Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Nunca antes nestepaiz pagamos tanto em impostos

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Por Marcos Cézari, na Folha:
Nunca antes na história deste país -para usar o bordão preferido do presidente Lula- os brasileiros pagaram tanto em tributos como em 2007. Mais uma vez a carga tributária baterá novo recorde, superando 36% do PIB (Produto Interno Bruto). De cada R$ 100 em riquezas que o país gerou neste ano, R$ 36 foram para os cofres dos governos federal, estaduais e municipais. O governo diz que a carga fiscal aumentou porque a economia cresceu, o que é verdade (leia texto nesta página). Exatamente devido a esse crescimento, se esperava redução mais acentuada da carga tributária em 2007 -além da correção de 4,5% na tabela do Imposto de Renda das pessoas físicas, o governo concedeu desonerações tributárias pontuais a vários setores. As bondades pouco efeito tiveram sobre o conjunto da arrecadação.

Segundo estimativa do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário), a carga tributária em 2007 crescerá para 36,02% do PIB -mais 0,81 ponto percentual em relação aos 35,21% de 2006. Os contribuintes brasileiros deixaram mais de R$ 928 bilhões nos cofres dos fiscos dos três níveis de governo -R$ 2,54 bilhões/dia. Essa voracidade fiscal fez com que os brasileiros tivessem de trabalhar 146 dias -até 26 de maio- apenas para cumprir suas obrigações tributárias com os três níveis de governo, segundo estudo do IBPT -é o mesmo que entregar aos governos R$ 40 de cada R$ 100 recebidos. Como comparação, esse tempo é o dobro do que se trabalhava na década de 70 para o pagamento de tributos.Segundo o IBPT, apenas os suecos (185 dias) e os franceses (149 dias) trabalham mais que os brasileiros para cumprir tais compromissos. Os norte-americanos dedicam 102 dias de trabalho ao fisco; os argentinos, 97 dias; e os chilenos, 92 dias. Se o cálculo tomar por base os contribuintes da classe média -renda mensal entre R$ 3.000 e R$ 10 mil-, o número de dias trabalhados sobe para 156, ou seja, até 5 de junho. Nesse caso, a carga fiscal sobre a renda bruta sobe para 42,7%.

O Estado de S. Paulo ENTREVISTA Fernando Gabeira

''''Governo é perdulário e mau gastador''''


Carlos Marchi


A derrota na prorrogação da CPMF ofereceu ao governo a possibilidade de racionalizar os seus gastos e alcançar resultados melhores na gestão pública, opinou o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), um ex-petista que hoje é expoente da oposição ao governo Lula, ao fazer um balanço do ano político para o Estado. Ele acusou o governo de ser perdulário e mau gastador, acrescentando que agora Lula será forçado a rever a qualidade da gestão.

Para Gabeira, Lula não se preocupa em melhorar a capacidade gerencial do governo porque tem uma idéia equivocada sobre choque de gestão. O presidente, avaliou ele, pensa que o choque de gestão tem, no poder público, o mesmo efeito que exerce sobre a empresa privada - causar demissões.

Numa profunda revisão histórica, Gabeira - que participou de um seqüestro em 1968 - afirmou que o seqüestro político é uma forma de luta "abominável". "Não há situação política que justifique um seqüestro", afirmou. Eis a entrevista:

Que lição o governo deve tirar da derrota na CPMF?

A vitória da oposição e de uma parte da sociedade, ao derrotar a CPMF, foi um elemento importante de reflexão para o País. Não que houvesse, em mim,um desejo de ver o governo se dar mal, mas porque fez o governo considerar a hipótese de racionalizar os seus gastos e obter mais resultados com os recursos que usa.

A derrota da CPMF obriga o governo a ser mais eficiente?

Exatamente. Na verdade, o resultado da CPMF ofereceu ao governo a possibilidade de racionalizar os seus gastos e alcançar resultados melhores.

O sr. quer dizer que o governo era perdulário ou mau gastador?

Era e ainda é. O governo é perdulário, é mau gastador e vai ser forçado a rever as suas políticas de gestão. Isso é positivo tanto para o País, como para o governo também.

O governo era perdulário e mau gastador por incompetência ou por falta de cuidados?

Existem as duas coisas. A incapacidade para gerir e uma vontade incontrolável de ocupar a máquina pública de forma partidária. A combinação desses fatores acaba produzindo resultados piores do que ele poderia obter.

Nesses dois mandatos, qual foi o maior erro de Lula?

O grande erro, que até hoje repercute para ele, foi a forma de conduzir a relação com o Parlamento e a maneira de construir as maiorias. Grande parte dos problemas políticos do governo decorrem dessa opção. O escândalo do mensalão e a derrota da CPMF revelam que a opção de formar maiorias na base de trocas fisiológicas é equivocada. Também é equivocada a idéia de fazer uma frente do tipo "arca de Noé", na qual entra quem quer se salvar. Primeiro, é preciso ter um programa. E, dentro do programa, uma fronteira, onde se determine quem é aliado, quem é adversário. Isso nunca ficou claro para o governo Lula.

O que passa pela cabeça de Lula quando opta por esse caminho?

Fernando Henrique Cardoso, num determinado momento, afirmou que tanto o PSDB quanto o PT estariam condenados a ser a vanguarda do atraso se entrassem por esse caminho. Se não é possível o entendimento com a oposição, o governo procura os que não se importam com divergências e aceitam participar do governo ou apoiá-lo se forem recompensados em suas reivindicações. Então, apela para a fisiologia.

Como resolver essa impossibilidade de entendimento entre as principais forças políticas?

Acontece que está chegando ao fim o processo de polarizações muito rígidas, como entre esquerda e direita ou entre contracultura e conservadorismo. Isso dá margem para construir pontes que podem conduzir a uma política majoritária.

Como construir pontes que superem hábitos de fisiologia?

Primeiro, temos de encontrar a ponte teórica. Dou um exemplo na discussão do aborto: temos posições muito rígidas a favor e contra. Como achar a ponte? Simples: vamos aumentar a informação das adolescentes brasileiras para conseguir evitar a gravidez indesejada. Essa fase de entendimento impossível vai se esgotar quando os partidos perceberem que as divergências entre eles não são insuperáveis e é possível achar um denominador comum.

PSDB e PT terão um momento de programas comuns?

Na prática, existe uma política comum a ambos. Por exemplo, a política econômica de Lula tem o apoio teórico do PSDB. As políticas sociais já estavam esboçadas no governo FHC, mas uma ênfase maior foi dada por Lula. No conjunto de idéias para conduzir o País, vemos que todos "pertencem" ao mesmo partido. Só que esse "pertencer", essa comunhão parcial de idéias, não é o que predomina, porque, além dela, existe o desejo específico de ter o poder. Por isso é que se briga muito. Mas a briga não é para ter políticas diferentes.

O governo vai viver bem sem a CPMF?

É perfeitamente possível desenvolver uma política social generosa e, simultaneamente, reduzir a carga tributária. Há uma dificuldade, que localizei no discurso de Lula. Na campanha presidencial, ele disse que não faria choque de gestão porque a experiência dele mostrou que isso termina com gente desempregada. Isso é verdade para ele, que era um líder sindical na área das multinacionais. Mas ele não pode transplantar esse temor para o Estado, no qual a racionalização libera recursos para usar em políticas que dão emprego. Mas ele raciocina assim.

O Bolsa-Família está dando novo status social às pessoas?

O que o Bolsa-Família está dando às pessoas é uma vida mais digna. Aí surge a discussão sobre a "porta de saída". Raciocino em função do País: é um alívio que esses milhões de pessoas tenham uma vida mais digna, mas imagine a capacidade, o talento e as possibilidades de realização desses milhões de pessoas, que não estão sendo desenvolvidos! Esta é uma questão vital para o País. É importante dar às pessoas condições de viver com dignidade, mas o Brasil precisa de mais que isso, precisa do talento, da capacidade e da criatividade dessas pessoas.

O coronel Hugo Chávez coordenou a troca de reféns da guerrilha colombiana. Isso não é um tanto déjà-vu, com gosto de revival da guerrilha modelo anos 60?

Acho que sim, mas é preciso entender que Chávez quer criar, na América Latina, um pólo em que ele apareça como líder. Seu principal instrumento são os dólares do petróleo. Essa troca de reféns, que ele está transformando num espetáculo dele, deveria, na verdade, ter acontecido há mais tempo. As Farc deveriam ter sido forçadas a entregar esses reféns há muito tempo. Não faz sentido ter algum tipo de relação política com uma organização que não só está fora da lei, mas que também usa métodos absolutamente inaceitáveis. Chávez está usando as Farc para aumentar o seu prestígio, mas acaba transmitindo a essa organização uma importância e uma solenidade que ela não tem mais.

O sr. participou de um seqüestro. O que separa aquele ato dos seqüestros das Farc é o tempo decorrido. De lá para cá, o que mudou?

Mudou a minha compreensão dos fatos. Hoje eu considero o seqüestro uma forma de luta abominável, um desrespeito à lei e aos direitos humanos da pessoa seqüestrada, da sua família, seus amigos. Hoje eu vejo o seqüestro com os olhos da Ingrid Bettancourt. Eu participei de um seqüestro na década dos 60 e hoje integro um comitê que tenta libertar Ingrid.

Seqüestros já eram abomináveis em 1968 ou alguma situação política pode explicá-los?

Eu concluí que não há situação política que justifique um seqüestro. A explicação política do seqüestro é que os fins justificam os meios. Essa justificativa é a mesma que conduziu os partidos de esquerda a seus erros mais profundos.

Na conferência do clima, em Bali, foi cobrado dos países em desenvolvimento a redução dos gases-estufa. O Brasil consegue cumprir esse compromisso?

Tem plenas condições de cumprir. Apesar do nosso inventário de emissões ser da década dos 90, indica que 70% das nossas emissões vêm do mau uso da terra e das queimadas.

A redução do desmatamento se deu porque a fiscalização é dura ou porque os preços das commodities caíram?

O processo de redução dos últimos dois anos coincidiu com a queda nos preços das commodities. Temos de apurar se as políticas do governo são frágeis ou não. O Brasil não tem recursos para fazer uma política adequada para a Amazônia. Precisa de recursos internacionais. Mas é muito difícil que esses recursos venham sem que haja um projeto nacional claro, uma autoridade brasileira cuidando da Amazônia e sem que haja transparência no uso desses recursos.

O governo vai fazer a transposição do Rio São Francisco?

Nosso caminho é concentrar toda força na revitalização do rio. Mas vai ser difícil que Lula não faça a transposição, porque ela dará a ele a sensação de que está entrando na história. Lula não resistirá à idéia de realizar um projeto que foi cogitado por d. Pedro II.

Quem é:
Fernando Gabeira


É deputado no quarto mandato - três pelo PV, onde está hoje, e um pelo PT.

Jornalista, é autor de dois livros polêmicos: O que é isso, companheiro? e Nós, que amávamos tanto a revolução, um diálogo com o líder estudantil francês Daniel Cohn-Bendit.

Cursou Antropologia na Universidade de Estocolmo, enquanto estava no exílio.


TRANSPOSIÇÃO: "Lula não resistirá à idéia de realizar um projeto que foi cogitado por d. Pedro II"
IMPOSTOS: "A vitória da oposição e da sociedade, ao derrotar a CPMF, foi elemento importante de reflexão"
SEQÜESTRO POLÍTICO: "Eu concluí que não há situação política que justifique um seqüestro"


Gabeira mudou, não fez conversão oportunista

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Comendo no prato em que cuspiram

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS
Folha de S.Paulo


As regras de leilões de 3G e os altos ágios foram os mesmos de há dez anos, só que desta vez não houve denúncias

ESCREVO hoje minha última coluna de 2007. Peço ao meu leitor que me permita um desabafo, colocando para fora um sentimento que me acompanhou solitário neste ano que agora termina. A gota d'água que fez transbordar minha indignação foi o resultado do leilão de licenças para explorar a chamada terceira geração da telefonia celular. Um sucesso incrível, com uma disputa acirrada entre as empresas privadas que já operam no Brasil. A intensa disputa levou a ágios expressivos em relação ao preço mínimo fixado pela Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) e rendeu quase R$ 6 bilhões para o Tesouro Nacional. Lula não perdeu tempo para se pavonear desse sucesso de seu governo.
A exploração do serviço celular nos moldes mais avançados da tecnologia disponível -chamada de 3G- abre um período de significativos investimentos na área das telecomunicações. A criação de novos serviços e o desenvolvimento de produtos mais sofisticados abrem um novo espaço para que o governo arrecade mais impostos e para que os brasileiros encontrem novas possibilidades de emprego em setores de altos salários. A sociedade como um todo vai ganhar com essa nova fronteira econômica e tecnológica que se abre diante de nós.
As regras dos leilões dos celulares 3G seguiram os padrões estabelecidos em 1997 e 1998 pelo governo Fernando Henrique Cardoso e seu ministro Sérgio Motta. Exploração privada de freqüências de telecomunicações, obedecendo as cláusulas pétreas da concorrência e da universalização dos serviços. Nenhuma mudança em relação ao roteiro que presidiu a privatização do monopólio estatal da antiga Telebrás. Inclusive o mecanismo de colocar em uma mesma licença regiões mais pobres e mais ricas é o mesmo usado dez anos antes.
A única diferença de agora é que não ocorreram as denúncias de entrega de serviços públicos à sanha dos interesses privados. Também estiveram ausentes as milhares de ações populares e civis, patrocinadas por sindicatos e líderes de movimentos sociais ligados ao PT, contra a "entrega do patrimônio público".
Até a grande mentira que ainda é repetida hoje sobre os preços de banana está embutida nos valores pagos pelas concessionárias privadas agora. Os ágios elevados seriam -na linguagem de uma década atrás- uma prova de que os preços mínimos estabelecidos eram baixos demais.
Uma observação que precisa ser lembrada aqui é que nos leilões de agora o Brasil já tem um mercado de celulares conhecido e representado por mais de 135 milhões de terminais em operação. Em 1997 e 1998, quando a privatização foi realizada, os celulares eram apenas símbolos caríssimos de status e o potencial desse mercado ainda era uma grande incógnita. Com a passagem de um monopólio estatal para um sistema com intensa competição e regras draconianas de universalização forçada, introduzia-se uma incerteza muito grande para que os interessados pudessem avaliar os preços a serem pagos nos leilões. Mesmo assim, ocorreram ágios expressivos e intensa disputa pelas 12 empresas privatizadas.
A privatização da Telebrás, demonizada até hoje na oratória petista, foi a origem do sucesso desse grande programa de modernização do nosso setor de telecomunicações de massa. A entrada em serviço, agora no governo Lula, de um novo padrão tecnológico, é apenas mais uma etapa dessa caminhada corajosa iniciada dez anos atrás.

Desenvolvimento econômico sustentável

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Folha de S.Paulo



É um equívoco colocar em conflito dois objetivos fundamentais, que podem ser combinados

OS RESULTADOS da conferência de Bali sobre o aquecimento global deixaram a desejar. O que se discutia era o futuro da humanidade e o que se viu foi uma luta mesquinha entre os países para saber como dividir os custos de um problema que é de todos nós enquanto participantes da sociedade global. Os países mais resistentes a um acordo eram os Estados Unidos, a China e a Índia. O primeiro sem nada poder alegar em seu benefício, os dois últimos exigindo para o novo acordo a mesma idéia que o Brasil tornou vitoriosa no Protocolo de Kyoto -a idéia, que precisa ser revista, que os danos históricos feitos pelos países ricos no ambiente justificam que os países em desenvolvimento não sejam obrigados a contribuir para a diminuição da emissão de carbono.
Conforme relatou "The Economist", quem salvou a conferência foi um representante da Papua-Nova Guiné, condenada a submergir pelas águas se os grandes países não agirem, que, indignado com a resistência dos Estados Unidos em colaborar, aproximou-se do microfone e bradou emocionado, "se por alguma razão vocês não estão querendo liderar, deixem o problema para nós, por favor, apenas não atrapalhem".
O aplauso foi enorme. Alguns minutos depois, vencida, a representante americana: "nós iremos adiante e participaremos do consenso". Este, entretanto, foi modesto. O principal resultado, em parte graças à proposta do Brasil de se criar um fundo internacional para proteger a floresta amazônica, resumiu-se a um projeto sobre como interromper o desmatamento global. No mais, como a própria "Economist" reconhece, o que se produziu foi "uma declaração de boas intenções, da qual os Estados Unidos lograram que todo conteúdo substantivo fosse eliminado" (texto completo em meu site).
Por trás dessa resistência existe o pressuposto de que o crescimento econômico -com o qual todos os governos estão comprometidos- não é compatível com o desenvolvimento sustentável ou, em outras palavras, que os custos do combate ao aquecimento global são muito altos.
Desde que, há 15 anos, orientei uma tese de doutoramento sobre o controle da poluição na cidade de São Paulo, estou convencido de que esse pressuposto é equivocado: esses custos são menores do que geralmente se pensa. Os custos serão elevados em duas condições: se quisermos eliminar todos os efeitos negativos da poluição e se estabelecermos objetivos de curto prazo. No primeiro caso, porque os custos de eliminá-la crescem inicialmente pouco, mas se tornam muito altos quando nos aproximamos de níveis elevados de neutralização da poluição. No segundo, porque as mudanças nas empresas, nos veículos e no desmatamento só podem ser realizadas de forma econômica se forem graduais -no caso dos automóveis, por exemplo, definindo regras duras para os novos veículos, como está fazendo a União Européia.
Portanto, desde que todos concordem com essas duas condições, não há razão para tanta resistência a um acordo global sobre o efeito estufa. O desenvolvimento econômico é necessário, mas deve e pode ser também sustentável. É um equívoco colocar em conflito dois objetivos fundamentais, que, se forem buscados de forma razoável e inteligente, podem ser combinados.

Otimismo Carlos Alberto Di Franco

O Estado de S. Paulo,



O Brasil de hoje, independentemente das sombras que pairam no horizonte da economia dos Estados Unidos, revela um vigoroso impulso de crescimento. A realidade, ademais, não costuma confirmar os anúncios escatológicos de certos profetas do catastrofismo. O fenômeno chinês, por exemplo, é um contraponto poderoso à crise que ronda o mercado norte-americano.

O Brasil foi guindado à condição de sexta economia mundial. Mudamos de patamar. É indiscutível. Tal desempenho decorre da boa performance da economia mundial. Mas também é uma conseqüência das políticas sociais adotadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Tenho sido um crítico permanente dos desmandos do governo petista e de seus espasmos de autoritarismo. Mas a honestidade intelectual e o dever de isenção, pré-requisitos de quem pretende fazer jornalismo ético, me obrigam a reconhecer o empenho de justiça social do presidente da República. Ele é o responsável direto pela incorporação de milhões de brasileiros que viviam à margem do mercado. O fabuloso crescimento do consumo é um vigoroso atestado de inclusão.

O viés autoritário do governo e a corrupção, que atingiu níveis impressionantes, têm sido enfrentados com a força de uma cidadania atuante e com os instrumentos legais do Estado democrático. Tentativas de controle da liberdade de imprensa e de expressão foram derrubadas pela sociedade civil. E a corrupção, embora continue aparentemente impune, começa a sofrer os primeiros nocautes. Ex-ministros e notáveis do "núcleo duro" do governo estão sendo processados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção ativa e formação de quadrilha. O Judiciário pode ser lento, mas funciona. E aqueles que, cinicamente, tentaram negar o fato histórico do mensalão assistirão à sua comprovação judicial. O ensaio para o terceiro mandato acabou em samba desafinado. A sociedade disse não. Quer dizer, feitas as contas, com objetividade e realismo, o Brasil vai bem.

No entanto, o clima de sinistrose renasce constantemente. Na verdade, os que estamos do lado de cá, os jornalistas, carregamos nossos cacoetes profissionais. Sobressai, entre eles, a tendência ao catastrofismo. O rabo abana o cachorro. O mote, freqüentemente usado para justificar o alarmismo de certas matérias, denota, no fundo, a nossa incapacidade para informar em tempos de certa normalidade. Mas mesmo em tempos de crise é preciso não aumentar desnecessariamente a temperatura. O bom jornalismo reclama um especial cuidado no uso dos adjetivos. Caso contrário, a crise real pode ser amplificada pelos megafones do negativismo midiático. À gravidade da situação, inegável e evidente, se acrescenta uma dose de pessimismo. O resultado final é a potencialização da crise.

Alguns setores da imprensa, em nome da independência e da imparcialidade, têm feito uma opção preferencial pelo negativismo. Os jornais, pensam, têm uma missão de contraponto, de denúncia. Concordo. E de denúncia enérgica. O problema não está aí, mas na miopia, na obsessão seletiva pelos aspectos sombrios da realidade.

Uma cachoeira de prognósticos negativos corre solta. A análise isenta, verdadeiramente jornalística, talvez conduza a um horizonte menos assustador. O País está numa corrida de obstáculos e, como nos estádios, a pista não termina no abismo. Estamos, ricos e pobres, navegando num mesmo transatlântico. No caso de naufrágio, não haverá afogamentos seletivos. Iremos todos a pique. Também os ocupantes da primeira classe (ou do Primeiro Mundo). Por isso, sem otimismo tolo, é preciso reconhecer que o Brasil, pelo tamanho de seu mercado, pela iniciativa que demonstra, é maior do que governos e circunstâncias de momento.

O que existe por trás da torrente de queixas e profecias sinistras? Acredito, sem receio de cometer injustiça, que boa parte do fenômeno radique numa deformação profissional que atinge alguns jornalistas. O mau ceticismo (há um bom ceticismo, base do jornalismo investigativo) é uma desses desvios. Essa atitude passa tudo por um filtro negativo. A conseqüência é óbvia: não se faz o registro isento dos fatos. Há uma compulsão para pinçar os aspectos negativos dos acontecimentos.

É cômodo e relativamente fácil provocar emoções. Informar com profundidade é outra conversa. Exige trabalho, competência e talento. Objetividade e equilíbrio. Luzes e sombras. Não só denúncia, mas também não só aplauso. Faltam-nos, freqüentemente, equilíbrio e serenidade. O que é côncavo de um lado aparece convexo do outro. Depende só do nosso ângulo de visão. Muitas vezes um defeito é apenas a sombra projetada por uma virtude. Os negativistas padecem da patologia das sombras. Míopes, são incapazes de ver o outro lado: o da virtude.

O Brasil, graças à varredura dos meios de comunicação, está mudando para melhor. A democracia é o melhor antídoto contra o veneno do autoritarismo. O eleitor, inicialmente ingênuo, vai ganhando discernimento. A mídia, num rigoroso esforço de prestação de serviço, será, agora e sempre, a memória da cidadania. O ostracismo das urnas já é um grande passo, mas não basta. A conseqüência direta do crime, independentemente do status do delinqüente, deve ser a cadeia. É isso o que sociedade espera da ação do Judiciário.

A democracia brasileira está sólida, não obstante os ataques dos autoritários de sempre. Ela tem os anticorpos necessários para combater o vírus aético e devolver aos brasileiros a alegria e o otimismo.

A todos, feliz 2008!

Um ano excepcional

O Estado de S. Paulo EDITORIAL,
O ano político de 2007 terminou no começo da madrugada do último dia 13, quando o Senado impôs ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva uma derrota sem precedentes desde que ele ascendeu ao Planalto. A rejeição da continuidade da CPMF até 2011 foi mais do que o fecho antecipado de um ciclo de decisões regido pelo calendário. Foi mais também do que o amargo epílogo, para o governo, da sua principal proposta legislativa até então. Acima de tudo - independentemente do que se pense da qualidade do imposto extinto - a decisão lavou a alma dos que acreditam no vigor da democracia brasileira, a qual, se dependesse do que em seu nome os representantes do povo se notabilizaram por fazer ao longo do período, justificaria presságios sombrios. Querendo trivializar o revés, Lula afirmou, logo em seguida, que "são coisas da democracia". Mal sabe ele como, sem querer, disse a pura verdade.

A sociedade já desistira de esperar que a oposição - particularmente o PSDB - se restabelecesse do estado de inanição em que se encontrava. Do Congresso, em geral, já não se espera alguma luz própria diante da hegemonia do Executivo - que, não de hoje, paralisou a capacidade de iniciativa parlamentar. Nem quando o presidente de turno se omite em relação a determinado tema, o Congresso toma a si e leva a bom termo o desafio de inovar. A reforma política, por exemplo, morreu na praia da Câmara dos Deputados. Acrescente-se que este ano a desmoralização dos políticos atingiu em cheio o Senado, com a seqüência de denúncias contra o seu então presidente, Renan Calheiros, e a afrontosa leniência dos seus pares (facilitada pelo voto secreto nas decisões em plenário sobre cassações).

Não deixa de ser irônico o fato de o mesmo Senado que negaria a Lula a cornucópia do imposto do cheque ter consumado, horas antes, o arranjo espúrio pelo qual o cacique alagoano entregou a presidência para conservar o mandato. O esquema tinha o aval do Planalto e fazia parte da operação para prorrogar a CPMF, que incluiu ainda liberação de verbas em grande escala e barganhas em torno de cargos - as costumeiras jogadas da baixa política. O palco para a principal votação do ano era o mesmo; não, porém, os enredos e os atores. Entre os 40 senadores que livraram Calheiros (ante 35 que votaram pela cassação) decerto havia governistas, oposicionistas e aqueles contra os quais se poderia levantar acusação idêntica à que desembocou na decisão em plenário: parceria oculta para a compra de emissoras.

Já entre os 34 contrários à CPMF estavam todos os 14 do Democratas e todos os 13 do PSDB. (Os demais, como se recorda, eram 6 da Maioria e o representante do PSOL.) Esse é o ponto capital: a oposição ressuscitou - e nenhuma democracia funciona sem uma oposição capaz de desempenhar eficientemente o seu papel institucional. Justiça se faça, a propósito, ao antigo PFL. Ainda em fevereiro, o partido decidiu que não transigiria na sua recusa à prorrogação do tributo. Impossível subestimar a influência dessa conduta reta na decisão tucana de seguir em bloco no mesmo rumo. Isso posto, a pergunta que o resultado deixou para o segundo ano do segundo governo Lula é se ele terá o descortino de tirar daí as lições que se impõem. O primeiro grande teste estará no modo como encaminhar o prometido projeto de reforma tributária.

Os sinais das últimas semanas têm sido animadores: fortalecem a expectativa de que o bom senso do presidente não se circunscreverá à sustentação das políticas graças às quais 2007 foi um autêntico annus mirabilis para a economia brasileira, com o espetáculo do crescimento em cartaz para casas cheias e longa duração assegurada. Sintomaticamente, na sua última entrevista do ano - um café-da-manhã com os jornalistas credenciados no Planalto, às vésperas do Natal - Lula abandonou de vez o catastrofismo dos seus pronunciamentos anteriores à eliminação da CPMF ("não tenho razão para perder nem meio minuto de sono"). Sintomaticamente também, dessa vez ninguém lhe perguntou o que fosse sobre o terceiro mandato. O assunto se evaporou do noticiário político - e não se pode minimizar o papel do presidente na remoção dos rumores sobre o que decerto seria um monumental retrocesso.

Liguem-se, em suma, os pontos desse excepcional 2007 e se verá forçosamente que nenhuma democracia latino-americana está mais consolidada do que a do Brasil

Síndrome de Policarpo Antonio Sepulveda

JB

Policarpo Quaresma, o célebre personagem xenófobo de Lima Barreto, encaminhou requerimento à Câmara com a proposta de que a língua portuguesa fosse substituída pelo tupi. O tupi, na mente conturbada do bravo Policarpo, era um idioma verdadeiramente brasileiro, cultura de um povo inteligente, uma identidade autóctone, ao contrário do português, um vernáculo que nos foi emprestado. Por conta de tamanha patriotada, ele virou motivo de piada em todos os jornais do Rio, foi tido como louco, perdeu o emprego e acabou no manicômio.

A realidade, de vez em quando, nos parece tão estranha quanto à ficção. Eis que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara — cujos membros igualmente fazem jus a uma robusta camisa-de-força — aprovou, por unanimidade, projeto de lei do deputado Aldo Rebelo, comunista juramentado, que veta estrangeirismos. Dispõe sobre a substituição de todas as expressões estrangeiras em uso no país por equivalentes ou neologismos na língua portuguesa, no exíguo prazo de 90 dias. Esta violência contra a liberdade de emprego pelo cidadão da língua que bem entender segue agora para votação em plenário, e corremos o risco seriíssimo de, mais uma vez, sermos obrigados a nos submeter à opinião do estado, só porque um parlamentar alienado sofre da síndrome de Policarpo Quaresma.

É claro que a lei é de uma imbecilidade atroz. Na melhor das hipóteses, além de não ser cumprida como tantas outras idiotices engendradas pelas mentes doentias que infestam nosso Parlamento, com toda certeza será motivo de chacota e excelente matéria-prima para chargistas, comediantes e programas humorísticos. O risco de leis como esta jaz na crença de muitos de nossos congressistas de que têm o poder de nos tanger como gado. Chegam agora ao ponto de nos querer impor o modo de falar, estabelecer as palavras que devemos usar e escolher por nós o idioma em que devemos nos expressar. Este é o perigo. Reagir é preciso, com vigor e decisão. Ninguém pode nem deve — principalmente o estado — possuir tamanho poder.

Os chauvinistas (desculpe-me Aldo Rebelo o galicismo) tentaram algo parecido na França, mas foram frustrados pela Suprema Corte daquele país, cujo acórdão declarou inconstitucional pretensão tão abusiva quanto ridícula. Será que nossa Constituição — que só não legisla sobre cuspe em distância — não possui um dispositivo que proteja o direito de o indivíduo usar o idioma que quiser? É inconcebível imaginar que a grafia de filé-mignon ou software passará a ser contravenção, quando o bom senso decreta que crime mesmo é patrulhar o uso de palavras por qualquer motivo.

O estrangeirismo é essencial na dinâmica de uma língua. Negar a influência de um idioma sobre outro é negar a natureza de todas as línguas. Cerca de 30% do vocabulário português provêm de outros idiomas. Apesar da luta dos puristas de todas as épocas, as línguas vivem em constante mutação. Qualquer estratégia de defesa do idioma não deveria ser feita por decreto, mas pelo aprimoramento do sistema educacional.

É falaciosa a noção de que a língua portuguesa precisa ser defendida. A xenofobia de Aldo Rebelo é fruto da ignorância. O nacionalismo fanático torna o ser humano desconfiado de tudo que vem de fora; a ignorância faz com que não se reconheça que o processo pelo qual passa o português é a natural evolução da língua.

Se entrar em vigor, passaremos a ter um glossário oficial de aportuguesamento, e todo vocábulo estrangeiro, quando publicado na imprensa ou em anúncios publicitários, terá de vir acompanhado de um correspondente em português. Haja trabalho para filólogos e gramaticões! Resta saber se a lei castradora fará o deleite dos puristas com o banimento de todos os galicismos e anglicismos. É patético, raiando pelo escárnio. Enfim, tudo é possível num país que elege e reelege um Lula da Silva; e também não se pode esperar muito de nossa Suprema Corte tapuia que jamais vislumbrou a exeqüibilidade do bom senso. É relaxar e levar na galhofa.


domingo, dezembro 30, 2007

UMA MENSAGEM FÚNEBRE DE ANO NOVO

por Augusto de Franco
BLOG CASAGRANDE,

Perdão por enviar uma mensagem tão fúnebre numa época que deveria ser de esperança. Mas o fato é que, do ponto de vista da democracia e do desenvolvimento humano e social sustentável, o mundo não vai nada bem nesta quadra. Esquerda e direita estão se unindo em torno da reafirmação do Estado e a primeira vítima já está sendo a liberdade.

E as coisas só tendem a piorar se não acordarmos, se não cairmos na real, se não reconhecermos que nossos esquemas de interpretação do mundo foram por água abaixo e se não tomarmos a firme decisão de buscar novos caminhos, não mais baseados no estadocentrismo ou no mercadocentrismo, no coletivismo massificante ou no individualismo estiolante...
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DANUZA LEÃO

Folha de S.Paulo,

A maldição dos que não se conformam


A cada vez que fazem o que se costuma fazer nas datas certas, como todo mundo, sofrem, e muito

NINGUÉM DECIDE ser inconformado; eles nascem assim, ou não.
O universo dos que não se conformam é único. Sem nem se dar conta, eles compram as revistas de moda só para fazer exatamente o contrário do que elas mandam. Se foi decretado que o amarelo é a cor desse verão, o inconformado não precisa nem pensar: antes de sair de casa, tudo funciona no piloto automático, e até que o amarelo saia de moda ele não será visto convivendo com nada dessa cor; talvez nem coma mais bananas, até a onda passar.
Ele estará sempre ou muito à frente do seu tempo, ou lá atrás, bem longe. Um inconformado não iria, por dinheiro nenhum, passar o Réveillon ou o Carnaval em Salvador ou Trancoso; para ele, isso é coisa de um passado remoto, já vivido, ou talvez de um futuro, um dia. Recentemente foi obrigado a deixar de lado o vinho rosé, de que gostava tanto -e até bebia com duas pedrinhas de gelo- para não fazer parte da turma que descobriu, em 2007, esse tão antigo vinho da Provence. Teve que rever seus gostos, pelo menos por aqui, para não fazer parte do mundo dos que seguem a moda de perto demais. Os inconformados sofrem.
Não que sejam pessoas difíceis; elas apenas gostam de andar na contramão, e isso em tudo. Um inconformado só freqüenta praias no inverno, não vai a restaurantes da moda, e seu roteiro internacional é, geralmente, um pouco de Paris, Veneza, Marrakech ou Capri -fora de estação, é claro. Nunca pisaram em Bali e estão esperando que passe a febre da Índia para poderem voltar a esse país tão lindo, hoje tão banalizado; preferem ficar em casa, inteiramente sós, a fazer parte de qualquer grupo que se guia por modismos.
Um inconformado detesta datas; não sabe do dia do aniversário de nenhum amigo e gostaria que esquecessem do dele. Quando pode, pega um avião, vai para bem longe e só volta uns dez dias depois da "data querida", mas nem sempre consegue se livrar; tem sempre um amigo ou uma amiga que lembra e dá os parabéns quando ele volta. E tem mais: se ninguém se lembrar, o inconformado é capaz de sofrer, se achando um rejeitado. Se não é fácil entender um inconformado, mais difícil é ser um deles.
O fim de ano dos inconformados é um verdadeiro suplício; quando vê um gorrinho de Papai Noel, os comerciais na TV anunciando o Natal, as guirlandas de luzinhas piscando, ele passa mal, e se alguém mandar um cartão de feliz Natal ou uma lembrancinha, quer se atirar pela janela. Passa tudo adiante imediatamente, mas felizmente empregadas domésticas e porteiros estão aí para isso mesmo. Entre 20 de dezembro e 6 de janeiro, em suas casas não entra uma só castanha, um só panetone, nada que lembre, de longe, o tal do Natal; e, se conseguir, durante esse prazo nem atende o telefone. Um problema, entender um inconformado.
Eles até tentam, mas não conseguem -e não por falta de esforço; a cada vez que fazem o que se costuma fazer nas datas certas, como todo mundo, sofrem, e muito. Depois de algumas tentativas, desistem, ficam como são, e pronto; mas fácil não é.
Basicamente, os inconformados não suportam ter que viver da maneira que foi determinada, seja lá por quem for, mas têm, pelo menos, um mérito: não obrigam ninguém a fazer o que eles querem, seja lá o que for.
Só um inconformado compreende outro inconformado, e como eles são poucos, geralmente passam a vida sós; sós e sofrendo, porque eles sofrem -mas preferem assim. Mas, de alguma maneira, não escapam de desejar, a amigos e a todos, um feliz Ano Novo.
Sendo assim, feliz 2008.

danuza.leao@uol.com.br

FERREIRA GULLAR

Folha de S.Paulo,

O que não leio nos astros


Gostaria de só lembrar coisas boas, como o ursinho branco que comoveu o mundo

NUMA noite de 31 de dezembro, há muitos anos, na casa da família, no Leme, onde passávamos o Réveillon, debrucei-me à janela e olhei o céu. Era meia-noite e brindávamos a passagem do ano. Bebi um gole de champanhe e demorei-me a observar alguns pontos de luz que brilhavam na escuridão cósmica. Eram estrelas? Planetas? De fato era o mesmo céu que outras vezes olhara daquela janela.
Não havia ali nenhum sinal de que um novo ano começava. Olhei para a rua, os carros estacionados sob a luz dos postes, nada indicava que algo de especial acontecia. O Ano Novo não começa nem no céu nem no chão, pensei, começa no coração. No coração e na mente das pessoas, porque a vida é inventada. Nós dividimos o tempo em dias, meses, anos e, só por isso, amanhã, dia 31, termina o ano de 2007.
Não estarei naquela janela do apartamento do Leme e muitas daquelas pessoas não existem mais, melhor dizendo, estarão possivelmente brilhando como pequenas luzes na noite enigmática. Não voltarei a buscar nas estrelas sinais de que o ano mudou, mesmo porque, aqui em Copacabana, o céu estará tomado pelo estourar colorido dos fogos de artifício. E esse, sim, é um sinal de que um ano novo começa. Não um sinal cósmico, já que o cosmo está na dele: um sinal humano, com que assinalamos a alegria de estarmos vivos.
Mas, hoje, dia 30, pergunto-me o que de significativo ocorreu durante este ano que finda. Minha memória é falha, já nem consigo saber ao certo se determinado fato aconteceu este ano ou no ano anterior. Gostaria de só lembrar coisas boas, como aquele ursinho branco que a mãe ursa abandonou e cuja imagem comoveu o mundo. Os ecologistas queriam acabar com ele, dentro da lógica ecológica, segundo a qual, se a mãe ursa desistiu de criá-lo, não devemos nós contrariá-la. Ela é a natureza e a natureza tem sempre razão. E eu me perguntava: por que matar um bichinho tão lindo e sem culpa? Felizmente, os funcionários do zôo, "ignorantes", deixaram-se levar pelo carinho e o salvaram. A adesão cega a "verdades" pode nos levar a praticar crueldades, como, por exemplo, o jovem Raskolnikoff de "Crime e Castigo" ou, em escala apocalíptica, Osama bin Laden.
Um fato que muito me chocou este ano foi a cena daquela deputada chavista, esbofeteando, "ao vivo", um apresentador de televisão, que a teria ofendido. Ela veio garantida por quatro capangas, invadiu o estúdio e espancou o cara, repetidas vezes. Antevi o que seria a Venezuela sob uma ditadura chavista.
Se Hugo Chávez me lembra um urso pouco simpático, reconheço, não obstante, que a sua liderança é expressão do contexto histórico venezuelano, marcado por governos corruptos e indiferentes às desigualdades sociais. Porque procurou reduzir essas desigualdades, conta com o apoio dos pobres e dos que com eles se identificam. Mas a ambição do poder subiu-lhe à cabeça e ele então inventou o "socialismo bolivariano", que implicaria o fim da democracia na Venezuela. E não só lá, uma vez que, por dizer-se bolivariano, o novo regime tenderia a se estender por toda a América Latina.
Chávez deixa isso evidente quando se intromete nas questões internas dos países vizinhos, seja Colômbia, Peru, Bolívia, Equador, México e mesmo o Brasil, cujo Congresso foi por ele insultado.
As mudanças que Chávez pretendia ver aprovadas pelo referendo, além de permitir-lhe reeleger-se indefinidamente, transferia para suas mãos uma soma de poder que acabava com a autonomia do Judiciário e do Parlamento e liquidava na prática com a liberdade de imprensa. A criação de comitês comunais, cujos líderes dependeriam de sua aprovação, visava anular a ação dos partidos políticos e levar à imposição do partido único. Confiado na popularidade, Chávez tinha como certa a aprovação da proposta. Mas eis que a juventude universitária venezuelana tomou a si a missão de defender a democracia, foi para as ruas, mobilizou a opinião pública e derrotou o líder que parecia imbatível.
Quase no mesmo dia, pesquisa Datafolha revelou que 65% dos brasileiros são contrários ao terceiro mandato de Lula. Evo Morales também desistiu da reeleição sem limites. Os três baixaram o tom.
Talvez tenham entendido que podem fazer muito por seus países, sem embarcar numa aventura antidemocrática. Quanto a Chávez e Morales, não garanto, mas Lula sabe que, no Brasil, o buraco é mais embaixo. De qualquer modo, se não leio no céu nenhuma mensagem confiável, sei que pelo menos não pagaremos CPMF nos próximos meses.

CLÓVIS ROSSI Ano Novo e quarta marcha

Folha de S.Paulo,

SÃO PAULO - Nem preciso desejar feliz Ano Novo ao leitor, se ele é motorizado, como a grande maioria, e se ficou em São Paulo neste período de festas. Ganhamos a inestimável felicidade, embora pequena e inútil, de poder pôr quarta marcha, até quinta, no carro, mesmo em grandes avenidas, que deveriam ser "freeways", mas que, de "free", não têm nada.
Como mau brasileiro, acostumado a aceitar todas as penas que a vida/o governo nos impõem, já estava tão habituado aos ciclópicos congestionamentos que ficava com a sensação de que eles existem desde os tempos do padre José de Anchieta, quando o automóvel nem havia sido inventado.
Aliás, pela primeira vez na vida tenho um propósito de Ano Novo: quero ser ditador. Ditador municipal, que não dou para mais (nem para municipal, na verdade, mas sonhar é preciso). Só para baixar ato institucional proibindo o retorno a São Paulo dos carros que deixaram a cidade nessa época de festas. Nada pessoal. Seus ocupantes podem até regressar, desde que deixem os veículos onde estão.
É a única solução. São Paulo entupiu. Não cabem nela tantos carros. Houve época, já remota, em que a sabedoria convencional dizia que a expansão do metrô resolveria o problema.
Hoje, só se houvesse disposição e dinheiro para plantar uma estação de metrô em cada esquina.
Sem contar a necessidade de uma revolução cultural para fazer o distinto público aceitar o transporte coletivo, em uma era de individualismo exacerbado.
Nem sei se pedágio urbano resolve. Em Londres, ajudou algo, mas a cidade conta com espetacular rede de ônibus/metrô.
Aqui, será preciso ousadia de um visionário. Duvido que haja no mercado. Tanto que o prefeito Gilberto Kassab suspendeu o rodízio até dia 14. Como se o rodízio resolvesse algo nos outros dias.

ELIANE CANTANHÊDE "De olho no imposto"

Folha de S.Paulo,

BRASÍLIA - Governo e oposição chegam ao final do ano contabilizando perdas e ganhos com o fim da CPMF. Lula tenta transformar a derrota em vitória, acusando a oposição de prejudicar a Saúde. DEM e PSDB querem cristalizar a vitória amplificando na sociedade a grita contra a carga tributária. Boa briga.
O fim da CPMF encerra um ciclo de aumentos de impostos. Agora, o movimento é pela redução, soprado por ventos internacionais favoráveis, crescimento da economia interna, explosão na arrecadação. E não dá para continuar esperando a reforma tributária decidida por União, Estados e municípios.
Para o deputado Paulo Bornhausen (DEM-SC), que levantou a bandeira do "Xô, CPMF!", eles são um "clubão": "Quando esse clubão se reúne, é sempre para aumentar impostos, nunca para baixar".
Para surfar na onda do fim da CPMF e chegar a uma reforma tributária em dois anos, é preciso ampliar o debate do "clubão" para a sociedade que, pela primeira vez, tomou posição em relação a um imposto. O tema emergiu. O próximo passo da oposição será a favor de um projeto, De Olho no Imposto, que chegou ao Congresso pelas associações comerciais e com 1,5 milhão de assinaturas, determinando que as notas fiscais especifiquem o que vai para impostos e o que o consumidor paga de fato pelo produto ou serviço.
No Brasil, os impostos são abstrações. O camarada paga sem saber. Ouve falar que são escorchantes e nunca confere -nem se escandaliza. Se a nota fiscal deixar bem claro o golpe, vai servir de alerta, primeiro, e gerar pressão, depois.
A questão da transparência dos impostos pode chegar madura às eleições de 2010. O futuro presidente e o futuro Congresso serão compelidos a tomar providências. Não apenas sentados com governadores e prefeitos, mas ouvindo a voz dos contribuintes.
Taí, parece promissor.

elianec@uol.com.br

Miriam Leitão O balanço das horas

O GLOBO,

O ano poderia ter sido excelente na política; foi péssimo. Houve riscos de ser um ano difícil na economia; foi ótimo. O governo perdeu a lua-demel e a força do primeiro ano de um novo mandato; não fez reformas, nem novas propostas que removam os velhos obstáculos ao crescimento sustentado. As sombras de uma crise externa não reduziram o ritmo da economia, e o PIB cresceu muito além do esperado.

O país cresceu puxado pela economia interna; e não pela externa. Isso pela primeira vez em muito tempo. Foi o aumento da renda, do emprego e, principalmente, do crédito que fez deste um ano de consumo com alguns números exuberantes, como o das vendas de computadores e carros. A queda do dólar barateou produtos industriais, o que elevou o consumo, mas isso reduziu o superávit comercial. Pela primeira vez na década, a balança comercial cai e pode fechar abaixo de US$ 40 bilhões. Isso significa uma redução de US$ 6 bilhões em relação ao pico. Nada demais. O saldo continua alto, e uma grande parte do aumento das importações foi de bens de capital: setores os mais variados compraram máquinas para se modernizar. Dando tudo certo, os investimentos vão aumentar a produção e a produtividade no futuro.

Na política, o ano começou com o presidente Lula com a força da renovação do mandato nas urnas, depois de uma campanha difícil, marcada pelas denúncias de corrupção do mensalão.
Com a força da vitória, ele montou uma enorme coalizão. Ela serviu exatamente para... nada! O ano político se perdeu pela incapacidade de o governo usar o domínio natural que tem sobre a agenda legislativa em alguma direção. O país ficou à deriva politicamente.
Ora o Senado era utilizado como trincheira de defesa do ex-presidente Renan Calheiros, ora a base parlamentar usava a ameaça de perda da CPMF para chantagear o governo por cargos e verbas. O PT elegeu, para presidilo, Ricardo Berzoini, que era o chefe da campanha eleitoral de Lula em 2006, quando foram flagrados, com R$ 1,6 milhão em dinheiro vivo, funcionários do escritório de campanha. Mas ele assumiu falando em “ética”.

Como diria Ancelmo Gois: é, pode ser. O grande salto ético foi dado pelo Supremo Tribunal Federal quando, pela relatoria do ministro Joaquim Barbosa, iniciou o julgamento dos 40 envolvidos no mensalão. A boa peça, apresentada como denúncia pelo procurador-geral da República, aliada ao voto organizado e compreensível de Joaquim Barbosa, ajudou o país a relembrar os fatos, e os ministros a evitar os conchavos que poderiam levar ao alívio os mais poderosos. O PAC teve mais espumas que fatos; conseguiu investir menos de 60% do dinheiro previsto no Orçamento. O que realmente aconteceu de investimentos foi o que já haveria mesmo — com ou sem PAC —, como os feitos pela Petrobras e por empresas privadas. O país continua com seus gargalos logísticos, mas a boa notícia foi o leilão das rodovias, vencido pelo consórcio que derrubou o pedágio para níveis bem mais baixos que os cobrados atualmente. Na energia, só a chuva atenua os riscos de apagão num cenário de manutenção do atual ritmo de crescimento. Depois de muito acusar o Ibama pela falta de licença ambiental, o governo adiou três vezes a licitação da primeira usina do Rio Madeira. O leilão acabou acontecendo no último mês do ano, mas com forte presença estatal. Madeira é o centro do dilema: o governo decidiu fazer a Amazônia produzir energia, e a mudança climática exige cada vez mais que o Brasil preserve a floresta.

Com tudo isso, foi um ano notável por várias boas notícias: os empresários captaram mais no mercado de capitais que no BNDES. A bolsa bateu recordes mundiais de valorização. O país conseguiu passar bem pela ameaça de crise externa com o estouro da bolha imobiliária americana. O investimento direto estrangeiro ultrapassou US$ 30 bilhões. As vendas cresceram muito acima do esperado. O mercado imobiliário comemorou um ano como há muito tempo não se via no setor. Quando a crise americana estourou, foi um susto: aquele enorme gigante atingido no que tem sido o motor do seu crescimento, o consumo das famílias. Nos últimos anos, o consumo nos Estados Unidos vinha sendo puxado exatamente pela valorização dos imóveis, que deu aos americanos a impressão de que eles estavam ficando mais ricos. Quando estourou a crise, viram-se mais endividados.

Os rombos nos bancos assumiram proporções bilionárias, e ainda não são complemente conhecidos. Previu-se o pior. Ele não aconteceu porque os bancos centrais do mundo inteiro jogaram montanhas inacreditáveis de dinheiro no mercado para evitar a temida crise de crédito. Não evitaram exatamente, mas atenuaram os riscos. Outro motivo foi a boa saúde mostrada pelas economias dos países emergentes. O Brasil entre eles. O ajuste externo brasileiro, com a redução da dívida externa, a manutenção do superávit em conta corrente e a acumulação das reservas, ajudou o país a se preservar na crise como opção de investimento.

O ano termina bem, apesar do sufoco de dezembro, com queda de CPMF e indícios de pacotes, mas fica aquela sensação, de novo, de que, se o governo tivesse tido rumo e empenho, poderia ter aproveitado 2007 para novas reformas que garantissem o crescimento sustentado. Melhor que um ano bom, são vários seguidos. Por isso, aqui fica o desejo da coluna: Feliz Ano Novo!

João Ubaldo Ribeiro Lá vem ou lá foi, eis a questão

O Estado de S. Paulo,

Não sei se alguém já disse isto, mas tudo neste mundo é relativo. Por exemplo, não escondo ou diminuo minha idade, embora não censure quem o faça, mas tampouco a aumento, como já foi minha prática corriqueira. Ao matutar agora, neste fim de ano que como sempre nos traz um estado de espírito diferente, lembro o tempo comoventemente patético em que, na companhia de amigos corajosos, dispensava a carteira de estudante que, em troca da meia-entrada, me denunciava a idade, para enfrentar com a bravura possível a severidade do porteiro do cinema, quando estava passando "filme impróprio". Entregava meu ingresso e me embarafustava pela passagem, antes que meu rosto imberbe e cheio de espinhas chamasse a atenção do porteiro. A maioria deles era simpática, mas havia um (não esqueço a cara dele, baixinho de bigode, hoje certamente falecido e Deus o tenha, embora eu não faça tanta questão), no antigo Cine Glória em Salvador, que me pegava sempre e que quase me fez perder a cena em que aparecia um peito de Françoise Arnoul, num filme em que ela era amante de Fernandel.

Sim, só a turma de meu tope se lembra, se é que se lembra, de Françoise Arnoul e Fernandel, mas não tem importância. Basta imaginar a espera palpitante na fila, o suspense da passagem pelo porteiro e a ansiedade terminal de quem ia ver pela terceira ou quarta vez, ou quantas lhe coubessem no esquálido orçamento, um peito de Françoise Arnoul. Se bem me lembro, a cena era trivial e podia ter acontecido de forma imprevista, mantida mais tarde pelo diretor, tamanha era a casualidade com que acontecia. Discutindo com Fernandel, Françoise Arnoul, de combinação e sem sutiã (e isto, distinta jovem, amável rapaz, num tempo em que as atrizes americanas dormiam maquiladas e de sutiã e ficavam grávidas sem que a barriga aumentasse), vai pegar algo, uma alça da combinação escorrega e - aaaaai! - aparece um peito durante meio segundo, que ela logo esconde outra vez, com uma puxada distraída na alça. Barato indescritível, insubstituível, irrevivível.

Aumentei muito a idade por causa dos filmes impróprios. Cheguei a ser uma autoridade no assunto, talvez o rapaz de minha idade que a mais filmes impróprios assistiu. Devo dividir com mais uns dois ou três gatos-pingados a lembrança, há muito levada pelo vendaval do tempo, das deusas que ninguém mais celebra. Não me refiro a Martine Carol, Silvana Pampanini e outras ainda saudosamente cultuadas, num eventual momento de solidão nostálgica, pelos quirômanos d?antanho (domingo, dia de levantar dicionário, precisamos fazer alguma coisa quanto à barriga - pelo menos eu preciso), ainda hoje na ativa. Eles não esqueceram, por exemplo, da lourinha Mylène Demongeot, que tanto sucesso fez no Rio de Janeiro e que hoje estará sabe-se lá onde. Tentei uma enquete, ninguém se lembrava de Mylène Demongeot. Eu me lembro de Mylène Demengeot. E também tem outro coroa, de quem muitos de vocês já devem ter ouvido falar, que se lembra de Mylène Demongeot, só que com muito mais profundidade do que eu, mas não lhe posso revelar o nome porque a mulher dele pega pesado.

E também levo vantagem pela minha condição de itaparicano. Hoje em dia não tem cinema em Itaparica, mas já teve. Teve dois, aliás, sendo que um, o de Waldemar, no Alto de Santo Antônio, era com poltrona estofada, coisa finíssima. Já o de Nélson era no Campo Formoso, mais ou menos perto lá de casa e, quando a bilheteria fraquejava, Nélson contratava uma série policial (não vou explicar o que era o perigo da série às novas gerações, quem tem seu neto que se vire) e um filme impróprio. Comparecimento infanto-juvenil garantido e ninguém era besta de negar entrada aos meninos, não só por consideração a Nélson como porque do contrário os pais iriam reclamar, era pelo menos uma folguinha que eles tinham. O que eu vi de peito europeu, modéstia à parte, merecia um certo reconhecimento cultural.

Mas não era sobre peitos, hoje mais à mostra que feijão na feira, que eu queria escrever, à beira deste ano que vai entrar. Queria apenas referir-me à ironia com que a vida nos trata o tempo todo. Aumentei a idade para ver peitos no cinema. Aumentei a idade para não ser considerado pirralho pelas moças (mas mesmo assim era). E cada réveillon me deixava ansioso que passassem logo os dias até meu aniversário, que é no mesmo mês. Era um ano começando, era eu ficando mais homem, eram perspectivas se abrindo - era, enfim, uma boa sensação ver um ano esvoaçando para nunca mais voltar e outro se abrindo em promessas, esperanças ou certezas, pois naquele tempo havia certezas, hoje finadas.

Bem, o futuro chegou, é isto aqui onde estou. De início, pensei que a vaga melancolia que me tem acometido era causada pelo que temo do que talvez venha pela frente. Pode ser isso, mas meu temor é misturado irracionalmente com esperança. Não, não era somente isso. Talvez já estivesse notando o que vou dizer e ocultando-o de mim mesmo, mas este ano foi que me pegou. Foi o primeiro ano que não sinto chegar, mas sinto passar. Daí ter pensado nesse título bobo. Para uns é mais um ano que vai, para outros é mais um ano que chega. Para mim, verdade, pois não cuspo no prato nem me queixo, também é um ano que chega. Mas é principalmente, sinto que doravante cada vez mais, um ano que vai. Claro que, para todos vocês, além de um ano que chega, é um ano que vai. Mas alcancei claramente um ponto em que decididamente o ano não chega, vai. E o próximo também irá. É bom saber disso, é bom para a humildade que deve acompanhar a condição humana. Boas entradas e, para os encalacrados, boas saídas.


''''Enfrentava com a bravura possível o porteiro do cinema, quando passava ?filme impróprio?''''

''''Uma alça da combinação escorrega e - ai... Lembranças das deusas que ninguém mais cultua''''

DANIEL PISA

O Estado de S. Paulo,

Depois do checápi

sinopse


Estes tempos de virada de ano são supostamente mortos, tempos de ócio e não de ação, de balanço e não de batalha, e há a conhecida e irônica frase de Drummond sobre a genialidade de cortar o tempo em fatias de 12 meses para que se renovem as esperanças. Não dá para conter a contabilidade das metas atingidas, a sensação de fazer uma pausa na correria, o inevitável convite para retrospectivas e veraneios. Mas, pelo mesmo motivo, embora em outro ciclo, há também um gosto de rotina em tudo isso; todo ano é a mesma patacoada sobre fé e futuro e a mesma ilusão de que a vida possa ser menos corrida. Em vez de conviver com a velocidade, prefere-se sonhar que ela seja abolida.

Neste ano, por sinal, fiz no Fleury meu primeiro check-up e soube que os poucos problemas não eram sérios. Me disseram que o simples ato de fazê-lo levaria a uma revisão do que vivi e não vivi até aqui, mas isso não aconteceu. Os triglicérides estavam altos e o risco de doenças cardiovasculares era 2%, o que o alarmismo dos tempos trata sempre de ampliar. Cortei doces, perdi meia dúzia de quilos em três meses e as taxas se normalizaram. Também fiquei sabendo que tenho um coração diferente, com um padrão chamado Wolff-Parkinson-White, presente em menos de 0,5% da população. (Posso ouvir meus detratores, que tanto me acusam de ser frio e crítico demais, dizendo: "Tá explicado"...) Não passa de um desvio no circuito elétrico do coração, em meu caso sem arritmia. Descomplicar a existência é melhor para a saúde do que qualquer feriado.

Tive, afinal, um ano muito bom em vários aspectos, cheio de desejos realizados e descobertas prazerosas, nesse equilíbrio frágil - todo equilíbrio é frágil - entre o que se pode e o que não se pode programar. É claro que tenho meus planos, para 2008 e para depois, mas procuro não fazer como a maioria que nunca está no momento em que está, que nunca vive o agora e só o antes e o depois, que não se abre aos acasos felizes da vida. Eu, por exemplo, acabo de ser premiado com a releitura dos textos de Jorge Luis Borges, de contos como os de Ficções e ensaios como os de Outras Inquisições. A contingência fez um laço de presente entre passado e futuro.

Borges, que peregrinei até o Masp para ver em 1984, foi enorme admiração de juventude, depois passei um período cansado dele e, de alguns anos para cá, penso nele cada vez mais. Ele é breve e denso e, muito influenciado pela literatura de língua inglesa (Chesterton, Shaw, Poe, Stevenson), desdenha o barroquismo e o croniquismo dos latinos. É antinacionalista por definição. Seu interesse é a filosofia, em especial a metafísica, e sua obra não se reduz à imagem que se tem dele como um pós-moderno dedicado a jogos de linguagem, colagens de citações, charadas eruditas - como se a biblioteca fosse o mundo e não sua metáfora. Faz sérias restrições a alegorias e a exercícios combinatórios. É um cético e seu alvo é a pretensão idealista de tudo nomear e classificar, de se sentir "senhor da percepção abstrata do mundo" e "senhor de um tesouro intacto e secreto", como seus personagens se sentem.

O máximo de ordem, como em Kafka, significa a imobilidade, a paralisia, pois o tempo é uma sucessão irreversível, da qual as idéias participam sem jamais poder dar conta; indivíduos pertencem a uma espécie e, como tal, trazem inscritos seus instintos e sua história, num eterno e insolúvel conflito entre arquétipos e circunstâncias. Pode ver como em seus relatos - não só em O Jardim das Veredas Que se Bifurcam, mas também em O Sul, que considerava seu melhor conto porque pode ser lido como narração direta e também ensaio filosófico - há sempre uma tomada de decisão pressionada pela mortalidade. Não é possível não fazer opções - eis seu recado maior. Borges serve, como poucos, para lembrar que tempos mortos não existem.

RODAPÉ

É comum a confusão entre perfil e biografia no Brasil. Perfil não é uma biografia compacta, embora possa conter todas as informações principais a respeito da vida que narra; perfil é um recorte dessa vida, a opção por um ângulo de abordagem. Em Joaquim Nabuco (Companhia das Letras, coleção Perfis Brasileiros), a socióloga Angela Alonso parece querer contar tudo sobre seu personagem no menor espaço possível, mas precisou de 379 páginas. O texto apressado, indefinido entre o formal e o informal, termina sem dar o devido peso relativo aos atos e fatos, o que se exigiria também de qualquer biografia. Há episódios importantes como o debate com Alencar e a amizade com Machado que mereceram apenas alguns parágrafos. As poucas tônicas dominantes não fazem justiça a Nabuco, rara figura pública na história política do Brasil, além de prosador admirável, autor de obras-primas como Minha Formação, O Abolicionismo e Um Estadista do Império.

As tônicas se referem a seus modos e gostos aristocráticos, elitistas, que seriam a explicação para sua eminência na campanha pela abolição. É como se Quincas, o Belo, que passou metade da vida viajando e tendo diversos casos amorosos, só tivesse se destacado por sua aparência, eloqüência e "senso de oportunidade". Não; o que fez de Nabuco o representante maior do movimento foi o fato de ser o mais preparado, agudo e ético de todos. Ele lutou pelo fim da escravidão mesmo ciente de que a monarquia - a qual defendia com argumentos que, numa perspectiva de época, são plausíveis, ainda que discordemos - poderia ruir junto. A "dignidade humana", escreveu, está acima de ideologias. E ele captou pioneiramente que a cultura escravista sobreviveria na forma oligárquica como se comporta o poder à moda da casa - observação que, às vésperas de 2008, não poderia ser mais atual.

CADERNOS DO CINEMA

Os fantasmas de Goya, título original de Sombras de Goya, pouco aparecem no filme de Milos Amadeus Forman. Há desde o princípio um problema de elenco, porque Stellan Skarsgard não convence no papel do mordaz pintor espanhol e a bela Natalie Portman menos ainda como Inés, modelo sua que é presa pela Inquisição. Javier Bardem faz o padre, Lorenzo, que se envolve com ela; a grande cena é dele, quando pressionado pela família da moça. Mas a história é folhetinesca demais, um rocambole cheio de "acasos" hollywoodianos, e, por sinal, é mais um caso de trailer melhor do que o filme.

DE LA MUSIQUE

Escutar de novo as canções de Clube da Esquina, de Milton Nascimento, dá prazer e pensar. Relançados agora em caixa com três CDs, os dois discos - de 1972 e 78 - reivindicam, como diz o próprio Milton, um lugar melhor na tal "linha evolutiva" da MPB, na qual sempre ficaram em segundo plano em relação a movimentos como a Tropicália. Há neles um cultivo da harmonia raro na música nacional, digno de Caymmi, Tom Jobim, Edu Lobo e poucos mais. O primeiro disco tem orquestrações de Wagner Tiso e Eumir Deodato, o que já diz muito.

Apesar de não ter passado por remasterização como Tom & Elis (pois a matriz não foi encontrada), a remixagem deu clareza a alguns instrumentos, como teclados e violões, e acentua a influência dos Beatles sobre Lô Borges. Mas o melhor são as faixas de Milton como a lindíssima Cais e San Vicente (ambas com letra de Ronaldo Bastos), que realmente não se deixam classificar: bebem no samba, na bossa, no jazz, na África, nos Andes... No segundo e terceiro CDs há parcerias memoráveis com Chico, Elis e Ruy Guerra. A Tropicália foi mais ousada e fértil, mas essa esquina também precisava ser dobrada.

POR QUE NÃO ME UFANO

A economia foi bastante bem em 2007, confirmando o aumento de produtividade, investimento e crédito - como se viu nos resultados do Natal - e se aproximando do patamar de 5% de crescimento. Há sinais de que este ritmo não é sustentável a médio prazo, pelos gargalos de infra-estrutura e qualificação, e até de que em 2008 já começaria a sofrer por causa da inflação, da conjuntura, etc. Mas, independentemente de futurologias, é certo que a política, para variar, só atrapalhou. Foi um ano perdido.

Era o momento, neste primeiro ano de segundo mandato, para o governo Lula fazer reformas como a tributária e a política, mas tudo que se viu foi o Congresso enrolado no caso Renan e na barganha da CPMF. O caos aéreo e a mortandade nas estradas só aumentaram a sensação de que o Executivo é incompetente. E os escândalos de insegurança e impunidade continuaram banalizando o mal, assim como a Polícia Federal banaliza suas ações. É uma ilusão pensar que "enquanto Brasília dorme, o Brasil cresce". O pesadelo está sempre por perto.



''''Descomplicar a existência é melhor para a saúde do que qualquer feriado''''

''''A obra de Borges não se reduz à imagem de um pós-moderno dedicado a jogos de linguagem''''



Aforismos sem juízo

Prudência, s.f. - Sacrificar o começo pelo final, como se o final sempre se conhecesse.

Mailson da Nóbrega O que pode dar errado em 2008

O Estado de S. Paulo,


O desempenho da economia em 2007 surpreendeu os mais otimistas. O PIB pode ter crescido 5,3%, o resultado mais expressivo desde 1994. Dificilmente será melhor em 2008, como afirmou Lula, mas pode ser algo satisfatório, como 4,5%.

Três fatores podem atrapalhar: (1) uma piora da situação fiscal; (2) pressões inflacionárias; e (3) uma forte recessão nos EUA.

A piora fiscal viria do não-cumprimento da meta de superávit primário, causado pela perda da CPMF. O risco Brasil aumentaria, provocando desvalorização cambial e pressões inflacionárias. O Banco Central manteria ou elevaria a taxa de juros. O ritmo de crescimento cairia.

Esse risco é o menor dos três. Decorreria da incompatibilidade entre o compromisso de Lula com a meta de superávit e suas promessas posteriores: não cortar nem o Bolsa-Família nem o PAC e, ao mesmo tempo, não aumentar tributos. Seja como for, Lula não correria o risco e apertaria o caixa para atingir a meta.

O segundo risco é mais sério. O ano termina com pressões inflacionárias inequívocas. O IPCA pode alcançar 4,5%, em cima da meta.

Há poucos meses, projetava-se menos de 4%. A piora veio da forte alta dos alimentos, mas pode ser também sinal de excesso de demanda interna. Se a inflação continuar a subir, o BC elevará os juros. A expansão do PIB arrefecerá.

BC DESENVOLVIMENTISTA

A elevação da Selic geraria protestos. Economistas heterodoxos defendem um BC "desenvolvimentista", invocando o exemplo do Federal Reserve, cujo mandato inclui o crescimento, sem atinar que o Fed contribui para a expansão do PIB à medida que preserva a estabilidade da moeda e não com redução voluntarista da taxa de juros.

É verdade que a preocupação com a atividade tem levado o Fed a reduzir a taxa de juros, mas não como pensam os heterodoxos e sim para evitar que a crise das hipotecas subprime contraia o crédito e prostre a economia, como aconteceu no Japão nos anos 90.

Aqui chegamos ao terceiro risco, o mais grave dos três. A maioria dos analistas crê que são baixas as chances de uma recessão na economia americana, mas tem crescido a legião dos pessimistas, os quais antevêem algo muito mais grave.

Nas últimas semanas, surgiram visões catastrofistas. As perdas com as hipotecas seriam maiores do que se pensa e provocariam redução dramática do crédito. A recessão assumiria contornos de uma depressão, que atingiria a economia mundial.

É o caso do Personal Assets Trust (PAT), um gestor de recursos de Edimburgo, no Reino Unido, que prevê o desastre e por isso resolveu se desfazer de todos os seus investimentos para manter-se 100% líquido.

O PAT calcula que as perdas com as subprime atingiriam US$ 1 trilhão, muito acima da estimativa do presidente do Federal Reserve (US$ 150 bilhões) e da Goldman Sachs (US$ 400 bilhões).

Para salvar o sistema financeiro mundial, o Fed poderia reduzir a taxa de juros a zero, como fez o Banco do Japão nos anos 90, ou emitir moeda, como o Reichsbank, o banco central alemão, em 1923.

COLAPSO DO DÓLAR

Ocorre que essas medidas poderiam gerar o colapso do dólar e um rápido aumento da inflação. Uma boa parte dos hedge funds quebraria, agravando as dificuldades dos bancos que lhes fornecem crédito. Os problemas seriam de tal monta que o Fed e outros bancos centrais seriam incapazes de resolvê-lo.

A saída seria o socorro do Tesouro americano, mas o custo para os contribuintes a tornaria politicamente inviável.

Há razões para crer que o cenário apocalíptico não é o mais provável. A economia americana desaceleraria em 2008, mas cresceria entre 1,5% e 2%. A expansão da China, da Índia e de outros países emergentes contrabalançaria a queda da atividade econômica nos Estados Unidos. A economia mundial cresceria 4,5% a 4,8%, menos que os 5,2% previstos para 2007, mas acima da média dos últimos vinte anos.

Mesmo que se materialize um cenário menos benigno na economia americana, a economia mundial poderá crescer em ritmo melhor do que nessas duas décadas. O Brasil está mais preparado para enfrentar uma situação desfavorável do que em crises anteriores, quando nossas fragilidades amplificavam os efeitos das turbulências externas.

Como se viu de recentes declarações de Lula, sua intuição e bons conselhos lhe deram a noção precisa do que pode tirar o sono dele e de nós todos: um aprofundamento da crise de crédito americana. Esperemos que os arautos do caos estejam errados.

Bolsas fecham o ano sem crise

O Estado de S. Paulo,

Alberto Tamer*


Apesar da crise imobiliária nos Estados Unidos, que agitou o mercado financeiro, mesmo sem ter contaminado a economia, as bolsas se comportaram bem; na verdade, bem até demais. O índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) termina o ano com um valorização surpreendente e 43,4% (até o dia 27) e, mesmo crescendo menos, todas as outras, com exceção do Japão, ficaram positivas.

Até agosto, quando a crise financeira começou a se agravar, com os bancos centrais socorrendo o mercado com mais de US$ 600 bilhões, as bolsas passaram por dias de grande tensão. Só aqui, o BC não precisou socorrer ninguém... Tudo o que acontecia com as instituições financeiras se refletia no mercado acionário pela sua liquidez e imediata visibilidade; qualquer queda mais brusca gerava inquietação, o que era pouco real, pois elas não refletiam o estado de saúde da economia. Enquanto a americana recuava e a européia estagnava, a brasileira crescia 5,7%.

A coluna pode afirmar, com toda segurança, que o mercado de capitais brasileiro reagiu galhardamente ao furacão. A oferta pública, conhecida pela inicial IPO (na sigla em inglês), da própria Bovespa Holding S.A., cujas ações começaram a ser negociadas no dia 26 de outubro, dois meses a explosão da bolha, captou R$ 6,626 bilhões, tornando-se o maior IPO da história da instituição, que tem 117 anos. Isso retratava a enorme confiança dos investidores num mercado que estava sendo fortemente abalado no Brasil e no exterior. A valorização do primeiro dia de negociação levaria a Bovespa Holding para uma expressiva classificação entre as maiores bolsas do mundo em termos de seu próprio valor de mercado. Para ser mais exato, a Bovespa, a quinta do mundo, atrás das Bolsas de Frankfurt, Chicago (CME), Hong Kong e Nova York, está à frente dos pesos pesados Bolsa de Londres e Nasdaq. Parece que, enquanto os mercados externos se agitavam, o nosso seguia de forma ordenada, sem despertar aquele quase pânico das bolsas americanas e européias.

ESTRANGEIROS FICARAM

Milagre? Não. A consistência, embora ainda sem muita solidez, da economia nacional explica em parte isso. No fundo, a aparente vulnerabilidade externa e a extrema liquidez no mercado, pesou muito na decisão de estrangeiros migrarem para o Brasil, onde o cenário era bem mais tranqüilo.

Com certeza o investidor estrangeiro foi um dos maiores personagens desse êxito. "Apesar de estarem mais seletivos que em anos anteriores e provavelmente mais cautelosos a partir dos primeiros sinais da crise das hipotecas, os estrangeiros foram as grandes estrelas das ofertas públicas no mercado de capitais brasileiro", confirmou para a coluna Gilberto Mifano, CEO da Bovespa Holding. "Em 2007, a participação do investidor estrangeiro nas ofertas de ações, incluindo IPOs, representou 76% dos R$ 69,5 bilhões captados ao longo do ano."

Com esse impulso proporcionado pelos estrangeiros, o mercado de capitais brasileiro decolou em 2007. Foram 64 entradas de empresas lançando ações e captando recursos na bolsa paulista, número 146% superior às ofertas públicas de 2006, que ficaram em apenas 26; ou, ainda, para realçar mais a importância desse movimento, 611% acima das ofertas de 2005, com somente nove empresas novas entrando na bolsa.

Dado igualmente relevante é o fato de que a esmagadora maioria desses IPOs ocorreu no chamado Novo Mercado, segmento especial de governança corporativa criado pela Bovespa, que oferece mais direitos aos acionistas minoritários do que a própria lei das Sociedades Anônimas.

MAIS DE R$ 1 TRILHÃO!

Qualquer outro dado de 2007 aponta na mesma direção. O volume financeiro total movimentado na Bovespa contabilizou o extraordinário valor de R$ 1,2 trilhão, praticamente o dobro dos R$ 598 bilhões de 2006! Foi a primeira vez que o mercado à vista superou a marca de R$ 1 trilhão. Em número total de negócios efetuados no pregão, o salto foi de 21,521 milhões, em 2006, para mais de 37,450 milhões, em 2007.

A procura dos investidores pelos ativos listados na bolsa também impulsionou substancialmente o volume financeiro médio negociado nesse mercado. Ainda comparando 2006 a 2007, a alta ultrapassa os 101%; saiu de R$ 2,43 bilhões para R$ 4,89 bilhões.

Em dólar, a variação é ainda maior, 128%, com valores passando de US$ 1,120 bilhão para US$ 2,554 bilhões.

Comparado a outros tipos de investimento, o Ibovespa foi o que mais se valorizou no ano. A alta chegou a 43,3% (até 27/12) em reais e de 73,5% em dólares. O índice nominal saiu de 44.473 pontos em dezembro de 2006 para 63.774 pontos. Em dólar, a evolução parte de 20.801 pontos em 2006 para 36.090.

A BOVESPA NO MUNDO

Outros dados impressionantes que mostram o vigor da bolsa paulista e da economia nacional é a enorme diferença entre a valorização do índice da Bovespa e a das principais bolsas mundiais. Sem exagero da coluna, o resultado, até o dia 27, é verdadeiramente impressionante. Enquanto a valorização do Ibovespa foi de 43,4%, o Dow Jones cresceu 7,19%, o Nasdaq, 10,83%, o CAC 40 de Paris, 1,55%, o FT-100 de Londres, 4,45%, e o Nikkei de Tóquio estava negativo em 11,13%. A que se aproximou do Ibovespa foi o DAX 30, da Bolsa de Frankfurt, com valorização de 21,85%.

Com esses resultados, o Brasil e a Bovespa têm muito a comemorar neste fim de ano. A começar pela já mencionada histórica abertura de capital de outubro. Isso mostra que o mercado de capitais brasileiro deu mais um passo significativo no caminho aberto da maturidade.

*E mail - at@attglobal.net

Suely Caldas Bom na economia, ruim na política

O Estado de S. Paulo,



Em saudação de final de ano, quinta-feira à noite, o presidente Lula glorificou o desempenho de seu governo em 2007, mas não o comparou com o primeiro mandato, como prometera no início do ano. Poupou-nos da expressão "nunca antes neste país", que já virou galhofa, enalteceu o quadro econômico, foi menos esfuziante com o social e nenhuma palavra sobre a prática da política em seu governo, a não ser uma rápida menção à democracia, desprovida de qualquer comentário ou conteúdo. A tônica do discurso foi o otimismo, por vezes exagerado. Dias antes, no programa de rádio Café com o Presidente, ele se superou: "O pobre está indo às compras de Natal em shoppings." Menos, Lula, menos! O Bolsa-Família distribuiu renda, mas o shopping ainda está muito distante da vida do pobre.

No campo da economia há o que comemorar:

Finalmente o País saiu da posição de lanterninha na América Latina e cresceu próximo de 5% em 2007, o desemprego caiu, aumentaram empregos com carteira assinada, as contas externas continuam superavitárias, o mercado de capitais expandiu-se e se consolidou como financiador de investimentos das empresas.

A crise de crédito dos EUA pegou o Brasil com reservas cambiais de quase US$ 200 bilhões e nossa economia resistiu bravamente.

Em 2007 o Brasil ficou mais próximo da classificação de "grau de investimento". Incertezas com o desequilíbrio fiscal e a inflação podem adiar, mas é provável que consiga ainda em 2008.

Finalmente o governo capitulou diante da realidade, engavetou as Parcerias Público Privadas (PPPs) e fez as primeiras licitações de serviços públicos de rodovias e geração de energia elétrica para empresas privadas.

Para ser justo Lula deveria dividir este sucesso entre o Banco Central, que soube monitorar a economia; o setor privado, que acreditou, investiu na expansão da produção e sustentou o crescimento econômico; e o fator sorte, que fez coincidir os cinco anos de gestão Lula com um raro e longo período de prosperidade econômica no planeta. Já os Ministérios setoriais ligados à produção continuaram em 2007 tão perdidos como no primeiro mandato - o que explica a lentidão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a paralisia de investimentos em infra-estrutura.

Na área social há avanços, mas também reparos:

O programa Bolsa-Família já distribui renda a 11 milhões de famílias, mas não avançou em descobrir uma porta de saída que leve as famílias a buscar autonomia financeira.

Finalmente a educação melhorou, sob o comando do ministro Fernando Haddad, com a criação de novas escolas técnicas e investimento em qualificação do ensino fundamental e universitário. Mas a segurança não saiu do lugar, a violência cresce, abarrota as prisões, verdadeiras fábricas de delinqüentes, e é pífio o investimento na construção de mais penitenciárias.

Os R$ 40 bilhões da CPMF em 2007 não tiraram a saúde da situação de calamidade. Os hospitais públicos continuam desaparelhados e o Sistema Único de Saúde (SUS), sem verbas e sem estrutura para atender milhões de doentes pobres que só conseguem uma consulta em prazos de três, quatro meses e uma cirurgia em um ou dois anos.

Já na área política, o presidente Lula omitiu comentários no discurso, por motivos óbvios: não há o que comemorar, mas muito a se envergonhar.

Veio do Poder Judiciário, jamais do Executivo, o único sinal de expectativa de punição para mensaleiros, sanguessugas, vampiros e aloprados, flagrados em 2005 desviando dinheiro público para políticos do PT e da base aliada. O monopólio da ética e da honestidade, reivindicado pelo PT por anos, foi destruído, desmascarado.

O comportamento de Lula em relação à corrupção continuou patético em 2007: nunca soube, não viu, nem ouviu. E quando se manifesta publicamente é para perdoar, afagar e desculpar o corrupto. Desde a célebre frase "assino um cheque em branco em favor do companheiro Jefferson", dita em defesa do deputado cassado Roberto Jefferson, que até hoje não explicou o destino de R$ 4 milhões desviados pelo valerioduto.

O exemplo de Lula provoca reações diferentes nos jovens com a cabeça em formação, ambas péssimas para a democracia. "Se os políticos são assim, eu vou é me dar bem também", dizem uns. Outros respondem à decepção do exemplo com apatia, indiferença e desprezo pela política.

Virou corriqueiro o toma-lá-dá-cá entre o Executivo e o Congresso e a chantagem prosperou solta em decisões políticas.

Em suma, foram seis anos de desconstrução da democracia.

Feliz e próspero 2008 para todos!

Celso Ming Festa na Bolsa

O Estado de S. Paulo,
Este ano, a Bolsa deu um show. O Índice Bovespa, que mede o comportamento das 63 ações mais negociadas, fechou o ano com valorização de 43,6%. Nos últimos cinco anos, foram 467,0%. Nada mau.

Ninguém contava com tudo isso. O desempenho muito melhor do mercado de ações obrigou os especialistas a constantes revisões de suas estimativas. A maioria fez suas reprojeções na moita. Poucos tiveram o fair-play de reconhecer os erros de previsão como aconteceu com a estrategista da Fator Corretora, Lika Takahashi, que vinha insistindo na marca dos 51 mil pontos, mas no início de outubro rendeu-se às evidências. Evocou o poeta Schiller, perpetuado no final da 9ª Sinfonia de Beethoven: "Mudemos de tom..." E reviu para o fim deste ano um Ibovespa entre 58 mil e 60 mil pontos, também largamente ultrapassado.

Como tudo em investimentos, não dá para contentar-se com a imagem do retrovisor. O que importa é o que vem aí.

O que dá para dizer é que, apesar da crise ainda não absorvida, o mercado internacional vai continuar inundado de dinheiro, com juros baixos e poucas opções firmes de aplicação. Isso tende a puxar para o risco. E risco por risco, aí estão, outra vez, os emergentes, Brasil entre eles, cada vez mais sob foco, porque ostentam saúde fiscal e bom crescimento.

Em 2008 pode sair o grau de investimento para os títulos de dívida do Brasil. Se isso se confirmar, milhares de fundos de pensão, fundos de investimento, administradores de fundos conservadores de patrimônio e até mesmo bancos centrais estarão autorizados a incorporar títulos da dívida brasileira no seu patrimônio. Quer dizer, capitais baratos deverão desembarcar por aqui. Para um mercado sedento de rentabilidade com segurança, é sopa no mel.

Baseados no que aconteceu em anos anteriores com outros países emergentes que obtiveram grau de investimento, os observadores apostam que a Bolsa pega carona nesse fluxo. Mas, ao contrário do que acontece com outros setores do mercado financeiro, tende a antecipá-lo, para logo em seguida partir para uma rápida desova de realização de lucros.

A Bolsa deverá refletir três pontos de tensão. O primeiro deles é fiscal. É preciso ver se o governo Lula vai repor as perdas com a CPMF e em que proporção. Além disso, as eleições de outubro tendem a levar o governo a afrouxar os controles nas despesas públicas. Se a gastança passar dos limites, a desconfiança pode vir e refletir-se no comportamento do mercado de ações.

O segundo tem a ver com a trajetória do Ibovespa. Quanto mais rapidamente ocorrer nova valorização dos papéis, tanto mais rápido poderá vir o ajuste. A partir do momento em que o mercado perceber que ficaram caros demais, tenderá a desfazer-se deles.

O terceiro está relacionado com os desdobramentos da crise do dólar lá fora. Em princípio, a economia brasileira está melhor preparada para enfrentar movimentos irracionais globais. Mas não está imunizada, especialmente se o governo Lula vacilar na condução das contas públicas.

Mas o ano de 2008 começa promissor.


Confira


A aposta deles - Na amostra acima, as instituições mais pessimistas prevêem para o fim de 2008 uma valorização de 12,7% para o Índice Bovespa. E a mais otimista, de 28,4%. A renda fixa não promete mais do que 11%.

Olhando as estrelas Gaudêncio Torquato

O Estado de S. Paulo,


Antes de virar a página de 2007, é inevitável constatar: o Brasil não apenas sobreviveu à avalanche de escândalos que, ao longo dos últimos meses, corroeram a imagem de políticos e instituições, como exibe vigor econômico, propiciando um pouco mais de conforto a milhões de brasileiros de classes sociais mais baixas e resultados positivos para setores produtivos. Compreende-se, assim, a exacerbação retórica do presidente Lula, para quem 2008 será "infinitamente melhor". Deixando de lado o advérbio, que soa exagerado nos anais do auto-elogio, é razoável apostar na consolidação dos eixos macroeconômicos, que funcionam de maneira eficaz, até porque são guiados pelo piloto automático. Sob a configuração herdada dos antecessores, aprimorada e praticamente intocável, mesmo sob a pressão de defensores de um programa desenvolvimentista arrojado, criaram-se condições para o País resistir a eventuais abalos gerados pela conjuntura internacional, a partir da anunciada crise americana. Garantido um cinto menos apertado e, por conseqüência, a provisão de bens e a satisfação do estômago, resta saber se a cabeça política da Nação acompanhará, no próximo ano, o previsível bem-estar do corpo.

É aqui que a coisa pega. Nosso sistema político, como bem o sabemos, caminha léguas atrás do sistema econômico. A imagem do trem entra na paisagem. A locomotiva econômica, de porte moderno, puxa um conjunto de compartimentos políticos, velhos e enferrujados. Eis a imagem acabada do País que desponta como potência emergente não pela qualidade de sua democracia, mas em função das condições do território e de seu potencial empreendedor, capazes de torná-lo exportador privilegiado de matérias-primas e gigantesco parque manufatureiro. Por mais que se pregue a fortaleza de nossas instituições, sob o argumento de que os Poderes funcionam a plena carga, executando, legislando e administrando a Justiça, torna-se patente a defasagem entre o que desempenham e o que deles se espera. No fechamento da agenda política, poderíamos estar comemorando os avanços das reformas. Mais uma vez, elas foram para as calendas. Este ano, as conquistas foram modestas, destacando-se a decisão sobre fidelidade partidária, no âmbito da Câmara dos Deputados, após a intromissão do Judiciário na arena política.

A azáfama interna praticamente tomou conta da Casa. Ou seja, o Legislativo conferiu especial atenção a denúncias que atingiram parlamentares. Ademais, a instituição praticamente se curvou às pautas encaminhadas pelo Executivo, usando parte do tempo para patinar nas nuvens, prestando homenagens e congratulações. Apenas 22,9% das propostas saíram da própria Casa, enquanto 75,8% dos 157 projetos sancionados pelo Congresso foram de autoria do Executivo. Por não legislar em matérias fundamentais, como a disciplina política, perdeu tempo procurando estabelecer limites de competência com o Judiciário. Evidenciou-se, nesse aspecto, a ausência de legislação infraconstitucional, buraco aberto pela Constituição de 88. Mais uma vez, as questões endógenas predominaram sobre as questões exógenas, contribuindo para expandir o fosso entre a representação política e a sociedade. O sentimento de inoperância, desleixo e desconexão com a realidade só não chegou ao ponto máximo em função da reação do Senado, ao decidir contra a prorrogação da CPMF.

Os partidos perderam-se no vazio. O que se percebeu, de forma nítida, foi a divisão entre alas oposicionistas e governistas, particularmente por ocasião de decisões importantes. Mas pouco sobrou no terreno de conceitos. A pasteurização avançou. Até para os mais letrados, tornou-se difícil, se não impossível, apontar as idéias para o País (se existem) do PSDB, PT, PMDB, PFL, PDT, PSB, PP e PPS, dentre outras siglas. Algumas lideranças ocuparam bons espaços, acentuando o caráter personalista da política. Mesmo assim, o Legislativo encerra o exercício exibindo força maior do que em dezembro passado, graças à derrota infligida pelo Senado ao governo. Sinal de que os tempos futuros poderão dar mais equilíbrio aos Poderes.

O Executivo evoluiu na maneira de tratar a política. O presidente Luiz Inácio, apesar de abusar de medidas provisórias, esforçou-se para conferir prestígio ao corpo parlamentar. A arrogância de outrora foi substituída por mais atenção aos deputados. Conteve e administrou as ambições do PT - intensas e visíveis no primeiro mandato e voltadas para ocupar quase todos os espaços da administração. Em compensação, ganhou maior respaldo da base. Para avançar em direção a segmentos do meio da pirâmide limpou o verbo de excessos radicais, usando-os apenas em ocasiões especiais. Tornou-se mais palatável a grupos refratários ao perfil. A suavização da imagem lhe conferiu um modernoso desenho social-democrata, de ligeiro matiz populista. Sob o aspecto da apresentação pessoal, livrou-se do "jeito vermelho de ser", à moda agressiva de Hugo Chávez, embrulhado na inseparável camisa vermelha. Na fatura do ano, exibe a contenção de movimentos sociais, principalmente do MST, cujas invasões de espaços privados agora se assemelham a ensaios de experimentação. Mirando o espelho, Lula aprecia a última pesquisa sobre seus feitos: "Dize-me, espelho meu, quem além de mim, ao longo de cinco anos, botou 20 milhões de brasileiros das camadas D e E na classe C?"

O Judiciário foi o mais eficiente em 2007. Deu respostas satisfatórias à sociedade, desencalhando casos, tomando decisões, mostrando a cara e deixando de ser um Poder enclausurado. Mostrou-se muito humano, até por conta de desavenças, tornadas públicas, entre seus pares. A celeridade da Justiça pode vir de exemplos de cima.

Como se pode aduzir, há motivos para crer num amanhã mais radiante. Ante o desvanecimento da fé, lembremos um pequeno conto: "Dois homens olham para fora entre as mesmas grades - um vê o barro sujo da viela; outro, as estrelas." Olhar para o alto, às vezes, faz bem à alma.

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