Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, janeiro 14, 2015

Vilão e herói muçulmanos - ZUENIR VenturaJornal O Globo

Vilão e herói muçulmanos - Jornal O Globo

Em momentos de comoção e revolta como os deste pós-massacre em Paris, em que há sempre o risco de se achar, por generalização e preconceito, que em cada muçulmano se esconde um terrorista, vale a pena ressaltar o caso dos dois personagens que se destacaram pela semelhança e pela oposição durante a turbulência da semana passada, desnorteando os que julgam pela aparência, ou seja, os que ainda acreditam na teoria lombrosiana, segundo a qual os traços físicos indicam as tendências criminosas ou o "potencial delitivo" de uma pessoa. Para o polêmico criminologista e antropólogo italiano Cesare Lombroso (1835-1909), cor, conformação do crânio, ossos da face, maçãs do rosto proeminentes, queixos protuberantes, maxilares grandes são características determinantes para a definição e periculosidade de um malfeitor. "Mais insensíveis à dor", os criminosos teriam também preferência por tatuagens nos ombros, peito e braço (o que ele diria dessa moda hoje?). As ideias de Lombroso gozaram de grande prestígio na época, inclusive no Brasil, onde teriam influenciado o Código Penal de 1940, aquele que criou a justiça dos três "pês": "preto, pobre e puta".

Os dois personagens a que me referi são negros, mulçumanos e, fisicamente, muito parecidos entre si. A diferença é a que separa o mal do bem. Amedy Coulibaly, de 32 anos, foi o terrorista que, com os irmãos Kouachi, participou da chacina dos cartunistas do "Charlie Hebdo" e, depois, invadiu uma mercearia kosher, matando quatro reféns e ferindo outros quatro. Morto pela polícia, Amedy era um delinquente de cuja folha corrida constavam numerosos assaltos a mão armada, roubos com agressão e tráfico de drogas. Quando esteve preso em 2005, converteu-se ao Islã radical e filiou-se à al-Qaeda, do Iêmen.

Já o outro, Lassan Bathily, de 24 anos, nascido no Mali, teve papel decisivo, demonstrando coragem e sangue frio diante do perigo. Ele era funcionário do mercado judaico e percebeu quando o local foi tomado por Amedy Coulibaly. Em vez de se omitir ou facilitar a ação homicida do seu colega de religião, Lassan abriu a porta do porão para que cerca de 15 clientes judeus entrassem e se escondessem. Em seguida, desligou o congelador e apagou a luz. Depois que a polícia retomou o local e matou Coulibaly, os reféns, à medida em que eram resgatados, agradeciam comovidos ao mulçumano salvador. Seu nome foi logo parar nas redes sociais, aclamado como herói — o único personagem da tragédia a receber esse título.



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Realismo tarifário | Celso Ming

Realismo tarifário | Celso Ming

Realismo tarifário

Ao longo de dois meses de campanha eleitoral, a presidente Dilma repeliu reajustes bruscos de preços e tarifas. "Sem tarifaços" – avisou; Mas o represamento dos preços produziu mais estragos do que os que o governo pretendia evitar

Sai o tarifaço e entra o realismo tarifário. Na prática, os preços da energia elétrica ao consumidor darão um salto de vara e a inflação dos próximos meses refletirá o acontecido. A consequência desejada é menos artificialismo e, se tudo der certo, o início da retomada da confiança.

Ao longo de dois meses de campanha eleitoral, a presidente Dilma repeliu reajustes bruscos de preços e tarifas. "Sem tarifaços" – avisou. Mas o represamento dos preços produziu mais estragos do que os que o governo pretendia evitar.

Levy. O Banco Central não está só (Foto: Dida Sampaio/Estadão)

Levy. O Banco Central não está só (Foto: Dida Sampaio/Estadão)

No caso da energia elétrica, houve em 2014 brutal aumento de custos com o acionamento das termoelétricas que, em princípio, estavam lá só para emergências. Com a seca, a emergência virou permanência.

A maioria das térmicas opera com derivados de petróleo (óleo combustível e óleo diesel). Para que não houvesse mais inflação, o governo segurou o quanto pôde as tarifas. Repassou parte para o Tesouro (para o contribuinte), outro pedaço foi para a conta de luz e a terceira fatia foi transformada em papagaios pendurados nos bancos.

Esse tipo de distribuição de contas cria as distorções já conhecidas: infla as despesas públicas, semeia incertezas – porque ninguém fica sabendo quando as tarifas serão liberadas – e deixa o consumidor final à vontade para gastar luz, porque o preço baixo não o leva a economizar. Esse tipo de política aprofunda a falta de confiança e aí as consequências já não podem ser medidas.

A decisão tomada segunda-feira foi repassar os novos aumentos de custos para o consumidor (realismo tarifário). Isso significa que as transferências de R$ 9 bilhões previstas no projeto do Orçamento da União para as companhias de energia não acontecerão mais. O governo concordou com que os R$ 2,5 bilhões de restos a cobrar fossem cobertos com empréstimos bancários, para serem transferidos à conta de luz mais à frente. Mas é a última vez que isso acontece – é, pelo menos, o que se garante.

Nesta terça-feira, em café da manhã com jornalistas da área econômica, o ministro Joaquim Levy avisou que o Banco Central não vai ser deixado sozinho no combate à inflação. A política fiscal (controle das receitas e despesas do setor público) também ajudará a política monetária (política de juros). Isso não foi assim desde que Antonio Palocci deixou o Ministério da Fazenda, em 2009. Mantega esteve às turras com o antigo presidente do Banco Central Henrique Meirelles, e, ao longo do primeiro governo Dilma, passou a pressionar Alexandre Tombini para não denunciar a usina de inflação com gastos públicos.

A nova política não se limita à energia elétrica. "O realismo tarifário é importante sinal para os preços" – avisou o ministro Levy. Portanto, o atraso do importante segmento dos preços administrados (25% da cesta de consumo) parece com os dias contados. O sinal mais importante é o de que as coisas não deverão mais acontecer porque o ministro, ou sabe-se lá quem, assim o arbitrou. As regras do jogo serão mais impessoais e mais claras.

Mais do que sinal para os preços, a decisão é indicação de que a política econômica experimentalista ficou para trás. Só não dá para ter certeza disso porque a presidente Dilma está sujeita a recaídas. É por isso, também, que a volta da confiança demora um pouco mais.

CONFIRA:

PrecosVariacao9jan

É o atraso dos preços administrados.

Assunto da Petrobrás
Ontem, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, avisou que os preços dos combustíveis são assunto da Petrobrás. Pareceu dizer que o governo não vai se meter. Uma coisa é dizer e outra, fazer. O ministro anterior, Guido Mantega, também dizia que o reajuste dos preços dos combustíveis era assunto da diretoria da estatal. Na prática, quem autorizava ou não autorizava os reajustes era ele próprio. Hoje, a Petrobrás não tem concorrência, mas pode começar a ter se as importações de combustíveis forem liberadas.

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terça-feira, janeiro 13, 2015

Desafios do Itamarati Rubens Barbosa O Globo

O início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff se assemelha ao cenário político e econômico de 2003. Como Lula, para compensar o PT pela aceitação da receita ortodoxa apresentada pela oposição durante a campanha eleitoral, a presidente poderia aumentar a ascendência do PT sobre a política externa.
O risco poderia agora ser a ocupação do Itamaraty (já tentada no início do governo Lula). O controle do Itamaraty só seria alcançado com a substituição de diplomatas dos postos de chefia no país e no exterior por militantes petistas.
Há indícios inquietantes que mostram que a possibilidade não é teórica. Segundo se informa, haveria uma série de medidas que, se efetivadas, iriam agravar o esvaziamento das funções privativas do Ministério das Relações Exteriores (MRE):
— A Casa Civil está estudando a retirada da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) do âmbito do Itamaraty, o que permitiria o aparelhamento de mais uma estrutura burocrática, importante braço do soft power brasileiro no exterior. 
— A nova ABC, que passaria para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, com competência para tratar de promoção comercial e investimento, poderia esvaziar as ações do Departamento de Promoção Comercial do Itamaraty.
— A Casa Civil estaria estudando legislação que modificaria a Lei do Serviço Exterior Brasileiro para que os cargos privativos de diplomatas sejam ocupados por pessoas indicadas pelo partido.
— Está igualmente em discussão a ideia de se criar o cargo de adido comercial para as embaixadas no exterior, o que abriria postos aos amigos do rei.
Dada a gravidade dessas informações — até aqui sem um desmentido claro —, todos esperamos que as medidas em discussão sejam balões de ensaio e não sejam levadas adiante para evitar o desmonte do MRE.
Por outro lado, a criação do Conselho Nacional de Política Externa por medida provisória — em boa hora derrubada, por inconstitucional, pela Câmara dos Deputados e aguardando votação no Senado — completaria o processo de esvaziamento do Itamaraty.
As transformações políticas e econômicas em curso no mundo e as dificuldades e equívocos quanto à integração regional e ao Mercosul exigirão uma ação mais ativa para a efetiva defesa do interesse nacional.
O novo ministro, Mauro Vieira — eficiente e habilidoso —, herda uma instituição desprestigiada e com baixa estima e uma política externa com perfil tão reduzido ao ponto de fazer o Brasil sumir do cenário global.
Sendo um “profissional da diplomacia” e conhecedor de todos esses problemas, como corretamente assinalou nos seus primeiros pronunciamentos, o novo ministro merece um crédito de confiança pelos compromissos assumidos de modernização e de atuação mais dinâmica na área comercial. As escolhas iniciais de seus principais auxiliares indicam que contará com apoio interno qualificado para enfrentar a crise. Ganha também um período de graça para que possa mostrar resultados que impeçam o esvaziamento adicional do Itamaraty, mas, sobretudo, que façam a Casa de Rio Branco recuperar a posição central que sempre teve na formulação e execução da política externa.
Rubens Barbosa é presidente do Conselho de Comércio Exterior da Fiesp

sábado, janeiro 10, 2015

ZUENIR Ventura Je suis Charlie, juif, musulman...

O Globo

A primeira impressão é de vitória do extremismo, de recrudescimento do radicalismo, já que a barbárie calou a liberdade de expressão

Os jornais "Le Monde" e "Le Figaro"lembraram que o pior ato de terror em Paris foi o que ocorreu em 1961, durante a guerra pela independência da Argélia, quando a Organização Armada Secreta, a OAS, de direita, explodiu uma bomba no trem Estrasburgo-Paris, descarrilando a composição e matando 28 pessoas. Em número de vítimas, sim, foi bem maior do que o de agora, com 12 mortos. Mas não em efeito moral e emocional, em impacto e comoção. Passei os anos 1960/61 como correspondente na capital francesa, e pude vivenciar o clima de paranoia da época, devido aos atentados. Até o presidente De Gaulle escapou por pouco de um. Era comum uma ameaça esvaziar uma sala de cinema ou uma estação de metrô.

Mesmo assim, agora, distante, fiquei mais chocado, pela brutalidade e frieza da ação e porque sabia o quanto Wolinski, um dos cartunistas barbaramente assassinados, era amigo de Chico Caruso e Ziraldo. Acompanhei a reação deste último: primeiro de incredulidade ao receber a notícia, e em seguida de inconformismo e dor. "Quando eu ia a Paris, ele me levava para jantar em sua casa", recordou o nosso cartunista. "Você sabe o que isso significa para um francês?" Uma das charges guardadas como relíquia é uma bela mulher nua com a legenda: "Olha o que o Ziraldo fez comigo". Os dois gostavam de desenhar mulher. Aliás, não só de desenhar.

À parte as memórias afetivas, o que fica? Naquela época, o terrorismo saiu derrotado, De Gaulle foi vitorioso e a Argélia tornou-se independente. E agora? A primeira impressão é de vitória do extremismo, de recrudescimento do radicalismo, já que a barbárie calou a liberdade de expressão: o fuzil venceu o lápis e o país pode sair partido. Esses fanáticos são tão insanos e obtusos que não percebem que, com suas ações, dão razão à extrema-direita e fortalecem a islamofobia. Mas, por outro lado, a atitude das lideranças muçulmanas condenando a violência e a impressionante reação dos franceses indo para as ruas de forma indignada, mas pacífica, lançando a palavra de ordem que correu o mundo — Je suis Charlie — alimentam a esperança de que o sacrifício dos mártires do massacre do "Charlie Hebdo" sirva para impedir que os fundamentalistas façam valer sua estratégia, a de uma França polarizada pelo ódio étnico e religioso.

A solução contra isso está anunciada nos cartazes empunhados nas últimas passeatas: "Je suis Charlie, Je suis musulman, Je suis juif, Je suis catholique". Ou seja, a solução é a pluralidade, a tolerância, a liberdade de expressão.

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Governo foi o causador da crise na Petrobrar Editorial O Globo

O Globo:

https://mail.google.com/mail/mu/mp/795/#co


A diretoria da Petrobras já anunciou que este ano não recorrerá a financiamentos externos para levar adiante seus negócios. Na verdade, o mercado não está aberto, no momento, para a companhia. A estatal acumulou elevado endividamento, foi vítima de aparelhamento político e teve de se submeter a um demagógico represamento de preços dos seus principais produtos, por decisão do acionista controlador, representado pelos governantes de ocasião do país.

Será um ano de muitos desafios para a Petrobras porque a companhia tem pela frente um ambicioso programa de investimentos e precisará, ao mesmo tempo, conciliar tais compromissos com a necessidade de reduzir o endividamento como proporção do patrimônio. Enquanto enfrenta um ambiente esgarçado pela revelação de uma série de escândalos de corrupção e de outros casos sob suspeição, com impacto no comportamento de suas ações nas bolsas de valores. É quase que um apagar de incêndios diários. Os acionistas minoritários desconhecem os resultados da companhia no terceiro trimestre de 2014, que somente serão divulgados no fim deste mês, e sem passar pelo crivo dos auditores externos. Na ausência desses resultados, a empresa teve de negociar com os grandes credores um acordo para que o total da dívida não fosse declarada como vencida.

Ao tomar posse para o novo mandato, a presidente Dilma Rousseff dedicou parte de seu discurso à defesa da estatal eximindo o governo de responsabilidade nessa crise. Chegou a mencionar "inimigos externos", como se a Petrobras estivesse sendo alvo de uma campanha de desmoralização sem vínculo com a dura realidade administrativa, econômica e financeira da companhia. Para usar uma imagem cinematográfica, a Petrobras conviveu com o inimigo dentro da própria casa.

A companhia é muito importante para o Brasil. É líder em uma indústria com forte efeito multiplicador sobre o conjunto da economia, contribuindo para redução da dependência energética no presente e com um potencial de receitas futuras que serve de anteparo contra crises crônicas no balanço de pagamentos. Por isso, precisa ser preservada como empresa, e não como instrumento político-partidário, executando tarefas de conveniência dos governantes de turno.

A Petrobras se fortaleceu com a abertura do mercado brasileiro de petróleo, ao buscar mais eficiência, e poderia ter prosseguido nesse ritmo não fosse a visão obtusa e contaminada por um ideologismo ultrapassado que fez o país retroceder nas regras e objetivos traçados para o setor. Se, na época da descoberta do pré-sal, o governo não tivesse paralisado as rodadas de licitações anuais, a Petrobras estaria hoje contando com mais parceiros que poderiam ter colaborado para evitar o quadro de dilapidação que a companhia sofreu. O país não estaria agora sob o risco de ver a paralisação de investimentos tão relevantes.

sexta-feira, janeiro 09, 2015

José Paulo Kupfer Riscos de a profecia se realizar

O GLOBO

Impossível, pelo menos por enquanto, saber até onde Dilma terá de bancar cortes e restrições de gastos para dissolver as desconfianças

A surpresa provocada pela escolha da nova equipe econômica ainda não foi totalmente assimilada. Nos discursos, entrevistas e, sobretudo, nos primeiros atos dos economistas nomeados, a linha ortodoxa adotada dá sinais de prevalência na condução das questões da economia. Mas, tanto entre a oposição política à presidente reeleita Dilma Rousseff quanto entre aliados mais à esquerda, a impressão é a de que não se acredita que essa pretensa nova linha de conduta terá vida longa.

Com a escolha de Joaquim Levy para chefiar a Fazenda, economista com antecedentes tucanos que serviu no primeiro governo Lula, Dilma entupiu o discurso econômico oposicionista, apropriando-se da proposta de instalação de um ciclo de austeridade na economia, central no discurso da oposição. Restou desconfiar de que a conversão de Dilma não era nem um pouco sincera, depois de tudo o que declarou e praticou em quatro anos de governo e, sobretudo, nas reiterações contrárias do marketing de sua campanha eleitoral.

Um reforço do argumento da desconfiança veio logo nas primeiras horas do segundo mandato. Dilma obrigou seu novo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, que anunciara estudos para rever a fórmula de reajuste do salário mínimo, a divulgar nota com um desmentido formal de que haveria mudança no cálculo. Dobraram, a partir do episódio, as apostas na brevidade da presença da dupla Levy-Barbosa no Ministério e, em consequência, da linha de austeridade prometida.

Na disputa política instalada depois das eleições de 2014, haverá espaço, diante dos "antecedentes" de Dilma, para se considerar que a qualquer momento o "bom caminho" deixará de ser trilhado, por mais que as ações do governo se mantenham na linha anunciada. Um dos principais problemas desse raciocínio está no conceito de "bom caminho". E trapalhada em torno da regra de correção do salário mínimo é ilustrativa.

A regra atual determina que o reajuste se dê pela combinação da variação da inflação com a do PIB dois anos antes. Barbosa tentou lançar a discussão sobre a substituição da fórmula atual, vigente até 2015, por uma outra que trocasse a variação do PIB pela da produtividade ou pela variação do PIB per capita. Qualquer das regras, no entanto, mantém, na pior das hipóteses, uma atualização real do salário mínimo — seu valor, em todas as variantes, seria reajustado minimamente pela inflação.

Contudo, não prosperou, a partir do episódio que contrapôs Dilma e Barbosa, um debate, talvez necessário, sobre a conveniência econômica da manutenção de uma regra fixa para o reajuste do mínimo. A regra atual e as propostas são todas pró-cíclicas — o mínimo sobe mais quanto mais cresce a economia —, mas é de se pensar se uma fórmula rígida é o melhor e, em caso afirmativo, se a fórmula não deveria ser contracíclica.

O que, enfim, prevaleceu na história do reajuste do salário mínimo nem foi o fato de que a fórmula preferida por Dilma é a que, pelo menos até 2017, na comparação com as sugestões de Barbosa, tende a produzir a menor correção do mínimo, sendo, portanto, a mais "austera". A marca do evento foi a intervenção de Dilma, desautorizando seu ministro e reforçando a impressão de que a surpreendente conversão da presidente à austeridade ortodoxa não seria para valer.

É visível que está armado um ambiente propício à disseminação de uma espécie de profecia autorrealizadora — algo que acaba acontecendo porque se espera que aconteça. Impossível, pelo menos por enquanto, saber até onde Dilma terá de bancar cortes e restrições de gastos para dissolver as desconfianças em relação à sinceridade de seus propósitos de reequilibrar a economia. E evitar que todo o esforço nesse sentido acabe sendo em vão.

José Paulo Kupfer é jornalista

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O longo braço da intolerância e da barbárie O GLOBO EDITORIAL

O GLOBO EDITORIAL
De um lado, a democracia ocidental, com os direitos e garantias individuais, o Estado laico, a liberdade de expressão e de imprensa capazes de produzir textos e charges críticas, irônicas, satíricas, bem humoradas ou não. E quem se sentir atingido tem respaldo legal para obter reparação na Justiça, se for o caso. De outro, o fundamentalismo islâmico, que se alimenta das trevas, do ódio, da barbárie, da intolerância. Quem se opuser pode ser morto impiedosamente.

Foi o que fizeram ontem atacantes encapuzados ao disparar rifles Kalashnikov numa reunião de pauta da revista satírica "Charlie Hebdo", em Paris, matando 12 pessoas, entre elas dez funcionários da publicação — quatro delas chargistas de renome nacional e até mundial, como Georges Wolinski, de 80 anos e Stéphane Charbonnier, "Charb", o editor. Pelos antecedentes — a revista já publicou várias charges sobre o profeta Maomé, e por este motivo sua sede anterior foi destruída por uma bomba em 2011 — conclui-se que os terroristas são ligados ao fundamentalismo islâmico.

É um atentado cheio de simbolismos. Executado em Paris, coração da França, pátria das liberdades e dos direitos humanos. Contra um ícone da liberdade de imprensa, a "Charlie Hebdo", que ousa desafiar, com a sátira e o bom-humor, o fanatismo homicida do fundamentalismo islâmico. Confirma também que, a partir do Oriente Médio, o longo braço do terror pode atingir qualquer ponto do globo.

Não se trata apenas de uma questão de segurança, embora ela seja cada vez mais importante. A grande questão é como as sociedades ocidentais vão se resguardar dessa ameaça sem perder as características democráticas. O risco é irem se fechando e acabarem também intolerantes e xenófobas. Esta será, se ocorrer, uma vitória do terrorismo. É necessário gerar instrumentos que permitam combater o extremismo, sem prejuízo das liberdades.

Há algo errado quando 3 mil europeus, descendentes de muçulmanos, aderem ao Estado Islâmico (EI), maior expressão do fundamentalismo sunita, que prega o retorno à era de ouro do califado e a destruição dos valores ocidentais. Cerca de 1 mil são franceses e muitos já voltaram ao país.

É evidente a incapacidade de a Europa Ocidental, sobretudo da França, de integrar os imigrantes e descendentes à sociedade. Eles em boa parte vivem segregados, nos banlieus (subúrbios) parisienses. E constituem alvos fáceis para cooptação pelo EI e outros grupos extremistas.

É preciso, portanto, que os governos convençam esses imigrantes das vantagens dos valores ocidentais sobre o fundamentalismo. Será necessário também persuadir as populações nacionais a substituir o preconceito por tolerância e acolhimento. Será mais fácil lidar com os radicais se eles estiverem isolados.

NELSON MOTTA Um militante pra chamar de seu

O GLOBO
A hilariante caricatura de Adnet é apenas uma síntese do que esses militantes dizem a sério!

Espero ansioso a nova temporada de "Tá no ar: a TV na TV" e a volta do militante nordestino exaltado de Marcelo Adnet, que vê em tudo uma conspiração da Rede Globo para solapar a cultura popular brasileira e debochar dos excluídos. Mesmo com seu grande talento e competência, a hilariante caricatura de Adnet é apenas uma síntese jocosa do que esses militantes escrevem nas redes sociais — mas a sério!

O radicalismo, a intolerância, o sectarismo, a cegueira ideológica e a simples estupidez humana, que inspiraram o personagem de Adnet, também caracterizam um dos arquétipos mais conhecidos de Nelson Rodrigues, "o cretino fundamental". Já no seu tempo, Nelson reclamava que antes o cretino sabia de sua cretinice e se mantinha discreto no seu lugar, mas estava começando a perder o pudor e a se exibir em público, alardeando sua estupidez. O pior pesadelo para Nelson seria entrar na rede e ver que agora eles são legiões e gritam mais alto que todos.

Enquanto o militante do Adnet não volta para me divertir, acabei ganhando um militante para chamar de meu. O cara diz que eu fui subornado pela Rede Globo para defender o Roberto Carlos no programa do Tim Maia, que sou um capacho do capitalismo, traidor da memória do Tim... rsrs.

Eu só disse que o Roberto Carlos levou o Tim para cantar na Jovem Guarda, foi o primeiro a gravar uma música dele, "Não vou ficar", que fez grande sucesso e deu fama e dinheiro ao Tim, e ainda arranjou um contrato para ele na CBS. O que mais Roberto poderia fazer pelo Tim? Uma massagem? Um quilo du bão?

Meu personal militante acha que a Globo investiu tanto tempo, dinheiro e talento em um programa só para sacanear o Tim e "limpar a barra do Roberto Carlos"... rsrs... Como se o Roberto precisasse disso. O ódio e a inveja cegam e ensurdecem, mas, às vezes, até divertem.

Como na semana seguinte seria exibido "O canto da sereia", baseado em meu romance homônimo, aguardei ansioso a manifestação do meu militante, imaginando que ele descobriria tudo: Arrá! Em troca da "Sereia", você livrou a cara do Roberto Carlos no programa do Tim Maia. Vendido!

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sábado, janeiro 03, 2015

MERVAL PEREIRA Mal na fita

O GLOBO

O Brasil começa 2015 em situação descendente, em que pese a enganosa euforia da presidente Dilma em seu discurso de posse no segundo mandato. A despeito de sermos a sétima economia do mundo, tudo indica que perderemos esse posto para a Índia este ano, segundo a consultoria britânica Economist Intelligence Unit, ligada à revista econômica The Economist.
O baixo crescimento econômico do PIB nos últimos 4 anos – média anual abaixo de 2% - fez com que a economia brasileira perdesse o sexto lugar para a Inglaterra em 2012, depois de tê-la ultrapassado, e este ano, com a previsão de crescimento de 6,5% da Índia contra menos de 1% do Brasil, devemos cair para o oitavo lugar, ainda na frente da Itália, que também será superada pela Índia.
A decadência econômica vem acompanhada da desimportância política internacional, reforçada pela política externa do governo Dilma, mais voltada para questões regionais e ideologicamente ligada aos parceiros do Mercosul, em detrimento das relações com os Estados Unidos e Europa.
O Brasil continua entre os países que importam na política internacional, não apenas por estar entre as 10 maiores economias do mundo, mas, especialmente, por fazer parte do BRICS, conjunto de países considerados com potencial para liderar o mundo multipolar nos próximos anos.
A tarefa do novo ministro das Relações Exteriores Mauro Vieira, ex-embaixador do Brasil em Washington, será interromper a crescente desimportância brasileira, constatada em recente pesquisa do Ash Center para Governança Democrática e Inovação, da Harvard Kennedy School, que perguntou a cidadãos de 30 países suas opiniões sobre 10 influentes líderes nacionais que têm impacto global.
As notas médias mais altas de conhecimento são para o presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, (93,9%) para o presidente Vladimir Putin, da Rússia (79,3%) e para o presidente Xi Jinping, da China (59,12%). Os líderes nacionais menos conhecidos são o presidente da África do Sul Jacob Zuma (27,8%) e Dilma Rousseff do Brasil (25,4%).
O diretor do Ash Center, Tony Saich, diz que dois pontos principais se destacam na pesquisa. A primeira é que as respostas são influenciadas por questões geopolíticas, com disputas entre nações e líderes nacionais refletidas claramente nas atitudes de seus cidadãos. Por exemplo, as tensões entre China e Japão resultam em avaliações pobres da China e seu líder por japoneses, e vice-versa.
Em segundo lugar, fica clara a correlação das respostas entre a natureza do sistema político e as opiniões dos cidadãos sobre seus líderes nacionais. De maneira geral, diz Saich, em sistemas multipartidários ou bipartidários genuínos, como os existentes na Europa ou nos Estados Unidos, os cidadãos são mais críticos sobre as políticas e seus líderes do que em nações onde a política é menos polêmica.
O presidente Barack Obama, devido ao papel dos Estados Unidos na política global, é o mais conhecido entre os pesquisados, sendo que recebeu a maior percentagem em 23 dos 30 países (90.4% no Brasil). Com exceção de 3 países – Tanzânia, Índia e Paquistão – o nível de conhecimento de Obama passou dos 90%.
Para os outros líderes, o conhecimento é regional. A Chanceler Angela Merkel, por exemplo, é bem conhecida na Europa e na Rússia, mas menos na África, na Australasia e na Ásia. O presidente Xi Jinping é bem conhecido na Ásia, mas apenas 48,8% dos russos pesquisados e 59,8% dos vietnamitas o conhecem. Apesar, frisa o professor Toni Saich, das tentativas de construir uma relação próxima entre China e Rússia e das tensões entre a China e o Vietnam.
Em países em que a midia é controlada pelos governos, não é surpresa, diz Saich, que seus cidadãos aleguem prestar mais atenção a seus líderes. Assim, 93,9% dos chineses responderam que prestam atenção no presidente Xi Jinping e 92,5% dos cidadãos sul-africanos e russos a Zuma e Putin respectivamente. Nessa medida de democracia, apenas 74.4% dos americanos pesquisados responderam que prestam atenção a Obama, enquanto as percentagens para países da Europa Ocidental são menores ainda.
No Brasil, onde a mídia não é controlada pelo governo, mas o Executivo tem grande influência no dia a dia dos cidadãos, nada menos que 82,3% das pessoas se referiram à presidente Dilma Rousseff. No entanto, quando se analisa o grau de democracia dos países, os que têm maiores restrições à discussão política classificam seus líderes com maiores notas.
Numa escala de 1 a 10, o presidente da China recebeu 9, Putin 8,7 e Obama 6,2, enquanto a presidente brasileira Dilma Rousseff recebeu 6,3. (Continua amanhã)

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Ajuste traz Dilma de volta à vida real O GLOBO EDITORIAL

O GLOBO EDITORIAL

Fazendo jus à fama de "ilha da fantasia", a Brasília da posse de Dilma Rousseff no segundo mandato patrocinou um evento sem sintonia com a realidade do país. O principal pronunciamento da presidente, perante o Congresso, passou longe do Brasil real, ao adotar um modelo de discurso palanqueiro, de campanha eleitoral. Por exemplo, quando, na série de autolouvações, proclamou a convicção da presidente "sobre o valor da estabilidade econômica, da centralidade do controle da inflação e a necessidade da disciplina fiscal (...)." Ora, se assim houvesse sido, Dilma não precisaria, no mesmo discurso, anunciar um ajuste nas contas públicas.

Também condizente com o estilo de campanha, o pronunciamento foi perpassado pelo cacoete petista típico de alimentar o confronto entre "nós" e "eles". Se a postura de estimular conflitos nunca é a melhor no exercício da política, a atmosfera se torna ainda mais pesada depois de uma eleição acirrada, da qual o PT saiu vitorioso por apenas três pontos percentuais. Nada que reduza a legitimidade da vitória, mas algo que não pode escapar da sensibilidade dos políticos.

A esperança é que Dilma tenha descido do palanque logo no dia seguinte à posse. Há um trabalho duro para recuperar o terreno perdido na estabilização econômica, no primeiro mandato, e ela é peça-chave na ação política com este objetivo. O trabalho até já começou, com a edição, nos últimos dias do ano, por medidas provisórias, de necessárias readequações nas normas de concessão de benefícios como pensões por morte, seguro-desemprego, etc.Faz tempo benefícios previdenciários e pensões precisavam ser reordenados, mesmo que não houvesse a premência do ajuste fiscal.

Com regras irreais, inexistentes mesmo em países ricos, gastos do INSS, por exemplo, crescem exponencialmente em relação ao PIB. De 1991 a 2015, as despesas totais previdenciárias terão escalado cerca de cinco pontos percentuais do PIB.

A luta para aprovar essas MPs no Congresso, essenciais para o ajuste, com uma redução estimada de R$ 18 bilhões em gastos, trará a presidente para as dificuldades da vida real, com os embates que serão travados em torno das medidas.

No lado da oposição, prenuncia-se uma guerra ao governo nos moldes do radicalismo do PT quando estava fora do poder. Ora, o PSDB sabe que o ajuste é necessário e precisará distinguir o que se trata de ação política oposicionista de sabotagem contra os interesses da nação. Entende-se que o baixo nível da campanha eleitoral, muito devido ao PT, deixou marcas. Mas elas precisam ser superadas quando estiverem em debate temas estratégicos como este. E virão outros, contrários a interesses de corporações e grupos abrigados na base do governo. Será um equívoco se o PSDB e aliados se juntarem ao que há de mais retrógrado no Congresso, à esquerda e à direita.

Aliás, os tucanos sabem do que se trata, pois apoiaram Lula nas alterações feitas na previdência do funcionalismo público, em 2003.

Rosiska Darcy de Oliveira O amanhã do Rio

O GLOBO

Quando o Rio começar a sair literalmente do buraco das obras de renovação em que está mergulhado, dias melhores virão

Feliz Ano Novo, leitores. Afinal, vivemos nesta cidade que vai fazer 450 anos, que nos oferece na passagem do ano uma chuva de ouro e onde o pôr do sol é aplaudido de pé por uma multidão maravilhada. A cada ano cai também uma chuva torrencial, assassina e, em pleno alumbramento no Arpoador, alguém pode ser apanhado em um arrastão de meninos assaltantes. Tudo isso, a chuva de ouro e a chuva assassina acontecem aqui. O pôr do sol no Dois Irmãos e os meninos selvagens. Luminosa, terna, corpo quente, essa cidade é a senhora dos sentidos. Violenta, é também a senhora da dor. Decidi nestes primeiros dias do ano acreditar na felicidade carioca que "é como a gota de orvalho numa pétala de flor".

Há 50 anos o Rio comemorava seu quarto centenário. Na plateia lotada do Teatro Municipal, homens de smoking e mulheres de vestido longo assistiam ao "Martírio de São Sebastião", de D'Annunzio e Debussy. Geneviève Page, uma linda atriz francesa, vestindo apenas uma malha sobre o corpo nu, encarnava nosso santo padroeiro.

Suspensos à sua voz encantatória, esperávamos o momento culminante em que o santo é flechado, senão quando entra pelas janelas abertas de um teatro então sem ventilação o canto alegre do Bola Preta, vizinho ruidoso do Municipal. "Quem não chora, não mama" entoava o cordão que, à sua maneira, comemorava o quarto centenário da Mui Leal e Heroica Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Gargalhadas na plateia. Assim é o Rio que eu nunca esqueci, o Rio que nos pertence a todos, diferentes e desiguais, absurdo e sedutor patrimônio dos cariocas, uma cidade rebelde e inconformada que nos momentos de desespero compõe suas melhores canções.

O ano que começa será festivo. Quatrocentos e cinquenta anos é data que se comemora como convém à índole desta cidade cosmopolita que, a cada réveillon, reúne no seu mais belo salão de festas — suas areias, seu mar — milhões de brasileiros e turistas para saudar o Novo Ano. Plural, abre-se ao mundo e às línguas que não fala, mas improvisa, acolhe a diversidade das crenças e ritos.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, criou uma rede global de cidades selecionadas para ser laboratório de estilos de vida sustentáveis. Lá está o Rio entre as escolhidas. Uma aposta inteligente em quem já deu provas sucessivas de energia criativa. Quando o Rio começar a sair literalmente do buraco das obras de renovação em que está mergulhado, quando os tapumes caírem, dias melhores virão.

O Rio é uma cidade que tem amanhã, o que é preciso lembrar quando bater o desespero no trânsito ou uma tragédia a mais abalar a confiança no futuro. Não é um acaso que seja aqui que um Museu do Amanhã avança sobre o mar, confundindo e desmentindo quem associa museu à guarda do passado. Neste caso, trata-se da guarda do futuro, o que é concepção originalíssima que coloca o Rio na ponta da reflexão sobre o mundo em que vamos viver. O curador do museu, o físico Luiz Alberto Oliveira, um dos melhores cérebros do país, explica que, se o amanhã guarda muitos futuros possíveis, para o bem ou para o mal seremos as escolhas que fizermos frente a esses possíveis. Já sabemos que vamos na direção de mudanças climáticas extremas que pedem reflexão sobre a matriz energética. De alteração da biodiversidade que ameaça com a extinção de espécies. De vidas mais longas que estão mudando os critérios do que é envelhecer.

Cidades estressadas e criativas serão mais integradas e enfrentarão os problemas do consumo e da desigualdade. A multiplicação de tecnologias vai impactar cada vez mais a medicina, a comunicação, a educação e a agricultura. Desponta a iminente possibilidade de vida artificial com seus riscos e desafios éticos.

O museu é uma promessa educativa, que propiciará o aprendizado da escolha refletida e informada e a consciência de que o amanhã já está em nós, hoje.

Na passagem de um ano vem à tona o desejo de descobrir o que o destino esconde para o ano que entra. Ora, o destino não está escrito em lugar nenhum, ele se escreve na medida em que se cumpre, foi o que me ensinou o Prêmio Nobel de Biologia Jacques Monod. É o resultado próximo ou longínquo de nossas escolhas, da ação humana.

As cidades — e o Rio é assim — são uma miríade de escolhas de vida, de formas de convivência que vão pouco a pouco desenhando um tecido urbano, um território e uma cultura. Assim também são os amanhãs que escolhemos todo dia e que desenham nossas vidas.

Desejo aos cariocas, nesse aniversário, que com 450 anos tomem juízo e façam sempre melhores e refletidas escolhas.


Rosiska Darcy de Oliveira

é escritora

rosiska.darcy@uol.com.br


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Roberto Athayde Trégua no deserto

O GLOBO

Eu me refiro não às imensidades da África, nem ao areal das Arábias e muito menos ao quadrilátero da Rua da Alfândega. É a aridez de uma difusa sensação de impotência

Aqui no Rio de Janeiro temos a Saara, região do Centro famosa pelo convívio pacifico entre árabes e judeus. Esse conglomerado comercial, crescentemente exposto à mídia também por sua exuberância, não fica longe do que chamamos de Porto Maravilha e que promete transformar uma imensa área na orla da Guanabara, até então jogada fora, inóspita de dia e soturna à noite, numa nova expansão urbanística valorizada, cheia de museus e galerias — um acréscimo precioso ao charme da nossa cidade. Um passeio pela Saara extensivo à Praça Mauá e suas imediações poderia causar bastante otimismo num espírito inocente.

Mas, se esse cidadão bem-intencionado lê o jornal, vê que essas mesmas etnias tão amigas na Rua da Alfândega se estraçalham na Palestina, se matam em enormes extensões do Oriente Médio, que os árabes atacam e juram sempre mais vingança enquanto Israel extrapola sua defesa, que o antissemitismo recrudesce na Europa, que os fugitivos das guerras e tiranias no mundo se contam pelas dezenas de milhões, que os chineses sufocam os estudantes, que o talibã prefere assassinar 132 deles, que a jihad fez 5.042 vítimas só no mês passado, que os americanos continuam seu interminável bangue-bangue (armas leves para os particulares em seus espasmos de fúria e dronespara a estratégia do Pentágono), que seus militares defendem a tortura, que um argentino revela um cemitério militar escondido e que a Venezuela nos oferece o seu apavorante exemplo. Ao ler a parte brasileira e urbana do noticiário, nosso flâneur otimista vê que as favelas pacificadas continuam seu próprio faroeste, que os latrocínios não se ligam na gentrificação dos bairros, pois são onipresentes, que as balas perdidas sempre atingem as meninas de 12 anos e que a Petrobras dispensa apresentação.

Para salvar o que resta do seu pensamento positivo, o otimista renitente reflete: é a sensibilidade ao mal e aos desvios da cidadania que aumentou intensamente e afinal o que sempre foi assim explode em alto e bom som exigindo a ação saneadora da lei. O nível da civilização pode estar melhorando, com a mesma pachorra da evolução biológica, e os horrores que testemunhamos talvez sejam milimetricamente menores que o estoque de terror apresentado pela história. São esses os dois chifres do dilema: é a percepção afinada que aumenta o escândalo ou é ele que se agiganta e, mais deletério do que nunca, se apronta a esmagar nossas veleidades de uma vida decente?

O deserto a que me refiro não é nas imensidades da África, nem no areal das Arábias e muito menos no simpático quadrilátero da Rua da Alfândega. É a aridez de uma difusa sensação de impotência perante o exorbitar da complexidade, diante do vulto gélido e descomunal dos números e das estatísticas, frente a uma espécie de pesadelo malthusiano transbordado da superpopulação para o exagero em todos os departamentos. O indivíduo, minimizado por implacáveis engrenagens, se protege sob o elmo cada vez mais bojudo da indiferença, estilizada de mil maneiras, mas sempre tendendo a uma aceitação do status quo: seja isso viver a própria fúria dos confrontos como assistir a eles pela televisão.

Mal saído da manjedoura, o Nazareno já estava em rota de fuga do apetite desbragado pelo poder. Os milhões que fazem a mesma coisa atualmente parecem bem mais desamparados. Não têm. Se houve algum progresso ético, carecemos de máquinas de altíssima precisão para detectá-lo. Só nos resta respirar fundo o oxigênio que ainda encontrarmos na atmosfera e suspirar por uma trégua no deserto.


Roberto Athayde é dramaturgo

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Freio de arrumação Sérgio Magalhães

O GLOBO

É tempo de recomeçarem os projetos. Está provado que ovoluntarismo governamental sem projeto, mesmo com muito dinheiro, não dá bom resultado

Quem é do tempo dos velhos bondes há de lembrar aquela freadinha de leve que desequilibrava os passageiros em pé e permitia que, ao se reposicionarem, dessem lugar a mais passageiros. Era uma tática dos motorneiros para fazer caber toda a demanda na escassez das viagens.

Foram-se os bondes na ilusão da modernidade rodoviária. Mas o freio de arrumação vez por outra é uma necessidade. É o caso do Brasil urbano.

A percepção comum é que nossas cidades estão à beira de um ataque de nervos. E sabemos que não é sem razões.

Produto da cultura, nada na cidade é por conta da natureza. Tudo nasce do desejo da sociedade (expresso pela política), e a ponte entre o desejo e sua materialidade é o projeto. A cidade precisa ser permanentemente projetada.

Contudo, no Brasil há enorme escassez de pensamento crítico sobre a cidade bem como de quadros públicos que a tratem no médio e longo prazos. Acostumamo-nos com a emergência, imposta por duas explosões: a demográfica, que traçava suas próprias soluções urbanísticas, e a inflacionária, que desmoralizava o tempo do pensar.

Mas o país hoje é outro. O crescimento demográfico estancou; a inflação foi superada. Com população de mais de duzentos milhões de brasileiros, onde cada cidade é um universo complexo, não cabe mais o improviso. Seu grande passivo socioambiental a vencer exige estudo, planejamento e cuidado. Sobretudo, ante a crescente desigualdade social intraurbana, a universalização dos serviços públicos é uma agenda premente ainda sem projeto.

Nessa agenda premente, a governabilidade é crucial.

Por exemplo, nas grandes cidades, há duas escalas espaciais desprovidas de atenção (de governo): a metropolitana e a distrital. As instituições existentes não dão conta dessas duas realidades.

Com a recente aprovação pelo Congresso, a lei (ainda não sancionada) do Estatuto da Metrópole será útil para a primeira escala. A articulação político-administrativa entre municípios que compõem uma cidade metropolitana pode dar os primeiros passos. Felizmente, o Rio de Janeiro parece buscar esse caminho.

Na outra ponta, falta protagonismo à escala local. Em grandes municípios, tais como Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, com milhões de habitantes, a centralização de poder leva a uma exagerada assimetria entre bairros e regiões na prestação de serviços e nos investimentos públicos, exacerbando a desigualdade social intraurbana. Não sendo o caso de desmembramento municipal, é hora de institucionalizar algum protagonismo político-administrativo nessa escala, com projetos, metas e indicadores específicos, bem como com clara territorialização dos recursos públicos. Quem sabe seja útil um "Estatuto do Bairro"? Ou do Distrito?

O ano de 2015 é anunciado com perspectivas sombrias quanto aos recursos públicos. Haverá pouco dinheiro para investir. É o momento para os governos, nos três níveis, refazerem (ou iniciarem) suas estruturas técnicas e políticas voltadas para o estudo e o planejamento das cidades. É tempo de recomeçarem os projetos. Está provado que o voluntarismo governamental sem projeto, mesmo com muito dinheiro, não dá bom resultado. O petrolão é exemplar. Obras sem projeto definido servem a cartéis e ao superfaturamento. Empreiteiras não são boas projetistas...

Ano novo, vida nova. Novos governantes. Novo ministro das Cidades (oxalá busque recuperar os objetivos da pasta). No Brasil urbano, um freio de arrumação é necessário — e talvez não seja uma freiadinha de leve.

A todos nós, bom ano de 2015.

PS. Por falar nisso, quando os bondinhos de Santa Teresa entrarão nos trilhos?

Sérgio Magalhães é arquiteto

smc@centroin.com.br

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RICARDO FALCÃO Temporada de poluição

O GLOBO

Numa típica viagem de uma semana, um navio de turismo de grande porte é capaz de gerar 795 mil litros de esgoto

Iniciada a temporada de verão, dezenas de navios turísticos visitam a costa do país, estimulando uma pergunta: até quando as autoridades responsáveis pela fiscalização do meio ambiente e da saúde pública vão fazer vistas grossas aos impactos ambientais causados por eles? Qual o volume de esgoto que esses navios deixarão em nossas costas e nos estuários dos grandes rios? Ninguém dispõe no Brasil de estatísticas que demonstrem a sujeira que essas embarcações deixam para trás. Foi relatado que, durante a madrugada, dejetos e lixo sólido foram atirados ao mar, mas nenhuma autoridade contabilizou ou verificou esses relatos, seja por descaso ou por incapacidade de fiscalizar.

Tal como uma cidade flutuante, durante uma típica viagem de uma semana, um navio de turismo de grande porte (com três mil passageiros e tripulantes) é capaz de gerar 795 mil litros de esgoto e cerca de três milhões e oitocentos mil litros de gray water (água residual de pias, chuveiros e lavanderias), de acordo com o Bureau of Transportation Statistics, do Departamento de Transporte dos EUA.

O lixo sólido assim como a black water, que é o esgoto e água residual de sanitários e instalações médicas, podem conter bactérias nocivas, patógenos, vírus, parasitas intestinais e nutrientes nocivos, que, ao arrepio das leis internacionais, também são lançados nas águas brasileiras. Estes resíduos, quando não tratados, podem causar contaminação bacteriana e viral em áreas pesqueiras e viveiros de frutos do mar, ocasionando riscos potenciais à saúde pública.

Navios que em águas internacionais são multados em centenas de milhares de dólares, aqui no Brasil trafegam sem nunca terem sido admoestados.

O mais grave acontece na Amazônia brasileira. As águas barrentas escondem os dejetos que são despejados ao longo das 800 milhas náuticas (cerca de 1.500 quilômetros), que levam os navios até Manaus. As populações ribeirinhas que vivem do rio estão expostas a doenças silenciosas que, mais tarde, terão grande impacto nas estatísticas da saúde pública no país. Esse problema que se agrava em tempos de ebola e do risco de sua introdução do Brasil, além da mortandade da fauna, especialmente de peixes, que compõem a dieta básica dessas populações.

Para quem está se perguntando sobre o impacto dos navios cargueiros no meio ambiente, a resposta é simples: estes, por terem número reduzido de pessoas a bordo, causam menos danos ao meio ambiente e têm recipientes próprios para esgotamento.

É preciso com urgência votar no Congresso Nacional leis modernas para fazer frente ao aumento exponencial do tamanho dos navios, que a cada dia trazem um maior contingente de turistas e, junto com eles, maior volume de esgoto, rejeitos sólidos e, potencialmente, danos ambientais e à saúde pública.

Ricardo Falcão é presidente do Conselho Nacional de Praticagem

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Zuenir Ventura ra vaca não ir pro brejo


O Globo

Por meio de artifícios semânticos no discurso de posse, a presidente procurou disfarçar as dificuldades que vai enfrentar no segundo mandato

Já que foi a própria presidente que escolheu a imagem — talvez por identificação com o universo rural de sua afilhada de casamento Kátia Abreu — vamos continuar com ela. Como se recorda, a candidata Dilma assegurou que não mexeria nos direitos trabalhistas e, para não deixar dúvida, repetiu uma expressão popular que acabou invadindo de forma viral as redes sociais — "nem que a vaca tussa" — e com a hastag #em direito meu ninguém mexe. Um sucesso, pelo menos até depois das eleições, quando um dos primeiros anúncios de controle de gastos para garantir o ajuste fiscal foi justamente restringir benefícios dos trabalhadores tais como seguro-desemprego e abono salarial. A presidente teria resistido muito a essas medidas, mas não houve jeito. São tempos de vacas magras, poderá ter-lhe dito a equipe econômica, quem sabe. Ou, então, o mar não está pra peixe, como afirmaria o jovem ministro da Pesca, Helder Barbalho, um dos sapos que ela teve que engolir — sapo ou rã?

Por meio de artifícios semânticos no discurso de posse, a presidente procurou disfarçar as dificuldades que vai enfrentar no segundo mandato. Em vez de detalhar o que pretende fazer para tentar a retomada do desenvolvimento econômico, por exemplo, repetiu a defesa da Petrobras, não para uma autocrítica de seu governo, mas para exaltar o seu combate à corrupção, atribuindo os escandalosos desvios praticados na estatal a "alguns servidores" e a "predadores internos e inimigos externos". É como se a Dilma de agora não fosse uma herança da Dilma dos últimos quatro anos, ou seja, como se Dilma não tivesse nada a ver com os problemas que Dilma criou.

"Mais do que ninguém, sei que o Brasil precisa voltar a crescer", disse ainda a presidente reeleita. "Os primeiros passos desta caminhada passam por um ajuste das contas públicas, aumento na poupança interna, ampliação de investimento e elevação da produtividade da economia." Da mesma maneira que prometera manter todos os direitos trabalhistas e previdenciários, ela garante que fará a correção e os acertos "com o menor sacrifício possível para a população, em especial os mais necessitados".

A presidente Dilma, como se viu, não conseguiu evitar que a vaca tossisse. Agora, terá que impedir que ela vá pro brejo.

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José Paulo Kupfer Benefícios distorcidos

http://oglobo.globo.com/opiniao/beneficios-distorcidos-14937968

O GLOBO

A meritória intenção de amparar o trabalhador desandou em estímulos não só a distorções trabalhistas e previdenciárias, mas também a fraudes

O endurecimento das regras para a concessão de alguns benefícios trabalhistas e previdenciários foi recebido com as reações esperadas. Faz parte do jogo político que as oposições se oponham ao que propõe o governo do turno, ainda que as medidas oficiais se apropriem de propostas oposicionistas e os telhados, dos dois lados, sejam de vidro. Supondo correta a definição, o que não é tão simples assim de definir, "estelionato eleitoral" — a acusação da oposição às primeiras medidas de restrição a benefícios sociais do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff — é o que não falta à prática dos que se elegem no Brasil desde pelo menos a redemocratização.

Não é que o debate, nesses termos políticos, seja desimportante ou meramente oportunista. Ele pode ter a capacidade de constranger o governo e, assim, contribuir para evitar a adoção de medidas, no caso extremo, predatórias de direitos anteriormente estabelecidos. As barreiras oposicionistas podem operar como uma garantia institucional e civilizatória, levando a soluções de compromisso, mais moderadas e responsáveis. O risco é que a necessária limitação do poder incumbente se transforme em tentativa de bloqueio da adoção de regras mais modernas e socialmente mais justas de acesso a benefícios.

As alterações finalmente agora propostas, que visam a dificultar novas concessões do seguro-desemprego, da pensão por morte e do auxílio-doença, atingem um grupo de benefícios que já deveria ter sido modificado há muito tempo. A meritória intenção de amparar o trabalhador desandou em estímulos não só a distorções trabalhistas e previdenciárias, mas também a fraudes. Não se trata, portanto, de restringir direitos — até porque as regras passam a valer só para os futuros habilitados —, mas de garantir os benefícios aos que efetivamente necessitam do amparo.

Seguro-desemprego e pensão por morte são ícones da complacência brasileira nas regras de concessão, com repercussões não só econômicas e sociais, mas inclusive morais. A regra atual da pensão por morte — basta que o cidadão contribua com uma única parcela para que seu viúvo ou viúva, sem exigência de tempo mínimo para a união, qualquer que seja a idade do beneficiário, mesmo jovem e sem filhos menores, adquira o direito a uma pensão vitalícia no teto do benefício — é um exemplo eloquente. Para o seguro-desemprego, basta ter trabalhado por seis meses para se habilitar, sem outras carências e limites de acesso, ao benefício de até dois salários mínimos por no mínimo quatro meses.

No caso da pensão por morte, a regra vigente configura um exagero incompatível com o sistema de repartição da Previdência — na teoria, todos contribuem para a formação de um fundo, distribuído a partir de critérios que levam em conta o tempo e o nível de contribuição individual. Quanto ao seguro-desemprego, a facilidade de se candidatar ao benefício, assegurado pelas contribuições das empresas ao PIS-Pasep, acumuladas no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), intensifica ainda mais a já excessivamente alta rotatividade no trabalho, parte relevante do conjunto de obstáculos à qualificação da mão de obra. Como estão estruturados, ambos estimulam esquemas fraudulentos e aspiram em conjunto recursos públicos anuais da ordem de R$ 100 bilhões, equivalentes a 2% do PIB.

Corrigir esse tipo de distorção é, sem dúvida, uma necessidade premente, que a sociedade tem hesitado em enfrentar. Mas isso não deve se confundir com políticas estritamente fiscais, que deleguem a proteção social da população aos baixos dos viadutos e aos bancos das praças e jardins.

José Paulo Kupfer é jornalista

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A paranoia como método NELSON MOTTA

http://oglobo.globo.com/opiniao/a-paranoia-como-metodo-14937891

O GLOBO
Era duro criar duas filhas adolescentes numa cidade falida, tomada pelo tráfico e a bandidagem e aterrorizada por assaltos e sequestros

Quem já desfrutou do prazer de passear despreocupado por onde quiser, com quem quiser, na hora que quiser, como em Tóquio, Lisboa, ou até a vizinha Montevidéu, sabe do que falo. As gerações de cariocas que andam olhando para os lados, esperando um assalto, uma bala perdida ou um achaque policial talvez nem consigam imaginar como é bom viver essa situação numa cidade tão linda. Mas, acreditem, entre os anos 50 e 60, o Rio foi assim. Não é nostalgia, é história.

No inicio dos anos 80, com uma baita crise econômica e a ditadura já caindo de podre, era duro criar duas filhas adolescentes numa cidade falida, tomada pelo tráfico e a bandidagem e aterrorizada por assaltos e sequestros. Eu vivia numa paranoia permanente, num tempo de comunicações precárias, quando qualquer atraso na volta da praia, da escola ou de uma festa já me deixava roendo as unhas e rezando. Me queixei ao analista:

— Não aguento mais. Estou ficando paranoico.

Ele sorriu, lacanianamente, e me tranquilizou. Ou apavorou mais:

— Numa cidade assim, a paranoia é o método.

Dez anos depois, já morando em Nova York com outra filha adolescente, apesar da segurança da cidade em plena tolerância zero da administração Giuliani e com o celular para me avisar de algum atraso ou mudança de planos, continuei paranoico.

Uma madrugada acordei assustado, ela ainda não tinha chegado nem avisado. Celular desligado. Dia quase nascendo. Pânico em Nova York. Quando já pensava em ligar para o 911 da polícia, ela apareceu. A bateria do celular tinha acabado.

Vendo meu estado deplorável, ela ficou com muita pena e tentou entender a minha aflição.

— Mas pai… Por que você fica assim? O que você acha que podia ter acontecido ?

—Ah, tudo… Um maluco que te joga na frente do trem do metrô… uma gangue selvagem que te encurrala num beco do Soho …

Ela riu com carinho.

— Ah, pai, vai escrever ficção! Good night.

Depois daquela noite me tornei ficcionista, escrevi três romances usando minha paranoia para divertir o leitor e para me livrar dela.

Agora só sou paranoico com meus netos.

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quinta-feira, janeiro 01, 2015

Carlos Alberto Sardenberg - Um desastre de Lula/Dilma O Globo

Democracia Política e novo Reformismo: Carlos Alberto Sardenberg - Um desastre de Lula/Dilma

Carlos Alberto Sardenberg - Um desastre de Lula/Dilma
O Globo

• Perdeu-se um momento de preço alto do óleo, que atrairia investimentos, nacionais e estrangeiros, ávidos pelos novos campos


- O Globo


O preço do petróleo tem ciclos e pelo menos parte da história funciona assim. O mundo entra em um período de crescimento — e aí falta o combustível, cuja produção estava ajustada à demanda anterior, de baixa expansão econômica. Sobe o preço do petróleo e isso viabiliza mais investimentos na exploração e produção de óleo, especialmente quando se supõe que o crescimento global é duradouro. E as pessoas têm uma tendência irresistível de achar que agora vai, e vai por muito tempo. Daí, podem acontecer duas coisas: o ciclo de expansão é longo ou curto. Neste último caso, o preço do petróleo cai e volta logo ao patamar anterior, pois a oferta fica maior que a demanda, diminuída com a redução do crescimento do PIB mundial.


Procurar, explorar e produzir petróleo novo não é atividade trivial. Requer muita tecnologia e investimentos pesados. Se o ciclo de expansão global for muito curto, às vezes nem dá tempo de se iniciar a busca. Investimentos são paralisados ainda na fase de planejamento.


Mas se o período de crescimento for longo o suficiente, os novos investimentos vão a campo, viabilizados pela contínua alta da demanda. Foi o que aconteceu nos anos 90 e no início deste século 21, até a grande crise de 2008/09. O consumo mundial de óleo subiu o tempo todo e chegou aos 93 milhões de barris/dia.


Preços foram para a lua e viabilizaram mesmo a produção do petróleo caro — e caro, nesta história, é sempre em relação à mixaria que se gasta na Arábia Saudita para tirar um barril de óleo bom: menos de US$ 5. Para comparar: nosso petróleo mais barato, o da Bacia de Campos, sai por algo como US$ 15 o barril.


Já o óleo novo, do pré-sal, varia de US$ 30 a US$ 70. No seu programa de investimentos até 2018, a Petrobras fez todas as contas considerando o barril a US$ 100 na média do período.


Pois o preço está abaixo dos US$ 60.


Ficando assim, inviabiliza alguns campos e reduz as margens de lucro de todos os outros. Quer dizer, o investimento fica proporcionalmente mais caro.


Quando se olha para a economia mundial, o que se vê hoje? Entre os desenvolvidos, só os EUA vão bem. A recuperação ainda é moderada, diz o Federal Reserve, Fed, o banco central deles. Mas é muito melhor do que ocorre no Japão e na Europa, onde só a Inglaterra tem dados animadores.


A China, motor emergente, está em clara desaceleração. Em consequência, o resto do mundo necessariamente cresce menos. E não dá alimento para novas altas do petróleo.


Para alguns economistas, o capitalismo já era, de modo que, no máximo, teremos ciclos muito curtos de crescimento modesto. O que vem depois? Não dizem. Não sabem.


Mas se aceitarmos que o capitalismo é o melhor sistema que a humanidade conseguiu criar, a melhor ideia disponível, então certamente teremos novos longos ciclos de crescimento.


Portanto, para os países que têm boas reservas de petróleo, é só ter calma, moderar os investimentos atuais (fatal), mas ficar preparado para um novo ciclo de crescimento global. Certo?


Mais ou menos. É verdade que o óleo negro é a mais eficiente fonte de energia jamais descoberta.


Mas é poluente. Isso não era importante quando se iniciou a era do petróleo, mas agora, obviamente, é.


Além disso, acontece que boa parte da humanidade, a maior parte, está farta dessa dependência do petróleo. Primeiro, porque dá excessivo poder político aos donos do óleo. Segundo, porque transfere muita riqueza a esses donos. Depois, porque picos e vales dos preços desarrumam a economia global, ora gerando inflação, ora deflação.


Resultado, está todo mundo procurando e desenvolvendo outras fontes de energia que, a cada dia, tornam-se mais viáveis, econômica e tecnicamente. Aqui cabem desde as novas formas de se obter óleo e gás, como a extração do xisto, até as outras fontes, etanol, palha de cana, vento, sol, e um mundo de alternativas nas quais trabalham centros de tecnologia pelo mundo afora.


Tudo considerado, fica evidente que o Brasil, nos governos Lula e Dilma, perdeu uma imensa oportunidade. Cinco anos sem leilão para a exploração de novas áreas, enquanto se discutia e se tentava aprovar a nova forma de dividir o dinheiro do óleo, deixaram um enorme prejuízo. Perdeu-se um momento de preço alto, que certamente atrairia investimentos, nacionais e estrangeiros, ávidos pelos novos campos.


Quando se juntam a cobiça e a miopia política, histórica e econômica, o resultado só pode ser um imenso desastre. Lula e Dilma anunciaram a autossuficiência em petróleo e a devolução da Petrobras ao povo brasileiro, para terminar importando combustível caro e jogando a Petrobras no mar da corrupção e do atraso. Sem contar a quase destruição do etanol. Pode haver desastre maior que esse?


Não ouviram o sábio ensinamento do xeque Yamani, inventor da Opep: a Idade da Pedra não terminou por falta de pedra.


Carlos Alberto Sardenberg é jornalista



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