Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, junho 09, 2006

Começou a Copa da Alemanha: o golaço de Ronaldo Por Reinaldo Azevedo

Primeira Leitura 



No dia da estréia da Copa do Mundo de 2006, Ronaldo Nazário, o dito “Fenômeno”, marca o gol mais importante do evento. Eu já o admirava antes de ele desmoralizar Lula (alguém no país precisa fazê-lo, já que a oposição não o faz). Não só por sua habilidade com a bola, mas também por seu caráter: fala pouco — o que é sempre prudente quando se é jogador de futebol, cineasta, cantor de MPB e, eventualmente, professor da USP —, tem um temperamento lhano e cordato e expressa-se com correção. Para citar Musil (vocês ainda não leram?), exibe certa “aristocracia espiritual” e não é do tipo que se subordina a “donos de cavalos, campos e tradições”. Tem o charme da independência.

A imprensa vive atrás de seus casamentos e namoradas. O vulgo precisa se divertir e sonhar. Já foi mais pobre do que Lula e chegou ao topo do mundo. Não lhe escapa da boca um só perdigoto de demagogia, daquela com que Lula costuma encharcar a política, encantando a “elite branca” de Cláudio Lembo com baba autocomplacente e juros estratosféricos.

A resposta de Ronaldo a Lula é um poema de João Cabral de Melo Neto, ali, a palo seco. Nada falta e nada excede. Ao lembrar que não estava presente à teleconferência em que o Apedeuta indagou Parreira sobre o seu peso, evidencia a covardia intelectual e política do cara. A pergunta, se bem notaram, foi feita de chefe para chefe. A suposta ou real “gordura” em Ronaldo é um problema profissional e remete diretamente à sua imagem, à sua carreira, a seu desempenho. Não pode servir de trampolim político para desocupados.

Em passado recente, o Apedeuta usou o mesmo Ronaldo, só que como bode exultório: comparou a sua trajetória à do jogador, que enfrentou o diabo, foi dado como acabado, mas sobreviveu e brilhou na Copa de 2002. O “Fenômeno” estava por cima. E Lula o usou como escada. Agora, Ronaldo é alvo da especulação sobre suas condições físicas. Lula, o oportunista, pisa-lhe no pescoço. Atenção: assim ele fez carreira; assim se comportou a vida inteira; é um traço do seu caráter. Nunca precisou se esforçar. À diferença de Ronaldo, sempre dependeu da boa vontade de estranhos e sempre lhes deu as costas em seguida. Até abocanhar o poder.

Ronaldo foi ainda mais preciso: depois de lembrar que não estava presente à teleconferência, o que evidencia a covardia circunstancial, informou que os jogadores foram proibidos de fazer perguntas a Lula, o que denota a covardia planejada. O presidente da República pode meter o nariz no futebol, o que não lhe cabe, mas os jogadores, brasileiros que são, não têm o direito de indagar o presidente, o que lhes cabe. A CBF, uma corporação com sotaque fascistóide, proíbe. É bom lembrar que, nas poucas entrevistas coletivas concedidas por Lula, os jornalistas não podiam fazer réplicas. Em um dos casos, era proibido até gravar as respostas. Ninguém reclamou.

Ronaldo é mais corajoso do que a maioria dos oposicionistas e do que a maioria da imprensa. À diferença dos dois grupos, pode dar uma banana pra Lula, que isso lhe é irrelevante. Não precisa ter medo de chefe, de anunciante estatal ou de Daniel Dantas.

E cravou o punhal: seria tão verdadeiro o seu excesso de peso como a fama que o presidente tem de ser chegado a uma cachaça. Lula já tentou expulsar do país um jornalista americano que relatou a sua intimidade com a “marvada”. É um assunto de que ele não gosta. Prefere Black Label. Segundo César Benjamin, ex-dirigente petista, desde 1989 ao menos, o Apedeuta sorve bem as talagadas, antes fornecidas por Dona Zelite. Agora, suponho, ele pode dispensar a generosidade da comunhão de classes para financiar esse hábito social.

Ronaldo dá alguns dribles lógicos. Numa leitura convencional, pode-se dizer que infere que nem Lula é chegado a uma cana nem ele está gordo. As duas coisas seriam falsas. Ou verdadeiras. Há certo consenso de que o jogador está um pouco acima do peso — o que, entendo, não compromete o seu futebol. Se a outra ilação dependente desta for igualmente consensual, é claro que um dos jogadores está com problema, e não é Ronaldo: uma coisa é a pátria de chuteiras estar um tanto gordota; outra, diferente, é a pátria com a faixa presidencial estar de queixo mole.

Futebol etc. e tal

Gosto de futebol, sou corintiano do tipo que sai para gritar “goooooolllll” na sacada, em companhia da minha filha mais nova, também um tanto fanática. A mais velha, bem..., está naquela categoria que não entende por que tanta gente correndo atrás de uma bola pode despertar algum interesse. Saiu à mãe, que cochila em fim de Copa do Mundo e acha que o que estraga o jogo é a lei do impedimento. Não fosse isso, teríamos placares alargados, com mais emoção...

Gosto, mas sempre fui uma lástima com a bola no pé. Já contei aqui. Nas formações de time da escola, os capitães, que eu invejava quase como deuses olímpicos, ao escolher os times, me deixavam sempre para o fim: “Tá bom, então vem pra cá”. Eu era uma moeda de troca, entendem? Um ou dois ruins para cada lado. Fui um dos precursores da política de cotas no país, o que não contribuiu para fazer de mim nem mesmo um jogador medíocre, desses de fim de semana.

Lá ia eu. “Fica aí atrás e não deixa o cara passar com a bola.” Entenda-se: no limite, era pra me jogar em cima do atacante, derrubá-lo, fazer falta, ser expulso, jogar feio. Às vezes, acho que meu texto reflete aquela sutileza aprendida no campo. Enquanto isso, os príncipes da bola faziam suas firulas. Eu era o Bruno Maranhão deles.

Mas não peguei ódio ao futebol. Ao contrário. Admiro com devoção tudo aquilo que não sei fazer. Dirigir automóveis, por exemplo, é coisa muito mais séria do que escrever livros. Os que entendem de motores e são capazes de identificar o problema de um carro por causa de certos barulhos e chiados são gênios da raça. Eu os invejo a todos: jogadores, motoristas, especialistas em carros, em eletricidade... Que joguem por mim, dirijam por mim, liguem os fios certos por mim. Só preservo o meu direito de dar opinião. Como não sou presidente, ainda que seja um tanto falastrão, só faço mal a mim mesmo. E isso, entre tantas coisas, me distingue de Lula, que protagoniza um mal histórico, de efeitos coletivos.

Sempre que o vejo pontificando sobre o que não entende, é como se eu estivesse disputando uma Copa do Mundo, mesmo jogando o que jogo. Agradeço a Deus não ter filhos, meninos. Escolas sempre promovem futebol de pais. Imaginem o pobre garoto a me ver humilhado pelos pais dos coleguinhas, tomando dribles, esbaforindo-me para arrancar algum heroísmo e fôlego do contencioso já estabelecido pelos muitos Hollywoods inutilmente fumados, sem que tenha tido, enfim, as respostas: “De onde viemos? Para onde vamos? O que é a terceira margem do rio?”.

Tendo só filhas, fica tudo mais fácil: a demanda por um pai ginástico, heróico, hercúleo, diminui bastante. O mundo dos homens é uma chatice. Por isso, em vez de machista, sou “mulherista”. Mais do que o futebol da escola, me aterroriza pensar na conversa posterior, na cervejada (argh!), nas pequenas cafajestagens para ser um cara alegre, de companhia, cordial, boa gente, naquela conversa inútil, generalista, mas muito cheia de convicção, como numa reunião de motoristas de táxi...

Deus, ao me poupar de certos talentos médios, poupou-me também de alguns dissabores. Assim é a vida neste mundo de compensações. Péssimo boleiro, a minha relação com o futebol permanece mediada por certo encantamento mágico. Leio o mundo segundo a linguagem que sei. Sempre achei que perdemos a Copa de 1998 para Rivaldo, que afrontava o deus olímpico do campo, justamente Ronaldo, emulando com ele em alguns dotes do drible, mas sem o ânimo que faz o jogador fora de série, o aristocrata, o herói.

No meu mundo, quem desafia a superioridade óbvia não emula, mas faz sabotagem, terrorismo. Penso que Ronaldo ainda pode ser, neste 2006, mais uma vez, o grande nome da Copa. Há nele a suave obsessão das pessoas incomuns. De resto, ainda que não faça mais nada, com a sua fala desta sexta, restaurou a devida hierarquia espiritual. Se Lula não puder se calar para sempre, que ao menos feche a boca até o fim da Copa do Mundo.

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