Entrevista:O Estado inteligente

domingo, agosto 01, 2010

Delfim Netto Entrevista

O Estado de S Paulo
''O Brasil está levando o déficit em conta corrente na flauta''

O economista critica o real forte, afirma que o Congresso teve um 'ataque de loucura' para destruir as finanças do País e alerta para a compra de terras por chineses

Raquel Landim - O Estado de S.Paulo

Antônio Delfim Netto, 82 anos, é um dos economistas mais ouvidos pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele está preocupado com o déficit em conta corrente e culpa o câmbio forte. "O Brasil está levando isso na flauta", diz. Na semana passada, o Banco Central anunciou que as transações do País com o exterior ficaram negativas em US$ 23,8 bilhões no primeiro semestre - valor próximo ao registrado em todo o ano anterior.

Para o "czar" da economia na ditadura militar, época do "milagre econômico", o governo é "ineficiente, gastador, e está apropriado por uma burocracia sindical que vive nas suas tetas". Para resolver o problema, defende que as despesas de custeio da máquina pública cresçam abaixo do Produto Interno Bruto (PIB) por 10 anos.

O economista apoia o papel indutor do BNDES, mas afirma ser evidente que houve um subsídio do Tesouro nos empréstimos ao banco, que precisa ser colocado no orçamento. Delfim não acredita que todos os investimentos previstos em infraestrutura, Copa e Olimpíada vão sair do papel. "É uma conta que não cabe dentro do PIB". A seguir, trechos da entrevista ao Estado.

Quais são os principais desafios da economia no próximo governo?

O Brasil está hoje em uma situação muito melhor que no passado recente. Por que a partir de 2003 a coisa mudou? Porque o mundo entrou em expansão. O Brasil ligou seu plugue ao mundo e, de repente, um país que tinha problemas permanentes de financiamento de contas correntes se transformou em credor do FMI. A expansão brasileira não tem nada de especial. E isso medimos pela proporção da exportação em relação ao mundo, que continua perto de 1%. O Brasil nunca fez esforço exportador e continua com uma política cambial devastadora. O País sempre teve dois problemas que abortavam o crescimento: energia e déficit em contas correntes. A oferta de energia está crescendo 4,5% a 5% ao ano, suficiente para uma nação que precisa crescer entre 5% e 6% ao ano. Já o déficit em conta corrente está se restabelecendo e nós estamos levando isso na flauta. Estamos brincando, fingindo que não tem importância. Tem, sim. A história mostra que déficit em conta corrente produz surpresas. Hoje temos US$ 250 bilhões de reservas. Mas isso é muito relativo. Uma boa parte desaparece em pouco tempo se as condições se desintegram.

Por que o senhor está preocupado com o déficit em conta corrente?

Estamos fazendo um déficit gigantesco, com enormes prejuízos para a sofisticação do nosso processo industrial. Nós temos, hoje, 10 ou 15 exemplos concretos de empresas brasileiras e estrangeiras que têm indústria no Brasil e na China. Dentro da fábrica, a produtividade brasileira é igual à produtividade chinesa e a qualidade é um pouco melhor. Portanto, a competição com a China não tem nada a ver com setor privado. Tem a ver com o governo, que é ineficiente, gastador, não dá suporte adequado, não produz a infraestrutura. Nós temos um problema de burocracia gigantesco, mas ninguém vai resolver fazendo revolução. São medidas na margem, todos os dias. O Brasil está apropriado por uma burocracia sindical que vive nas tetas do governo. Esse déficit em conta corrente, seguramente, é em boa parte por causa do câmbio de R$ 1,78. Não vamos ter ilusão. Taxa de câmbio competitiva é fundamental para o crescimento econômico.

O senhor é favorável à intervenção no câmbio?

A valorização do câmbio é produzida por uma política monetária que mantém a taxa de juro real interna muito superior à externa. Os juros estão fora do lugar, o que põe o câmbio fora do lugar. O importante neste caso é que você tem de escolher. O BC tem de ser autônomo operacionalmente, mas independência é uma tolice. É bom trabalhar com o sistema de metas da inflação? É. Mas como o BC obtém credibilidade? Aumentando a taxa de juros real de equilíbrio e reduzindo o PIB potencial, para conseguir a meta de inflação. É por isso que o papel do BC é discutível. Você tem que discutir os parâmetros que ele usa.

Está na hora de o BC interromper a alta dos juros?

Está visível que a inflação era um surto. O pior é que o BC vai achar que foi ele que reduziu a inflação. Não foi. Ele levou um susto com a inflação caindo antes do que esperava e reduziu o aumento de juros. O sistema financeiro adquiriu um tal poder que quem produz parafuso não vale nada. Quem vale é quem tem um papel no computador. O grande drama é que levamos longe demais essa distorção cambial. O País não está sofrendo da doença holandesa. Hoje vendemos mais geladeira que antes, logo não há desindustrialização. Só que quando você olha para dentro da geladeira, o valor adicionado nacional era 80%, hoje é 30%.

O senhor disse que o governo é gastador. O Brasil precisa de ajuste fiscal?

Não precisa de revolução nem de choque de gestão. Tudo isso é conversa mole para boi dormir. O governo precisa de um programa de 10 anos em que as despesas de custeio e transferência cresçam menos que o PIB, conduzindo a diferença para o investimento. O Estado está apropriado pelo funcionalismo. A Previdência é um problema que vai ter de ser enfrentado, não só pelo aspecto financeiro mas também pela justiça. Você extrai do trabalhador para entregar ao funcionário. Basta ver o ataque ao Tesouro feito nas últimas semanas. Deu um ataque de loucura no Congresso e houve um conluio entre o Legislativo e o Judiciário para destruir as finanças do País. E isso tudo feito com alegria, samba, foguete dentro de um Congresso absolutamente irresponsável.

Um dos pontos de restrição ao crescimento é a baixa taxa de poupança. Como resolver isso?

Um dos parâmetros usados é que você precisa de 25% de investimento para produzir 5% a 6% de crescimento. Primeiro, esse parâmetro não é estável. Segundo, depende da qualidade dos investimentos. A poupança vem depois do investimento. No caso brasileiro, isso é visível. É claro que no curto prazo tem uma pressão inflacionária. É isso mesmo. Para isso temos controles. Mas também é claro que isso é um fator preocupante. Quanto maior for a taxa de poupança, melhor. Quem destruiu isso foi o setor público. Hoje a carga tributária é 35% e o governo investe 1%. O setor privado poupa: representa pouco mais de 60% do PIB e poupa 15%. Quem não poupa é o governo.

Como o senhor avalia a atuação do BNDES no governo Lula?

Passamos por momento de dificuldade e o BNDES agiu corretamente. Podemos discutir um ou outro investimento do banco, que não faz sentido, mas é uma questão menor. Vamos supor que o BNDES não tivesse agido: o PIB cairia 3% e a arrecadação também. O BNDES é um mecanismo de financiamento importante, mas o Brasil precisa de outros. Imaginar que o BNDES pode escolher os melhores investimentos sem nenhum viés é um equívoco. Agora, negar o papel do banco é ridículo. A única coisa justa é: houve sim um subsídio, que tem de ser apurado e colocado no orçamento. Evidentemente o Tesouro não deve continuar fazendo aportes do BNDES. Isso foi um incidente.

Sem reforço do Tesouro no caixa do BNDES, como o Brasil vai financiar a usina de Belo Monte, as obras do PAC, os estádios da Copa do Mundo?

Você tem aí uma soma de investimentos que eu não estou convencido que caiba no PIB. São maiores que o Brasil. É verdade que isso é feito ao longo do tempo, que depende do ritmo de crescimento do País e dos mecanismos de financiamento. Mas você não vai ter todos esses investimentos sem financiamento privado. Quem faz investimento é o setor privado. O governo, o melhor que faz é discurso. Provavelmente não vamos realizar todos esses investimentos: vamos fazer o pedaço de um, vai faltar a perna do outro. E provavelmente a maioria deles não vai ter nenhuma taxa de retorno.

Qual deve ser o papel de um economista hoje?

Alguns economistas não têm o mínimo de humildade. O nosso papel - Adam Smith (o mais importante teórico do liberalismo econômico) já dizia - é quem sabe ajudar o governo a fazer uma sociedade que cresça robustamente e seja mais justa. Mas não determinar o que a sociedade quer. Isso quem determina é a urna. Cada vez que você exagera no economicismo, a urna vem e tem põe fora. Cada vez que você exagera no populismo, a urna vem e te põe fora. É por isso que os países progridem. Ou você acha que o Chávez (o presidente da Venezuela) vai continuar errando a vida inteira? Ou ele vai para um poste ou vai pedir asilo em Cuba. O capitalismo é um processo. É por isso que sai dessa crise um novo capitalismo. O homem precisa disso e tem novas exigências. Resolveu entender agora, por exemplo, que abusou da natureza. Nos anos 70 ninguém pensava nisso. Pelo contrário. Eu lutava para importar poluição. Queriam acabar com a indústria de aço na Europa. Nós dizíamos: podem vir para o Brasil. Não acredito que a China possa continuar com essa expansão. Por uma razão simples. Para continuar a expansão, precisa importar outra terra. Os chineses compraram a África e estão tentando comprar o Brasil. Isso é uma grave miopia do governo brasileiro - permitir que um Estado soberano compre terras, minérios, recursos naturais em outro Estado soberano. Essas empresas chinesas são o próprio Estado chinês.

O senhor acha que o Brasil está a caminho de se transformar em um país desenvolvido?

O Brasil está caminhando e tem tudo para crescer 5% a 6% ao ano. Nós não temos competência para impedir esse crescimento. É claro que muitas coisas precisam ser feitas, como eliminar a burocracia. É óbvio que quem tem que ser consertado é o governo. Mas é uma idiotice dizer que precisa de governo fraco. Sem um Estado indutor, não há crescimento. Com um mínimo de inteligência, o Brasil é seguramente um país que já tem os recursos para, em 2030, ter um nível de vida equivalente ao da Europa Ocidental de hoje.

Conflito sem mediadores-Ruy Fabiano

Blog Noblat

Conflito sem mediadores

 O Brasil, como era previsível, assumiu seu papel protagonista no conflito Colômbia-Venezuela. Não como mediador, como queria Lula, mas como parte, o que o desqualifica para ação arbitral a que se propôs. Arbitragem pressupõe neutralidade, isenção.

O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, não crê que Lula a tenha. Considerou "deploráveis" os comentários que fez sobre a crise. Em breve comunicado, disse que Lula ignora a ameaça representada pela "presença de terroristas" em território venezuelano.

"O presidente da República deplora que Lula, com quem cultivou as melhores relações, se refira à nossa situação com a Venezuela como se fosse um caso de assuntos pessoais, ignorando a ameaça que representa para a Colômbia e o continente a presença dos terroristas das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) nesse país", diz a nota oficial, emitida quinta-feira.

O ponto é este: as Farc não são um movimento social ou político, mas uma organização criminosa, que trafica drogas – inclusive para o Brasil -, rouba gado, mata, sequestra e mantém campos de concentração na selva, com mais de dois mil prisioneiros, aos quais dispensa tratamento desumano.

Nesses termos, não há diálogo possível. Seria o mesmo que sugerir ao governo brasileiro que, em vez de combater o crime organizado no país, buscasse diálogo com o Comando Vermelho e o PCC. Tanto as Farc têm essa qualificação abjeta que ninguém quer assumir que tem ou teve relações com elas, nem o PT, nem Chávez.

O PT, acusado pela campanha de José Serra de tê-las, entrou na Justiça para reclamar retratação. E está processando a revista Veja por reportagens em que sustenta, com dados objetivos, aquele relacionamento. Na Justiça, o partido terá oportunidade de refutá-los. Não será fácil, considerando-se os indícios.

Lula afirmou há dias que jamais teve relações com as Farc, embora as tenha convidado a integrar o Foro de São Paulo, entidade que, como presidente do PT, fundou em 1990, ao lado de Fidel Castro. As Farc participaram do Foro até 2002, quando sequestraram a senadora Ingrid Bettencourt, então candidata a presidente da Colômbia. Continuaram, porém, a participar como ouvintes de suas reuniões, inclusive a última, em 2008, em Montevidéu.

Em uma das atas do Foro, ainda presidido por Lula, referente às reuniões dos dias 4 a 7 de dezembro de 2001, em Havana, consta a decisão de "apoiar e encorajar os processos de diálogo desenvolvidos pelas Farc - Exército do Povo – e o ELN, em busca de soluções diferentes à guerra para a grave crise colombiana e o conflito social, político e armado, ficando à disposição, na medida de nossas possibilidades e das necessidades dos processos".

A ata, disponível na internet, intitula-se "Resolução de condenação ao Plano Colômbia e apoio ao povo colombiano". E acusa "o terrorismo de Estado que segue assassinando a população paralisada pela ação de seus grupos paramilitares". Considera a crise colombiana "produto das políticas desenvolvidas pelo Estado e seus diferentes governos".

Ou seja, as Farc seriam um grupo político legítimo, vítima de políticas de Estado, cujos "processos de diálogo" devem ser apoiados e encorajados. Os "processos de diálogos" das Farc podem ser conhecidos nos relatos da ex-senadora Bettencourt.

Já como presidente da República, Lula, em 2008, sugeriu que as Farc se transformassem em partido político e disputassem eleições. Em ambas as situações, ignorou o caráter criminoso da ação da guerrilha. Em 1999, Marco Aurélio Garcia, hoje assessor especial de Lula, procurou, em nome do PT, o então chanceler Luiz Felipe Lampreia para oferecer-se como mediador do governo brasileiro junto às Farc. A oferta foi recusada.

O presente conflito entre Venezuela e Colômbia, com rompimento de relações diplomáticas, tem as Farc como tema. O presidente da Colômbia acusa Hugo Chávez de acolhê-las no território venezuelano e dar-lhes apoio logístico e armamentos. Encaminhou farta documentação comprobatória à OEA.

Parte substantiva dessa documentação, incluindo vídeos, está na internet. Como resposta, Chávez rompeu relações. No início do ano, o governo da Suécia pediu esclarecimentos ao governo da Venezuela pelo desvio de armamentos que vendeu àquele país, encontrado com os guerrilheiros das Farc.

A venda tinha cláusula de exclusividade de uso pelas forças armadas venezuelanas. Chávez, mais uma vez, apenas negou, sem esclarecer objetivamente a reclamação. E por aí vai. Os fatos não combinam com as manifestações de repúdio e o governo brasileiro envolveu-se nesse novelo de contradições.

 

Ruy Fabiano é jornalista


ENTREVISTA Fernando Henrique Cardoso 'No poder, o PT virou social-democrata'

O GLOBO
Em livro, o ex-presidente FH diz que a diferença ideológica entre petistas e tucanos é 'pequena e simbólica'
ENTREVISTA Fernando Henrique Cardoso

Em seu novo livro “Xadrez Internacional e Social-Democracia”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso discorre sobre as transformações mundiais das últimas décadas para destacar como os programas de bem-estar social típicos da social-democracia foram aplicados por governos de todas as orientações políticas. Quando a discussão chega ao Brasil, ele busca derrubar uma tese petista: a de que o governo Lula é “do povo” e o governo FH foi “neoliberal”. Chama o PT e o presidente Lula de “social-democratas à moda latino-americana”.

As críticas de FH não poupam o candidato de seu partido, José Serra. Para ele, a campanha presidencial foi sequestrada pelos marqueteiros, os discursos dos principais candidatos se uniformizaram e não há debate intelectual sobre o Brasil do futuro: “São só imagens, imagens, e não se acha nada. Não tem política”.

Gilberto Scofield Jr.

O GLOBO: Qual é, afinal, o papel da social-democracia no xadrez internacional?

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO: O bem-estar do continente e do mundo em parte se deve às políticas social-democratas, que acabaram sendo absorvidas como políticas de Estado. Não é tanto o Estado produtor, mas o socialmente provedor, que ainda tem um efeito enorme em toda a Europa Ocidental.

E aqui?
FERNANDO HENRIQUE:
Nenhum partido aqui, durante esta campanha eleitoral, fala em social-democracia. Nem o PSDB, cujo nome leva a socialdemocracia.

E muito menos o PT, que tem horror, ou pelo menos tinha, historicamente. Hoje, o partido pratica a social-democracia, mas ele tinha horror ideológico, porque achava que não era revolucionário.

As políticas atuais de transferência de renda não são políticas da esquerda típica?
FERNANDO HENRIQUE: O mais curioso é que essas políticas, essas bolsas todas, foram desenhadas pelo Banco Mundial.

Não são políticas que vêm da esquerda. Mesmo as teorias do Suplicy de renda mínima sempre foram apoiadas pelos economistas mais liberais.

Aqui, ninguém nem fala se é liberal ou não, mas o fato é que 15 países da América Latina aplicam essas políticas. O ideal não é prorrogá-las ad infinitum.

É você criar emprego, educação e saúde. Não se pode deixar de lado as universais políticas europeias de bem-estar. Então, tem que se ter uma combinação entre políticas universais e políticas específicas. Está acontecendo isso no Brasil. Atabalhoadamente, mas está acontecendo.

E o resultado é positivo.

Mas a utilização desses programas ocorre hoje independentemente da natureza política dos governos.

FERNANDO HENRIQUE: Isso é o mais interessante. Essas políticas de inspiração socialdemocrata passaram a ser patrimônio (dos governos).

Em seu livro, o senhor diz: "Nas correntes de esquerda latinoamericanas, a questão democrática sempre foi minimizada pelo desafio maior do crescimento econômico e, sobretudo, pelo da redução das desigualdades". A julgar pelo que acontece na Venezuela e, em menor escala, na Bolívia e no Equador — e até mesmo na Argentina — essa concepção ainda persiste, certo?
FERNANDO HENRIQUE: O PT e o Lula eram um pouco assim.

No passado, a questão fundamental para eles era o trabalho. Depois, com o tempo, eles evoluíram. Hoje, são social-democratas à moda latinoamericana. Todos nós somos, e a diferença ideológica é pequena e simbólica. O que ocorre na Venezuela e na Argentina são escorregões democráticos fenomenais. Mas isso eu não chamo de socialdemocracia, porque a socialdemocracia aceitou o mercado com limite, a democracia como valor e a necessidade imperativa de políticas sociais para melhorar a qualidade de vida da população.

E o que a América do Sul vive hoje, afinal?
FERNANDO HENRIQUE: Esses regimes são uma espécie de recaída num estatismo com certo autoritarismo. Acreditam na supressão do movimento da sociedade como motor.

E na crença de que o Estado ou o partido são o motor, minimizam o mercado, minimizam a democracia e fortalecem o Estado, numa espécie de capitalismo burocrático. É curioso que nenhum deles propõe realmente o socialismo.

Ninguém propõe o controle social dos meios de produção e nem mesmo se fala em classe operária.

Mas, em alguns países, há uma tentativa de controle do Estado sobre os meios de comunicação.

FERNANDO HENRIQUE: É verdade, mas note que é pelo Estado, não é pela sociedade.

No livro, o senhor afirma: "Com o tempo, mantidas as regras do jogo, haverá uma distinção cada vez maior entre as democracias capazes de oferecer resultados concretos à população, as democracias formais tradicionais e os regimes baseados na discricionaridade dos chefes de Estado ou do partido dominante, tenham eles ou não preocupações sociais mais fortes". Onde se insere o Brasil?
FERNANDO HENRIQUE: Acho que estamos no primeiro grupo. O problema é nos mantermos ali. E que não tenhamos tendências regressivas.

Porque há surtos. Nós caímos neste primeiro grupo porque o mercado brasileiro é forte, assim como as empresas e a sociedade.

Tanto é que, uma vez no poder, o PT virou social-democrata.

Não assume que é.

No capítulo seis do livro, o senhor faz enfática defesa do Programa Nacional de Desestatização, das agências reguladoras e da profissionalização das estatais, três itens que não apenas per deram impor tância no governo atual, como vêm sendo ferozmente criticados pelos partidos da situação na campanha eleitoral.

FERNANDO HENRIQUE: Perderam importância.
As agências reguladoras acabaram.
E o que está acontecendo na área financeira governamental, advindo disso, é uma coisa complicada. Como você quer financiar o pré-sal, o trem-bala, (a usina de) Belo Monte, dar aumento de salário, financiar o BNDES com o Tesouro em operações subterrâneas, tudo ao mesmo tempo? Vão criar problemas no futuro.

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'Precisamos pensar as mudanças no Brasil'
O senhor comenta no livro a necessidade de o Brasil dar a virada que vai levá-lo a uma outra etapa de desenvolvimento.

Qual a mensagem?
FERNANDO HENRIQUE: Vamos trocar os recursos do présal por neurônios. Vamos educar, porque, se não tivermos gente com capacidade criativa, não temos como competir no mundo do futuro. Acho que temos chance, mas a virada vai depender menos do motor da economia, que já temos, e muito mais de coisas menos perceptíveis, como segurança, jurídica e pessoal, aperfeiçoamento das instituições políticorepresentativas, melhora na governança do país, fortalecimento dos órgãos regulatórios, reforma educacional com mudança no que se ensina. Ainda falta uma compreensão mais clara do que os americanos chamam de tipping points, aqueles pontos que, mexendo ali, desencadeiam processos cumulativos. Precisamos pensar as mudanças no Brasil.

E por que não se está discutindo isso na campanha?
FERNANDO HENRIQUE: O que você tem hoje é uma espécie de camisa de força, criada pelas campanhas passadas, que é a obrigatoriedade de fazer pesquisas, saber o que as pessoas querem e repetir na campanha os pontos que o povo quer. Todo o esforço dos marqueteiros é não discutir problemas que possam dividir. E toda a discussão intelectual divide. Então, é um teatro onde as pessoas vêm devidamente maquiadas, fantasiadas, para dizer, como se fossem ventríloquos, aquilo que se acha que o povo quer ouvir. Cadê a liderança política? Com liderança, você não tem que repetir o que os outros querem. Você tem que convencer os outros da importância dos seus valores. Tenho dito isso para meu candidato, o Serra, que ele tem condição de falar na TV o que acha. Porque as pessoas não estão mais acostumadas a saber o que os outros acham. Ninguém acha nada. No fundo, todos os discursos ficam iguais. São só imagens, imagens, e não se acha nada.

Não tem política.

Cadê as esquerdas? -Celso Ming

O Estado de S Paulo

O diário madrilenho El País trouxe há 15 dias um artigo (Mercado y socialdemocracia) do professor de História Econômica Francisco Bustelo que depara com um fato desolador para as esquerdas europeias. Nem antes nem depois desta maior crise do regime capitalista desde os anos 30 foram os socialistas e os social-democratas europeus capazes de formular uma única proposta viável de solução ou de encaminhamento para o problema. As esquerdas assistiram caladas e catatônicas ao estouro das bolhas e, em seguida, à maior intervenção do Estado na economia que se teve notícia em todos os tempos.

Mais paradoxalmente ainda, o ajuste defendido pelos governos social-democratas da Europa é mais ortodoxo e mais espremedor de salários e de aposentadorias do que o ajuste colocado em marcha pelo governo dos Estados Unidos, este sim, um ajuste heterodoxo, para o qual têm sido evocadas as bênçãos intervencionistas do maior economista europeu, John Maynard Keynes.

Nenhuma força política de esquerda foi capaz de sugerir nem a estatização dos bancos nem o aumento de impostos sobre as camadas mais ricas da população, propostas inevitáveis no passado. Mas, afinal, o que seria a estatização dos bancos por países sem moeda, como é o caso da área do euro, e cuja política monetária é exercida por um organismo independente, o Banco Central Europeu (BCE)?

Não conseguem formular uma resposta factível também para o problema da imigração, hoje cada vez mais rechaçada por movimentos nacionalistas carregados de preconceito e intolerância. Assim, as forças que historicamente defenderam a união internacional dos trabalhadores, mais uma vez, sucumbem ao jogo egoísta dos interesses puramente locais.

As sugestões das esquerdas concentram-se na recomendação de que o desemprego e a prostração dos mercados se enfrentam com mais crescimento. Mas, outra vez, a posição prevalecente nos países social-democratas da Europa é a de que não há crescimento econômico consistente e duradouro sem equilíbrio das contas públicas. E esse equilíbrio, por sua vez, só pode ser obtido com mais austeridade e sacrifício dos trabalhadores. Esse ponto de vista é sustentado pelos socialistas e social-democratas de hoje.

A paralisia das esquerdas europeias parece também relacionada com a crescente percepção de que a maior criação da social-democracia, que é o Estado do bem-estar social (welfare state), está profundamente ameaçada. A colocação em marcha dos mecanismos automáticos de ajuste e de defesa contra a crise, principalmente do seguro-desemprego, foi um dos fatores que ajudaram a afundar as finanças públicas europeias. Hoje, o que se discute é se é possível manter esses institutos, junto com os da distribuição universal da saúde pública, da educação e da previdência social, sem afundar de uma vez o Estado.

A crise financeira evidentemente não é a principal causa da crise da política do bem-estar social da Europa – e isso não está no artigo do El País. Ela provém de camadas mais profundas e terá de enfrentar agora dois fenômenos de força maior que crescem independentemente da lógica do sistema capitalista global: o rápido e inexorável envelhecimento da população dos países ricos e a nova era da migração dos povos (e dos empregos).

JOAQUÍN MORALES SOLÁ Las sospechosas deserciones en el Senado

La Nacion

Hay senadores que viajan con demasiada frecuencia. Otros se enferman también con insistencia. Casi todos pertenecen a la frágil, casi inexistente, mayoría opositora en la cámara que se ha convertido de hecho en la última línea de defensa parlamentaria del Gobierno. En diciembre último, eran 37 senadores supuestamente opositores contra 35 que respondían al oficialismo. Esa dramática paridad es ahora insegura y vacilante. La ausencia en una sesión clave de tres o cuatro senadores inscriptos en una impalpable oposición es suficiente para cambiar los resultados de la votación. Los predecibles vencidos se convierten de pronto en imprevistos vencedores.

El caso del Senado tomó relieve en los últimos días, después de que cuatro importantes legisladores nacionales, todos opositores, denunciaran la cooptación de senadores por parte del kirchnerismo ante una multitud en la Exposición Rural. Sin embargo, se trató sólo de la exhibición pública de un conflicto que motivó muchas reuniones previas entre los líderes opositores. ¿Cómo hacer para reconstruir aquella endeble mayoría de diciembre pasado? ¿Cómo, cuando algunos senadores, como Carlos Menem, ya no tienen un destino que cuidar y tampoco les preocupa defender su pasado?

Asuntos importantes del Estado están cautivos en el Senado. ¿Cómo? Un senador supuestamente opositor no firma o no concurre a las comisiones que deben informar sobre esos temas antes del plenario del cuerpo. Sin esas firmas, tales proyectos no son habilitados para su tratamiento en el recinto. Más problemas surgen cuando los asuntos llegan finalmente al plenario. De nuevo, la ausencia de un puñado de senadores opositores convierte al Gobierno en ganador fortuito de una causa que parecía perdida. La última frontera de la defensa está funcionando entonces. Cristina Kirchner está exenta, por ahora, de recurrir al veto constante, tan constitucional como impopular.

¿Con qué métodos se consiguen esos resultados? No hay uno solo. Varían, además. Hay senadores que ingresaron por la oposición, pero que tienen centenares de empleados propios en el Estado. Los Kirchner llevan un prolijo censo de punteros que responden a legisladores cruciales. El mensaje llega, claro e inconfundible: o los senadores atienden los intereses del oficialismo o sus protegidos se encontrarán con la calle y la intemperie. Es mejor, parecen concluir esos senadores, el sol protector de los Kirchner antes que circular sin órbita.

Otros senadores viajan, en efecto. Siempre hay una invitación oportuna que coincide con una votación significativa. A los voluntarios no les faltan pasajes ni generosos viáticos. El periodismo ha sido injusto cuando hace poco criticó sólo al Gobierno por haber invitado a dos senadoras a China. El Gobierno tuvo, es cierto, la iniciativa de esas deserciones. Pero no hay nada más fácil de rechazar que un viaje. Existe más culpa en aquellas senadoras peregrinas que en la administración que las tentó. ¿Qué convierte ahora a los senadores en viajeros compulsivos o en enfermos crónicos?

Debe inscribirse también el canje de votos, o de ausencias, por favores fiscales del gobierno nacional a las provincias. El Gobierno tiene los recursos en una mano y espera el favor con la otra. Entrega la plata sólo cuando recibe el favor , se sinceró un senador acosado por estos trueques. Hay algo peor que todo eso: el gobierno nacional no les entrega a las provincias más que la plata de las provincias. Kirchner es así: paga los favores con el dinero de los que le hicieron el favor.

Hace poco, con motivo de la votación de la ley que instituyó el matrimonio entre personas del mismo sexo, la senadora riojana Teresita Quintela confesó públicamente que estaba en contra de la iniciativa, por firmes razones de conciencia, pero que votaría a favor porque debía preservar la solvencia fiscal de su provincia. Ni los senadores oficialistas ni los funcionarios nacionales se escandalizaron por esa revelación pública que mostró los métodos del Gobierno con más claridad que las recientes denuncias de Felipe Solá o de Gerardo Morales. Mucho antes, y por otros motivos, el senador neuquino Horacio Lores también había vinculado en público el sentido de sus votos y la capacidad fiscal de su provincia. Nadie del kirchnerismo lo desmintió nunca.

Hay casos especialmente curiosos. Es, por ejemplo, el de los senadores pampeanos Carlos Verna y María Higonet. Pidieron un bloque aparte al del oficialismo y hacen trascender en los momentos decisivos que no saben si votarán a favor o en contra de una decisión. No son los únicos que recurren a esa estrategia. Hay varios más que la frecuentan. Entonces comienzan los sondeos del Gobierno para que voten en el sentido del Gobierno. Las indecisiones desinteresadas no se anuncian, por lo general.

Menem es otro caso perdido. Ya sin el manejo de los copiosos recursos a los que estaba acostumbrado y perseguido por más jueces que partidarios, su horizonte se acortó sólo a seguir siendo senador. Ni siquiera parece aspirar a ser un ex presidente como Dios manda. Los fueros son ahora más importantes que el futuro y la historia. El gobernador riojano, Beder Herrera, podría ser el arquitecto del kirchnermismo para asegurarle a Menem la imprescindible banca; el actual mandato de Menem vencerá el año próximo. Menem no disimula sus favores a los Kirchner. Que los apoyos no pasen inadvertidos.

¿Qué desgracias kirchneristas están evitando esos senadores? En el Senado duermen sin remedio a la vista los proyectos aprobados por los diputados para reformar el Consejo de la Magistratura; para cambiar la reglamentación de los decretos de necesidad y urgencia, que le reducirá facultades al Ejecutivo, y la eliminación de los superpoderes para el Gobierno. El propio Senado no pudo hasta ahora tratar iniciativas propias como el 82 por ciento móvil para los jubilados y la reconstrucción del Indec.

Están por venir asuntos tan serios como ésos: las facultades delegadas del Congreso al Ejecutivo, que caducarán el 24 de agosto, y, sobre todo, el presupuesto del próximo año, el primero de la era kirchnerista que irá al Congreso sin mayoría oficial automática. La pelea que se dirime en el Senado es, quizá, la más significativa que les tocó al kirchnerismo y a sus opositores.

Es cierto, en efecto, que la oposición se parece a veces a una constelación de satélites sin órbita y que eso permite también las deserciones. La excepción es la Cámara de Diputados, donde hizo importantes progresos. Pero Mauricio Macri fue abandonado en su desgracia hasta por su socio más reciente, Francisco de Narváez; al jefe porteño sólo le quedan las encuestas. ¿No es eso lo que espolea su soledad? Elisa Carrió lo criticó a Ricardo Alfonsín por un exceso de cordialidad con los ministros Randazzo y De Vido. La disidencia no quedó entre ellos. Hermes Binner y Margarita Stolbizer dejaron brotar el viejo rencor contra Carrió. El Acuerdo Cívico no será como es, evidentemente.

Felipe Solá quiere un final cuerpo a cuerpo con Eduardo Duhalde y detesta un acercamiento a Macri del peronismo disidente. Duhalde cree que una parte de los argentinos lo irá a buscar cuando advierta que la herencia de Kirchner no será una cuestión sólo apta para simpáticos. Nadie sabe, entonces, cómo será ese peronismo ni quién será su líder.

El kirchnerismo tiene problemas para seducir a amplios sectores sociales, a pesar de que las encuestas lo tratan ahora mejor que hace unos meses. Con todo, el oficialismo tiene un candidato capaz de corroer tanto a opositores como a leales; es el caso de Daniel Scioli. Además, una mano de hierro mantiene abroquelado a su ejército, y éste sabe al menos qué quiere y hacia dónde va. La historia no preguntará por qué Kirchner pudo hacer lo que hizo, sino por qué la política le permitió llegar tan lejos.

MARIANO GRONDONA La contraofensiva de Kirchner, ¿hasta dónde llegará?

La Nacion

En las luchas políticas, así como en las batallas militares, en algún momento estalla el episodio del cual dependerá el destino de los contrincantes: es ese momento en el que alguno de ellos, temiendo perder, decide apostarlo todo a una riesgosa contraofensiva . Dos contraofensivas decidieron por ejemplo la suerte del mundo a fines de la Segunda Guerra Mundial. En el frente oriental, el ejército ruso cercó al ejército alemán en torno de Stalingrado en la llamada "operación Urano", que dio lugar al combate más sangriento de la guerra. Exhaustas y después de haber perdido 325.000 hombres, las fuerzas alemanas del mariscal Von Paulus terminaron por capitular. En el frente occidental, otro jefe alemán, el general Von Runstead, lanzó a su vez una profunda contraofensiva que lo llevó hasta el desierto belga de las Ardenas, pero al fin también tuvo que ceder frente al legendario general norteamericano George Patton. Después de Stalingrado y las Ardenas, la suerte de la Alemania nazi quedó sellada.

Tras sufrir la gran derrota electoral del 28 de junio de 2009, el "mariscal" Kirchner, que parecía perdido, lanzó a pesar de ello una vasta contraofensiva. A estas alturas de los acontecimientos no sabemos si vencerá como los rusos en Stalingrado o si perderá como Von Runstead en las Ardenas. Los dados de su apuesta, todavía, no han sido echados.

El origen etimológico de la palabra "guerra" es la voz indoeuropea wers , que significa "confusión" porque hasta que alguna de las partes se rinde, nadie sabe a ciencia cierta cómo terminará. Lo mismo ocurre en la lucha política. Los argentinos aún vivimos en medio de nuestra propia "confusión". Por lo tanto, se multiplican las apuestas. De un lado, el núcleo duro del kirchnerismo, al que se suma una legión de oportunistas, apuesta al ex presidente. Del otro lado, militan todos aquellos que en el mejor de los casos por convicción y en el peor de los casos por cálculo apuestan en sentido contrario. El porvenir de la Argentina, mientras tanto, esconde sus cartas.

El fiel de la balanza

La jornada del 28 de junio fue una sorpresa tanto para el kirchnerismo como para la oposición. Aquél, que no esperaba perder, lanzó de inmediato la contraofensiva en medio de la cual hoy nos hallamos bajo la consigna de que había que "profundizar el modelo". Esta creyó, por su parte, con cierta ingenuidad, que Kirchner ya estaba vencido. Ninguno de los dos bandos tenía razón. El kirchnerismo porque a lo mejor, lejos de exigirle que profundizara el modelo, la mayoría le había pedido que lo cambiara. La oposición porque no advirtió a tiempo que, lejos de rendirse, el kirchnerismo doblaría su apuesta.

Ante la audacia de Kirchner al actuar del 28 de junio en adelante como si hubiera ganado cuando en realidad había perdido, algunos consideran ahora la teoría de que Kirchner, efectivamente, está ganando. Pero tanto el kirchnerismo como el no kirchnerismo están olvidándose de un tercer actor: la amplia reserva de los indecisos. Es que la diferencia entre las luchas electorales y las batallas militares es que en tanto que éstas se resuelven a sangre y fuego, aquéllas se someten a un árbitro, el conjunto del pueblo. ¿Qué hará entonces el árbitro popular una vez que termine la campaña, cuando los contrincantes hayan agotado sus opuestos argumentos? He aquí un enigma envuelto en un misterio.

Antes de pronunciar su veredicto, los votantes que aún no se han pronunciado, que son mayoría, sopesarán las razones que esgrimen los contendientes. La principal razón que puede exhibir hoy el kirchnerismo es que la economía parece haber recobrado en 2010 el impulso que había perdido en 2009. Contra este argumento, no faltan economistas que señalan que el crecimiento actual de la economía es sólo de corto plazo, una suerte de espejismo que, apoyándose en la euforia típica de los períodos iniciales de la inflación, está desconociendo que, al concentrarse en el gasto público y en el alto consumo, el Gobierno se ha olvidado de la inversión de largo plazo, que es la base del desarrollo y que ahora desfallece entre nosotros mientras aumenta impetuosamente en países vecinos como Brasil, Chile y Uruguay.

Durante varios períodos de nuestra historia reciente, los argentinos hemos sido excesivamenteeconomicistas al concentrarnos en los resultados económicos de los gobiernos sin preguntarnos por su solidez institucional. Así fue como los gobiernos militares obtuvieron a veces niveles de consenso que nunca habrían logrado si nos hubiéramos fijado en su precariedad institucional. Este atávico economicismo, ¿aún perdura entre nosotros? ¿O el énfasis constante de la oposición en la necesidad de reforzar nuestro sistema republicano en el Congreso frente al autoritarismo de los Kirchner pesa ahora más que antes? ¿Por qué perdió en todo caso Kirchner hace un año? ¿Por la marcha insuficiente de la economía o por su sesgo antirrepublicano, antiinstitucional? Esta es, quizá, la pregunta decisiva.

La pregunta por el pueblo

Todavía se podría agregar un argumento esta vez "político" en favor de Kirchner: que, en tanto que éste ha concentrado sus fuerzas en torno de su propio liderazgo, sus opositores se siguen dispersando en querellas que algunos juzgan pueriles en torno de nombres como los de Macri, Carrió o Stolbizer. Pero este argumento es en cierta forma endeble porque tiende a equiparar dos momentos incomparables del proceso político como son, de un lado, la "maduración" que ya ha logrado la empresa kirchnerista, con sus dos "pingüinos" al frente, y, del otro lado, el estadio todavía inicial que atraviesa la oposición en torno de sus incipientes precandidatos. ¿Qué pasaría, por ejemplo, si el indescifrable Reutemann decidiera, al fin, sumarse a la contienda? ¿Hasta dónde podrá llegar ese incansable tejedor que es Eduardo Duhalde? Una vez que consume su propia maduración política, de todos modos, la oposición podrá dividirse sólo en dos opciones, el "panradicalismo" y los "peronistas federales", porque de lo contrario, de dividirse en tres, podría concederle una ventaja decisiva al "unitario" Kirchner. Esto supone, desde luego, que Macri y los peronistas federales necesitarían ponerse finalmente de acuerdo.

Los números avalan este horizonte, ya que en tanto que el kirchnerismo, gracias a su contraofensiva, podría estar subiendo del 25 por ciento que obtuvo en 2009 al 30 por ciento que tendría ahora, la oposición, con sus dilaciones, podría estar descendiendo del 75 por ciento de 2009 al 60 por ciento actual. Sesenta por ciento contra treinta por ciento: esta cuenta da todavía para dividir en dos, pero ya no en tres al no kirchnerismo si éste quiere, en verdad, derrotar a Kirchner.

Perón repetía que "lo mejor que tenemos es el pueblo". Esta frase, que en su momento se tomó por demagógica, ¿no ha pasado a indicar hoy, con el transcurso de los años, la nueva identidad de nuestra democracia? Ante el ímpetu de la autocracia kirchnerista, ante la difícil reunión de las fuerzas que se le oponen, ¿no será quizá que, en la Argentina contemporánea, la mejor reserva que tenemos es el pueblo? ¿No será él, en definitiva, aquél ante el cual todos apelaremos? Este pueblo, el mismo que hace un año le propinó un rotundo "no" al kirchnerismo, ¿no está cambiando acaso sus valores? Si su cambio incluye ahora un horizonte ya no economicista, ya no demagógico, sino republicano e institucional, el único que puede derrotar realmente a la pobreza, ¿no será que ya estamos al borde de esa república esclarecida, de largo plazo, que resplandece en las naciones hermanas?

O caderninho pela última vez JOÃO UBALDO RIBEIRO

O Globo
Sei que não tenho o direito de abusar da paciência de vocês com as caturrices que anoto no meu caderninho, tanto assim que resolvi livrar-me dele, convertendoo num caderno de receitas culinárias, muito mais útil. Mas não resisto a comentar algumas anotações que me são particularmente caras, sempre na esperança de encontrar quem se solidarize, não é possível que eu seja o único chato a se incomodar com essas coisas.

Ninguém, falando, diz “no outro dia eu vi você na praia”; diz “outro dia eu vi você na praia”. No entanto, quando se escreve, ou se fala com a relativa formalidade dos noticiários de TV, essa e outras locuções adverbiais, como “este ano”, “este mês” ou “outra hora”, hoje ganham a preposição “em”, no caso redundante e mal usada, de uma forma que, se persistir, gerará muitas ambiguidades indesejáveis. Nas outras línguas (e todas as línguas ocidentais, com exceção do basco, são parentas e ligadas de mil formas) isso não acontece. Em inglês, por exemplo, não se diz “in this year”, diz-se “this year”, assim como, no mesmo caso, não se usa “dans” em francês.

Mas o sujeito diz, com propriedade, que este ano vai passar as férias em Búzios e, no entanto, quando escreve ou fala formalmente, resolve que o certo é “neste ano”. Daqui a pouco se escreve “numa vez eu vi um cometa”, em lugar de “uma vez”. Ou “num dia eu visitei Paris”, não se sabendo aí se a visita foi numa certa data ou durou apenas um dia. Se a frase fosse “um dia eu visitei Paris”, não haveria ambiguidade.

De forma análoga, há quem escreva “toda vez que” e “do mesmo jeito que” com uma preposição antes do “que”, por uma questão “lógica”. Mas são locuções consagradas e a lógica da língua amiúde é mais embaixo.

E por que tanto “você”, meu Deus do céu? Tem também gente, inclusive comentaristas, cuja fala é um enxame sufocante de “vocês”, praga que vem piorando muito. “Você adiantar os volantes a esta altura é temerário”, diz o falante.

“Para você segurar o placar, você precisa tentar manter o mesmo nível de marcação que você tinha no primeiro tempo.” Os primeiros dois “vocês” aí podiam ser simplesmente suprimidos e os restantes substituídos por uma maneira de falar menos neandertalesca, que, além de ser feia e revelar pobreza de expressão, faz a língua lembrar a que Tarzan usava para se comunicar precariamente com a Jane, no tempo do “me Tarzan”. Construção típica: “Você ingerir frutas que você não lavou bem traz riscos para a saúde. A fruta, ela pode estar sendo uma via de contaminação e você lavar faz a diferença.” Botei (modernamente, coloquei) essa “diferença” aí de propósito. Antigamente, as coisas faziam diferença. Podiam até fazer certa diferença, alguma diferença ou muita diferença. Mas a diferença não era determinada pelo artigo definido, como hoje, suspeito eu que por influência do inglês, já que muitos jornalistas e resenhistas literários leem bem mais em inglês que em português. “Ser cumprimentado por um bom trabalho faz diferença”, dizia-se antigamente.

Agora é “faz a diferença”.

A ausência do artigo definido, da mesma forma que em inglês, persiste na negativa “não faz diferença” (“makes no difference”), mas daqui a pouco é bem possível que se comece a dizer “isso para mim não faz a diferença”. Ou, para ficar mais de acordo com o inglês, “não faz uma diferença” (“does not make a difference”). Não duvido nada e assim, vamos prosseguir incorporando (o que, no ver de alguns, pode ser uma boa e não discuto) o gênio de outra língua à nossa, na forma mais radical de colonização que pode existir, a do idioma. Ubicumque lingua romana, ibi Roma — onde quer que esteja a língua romana, aí estará Roma, é isso mesmo.

No departamento do adeus-adeus, ao qual já se degredou o quase finado “cujo”, devemos também apontar “jovial”.

Antigamente — e ainda nos dicionários — jovial era alegre, comunicativo, afável. Hoje não é mais. Ou, por outra, não precisa ser, porque virou juvenil e parece que não tem volta.

Outro dia li numa revista que não sei quem se traja jovialmente e fiquei imaginando que essa pessoa se veste em meio a grande efusão e se cumprimentando ao espelho o tempo todo. E uma saudação jovial, é de supor-se, passa a ser algo como “valeu”, ou qualquer das palavrasocirc;nibus hoje em uso pela juventude. Num caminho parecido, o venerando adjetivo “difícil”, conosco desde os albores da língua, está sendo demitido, porque agora nada mais é difícil, é complicado.

O pessoal que pretende falar como se escreve também continua ativo e sua mais conspícua manifestação é ainda o “umaum” com que vários narradores esportivos anunciam um marcador igualado em um gol. Já ouvi também “umotel”, entendi “um motel” e, no decorrer da reportagem, vi que era um hotel. Um olho será um molho e um achado será um machado.

Esse pessoal é perigoso e, se a moda prosperar, ficará impossível falar português no futuro sem um bom preparo físico, para fazer todos os gestos tornados indispensáveis ao bom entendimento.

Acaba-se o espaço, sobram notas, nada a fazer. Bem, só mais estas duas, que tirei de uma revista e vejo muito por aí: “broxura” sexual é com x e “benfeito” é particípio passado do verbo “benfazer”, não quer dizer “bem-feito”. Pronto, acho que o caderninho, ele acabou.

Comunicado à praça: Segundo me contaram, eu integro diversas redes sociais na internet, como o Twitter e o Facebook.

Para mim foi surpresa, porque nunca ingressei em nenhuma dessas redes e nem sei como elas funcionam.

Mas já me garantiram que tem gente se fazendo passar por mim. Devo, portanto, enfatizar que não sou eu e lembrar que não posso responsabilizar-me pelo que me atribuam falsamente.

As voltas que o mundo dá Gaudêncio Torquato

O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/08/10

O mundo dá voltas. E que voltas. Fosse sindicalista hoje no ABC paulista, Lula estaria concluindo uma faculdade e, quem sabe, até planejando fazer pós-graduação. A dedução provém do exemplo dado pelo atual presidente do Sindicato dos Metalúrgicos, Sérgio Nobre, formado em Relações Internacionais e com plano de continuar a trilhar os estudos na academia. As curvas que o mundo dá flagram contrastes que deixam estupefatas as mentes mais inovadoras. Quem poderia imaginar, por exemplo, uma onda de greves fazendo tempestade na China e a bonança amainando os mares do sindicalismo brasileiro neste ciclo eleitoral, que é o mais convidativo às intempéries? Pois essa é a radiografia da esfera do trabalho nesses dois países que integram o Bric, a China, a maior população mundial e que se prepara para ser a segunda economia do planeta, e o Brasil, que ambiciona chegar ao quinto lugar em menos de uma década. O redesenho que ocorre no cenário trabalhista nas duas nações abriga um feixe de conjunções, mas uma delas é seguramente a alavanca principal das mudanças: a força do capital.

A China faz questão de atribuir os êxitos de seu extraordinário crescimento econômico ao que chama de "economia de mercado socialista", que nada mais é que a adoção de mecanismos próprios do capitalismo sob um sistema autoritário, no qual não funcionam as ferramentas das democracias ocidentais, como eleições abertas, separação de Poderes, imprensa livre, preservação de direitos individuais e sociais, etc. Apesar disso, o país não consegue conter a pressão sobre a base do edifício do trabalho e que tem como alavanca o capital, fator que move e direciona as economias contemporâneas, seja qual for o regime político. Gigantes da produção enfrentam ali ondas de greves por aumento de salários. A maior fabricante de produtos eletrônicos do mundo, a Foxconn, elevou em um terço o salário de seus 600 mil trabalhadores e a japonesa Honda, para administrar quatro grandes greves, teve de dar um aumento de 45%, elevando a remuneração para 1.420 yuans (R$ 370, bem menos que o salário mínimo brasileiro, de R$ 510). Chama a atenção o fato de que o território da mão de obra barata por excelência começa a mudar a identidade. Os 150 milhões de migrantes rurais do país ganharam incentivos do governo e, com a renda em alta, começam a se libertar da prisão dos salários precários. O esgotamento do ciclo da mão de obra barata na China já é algo que a vista alcança.
Se é arriscado apostar na tese de que a mais forte nação emergente - e socialista - se curva aos domínios do capital, é razoável supor que a barreira imposta aos mecanismos que dão vida às democracias deixa uma fresta para o respiro social dos ares trabalhistas. Tal escape tem que ver com a válvula da panela de pressão. Não existisse para deixar vazar o vapor, a panela poderia estourar. É preciso convir também que a China faz esforço para se integrar à nova ordem imposta pela sociedade pós-industrial, na qual se abrigam fatores como a expansão desenvolvimentista, o fomento dos setores produtivos, a garantia de postos de trabalho para sustentar populações economicamente ativas e contingentes de aposentados, o incentivo à produção de alimentos e a crescimento dos setores de serviços. A conjunção desses elementos implica menores disparidades sociais, supressão de antagonismos de classes e arrefecimento das facções ideológicas. Por mais que a China proclame sua devoção ao socialismo, não resiste a participar do jogo do mercado, em especial o do tabuleiro do capital e o da mesa dos investimentos. Para não se isolar, o país tem de se ajustar aos parâmetros de uma nova ordem, que busca de maneira incessante meios para atingir a aspiração maior de suas populações: o bem-estar.
Se a China se movimenta em direção ao ponto da roda onde se encontra a praça capitalista, o Brasil, sob a égide das liberdades democráticas, já passeia por ela há bom tempo. Da década de 70 - quando Lula, o metalúrgico, exibia na camiseta a exclamação "hoje não tô bom", expressa por um carrancudo João Ferrador - aos nossos dias, este país deu um giro de 360 graus. Se o regime militar carecia de logotipia revolucionária para simbolizar o contraponto, a redemocratização eliminou excessos e buscou acalmar o espírito social. A barba desgrenhada e as feições de quem estava pronto para entrar no ringue deram lugar a um perfil bem arrumado. A estética ganhou o refino dos melhores salões. E a semântica, apesar de ainda incorporar parcela da linguagem das ruas, apurou significados para corresponder ao novo perfil. Luiz Inácio ganhou o status de mais alta autoridade do País. E transformou o berço que lhe deu fama em gigantesca cama do sindicalismo. Centrais sindicais ganharam posição legal e munição financeira, tomaram conta das relações do trabalho, produziram um dicionário de costumes. Foi assim que o sindicalismo passou a tecer o cobertor que cobre as relações entre o capital e o trabalho e que tem como lema: trabalhadores ganharão mais se as empresas aumentarem a produtividade e os lucros.
Por isso o grevismo tem de ser contido. As conquistas em série passam a ser preservadas e expandidas com a tinta da caneta que jorra forte dos tinteiros das fontes instaladas no Planalto. Sob essa fortaleza, a base sindical no ABC de Lula alargou-se e é a maior em 15 anos, conforme esclarecedora matéria de Marcelo Rehder neste jornal (25/7). A mobilização das categorias incorpora novas motivações. E bloqueios de fábricas podem sinalizar contrariedade e borrar a imagem do governo. Em seu lugar, o clima de harmonia imanta o conceito da administração. E assim avançam os núcleos trabalhistas. Satisfeitos e endinheirados. À procura de novos horizontes. Agora é a mídia que funcionará como tuba própria de comunicação. Em breve os trabalhadores verão sua primeira emissora de televisão, a TVT. O Estado-espetáculo chega, fosforescente, ao mundo do trabalho.
JORNALISTA, É PROFESSOR TITULAR DA USP E CONSULTOR POLÍTICO E DE COMUNICAÇÃO

DORA KRAMER Ronda ostensiva

O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/08/10

Não adianta a candidata Dilma Rousseff fazer profissão de fé pública em prol da liberdade de imprensa nem será convincente o ato do PT de retirar do programa para o próximo governo a instituição de controles sobre os meios de comunicação, se o presidente do partido gesticula no sentido oposto.
Imagina-se que falando em nome do PT e da campanha da qual é um dos principais coordenadores - integrante do grupo chamado “G-7” para designar os mandachuvas -, José Eduardo Dutra anuncia que está vigilante em relação ao que é publicado ou veiculado em jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão.
Tudo aquilo, avisa, que “extrapolar a liberdade de expressão” será questionado pelo partido na Justiça.
Todos os dias há gente esquadrinhando tudo o que é dito e escrito. Já como fruto do pente-fino, há dois pedidos de direito de resposta à revista Veja e uma solicitação - frustrada - de censura a um vídeo (o que mostra o vice de José Serra dizendo que o PT tem parte com terroristas colombianos) do portal Folha com.
Causa espécie não o recurso à Justiça. Este está aí à disposição de quem quiser exatamente para que os ofendidos acorram a ele e a Justiça arbitre quem tem razão.
O que chama atenção é a concepção petista de liberdade de expressão. Pelo que se depreende desta e de outras manifestações de José Eduardo Dutra a respeito do tema, tudo o que fugir do estritamente informativo, tudo o que recender a opinião, interpretação, exercício de discernimento e lógica pode ser enquadrado à categoria do que “extrapola a liberdade de expressão”.
De onde é possível observar também a concepção petista sobre liberdade. É tudo aquilo que não condiz com o interesse do partido. O que sai fora desse limite, extrapola.
O mesmo José Eduardo Dutra, ao defender o ponto de vista da necessidade de se instituir controles sobre os meios de comunicação, disse há 15 dias que as cadeias de rádio e televisão são “pouco afeitas” ao pluralismo. Citou como exemplo a revista Veja, que na visão dele não tem sido “plural”.
Quer dizer, tem externado pontos de vista que desagradam ao PT. Na ocasião, Dutra acrescentou: “Isso é uma constatação. O que vamos fazer, vamos censurar? Claro que não, mas tenho também a liberdade de poder expressar minha opinião. O fato é que a liberdade de imprensa é irrevogável, ponto.”
Sim, é irrevogável não porque o senhor Dutra tenha determinado, mas porque assim garante a Constituição.
Constituição esta vilipendiada quando o presidente da República, filiado ao PT, extrapola e usa o cargo para fazer política partidária.
Pois esse partido que mal consegue se manter na legalidade é que se arvora em patrulheiro dos limites da liberdade de expressão. Diz Dutra sobre sua contrariedade com os que não assentem ao seu partido: “Vamos censurar? Claro que não.”
Se tivessem nas mãos o tal conselho para fiscalizar a imprensa que tentaram instituir no início do primeiro mandato de Luiz Inácio da Silva, claro que sim, certamente iriam restringir a publicação daquilo que, no entendimento do conselho, extrapolasse. Não alguma lei, note-se, mas o conceito petista de liberdade de expressão.
E isso não é uma ilação, é - para usar palavras de José Eduardo Dutra - uma constatação.
Se não, para que a insistência nos controles? Por que ao falar sobre eles o presidente do PT invoca justamente o espírito crítico da imprensa?
Poderia falar a respeito de coisas que deseducam a população, sobre agressões ao idioma, linguagem chula. Ainda que equivocado, mas bem-intencionado, poderia abordar a distorção dos melhores princípios, os excessos do consumismo, o desrespeito ao próximo, mas não.
Ataca apenas um ponto: o senso crítico exercido de maneira contrária ao que seria de interesse do PT.
Não é por acaso. Inclusive porque durante toda a trajetória de Lula e do PT, em especial na campanha presidencial de 2002 e logo após a posse antes dos primeiros escândalos, enquanto a impressa fez vista grossa às peripécias petistas e ajudou a construir e exaltar o mito Lula - depois exportado mundo afora -, o partido nunca reclamou.

CLÓVIS ROSSI Sobre avacalhações

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/08/10


SÃO PAULO - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acha que acaba virando uma esculhambação se algum país desobedecer suas leis para atender pedidos de presidentes.
E daí, presidente? Se as leis são primitivas, medievais, como a que prevê a lapidação de adúlteros e adúlteras no Irã, viva a avacalhação. Ditadura é mesmo para ser avacalhada.
O presidente sabe disso. Tanto sabe que, em seus tempos de sindicalista, deu valiosa contribuição para avacalhar a ditadura militar, ao desafiar suas leis e, mais ainda, o arbítrio não previsto nem mesmo nas leis de exceção.
Além disso, não achava avacalhação pedir a solidariedade de sindicatos e autoridades estrangeiras.
Inúmeros companheiros seus, na época, também recorreram a governantes estrangeiros para tentar pressionar a ditadura. Ou avacalhá-la, se o que vale é a nova e atual versão de Lula.
Conheço pelo menos um caso de ex-preso político, torturado, que agradece até hoje a ação do então presidente norte-americano Jimmy Carter para afrouxar as regras da ditadura (ou avacalhá-las, diria o Lula-2010) e preservar a sua vida.
Os militares rangeram os dentes, reclamaram, espumaram, mas a vida seguiu, as relações diplomáticas, econômicas e comerciais só fizeram melhorar com o passar dos anos, até porque, como diz o chanceler Celso Amorim, "negócios são negócios". Princípios, bom, aí é outra história.
Ditaduras são, se o leitor me perdoa a incorreção política, como se dizia ser a mulher do malandro: a gente pode até não saber porque está batendo, mas elas sempre sabem porque estão apanhando.
Logo, Lula não precisa ter medo de perder negócios se fizer com a ditadura iraniana, como presidente, o que fazia com a brasileira, como opositor. Ajudaria a não avacalhar a sua própria biografia.

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO Cara ou coroa?

O ESTADO DE SÃO PAULO - 01/08/10

Em pouco mais de dois meses escolheremos o próximo presidente. Tempo mais do que suficiente para um balanço da situação e, sobretudo, para assumirmos a responsabilidade pela escolha que faremos. É inegável que a popularidade de Lula e a sensação de "dinheiro no bolso", materializada no aumento do consumo, podem dar aos eleitores a sensação de que é melhor ficar com o conhecido do que mudar para o incerto.

Mas o que realmente se conhece? Que nos últimos 20 anos melhorou a vida das pessoas no Brasil, com a abertura da economia, com a estabilidade da moeda trazida pelo Plano Real, com o fim dos monopólios estatais e com as políticas de distribuição de renda simbolizadas pelas bolsas. Foi nessa moldura que Lula pregou sua imagem.
Arengador de méritos, independentemente do que diga (quase nada diz, mas toca em almas ansiosas por atenção), vem conseguindo confundir a opinião, como se antes dele nada houvesse e depois dele, se não houver a continuidade presumida com a eleição de sua candidata, haverá retrocesso.
Terá êxito a estratégia? Por enquanto o que chama a atenção é a disposição de bem menos da metade do eleitorado de votar no governo, enquanto a votação oposicionista se mantém consistente próxima da metade. Essa obstinação, a despeito da pressão governamental, impressiona mais do que o fato de Lula ter transferido para sua candidata 35% a 40% dos votos. Assim como impressiona que o apoio aos candidatos não esteja dividido por classes de renda, mas por regiões: pobres do Sul e do Sudeste tendem a votar mais em Serra, assim como ricos do Norte e do Nordeste, em Dilma. O empate, depois de praticamente dois anos de campanha oficial em favor da candidata governista, tem sabor de vitória para a oposição. É como se a lábia presidencial tivesse alcançado um teto. De agora para a frente, a voz deverá ser a de quem o País nunca ouviu, a da candidata. Pode surpreender? Sempre é possível. Mas pelos balbucios escutados falta muito para convencer: falta história nacional, falta clareza nas posições; dá a impressão de que a palavra saiu de um manequim que não tem opiniões fortes sobre os temas e diz, meio desajeitadamente, o que os auditórios querem ouvir.
Não terá sido essa também a técnica de Lula? Até certo ponto, pois este, quando esbraveja ou quando se aferra pouco à verdade, o faz "autenticamente": sente-se que pode assumir qualquer posição porque em princípio nunca teve posição alguma. Dito em suas próprias palavras: "Sou uma metamorfose ambulante." Ora, o caso da candidata do PT é o oposto (essa é, aliás, sua virtude). Tem opiniões firmes, com as quais podemos ou não concordar, mas ela luta pelo que crê. Este é também seu dilema: ou diz o que crê e possivelmente perde eleitores por seu compromisso com uma visão centralizadora e burocrática da economia e da sociedade ou se metamorfoseia e vira personagem de marqueteiro, pouco convincente.
Não obstante, muitos comentaristas, como recentemente um punhado de brasilianistas, quando perguntados sobre as diferenças entre as duas candidaturas, pensam que há mais convergências do que discrepâncias entre os candidatos. Será? As comparações feitas, fundadas ou não, apontam mais para o lado psicológico. O que está em jogo, entretanto, é muito mais do que a diferença ou semelhança de personalidades. O quadro fica confundido com a discussão deslocada do plano político para o pessoal e, pior, quando se aceita a confusão a que me referi inicialmente entre a situação de desafogo e bem-estar que o País vive e Lula, que dela se apossou como se fosse obra exclusiva sua. Se tudo converge nos objetivos e se estamos vivendo um bom momento na economia, podem pensar alguns, melhor não trocar o certo pelo duvidoso. Só que o certo foi uma situação herdada, que, embora aperfeiçoada, tem a marca original do fabricante, e o duvidoso é a disposição da herdeira eleitoral de continuar a se inspirar na matriz originária. O candidato da oposição, esse, sim, traz consigo a marca de origem: ajudou a construir a estabilidade, a melhorar as políticas sociais e a promover o progresso econômico.
Não nos iludamos. O voto decidirá entre dois modelos de sociedade. Um mais centralizador e burocrático, outro mais competitivo e meritocrático. No geral, ambos os oponentes levarão adiante o capitalismo. Estamos longe dos dias em que o PT e sua candidata sonhavam com o que Lula nunca sonhou: o controle social dos meios de produção e uma sociedade socialista. Mas estamos mais perto do que parece de concretizar o que vem sendo esboçado neste segundo mandato petista: mais controle do Estado pelo partido, mais burocratização e corporativismo na economia, mais apostas em controles não democráticos, além de maior aproximação com governos autoritários, revestidos de retórica popular.
A escolha a ser feita é, portanto, decisiva. Como tudo indica, o teatro eleitoral está-se organizando para esconder o que verdadeiramente está em discussão. Há muita gente nas elites (vilipendiadas pelo lulismo nos comícios, mas amada pelos governantes e beneficiada por suas decisões econômico-financeiras) aceitando confortavelmente a tese de que tanto dá como tanto deu. Dê cara ou dê coroa, sempre haverá "um cara" para desapertar os sapatos. Ledo engano. Há diferenças essenciais entre as duas candidaturas polares. Feitas as apostas e jogado o jogo, será tarde para choramingar: "Ah, eu nunca imaginei isso." Melhor que cada um trate de aprofundar as razões e consequências de seu voto e escolha um ou outro lado.
Há argumentos para defender qualquer dos dois. Mas que não são a mesma coisa, não são. E não porque num governo haverá fartura e noutro, escassez, para pobres ou ricos. E sim porque num haverá mais transparência e liberdade que no outro. Menos controle policialesco, menos ingerência de forças partidário-sindicais. E menos corrupção, que mais do que um propósito é uma consequência.

DANUZA LEÃO E pode, ligeiramente grávida?

FOLHA DE SÃO PAULO - 01/08/10
A censura está voltando e é como gravidez: nenhuma mulher pode estar mais ou menos grávida

QUER DIZER QUE não se pode mais brincar com a figura dos candidatos? Não entendi bem: os programas humorísticos de rádio e televisão não podem, mas a imprensa escrita pode, ou também não pode?
Mesmo aos que escrevem coisas sempre sérias acontece, um dia, de soltar sua veia humorística; a franga, como se diz. Uma frase, uma palavra, qualquer coisa que tenha ocorrido e que dê vontade de fazer uma brincadeira, mesmo sem dizer os nomes.
Mas gostaria de saber, por exemplo: se eu disser que uma determinada candidata faz parte da tribo dos bichos-grilo, posso ir presa? E se escrever que um dos candidatos tem as olheiras mais sexy do país, irei para o tribunal, algemada? E se disser que uma outra candidata parece um sargentão autoritário, daqueles que dão medo, será que tenho que pedir asilo em alguma embaixada?
A censura está voltando, gente, e censura é como gravidez: nenhuma mulher pode estar mais ou menos grávida. Ou está, ou não está. Com a censura, é igual: ela existe, ou não. Que saudades dos tempos em que o Brasil era uma democracia.
Daqui a pouco vão dizer o que devemos e podemos comer, para ter uma vida saudável, e nunca terá havido, no mundo, um país com hábitos alimentares tão perfeitos. Lula tem certeza de ser Deus, e acha que, olhando nos olhos, pode mudar o universo. Se ele não fingisse que ignora os escândalos que acontecem em seu governo, já estaria mais do que bom, mas vamos nos preparando para dar ótimas risadas depois das eleições, com o "Casseta & Planeta", "Pânico na TV" e "CQC"; eles não vão deixar barato, a não ser que o humor seja definitivamente proibido no país - o que não é impossível, dependendo do resultado da eleição. Lula não sabe perder, e foi um papelão não ter ido ao encerramento da Copa. Se o Brasil tivesse ganho, seria ele o grande vencedor, e não quero nem pensar no que íamos ter que aturar.
Por falar em futebol, é claro que deve haver ordem dentro de um estádio, mas não adianta fazer leis para regulamentar as torcidas, se não houver quem as faça serem cumpridas. Vai ser assim: se houver um tumulto a menos de 5 km do estádio, é crime, mas um tumulto a 8 km, tudo bem.
Estão se metendo demais em nossas vidas; devagarzinho, de mansinho, vamos acabar monitorados, dentro de nossas próprias casas. Nem uma palmadinha se pode dar -sob as penas da lei. E fala sério: entre uma palmadinha no bum-bum, um lugar onde praticamente não se sente dor, e uma palavra raivosa ou um tapa, na hora da raiva, há uma enorme diferença.
O Brasil corre o risco de se transformar em um imenso Big Brother, com câmeras de TV em cada cômodo de cada casa, espionando a relação entre pais e filhos -e eu acho que já ouvi falar disso. Não teria sido no livro "1984"?
Se ainda estivesse na moda, seria o caso de fazer uma sonoterapia até o dia da eleição, para ignorar os desrespeitos que estão sendo feitos à legislação eleitoral, sem que nada aconteça. Os exemplos de falta de ética que estão sendo dados ao país vão durar por muitos e muitos anos, pois se o presidente faz, por que razão um garoto não vai poder fazer igual?
Esse é o pior legado que um governo pode deixar; e é o que a era Lula vai deixar.
Oito anos é muito tempo.

Lendo o passado - Míriam Leitão

O Globo - 01/08/2010


Dias atrás, Roberto da Matta e eu concordamos sobre a frase que mais gostamos no livro Paris é uma festa, de Hemingway: todas as gerações são perdidas. No contexto, a frase ganha em beleza e significado. Minha geração se perdeu entre dois horrores: a ditadura e a hiperinflação. Vivemos entre eles nossa infância, adolescência e juventude. Já éramos maduros quando a inflação foi derrubada.

A maioria dos brasileiros de hoje não viu a ditadura que tornava qualquer pequena rebeldia em ato contra a segurança nacional.

Tem apenas vagas lembranças, ou relatos da família, sobre a hiperinflação que tornava cada ato banal da vida, como fazer as compras do mês, pagar as escolas das crianças, planejar as férias de fim de ano, um enorme tormento que exigia cálculos, perícia e capacidade de prever o imprevisível. Hoje, quando a preocupação que mobiliza os analistas é se a inflação do ano ficará um ponto ou 0,75 ponto percentual acima dos 4,5% da meta, parece delirante aquele cotidiano.

Mês passado, na cidade em que nasci, me encontrei com sete amigos de adolescência.

Éramos nos anos 70 jovens românticos com a dose certa de rebeldia e inquietação de uma juventude saudável. Nosso maior desafio à ordem vigente era ler tudo o que conseguíamos ler, e passar horas em discussões infindáveis sobre como enfrentar o poder militar, como se tivéssemos essa força. Nos relatos dos serviços secretos do regime, fomos definidos como o grupo Caratinga, e tratados como ameaça ao regime.

Tempos depois fomos todos presos; alguns sofreram muito. O reencontro foi para uma delicada homenagem da cidade. Na praça principal foi colocada uma placa com nossos nomes e a frase: Para que não se esqueça e nunca mais aconteça. O difícil foi explicar para os jovens o que o grupo tinha feito de tão ameaçador.

Eles não entendiam como nossos pequenos atos de contestação poderiam ter levado alguém à prisão. Pois é. Era outro tempo, felizmente findo.

Saímos do horror político para o econômico. No início do período democrático a inflação disparou chegando à hiperinflação.

Outro dia, vi um ministro do atual governo acusar um dos seus críticos de ter criado a hiperinflação. É preciso não ter entendido coisa alguma do complicado processo para achar que aquela longa doença foi imposta pela ação de uma só pessoa. Ela nasceu dos equívocos cometidos ano após ano na economia brasileira. Uma de suas raízes foi, sem sombra de dúvida, a desordem fiscal deixada como herança pelos militares. Eles achavam que o Estado tinha o poder de forçar o crescimento econômico através da distribuição de favores, subsídios e dinheiro público a algumas empresas escolhidas. Eles achavam que era inofensivo criar atalhos na contabilidade do dinheiro público, através dos quais se gastava muito sem que isso aparecesse nas contas públicas. Eles estavam convencidos de que bancos públicos e empresas estatais devem ser braços do governo para políticas públicas discutíveis, e que podem emprestar dinheiro umas às outras na base da camaradagem.

O país perdeu anos para entender o mal feito e sanear os enormes e intrincados passivos que ficaram desse período do voluntarismo econômico e de descuido fiscal. Uma lição foi que a conta não aparece de imediato. Num primeiro momento, tudo parece até meritório já que o país cresce em marcha forçada. A segunda lição é que a conta sempre chega.

A economia não aceita desaforos.

Ela os devolve em forma de inflação, recessão, desequilíbrios.

O pior que pode acontecer a uma geração é não saber onde foi que ela se perdeu. Na política, o erro foi a falta de respeito à democracia representativa.

Com todos os defeitos que tenha, seus rituais têm que ser seguidos rigorosamente.

Decisões da Justiça têm que ser cumpridas. Limites à ação do governante têm que ser respeitados.

Palavras dos líderes de menosprezo às instituições devem ser evitadas.

O cientista político Jorge Castañeda, no debate com Roberto da Matta que mediei, disse que o governo da Venezuela não pode ser descrito como uma ditadura, como aquelas que a América Latina viveu nos anos 70, mas não é mais uma democracia. O entendimento de quanto Hugo Chávez está minando as bases democráticas é fundamental para se saber que erros evitar. Seu ataque sistemático à independência dos poderes, à liberdade de imprensa são perigosos demais num continente onde a democracia é recente e de presença errática.

Não por acaso é a Venezuela que vive a maior inflação do continente. Pode chegar a 40% este ano.

Não por acaso é o país onde o presidente decide que empresas devem viver, atuar, investir; ou que empresas terão seus bens estatizados.

O Brasil sabe o que deve evitar. Em alguns dos seus atos, o governo atual tem perigosamente repetido o intervencionismo econômico, a distribuição de favores às empresas, a criação de atalhos fiscais que nos levaram à longa doença econômica. Hoje, tudo parece festa. O Brasil é uma festa. Só não vê os riscos os muito jovens.

Os que repetem hoje os erros de ontem nem podem alegar desconhecimento.

Eles viram o resultado.

Pertencem às gerações que perderam anos no esforço de corrigir o legado dos equívocos econômicos.

Uma geração pode ser considerada definitivamente perdida quando comete duas vezes o mesmo erro. É o que me assusta quando vejo velhos desvios repetidos no tempo presente.

sábado, julho 31, 2010

O preço da verborragia EDITORIAL O Estado de S.Paulo

31/07/10

Os iranianos que se manifestavam contra a fraude que permitiu a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad, em junho do ano passado, nada podiam fazer quando o presidente Lula comparou os seus protestos ao "choro de perdedor" dos torcedores de um time de futebol e reduziu os choques de rua em Teerã entre os opositores e as forças de repressão do regime a "apenas uma coisa entre flamenguistas e vascaínos".

Também os presos políticos cubanos não tinham como responder ao dirigente brasileiro quando, em março último, ele condenou a greve de fome que levou à morte o dissidente Orlando Zapata Tamoyo, por sinal na véspera de uma visita de Lula a Havana, onde considerou o seu sacrifício "um pretexto para liberar as pessoas" - e foi além. "Imagine", comparou, "se todos os bandidos presos em São Paulo entrarem em greve de fome e pedirem liberdade."
Muito menos poderia retrucar ao presidente a iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento por alegado adultério. Perguntado dias atrás sobre a campanha "Liga Lula" para que interceda pela sentenciada junto ao seu bom amigo Ahmadinejad, ele reagiu: "As pessoas têm leis. Se começarem a desobedecer as leis deles para atender o pedido de presidentes, daqui a pouco vira uma avacalhação."
Mas há quem possa dar-lhe o troco. Foi o que fez o presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, depois que um leviano e boquirroto Lula desdenhou do agravamento das tensões entre Bogotá e Caracas. O protoditador Hugo Chávez rompeu as relações da Venezuela com o país vizinho em represália à decisão colombiana de apresentar na OEA as provas da presença de 1.500 membros da organização narcoterrorista Farc em território venezuelano, obviamente sob a proteção do caudilho.
Lula, cuja primeira manifestação a respeito já tinha deixado claro o seu alinhamento automático com Chávez - "as Farc são um problema da Colômbia, e os problemas da Venezuela são da Venezuela", sofismou -, reincidiu na quarta-feira, véspera da reunião dos chanceleres da ineficaz União das Nações Sul-Americanas (Unasul), em Quito. O tema do encontro, que deu em nada, era o conflito político entre os dois países. "Falam em conflito, mas ainda não vi conflito", minimizou Lula. "Eu vi conflito verbal, que é o que mais ouvimos aqui nessa América Latina."
Equiparar a um bate-boca um problema dramático para a Colômbia, que passou 40 anos sob o terror das Farc antes de serem reduzidas à mínima expressão possível pela firmeza com que as enfrentou o presidente Uribe, foi nada menos do que um inconcebível insulto a uma nação e ao seu governante. Uribe, que difere de Lula por falar pouco e fazer muito, não poderia fingir que não ouviu a afronta.
Ele replicou com a mais dura mensagem já dirigida a um chefe de Estado brasileiro, até onde chega a memória. "O presidente da Colômbia", dispara a nota, "deplora que o presidente brasileiro, com quem temos cultivado as melhores relações, refira-se a nossa situação com a Venezuela como se fosse um caso pessoal." Uribe ainda o acusou de ignorar a ameaça que a presença das Farc na Venezuela representa "para a Colômbia e o continente".
Trata-se da primeira demonstração da perda de respeito por Lula no exterior - e ele só tem a culpar por isso a sua irreprimível logorreia. Não terminasse o seu mandato daqui a 5 meses, a erosão de sua imagem internacional só se intensificaria. Não seria de espantar se um dia alguém o admoestasse, como o rei da Espanha, Juan Carlos, fez com o bravateiro Chávez, perguntando-lhe: "Por qué no te callas?" Não bastasse a grosseria, Lula nada fez para assegurar aos colombianos de que poderia ser um intermediário isento entre Bogotá e Caracas.
Ele parece ecoar a batatada do chanceler venezuelano Nicolas Maduro, que falou de "um plano de paz sul-americano" para resolver "a questão de fundo" da Colômbia com as Farc. Ao que o seu colega colombiano Jaime Bermudez contrapôs ironicamente a ideia de um hipotético "plano de democracia para a Venezuela". Pensando bem, talvez fosse mesmo melhor Lula se ocupar do Irã em vez de fazer papelão perante os vizinhos do Brasil.

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