Entrevista:O Estado inteligente

sábado, novembro 01, 2008

O WWF alerta para o esgotamento dos recursos naturais

A terra não agüenta

A humanidade já consome mais recursos naturais
do que o planeta é capaz de repor. O colapso é
visível nas florestas, oceanos e rios. O ritmo atual
de consumo é uma ameaça para a prosperidade
futura da humanidade


Roberta de Abreu Lima e Vanessa Vieira

Montagem com foto de William Whitehurst/Corbis


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Quadro: A extinção em massa

A exploração dos recursos naturais da Terra permite à humanidade atingir patamares de conforto cada vez maiores. Diante da abundância de riquezas proporcionada pela natureza, sempre se aproveitou como se o dote fosse inesgotável. Essa visão foi reformulada. Hoje se sabe que a maioria dos recursos naturais dos quais o homem depende para manter seu padrão de vida pode desaparecer num prazo relativamente curto – e que é urgente evitar o desperdício. Um relatório publicado na semana passada pela ONG World Wildlife Fund dá a dimensão de como a exploração dos recursos da Terra saiu do controle e das conseqüências que isso pode ter no futuro. O estudo mostra que o atual padrão de consumo de recursos naturais pela humanidade supera em 30% a capacidade do planeta de recuperá-los. Ou seja, a natureza não mais dá conta de repor tudo o que o bicho-homem tira dela. A conta da ONG foi feita da seguinte forma. Primeiro, estimou-se a quantidade de terra, água e ar necessária para produzir os bens e serviços utilizados pelas populações e para absorver o lixo que elas geram durante um ano. A seguir, esses valores foram transformados em hectares e o resultado dividido pelo número de habitantes do planeta. Chegou-se à conclusão de que cada habitante usa 2,7 hectares do planeta por ano. Nesta conta, o brasileiro utiliza 2,4 hectares. De acordo com a análise, para usar os recursos sem provocar danos irreversíveis à natureza, seria preciso que cada habitante utilizasse, no máximo, 2,1 hectares. Se o homem continuar a explorar a natureza sem dar tempo para que ela se restabeleça, em 2030 serão necessários recursos equivalentes a dois planetas Terra para atender ao padrão de consumo. Essa perspectiva, conclui o relatório, é uma ameaça à prosperidade futura da humanidade, com impacto no preço dos alimentos e da energia.

Nos últimos 45 anos, a demanda pelos recursos naturais do planeta dobrou. Esse aumento se deve, principalmente, à elevação do padrão de vida das nações ricas e emergentes e ao crescimento demográfico dos países pobres. A população africana triplicou nas últimas quatro décadas. O crescimento econômico dos países em desenvolvimento, como a China e a Índia, vem aumentando em ritmo frenético a necessidade de matérias-primas para as indústrias. China e Estados Unidos, juntos, consomem quase metade das riquezas naturais da Terra. O impacto ambiental da China se explica pela demanda de sua imensa população e, nos Estados Unidos, pelo elevado nível de consumo. Nas contas da World Wildlife Fund, enquanto o chinês usa 2,1 hectares do planeta, o americano chega a utilizar 9,4 hectares. Se todos os habitantes do planeta tivessem o mesmo padrão de vida dos americanos, seriam necessárias quatro Terras e meia para suprir suas necessidades.

A exploração abusiva do planeta já tem conseqüências visíveis. A cada ano, uma área de floresta equivalente a duas vezes o território da Holanda desaparece. Metade dos rios do mundo está contaminada por esgoto, agrotóxicos e lixo industrial. A degradação e a pesca predatória ameaçam reduzir em 90% a oferta de peixes utilizados para a alimentação. As emissões de CO2 cresceram em ritmo geométrico nas últimas décadas, provocando o aumento da temperatura do globo.

Evitar uma catástrofe planetária é possível. O grande desafio é conciliar o desenvolvimento dos países com a preservação dos recursos naturais. Para isso, segundo os especialistas, são necessárias soluções tecnológicas e políticas. "Os governos precisam criar medidas que assegurem a adoção de hábitos sustentáveis, em vez de apenas esperar que as pessoas o façam voluntariamente", disse a VEJA o antropólogo americano Richard Walker, especialista em desenvolvimento sustentável da Universidade Indiana, nos Estados Unidos. O engenheiro agrônomo uruguaio Juan Izquierdo, do Programa das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, propõe que se concedam incentivos e subsídios a agricultores que produzam de forma sustentável. Diz ele: "Hoje, a produtividade de uma lavoura é calculada com base nos quilos de alimento produzidos por hectare. No futuro, deverá ser baseada na capacidade de economizar recursos escassos, como a água". Como mostra o relatório da World Wildlife Fund, é preciso evitar a todo custo que se usem mais recursos do que a natureza é capaz de repor.

Apetite voraz

A humanidade usa os recursos naturais como se
eles fossem inesgotáveis. É aí que mora o perigo

Água doce
Apenas 1% de toda a água do planeta é apropriada para beber ou ser usada na agricultura. O restante corresponde à água salgada dos mares e ao gelo dos pólos e montanhas. Hoje, a humanidade utiliza metade das fontes de água doce do planeta. Em quarenta anos, utilizará 80%. A situação fica mais grave quando se considera que 50% dos rios do mundo estão poluídos

Terras cultiváveis
O planeta é formado por 15 bilhões de hectares de terras, mas só 12% delas servem para o cultivo. As demais correspondem a cidades, pastos, desertos, zonas montanhosas e geleiras. Nas últimas três décadas, o total de terras atingidas por secas severas dobrou por causa do aquecimento global. Na China, todos os anos uma área equivalente à metade de Sergipe se transforma em deserto

Cardumes
Das 200 espécies de peixe com maior interesse comercial, 120 são exploradas além do nível sustentável. Nesse ritmo, o volume de pescado disponível terá diminuído em mais de 90% por volta de 2050

Oceanos
Estima-se que 40% da área dos oceanos esteja gravemente degradada pela ação do homem. Nas últimas cinco décadas, o número de zonas mortas nos oceanos cresceu de três para 150. Das 1 400 espécies de coral conhecidas, treze estavam ameaçadas de extinção há dez anos. Hoje, são 231

Atmosfera
Desde 1961, a quantidade de dióxido de carbono (CO2) despejada pela humanidade na atmosfera com a queima de combustíveis fósseis cresceu dez vezes. Essa descarga poluente provoca o aquecimento do planeta, o que causa secas, inundações, acidificação dos oceanos e extinção de espécies

Fotos AFP, Mark A. Johnson/Corbis/Latinstock,
Fred Bavendam/Minden Pictures/Latinstock, Case/divulgação e divulgação

Casais que trabalham na mesma empresa

Amor e holerite

Em vez de serem contra, empresas agora aprovam
o casamento entre funcionários. Casais produzem
mais – embora a conversa possa ser sempre a mesma


Sandra Brasil

Ernani D'Almeida
"Já brigamos e moramos duas semanas em casas separadas. Mesmo assim, continuamos trabalhando juntos normalmente. Foi difícil, mas no fim isso facilitou a reaproximação."
Rodrigo, que comanda um restaurante com a mulher, Ana Luiza


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Em boa parte das grandes empresas, uma regra não escrita (ou, às vezes, até escrita) determinou durante muito tempo que, para não atrapalhar o bom andamento dos negócios, o relacionamento amoroso entre funcionários era desestimulado, indesejado ou penalizado – em caso de casamento, uma das partes podia até ser transferida para um lugar escuro e frio, ou seja, longe do centro do poder. Como não existe decreto que elimine a química sexual entre homens e mulheres, um bocado de gente atropelou a regra. Hoje, o pêndulo está voltando para o extremo oposto, a ponto de existirem empresas que apóiam casamentos internos. O motivo é uma constatação difícil de ser entendida por aqueles que tremem de horror à idéia de passar o dia inteiro com o cônjuge e depois dividir o leito com o mesmo colega de trabalho: o casal que trabalha junto produz mais, melhor e com menos atritos entre profissão e vida familiar. "A Carla entende os motivos de o celular estar sempre ligado, de eu levar constantemente trabalho para casa, de fazer hora extra e passar fins de semana na empresa", enumera Jayme Fonseca, 42 anos, diretor financeiro de uma construtora em São Paulo, onde sua mulher, Carla Barreto, 39, é gerente de planejamento. A influência positiva da associação entre casamento e trabalho sobre a produtividade foi comprovada numa pesquisa com 608 casais nessa situação, em Porto Alegre e São Paulo, realizada pelo escritório brasileiro da International Stress Management Association (Isma). "A pesquisa mostrou que essas pessoas tendem a render mais porque dedicam um tempo maior ao trabalho, lidam melhor com as demandas diárias do cotidiano e apresentam menos conflitos na relação entre o trabalho e a família", diz a psicóloga Ana Maria Rossi, que coordenou esse estudo. "Dos casais que atuavam na mesma ocupação, 80% registraram menos exaustão emocional e exposição ao estresse."


Edu Lopes
"No começo as pessoas tiveram dificuldade em entender a nossa relação dentro da empresa. Acho que acabo exigindo mais dele que dos outros, para evitar esse tipo de problema."
Ana Paula, dona de consultoria e chefe do marido, Eduardo

A transposição da parceria profissional para a vida doméstica é menos animadora. "Se a empresa passa por alguma crise ou dificuldade financeira, a tensão contamina toda a família", adverte Ana Maria. "É natural que a gente fale muito de trabalho em casa", admite Jayme Fonseca. E, embora a empresa se beneficie em termos de rendimento, no ambiente de trabalho a situação não é um mar de rosas. Causa desconforto, por exemplo, a necessidade de manter absoluta discrição e não levar gestos e intimidades do cotidiano amoroso para o escritório. E, como em qualquer tipo de relacionamento – namoro, casamento ou aquelas outras coisas que vivem acontecendo no local de trabalho –, os não envolvidos no caso acompanham milímetro a milímetro, para ver se não há privilégios indevidos. Jayme e Carla já estavam juntos antes de terminar na mesma empresa, mas o máximo de intimidade que se permitem no trabalho é ter fotos de família sobre a mesa. "Tem colega que descobre que somos casados por causa disso", diz ele. E, quando os colegas descobrem, nem sempre sabem como agir. "Lembro de uma reunião em que defendemos posições divergentes com muita emoção. Os outros só ficaram olhando, esperando para ver no que ia dar aquilo, como se fosse uma briga de marido e mulher", conta Carla.

Leo Caldas/Titular
"Muitas vezes pergunto a opinião dela e ela me influencia. Inclusive dá um toque feminino às minhas decisões. Por influência dela, passei a ser mais duro com violência contra mulher."
Valécius, juiz e marido de Thalynni, juíza

"Os conflitos envolvendo privilégios, vinganças e outros interesses pessoais levaram à proibição do binômio casamento e relações de trabalho, que prevaleceu até o fim dos anos 90. De lá para cá, as empresas mudaram de atitude e, hoje, a maioria aceita casais", diz Betania Tanure, professora da escola de formação de executivos Fundação Dom Cabral, em Nova Lima, Minas Gerais, e autora do livro Executivos – Sucesso e inFelicidade. "As pessoas se conhecem no ambiente de trabalho e é natural que surjam relacionamentos amorosos na empresa. De maneira geral, as experiências que temos com casais são muito positivas", afirma Benedito Waldson, gerente de recursos humanos da mineradora Samarco, do Espírito Santo. A empresa instituiu um regulamento freqüente nesses casos: sempre designa marido e mulher para departamentos diferentes. "A única restrição que colocamos é não haver subordinação, porque entendemos que não há isenção entre marido e mulher, e o fato de um ser chefe direto do outro pode atrapalhar a carreira de ambos", explica Waldson. O mais famoso casal que trabalha junto discorda: é possível, sim, um ser chefe do outro, afirma Fátima Bernardes, 46 anos, que há dez apresenta o Jornal Nacional com o marido, William Bonner, 44, seu superior na redação. "Na bancada não há hierarquia, e fora dela, como editora, defendo de maneira apaixonada aquilo em que aposto. Nem sempre prevalece a minha opinião, e isso faz parte", diz. Falam de trabalho fora do ar? "No começo, combinamos que não. A tentativa não durou uma semana. Era estranho não falar com ele, que sempre foi meu confidente", conta Fátima.


Edu Lopes
"A gente sente falta de ter o que contar ao outro quando sai para jantar. Nossas conversas se limitam a trabalho e filhos. Só amando muito para passar 24 horas com uma pessoa a vida toda."
Lais, que tem uma loja com o marido, José

A bióloga Ana Paula Queiroz, 34, dona da Waterloo, uma consultoria ambiental de São Paulo, comanda 33 funcionários, entre eles o marido, Eduardo Azevedo, 36, diretor financeiro, e os dois consideram que separam bem as coisas. "Quando ela me cobra, não encaro como cobrança da minha mulher, e sim da gerente-geral", garante Azevedo. A necessidade de, pelo menos, aparentar isenção profissional já fez sofrer a cirurgiã plástica Ana Helena Patrus, 44. Nos três anos em que foi residente sob orientação do marido, Leonard Bannet, 59, "era difícil agüentar a bronca do chefe sem poder responder como esposa. E ele era muito mais rigoroso comigo do que com os outros residentes". Após vinte anos de casamento, há quinze sócios na Clínica Santé, conhecida pelas intervenções estéticas em artistas e outros famosos, eles acham que trabalhar junto, em vez de atrapalhar, ajuda. "Tive uma paciente que sofria de síndrome do pânico e, durante o pós-operatório, passou a semana ligando de madrugada. Que outro marido entenderia?", diz Ana. "Se tivesse outra profissão, ela se separaria de mim", concorda Bannet.

Inevitavelmente, marido e mulher, por mais que se esforcem, continuam sendo um casal no ambiente de trabalho. Tem o lado bom já citado: compreensão das exigências, diálogo constante. E tem o não tão bom: as discussões respingam livremente de um lado para o outro. "Se o Rodrigo está nervoso e um cliente reclama de um prato, é comigo que ele explode. Também, se não for comigo, vai ser com quem?", diz a compreensiva Ana Luiza Loyola, 34, que reparte com o marido, Rodrigo Ribeiro, 35, o cardápio do restaurante Gibraltar, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. "Quando isso acontece, saio de perto e deixo para responder depois, porque o negócio está em primeiro lugar." Em seis anos de casamento, o casal teve uma briga séria que redundou em separação temporária. Nesse período, continuaram trabalhando juntos mais de dez horas por dia, num ambiente extenuante – o tipo de situação que preocupa as empresas. "Tentamos evitar que os casais trabalhem na mesma área para impedir fofocas e que algo no relacionamento atrapalhe o desempenho dos dois. Uma briga do casal pode afetar o clima de todo o setor", diz Marcelo Galano, 38, gerente de remuneração e benefícios da Ericsson do Brasil, empresa de 1 700 funcionários.

Edu Lopes
"Quando a gente briga em casa, cada um chega à clínica, vai para o seu consultório e espera esfriar a cabeça. Como sempre temos de falar sobre pacientes, fica mais fácil fazer as pazes."
Leonard, cirurgião plástico e sócio na Clínica Santé, de Ana Helena


Em profissões de alto nível de exigência, dividir a mesma carreira, ainda que não o ambiente de trabalho, pode ser uma fonte de apoio mútuo para os cônjuges. "Como representantes da Justiça, não podemos sair para dançar ou tomar uma cerveja na cidade em que trabalhamos. Até para escolher os amigos precisamos ter cautela", relata a cearense Thalynni Lavor, 27, que assumiu em abril o cargo de juíza federal em Petrolina, Pernambuco, e vive a 400 quilômetros de distância do marido, Valécius Beserra, 33, que é juiz estadual em Glória, na Bahia. "Antes de se tornar juíza, a Thalynni me achava neurótico com os meus cuidados, mas agora me pede desculpas", diz ele. Os dois se encontram nos fins de semana, e cada um leva para casa pilhas de processos para análise. "Sempre que temos dúvidas ou angústias em relação a um caso, nós nos consultamos", conta Beserra. Às vezes, um precisa impor limite. "Já tive de dizer ‘O processo ou eu’. Felizmente, ela ficou comigo", brinca o juiz. As conversas monotemáticas têm seu lado estressante. Lais e José Poveda, ambos de 44 anos, admitem que a falta de outro assunto que não trabalho é a pior parte de estarem no mesmo negócio há doze anos, oito no cartório do pai dela e quatro na loja de utilidades domésticas do casal. "Às vezes, vejo um grupo de amigas num restaurante e fico com vontade de me sentar com elas para conversar sobre coisas diferentes", admite a empresária. Lais, se isso ajuda, acredite: mesmo quem não trabalha no mesmo local, nem tem idêntica profissão, às vezes morre de vontade de ouvir uma conversa diferente do papo de sempre da sua caríssima metade.

Enquete
Marido e mulher devem
trabalhar na mesma empresa?

Sim, em qualquer circunstância pode ser produtivo
Só se não tiver relação de subordinação
Não, atrapalha o relacionamento e o trabalho
Deus me livre


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Crise ameaça o rico futebol inglês

A futebolha

A crise financeira ameaça acabar com a gastança no futebol inglês, cuja riqueza depende do crédito fácil e de milionários estrangeiros


Thomaz Favaro

Foto Alex Livesey/Getty Images


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Futebol na Inglaterra

Quatro dos dez times mais ricos do mundo disputam a Premier League, a primeira divisão do campeonato inglês. Nenhuma outra competição de futebol arrecada tanto dinheiro e paga salários tão altos – em média, 75% acima dos pagos na Espanha. Com seu apelo global (partidas transmitidas para 200 países), a Premier League é uma vitrine de craques. O segredo do sucesso do futebol inglês foi a cooptação de investimentos de milionários do mundo todo. Nove das vinte equipes da primeira divisão são controladas por estrangeiros, que despejam fortunas (não raro de origem duvidosa) para reforçar as equipes. A maioria deles nem sequer está atrás de lucro, mas apenas de notoriedade e diversão. "São milionários que gastam fortunas nos times da mesma maneira como torram dinheiro com seus iates", diz o inglês Wyn Grant, da Universidade de Warwick, especialista na economia do futebol. O resultado foi a formação de uma espécie de bolha, que inflou o valor do campeonato inglês – e que agora está ameaçada pelo estouro de outra bolha, a dos mercados financeiros.

Na última década, os ingleses aproveitaram-se do crédito fácil para financiar a compra do que havia de melhor no mercado da bola. Atualmente, dois terços dos jogadores da primeira divisão são estrangeiros. A euforia na gastança eclipsou a preocupação com as contas, e doze dos vinte times estão no vermelho. Juntas, as equipes devem mais de 5 bilhões de dólares, o dobro do que arrecadaram no ano passado. Boa parte do déficit tem sido financiada, sem juros, pelos ricaços russos, americanos e franceses que controlam os clubes. Mas a crise mundial colocou investidores e patrocinadores em apuros. O principal perdedor é o West Ham. O patrocinador do time londrino faliu e seu dono, o banqueiro islandês Bjorgolfur Gudmundsson, viu sua fortuna derreter junto com a economia de seu país. A fortuna do russo Roman Abramovich, dono e mecenas do Chelsea, encolheu 20 bilhões de dólares nos últimos meses. Por falta de crédito, o Liverpool precisou adiar os planos de construir um novo estádio. No mês passado, sua torcida saiu às ruas para protestar contra os investidores americanos que controlam o clube.

Shaun Botterill/Getty Images
A RAINHA DA BOLA
Amanda Staveley: a empresária ajudou a trazer Robinho e os petrodólares para a Inglaterra


Uma das raras equipes que podem se considerar a salvo é o Manchester City. Pouco antes de seu dono, o ex-premiê tailandês Thaksin Shinawatra, ser condenado à prisão por corrupção, o time foi vendido em setembro para o xeque Mansur bin Zayed, da família real de Abu Dhabi, cujo patrimônio é estimado em 850 bilhões de dólares. Da noite para o dia, o "primo pobre" de Manchester, cujo último título relevante data de 1976, tornou-se uma potência futebolística. "É como ganhar na loteria e fazer aniversário no mesmo dia", comemorou Mark Hughes, o treinador do clube. O negócio foi intermediado por Amanda Staveley, 35 anos, chamada de "rainha do futebol inglês". Ex-namorada do príncipe Andrew (de quem recusou o pedido de casamento), ela controla um fundo de investimento especializado em atrair petrodólares para os gramados ingleses. A compra do brasileiro Robinho por 52 milhões de dólares, a transação mais cara da história do futebol inglês, só foi concluída depois que ela entrou no negócio. Ainda é difícil dimensionar o impacto da crise financeira no futuro do campeonato inglês. As probabilidades de falência generalizada, no entanto, são ínfimas. "A crise é má notícia para os clubes, mas os torcedores podem ficar tranqüilos", disse a VEJA o economista inglês Stefan Szymanski, da City University, em Londres. "Pouquíssimos times desapareceram nos últimos 100 anos, o que faz do futebol uma das economias mais estáveis do mundo." Só que, depois do estouro da bolha, os clubes serão mais modestos.

A proteção antifurto na rede

Proteção eletrônica
Ilustrações Junião

Já existem dezenas de softwares "antifurto". Sua principal promessa é impedir que um ladrão acesse livremente arquivos armazenados em laptops, celulares e outros eletrônicos.

Segundo os especialistas Leonardo Scudere e Juan Pinheiro, que se dedicam a testar tais programas, alguns funcionam bem – outros, nem tanto. Eles chamam atenção para certas fragilidades da tecnologia. Num tipo de software bem comum, o computador permanece conectado a uma central, que em tese tem acesso aos arquivos. "Antes de adotar o sistema, é bom certificar-se da seriedade da empresa", eles recomendam. Quanto à outra promessa freqüente, a de ajudar a recuperar o aparelho e chegar ao paradeiro do ladrão, os especialistas são mais céticos. Isso porque alguém mais experiente pode burlá-los ou, ainda que isso não ocorra, a burocracia se encarrega de dificultar a missão. A seguir, os softwares que eles consideram mais eficazes.

Software avaliado: Lapfinder (www.lapfinder.com)
Onde pode ser instalado: laptop
Objetivo: apagar informações armazenadas e ajudar a localizar o computador
Como funciona: com o software instalado, o laptop fica conectado ao sistema de uma central que, avisada do furto, consegue apagar facilmente os arquivos. Essa mesma central registra todos os acessos feitos ao computador – e, diante de um roubo, pode fornecer o histórico. Com essa informação, é possível procurar a empresa do provedor utilizado para saber de onde partiu a conexão
Comentário dos especialistas: o software se presta bem ao propósito de eliminar os arquivos, mas nem tanto ao de reaver o laptop. Isso porque o processo para chegar ao suposto paradeiro da máquina – que inclui o pedido à justiça de quebra de sigilo telefônico – pode consumir até um mês. Tempo mais do que suficiente para o computador sumir de novo
Preço*: 90 reais (por ano)

Software avaliado: iAlertU (http://slappingturtle.com)
Onde pode ser instalado: laptop
Objetivo: disparar um alarme no momento do furto e registrar uma foto do ladrão
Como funciona: ao captar um movimento mais brusco, um sensor instalado no computador faz soar o alarme. O mesmo programa se encarrega de ativar a câmera embutida no laptop e de fazer um retrato do ladrão na primeira oportunidade em que ele abrir o aparelho. Essa foto logo será enviada a um e-mail previamente definido
Comentário dos especialistas: cumpre bem as duas funções prometidas, mas só é aplicável em computadores da Apple que já vêm com o tal sensor – caso, basicamente, daqueles aparelhos fabricados nos últimos dois anos
Preço: gratuito

Software avaliado: Gadget Trak (www.gadgettrak.com)
Onde pode ser instalado: celular
Objetivo: apagar os dados armazenados e ajudar a localizar o aparelho
Como funciona: o software fornece diferentes códigos que, enviados ao celular por meio de mensagens de texto, se encarregam de apagar dados, bloquear o aparelho e disparar um alarme. Caso o ladrão troque o chip do aparelho, o programa também registra o novo número e o remete para um e-mail escolhido. Se o celular tiver GPS, o mesmo software informa sua localização
Comentário dos especialistas: entre os programas do gênero para celular, este é o mais completo. Tem ainda a vantagem de dispensar uma central de atendimento, sistema comum em softwares com o mesmo propósito. É a garantia de que ninguém mais terá acesso aos dados armazenados no aparelho
Preço: 50 reais

Software avaliado: Credant (www.credant.com)
Onde pode ser instalado: laptop, celular, pen drive e MP3
Objetivo: vetar o acesso às informações armazenadas
Como funciona: com o software, só é possível acessar os documentos guardados nos aparelhos por meio de uma senha, que fica em poder do dono. Sem ela, as informações aparecerão criptografadas
Comentário dos especialistas: é a forma mais eficiente de proteger os arquivos nesses aparelhos. Os dados se tornam ilegíveis – e não é preciso apagá-los para evitar o acesso a eles
Preço: 180 reais

Software avaliado: Phone Guardian (www.symbianguru.com)
Onde pode ser instalado: celular
Objetivo: impedir o uso do aparelho roubado e ajudar a localizá-lo
Como funciona: ao ser instalado, o software fornece um código de bloqueio do aparelho. Basta enviá-lo ao celular por meio de uma mensagem de texto – e ele ficará automaticamente travado. O programa também faz disparar um alarme, que só pára por meio de outra mensagem ou quando a bateria termina
Comentário dos especialistas: o programa, de fato, impede que o ladrão use o celular roubado e tenha acesso às informações ali guardadas – mas só é compatível com smartphones da Nokia e com alguns modelos Samsung e LG
Preço: 30 reais

* Preços médios

Lailson Santos

Informações a salvo

A consultora Maria Gabriela Pereira, 30 anos, cogitou fazer um seguro para seus dois laptops, mas era mais caro e menos útil do que o programa que ela instalou seis meses atrás nos computadores: "Se forem roubados, posso apagar os dados a distância"

Boas medidas contra invasores


Segundo os especialistas, um conjunto de procedimentos simples pode ajudar a bloquear o acesso de gente estranha às informações armazenadas em laptops e celulares

Ilustração Junião

Desativar o Bluetooth
Comentário: o dispositivo, que permite a troca de dados entre aparelhos por meio de uma rede sem fio, costuma ficar ativado sempre que o laptop ou o celular está ligado. O problema é que, num raio de até 100 metros, uma pessoa pode ter fácil acesso aos arquivos de outra. Daí ser indicado acionar o Bluetooth apenas quando se for de fato usá-lo

Criar senhas
Comentário: sistemas operacionais, como o Windows, oferecem um bom mecanismo para dificultar o acesso indevido a dados pessoais. Eles permitem criar senhas para a visualização e a cópia dos arquivos

*#06#
Comentário: quando se digita esse código no celular, aparece um número correspondente ao registro do aparelho na operadora. Só ele garante o bloqueio da linha e do próprio telefone, caso seja roubado

"Meu dinheiro de volta"

Os especialistas indicam como proceder em duas situações inesperadas
(e não raras) de roubo de cartão de crédito

Situação: a administradora prometeu, mas não bloqueou o cartão – e o ladrão gastou à vontade
O que fazer: ao se pedir o bloqueio, é recomendável cobrar o número do protocolo, nem sempre fornecido espontaneamente. Isso ajuda a recuperar o dinheiro gasto pelo ladrão caso a operadora tenha falhado no cancelamento do cartão. Outro procedimento útil é registrar o fato num boletim de ocorrência – mais uma prova a favor de quem teve o cartão roubado

Situação: a administradora se recusa a devolver o dinheiro gasto pelo ladrão
O que fazer: entrar com uma ação num órgão de defesa do consumidor. A resolução vem em cerca de duas semanas. Outra opção é recorrer à Justiça comum. A lei permite pedir até o dobro da quantia roubada – mas o processo dura, na melhor hipótese, dois meses

Lailson Santos

PREJUÍZO NO CARTÃO

A administradora Claudia Carvalho, 36 anos, caiu no conto do ladrão. Depois que sua carteira com o cartão de crédito desapareceu, ela recebeu um telefonema de alguém que dizia tê-la encontrado e prometia a devolução para o dia seguinte. Iludida, Claudia esperou mais do que devia para fazer o bloqueio – um erro básico. Foi o tempo de o ladrão usar o cartão à vontade. "Consegui reaver a quantia perdida, mas sofri à toa"


Com reportagem de Camilla Costa e Renata Betti

007 – Quantum of Solace

Um James Bond perigoso

007 – Quantum of Solace não é redondo como
Cassino Royale.
Mas tem uma vantagem: deixa
Daniel Craig livre para tornar o espião mais
agressivo, incontrolável – e sexy – do que nunca


Isabela Boscov

Fotos divulgação

ORELHAS DE ABANO, SIM, E DAÍ?
Craig com a ucraniana Olga, no papel de uma agente que fica dispensada de apresentar credenciais: este Bond é uma combinação irresistível de perfeição e defeitos

Em 007 – Quantum of Solace (Inglaterra/Estados Unidos, 2008), em cartaz a partir desta sexta-feira no país, James Bond não bebe martínis, mal perde tempo com seus antes célebres trocadilhos, seduz uma só mulher (e meio na correria) e dirige aquele magnífico Aston Martin sem a menor fineza, deixando partes dele pelo caminho. Também não flerta com a secretária Moneypenny nem ganha engenhocas do engenheiro Q, porque os dois ficaram de fora do filme. Nem sequer diz "Meu nome é Bond – James Bond", a frase-assinatura que marcou todos os outros 21 filmes da série. Os fãs históricos (que não são poucos) argumentariam que, de tão mudado, ele nem merece dizê-la: se Bond perdeu a suavidade, trocou o humor pela agressividade e não precisa de licença para matar, porque mata mesmo (uma das melhores piadas recorrentes de Quantum of Solace), então ele não é mais Bond. Outros, a começar pelo estúdio MGM e a produtora Barbara Broccoli, que herdou os direitos sobre a franquia de seu pai, Albert Broccoli, defenderiam a idéia de que o espião está simplesmente se livrando do excesso de bagagem que acumulara desde sua aventura inicial, em 1962. Os números ratificam esse raciocínio: quanto mais Bond muda, mais vigoroso se torna seu desempenho na bilheteria, numa curva ascendente que o levou de 352 milhões de dólares de renda mundial com 007 contra GoldenEye, o primeiro filme estrelado por Pierce Brosnan, a 594 milhões com Cassino Royale, o primeiro com Daniel Craig. Entre essas duas teses, porém, fica a peça que valida a ambas e faz o personagem funcionar tanto na sua antiga lógica, de ícone do cool, quanto na nova, de uma platéia cada vez mais jovem e impaciente: justamente Craig. Que, com todo o respeito devido a Sean Connery, é o Bond mais perigoso que já houve.

PARA QUE LICENÇA, SE ELE MATA MESMO?
Bond numa sessão de tortura, e com sua indefectível pistola: tão fora de controle que agora o próprio serviço secreto inglês cogita eliminá-lo



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Trailer

Quantum of Solace (título que foi mantido no original porque a distribuidora não encontrou tradução atraente para seu significado, "um módico de consolação") traz 007 numa fúria gelada – porque no filme anterior sua namorada, Vesper, o traiu, e também porque a certa altura ela inesperadamente decidiu se sacrificar por ele. M (Judi Dench), sua chefe no MI-6, o serviço secreto britânico, já não consegue controlá-lo, e chega a expedir uma ordem para sua prisão. Ou pior, caso ele resista. Seguindo a pista da organização que matou Vesper, 007 vai cruzar o caminho de um pretenso ambientalista que, na verdade, vive de derrubar e erguer ditaduras em nações instáveis (papel de Mathieu Amalric, o ator francês mais requisitado do momento); vai contrariar os interesses de um general boliviano; e vai juntar forças com Camille (a ucraniana Olga Kurylenko), uma agente de afiliação desconhecida, mas cujos atrativos a recomendam sem reservas. Se Quantum não é redondo como o era Cassino Royale, é porque esses elementos não dão liga (sem falar que não existe nada mais cansativo que um vilão boliviano): eles estão lá mais pelo seu potencial de proporcionar ação violenta, radical e ininterrupta do que pela sua capacidade de impulsionar o enredo. Mas é nessa falha que está também a grande vantagem de Quantum – o fato de que Craig fica aqui finalmente livre para tratar o personagem nos seus próprios termos.

Isso significa que 007 agora, além de agressivo, é dúbio, rancoroso e, ainda assim, frio. Significa também que agora manifesta sem nenhum pudor a natureza que se escondia sob a suavidade que foi descartada: em vez de ser o homem que os homens querem ser, como nas versões anteriores, agora ele é o homem que as mulheres querem. Até M, que não esconde mais seu fraco pelo espião incontrolável. E como não: com aquele físico que fica além de qualquer descrição e o nariz de boxeador, aqueles olhos de azul intenso e as orelhas de abano, os modos bruscos e aquele charme que desarma quando mais se está na defensiva, Craig é uma combinação irresistível de perfeição e defeitos. O que não faz dele menos Bond que seus antecessores. Torna-o, isso sim, um Bond mais inteiro, e com muito mais sangue nas veias.

Trailer

Deu no New York Times, de Larry Rohter


A política, a sociedade e a cultura brasileiras na visão de
Larry Rohter, o jornalista americano que quase foi expulso
do Brasil por falar do gosto do presidente por bebidas alcoólicas


Jerônimo Teixeira

Gilberto Tadday
APESAR DE VOCÊ, OUTRO DIA
Larry Rohter na redação do New York Times: goste-se ou não, um repórter inquieto e um estrangeiro que conhece o Brasil melhor do que muitos brasileiros


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Exclusivo on-line
Trecho do livro

A certa altura, em uma comemoração entre amigos no Rio de Janeiro, em maio de 2004, pediram ao americano Larry Rohter que cantasse. O então correspondente do The New York Times no Brasil levantou-se e entoou – com voz desafinada, segundo o relato – Apesar de Você, célebre canção de protesto disfarçado contra a ditadura militar. "Como vai proibir quando o galo insistir em cantar?", diz um dos versos. Um dos presentes observou que Chico Buarque, autor da música, era partidário de Luiz Inácio Lula da Silva. Rohter apreciou a ironia: na sua interpretação improvisada, a letra voltava-se exatamente contra o governo Lula, que tentara expulsá-lo do país. O motivo dessa tentativa de intimidação – talvez o episódio mais vergonhoso das complicadas relações da administração petista com a imprensa livre – chega a ser trivial: uma reportagem sobre o notório gosto de Lula pelas bebidas alcoólicas. O caso é narrado em detalhes por Rohter em Deu no New York Times (tradução de Otacílio Nunes, Daniel Estill, Saulo Adriano e Antonio Machado; Objetiva; 416 páginas; 39,90 reais), que chega nesta semana às livrarias brasileiras e do qual VEJA antecipa alguns trechos, com exclusividade, ao longo das próximas páginas.

A obra divide-se em cinco seções: Cultura, Sociedade, Política, Amazônia e Economia/Ciência. Cada uma delas traz as melhores reportagens do autor sobre o tema, introduzidas por um comentário geral, com uma visão mais pessoal e opinativa do que era permitido ao repórter em sua cobertura cotidiana. Aos 58 anos, casado com uma carioca que cursava como ele a Universidade Georgetown, em 1967, Rohter conhece o país como poucos brasileiros. Começou a trabalhar para o escritório da Rede Globo em Nova York no início da década de 70, produzindo segmentos para o Fantástico, e em 1972 veio ao país pela primeira vez, para trabalhar como uma espécie de cicerone de músicos estrangeiros que se apresentavam no Festival Internacional da Canção produzido pela emissora. Depois dessa experiência inicial, foram quatro anos no Brasil como repórter da revista Newsweek e, em seguida, oito anos e meio como correspondente do Times, função que ele deixou em março. De volta aos Estados Unidos, Rohter cobriu a campanha presidencial de McCain para o jornal. Seu livro traz a visão crítica que se espera de um bom observador estrangeiro – as ilusões ufanistas e os vícios nacionais (a corrupção em particular) estão rigorosamente documentados. Mas é também uma obra muito generosa com o Brasil. A própria interpretação de Rohter para a tentativa de expulsá-lo em 2004 é, afinal, positiva. "O Judiciário agiu de maneira louvável. O pleno funcionamento das instituições brasileiras foi o grande destaque do episódio", disse ele, por telefone, de sua casa em Nova York, a VEJA.

"De modo geral, suas matérias sobre o Brasil eram ricas e objetivas", diz o diplomata Roberto Abdenur, ex-embaixador em Washington – cuja única restrição ao trabalho de Rohter é exatamente aquele sobre o presidente e a bebida: "A reportagem era distorcida e exagerada. Lula gosta de beber seu uísque, mas jamais ouvi que isso era problema". De fato, os hábitos etílicos do presidente já tinham ampla divulgação em notas e artigos na imprensa nacional, sem que ninguém levasse isso tão a sério. O relato de Rohter só criou tanta celeuma porque saiu no Times, um dos maiores jornais americanos e, a despeito de algumas crises de credibilidade recentes (como a causada em 2003 pelo repórter Jayson Blair, que publicou matérias inventadas), ainda o mais influente deles. Junte-se a isso o pensamento provinciano brasileiro de que, se "deu no New York Times", pouca coisa não é, e eis que o governo armou um circo desproporcional ao assunto.

Na interpretação apresentada em Deu no New York Times, o incidente da tentativa de expulsão vai mais fundo do que apenas ao copo de uísque presidencial. O governo já estaria irritado com Rohter por causa de reportagens anteriores – republicadas, com comentários do autor, no livro recém-lançado. Uma delas, de março de 2004, dizia respeito ao esforço de um governo de esquerda para manter ocultos os fatos sobre a guerrilha do Araguaia, na qual membros do PC do B e o Exército se enfrentaram entre 1970 e 1974. Rohter lembrou uma dolorosa dívida moral do estado brasileiro para com os camponeses locais, que, pegos no fogo cruzado entre guerrilha e repressão, foram desalojados, torturados ou mortos pelas Forças Armadas. "Eles eram as principais vítimas do episódio, mas pareciam ter sido esquecidos por todos os outros protagonistas: Forças Armadas, governo e até os próprios guerrilheiros", escreve o jornalista. Outra reportagem, ainda mais incômoda para o governo, saíra um mês antes, em fevereiro de 2004. Falava do assassinato do prefeito petista Celso Daniel, de Santo André, e lembrava as possíveis relações entre o crime e o esquema de corrupção que unia várias cidades administradas pelo PT, com a finalidade de arrecadar dinheiro para a campanha presidencial de Lula naquele ano de 2002. A rigor, como o próprio Rohter observa no livro, a reportagem não trazia novidades sobre o caso (que, passados quase sete anos, ainda está para ser esclarecido). Mas o governo brasileiro considerou constrangedor que esses fatos fossem publicados no Times em um momento em que Lula buscava credibilidade internacional.

Já tendo acumulado esse histórico de reportagens indigestas para o petismo, Rohter resolveu xeretar a decantada intimidade de Lula com o copo – algo que, como se sabe, nunca foi visto como uma qualidade negativa e, para muitos eleitores, era francamente simpática. Rohter seguia a tradição do jornalismo americano segundo a qual homens públicos não têm vida privada. Políticos da situação e da oposição confirmaram que Lula gostava de beber, mas, à exceção de Leonel Brizola, nenhum quis ser identificado. O jornal publicou a reportagem em 9 de maio de 2004, um domingo. As reações iniciais caíram dentro do previsível: afetações de orgulho nacional ferido. Na terça-feira à noite, porém, o governo extrapolou: com base em uma lei do tempo da ditadura, resolveu cancelar o visto de Rohter e expulsá-lo do país.

De suas fontes no Planalto, o correspondente soube detalhes do que teria ocorrido na reunião ministerial que conduziu à malfadada decisão. O então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que poderia ser uma voz legalmente sensata no encontro, estava ausente, em compromisso na Suíça. Prevaleceram as opiniões alopradas de Luiz Gushiken e José Dirceu, que mais tarde tombariam nos escândalos do mensalão. A julgar pelo relato de Deu no New York Times, o próprio Lula aloprou: "De acordo com a mesma fonte, quando alguém objetou que me expulsar era inconstitucional porque minha mulher é brasileira, Lula replicou batendo na mesa e berrando, exaltado, ‘Que se f*** a Constituição! Quero que ele vá embora!’". Rohter permaneceu no país, graças a um pedido de habeas corpus impetrado pelo então senador Sérgio Cabral e aceito pelo juiz Francisco Peçanha Martins, do Superior Tribunal de Justiça. O governo recuou, buscando um acordo com o New York Times – que Márcio Thomaz Bastos tentou vender como um pedido de desculpas do jornal. "Foi pouco comum termos um incidente dessa ordem em um país democrático", diz Susan Chira, editora da seção Internacional do Times.

Os ataques contra o correspondente não se restringiram aos esforços oficiais para mandá-lo de volta a Nova York. Uma campanha insidiosa passou a ser fomentada na internet, talvez a primeira ação concertada de uma prática que se tornaria corrente no PT dali em diante sempre que se quisesse destruir a reputação de um "inimigo" da causa. Os agentes petistas fizeram circular um texto em que Rohter era acusado de ser agente da CIA, de abusar sexualmente de indiazinhas na Amazônia e de conspirar para derrubar o venezuelano Hugo Chávez. Ele era acusado também de beber "possivelmente bem mais que Lula". Até aqui nada de muito novo para quem já sofreu esse tipo de ataque. A novidade é quanto Rohter avançou na identificação dos autores da campanha caluniosa. O texto contra ele vinha assinado por uma professora da Universidade de Brasília. Procurada por Rohter, ela negou a autoria. O colunista Ricardo Noblat buscou a fonte de uma cópia recebida desse e-mail e chegou até um endereço... no Palácio do Planalto. A fantasia paranóica de que a reportagem atendia aos interesses conservadores do governo Bush esbarra na orientação política do New York Times, conhecido por sua oposição desinibida aos republicanos e a Bush. O livro do correspondente americano aponta algumas afinidades entre Bush e seu colega brasileiro. Diz ele: "Ideologia não é o único fator a determinar a relação entre presidentes e países. A personalidade também é importante. No caso de Bush e Lula, ajuda a explicar por que os dois se dão bem".

Há bem mais em Deu no New York Times do que o incidente da quase-expulsão. Nos textos reunidos no livro, Rohter fala da música de Gilberto Gil e Caetano Veloso e da tecnologia agrícola da Embrapa, de jegues e de Paulo Coelho. O livro contém outra peça que criou polêmica, mas por razões mais, digamos, cosméticas do que políticas: uma reportagem sobre a obesidade entre os brasileiros. Rohter teve azar com o fotógrafo. Para ilustrar a matéria, baseada em estatísticas do IBGE, o retratista buscou gordinhas em uma praia do Rio – e fotografou turistas checas fofinhas como se fossem brasileiras. Os cariocas, é claro, pegaram no pé do então correspondente. Ossos – e gorduras – do ofício. "Larry é um profissional consumado e versátil, que escreve tanto artigos de análise política quanto de crítica cultural. Sua visão nuançada e profunda do Brasil assegurou que o New York Times publicasse um grande número de reportagens sobre o país", diz Susan Chira, que foi editora de Rohter.

De certo modo, Deu no New York Times pode ser lido como uma versão contemporânea dos relatos de viajantes sobre a vida brasileira. Essa tradição começou na colônia, com Jean de Léry e Hans Staden, e incluiu figuras de proa da ciência mundial, como os naturalistas Darwin e Humboldt, que mandavam ao então centro do mundo notícias e impressões das terras remotas que visitavam. O Brasil não é mais o país exótico e selvagem que esses aventureiros e cientistas buscavam – mas o olhar do estrangeiro ainda pode desvendar aspectos inusitados para os nativos. O estrangeiro é mais desassombrado para afrontar unanimidades nacionais – como a arquitetura de Brasília, já desmontada por críticos como Robert Hughes e Marshall Berman e mais uma vez criticada por Rohter. Para quem tem o ex-correspondente americano na conta de uma besta-fera imperialista, a leitura de seu livro pode ser iluminadora: será surpreendente ver que ele apóia algumas bandeiras caras ao atual governo. É a favor das cotas raciais nas universidades e se mostra complacente com a ex-ministra da Igualdade Racial Matilde Ribeiro, que caiu quando se soube de sua farra com os cartões corporativos. Concorde-se ou discorde-se dele, Larry Rohter é um repórter inquieto, um representante da melhor tradição americana da liberdade de imprensa. É bom que o galo cante sem precisar da autorização do mandante da ocasião.

Lula e a bebida

Dida Sampaio/AE

"O meu relacionamento com Lula, embora esporádico, data dos anos 70, quando ele estava surgindo como líder sindical e eu, um correspondente recém-chegado ao Brasil, o acompanhei e o observei. Já conversei bastante com ele, ouvindo declarações astutas e também bobagens, todas devidamente anotadas no meu bloquinho. Já tomei água, refrigerante e até uma cachacinha com ele. Então, fico perplexo quando ouço o presidente alegar que nunca teve nenhum contato comigo. A verdade é comprovadamente outra"

"Também fiquei impressionado na época com as generosas quantidades de álcool que ele consumia. Como tenho por hábito quando estou trabalhando, eu me limitava a tomar Fanta Laranja, e me lembro de Lula me provocar com bom humor por causa disso. ‘Que que é isso, meu caro? Um jornalista que não gosta de beber?’. Enquanto ia de uma reunião a outra, ele bebia o que lhe oferecessem: cachaça, uísque, conhaque para se aquecer em manhãs frias, e mesmo a cerveja da qual ele afirma não gostar. Às vezes seus olhos ficavam injetados e sua fala, enrolada. Era difícil dizer se isso se devia ao álcool, porque ele estava visivelmente fatigado de tensão e falta de sono, e tendia, mesmo quando não tinha bebido, a falar alto e divagar em público, pulando de um tópico a outro"

A tentativa de expulsão

"A resposta inicial foi bem o que eu esperava: uma explosão de nacionalismo, parte dela bastante hipócrita. Em certo momento, houve um desfile de mais de doze políticos de Brasília me denunciando em um canal de televisão a cabo. Eu tive de rir, porque dois dos que me atacavam – um de um partido aliado ao PT, o outro uma importante figura da oposição – tinham sido informantes para minha reportagem e expressado suas preocupações com a recente passividade de Lula e suas suspeitas de que ele andava bebendo em excesso"

"Contudo, devo confessar que nunca pensei que Lula e seus assessores seriam tolos ao ponto de ordenar minha expulsão do país. Fiquei tão chocado quanto qualquer outra pessoa quando a medida foi anunciada na noite de terça-feira, e soube, assim que ouvi o noticiário, que eles tinham superestimado sua força e iam sofrer uma derrota. Uma coisa era eles invectivarem contra um gringo metido e narigudo que estava ‘manchando’ a ‘honra’ do Brasil. Mas ao tentarem me expulsar, empregando uma lei que datava dos piores dias da ditadura militar, eles tinham ido longe demais e agora estavam também pisando nos calos dos brasileiros"

Márcio Thomaz Bastos

Bruno Miranda/Folha Imagem

"Depois, muitos de meus colegas na imprensa brasileira retrataram Bastos como o líder sensato e cheio de princípios que havia habilmente costurado uma resolução para uma crise desnecessária. Não partilho essa opinião. A meu ver, o comportamento de Bastos quando retornou da Suíça foi tortuoso e ficou aquém dos padrões éticos exigidos dele como o principal representante legal do país. Ele tinha sido advogado pessoal de Lula antes de ingressar no ministério, e, como ocorreu depois, durante a crise do mensalão de 2005 e 2006, agiu não para defender os interesses mais amplos da nação brasileira, mas para favorecer os interesses partidários mais estreitos de seu antigo cliente e do Partido dos Trabalhadores.Para mim, o verdadeiro herói não louvado do episódio, se é que houve um, foi Sérgio Cabral, que na época era senador pelo estado do Rio de Janeiro, e hoje é governador desse estado e um aliado de Lula. Sem me conhecer pessoalmente, mas reconhecendo que estava em jogo um princípio importante, ele entrou com um pedido de habeas corpus para evitar minha expulsão"

Marco Aurélio Garcia

Andre Dusek/AE

"Em sua função como conselheiro de Lula em assuntos de segurança nacional e política externa, Garcia, ex-professor universitário, parecia se ver como uma espécie de Henry Kissinger tupiniquim, um mestre da realpolitik. A realidade, contudo, é que ele parece mais um Renato Aragão da diplomacia, um trapalhão cujo principal talento é bagunçar as coisas"

Lula e Bush

Lawrence Jackson/AP

"As semelhanças de Lula com George W. Bush têm mais a ver com caráter e personalidade. Como Bush, Lula não parece ter muita curiosidade intelectual. Ele não gosta de ler relatórios, muito menos livros, tem uma ideologia estreita que impede que novas experiências mudem sua perspectiva, tinha muito pouca experiência do mundo fora das fronteiras de seu próprio país antes de assumir o governo, e disse algumas coisas notavelmente ingênuas e desinformadas enquanto viajava pelo exterior. Ambos maltratam sua língua nativa, mas ambos são tidos como calorosos e cativantes em situações de contato pessoal. Talvez isso explique a afinidade que eles parecem ter desenvolvido um pelo outro: apesar de suas diferenças ideológicas, parecem reconhecer um no outro espíritos aparentados. De nenhum dos dois, contudo, pode-se dizer que tenha crescido em estatura ou credibilidade enquanto ocupava o cargo"

Oscar Niemeyer

Ricardo Stuckert/PR

"Outro exemplo de um aspecto da cultura brasileira elogiado muito mais do que ele provavelmente merece é a obra do arquiteto Oscar Niemeyer. Sei que isso pode soar chocante, porque há um consenso quase universal aqui no Brasil de que Niemeyer é um gênio. (...) Deixando de lado a política stalinista de Niemeyer, que é execrável, há uma contradição fundamental e irreconciliável entre o que ele professa e a obra que ele produziu. Ele afirma querer uma sociedade baseada em princípios igualitários, mas sua arquitetura, para usar a linguagem do mundo da computação, não é user-friendly. Ao contrário: ela é profundamente elitista e mesmo egoísta, concentrada principalmente em fazer declarações grandiosas e eloqüentes por si mesmas, para satisfação de Niemeyer e seus admiradores, mesmo que cause desconforto ou inconveniência ao usuário"

O esquema nas prefeituras petistas

Fabio Motta/AE

"A atividade ilegal de levantamento de dinheiro em Santo André não era um caso isolado, como afirmavam os líderes do partido, mas era antes parte de um esquema generalizado para acumular uma grande soma em caixa 2 para a campanha, para contrabalançar o apoio da comunidade empresarial aos tucanos. Tinham sido dadas ordens a todos os prefeitos do PT, minha fonte me relatou, para levantar dinheiro por todos os meios possíveis, e cada município havia recorrido a um mecanismo um pouco diferente para cumprir sua cota. Em Santo André eram as empresas de ônibus, como havia ficado claro na investigação do assassinato de Celso Daniel. (...) Em Campinas, onde o prefeito, Antonio da Costa Santos, o ‘Toninho do PT’, tinha sido assassinado quatro meses antes de Celso Daniel, era o superfaturamento de obras públicas e de contratos de estacionamento. E em Ribeirão Preto eram os contratos de coleta de lixo. ‘Ribeirão Preto também?’, perguntei, um pouco chocado, mas no mesmo instante percebendo a importância do que ouvia. Estávamos falando obviamente da época em que Antonio Palocci era prefeito lá, e agora, como ministro da Fazenda, ele se tornara o símbolo da adoção por Lula da responsabilidade fiscal"

O caso Celso Daniel

Epitacio Pessoa/AE

"Enquanto fazia reportagens em São Paulo no começo de 2004, eu tinha entrevistado dois dos irmãos de Celso Daniel, um dos quais tinha se escondido depois de receber ameaças de morte. Bruno e João Francisco Daniel disseram com toda a clareza que, de acordo com o que seu irmão havia contado a eles, os membros mais importantes do PT não apenas sabiam do esquema de corrupção que provocou sua morte, como haviam desempenhado um papel ativo em sua operação. Além disso, eles me disseram, esses membros do PT tinham confirmado para Bruno esse papel. Em resultado disso e de outras entrevistas, minha reportagem incluía um parágrafo, mais ou menos na metade do texto, que imediatamente disparou o alarme no governo e no partido governante.

‘Pouco tempo depois do enterro de Celso, Gilberto Carvalho me contou que tinha feito várias entregas em dinheiro vivo ao partido e que, em uma ocasião, ele ficou apavorado porque estava transportando mais de 600 000 dólares em uma maleta’, disse Bruno Daniel na entrevista. ‘Ele me contou que entregava o dinheiro diretamente a José Dirceu, e foi isso que eu disse aos promotores’."

Genoíno e a guerrilha do Araguaia

Celso Junior/AE


"As entrevistas com Genoíno, que parecia sempre achar a imprensa estrangeira insuficientemente respeitosa, eram sempre delicadas, e nenhuma delas foi mais delicada que esta. Eu entrevistara Genoíno várias vezes no passado, e ele sempre mostrara impaciência comigo e com minhas perguntas, que ele obviamente julgava serem especialmente impertinentes. Mas esta estava fadada a ser uma situação especialmente sensível, dada a história pessoal dele. Ele era tão suscetível a fofocas de que se tornara um dedo-duro sob tortura e revelara informações que comprometiam seus companheiros militantes que tinha até escrito um artigo de jornal negando os boatos"

VEJA Recomenda



TELEVISÃO

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Generation Kill: a Guerra do Iraque vista pelo prisma dos jovens no front

GENERATION KILL (Estados Unidos, 2008. Estréia nesta segunda-feira, às 21h, na HBO)

• Em 2003, enquanto se espera o sinal verde do governo dos Estados Unidos para a invasão do Iraque, o tédio num batalhão de marines é quebrado por duas bombas. Uma delas é o boato que dá conta da morte da cantora Jennifer Lopez. A outra é a chegada inesperada (e surreal) de um comboio da Pizza Hut à base, no meio do deserto. As situações ilustram do que trata Generation Kill. Baseada no relato de Evan Wright, repórter da revista Rolling Stone que cobriu a invasão "incrustado" nas Forças americanas, a minissérie capta o conflito pelo prisma da soldadesca – jovens que ouvem hip hop, jogam videogame e estão ali para matar "bad guys". À medida que avançam pelas cidades iraquianas, tem-se uma visão realista do mergulho dessa geração no caos da guerra. Roteirizada por David Simon e Ed Burns, Generation Kill tem a ironia e a crueza que fazem do cartão de visita da dupla, The Wire, uma série excepcional.

Divulgação
George, o Curioso: macaco de
fama mundial nascido no Rio


GEORGE, O CURIOSO
(estréia nesta segunda-feira, às 13h30, no Discovery Kids)

Nos anos 30, os judeus alemães Margret e H.A. Rey refugiaram-se no Rio de Janeiro para escapar à perseguição nazista. Eles se conheceram e se apaixonaram na cidade – e, também por aqui, criaram o personagem que lhes deu fama. Os primeiros esboços do macaco George, o Curioso, foram inspirados nos dois sagüis que o casal possuía em sua residência carioca. Depois de voltarem à Europa (e quase caírem nas mãos das tropas de Adolf Hitler em Paris, de onde fugiram de bicicleta), George finalmente ganhou o mundo. Desde os anos 40, seus livros venderam 30 milhões de cópias e foram traduzidos em catorze línguas. Em 2006, ele deu mote a um longa-metragem de sucesso – e ainda ao desenho de teor educativo que agora chega à TV brasileira. Nas aventuras de George, as crianças (em especial, as de 4 a 6 anos) se divertem enquanto aprendem noções de matemática e ciências.

DVD

MARTHA ARGERICH: CONVERSA NOTURNA (França/Alemanha/Suíça, 2003. Biscoito Fino)

A argentina Martha Argerich é uma pianista exemplar – e um ser humano excêntrico. Desmarca recitais e foge de entrevistas com o mesmo desembaraço com que se entrega às obras de Chopin, Liszt e Schumann. Portanto, não é de admirar que o suíço Georges Gachot tenha demorado quase vinte anos para concluir este documentário. Mas a espera valeu a pena. Trata-se de um retrato revelador. Num certo momento, Martha conta que tem uma relação pessoal com os compositores – evita tocar Liszt e Chopin na mesma récita porque este último, morto em 1849, ficaria "enciumado". Os extras incluem belos concertos da artista. O único deslize fica por conta dos erros de grafia das legendas.

LIVRO

ÁRVORE DE FUMAÇA, de Denis Johnson (tradução de Luiz Araújo; Companhia das Letras; 656 páginas; 69 reais)

Vencedor do National Book Award, um dos principais prêmios literários dos Estados Unidos, este romance é uma espécie de reedição atualizada de Apocalypse Now. A história também se passa principalmente no Vietnã dos anos 60 (com ecos da atual Guerra do Iraque). Skip Sands é um jovem agente dos serviços de inteligência que atua no Vietnã – e, aos poucos, aprende a desconfiar de tudo e de todos. Ao lado da história de Skip – e de seu tio e mentor, o coronel Francis Sand –, o romance enreda várias trajetórias de soldados que se perdem no Vietnã, num painel da tragédia da guerra.

DISCO

B.B. King: depois de dez anos, o virtuose do blues finalmente lança um CD de lavar a alma

ONE KIND FAVOR, B.B. King (Universal)

Fazia pelo menos dez anos que o americano B.B. King devia um disco como One Kind Favor. Os últimos CDs do bluesman tinham repertório fraco e sonoridade artificial – até Lucille, sua guitarra famosa, soava como um instrumento qualquer. O novo álbum foi produzido por T Bone Burnett, que trabalhou com Robert Plant e Cassandra Wilson, e a banda que o acompanha também é de primeira. King acertou ainda no repertório, que traz três canções de Lonnie Johnson, um de seus maiores ídolos (a melhor delas é Backwater Blues), além de See that My Grave Is Kept Clean, um lindo blues de Blind Lemon Jefferson.

Cinemateca VEJA

Nada é mais lembrado em Instinto Selvagem, que a Cinemateca VEJA lança nesta semana no país (menos nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro), do que aquela cruzada de pernas de Sharon Stone. Mas justiça seja feita: a parceria entre o diretor holandês Paul Verhoeven e o roteirista húngaro Joe Eszterhas é dessas conjunções perfeitas que só o acaso é capaz de produzir. Michael Douglas é o detetive que busca identificar o autor de um assassinato; as pistas apontam para Sharon, uma escritora de livros policiais; mas calha de ela ser uma dessas mulheres de irresistível poder de sedução. Ou seja, essa é uma investigação que vai trilhar caminhos inesperados – assim como o filme.

Nesta semana, em São Paulo e no Rio de Janeiro: Fale com Ela, a inusitada obra-prima do diretor espanhol Pedro Almodóvar.

Como comprar a Cinemateca VEJA

Em bancas, livrarias e redes de supermercados, a 13,90 reais o exemplar avulso. Para assinar, ligue 3347-2179 (Grande São Paulo) ou 0800-775-2979 (outras localidades), de segunda a sexta-feira, das 8 às 22 horas. Pela internet, acesse www.assineabril.com

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PT, o partido da boquinha, pede cargos a Paes

Blog -Noblat

O PT do Rio ainda não negociou oficialmente a presença no governo do prefeito eleito, Eduardo Paes (PMDB), mas as discussões sobre quais pastas o partido vai comandar na nova gestão já estão a todo vapor. As executivas municipal e estadual da legenda fizeram nesta quinta duas reuniões para, entre outros assuntos, pôr em pauta a ocupação de cargos pelo PT na nova gestão. Ao mesmo tempo, petistas como o deputado federal Carlos Santana apresentam quais seriam as melhores áreas para a legenda atuar. Leia mais em Petistas do Rio cobiçam cargos na prefeitura e chegam a falar em 'cota' do partido


Aécio e Serra começam a se entender

Comentário

blog-Ricardo Noblat

O governador Aécio Neves, de Minas Gerais, sugeriu pela segunda vez nos últimos seis meses que o PSDB escolha seu candidato à sucessão de Lula por meio de prévias.

Em visita, ontem, a Belo Horizonte, o governador José Serra, de São Paulo, finalmente concordou com a idéia. "Eu sempre concordo com Aécio", observou. "Eu sempre concordo com Serra", respondeu Aécio.

Foi desastroso o método adotado pelo PSDB para indicar em 2006 Geraldo Alckmin como candidato a presidente da República. Serra seria o candidato natural. Alckmin se lançou candidato.

Uma tarde, reunidos no apartamento do ex-governador Marcelo Alencar, no Rio de Janeiro, quatro cardeais do PSDB e um bispo auxiliar decidiram em favor de Alckmin.

Os cardeais: Fernando Henrique Cardoso, Tasso Jereissati, Arthur Virgílio e Aécio Neves. O bispo auxiliar, na época secretário-geral do partido: Eduardo Paes.

O placar foi 3 x 2 a favor de Alckmin. Votaram em Serra: Fernando Henrique e Arthur Virgílio.

Aécio sabe que vencer uma prévia é a única chance que tem para derrotar Serra dentro do PSDB. Se o principal critério para a escolha do candidato foa posição dele nas pesquisas de intenção de voto, Serra baterá Aécio de goleada.

Por outro lado, Aécio também sabe que perder uma prévia para Serra o deixará na posição confortável de poder apoiá-lo em seguida sem ressentimentos. E contando para isso com a compreensão dos mineiros.

Para Serra, o sonho presidencial termina em 2010. Política tem fila. Se ele não for candidato ou se for e perder pela segunda vez, a fila andará e ele ficará para trás.

Esse problema Aécio não tem. Poderá se eleger senador e esperar sua vez.

Quanto às prévias, Serra tem mais cacife para vencê-las do que Aécio.


Rescaldo -Maria Helen Rubinato



blog Noblat


O que ficou das eleições municipais de 2008? Duas imagens: o presidente da República, numa atitude insólita, se esgoelando em palanques de norte a sul do país, fazendo campanha pelos candidatos de sua preferência; e o Rio, cidade normalmente solar, alegre, gregária, na noite de 26 de outubro, em silêncio, escura, encaramujada, sem nem um pingo de sua costumeira alegria.

As duas imagens e a força de uma confirmação: nós não temos partidos políticos. Não votamos em partidos porque eles não representam idéias firmes. Nossos partidos não têm representatividade social verdadeira, nem capilaridade. Já tivemos partidos distintos, fortes, com projetos bem definidos. Mas agora impera a geléia geral.

Parecemos folhas ao vento, hoje torcendo por A, amanhã por B. Só levamos em conta o contraditório negativo: o contraponto esquerda/direita, elite/proletários, conservadores/liberados. Quanta confusão isso causa.

Direitistas ou esquerdistas? Os primeiros agem como se os esquerdistas fossem o diabo em figura de gente, e chegam a dizer que não há, nunca viram, não existe, um esquerdista inteligente. Os da esquerda estão convencidos que todo direitista come caviar de manhã à noite, mora em mansões de alto luxo, e odeia os pobres. Se ele vai a Paris então, Cristo da abadia, é um monstro que com certeza come criancinhas ao jantar!

E a elite? Você estudou, queimou as pestanas, cuida da linguagem, trabalha, gosta de ler, costuma ir ao teatro, viaja, então você é um elitista nojento que odeia os operários e despreza quem fala errado, porque era pobre e nunca pode estudar. Não adianta argumentar, nem citar inúmeros exemplos de pessoas de origem humilde que por gostar de estudar e aprender, deixaram para trás a ignorância. Nessa hora é melhor não citar Machado, ou Lima Barreto, ou Millor Fernandes, o interlocutor nem ouve, de tanta gana que está do assunto, vai logo dizer que "aí é diferente". É diferente, claro que é, mas se esses homens não fossem persistentes...

Preparem-se que ainda vem melhor: os mais esquisitos, os conservadores. São contra o aborto, contra a união entre homossexuais, contra qualquer manifestação de amor que saia dos padrões convencionados como corretos pela rainha Vitória da Inglaterra, que Deus a tenha. Isso, na luz da Light, porque no escurinho do cinema, quanto mais conservadores, mais liberadinhos. Esses são os mais interessantes para um estudo com lupa, palavra que o presidente Lula vem de adotar. Li uma vez que no caso de uma explosão nuclear final, sobrarão no mundo os cupins, as baratas e, acrescento eu, os conservadores.

Em suma, no rescaldo de nossas recentes eleições municipais, ficou a figura do Lula palanqueando como um possesso; a tristeza de uma cidade ao se ver ameaçada de exclusão do mapa do Brasil se o candidato da situação não vencesse; a sensação que competir de modo limpo e destemido, é remar contra a maré; e também, ao menos para mim, o RIP dos partidos políticos brasileiros.

Como não há mal que sempre dure nem bem que sempre perdure, ficou também uma lamparina acesa, lá no fim do túnel: a vitória do Kassab. Os paulistanos, tendo a sorte de ter um governador que faz oposição ao Governo Federal, mas que não se curva, nem nunca se curvou, reelegeu o bom administrador cujas ações ele vê em seu dia a dia. Solteiro, sem filhos, formado, com um leve problema de dicção, com a ponta do dedo anular perdida num acidente quando era um bebê de um ano, bom filho, bom irmão, bom tio e bom prefeito. Feliz São Paulo!

Vou ser bem franca: fiquei com muita pena de mim. Quatro anos é muito tempo. Sei lá se vou estar por aqui para ver o Rio voltar a ser feliz. Não falo em ferveção do Réveillon ou do Carnaval, nem em dias de sol e praia apinhada, nem do Maracanã lotado e a torcida desfraldando bandeiras. Falo em feliz...

Será que os 900 mil egoístas que não resistiram à chantagem que fizeram com nosso Rio, e resolveram unir o inútil ao desagradável, aproveitar mais um feriadão e ceder ao braço torcido, repetindo João Ubaldo Ribeiro, estão felizes?


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