Entrevista:O Estado inteligente
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segunda-feira, agosto 16, 2004
AUGUSTO NUNES José Dirceu parece saudoso do Granma NO MINIMO
14.08.2004 Nos anos vividos em Cuba, quando treinava para ser um tremendo guerrilheiro e tomar pelas armas o poder no Brasil, José Dirceu de Oliveira só lia o Granma. Até por faltar-lhe alternativa: na década de 70, se alguém quisesse ler jornal na ilha de Fidel Castro, era o Granma ou o Granma.
Qualquer cérebro com mais de três neurônios haverá de concordar: desde Gutenberg, poucos papéis impressos (incluídos prospectos de lançamentos imobiliários ou atas de reuniões de condôminos) conseguiram ser mais tediosos que o velho Granma. (De volta ao Brasil na primeira metade dos anos 70, Dirceu dedicava-se com evidente prazer à leitura do semanário que circulava em Cruzeiro do Oeste, interior do Paraná, onde viveu clandestinamente por muito tempo. O tablóide paranaense talvez lhe parecesse melhor que o similar cubano. Mas estou divagando).
A primeira página do Granma seguia meia dúzia de módulos básicos. Quase sempre, a manchete reproduzia frases de Fidel – ataques ao Grande Satã ianque, elogios a proezas decorrentes do esforço revolucionário, algo nessa linha. Nas grandes datas do regime, frases carregadas de pompas e fitas se conjugavam com imagens dos imensos comícios destinados a celebrar alguma vitória dos combatentes de Sierra Maestra. Nessas edições, ficava especialmente fácil preencher as páginas internas: bastava publicar a íntegra do discurso de Fidel. O palavrório nunca durava menos que cinco horas.
E havia também o módulo, utilizado com frequência aterradora para cabeças capazes de pensar, que incluiria para sempre o Granma entre os piores jornais de todos os tempos. Era a primeira página concebida para anunciar a chegada a Cuba de representantes de nações amigas, pertencentes ao bloco comunista liderado pela União Soviética, implodido a partir dos anos 80. Era um bloco e tanto: gordo e barulhento, reunia países cujos figurões pareciam apreciar com particular entusiasiasmo a ensolarada ilha no Caribe.
Além das comitivas que Moscou não parava de mandar, viviam desembarcando companheiros procedentes da Bulgária, da Polônia, da Hungria, da Tchecoslováquia, da Coréia do Norte, de vários pontos do império socialista. De vez em quando baixavam em Havana delegações de partidos comunistas de países ainda sob o jugo capitalista. O Granma não esquecia nenhuma, mas só as que estavam no poder valiam manchete.
Ilustrado pela foto do bando de forasteiros risonhos, cumprimentados por anfitriões com o rosto tomado por sorrisos tão amplos quanto as barbas, lá vinha o texto padronizado. O primeiro parágrafo registrava a relevância do evento. O segundo saudava a consistência dos laços fraternais que uniam visitantes e visitados. O terceiro parágrafo forjava aquela inverossímil contrafação da lista telefônica: uma relação interminável enunciava os nomes de todos, rigorosamente todos os recém-chegados. Imagine-se uma página inteira com dezenas, centenas de nomes coreanos, tão semelhantes quanto os de príncipes sauditas. Pois era assim a coisa no Granma.
São bem mais raras essas páginas, as velhas nações amigas viraram peças de museu. Mas o Granma não mudou na essência, como acaba de constatar José Dirceu. Premiado com alguns dias de descanso, o atual ministro, que acumula a chefia da Casa Civil com o posto de capitão do time de Lula, resolveu passar férias em Cuba. Reviu o jornal. Pode até ter confirmado que o semanário de Cruzeiro do Oeste é mais atraente. Mas também pôde conferir as vantagens da fórmula caribenha.
No Granma, jamais são publicadas notícias desagradáveis aos donos do poder. Críticas a Fidel? Nem pensar. Restrições ao regime, nenhuma. Denuncismo ali não tem voz nem vez. Diários assim até dispensam conselhos federais de jornalismo.
É com esse tipo de imprensa que sonham os governos. O governo de Lula e Dirceu também adoraria conviver só com filhotes do Granma.
Publicadoem: Mon, Aug 16 2004 6:32 PM
TODA MÍDIA - NELSON DE SÁ
Enquanto ameaça com o controle da cobertura, o governo vai pondo o seu dinheiro na propaganda. Ontem começou nas redes uma campanha do Banco do Brasil. Segundo o "Painel", serão 43 comerciais para mostrar o estímulo do banco a produtos de exportação. Por exemplo, algodão. Com a cantora Luciana Mello, filha de Jair Rodrigues, como garota-propaganda: - Algodão brasileiro na Europa. Mundo pequeno. Ou é o Brasil que está crescendo? Pergunta, é claro, retórica. Lula já havia respondido pelos eleitores-telespectadores no pronunciamento em rede nacional, outro esforço publicitário de Duda Mendonça: - Não há mais dúvida, estamos finalmente iniciando um ciclo de crescimento. "A data" do pronunciamento, como observou Franklin Martins na Globo News, "foi escolhida a dedo". A data da campanha do banco, também. Luciana Mello mostrou a carne brasileira na Bélgica, o algodão na Áustria. E avisou que será assim todo domingo, numa volta ao mundo nos intervalos do Fantástico. Ambos, Lula e Luciana, surgem às vésperas do horário eleitoral numa campanha que o PT, na manchete de ontem da Folha, quer federalizar. O governador Geraldo Alckmin, no site da Agência Estado, respondeu que "o povo é sábio" e consciente de que "a eleição federal é em 2006". É esperar demais do povo.
O horário eleitoral começa amanhã, só com candidatos a vereador. O impacto maior será na quarta-feira, com os candidatos a prefeito. Mas quarta-feira é também o dia do "jogo da paz", aquele que Lula e Ricardo Teixeira, presidente da CBF, armaram para o Haiti com as maiores estrelas do futebol brasileiro. Até na cobertura de rádio já se questiona a partida. Wanderley Nogueira, da Jovem Pan, antes elogiava e agora critica a "propaganda". Lula estará lá, ao lado dos jogadores. Dizem que dará até o pontapé inicial. Viajou ontem à tarde para o Caribe, como noticiou a CBN. Entre voltar sua atenção aos jogadores ou aos prefeituráveis, "o povo" e o Jornal Nacional nem devem titubear. E vem aí mais federalização. Como escreveu Kennedy Alencar, ontem na Folha Online, "Lula aguarda com paciência o resultado do PIB no primeiro semestre". Sai no fim do mês, em "hora estratégica do ponto de vista eleitoral -segunda semana do horário gratuito". E vem mais, no que já parece um cronograma que vai até a eleição. A revista "Veja" noticia que "o governo prepara uma supercomemoração" para o 7 de Setembro. Com menos ordem unida e mais espetáculo, inclusive um carro de Fórmula 1 de Ayrton Senna. O mesmo Banco do Brasil, da nova campanha iniciada ontem, já foi chamado a "colaborar". Vai ser um show.
VENDAS
Reprodução
Ecoando discursos de Lula, a campanha do Banco do Brasil mistura "valores" com êxito no comércio externo
Serra e Maluf José Serra inicia o horário eleitoral visando, segundo a Folha, "congelar o atual cenário que o coloca no segundo turno" em São Paulo. Em seu favor, o maior tempo de todos. O marqueteiro de Paulo Maluf, com um quinto do tempo de Serra, diz não se preocupar porque seu candidato "é bastante conhecido". Segundo "O Globo", a saúde será prioridade de ambos, na propaganda. PFL em 2006 O ex-presidente José Sarney, segundo "O Globo", está "preocupado" que o PSDB não consiga passar para o segundo turno em São Paulo, o que enfraqueceria a oposição. Pelo sim, pelo não, o PFL está em estudos para sua "refundação" após o pleito. Segundo a Agência Nordeste, Jorge Bornhausen quer "mudar para permitir que pessoas de qualidade" entrem no partido e o tornem "alternativa de poder, não mais mero coadjuvante". Oligarquia Em destaque no site do PT, ontem, uma foto do venezuelano Hugo Chávez ao receber o apoio de petistas, em Caracas. Lula pode manter distância protocolar, mas seu partido só faz pensar em Chávez, em aposta arriscada de vitória no plebiscito. Uma passagem, por exemplo: - A oligarquia, a turma do andar de cima parece estar condenada à derrota. No Brasil, os petistas já esqueceram tal retórica. Chávez e os EUA Retórica é o que não falta a Chávez, mas é só conversa. Antiamericano da boca para fora, ele trata a cobertura americana melhor do que todas as outras, com entrevistas exclusivas da CNN ao "Los Angeles Times" e quem mais quiser. Mas ao menos no Estado da Flórida, no "Miami Herald" e em sua versão em espanhol, "El Nuevo Herald", a cobertura do plebiscito venezuelano, até ontem, foi abertamente contrária a Chávez.
Publicadoem: Mon, Aug 16 2004 5:31 PM
Da Redação Em São Paulo
A segunda Olimpíada na carreira acabou sendo frustrante para Gustavo Kuerten. O tenista brasileiro, que estava mais focado na tentativa de conquistar a primeira medalha para o país na modalidade, foi eliminado logo na estréia pelo chileno Nicolas Massú, 14º colocado no ranking mundial.
AFP Kuerten não conseguiu superar o jogo de fundo de quadra de Massú e foi eliminado Cometendo muitos erros não-forçados e sem conseguir frear o bom jogo de fundo de quadra de Massú, Guga foi derrotado por 2 sets a 1, com parciais de 6-3, 5-7 e 6-4. O brasileiro queria, no torneio olímpico de Atenas, "consolidar sua carreira", que tem, entre outros títulos, o tricampeonato de Roland Garros, em 1997, 2000 e 2001.
Por isso, mudou bastante o seu jeito em relação ao que viveu em Sydney-2000, quando, em uma das melhores fases da carreira, parou nas quartas-de-final, eliminado pelo então campeão Yevgeny Kafelnikov. Como já havia passado por uma experiência olímpica, o "novo" Guga abriu mão de viver o dia-a-dia da competição e nem sequer participou da cerimônia de abertura.
Com a derrota, Guga perdeu grande chance de ir longe na competição, já que a chave de disputa lhe era favorável. Se passasse por Massú, enfrentaria o norte-americano Vincent Spadea, um tradicional "freguês" e, na continuidade, o jogo mais complicado até as quartas-de-final seria um hipotético confronto com o espanhol Carlos Moyá.
A derrota também deixou o Brasil sem representantes na chave principai do torneio de simples, já que, no domingo, Flávio Saretta já havia sido eliminado na primeira rodada pelo norte-americano Andy Roddick. O melhor resultado do país em Olimpíadas continua sendo o quarto lugar de Fernando Meligeni, em Atlanta-96.
Contra Massú, Guga conheceu a segunda derrota em quatro partidas. Na última delas, ele havia perdido por 2 a 0 pela primeira rodada do Masters Series de Madri de 2003.
Descalibrado, Guga teve dificuldade para entrar no ritmo de jogo de Massú, que dominava a partida graças ao seu forte golpe de direita. Além disso, o chileno usou bem o primeiro serviço e deu poucas chances ao brasileiro de quebrar o serviço.
Com tudo isso, Guga só conseguiu segurar o adversário até o terceiro game. No quarto, Massú pressionou e conseguiu dois break points. O brasileiro ainda virou o marcador, mas cometeu um erro não-forçado que acabou sendo fatal. De posse de outro break point, Massú aproveitou uma bola curta e atacou com uma golpe em paralela para fazer 3 a 1.
Depois disso, Massú dominou com tranqüilidade os pontos que teve com o saque à disposição. O chileno confirmou seu serviço mais três vezes e, sem ter resistência do outro lado da quadra, fechou a série em 6 a 3.
No segundo set, Guga melhorou bastante seu desempenho. O bom momento se refletiu principalmente no quarto game. Ele fez o chileno correr de um lado para o outro e conseguiu dois break points. Com dois bons saques, porém, Massú dificultou a devolução de Guga e empatou. Em seguida, manteve o rendimento do serviço e fechou o game, fazendo 2 a 2.
A partir daí, o jogo ficou nervoso, e Guga usou a experiência para tentar a virada. Vibrando bastante nos pontos, ele começou a encaixar bons golpes e atrapalhou o desempenho do chileno. Mesmo assim, o brasileiro só voltou a ter chances no 12º game.
Guga saiu perdendo de 40-15, mas se recuperou em grande estilo. Com boas devoluções, ele virou o placar e conseguiu um break point. Massú ainda igualou a contagem, mas o brasileiro insistiu e voltou a ter vantagem, novamente salva pelo chileno. No fim, Guga se aproveitou de dois erros de Massú para fechar o game e o set em 7-5.
No terceiro set, Guga voltou motivado, mas encontrava um forte adversário do outro lado e que principalmente não ficou abatido com a derrota na série anterior. O equilíbrio foi mantido entre os jogadores até o quarto game.
No quinto, Guga, irregular, voltou a cometer erros. Ele perdia por 30-15, quando cometeu uma dupla-falta e cedeu dois break points para Massú. Na primeira oportunidade, o brasileiro foi mal na troca de golpes de fundo de quadra e deu o ponto da quebra para o chileno, jogando a bola para fora.
Perto da derrota, Guga já não encontrou mais forças para a virada. Do outro lado ainda tinha um adversário repleto de confiança e que fechou dois games de saque em seguida sem dar nenhum ponto ao brasileiro.
Mesmo com vantagem de 5 a 3, Massú não se poupou e tentou fechar o jogo rapidamente. Mas Guga ainda sobreviveu. No décimo game, o chileno continuou com seu saque arrasador e, sem dar chance ao brasileiro de trocar bolas, fechou a partida em 6-4.
Publicadoem: Mon, Aug 16 2004 2:57 PM
FERNANDO RODRIGUES 16.8.2004 A nova "carta" de Lula
O PT prepara uma versão social da "Carta ao Povo Brasileiro", documento que Lula divulgou em 22 de junho de 2002, ainda candidato a presidente. Há dois anos, o documento serviu para o PT e Lula assegurarem aos banqueiros que respeitariam as regras da ortodoxia tucana. Tinha seis páginas e 1.757 palavras, mas só uma frase relevante. Era a que falava sobre como seria a mudança de governo: "Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país". Funcionou. Os banqueiros sossegaram. Lula ganhou a eleição. Agora, quase dois anos de arrocho depois, a " intelligentsia" petista considera ter chegado o momento de uma "Carta dos Direitos Sociais". O texto está sendo negociado com o governo. Será anunciado até o final deste mês. A tempo de alavancar as campanhas a prefeito de petistas. Com o país crescendo de 4% a 5% neste ano, o documento será a bandeira do PT para tentar resgatar um pedaço de sua imagem que ficou perdido em algum canto da estrada desde a eleição de Lula. Deverá incluir e explicitar o que são os conceitos e compromissos petistas sobre saúde, educação e transporte coletivo. O projeto de renda mínima de Eduardo Suplicy estará lá. Ancorado em muito marketing, o documento será uma espécie de idéia-força nas campanhas de petistas neste ano. Será usado também para martelar no imaginário do eleitor a necessidade de reeleger Lula mais adiante, em 2006. Tudo somado, na vida real, é pastel de vento puro, legítimo. Vai funcionar então? Depende. No caso da "Carta ao Povo Brasileiro", o prometido foi entregue. Os juros estratosféricos pagos por Palocci-Meirelles deram lucros fantásticos às instituições financeiras. No caso dos direitos sociais, não está claro exatamente qual será a entrega da mercadoria. Muita gente no PT acha que só o crescimento da economia basta. No curto prazo, vá lá. Depois, vira só uma aposta arriscada.
Publicadoem: Mon, Aug 16 2004 9:32 AM
domingo, agosto 15, 2004
Crescimento do Brasil ainda depende de parceiros relutantes
Crescimento ainda depende de parceiros relutantes Confirmam-se as previsões da semana. Enquanto a economia do Brasil cresce, aproveitando os seis primeiros meses de expansão comercial, a China e os Estados Unidos desaceleram e a Europa acorda, como nós acordamos ao estimular os investimentos. Podemos chegar a 4% no primeiro semestre, mas se eles recuarem muito, como estão recuando, será necessário um avultado esforço nos próximos meses para manter as taxas atuais.
As informações deste fim de semana mostram que aquele impulso americano e, principalmente, chinês-asiático, começa a perder força. Nos EUA, a maioria dos economistas revisou suas previsões de crescimento para este ano de 4,5% para 4,1%. E na China, o banco central admitiu sexta-feira que a inflação anualizada, em julho, ficou em 5,3%.
"A economia chinesa está vivendo uma fase crítica", diz o banco, dando a entender que logo mais poderá aumentar os juros. Aguardava apenas que o índice chegasse a 5% para pensar nisso. Passou. E vai seguir assim. Nesta fase inicial de desaquecimento, o BC chinês já está reduzindo a expansão monetária, vem dificultando o crédito e adotou outras medidas para conter o crescimento do PIB já neste trimestre e irá mais longe.
Japão Pode não ser coincidência, mas também neste fim de semana o governo do Japão informou que no segundo trimestre o PIB cresceu apenas 0,4%. Em 12 meses, não passou de 1,7%, muitíssimo abaixo das previsões de 4,1% do mercado e de 4,5% do FMI.
Está havendo sinais de novo recuo no aumento da demanda interna, informa o governo, o que se reflete no pequeno investimento das empresas privadas.
Elas ainda permanecem cautelosas.
A economia japonesa continua sustentando-se principalmente nas exportações para os EUA e a China, ambos em processo de desacelaração. O aumento do consumo do setor privado, que representa 55% do PIB, não passou de 0,6% em confronto com 1% no primeiro trimestre. EUA, China e preço do petróleo são as amarras que impedem, agora, a saída definitiva da recessão. O futuro do Japão continuará ainda indefinido pelo menos por mais alguns - ou muitos - meses. Haverá momentos de certa euforia, mas o cenário está ainda indefinido. Simplesmente porque eles não consomem, poupam. Não gastam, guardam. Sobra dinheiro e falta crescimento. As reservas cambiais acumulam-se. Ociosas ou aplicadas na compra de papéis no mercado financeiro, principalmente títulos americanos que agora, com a alta dos juros, estão rendendo mais, porém não destinadas a gerar recursos para projetos produtivos, oficiais ou privados. Numa frase, não se pode contar com o Japão para impedir a desaceleração da economia mundial.
Uma boa notícia Enquanto o Brasil avança, exporta e debate comércio com os europeus, surgem enfim as primeiras boas notícias na eurozona dos últimos anos. Parece que acabou a retração econômica na Alemanha. No segundo trimestre do ano, o PIB cresceu 0,5%, a melhor performance dos últimos 3 anos. O último bom resultado, 0,9%, foi no primeiro trimestre de 2001. Essa informação oficial veio logo após a França ter festejado que também no segundo trimestre sua economia cresceu 0,8% repetindo o resultado dos 3 meses anteriores. Em Paris, já se fala em 2,5% até o fim do ano, e, em Berlim, 1,5% ou 2%. Algo inusitado após anos de estagnação.
Mas, em ambos os casos, o mesmo diagnóstico: a causa básica não veio do mercado interno, mas das exportações. Ou seja, mais uma vez, muita coisa fica dependendo da demanda externa americana e asiática nos próximos meses.
São eles que compram É importante assinalar que estamos falando dos nossos três principais mercados: 1- a União Européia, 25,9% do total; 2 - os EUA, agora só 20,3%; e 3 - a Ásia, 16,3%.
Nesta, surge a China, para onde exportamos quase US$ 3 bilhões de janeiro a julho, 6,7% do total, e o Japão. Aqui, no comércio com os japoneses, o grande desânimo. Usando a ilusão da porcentagem, pode-se dizer que entre janeiro e julho do ano passado e o mesmo período deste ano o crescimento das vendas para o Japão aumentaram 17,4%, mas em termos de valores, não passamos muito de US$ 1 bilhão. Ou seja, US$ 1,039 bilhão em 2003 e US$ 1,220 bilhão nestes 7 primeiros meses. E isso para um país que importou mais de US$ 350 bilhões em 2003...
Acordamos!!!
O cenário que vemos é uma China se desacelerando, os EUA hesitando e uma União Européia feliz por sair da retração e aproximar-se de 1% no trimestre. Podemos estimar que o a economia chinesa fique em 7,5%, a americana em 4,2% ou 4,5%, dependendo do último trimestre do ano, e a européia em 2%. Não são números muito animadores, o que revela, mais uma vez, o acerto, afinal, do governo ao estimular os investimentos diretos, internos e externos, para reanimar a economia. Mesmo com um crescimento menor dos nossos parceiros comerciais, inferior ao previsto no início do ano, nossa participação no mercado mundial é tão pequena, mas tão pequena, algo aí da ordem de 1%, que há um espaço imenso para ocupar num mercado de US$ 7 trilhões.
Não, não, acalme-se, meu caro leitor. Não vou voltar à tese exaustiva pela qual tanto nos batemos há anos - investimento-exportação, exportação-investimento etc. -, mas que, após tanta gritaria, parece que acordaram em Brasília. Ah!, que acordaram, acordaram... É verdade que estamos ainda esfregando os olhos, nos primeiros bocejos de uma longa e teimosa hibernação. Mas pelo menos bocejar já é algo melhor do que ficar roncando enquanto os asiáticos, os russos, os indianos e até mesmo os mexicanos bailavam ao nosso lado...
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 3:36 PM
AUGUSTO NUNES
Que jornalistas não podem ser considerados intocáveis, sabem disso até letras assassinadas por reformas ortográficas. No Estado de Direito, ninguém está acima da lei ou infenso a punições, seja qual for a profissão que exerça.
Que as redações sempre abrigaram delinqüentes, às vezes hospedados em cargos de chefia, disso se sabe graças a jornalistas decentes e capazes de indignar-se. Alguns meliantes foram formalmente denunciados. Livraram-se do merecido castigo graças à praga do corporativismo, sempre cultivada por sindicatos e federações.
Instrumentos para o combate à bandidagem na imprensa não faltam. As normas e sanções necessárias estão nos códigos de ética e na legislação em vigor.
Basta aplicar o prescrito, e deixar o restante por conta dos leitores, donos efetivos de qualquer publicação. Se o jornal que assina não atende ao compromisso de publicar informações consistentes, textos bem escritos e comentários aceitáveis, mesmo que não exprimam seu pensamento, o leitor se vai.
É para evitar tais riscos que jornais e revistas procuram tratar da própria saúde. Imprensa séria não precisa do Conselho Federal de Jornalismo que o governo federal resolveu inventar. A entidade não foi concebida para que o noticiário ganhe em exatidão e qualidade. É só uma esperteza autoritária.
Tratemos do caso com a clareza que se tem evitado. O presidente Lula da Silva, como admitem os próprios assessores, nunca foi de ler jornais. Não gosta sequer de examinar sinopses. Não está preparado, portanto, para discutir o assunto. O ministro José Dirceu é um nostálgico do Granma de Fidel Castro.
No jornal cubano, não há espaço para denúncias contra o governo, nem jornalistas dispostos a escrever sobre os Waldomiros da ilha. Sobram elogios ao governo e louvações a Fidel. A agenda é sempre positiva, como sonha o ministro Luiz Gushiken. Tão positiva como a agenda que pautava, por exemplo, os diários da Alemanha nazista. Veja-se uma reprodução da primeira página do Der Stürmer em 1938. Mesmo fatos aparentemente negativos exibiam a face boa. O extermínio dos judeus, por exemplo.
Querem o conselho, além do governo, zumbis sindicais guiados por jornalistas cuja intimidade com a profissão é tão intensa quanto a convivência entre banqueiro e mendigo. Esses deveriam ser submetidos a uma prova singela: escrever reportagens. Seriam todos reprovados.
Liberou geral A turma da nova gramática resolveu, como se sabe, que na Era Lula tudo deve ser simplificado. Deu pra entender o que foi dito? Então, tudo bem. Os partidários da teoria são premiados nesta edição com dois circunflexos que podem ajudá-los a estender o vale-tudo à linguagem escrita. É difícil alguém acreditar que a placa à esquerda esteja efetivamente propondo a degustação da intragável novidade. Ou achar, ao ver a mudança do acento ocorrida na placa da direita, que o avô do chaveiro usa o chapéu no umbigo.
O sotaque atravessou a homenagem Faz pouco, ao lembrar a bebedeira com Jânio Quadros, mencionei ligeiramente o então deputado Gastone Righi Cuoghi. Hoje meio sumido, ele acumula singularidades na biografia. Começam na certidão de nascimento. O prenome desse neto de imigrantes italianos deveria, por decisão da família, homenagear a finada monarquia brasileira.
Gastão Henrique, assim se chamaria o viçoso bebê nascido em Santos.
Ficaria o Cuoghi ancestral, adornado por aquele h entre o g e o i. Gastão Henrique Cuoghi, esse o nome dele. Encarregado das providências burocráticas, o avô paterno botou o menino no colo, recrutou duas testemunhas e marchou sobre o cartório.
O escrivão quis saber como se chamaria a criança e pediu algum documento ao parente. O velho entregou um papel ao funcionário e declinou o nome do menino.
- Gastão Henrique - tentou dizer. O sotaque fortíssimo não ajudou.
- Gastone Rigui - ouviu o escrivão.
O homem escreveu Gastone sem vacilar. Hesitou centésimos de segundos até decidir que o que ecoara como "Rigui" era também sobrenome, talvez o da mãe. Melhorou a grafia: "Righi", anotou, incorporando o h que combinava com o do "Cuoghi". Ao menos este não permitia dúvidas: estava lá no documento.
Preenchida a certidão, todos assinaram sem nada conferir. Avô, escrivão e testemunhas cumprimentaram-se e partiram. Não se viram mais. Quando alguém da família percebeu o equívoco, era tarde. Gastão Henrique virou Gastone Righi. Cuoghi. - Ficou até melhor - brincava o deputado ao contar a história. - Ninguém esquece meu nome, não há outro no Brasil. E nunca tive problemas por causa de homônimo caloteiro.
Cabôco Perguntadô
Convencido de que o ministro Luiz Gushiken é o primeiro nissei candidato a virar sábio chinês, o Cabôco Perguntadô decidiu mantê-lo sob estreita vigilância. Passa horas procurando trunfos que o ajudem a perturbar com perguntas incômodas o jeitão beatífico de Gushiken. Na semana passada, quando o ministro defendeu a criação do Conselho Federal de Jornalismo, anotou a essência da argumentação do pensador oriental: também a liberdade de imprensa deve ser relativizada, "porque numa sociedade nada é absoluto".
O Cabôco pinçou na memória uma frase célebre do historiador inglês Lord Emerich Acton (1834-1902): "O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente." Quer agora saber: Gushiken também revogou a hipótese do poder absoluto?
Vitória da imaginação Na campanha de 1998, Paulo Maluf conseguiu eleger o desconhecido Celso Pitta seu sucessor na Prefeitura de São Paulo. Valeu-se de lances publicitários bastante audaciosos, entre os quais um desafio famoso: "Se Pitta não for um bom prefeito, nunca mais votem em mim." Como Pitta foi um desastre e Maluf seguiu caçando votos, não param de cobrar-lhe explicações. Uma das mais imaginosas, surgida na semana passada, transfere o problema para o publicitário que chefiou a campanha de Pitta e agora trabalha para reeleger a prefeita Marta Suplicy:
"A CULPA É DO DUDA MENDONÇA. ELE FEZ A FRASE E COLOCOU NO TELEPROMPTER. EU SÓ LI."
Maluf pode perder a eleição. Mas merece a taça.
Batalha de imagens na internet
Montagem Marcelo Pio sobre foto de Victor Soares/Abr
O presidente da República anda se estranhando com a internet desde que começaram a circular na rede três fotos de uma seqüência na qual figura a reproduzida à esquerda. Lula acredita que alguém recorreu a retoques marotos para mostrá-lo mais suado (nos cabelos e na testa, principalmente) e acentuar o tom avermelhado do nariz. Acha que ficou mal no retrato, colhido em recente festa junina na Granja do Torto.
"Está parecendo que exagerei na bebida", irritou-se o anfitrião da homenagem a Santo Antônio, flagrado no papel de condutor do trenzinho da quadrilha. Modificações encomendadas pela coluna, destinada a melhorar o humor de Lula, resultaram na imagem à direita. Quanto ao responsável pelo vazamento, deve ser procurado na lista de convidados. Dessa relação não consta o nome de nenhum fotógrafo profissional.
augusto@jb.com.br
[15/AGO/2004]
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 10:45 AM
Mau conselho
O aprimoramento ético dos meios de comunicação, o que tanto se refere a empresas como a jornalistas, é uma necessidade hoje e sempre será uma conveniência. Um modo já experimentado de buscar esse aprimoramento é, entre outros, a criação de conselhos, comissões ou institutos específicos. Mas o Conselho Federal de Jornalismo proposto pelo governo não seria isso. Não seria também o retorno da censura, como tantos têm dito. O propósito é o dirigismo, objetivo e método mais próximos do sistema aplicado à mídia soviética ao tempo de Stálin e à mídia alemã dos anos 30, do que identificado com a censura boçal do AI-5 e das ditaduras convencionais. A censura é um dos efeitos do dirigismo, mas não o único nem o principal: o dirigismo busca conduzir a opinião pública para propósitos do poder. Pode-se mesmo incluí-lo entre as modalidades de lavagem cerebral. Uma palavra no projeto do Conselho Federal de Jornalismo é bastante para que ele se autodenuncie. Suas atribuições estão assim definidas: "ORIENTAR, disciplinar e fiscalizar o exercício da profissão de jornalista e da ATIVIDADE DE JORNALISMO". Orientar só pode ter um sentido: indicar uma direção a ser seguida, uma linha de ação a ser praticada, um rumo que se sobrepõe à preferência do sujeito, é induzido. Um dos pressupostos fundamentais do jornalismo, no entanto, é a elaboração de suas próprias orientações -variadas, conflitantes entre os "órgãos" da mídia e entre os jornalistas. Isso, exatamente isso, é a liberdade de imprensa. Um dos dirigentes da Federação Nacional dos Jornalistas, origem do texto encampado pelo governo, usou na Câmara deste argumento em defesa do projeto: "Um jornalista que é obrigado a escrever sobre algo que é contra a ética, porque o patrão determina, não tem a quem recorrer". Sempre teve e terá a maior das instâncias: deve recorrer a seus princípios e demitir-se, e, se não faz, é porque não tem princípios éticos a defender. De fora do petismo sindical, outra invocação da defesa dos jornalistas está representada em carta do advogado Alberto Zacharias Toron à Folha: "Os jornalistas (...) vão ter um órgão que, além de regular aspectos ético-disciplinares, poderá defendê-los". A defesa dos jornalistas está assegurada desde sempre, e por quem tem a competente habilitação para fazê-la: os advogados. E, de maneira geral, os magistrados de primeira e de segunda instâncias nos têm julgado com imparcialidade e com profundidade no exame dos fatos e suas circunstâncias. Toron acredita, ainda, que o conselho, representando os jornalistas, poderá, "como a OAB, tomar parte ativa no debate político-institucional". Uma velha e boa entidade tem vida e história de muitas décadas no exercício desse papel. É a Associação Brasileira de Imprensa, a ABI sempre presente ao lado da OAB nas grandes causas nacionais e, agora mesmo, entregando-se a novos projetos. A menos que as atribuições de "disciplinar e fiscalizar" refiram-se a obediência à orientação dada pelo conselho sobre o quê, como e quando escrever ou não, tais funções juntam-se a outras de gênero burocrático (emitir carteira funcional, fazer cadastro, etc.). Para as quais existem os sindicatos e, conjugando-os, a Federação Nacional de Jornalistas. Há questões éticas muito importantes e sempre à espera, nem se diga que de solução, mas pelo menos do debate de que sindicatos e a Fenaj são devedores -devedores, não aos jornalistas, mas ao jornalismo e ao país. Seguem-se uns poucos exemplos. Legal é, mas é também legítima, ou não, a filiação de jornalista a partido político, com a inevitável submissão a ditames partidários que tendem a influir, senão mesmo a comprometer, o desempenho jornalístico? A ética admite, e sob que condicionamentos o faria ou não, atividades comerciais de jornalistas em empreendimentos influenciáveis por sua atividade jornalística? Pode ou não o jornalista aceitar remuneração oficial por tarefas que lhe encomende um personagem de seus assuntos jornalísticos? E por aí vai. Questões assim são inalcançáveis por contestações, desmentidos, correções e mesmo por julgamentos judiciais, mas são essenciais para a ética dos meios de comunicação e dos jornalistas. É claro que são também necessárias maiores exigências de precisão informativa e cautela no envolvimento de pessoas. Mas, sejam quais forem os propósitos originais de seus autores, não é nessa direção que vão os efeitos esperáveis do Conselho Federal de Jornalismo como o governo o deseja. Se posto em vigor, por certo vai gerar um movimento nacional como há tempos não se vê aqui.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:47 PM
O atentado da rua Tonelero
Dias atrás os jornais rememoraram os 50 anos do atentado da rua Tonelero, contra Carlos Lacerda. Nele, morreu o Major Vaz. Pressionado pela opinião pública, algumas semanas depois o presidente Getúlio Vargas se suicidaria. Foi um dos episódios centrais da moderna história do país. Aquele episódio entrou de diversas maneiras na minha vida de moleque do interior. Lacerda era amigo do meu avô Issa, presidente da UDN de Poços e do Clube da Lanterna -a UDN particular do Lacerda. Foi por meio do meu avô -e seu sogro- que o jovem estudante Luiz Fernando Mercadante, até então aluno interno do Colégio Marista de Poços de Caldas, foi ao Rio para trabalhar com Lacerda e se tornou o mais promissor jovem jornalista político de seu tempo. A bem da verdade, eu não tinha idade nem tenho lembrança do episódio da rua Tonelero, quando ocorreu. Soube depois, pelas minhas tias, que Lacerda foi salvo dos pistoleiros graças à minha avó Martina, ela mesma, que escreveu do próprio punho o Salmo 90 que Lacerda guardava permanentemente na carteira. E ela soube de sua participação no episódio pelo próprio Lacerda, que, no dia seguinte, ligou para a casa do meu avô para agradecê-la e atribuir ao Salmo 90 o milagre de ter escapado vivo do atentado. Quando comecei minha carreira de jornalista, a primeira coisa que vó Martha fez foi escrever o Salmo 90 do próprio punho e me obrigar a guardar na carteira. Anos depois, no Colégio Marista, fui aluno de Rosa Branca, o irmão Gregório, descendente de Arthur Bernardes e um intelectual renascentista. Era pintor, artesão, preparou o único dicionário tupi-guarani existente -e que foi surrupiado por algum aluno inconformado com suas notas. Era parceiro do padre Quevedo naquelas lengalengas de desmistificar fenômenos espíritas. Um de seus feitos foi uma luva de parafina, reprodução perfeita da mão humana, com impressão digital e tudo, em que o dedo indicador formava um arco com o polegar -simbolizando o ato do padre dar a comunhão aos fiéis. Pois Rosa Branca contava ter sido a última pessoa a se despedir de Lacerda, na visita que ele fez ao seminário Marista na Tonelero, antes de sair para o saguão e levar os tiros. A terceira presença de Lacerda em Poços consistia na sua seguidora leal, Sandra Cavalcanti, que passava todas as férias no Colégio São Domingo. Acho que era irmã de uma das freiras de lá. Poucas vezes se viu na história do Brasil político mais carismático, jornalista mais brilhante, alma mais atormentada. Tinha em Brizola seu principal adversário em carisma. Havia Jânio, mas não tinha o porte épico de Lacerda. Juarez Távora, talvez. Lembro-me até hoje, no bar de meu avô, daquele herói imenso passando a mão na minha cabeça e prevendo: "Você será um udenista". Fui, mas só até os 14 anos. Mas Lacerda tinha a pose, o discurso, a coragem e um brilho incomuns. Quando estourou a Revolução, Castello cometeu a imprudência de enviá-lo a Paris, como embaixador do novo regime. No aeroporto estava toda a imprensa francesa o aguardando. A primeira pergunta foi: "Que revolução é essa que não tem sangue?". A primeira e última resposta foi: "Revolução no Brasil é que nem casamento na França". Malcriado. Mas brilhante. Anos atrás, comprei na Collectors gravações radiofônicas de discursos dele, acho que na rádio Globo. Não tinha a retórica amazônica dos políticos tradicionais. Tinha a fala clara, pausada, o raciocínio lógico que ia tecendo teias de argumento que enredavam os ouvintes. Sem formação econômica, mas dotado de uma lógica imbatível, enfrentou Roberto Campos no governo Castello Branco. E discutindo economia. Na gravação da Collectors pude apreciar o nível de seus argumentos. Certa vez indaguei a Campos qual a crítica que mais o afetara. Foi justamente a de Lacerda, que cunhou uma definição mortífera para a política econômica da época: "matava os pobres de fome, e os ricos, de raiva". De Getúlio, falo no próximo domingo.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:27 PM
RUBENS RICUPERO
O choque do petróleo mais a desastrosa Guerra do Vietnã se reforçaram mutuamente para fazer dos anos 70 a década da estagflação e um dos pontos mais baixos do moral coletivo do povo norte-americano. Em 1974, desembarquei em Washington, em meio a quilométricas filas nos postos de gasolina, para permanência que se prolongaria por mais de três anos. Durante esse período, assisti ao inexorável desenlace de Watergate, à penosa renúncia de Nixon num triste dia de chuva, à "débâcle" wagneriana da derrota final do Vietnã e da queda de Saigon, aos últimos helicópteros levantando vôo do terraço da embaixada dos EUA com cachos humanos dependurados do trem de aterrissagem. Foi tremendo o golpe sofrido pelo amor-próprio e a autoconfiança de gente emocionalmente exausta com uma guerra interminável. As investigações parlamentares devassaram impiedosamente a CIA e as outras agências de inteligência, escancarando arquivos que vomitaram segredos tenebrosos. O "Freedom of Information Act", a extraordinária façanha dos repórteres do "Washington Post", guiados pelas anônimas revelações de "Deep Throat", a emulação dos demais jornais no frenesi investigativo prometiam garantir que os cidadãos americanos nunca mais seriam manipulados por mentiras oficiais a pretexto da segurança nacional. A hipótese parecia ainda mais remota no momento em que resoluções do Congresso proibiam expressamente o aventureirismo de operações clandestinas em Angola, no Chifre da África, tornando inevitável o desengajamento do ativismo intervencionista. Produziram-se filmes memoráveis, o documentário "Hearts and Minds", "Nashville", um dos grandes filmes políticos de Altman. Mais tarde, chegaria a vez de "Apocalypse Now". Como toda guerra, a do Vietnã fez passar a segundo plano as considerações econômicas. Déficit, dívida, inflação eram preocupações de pouca monta diante dos caixões enrolados em bandeiras americanas deslizando em esteiras rolantes da barriga dos aviões de transporte, como se fosse uma produção em série. Entre 1971 e 1973, Nixon teve de liquidar o essencial do sistema de Bretton Woods: a conversibilidade dólar-ouro e a paridade fixa, abandonada pela flutuação cambial. Nos anos seguintes, a inflação não parou de crescer, mesmo após o fim do conflito, e ingressou no terreno dos dois dígitos na passagem para a década de 1980. A explosão do preço do petróleo contagiou as outras commodities, e uma nova palavra se incorporou ao dicionário, estagflação, a combinação de preços crescentes com economia estagnada. Chegou ao fim na Europa o sonho do crescimento acelerado dos "30 anos gloriosos"; um fenômeno deprimente fez sua aparição para instalar-se em definitivo, o desemprego estrutural. Um sonho tropical, o do "milagre brasileiro", estava também prestes a acabar. Com os petrodólares reciclados, ainda ensaiamos, por um tempo, adiar o ajuste imposto pela quadruplicação da fatura petrolífera. Inventamos a ficção da dívida externa "bem administrada", a fim de justificar o ritmo forçado, mas dedos invisíveis já escreviam na parede os sinais do fim. Quando ele veio, foi fulminante, o papel de algoz cabendo a Paul Volker, o presidente do Fed. Ao elevar a taxa de juros ao nível de 14% a 16%, ele não podia ignorar que condenava ao colapso toda a América Latina e outros mais de lambujem. Fez isso com a mesma indiferença granítica embutida na frase do secretário do Tesouro de Nixon, John Connally: "Our currency, but your problem" ("A moeda é nossa, mas o problema é de vocês"). O resto é, como dizem os necrológicos, uma longa, infindável, dolorosa enfermidade, que o paciente vem suportando com estoicismo e resignação. Quem me seguiu até aqui deve estar perguntando aonde quero chegar. Afinal de contas, o Iraque, o Afeganistão não são o Vietnã, e a economia mundial não dá sinais de recaída inflacionária nem de estagnação. Muitos aspectos, a maioria talvez, são bem diversos. Não obstante, a tendência, o sentido geral são perturbadores. Desde o 11 de Setembro, vivemos a banalização da guerra, o conflito permanente, no qual a única coisa que muda é o alvo. As despesas totais com segurança dos Estados Unidos estão em mais de US$ 450 bilhões por ano. Os déficits orçamentário e externo atingem 5% do PIB cada um, continuam a crescer sem perspectiva de redução, e o endividamento se expande a taxas exponenciais. A volta do crescimento tem se mostrado errática e vacilante, avançando a passos de bêbado. A economia européia não consegue decolar, a nipônica está sendo puxada pelas da China e dos asiáticos. Esses últimos crescem porque, em boa medida, o "buraco negro" do voraz consumo ianque lhes aspira e devora as exportações. Não é a receita de um mundo saudável. Nesse campo minado, o petróleo está sempre ameaçando explodir. Já quase bateu em US$ 50 o barril, voltou para US$ 44 ou US$ 43, mas os eflúvios não são tranqüilizadores. Temos uma espécie de inferno astral petrolífero, a conjunção da mais aguda expansão da demanda em 24 anos com baixo potencial de aumento adicional da oferta a curto prazo e uma perigosa equação geoestratégica em alguns dos principais produtores. No Iraque, onde se supunha que a invasão facilitaria o escoamento de produção em aumento, o contrário é o que se está vendo: a resistência à ocupação, a sabotagem das instalações provocam freqüentes interrupções e constituem uma das razões recentes da volatilidade das cotações. Na Rússia, a ação governamental contra a empresa Yukos põe em perigo a extração de 1,7 milhão de barris diários. A incerteza do referendo na Venezuela, a contínua tensão com o Irã, já escalado para ser o próximo alvo dos fundamentalistas do Pentágono, obviamente não ajudam. O pior, contudo, é a sombra angustiante de terror e violência que se projeta sobre o futuro da Arábia Saudita, pátria de Bin Laden, da maioria dos perpetradores dos atentados nos Estados Unidos, origem, inspiração e financiadora da mais virulenta modalidade de fundamentalismo islâmico, símbolo do conflito ideológico de civilizações com os americanos. Quando, em 1979, a revolução dos aiatolás suspendeu o fornecimento de óleo iraniano, o barril disparou até o que equivaleria hoje a US$ 100 em preço atualizado. Imagine o que sucederia se algo interrompesse o suprimento de óleo saudita, que representa 10% da produção mundial e a maior reserva! Estamos longe disso e oxalá -expressão muito apropriada neste caso- nunca cheguemos a tal ponto. Em termos corrigidos, o aumento atual é bem inferior aos dos anos 70. Mesmo assim, nas duas ocasiões em que ocorreram altas da mesma magnitude, em 1990 e no outono de 2000, a economia voltou à recessão. Tudo vai depender de quanto durem os aumentos e de sua principal causa, a guerra, o terrorismo, a violência no Oriente Médio. Sem abrandamento nesses dois pólos rígidos, deve-se temer o pior, pois, conforme lembrava Noel, "duro com duro não faz bom som".
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:26 PM
De "denuncista" a denunciado
BRASÍLIA - O depoimento do jornalista Luís Costa Pinto publicado pela revista "Isto É" desta semana é avassalador, não para um jornalista nem para um veículo de comunicação, mas para toda uma categoria. Em resumo, ele admite que errou feio, ao publicar, lá se vão uns dez anos, uma capa da revista "Veja" informando que o então deputado Ibsen Pinheiro -ex-presidente da Câmara e citado como presidenciável- tinha depósitos de US$ 1 milhão. Eram de US$ 1.000. Tudo é grave, mas o mais grave é que o erro foi descoberto a tempo, antes de a revista ir para as bancas. Mas só foram feitos ajustes. Há diferentes versões: seria caro, o repórter "bancou" a informação, medo de uns e acomodação de outros. Resultado: a "onda denuncista" ganhou corpo e impediu que todos ouvissem os argumentos do réu (ou vítima), lessem a auditoria da consultoria Trevisan a seu favor, tivessem clemência. E jogou fora a vida política e a paz pessoal de Ibsen Pinheiro. Ele foi cassado, emagreceu dez quilos e fechou-se em silêncio. Um dado perturbador é que o pivô dessa história foi, nada mais, nada menos, Waldomiro Diniz -que já naquela época trabalhava e denunciava ao lado de José Dirceu e de Aloizio Mercadante nas CPIs de Collor, primeiro, e do Orçamento, depois. Na versão de Costa Pinto, quem lhe deu as cifras erradas foi Waldomiro, anos depois flagrado pedindo 1% em negociata com um bicheiro. O "mea culpa" de Costa Pinto expõe a imprensa e o PT quando se discute o Conselho Federal de Jornalismo e corrobora minha posição desde o início: a favor da discussão sobre algum tipo de olhar externo sobre a atividade jornalística e contra um conselho em forma de autarquia proposta pelo presidente- ou seja, com a mão do Estado, do governo e de entidades alinhadas a partidos políticos. Ontem, o PT era o "denuncista". Hoje, é o denunciado clamando contra os "denuncistas". Para Ibsen: pedido de desculpas serve para alguma coisa?
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:24 PM
Os áulicos e os fatos
SÃO PAULO - O ministro Ciro Gomes deu, na quinta-feira, notável demonstração de bom senso e ponderação com a seguinte declaração: "Qualquer brasileiro desempregado, qualquer dona-de-casa assustada com a violência, qualquer estudante frustrado porque não consegue uma boa escola ou qualquer pessoa que sofre humilhações nas filas dos hospitais [devido] à precariedade da saúde tem todo o direito de reclamar do nosso governo. Temos de ter humildade, porque nós estamos muito longe de já ter cumprido aquilo que foi o compromisso [de campanha] que é a esperança". Pena que os áulicos que infestam os palácios de governo usem os dados de crescimento da economia, que é real, para tapar os fatos (também reais) apontados não pela oposição, mas por um não-áulico como Ciro. Aliás, fatos antes também expostos por outro ministro capaz de pensar independentemente (Tarso Genro, da Educação), em artigo para esta Folha (dia 25 passado). Nele, Tarso defendia o "início de uma transição" do modelo econômico herdado, "capaz de crescer concentrando renda", para uma "nova situação estrutural". Comentei o artigo neste espaço, e o ministro mandou uma carta, dessas típicas de prestação de contas aos chefes, mas não negou que Lula herdara um modelo econômico "e busca a superação deste". São dois, portanto, os ministros capazes de enxergar, não na baixa, mas no melhor momento da economia no período Lula, que a esperança "está longe" de ter vencido, para usar a expressão de Ciro. Lula pode acreditar nos áulicos e nas pesquisas em que subiu uns pontinhos. Ou pode lembrar que Fernando Henrique Cardoso também teve pesquisas semelhantes, reelegeu-se e terminou seu segundo período sem que seu próprio candidato defendesse seu legado (e o modelo que Tarso Genro diz querer superar).
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:23 PM
O ESTADO DE S.PAULO Domingo, 15 de agosto de 2004
Stalinismo cultural
O malsinado projeto de criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) teria sido inspirado em idéias de artigo do secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães ou com elas coincidiria. Cacá Diegues, Miriam Leitão, Merval Pereira, Arnaldo Jabor criticaram a proposta e seus contornos stalinistas. O mesmo se viu nos editoriais do Estado, da Folha de São Paulo e do Globo de domingo passado.
O projeto mostra os contraste deste governo. A banda "A" conduz de forma responsável a gestão da economia, enquanto a banda "B", saudosa da era Vargas, é anticapitalista, despreza a importância da propriedade privada e assim por diante. O ministro Gilberto Gil associou seu nome ao projeto e à banda "B", o que não faz justiça ao seu passado de lutas pela democracia.
Deve ter comprado gato por lebre.
Tais contradições resultam da inacabada transição do PT. Lula reproduz por estas plagas a trajetória dos socialistas europeus do pós-guerra, mas diferentemente deles teve que escolher um atalho para chegar ao poder. Lá, a convergência às novas idéias e à moderação levou muitos anos para angariar o apoio da convenção partidária. Aqui, a Carta ao Povo Brasileiro, a boa nova, foi aprovada pelo diretório a quatro meses das eleições.
Daí a convivência conspícua do velho e do novo no governo. A crença na democracia e em uma economia orientada pelo mercado se mistura com visões autoritárias e devaneios estatizantes.
O artigo de Guimarães impressiona pelo seu antiamericanismo. Segundo análise de Merval Pereira, "todo seu raciocínio vai no sentido de conter a indústria audiovisual americana e estimular meios de comunicação brasileiros a colaborar para a criação de uma 'cultura nacional', sem a qual se 'enfraquece a capacidade do Estado de promover a defesa dos interesses nacionais'".
Incorporadas no projeto, essas idéias criaram um monstrengo de inspiração autoritária, que se transformado em lei submeteria a produção audiovisual a um pequeno grupo de burocratas. A Ancinav teria também o poder de tributar e assim aumentar o preço dos ingressos de cinema e de outros canais de lazer.
Para Miriam Leitão, basta começar a ler o projeto para concluir o quanto ele é abusivo.
Outro aspecto impressionante do artigo, que busca desqualificar ações de governos passados, é a crítica à importação de modelos institucionais (americanos, provavelmente), como as agências reguladoras, a autonomia do Banco Central e o regime de metas de inflação, que constituiriam exemplos de "mentalidade e atitudes miméticas".
A crítica se aplicaria, por extensão, aos outros países que adotaram esses modelos. Agências reguladoras autônomas, uma invenção americana do século 19, existem onde houve privatização (que o autor condenaria) de serviços de infra-estrutura. A idéia de autonomia formal dos bancos centrais nasceu nos EUA, mas o Reino Unido, o Japão e os membros da zona do euro a adotaram nos anos 1990. O regime de metas de inflação, da Nova Zelândia, vigora em mais de 50 países. O que é bom se copia sem preconceitos ideológicos.
A rigor, seria de condenar nossos republicanos por imitarem a democracia americana, que como se sabe foi uma revolução das mais profundas da História. Para Bernard Bailyn, "as reformas sociais e políticas que marcaram a Revolução Francesa já estavam parcialmente em vigor na América muito antes": a separação entre o Estado e a Igreja, a igualdade perante a lei, a abolição dos privilégios e a proteção dos indivíduos contra o poder coercitivo do governo. Por isso, lá não existe Ancinav.
Como disse Jean-François Ravel, referindo-se aos franceses, "o mistério do antiamericanismo não é a desinformação - a informação sobre os EUA é muito fácil de encontrar - é a vontade de estar desinformado".
Um exemplo para contrapor os argumentos de Guimarães é a nossa privatização das telecomunicações em 1998 e a criação da agência reguladora, a Anatel. De lá para cá, a densidade telefônica saltou de 14 para 100 acessos por habitante. Mais de 50 milhões de brasileiros puderam comprar telefones cada vez mais baratos. Passamos de 24 para 94 milhões de telefones celulares e fixos em serviço.
Se as idéias por trás da Ancinav valessem, deveríamos esquecer Graham Bell, o americano inventor do telefone, e usar tambores soberanos.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:21 PM
DORA KRAMER
Garimpando a pesquisa CNT/Sensus de junho, o PPS descobriu o seguinte dado: consultadas 2 mil pessoas sobre liberdade de imprensa, 65% delas disseram que estão satisfeitas com o nível de liberdade de expressão existente no país. As que se declararam desconfortáveis com o ''excesso'' de independência somaram 18%.
Ainda que não compartilhe dessa convicção democrática, até por uma questão de prática de respeito à maioria, conviria ao governo arquivar de vez as tentativas de criar restrições ao trânsito de informações.
Não dá certo e continuará dando errado, pois já ficou demonstrado que as ações governamentais de repercussão mais negativa - interna e externamente falando - foram todas relativas ao tema.
Não se sustenta o argumento ouvido aqui e ali, segundo o qual isso se deve à reação corporativa dos veículos de comunicação e dos jornalistas responsáveis pelo noticiário, porque a rejeição às limitações está claramente expressa nas manifestações de cartas de leitores e de instituições não diretamente ligadas ao ofício da comunicação.
Donde a conclusão óbvia de que a liberdade de imprensa, assim como a estabilidade econômica, é um valor coletivo já plenamente consolidado e do qual a sociedade demonstra que não abre mão.
Na questão da estabilidade, os que estão agora no poder demoraram, mas feliz e finalmente compreenderam que o conceito não tem dono, não pertence a governos, a partidos nem a ideologias: é fator de bem-estar comum e pressuposto inamovível de qualquer país com razoáveis pretensões ao desenvolvimento e à organização institucional.
Em relação à livre ação e pensamento, no entanto, o breve, mas consistente, histórico desse governo no assunto - e aqui incluem-se vários casos, desde a primeira tentativa de impor critérios oficiais à concessão de patrocínios culturais, até os casos em curso, passando pela tentativa de cassar o visto do jornalista do New York Times - não aconselha otimismo no tocante à impossibilidade de novas tentativas autoritárias.
Aos indicadores: há um padrão de comportamento pelo qual, num primeiro instante, o governo reage em bloco contra as críticas, insistindo em suas razões. Num segundo momento, surgem discordâncias pontuais e, finalmente, vem o recuo.
Até que uma nova ofensiva não apenas repete os termos da proposta anterior, como os apresenta reforçados. Caso típico da questão dos limites aos patrocínios. O Planalto recuou, mas depois ampliou e detalhou o plano de controle sobre a produção cultural no projeto da Agência Nacional de Cinema e Audiovisual. Manteve o fundamento e aprofundou os instrumentos de domínio do Estado.
Esses recrudescimentos ainda apresentam a agravante de conquistar adeptos entre os que antes faziam a crítica interna. Tomemos o caso do ministro Gilberto Gil, da Cultura.
No ano passado, ele reagiu consoante à sua biografia, postou-se contra o chamado ''dirigismo''. Agora, deu-se ares de surpreendente arrogância acusando os críticos da Ancinav de estarem contra o aperfeiçoamento da democracia e quererem transformá-lo de reprimido em repressor.
Compreende-se que um artista de inequívoco livre-pensar, como Gilberto Gil, se assuste ao se ver na berlinda desse tipo de debate. Mas, prestasse ele um pouco mais de atenção no tom e nas palavras que vem usando e perceberia que adotou - mesmo involuntariamente - o figurino absolutista.
Indignado com a avaliação vigente de que o governo, se pudesse, caminharia para trás no tocante à garantia das liberdades, Gilberto Gil declarou: ''Não acredito que o governo Lula vá acabar com a democracia, até porque eu não vou deixar''.
Força de expressão? Provavelmente, mas a frase soa de uma onipotência atroz. A democracia no Brasil persiste não por vontade nem ação individual de quem quer que seja, mas por categórica afirmação da cidadania.
Fenômeno parecido ocorre com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que salvou o governo do vexame completo no episódio Larry Rother, para meses depois achar normal a idéia de o Estado patrocinar proposta de determinar como será a atividade jornalística no Brasil e chancelar proibição a funcionários públicos de transmitirem informações sem autorização superior.
Diz ele que não aceita ''carapuça de censor'', rejeita a qualificação de ''mordaça'' na vigilância ao servidor e, como Gil, diz que não permitirá agressões às liberdades.
Mas aí é que está: as palavras dos ministros da Justiça e da Cultura, ou de qualquer outro integrante do governo, de nada servem no tocante à garantia da segurança democrática do país, se - a despeito das palavras - o que prevalece, e se repete com obstinada freqüência, é a propositura e a defesa de princípios com a indisfarçavél marca da arbitrariedade.
dkramer@jb.com.br
[15/AGO/2004]
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:19 PM
Tamanho do gargalo
A Coppead acabou de concluir uma pesquisa com os cem maiores exportadores sobre o gargalo logístico. O resultado é pior do que o esperado. As exportações cresceram 52% desde 99, aumentando a demanda por estrutura logística, e os problemas se agravaram: segundo o professor Paulo Fleury, 94% dos exportadores disseram que a atual estrutura de transporte não atende ou atende precariamente às necessidades e 65% acham que vai piorar. Os resultados da pesquisa serão divulgados pelo professor Fleury nesta segunda-feira no X Fórum de Logística, no Hotel InterContinental, no Rio. Os dois portos mais bem avaliados são o de Santos-Guarujá e o de Sepetiba-Rio. Mas, mesmo nesses dois, os empresários apontaram os problemas mais recorrentes. Greves são um fator perturbador para 74% dos usuários de Santos, e, no Rio, elas são o principal problema para 82% dos usuários. Tarifas e tempo de liberação das mercadorias são os dois outros mais freqüentes problemas em ambos os portos. Aliás, as greves são o mais citado entrave em todos os portos do país, segundo a pesquisa. O porto mais mal avaliado é o de Tubarão, que é, em volume, o maior do Brasil. Santos é o maior em carga geral.
Um exportador leva, em média, 27 horas para chegar ao porto e 52 horas para liberar a carga. Isso em média. O tempo máximo é de 240 horas, ou dez dias, para chegar com a carga ao porto e de 288 horas, ou 12 dias, para liberar a carga.
— Os portos dominam o comércio: 95% das exportações brasileiras são por via marítima. Pela pesquisa, 80% das empresas disseram que o impacto dos gargalos logísticos no custo final do produto é alto ou muito alto. Uma das razões para isso é que esses gargalos obrigam a manutenção de um alto nível de estoques. A pesquisa apurou que, em média, as empresas têm que manter os estoques para 22 dias. Isso significa um custo extra de US$ 4,8 bilhões na operação. Há empresas que disseram ter 90 dias de estoque por causa dos gargalos logísticos. Esse custo afeta a margem de lucro para 90% das empresas — diz Fleury.
A falta de infra-estrutura logística e o risco regulatório retiram competitividade do produto brasileiro exatamente quando as exportações aqui estão dando um salto. Os gargalos estão prendendo o país no meio do salto. O crescimento das nossas vendas para o exterior após a desvalorização é impressionante e ele é contido exatamente pelas mais diversas dificuldades que atravancam o caminho de um exportador.
— Logística é um sistema. Vai desde a gerência do estoque, transporte, até o embarque do produto. Tudo tem que ser olhado de forma integrada. E aí vem a primeira dificuldade. O Brasil escolheu dividir a área da regulação por agências e órgãos diferentes que agem separadamente: Antaq, ANTT, Ministério dos Transportes e Receita Federal. Isso sem falar no risco regulatório criado por Ibama, TCU, Ministério Público. O Brasil precisa montar um time para trabalhar em conjunto e juntar todos os que interferem no processo no mesmo sistema de tomada de decisão. Hoje vem tiro de todo lado. Da maneira como está, ninguém está pensando o sistema como um todo. Falta planejamento integrado; até estatística é difícil conseguir para estudar os problemas — reclama Fleury.
A privatização melhorou a operação dos terminais: o tempo médio de atracação dos navios de contêineres caiu de 19 horas para 3 horas; melhorou 83%. A movimentação de contêineres/ hora aumentou de 10 para 34, uma melhoria de 249%.
— Foram privatizados os terminais, mas não a área comum dos portos, nem a área posterior, a dragagem. O avanço no terminal acaba sendo anulado nas outras áreas. E porto é dominante no comércio — conta Fleury.
A globalização está ampliando fortemente o volume de comércio mundial. De 95 a 2003, as trocas internacionais cresceram duas vezes mais do que o crescimento do PIB do planeta. O Brasil, que vinha encolhendo sua participação nesse comércio, voltou a elevar sua parcela. De 95 a 99, tempo do câmbio fixo, as exportações brasileiras cresceram apenas 3%. Depois da desvalorização, cresceram 52%. Em 98, a exportação era 7% do PIB; no ano passado, chegou a 13%. As nossas vendas para o exterior sempre foram geograficamente diversificadas. Nos últimos anos, isso se ampliou quando caiu o percentual vendido para a Argentina, que é bem perto de nós, e aumentou o fornecimento para a China, que fica lá do outro lado do mundo. Tudo está indo na mesma direção: aumento da demanda por uma estrutura logística, que está entrando em colapso.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:18 PM
Sem hegemonia
O presidente Lula tem sido muito criticado pelo fato de ter perdoado a dívida do Gabão, uma ditadura africana que visitou recentemente, e pelos financiamentos prometidos para obras viárias em diversos países vizinhos. Além do bilhão de dólares já anunciado para reativar o intercâmbio comercial com a Argentina, agora em momento delicado com as barreiras alfandegárias que estão sendo levantadas contra nossas exportações, o presidente Lula assinou convênios, no valor de outros tantos bilhões, tanto com o Peru quanto com a Colômbia para financiamentos de estradas e outros meios de integração regional.
O projeto brasileiro é ambicioso, e tem como objetivo criar, com a união do Mercosul e o Pacto Andino (Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia), um pólo econômico que se contraponha aos blocos já existentes na Comunidade Européia, nos EUA com a Nafta e o grupo de países asiáticos. O presidente Lula, esta semana, disse que sonha com “a nação sul-americana”, numa reafirmação da política de união dos países da região, e não apenas comercial.
O especialista em política internacional Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ, diz que é preciso “construir instituições comunitárias dignas, como tribunal arbitral para dirimir essas disputas eternas com a Argentina”, até chegar ao Parlamento e até mesmo à moeda única do Mercosul. Para ele, o Mercosul, do ponto de vista econômico, “seria até lesivo ao Brasil. Mas ele é um grande projeto político. Está ligado a essa projeção do Brasil como potência regional”.
O cientista político Clóvis Brigagão, diretor-adjunto do Centro de Estudos das Américas da Faculdade Cândido Mendes, diz que o Brasil “sempre teve dificuldade de assumir essa liderança e pagar a conta. Para ser líder, para ter parceiros ampliados, tem que pagar a conta”, ressalta ele, para quem os financiamentos fazem parte da “real politik”.
Bem-humorado, lembra da época do presidente Eurico Gaspar Dutra, quando os EUA mandaram iôiôs ao Brasil “e virou uma febre”. Agora o Brasil está dando computadores, kits-educação para países africanos. “Nós já perdoamos dívida da Polônia, por que não perdoar a do Gabão, diante dos interesses econômicos envolvidos?”, pergunta Brigagão, se referindo ao petróleo do Gabão.
Ele diz que nunca acreditou “nesse negócio de terceiromundismo”, embora sempre tenha sido “a favor de termos uma autonomia, de buscar a independência”. Brigagão acha que estão sendo construídas alternativas à hegemonia unilateral dos EUA “sem arrogância, sem pretensão de confrontação, mas também sem subserviência”. Liderança é hegemonia, lembra ele, para ressaltar: “Não é preciso que a hegemonia seja agressiva, como a de Bush”.
Clóvis Brigagão se preocupa com o déficit de civis treinados para participar em forças internacionais de cooperação, como a que o Brasil chefia no Haiti. Ele diz que a participação de brasileiros nos organismos internacionais é inferior à de países como o México e a Argentina, num momento em que o Brasil surge com destaque no cenário internacional.
O professor Francisco Carlos Teixeira, defendendo a aproximação com a África, lembra que “se estivéssemos crescendo a 5%, que deve ser a meta, teríamos um déficit de energia enorme, precisaríamos importar petróleo. Ficar na mão do mundo árabe- islâmico, além dos tumultos e da distância, é terrível. Aqui em frente, de Cabinda até a Nigéria, há o melhor petróleo possível, e temos condições de fornecer a eles o que eles precisam: técnicos, vacinas, assistência médica”.
Para ele, “é extremamente sábio, em termos de longo prazo, construir parcerias produtivas e não exploratórias com a África negra”. Segundo ele, perdemos nossa posição para a França, que “acabou ficando até com campos de petróleo que antes haviam sido apontados para a Petrobras”, na gestão de Fernando Henrique. Teixeira lembra que os EUA estão construindo uma superbase naval em Porto Príncipe, capital do Haiti, onde o Brasil chefia uma Força Internacional de Paz da ONU desde junho e onde haverá o jogo da seleção brasileira.
“Os americanos estão tentando se instalar também no Gabão e com grande interesse em Cabinda, além da Nigéria onde já estão instalados, tendo a África Negra como alternativa ao mundo islâmico”, ressalta Carlos Teixeira. Tanto ele como Brigagão concordam que a atuação do Brasil como líder regional não deve ter o caráter hegemônico, e está sendo esperada pelos vizinhos.
“A interferência do Brasil na negociação da dívida da Argentina com o FMI, a intermediação do Brasil na Venezuela foram movimentos políticos importantes e bem-vindos”, ressalta Teixeira. Talvez nem tão bem-vindos para os EUA, que enxergam traços de uma tentativa de montar uma política externa brasileira de contraposição à hegemonia americana. Não é essa motivação, garante Francisco Carlos Teixeira, embora o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães seja tido por antiamericano. E no governo petista, há correntes que realmente sentem nostalgia de uma guerra ideológica contra os EUA.
Como lá também estão alojados próximos à Casa Branca falcões que ainda não se convenceram de que o governo Lula não tem nada a ver com o de Fidel ou o de Chávez, a quem agora o PT deu apoio formal, evidentemente sinalizando uma posição do governo Lula, que oficialmente é neutro, o potencial de conflito é enorme.
Quanto às obras de infra-estrutura financiadas pelo BNDES, Carlos Teixeira lembra que “grande parte das construtoras são brasileiras”. Segundo ele, as obras na Venezuela aumentam nossa capacidade de exportação: “A grande saída é o Caribe e a carretera Pan-Americana que abre o Pacífico para nossas exportações”. Brigagão chega a dizer que a Venezuela é mais estratégica para o Brasil do que a Argentina, inclusive por causa do petróleo. “Nós precisamos de uma Venezuela rica e estável politicamente”, concorda Francisco Carlos Teixeira.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 12:57 PM
sábado, agosto 14, 2004
É alarmante que uma série de projetos e propostas do governo petista venha a público com as marcas indeléveis do autoritarismo, procurando restringir liberdades e estender um véu de opacidade sobre a atividade pública. É chocante e deplorável que o PT, partido que participou da luta pela redemocratização do país, chegue ao poder para atentar contra as conquistas democráticas e turvar o pouco de transparência dos poderes que a sociedade brasileira, a duras penas, conquistou. Não é, no entanto, nada surpreendente que um partido com raízes na esquerda despreze a democracia ao ver-se no poder, dando livre curso a suas fantasias e delírios leninistas. É assim que o PT, ao mesmo tempo em que promove uma escalada para tomar de assalto a máquina pública e dominar plenamente os instrumentos de poder, trata de erguer uma blindagem de leis e regulamentações com o propósito de impedir a sociedade de ter acesso ao que transcorre nos bastidores da cena política. O governo petista quer proibir que o Ministério Público investigue e que a imprensa publique o que não é de seu interesse. Chega ao extremo de tentar cercear, por meio de uma normatização grotesca, a possibilidade de funcionários públicos conversarem com jornalistas. Enganam-se os que pensam que é à sociedade que essas normas visam proteger, como tentou pateticamente fazer crer o ministro Luiz Gushiken. Ele mesmo já havia em outra ocasião deixado claro do que se trata: evitar que os poderosos sejam atingidos por fatos "negativos". Desde os tempos da ditadura militar não se viam concepções tão atrasadas e rudimentares -se bem que perigosamente ardilosas- de como devem ser as relações dos governantes com os princípios democráticos e republicanos. Diante desse ignominioso surto de medidas que resvalam para o autoritarismo, é de esperar que a defesa das instituições republicanas e das liberdades fale mais alto e impeça alguns dos que cercam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de levar a cabo seus intentos antidemocráticos.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 12:05 AM
O “jogo da paz”, como está sendo chamada a partida de futebol que a seleção brasileira fará na próxima quarta-feira em Porto Príncipe contra a seleção do Haiti, faz parte do que a revista especializada em política internacional “Foreign Affairs” tem chamado de “novo protagonismo brasileiro”, e que o chanceler do governo Fernando Henrique, Celso Lafer, classifica de “política-espetáculo”. O fato é que quase dois anos depois de tomar posse o presidente Lula tem na política externa um dos pontos altos de um governo sem grandes destaques além da economia.
Algumas ações são claramente demagógicas, como a proposta de um fundo internacional contra a fome com a taxação de venda de armas. Outras, como o jogo de futebol da seleção brasileira no Haiti, embora nascida da cabeça de uma especialista em marketing, têm um lado meritório que reafirma nossa liderança no continente.
Superado um primeiro momento dominado por um esquerdismo exacerbado, a atuação de Lula nos fóruns internacionais e uma bem montada ação de fortalecimento da liderança do país na área do Mercosul e na América Latina têm dado ao governo uma dimensão internacional bastante positiva.
O G-20, grupo organizado pelo Brasil e pela Índia para enfrentar os Estados Unidos e a União Européia nas negociações internacionais, foi sem dúvida uma vitória da diplomacia brasileira, e conseguimos avançar agora nas negociações na Organização Mundial do Comércio. Para o professor de política internacional Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ, “a política externa é o lado que o governo do PT teve menos dificuldade de implantar uma política coerente, e isso se deveu em larga escala ao fato de já existir uma doutrina anterior, ligada ao secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães”.
O ex-chanceler Celso Lafer, no posfácio de seu livro recém-lançado “A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira”, diz que, no plano da postura, o governo Lula vem, até o momento, “timbrando em deliberadamente dissociar-se, em matéria de externa, do anterior”. Faz isso, segundo Lafer, para “dar uma satisfação ideológica interna compensando continuidades bastante explícitas com o governo anterior na condução da política macroeconômica”.
Lafer diz “ter dúvidas” sobre a utilização da política externa para satisfação ideológica interna, e diz que isso provoca “multiplicação das tensões e incertezas”. Para o professor Francisco Carlos Teixeira, o enfoque da nossa política externa realmente mudou: “Até Fernando Henrique, tínhamos uma obsessão no eixo norte-atlântico, com Estados Unidos e União Européia. O governo do PT abriu a possibilidade de parcerias estratégicas com China, Índia, África do Sul; ampliou o debate no interior do Mercosul”.
Hoje, segundo o professor Francisco Carlos Teixeira, a política externa está trabalhando como se fosse um tabuleiro tridimensional: “Parcerias estratégicas, onde entram também os Estados Unidos e a União Européia; o G-20, onde o papel do Brasil é de liderança regional muito importante que mudou a OMC. Fizemos quebrar a negociação em Cancun para ganhar essa negociação em Paris; e o Mercosul. Cada vez que a gente se mexe num desses tabuleiros, acumula força para o outro. É a melhor política externa brasileira desde a época do Geisel”, empolga-se.
Já Celso Lafer diz que, no plano político, “em função do estilo diplomático do governo Lula”, é possível detectar, “no tema sul-sul, uma ilusória aspiração de enrijecer o quadro internacional com uma nova polarização ideológica”.
A comparação com a política externa de um dos governos ditatoriais foi, por coincidência, também sutilmente lembrada pelo ex-presidente Fernando Henrique em recente palestra em seu instituto quando, na presença do novo embaixador americano no Brasil, fez uma análise histórica das relações dos dois países. Mas, evidentemente, sem a admiração contida no comentário do professor Teixeira.
Segundo o ex- presidente Fernando Henrique, “o período militar foi um período atritado, havia até no imaginário a bomba atômica. O que fizemos foi tirar da pauta os fatores de atrito que contaminavam a relação. Não podemos pensar que somos uma potência num continente em que há um poder hegemônico global. O Brasil cresceu economicamente, somos um global trader . Compare com o México ou a Argentina. Temos que ter um grau de confiança, e não ter alinhamento. Mas não podemos dizer que somos uma potência, com capacidade bélica, e vamos atuar. É de nosso interesse não ter conflitos com os EUA, para realizar os nossos interesses”.
O ex-presidente define como de interesse nacional uma política de não agressão à potência dominante. “Em vez de imaginar a afirmação nacional pela via militar, ou pela ingerência, imaginá-la pela via de uma sociedade mais democrática e uma economia mais pujante”. O ex-presidente não se referiu a ele, mas certamente estava pensando no chefe da Casa Civil, José Dirceu, que por várias vezes já defendeu publicamente o fortalecimento militar da América do Sul como maneira de a região se impor nas negociações internacionais.
Para Fernando Henrique, o marco dessa postura independente mas sem confrontação foi a negociação em Doha, pois “a definição efetiva de nossos interesses depende dos acordos multilaterais”. Fernando Henrique diz que o que faz a diferença é que, além da agricultura, somos um país industrializado e de serviços. “Quem compra serviços é o continente americano, a China compra soja e daqui a pouco vai produzir aço. O mercado que qualitativamente mais interessa é o dos EUA. Não é possível imaginar que podemos substituí-lo por mercados emergentes”.
Por realismo, o ex-presidente sugere “evitar conflito com os Estados Unidos, porque é perder”. Segundo Lafer, o estilo da política externa do governo Lula discrepa da definição tradicional: “Diplomacia inteligente, sem vaidade; franca, sem indiscrição; enérgica, sem arrogância”.
DORA KRAMER 14.8.2004 Cadáveres insepultos
Em boníssima, perfeita e providencial hora surge a história publicada pela Isto É, segundo a qual a mistura de ambição, ignorância, má-fé, açodamento e leviandade levou jornalistas e políticos de destaque nacional a um conluio que resultou na publicação de uma informação falsa que, 11 anos atrás, contribuiu decisivamente para a cassação do mandato do deputado Ibsen Pinheiro.
Além do prejuízo à reputação, à carreira e ao futuro do parlamentar, o embuste feriu o essencial compromisso com os fatos, implícito na relação entre imprensa e sociedade, cujo sustentáculo é a liberdade de expressão, ora em estado de questionamento explícito.
Em resumo, a ópera é a seguinte: o jornalista Luís Costa Pinto resolveu confessar que à época da CPI do Orçamento recebeu uma informação a respeito da movimentação financeira de Ibsen, publicou sem conferir e, depois de avisado do equívoco, cedeu à orientação de sua chefia para ''arrumar alguém'' da CPI que confirmasse o falso como verdadeiro. Encontrou um parlamentar disposto ao papel de ventríloquo de aspas e ficou assim tudo resolvido para desinformação do leitor e infortúnio do injustiçado.
Dias depois, a CPI corrigiu burocraticamente os valores - de US$ 1 milhão para US$ 1 mil -, não deu destaque ao fato, Ibsen Pinheiro foi de público execrado e lá se vão 11 anos do mais absoluto silêncio de todas as partes a respeito do episódio.
Surge agora a versão real e num momento especialmente feliz: quando o governo, de um lado, defende o controle da atividade jornalística e, de outro, acusa a imprensa e a oposição de promoverem uma ''onda de denuncismo'' contra esse mesmo governo.
Como pano de fundo, ainda temos a CPI do Banestado que reuniu um monumental banco de dados a respeito de centenas de pessoas, a partir da quebra indiscriminada de sigilos fiscais e bancários pedida pelo relator, José Mentor, um petista de relações estreitas com o ministro da Casa Civil, José Dirceu.
O mesmo José Dirceu que à época da CPI do Orçamento era deputado e, junto com o também então deputado e hoje senador Aloizio Mercadante, valia-se dos serviços do funcionário da Caixa Econômica Federal, Waldomiro Diniz.
O mesmo Waldomiro Diniz que, segundo o jornalista Costa Pinto, o procurou em 1993 para oferecer boletos bancários pertencentes a Ibsen Pinheiro como suposta comprovação de que o deputado teria movimentado US$ 1 milhão em suas contas.
''Pegamos o Ibsen'', disse ele, de acordo com Costa Pinto, ao apresentar os documentos - adulterados, viu-se depois - que tinha como tarefa fornecer à CPI, para uso externo dos parlamentares amigos.
Temos, pois, nessa confissão do jornalista, todos os elementos dos debates ora em cartaz.
Começando pela manipulação e uso ilegal de documentos de comissões parlamentares de inquérito: se, como acusa o governo, hoje são instrumentos utilizados pela oposição, o foram em larga e péssima medida usados pelo PT na leviana aliança que de quando em vez une políticos interessados em fazer da impressa canal de transmissão de seus interesses e jornalistas em busca de um sucesso tão rápido quanto inconsistente e socialmente nefasto.
Justiça se faça, tal prática não é nem foi prerrogativa exclusiva do PT. A indústria dos grampos, dos dossiês, da agressão aos direitos e garantias individuais tem criação e sustentação coletiva e suprapartidária.
O PT entra com destaque aqui porque age agora como se jamais tivesse tido participação nessa escola da ética do escândalo e do jornalismo de delegacia de polícia, que abre mão do dever de distinguir dados falsos de informações verdadeiras e se deixa usar pelo primeiro construtor de dossiês que lhe aparece à frente.
Propõe controle de informação, bem como ataca o Ministério Público, com conhecimento de causa, porque teme ser vítima do uso das mesmas armas de que se valeu contra os adversários.
Parte do pressuposto da má-fé, tenta imprimir a quaisquer acusações o vezo da engendração ardilosa e desmoralizá-las pela inoculação, no imaginário popular, do conceito geral de ''denuncismo''.
Denúncias há responsáveis e irresponsáveis, assim como existem as respondíveis e as irrespondíveis. Da mesma forma, entre procuradores, jornalistas e políticos transitam desviantes.
Nem de longe, por isso, corrigem-se situações pela via da restrição à liberdade, à investigação, à fiscalização, ao cotejo de dados, à exposição de contradições, à cobrança de explicações.
O episódio relatado pela Isto É mostra que a verdade tem várias formas de aparecer, ainda que demore e cause irrecuperáveis prejuízos. A única maneira de mantê-la eternamente desconhecida, porém, é a obstrução dos canais de informação à sociedade.
Nenhum conselho controlador teria o poder de evitar casos como esse. Mas a imprensa livre tem pelo menos como, através do constrangimento da exposição pública, contribuir para que se mantenham no terreno das exceções.
sexta-feira, agosto 13, 2004
O projeto que cria o Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) deveria — até como homenagem às desejadas virtudes de nosso estilo profissional — ter texto simples, direto e objetivo.
Mas quem o escreveu — ou quem, na Casa Civil, reescreveu certos trechos — preferiu esbanjar generalizações nas quais o tom enfático não esconde a ausência de explicações objetivas sobre o que se pretende atingir; principalmente, sobre como chegar lá. Isso permite a cada um entender o que bem quiser. Se algo entender.
Por exemplo, o conselho e suas filiais estaduais deverão orientar, disciplinar e fiscalizar “o exercício da profissão de jornalista e da atividade de jornalismo”.
Esse conjunto de expressões chega muito perto de significar que a nova autarquia — um braço do Estado — terá poderes perigosamente próximos do controle sobre tudo aquilo que os meios de comunicação levarão à sociedade. Inclusive sobre o que ocorre nos salões e desvãos do mesmo Estado a que serve a dita autarquia.
Pior, prevê-se um controle a priori, com atitudes e formas de tratamento preestabelecidas. Não há outra forma de entender o verbo “orientar”. Vai ver, não é essa a intenção, nem da Federação Nacional dos Jornalistas, mãe da criança, nem de Lula, pai adotivo. Pode ser apenas problema de mau texto mesmo. Oremos.
Adiante, o CFJ ganha o poder de criar um código de ética e disciplina, a que todos os jornalistas do país estarão submetidos. Esse documento regulará os deveres do jornalista com a comunidade, as suas relações com os outros jornalistas e ainda um enigmático “dever geral de urbanidade”.
Num trecho de humor negro, afirma-se que o jornalista, ao obedecer a todas as essas normas, deverá manter “independência em qualquer circunstância”.
Vai ser um bocado complicada essa independência obrigatória.
Pior, o projeto ignora princípio elementar do jornalismo. É com certeza indispensável uma permanente preocupação ética; mas isso nem de longe sugere uma padronização de comportamentos e decisões. Exemplo elementar: seria ético divulgar sem qualquer apuração complementar uma informação não oficial de fonte policial? A única resposta firme e enfática a essa pergunta é: Depende.
Depende do lugar, da polícia do lugar, da fonte em questão e do que o jornalista sabe sobre sua forma de agir. E boa comunicação social terá a comunidade em que os diferentes veículos tenham respostas honestamente diferentes a esse tipo de pergunta. Todos, por exemplo, somos a favor da denúncia a serviço do interesse público, e contra o denuncismo contratado por interesses desonestos. Apenas não há como defini-los com precisão num texto de lei. Não se conhece melhor maneira de tratar o assunto do que cada um seguir sua consciência — e aguardar o julgamento da opinião pública.
Mais do que um código pasteurizante, o que serve ao leitor é uma permanente e obsessiva preocupação ética nos meios de comunicação — sem a menor obrigação de uniformizar a informação.
O fato é que não há códigos ou leis que cubram todas as alternativas, todas as escolhas, todas as nuances de tratamento de um assunto. A única alternativa para o futuro CFJ será designar um representante da autarquia para cada redação, incumbido de examinar, caso a caso, “a fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe”.
Não acredito que haja um só membro da Fenaj que se preste a um papel desses. Lembrará muito outro tipo de visitantes que, em tempos passados mas não esquecidos, decidiam o que seria ou não seria publicado.
sábado, agosto 07, 2004
Diogo Mainardi 7.8.2004 As Olimpíadas do Pateta
são os que chegam desacreditados aos Jogos
e, confirmando todos os prognósticos, perdem
logo de cara. Quanto mais incompetentes, melhor"
Estou pronto para as Olimpíadas. Enrolado na bandeira nacional, e vestindo uma camiseta de poliéster amarelinha, cortesia do Banco do Brasil, pretendo acompanhar com ardor o desempenho de nossos atletas em Atenas. Eles não costumam decepcionar. Quando não são eliminados no primeiro dia de competição, são invariavelmente eliminados no segundo. Os meus preferidos são os que chegam desacreditados aos Jogos e, confirmando todos os prognósticos, perdem logo de cara. Como o pugilista maranhense nocauteado no terceiro assalto por um filipino canhoto. Ou a esgrimista paranaense sorteada para enfrentar, em sua estréia, a segunda melhor do time romeno. Ou o judoca goiano que sofre um estiramento no primeiro minuto da repescagem. Ou o corredor paulista que comemora o quarto lugar obtido numa final B. Quanto mais incompetentes, melhor. Apreço também os que gozam de um certo favoritismo e, por falta de controle emocional, acabam sendo derrotados por atletas estrangeiros de retrospecto claramente inferior. Só desaprovo aqueles irresponsáveis que teimam em ir derrotando seus adversários um a um até a conquista de uma improvável medalha de bronze, com direito a lágrimas no pódio e dedicatórias a Deus. O dever dos atletas brasileiros é perder. Perder sempre. Preferivelmente, de maneira espalhafatosa, tropeçando nos obstáculos e se esborrachando na pista.
Sobre as virtudes cívicas da derrota, assista a Campeão Olímpico. Trata-se da obra definitiva sobre o tema. Estrelado por Pateta e dirigido por Jack Kinney, insere-se no ciclo esportivo formado por A Arte da Defesa Pessoal, A Arte de Esquiar, Como Nadar, Como Jogar Beisebol e Como Jogar Golfe. Em Campeão Olímpico, Pateta repercorre a origem dos Jogos Olímpicos e se exibe nas principais modalidades do atletismo. Claro que ele tropeça nos obstáculos. Claro que se esborracha na pista. Foi tropeçando nos obstáculos e se esborrachando na pista que Pateta derrotou Hitler. O lançamento de Campeão Olímpico ocorreu em 9 de outubro de 1942. As Olimpíadas estavam suspensas por causa da II Guerra Mundial. Os últimos Jogos, realizados em 1936, em Berlim, haviam sido transformados em plataforma de propaganda para o nazismo, exaltando conceitos como supremacia racial, orgulho nacional, disciplina marcial e adoração do líder totêmico. O documentário celebratório de Leni Riefenstahl sobre as Olimpíadas de Berlim mostra tudo isso. Campeão Olímpico é o contrário. Dura oito minutos. E, em apenas oito minutos, Pateta consegue destruir o ufanismo esportivo do nazismo e de outros regimes totalitários.
Comemoram-se o Dia D e a batalha de Stalingrado. Proponho comemorar igualmente as Olimpíadas do Pateta. Ao tropeçar nos obstáculos e se esborrachar na pista, os atletas brasileiros não irão derrubar Hitler, porque não temos nenhum Hitler. Quem sabe derrubem um diretor do Banco do Brasil. Quem sabe até
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