O GLOBO
A política exterior do governo Lula esteve sob ataque cerrado nas últimas semanas depois da tépida resposta dada pelo país à nacionalização do gás na Bolívia. Há alguns dias, o "New York Times" disse que Lula teria sido "humilhado" pelos recentes atos do presidente boliviano, Evo Morales, e do seu mentor, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
Em resposta ao acalorado debate, quando indagado sobre a passividade brasileira, o chanceler Celso Amorim respondeu que o Brasil "não segue a diplomacia do porrete", e busca uma política de "boa vizinhança". O presidente americano Theodore Roosevelt é o autor da primeira expressão e o seu sobrinho, também presidente americano, Franklin Delano Roosevelt, é o autor da segunda. Assim, há algo de estranho no uso das duas expressões neste contexto. Ao falar que os Estados Unidos eram um "bom vizinho", Franklin Roosevelt estava repudiando as políticas intervencionistas do seu tio. Porém, juntar as duas expressões parece-me inadequado.
É, sem dúvida, ruim para os interesses brasileiros que o país seja visto como uma nação que carrega um "porrete". Entretanto, a política americana de boa vizinhança certamente não teve como motivação uma penitência por anos de erros diplomáticos; ela foi formulada especificamente para realizar os objetivos dos Estados Unidos e manter a influência hegemônica do país sobre o hemisfério ocidental durante o curto período de multipolaridade entre os anos 30 e o fim da Segunda Guerra Mundial.
Depois de ser eleito, em 1932, Franklin Roosevelt concluiu que a "política do porrete" tinha sido ineficaz na proteção dos interesses estratégicos dos EUA. O excessivo grau de intervencionismo provou ser contraproducente: ele prejudicou as relações com diversos países da América Latina e se mostrou pouco popular junto aos eleitores americanos. Assim, Franklin Roosevelt desistiu do intervencionismo e, pelo menos durante este período, manteve a sua palavra.
Os custos gerados pela "política do porrete", todavia, não explicam o porquê de o presidente Franklin Roosevelt ter adotado a política de boa vizinhança.
Roosevelt não era bobo: como acreditava que a guerra era iminente na Europa, percebeu que os Estados Unidos enfrentariam ameaças mais graves se houvesse alguma instabilidade na América Latina. O papel da política de boa vizinhança foi permitir uma mudança de estratégia no contexto dos anos 30: os Estados Unidos precisavam de aliados na região mais do que em outros momentos e, além disso, queriam manter a Europa distante do continente. O cenário internacional alterou o equilíbrio de poder entre os EUA e os outros países do hemisfério.
Fica claro, assim, que os Estados Unidos não adotaram a política de boa vizinhança simplesmente porque era "a coisa certa a fazer". Pode até ter sido a coisa certa a fazer naquele momento, mas, ainda assim, aquela política servia aos seus interesses estratégicos.
A questão para o Brasil hoje, parece, é saber como a atual política externa do país pode atender aos interesses brasileiros.
Como um exemplo útil para contrastar a nacionalização do gás na Bolívia em 2006, pode ser utilizada a nacionalização do petróleo em 1938 no México, com a qual o presidente Roosevelt teve que lidar. Os Estados Unidos, é bem verdade, já há muito tempo, tratavam o México como um pouco mais que uma "República das Bananas". De fato, o então presidente mexicano Lázaro Cárdenas simplesmente disse "Adiós" para as antes todo-poderosas petroleiras estrangeiras que tinham investido altas quantias no país.
Diante da decisão mexicana, Roosevelt usou a retórica da boa vizinhança por razões óbvias: o México poderia ameaçar vender petróleo para Alemanha, Japão ou Itália se os Estados Unidos optassem pela política do "porrete" — e Roosevelt não queria acabar sendo obrigado a entrar em uma aventura militar no México com uma guerra começando na Europa; ele sabia que os Estados Unidos não poderiam ter um conflito com o país por causa de petróleo.
O governo americano, assim, forçou as petroleiras americanas —- que supostamente gozavam de grande influência política em Washington, influência essa que gostariam de manter —- a aceitar a baixíssima indenização que os mexicanos pagariam pela expropriação. Dessa forma, a política de boa vizinhança serviu a um importante propósito estratégico na luta dos aliados durante a Segunda Guerra Mundial, pois assegurou o acesso ao petróleo mexicano, mantendo o Eixo distante do hemisfério ocidental.
Voltando aos tempos de hoje, a questão é se perguntar se o Brasil realmente busca adotar uma política de boa vizinhança porque ela é útil aos interesses brasileiros.
Nenhum país adota a política de boa vizinhança simplesmente para não ofender a sensibilidade alheia.
O que o Brasil vive hoje é comparável à situação que os Estados Unidos viveram em 1930? Sim e não.
Por um lado, a Bolívia tem poucas opções de curto prazo para o seu gás se quiser deixar de vender para o Brasil ou para a Argentina. Por outro lado, a oferta de dinheiro e suporte técnico feita pelo presidente da Venezuela, Hugo Chávez, dá à Bolívia a possibilidade de ter chances que ela jamais teve. Será que a Petrobras —- e o Brasil —- tem hoje as mesmas opções que as petroleiras tinham nos anos 30 no México? Isso ainda não está muito claro.
O preço do gás vai flutuar agora a curto prazo se não se chegar a um acordo com a Bolívia, mas outros combustíveis podem substituir o gás a médio e longo prazos, ou novas fontes de energia podem ser descobertas.
Os incentivos e os condicionamentos com que o Brasil se depara hoje são muito diferentes daqueles com que os Estados Unidos se depararam nos anos 30. A razão para Franklin Roosevelt ter passado por cima das petroleiras ao se recusar a usar política do porrete foi simples: a segurança nacional era mais importante que interesses econômicos naquele momento.
Roosevelt se atrelou à política de boa vizinhança não porque ele não queria ofender o presidente Cárdenas, do México, ou porque ele estava particularmente dedicado à idéia de um hemisfério solidário. Ao fazer isso, estava olhando para um cenário mais amplo e protegendo a sua própria pele e os interesses de todos os americanos.
A impressão deixada pelo artigo no "New York Times" é a de que, no mundo de hoje, a passividade da diplomacia brasileira não traz bons resultados e, provavelmente, ainda ajuda a deixar o país mais marginalizado e sobrepujado por atos e palavras do presidente da Venezuela, Hugo Chávez.
DAVID SAMUELS é professor de Ciência Política na Universidade de Minnesota (EUA). E-mail: dsamuels@umn.edu.
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