Entrevista:O Estado inteligente

sábado, junho 03, 2006

Heloísa Helena: uma mulher na corrida à Presidência

Candidata arretada

Expulsa do PT em 2003, Heloísa Helena
é a primeira mulher de expressão a
concorrer à Presidência no Brasil


Camila Pereira


Nana Moraes/Claudia
A senadora maquiada e de cabelos soltos: imagem raríssima


O primeiro casamento da senadora Heloísa Helena (PSOL), 44 anos a ser completados nesta semana, terminou porque o ex-marido, um engenheiro civil quinze anos mais velho, não gostava que ela trabalhasse fora o dia todo. Heloísa tinha então 27 anos, era professora de enfermagem na Universidade Federal de Alagoas e já sabia defender muito bem suas posições. Quando as discussões começaram a ficar desgastantes, ela juntou as coisas, pegou os dois filhos do casal e saiu de casa. O marido, inconformado, disse à mãe da ex-mulher, Helena Lima de Moraes: "Sabia que Heloísa era arretada, mas achei que, por ela ser novinha, eu ainda conseguiria mudá-la". Ao que a ex-sogra respondeu: "Meu filho, ainda não nasceu homem capaz de dobrar essa menina". Quase vinte anos mais tarde, a frase da senhora Helena continua atualíssima.

Em dezembro de 2003, Heloísa Helena tornou-se a primeira senadora expulsa do PT, depois de ter desafiado publicamente o então poderoso ministro José Dirceu, protestado alto e bom som contra a indicação de Henrique Meirelles para a presidência do Banco Central e desobedecido sistematicamente às orientações da sua bancada. Ejetada da sigla que ajudou a construir, tornou-se a primeira mulher a fundar um partido no Brasil, o PSOL. Agora, com a oficialização de sua candidatura à Presidência da República, na semana passada, ela se torna a primeira mulher no país a concorrer ao cargo por um partido estruturado. Em 1989 e em 1998, a advogada Lívia Maria e a administradora de empresas Thereza Ruiz alistaram-se nos pleitos pelos desconhecidos PN e PTN e, em 2002, a ex-governadora Roseana Sarney (PFL) chegou a atingir o segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto para a sucessão de Fernando Henrique Cardoso, mas acabou soterrada pelo escândalo Lunus, que estourou duas semanas antes da oficialização da sua pré-candidatura (aquele do milhão de reais, em dinheiro vivo, sobre a mesa).

Ao formalizar sua candidatura, Heloísa Helena foi mais Heloísa Helena do que nunca. "A Bíblia diz: ou se serve a Deus ou ao capital. Quem serve ao capital vai virar churrasco do demônio", disse ela, numa espécie de confisco socialista do livro sagrado. A senadora Helena, respira de alívio o capital, tem chances próximas de zero de ser eleita. Mesmo assim, está longe de ser uma candidata nanica. Além de ter participação decisiva no pleito (a força de sua candidatura poderá definir se haverá ou não segundo turno), ela larga com respeitáveis 7% de intenção de voto. Isso significa que perto de 8 milhões de brasileiros apóiam seu nome. Até amigos da senadora, no entanto, admitem que a simpatia desse eleitorado se deve menos aos projetos que ela defende do que ao seu jeito particular de fazer política. Em outras palavras: muita gente apóia Heloísa não porque gostaria de ver "áreas estratégicas da economia sob controle do povo brasileiro" – uma das bandeiras socialistas de sua candidatura –, mas porque admira a retidão de seu caráter e seu jeito desassombrado de ser. No mês passado, um instituto carioca fez uma pesquisa de intenção de voto para presidente no Rio de Janeiro e descobriu que o nome de Heloísa tinha sua melhor pontuação na Zona Sul: 18,6%. A maioria dos moradores de Ipanema, como lembra o deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), não aspira a nenhuma transformação revolucionária no país. "Mas estão cansados desses políticos desinteressantes e querem apoiar alguém que conteste essa mesmice com autenticidade", avalia.


Em 1988, em Alagoas, com os filhos Sacha e Ian

No Senado, onde está há oito anos, Heloísa Helena emenda um compromisso atrás do outro. Integra cinco comissões e faz pronunciamentos ou apartes em quase todas as sessões no plenário. Disciplinada, sabe de cor quase todo o regimento da Casa – que cita em detalhes sempre que resolve brigar pelo uso da palavra. "Não há presidente de mesa que consiga silenciá-la", diz o senador Jefferson Peres (PDT). Seus discursos exaltados e invariavelmente pontuados por uma profusão de adjetivos loquazes ("putrefato", por exemplo, é freqüentemente usado para se referir ao Palácio do Planalto) são, muitas vezes, interrompidos pela tosse – Heloísa é asmática e a dificuldade de respiração lhe trouxe problemas nas cordas vocais. Órfã de pai desde os 3 meses de idade, ela e o irmão foram sustentados pela mãe, costureira. Aos 33 anos Heloísa se casou pela segunda vez, com um engenheiro agrônomo também de Alagoas, e, sete anos mais tarde, novamente se separou. Hoje, faz mistério em torno de um "amigo" parisiense com quem fala sempre pelo telefone e que há dois anos a presenteou com um piano. "É um militante socialista que conheci há muito tempo."

Longe dos embates políticos, a senadora costuma ser carinhosa com seus colegas parlamentares, a quem, independentemente do sexo, chama sempre de "flor". Alguns, como o senador Arthur Virgílio (PSDB), brincam que não se pode confiar na aparente meiguice da senadora. "Não nos iludamos, senhores. Se ela for eleita, seremos todos mandados para o paredão", costuma dizer a colegas. Outros, como o senador Pedro Simon (PMDB), têm por ela um carinho paternal. Recentemente, ao avistar Heloísa ostentando uma camiseta com os dizeres "Fora, Bush", Simon, ele próprio um crítico do presidente americano, alertou a colega da tribuna: "Senadora, a senhora sabe que lhe quero como uma filha. Então, ouça um conselho: você não pode ser candidata à Presidência usando essa camiseta. Se você ganhar, vai receber o Bush no palácio com ela?". Heloísa riu, deu um beijo no senador e, como teria adivinhado sua mãe, continua usando a camiseta.

 

 

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