo, que o tribunal se alinhasse com eles.

Um dos argumentos contra a tese de Claudio Fonteles, repetido algumas vezes no julgamento, foi o de que durante a Constituinte, na década de 80, deputados tentaram incluir no texto final da Constituição uma cláusula de "proteção à vida desde a concepção", mas o projeto não vingou. Preferiu-se manter silêncio quanto ao início da vida. Com isso, a questão jurídica não seria determinar um ponto de partida para a existência, mas saber "que aspectos ou momentos da vida estão validamente protegidos pelo direito, e em que medida". Essa frase do ministro Carlos Britto, que foi relator do processo, indica a linha de raciocínio seguida pelos seis juízes que votaram pela liberação das pesquisas. Grosso modo, eles afirmaram que as leis nacionais tratam de maneira diferenciada o ser humano em suas várias etapas de desenvolvimento – embrião, feto, pessoa – e que pode haver uma gradação na maneira como se aplicam, em cada caso, os princípios da dignidade e do respeito à vida. Em razão dessa lógica implícita, o aborto quando há risco de morte para a mãe, por exemplo, já seria admitido no ordenamento jurídico brasileiro. Pelo mesmo motivo, a destruição de embriões seria justificável quando feita nos termos da Lei de Biossegurança, e tendo em vista o bem-estar e a dignidade da espécie humana como um todo. As duas ministras da Corte, Ellen Gracie e Carmen Lúcia, esgrimiram argumentos pragmáticos. Carmen Lúcia afirmou que, se não fossem empregados em pesquisas que talvez possam, no futuro, beneficiar doentes, os embriões inviáveis ou congelados de que fala a lei teriam como destino o lixo: "Lixo humano. Em vez disso, podem ser matéria utilizada em proveito da vida".

O julgamento também teve muito a ver com a defesa da liberdade de pensamento e de trabalho científico. Quase todos os ministros ressaltaram que é preciso vigiar para que as pesquisas não enveredem por caminhos bisonhos ou perigosos – como a eugenia, a mistura de células de homens e animais e a clonagem reprodutiva. Também foi comum uma certa crítica à arrogância científica. "Será razoável acreditar que a ciência tudo pode?", perguntou o ministro Direito. Eros Grau foi mais incisivo: "Este debate não opõe ciência e religião, porém religião e religião. Alguns dos que falam pela ciência são portadores de mais certezas do que os líderes religiosos mais conspícuos. Portam-se com arrogância que nega a própria ciência". O pior, segundo Grau, é que muitas dessas certezas seriam um véu para acobertar os interesses do mercado. Por trás desse tipo de discurso há um certo pensamento teórico que ficou mais claro no voto do ministro Lewandow-ski, que citou os filósofos Marx, Gramsci e Lukács para dizer que a ciência é "uma ideologia que encobre valores e interesses" e que muitas vezes "faz das pessoas mercadorias". Uma veia de pensamento obstruída pelo pior tipo de colesterol esquerdista. Embora mais brandos, Gilmar Mendes e Cezar Peluso também acharam que a Lei de Biossegurança deveria instituir um controle mais firme sobre o trabalho dos cientistas, fazendo menção a uma Comissão Nacional de Ética em Pesquisa. Todos os cinco propuseram acréscimos à lei – ou, dito de outra maneira, pretenderam legislar por meio de suas sentenças, adicionando cláusulas ao texto em vez de apenas interpretá-lo. Gilmar Mendes fez uma longa e enfática defesa dessa possibilidade. "Já nos livramos do dogma da atuação restritiva. Uma atuação criativa vai nos permitir suprir muitas lacunas da lei", disse ele. No julgamento das células-tronco, o STF não fez nem falsa ciência nem falsa metafísica. Mas as atribuições do Legislativo, ele pensou em usurpar. No fim, fez-se verdadeira justiça.

COMO VOTARAM OS MINISTROS
DO SUPREMO

A minoria, no placar de 6 a 5, tentou criar novas condições para as pesquisas sobre células-tronco com suas sentenças

Pela liberação das pesquisas

Fotos Ana Araujo

Carlos Ayres Britto
"Como se trata de uma Constituição que, sobre o início da vida humana, é de um silêncio de morte (permito-me o trocadilho), a questão reside em saber que aspectos ou momentos dessa vida estão validamente protegidos pelo direito."

Ellen Gracie
"O aproveitamento dos embriões nas pesquisas científicas com células-tronco é infinitamente mais útil e nobre do que o descarte vão dos mesmos."
Cármen Lúcia
"Se os embriões não forem colocados no útero de uma mulher, eles serão descartados. E, ao descartá-los, estaríamos criando lixo humano."
Celso de Mello
"Não vamos incidir no mesmo erro que o tribunal do Santo Ofício, que constrangeu Galileu Galilei, que tinha informações cientificamente corretas, mas incompatíveis com a Bíblia."
Joaquim Barbosa
"A lei respeita três primados fundamentais da República: laicidade, respeito à liberdade individual e liberdade de expressão da atividade intelectual e científica."
Marco Aurélio Mello
"No mundo científico, é voz corrente que as células embrionárias não são substituíveis, para efeito de pesquisa, por células adultas, uma vez que estas últimas não se prestam a gerar tecidos nervosos, a formar neurônios."

Com restrições às pesquisas

Carlos Alberto Direito
"Se pelo bem praticamos o mal, se para salvar uma vida tiramos outra, sem salvação ficará o homem."
Ricardo Lewandowski
"A ciência e a tecnologia, embora tenham, de modo geral, ao longo de sua história, trazido progresso e bem-estar às pessoas, não constituem atividades neutras, nem inócuas quanto aos seus motivos e resultados. Elas tampouco detêm o monopólio da verdade, da razão ou da objetividade."
Eros Grau
"O embrião - insisto neste ponto - faz parte do gênero humano, já é uma parcela da humanidade."
Antonio Cezar Peluso
"Os embriões congelados não são portadores de vida nem equivalem a pessoas, não vejo como as pesquisas ofendem o chamado direito à vida."
Gilmar Mendes
"O artigo 5º deve ser interpretado no sentido de que permissão deve ser condicionada a prévia autorização a comitê vinculado ao Ministério da Saúde. Isso atende ao princípio da proporcionalidade."

Uma controvérsia de 35 anos

No dia 13 de dezembro de 1971, os juízes da Suprema Corte dos Estados Unidos começaram a viver um clima semelhante ao que enfrentaram os ministros do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Naquele dia, os juízes americanos ouviram os primeiros argumentos para tomar a decisão que se provaria a mais contestada da história jurídica do país. Como é da natureza das perguntas basais da vida em sociedade que se arrastam por eras sem uma resposta amplamente satisfatória e consensual, a que chegou aos magistrados americanos era perturbadoramente simples: "A Constituição dos Estados Unidos garante a uma mulher o direito de interromper sua gravidez por meio de aborto?" Em 22 de janeiro de 1973, por sete votos a dois, os juízes deram seu parecer no caso conhecido como "Roe v. Wade" – em que Jane Roe é o nome falso (para homens usa-se John Doe) dado pela polícia e pela Justiça quando se deseja proteger ou se desconhece a identidade de alguém, e Wade, o sobrenome do funcionário do Texas encarregado de fazer valer as leis do estado que proibiam o aborto. O que se passou naqueles treze meses foi uma das mais extraordinárias aventuras humanas no terreno do rigor intelectual. Em "Roe v. Wade" (sendo v. a abreviatura de versus), a Suprema Corte decidiu que pertencia exclusivamente à mulher a decisão de abortar até que se completassem três meses da gestação. Só depois disso "haveria interesse do estado".

A decisão foi um choque. Os estados tiveram de se adaptar a ela, alguns em silenciosa revolta. As opiniões se dividiram e a fissura permanece, 35 anos depois, tão viva quanto no dia seguinte. A cada aniversário da decisão, uma multidão se reúne em frente ao prédio da Suprema Corte portando cartazes com os dizeres "Aborto é assassinato" e "Abaixo Roe v. Wade". Cerca de dez tentativas formais de revogar a decisão de 1973 chegaram à Suprema Corte. Foram todas rejeitadas. O que deu a "Roe v. Wade" essa invulnerabilidade às contestações? O rigor intelectual na interpretação do que seria a vontade expressa dos fundadores dos Estados Unidos ao escreverem a Constituição, em especial sua 14ª Emenda, a que protege a privacidade. Foi um edifício teórico construído de forma tão monolítica que um dos dois juízes dissidentes, Byron White, acusou os colegas de terem ignorado em seu voto alertas éticos, conceitos religiosos e a ciência médica para decidir usando apenas o "poder jurídico bruto", ou "raw judicial power", em inglês.

White foi ao cerne da questão. Realmente, o relator do caso, juiz Harry Blackmun, descobriu logo que não chegaria a lugar algum se fosse se ater aos conhecimentos médicos e aos ditames éticos e religiosos, por mais exatos que fossem os primeiros e sadios os segundos. Blackmun se agarrou, então, a casos pregressos "doutrinariamente parecidos" com a questão em pauta. Achou treze. Nenhum tratava de aborto, concepção ou reprodução humana. Todos envolviam decisões sobre privacidade ou sobre onde acaba o direito individual e começa o dever coletivo. Assim "Roe v. Wade" foi decidido. Uma decisão insatisfatória do ponto de vista ético, duvidosa do ponto de vista médico, mas juridicamente funcional. Era a única mercadoria que os juízes podiam entregar. Foi o que fizeram.

Eurípedes Alcântara


Certifica.com

CPI dos Cartões Coveiros do Parlamento enterram investigação

A farsa confirmada

CPI dos Cartões termina sem apurar nada
e revela a ação da bancada dos coveiros


Otávio Cabral

Fotos Sergio Lima/Folha Imagem
Oposição tímida ajudou governistas a enterrar a CPI sem conclusão alguma sobre os cartões e o dossiê

O ex-deputado Ulysses Guimarães eternizou a máxima segundo a qual se sabe como começa uma CPI, mas não se sabe como termina. Ele acreditava que as investigações parlamentares guardassem uma saudável imprevisibilidade por fugir de qualquer tipo de controle, fosse do governo, fosse da oposição, pelo simples fato de serem pautadas pelos fatos. Ulysses Guimarães, se ainda vivo, estaria assistindo à desconstrução absoluta de sua teoria: uma CPI pode, sim, ser totalmente controlada do início ao fim, independentemente dos fatos. A fórmula foi desenvolvida nos laboratórios do governo e mostrou seu primeiro grande resultado na semana passada. Depois de três meses de embromação e escaramuças, a CPI dos Cartões Corporativos, criada por acordo entre governo e oposição, está encerrando seus trabalhos exatamente da mesma maneira que começou: encenando uma farsa. Farsa para não apurar nada. Desde o início, era para ser um simulacro de investigação – e tudo leva a crer que será. A falta de conclusão é resultado direto do trabalho de um grupo de deputados que vem fazendo fama no Congresso e já foi apelidado de a bancada dos coveiros. São parlamentares inexpressivos, desprovidos de pudor, teleguiados para atrapalhar, confundir e enterrar investigações que incomodem o governo.

Os talibãs da impunidade são recrutados no chamado baixo clero do Congresso. O governo sabia que, desde que surgiram as primeiras denúncias sobre o uso irregular dos cartões de crédito, era inevitável a instalação de uma CPI para investigar o caso, e resolveu se preparar. A tática de usar o exército coveiro já havia sido empregada com sucesso no Senado, no ano passado, para salvar o mandato do senador Renan Calheiros, investigado por um rosário de crimes. Na ocasião, o governo juntou o que havia de pior no Senado para fazer o trabalho sujo em benefício de Calheiros, que foi obrigado a renunciar à presidência do Congresso, mas acabou se safando da cassação do mandato. A tática foi integralmente aplicada na CPI dos Cartões. A tropa de choque, dessa vez, foi formada pelos deputados Carlos Willian (PTC-MG), Silvio Costa (PMN-PE), Maurício Quintella (PR-AL) e Perpétua Almeida (PCdoB-AC). – todos de pouca expressão, filiados a partidos nanicos e sem pretensões políticas mais ambiciosas. Fazem o trabalho por voluntarismo ou para receber uma pequena recompensa, que pode vir na forma de cargos e liberação de emendas do Orçamento.

A estratégia dos coveiros é previamente combinada com as lideranças do governo. Eles são orientados a constranger depoentes, inviabilizar sessões, rejeitar requerimentos importantes de convocação e protagonizar cenas ridículas, que só ajudam a desmerecer ainda mais a imagem do Congresso. No início da CPI, por exemplo, a tropa da cova chegou à sessão com uma "cola" em mãos, onde estavam destacados em vermelho todos os requerimentos que deveriam ser rejeitados. Em azul, os que deveriam ser aprovados. Os parlamentares mal sabiam o que estavam votando, mas seguiram à risca o que foi escrito pelas lideranças do governo. Em um dos depoimentos, o deputado Carlos Willian exigiu que a testemunha jurasse dizer a verdade com as mãos sobre a Bíblia. Como ela se negou, o deputado rebateu: "Para mim, tudo o que ele disser no depoimento vai ser mentira porque sou cristão". Defensora do reconhecimento do santo-daime como patrimônio nacional, Perpétua ficou conhecida nacionalmente por chamar, aos berros, uma testemunha de "dedo-duro". Silvio Costa se especializou em pedir a convocação de membros do governo anterior para tentar constranger a oposição, enquanto Maurício Quintella se dedicava a insultar os oposicionistas, que eram chamados de "fofoqueiros" e "bisbilhoteiros". Fanfarronices que eram recebidas com gargalhadas e até aplausos, num constrangimento ao bom senso.

A farsa da CPI também contou com a indulgência da oposição. Os dois sub-relatores, Carlos Sampaio e Indio da Costa, vestiram o figurino de investigadores sérios, dispostos a revelar as irregularidades do governo com os cartões corporativos, mas também produziram um relatório risível. O único momento em que a farsa esteve ameaçada foi quando se revelou a existência de um dossiê com as despesas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Atropelada pelos fatos – sempre eles –, a CPI convocou para depor o ex-secretário de Controle Interno da Presidência José Aparecido Nunes Pires, apontado pela Polícia Federal como o responsável pelo vazamento do documento. O funcionário confirmou a existência do dossiê e disse que ele foi produzido na Casa Civil. E o que aconteceu depois diante de tão escandalosa revelação? A comissão decidiu encerrar os trabalhos. Na terça-feira, todos os requerimentos de convocação foram rejeitados, inclusive os que previam o depoimento de funcionários da Casa Civil envolvidos com o dossiê, como a secretária-executiva, Erenice Guerra. "Essa CPI não andou. Está capenga e vai ser enterrada. O que fizemos foi defender o governo", comemorou o deputado Carlos Willian. Sem confronto, a comissão terá sua sessão de despedida nesta terça-feira. Será uma festiva missa de sétimo dia.

SILVIO COSTA
Sua função era ameaçar convocar ministros do governo FHC, para tentar intimidar a oposição
Valter Campanato/ABR

PERPÉTUA ALMEIDA
A comunista defensora do santo-daime abusou da estridência para chamar testemunha de "dedo-duro"

Antonio Cruz/ABR

CARLOS WILLIAN
Patético, disse que só acreditaria no depoente se ele jurasse sobre a Bíblia: "Sou cristão"

Sergio Dutti/AE
MAURÍCIO QUINTELLA
Não se constrangeu em chamar oposicionistas de "fofoqueiros" e "bisbilhoteiros"

A Funai divulga fotos de tribo isolada

Os homens vermelhos

A Funai fotografa pela primeira vez grupo
de índios que vive isolado no Acre


Marcelo Carneiro

Funai
Corpos pintados, os índios lançam flechas na direção do avião da Funai

A Funai divulgou um conjunto de fotos impressionantes que correram mundo. As imagens, feitas de um avião, mostram um grupo de índios seminus ao lado de suas malocas. Com o corpo pintado de vermelho e negro, eles apontam suas flechas na direção da aeronave. Segundo o órgão, trata-se de uma tribo de etnia desconhecida que vive isolada da civilização no Acre. A Funai sabia da existência do grupo, mas nunca havia conseguido fotografá-lo. Especialistas estimam que nos nove estados que compõem a Amazônia Legal existam ainda hoje quase setenta tribos de índios isolados – ou seja, que rejeitaram ou não tiveram nenhum contato com não-índios. A política da Funai em relação a esses grupos é de não-interferência.

Não foi sempre assim. No começo do século passado, o marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, incumbido de mapear as então desconhecidas terras ao norte do país, travou os primeiros contatos – pacíficos – com índios isolados da região. A partir dos anos 40, os sertanistas Orlando e Cláudio Villas Boas deram fama à causa indigenista também por descobrir tribos que viviam nos confins da Amazônia – e estabelecer relação com elas. Eram, no entanto, iniciativas de caráter antropológico. Mais tarde, no auge do milagre econômico, na década de 70, a decisão do governo militar de abrir estradas para integrar a região amazônica ao restante do país arrastou tratores em massa para a selva. Como algumas das rodovias cruzavam terras habitadas por índios, surgiram conflitos. Diante disso, os sertanistas da Funai foram chamados para atuar na região em "frentes de pacificação". Ocorre que, quando as expedições chegavam ao canteiro de obras, já encontravam uma situação conflagrada – o que, mais de uma vez, resultou em tragédia.

Paulo Salomão

Os crenacores, descobertos nos anos 70, em Mato Grosso: o convívio com brancos quase dizimou a tribo

Há quarenta anos, quase duas dezenas de integrantes de expedições que tentavam contato com os uaimiris-atroaris, em Roraima, foram assassinadas pela tribo. O contato entre brancos e índios isolados também se mostrou devastador para os últimos. Entre 1970 e 1974, em Mato Grosso, a população de 400 índios da etnia crenacore foi reduzida a 79 integrantes. A maior parte das mortes foi causada por doenças transmitidas por brancos. "A experiência traumática influenciou essa geração de sertanistas que hoje defende o isolamento", diz o antropólogo Beto Ricardo, coordenador do Instituto Sócio-Ambiental. Os índios do Acre jamais demonstraram interesse pela civilização – eles teriam, inclusive, saído de território peruano para evitar atrito com madeireiros ilegais. Não há motivos para incomodá-los.

Internet O YouTube nas eleições americanas

Votar nunca mais será igual

Na primeira eleição presidencial com o YouTube,
a tecnologia muda a paisagem política nos EUA


André Petry, de Nova York


TODOS DENTRO DA REDE
Obama, Hillary e McCain, comseus sites de campanha: jamaistantos americanos fizeram doaçõesfinanceiras a seus candidatos

O senador Barack Obama estava celebrando suas vitórias mais recentes quando a bomba caiu sem aviso prévio. Um vídeo mostrava o pastor de sua igreja fazendo um sermão explosivo. Dizia que o atentado de 11 de setembro foi um castigo para as barbaridades promovidas pelos Estados Unidos no exterior e que os americanos, em vez de cantarem "Deus abençoe a América", deveriam cantar "Deus amaldiçoe a América". O vídeo começou a pipocar no YouTube, em diferentes edições. Uma, cinco, vinte, quarenta. Em seguida, somaram-se as imagens das reportagens sobre o assunto. Pressionado pela enorme repercussão, Obama rompeu publicamente com seu pastor. A senadora Hillary Clinton ainda festejava a enrascada de seu adversário quando apareceu outro vídeo: mostrava ela mesma desembarcando serenamente na Bósnia em 1996. As imagens desmentiam o relato dramático feito pela senadora, dias antes, segundo o qual descera do avião debaixo de fogo cruzado e, para escapar com vida, refugiara-se num abrigo no aeroporto. O vídeo do seu tranqüilo desembarque foi parar no YouTube, ao qual logo se somaram imagens das reportagens televisivas sobre o assunto. Diante do barulho, Hillary teve de admitir que abusara da criatividade ao descrever aquela viagem.

Os dois casos – o de Obama com seu pastor destemperado e o de Hillary com sua anedótica visita à Bósnia – mostram o que está acontecendo na primeira eleição presidencial nos Estados Unidos depois da criação do YouTube, um site lançado em fevereiro de 2005 em que qualquer internauta pode colocar vídeos, de qualquer qualidade, e assistir aos milhares, aos milhões, aos bilhões de vídeos que já fazem parte de seu acervo. O YouTube, associado à disseminação dos blogs sobre política, dos sites de relacionamento e das aparentemente infinitas possibilidades abertas pela internet, está mudando a maneira de fazer campanha eleitoral nos Estados Unidos e tudo indica que mudará as campanhas em todo o mundo democrático. Os especialistas acham que acabou o tempo em que o comando das campanhas exercia – ou tentava exercer – controle absoluto sobre o candidato, da cor de sua gravata à escolha das palavras de um discurso. Em campanhas regionais, já houve o caso do candidato que, filmado cochilando numa reunião, virou a coqueluche do ridículo no YouTube e perdeu a eleição. Ou do candidato que foi flagrado chamando um imigrante indiano de "macaco", e também perdeu a eleição. A novidade, agora, é que todas essas possibilidades tecnológicas estão atuando numa eleição presidencial e diante de uma audiência nacional.

Um dos efeitos mais notórios da popularização da internet está nas finanças eleitorais. O dinheiro continua sendo fundamental numa campanha, mas a internet está conseguindo transformá-lo num dado um pouco menos decisivo ao reduzir a importância da televisão. Os democratas gostam de lembrar o caso da deputada Carol Shea-Porter, de New Hampshire, que não recebeu um tostão do partido, recolheu só 300 000 dólares e venceu um adversário poderoso, que concorria à reeleição e arrecadara três vezes mais. A seu favor, contou sua rede de "netroots", como é chamada a comunidade de pessoas politicamente ativas através da internet. Os netroots divulgaram a candidatura de Shea-Porter numa dimensão que, nos tempos pré-internet, só seria viável pela TV, e a um custo altíssimo. Há três meses, o rapper Will.i.am, do grupo Black Eyed Peas, remixou um discurso de Obama numa música, convidou algumas celebridades para cantar trechos e colocou o resultado no YouTube. O retorno foi estrondoso. Com gasto zero em veiculação, o clipe já foi visto por 8,5 milhões de internautas. Além disso, produziu filhotes bem-humorados, como o vídeo Bilionários por Bush, que faz uma sátira do tratamento privilegiado dado aos mais ricos pelo atual governo republicano.

NO REINO DOS VÍDEOS
Um clipe que mistura discurso de Obama com música (acima) e um vídeo que satiriza privilégios dos ricos no governo Bush: o YouTube vira território livre da política

A mobilização proporcionada pela internet é sem precedentes, seja para engordar a multidão de um comício, seja para rechear o cofre de uma campanha. "A internet permite que os candidatos encontrem gente nova, que nunca antes contribuiu financeiramente para uma campanha, e sem gastar fortunas com mala-direta", diz Michael Malbin, diretor da Campaign Finance Institute, entidade apartidária que monitora as finanças eleitorais. "O número de pessoas financiando as campanhas só cresce, e, graças principalmente à internet, quase metade do dinheiro chega na forma de contribuições pequenas, inferiores a 200 dólares, mas vem de milhões de contribuintes." A campanha de Obama, que de longe faz o uso mais inteligente da internet, arrecadou 263 milhões de dólares de janeiro de 2007 até agora. Desse total, 47% foram contribuições de até 200 dólares. É o maior porcentual. No caso de Hillary, sua campanha recolheu menos de 200 milhões de dólares no mesmo período, e apenas 33% do total foram de contribuições menores que 200 dólares. O pior desempenho é o do republicano John McCain. Ele ainda não bateu a marca dos 100 milhões de dólares, e só 23% das contribuições vieram em pequenas quantias.

Por ironia, o primeiro político de dimensão nacional a perceber a importância da internet foi justamente McCain, quando tentou ser o candidato à Casa Branca em 2000, mas perdeu para Geor-ge W. Bush. Naquela pré-campanha, McCain assombrou o mundo político ao levantar 7,5 milhões de dólares pela internet. Até hoje ninguém entendeu como nem por que os republicanos, tendo uma estréia tão promissora, ficaram tão retardatários no uso político da rede. Na campanha presidencial de 2004, os democratas já pularam na frente e foram mais competentes para explorar as novidades tecnológicas, com destaque para Howard Dean. Ele, que hoje preside o Partido Democrata, promoveu uma gincana financeira na internet e ultrapassou suas metas de arrecadação. Dean terminou perdendo a indicação para John Kerry, mas deixou uma herança apreciá-vel ao expandir o uso da internet: ele começou a usar a rede como instrumento para mobilizar cabos eleitorais, energizar a militância, organizar eventos de campanha. "A internet está ajudando a renovar a democracia ao permitir que os eleitores tenham um papel muito mais ativo do que antes", festeja Simon Rosenberg, fundador e presidente da NDN, entidade que, entre outras coisas, estuda o alcance das novas tecnologias.

Antonio Ribeiro
ADIANDO O USO DA TECNOLOGIA
A estréia da TV nos debates presidenciais no Brasil, em 1989, e nos Estados Unidos, em 1960: parecer do TSE já sugeriu travar – de novo – o avanço tecnológico
AP

No site oficial da campanha de Obama, pode-se localizar com facilidade um evento político nas vizinhanças: basta que o internauta informe seu código de endereçamento postal. Na semana passada, dentro de um raio de 150 quilômetros ao redor de Nova York, seu site divulgava uma lista de 173 eventos, entre já realizados e por se realizar. Ampliando-se o raio para 300 quilômetros, o número de eventos subia para 261. O site de Obama contabiliza 750 000 voluntários ativos, 8 000 grupos de afinidade e, na semana passada, informava já ter recebido contribuições de 1,5 milhão de doadores pela internet. As páginas dos candidatos na rede são copiadas uns dos outros, com pequenas diferenças. Isso acontece porque ninguém sabe ainda como usar a novidade. Em 1960, quando aconteceu o primeiro debate entre candidatos pela televisão, Richard Nixon perdeu feio para John Kennedy, mas aprendeu a lição. Em 1968, usou a TV com competência a seu favor. No Brasil, o ex-presidente Fernando Collor foi o primeiro a explorar com criatividade a televisão na campanha de 1989, usando recursos de computação gráfica então desconhecidos no país – embora também tenha inovado em baixarias.

A internet é ainda um território propício para a política da difamação, do massacre de caráter, mas aos poucos seu uso vai sendo disciplinado. Para que tenha impacto razoável, essa mídia precisa ser suficientemente difundida. Nos Estados Unidos, cerca de dois terços das famílias têm acesso à rede – e metade usa banda larga, ou seja, tem acesso rápido, memória ampla e pode ficar on-line o dia inteiro. No Brasil, o número de internautas também é crescente, mas o Tribunal Superior Eleitoral já se encarregou de travar a modernidade ao proibir que os candidatos às eleições municipais deste ano usem várias ferramentas para conseguir votos. Um parecer técnico do TSE veda a divulgação de blogs, o envio de mensagens eletrônicas e até a veiculação de vídeos no YouTube. É uma pena. Excluir a internet do universo da política talvez seja uma forma de também excluir da política as gerações mais jovens. Talvez seja, ainda, reflexo de uma mentalidade que, cedo ou tarde, será superada pelos novos padrões impostos pela globalização. Afinal, todas as relações sociais – no âmbito do comércio, da cultura, da ciência, das idéias, do comportamento – são crescentemente globalizadas. A política, ainda que exercida dentro dos limites das fronteiras nacionais, será uma exceção?

O legado japonês aos brasileiros de A a Z

De A a Z
100 legados japoneses

As contribuições dos imigrantes e seus descendentes
que ajudaram a mudar as feições do Brasil


Naiara Magalhães, Renata Moraes e Thaís Oyama

Quando o navio Kasato Maru atracou no Porto de Santos, em São Paulo, em 18 de junho de 1908, os 781 imigrantes japoneses nele embarcados achavam que o Brasil não passava de um destino temporário – logo, logo voltariam para casa. Os brasileiros, por sua vez, viam nos recém-chegados visitantes cuja única contribuição ao país seria o trabalho braçal nas lavouras de café. Pois é. Apenas 10% dos quase 190 000 imigrantes que aportaram aqui antes da II Guerra retornaram ao Japão. Os outros 90% ficaram para sempre – e ajudaram a mudar a face da terra de adoção. Na agricultura, introduziram a soja (atualmente, 20% das exportações do agronegócio) e novas máquinas e métodos de cultivo; na alimentação, uma infinidade de frutas, pratos e temperos antes desconhecidos. Cem anos depois da chegada dos pioneiros, no entanto, o maior legado japonês continua sendo o seu povo: 1,3 milhão de descendentes, a maior comunidade nikkei fora do Japão. O Brasil não seria o mesmo sem eles.

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Especial

Ilustração Hiro. Fotos de Mauro Holanda, Nani Gois, Getty Images, Bia Parreiras, Mario Rodrigues, Folha Imagem, Getty Images/Royalty Free, Ana Araujo, Pedro Rubens e Valdemir Cunha

Fotos Getty Images, Ricardo Toscani, Fernando Moraes, Pedro Bicudo, Otavio Dias de Oliveira, Fabio Castelo, Mario Rodrigues, Fabio Heizenreder, Ilustração Hiro

Fotos Getty Images, Ricardo Toscani, Latinstock, Fernando Moraes, Pedro Bicudo, Otavio Dias de Oliveira, Fabio Castelo, Mario Rodrigues, Fabio Heizenreder, Ilustração Hiro

Fotos Paulo Vitale, Lailson Santos, Irandy Ribas, Getty Images, divulgação, Latin Stock, Marcos Ribas, Fabio Mangabeira, Marcelo Vigneron, Luis Carlos Kfouri e ilustração Hiro


Fotos Leo Feltran, Eduardo Svezia, Getty Images, Thomas Kremer, São Paulo Shimbun, Marcelo Tinoco, Sergio Tauhata, Mauro Holanda, Itaci

Fotos Paulo Vitale, Octavio Cardoso, Otavio Dias de Oliveira, Mauro Holanda, Eduardo Pozella, Gustavo Arraes

Fotos Victor Almeida, Cida Souza, Mario Rodrigues, Jorge Butsem, Lia Lubambo, Mauro Holanda e ilustração Hiro

Fontes: Associação Brasileira de Acupuntura; Associação Brasileira de Nishikigoi; Administração do Parque do Carmo; Associação dos Produtores de Flores e Plantas Ornamentais de Atibaia; Akira Matono, fundador da empresa Cerealista São Paulo; Assimilação e integração dos japoneses no Brasil, de Hiroshi Saito e Takashi Maeyama (Editora da Universidade de São Paulo e editora Vozes, 1973); Banco Interamericano de Desenvolvimento; Carlos Tramujas, especialista em bonsais; Carlos Watanabe, sushiman; Conrad Editora; Consulado Geral do Japão em São Paulo; Christine Greiner, coordenadora do Centro de Estudos Orientais da PUC-SP; Célia Oi, historiadora; Célia Sakurai, antropóloga; Centro de Estudos Nipo-Brasileiros; Confederação Brasileira de Sumô; Cristiane Sato, especialista em cultura pop japonesa; Federação de Rádio Taissô do Brasil; Flávio Godas, economista da Ceagesp; Frank Usarski, professor da PUC-SP; Guia da Cultura Japonesa (Editora JBC); Hiroshi Ikuta, engenheiro agrônomo; Hugo Kawauchi, empresário do ramo de restaurantes; Jo Takahashi, diretor de Projetos Culturais da Fundação Japão; Kendi Yamai, apresentador de programas de TV japoneses; Kimiko Suenaga, ceramista; Koichi Mori, da Casa de Cultura Japonesa da USP; Kokei Uehara, presidente da Associação para Comemoração do Centenário da Imigração Japonesa; Marcos Persici, do arquivo do Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil; Márcio Nakano, do Sindicato Rural de Mogi das Cruzes; Masato Ninomiya, advogado; Newton Hirata, estudioso da Cooperativa Agrícola de Cotia; O olhar dos nisseis paulistanos, de Paulo Yokota (Editora JBC); Paulo Yokota, presidente do Hospital Santa Cruz; Renata Koike, da Fundação Japão; Sérgio Kamimura, publicitário da NK2; Uma epopéia moderna: 80 anos da imigração japonesa no Brasil (Editora Hucitec); União dos Clubes de Gateball do Brasil

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