Uma pesquisa revela os sete pecados à mesa dos gordos brasileiros
Adriana Dias Lopes
Acaba de ser concluído o maior e mais minucioso levantamento sobre os hábitos alimentares dos gordos brasileiros. Realizada pelo instituto Toledo & Associados, a pedido da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, a pesquisa revela um cenário preocupante. Eles fazem tudo errado – comem muito e rápido demais, preparam mal os alimentos e, aos sábados e domingos, exageram ainda mais na comilança. "Essas pessoas não têm noção do risco que correm", diz o cirurgião Luiz Vicente Berti, coordenador do estudo. "Com esse tipo de comportamento, é como se estivessem sentadas sobre uma bomba-relógio." Ao todo, foram entrevistados 2.179 homens e mulheres, de 18 a 65 anos, das cinco regiões do país e pertencentes às classes de A a E. Metade deles estava pelo menos 5 quilos acima do peso ideal. Por essa amostragem, conclui-se que o contingente nacional de adultos com sobrepeso é de 60 milhões de pessoas. Quanto aos obesos, aqueles com mais de 10 quilos além do desejável, estima-se que somem 15 milhões. A seguir, os sete pecados mais comuns cometidos à mesa pelos gordos brasileiros.
A TV como companheira
Ilustrações Orlando
Indagados sobre o local preferido para fazer as refeições, os gordinhos e obesos foram unânimes: em frente à televisão. "Isso não é recomendável para quem tem de perder peso", diz o endocrinologista José Antonio Marcondes, do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. "É fundamental prestar atenção nos alimentos que estamos ingerindo, de modo a fazer as escolhas mais acertadas, o que na frente da televisão é impossível." O correto é iniciar as refeições com os alimentos de difícil absorção, como as fibras presentes nos legumes e verduras. Eles ocupam bastante espaço no estômago, o que favorece a sensação de saciedade. Quando as refeições são feitas à mesa, as pessoas tendem a se servir de porções menores, aos poucos e na ordem certa – a salada, o prato principal e a sobremesa. Já em frente à TV, o comum é colocar, de uma única vez, todo tipo de comida no prato, e em maior quantidade.
Refeições ultra-rápidas
Somado, o tempo dedicado às três principais refeições é inferior a uma hora. O café-da-manhã é devorado em doze minutos, em média; o almoço, em 22 minutos; e o jantar, em 21 minutos. Cada uma das refeições deveria durar pelo menos o dobro disso. Um processo de mastigação mais lento é essencial para que o cérebro receba a mensagem de que é hora de cruzar os talheres. Quando o alimento é ingerido muito rapidamente, o estômago não tem tempo de transmitir a informação de saciedade ao sistema nervoso central.
Descanso regado a gordura
Quando chega o fim de semana, seis de cada dez gordos liberam geral. Eles gostam de empanturrar-se de refrigerante e churrasco – em geral, aquele em que o espeto sai do fogo pingando gordura. Quem precisa emagrecer tem de controlar o apetite todos os dias da semana. Sábados e domingos de comilança só são permitidos para os que estão em forma. "No caso das pessoas acima do peso, não adianta controlar a alimentação durante a semana e soltar o freio nos dias de descanso. Mudanças drásticas no padrão alimentar desregulam o metabolismo, fazendo com que ele funcione mais devagar e, com isso, queime menos calorias", diz o cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, do Hospital do Coração, em São Paulo. Depois de uma variação abrupta na dieta, são necessários até três dias para que o ritmo metabólico volte à velocidade anterior.
Preparo inadequado
A forma mais comum como os gordos brasileiros costumam preparar os alimentos em casa é o cozimento. A princípio parece uma boa notícia em meio a tanta comilança desregrada. Mas é preciso lembrar que o método inclui desde brócolis fervidos a ensopados mergulhados em creme de leite. Não é difícil imaginar o que os glutões preferem. A fritura aparece em segundo lugar, com 52% da preferência de todos eles. Um alimento frito tem o dobro de calorias. Não custa repetir: os alimentos crus e grelhados são os mais saudáveis – levam pouco ou nenhum óleo e conservam mais os nutrientes.
Coxinha, chocolate, biscoito...
Dos brasileiros com sobrepeso e obesos, 42% e 56%, respectivamente, têm o péssimo hábito de beliscar o dia inteiro. E só comem bobagens – coxinha, chocolate, biscoitos recheados e pastel, entre outros quitutes que estouram qualquer controle alimentar. Refeições diárias, de fato, eles fazem poucas – 3,5, em média. Entenda-se por refeição o momento em que a alimentação é a principal atividade. O ideal é que elas sejam cinco, bem distribuídas ao longo do dia: café-da-manhã, lanche, almoço, lanche e jantar. "Se deixamos o organismo mais de três horas sem alimento, ele reage como se fosse passar fome e retarda o ritmo do metabolismo, o que ajuda a acumular gordura", diz o endocrinologista José Antonio Marcondes.
Pão e arroz
No café-da-manhã, o pão é o alimento mais presente, fazendo parte da refeição de 78% dos gordinhos e de 84% dos obesos. As frutas são consumidas por uma minoria. No almoço e no jantar, o arroz aparece em primeiro lugar. As verduras só estão presentes à mesa de metade deles. Quem está acima do peso tem de controlar – e muito – o consumo de carboidratos. Nesse caso, eles não devem ultrapassar 40% do total de calorias de uma refeição. Numa dieta de 1.200 calorias, por exemplo, isso significa que, no café-da-manhã, é permitido, no máximo, meio pãozinho francês. No almoço e no jantar, apenas uma concha de arroz em cada refeição. E, ao longo do dia, de lanche, uma banana ou meio mamão papaia.
A padaria como diversão
De cada dez brasileiros acima do peso, sete escolheram "ir à padaria" como a principal atividade de lazer. Na segunda posição do ranking dos programas mais divertidos, apareceu o restaurante. Dispensa-se aqui qualquer tipo de comentário: ninguém vai à padaria ou ao restaurante com outro objetivo senão o de comer.
Pregação marxista chega à 7ª série em tradicional colégio católico do Rio de Janeiro
Ronaldo Soares
Reprodução do livro Capitalismo para principiantes, de Carlos Eduardo Novaes e Vilmar Rodrigues
Quadrinhos usados em teste no São Bento: o capitalismo demonizado em sala de aula
O Colégio de São Bento é um dos mais prestigiados do Rio de Janeiro. Fundado em 1858, é conhecido pela qualidade de seu ensino, no qual valoriza particularmente os princípios da religião católica. Tem um rol de ex-alunos ilustres que inclui Clóvis Bevilacqua, o autor do antigo Código Civil brasileiro, e o compositor Heitor Villa-Lobos. É difícil imaginar palco mais improvável para a história que veio a público na semana passada, por meio da divulgação de um abaixo-assinado de pais e ex-alunos indignados. Um professor de geografia da instituição distribuiu, na 7ª série do ensino fundamental, uma apostila sobre o que seriam as origens, o desenvolvimento e as características atuais do sistema capitalista. Tudo ilustrado com quadrinhos como os que se vêem ao lado. São quatro páginas de pregação ideológica esquerdista e simplificações grosseiras e uma de teste para conferir se os alunos – crianças entre 12 e 13 anos – aprenderam a "lição". Qual seja: o capitalismo é um sistema intrinsecamente perverso, no qual os empresários não fazem nada a não ser fumar charutos e pensar em como explorar cada vez mais os trabalhadores. O lucro da atividade econômica é apresentado como um assalto a mão armada, com a legenda: "Lucro é tudo aquilo que o trabalhador produziu, mas não recebeu de volta".
O professor em questão chama-se Paulo Lívio. Dá aula no São Bento, no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e em dois cursinhos pré-vestibulares, além de ser o coordenador de geografia do vestibular da UFRJ. É dos mais queridos pelos alunos do São Bento, o que só aumenta a irresponsabilidade da apostila que distribuiu. Crianças da 7a série não têm discernimento suficiente para identificar o que é apenas uma idiotice esquerdopata – caso da apostila do professor Lívio. Ao contrário. Estão numa idade em que o professor tem sobre elas grande influência e o que ensina é tido como verdade – ainda mais se o mestre em questão faz o tipo bonzinho. Edgar Flexa Ribeiro, presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro (Sinepe-RJ) e dono do Andrews, outro colégio tradicional do Rio, afirma que alunos de 7ª série estão numa fase muito preliminar no desenvolvimento de sua capacidade crítica. Diz ele: "Não imagino que tipo de conhecimento pode resultar do emprego de um material como esse em sala de aula".
Divulgação
Villa-Lobos, ex-aluno: tradição
Lívio, o mestre, usou quadrinhos do livro Capitalismo para Principiantes, de Carlos Eduardo Novaes, da Editora Ática, que faz parte do Grupo Abril. Trata-se de um livro que se autodefine como uma "versão bem-humorada da história dos sistemas econômicos que levaram o povão para o buraco". Foi escrito nos anos 80 e está em sua 27ª edição. É utilizado em escolas como material paradidático. Pode-se discutir se é ou não uma boa escolha – e VEJA acredita que não é. Mas é completamente diferente retirar as ilustrações desse contexto de humor e utilizá-las numa apostila, juntamente com outras de um panfletarismo constrangedor. Uma das mais patéticas acompanha o seguinte texto: "O capitalismo é uma varinha de condão ao contrário: desencanta tudo o que toca". Se vivesse na ex-Berlim Ocidental, provavelmente o professor Lívio seria o único a saltar o Muro no contrafluxo, em direção à extinta Berlim comunista.
O reitor do São Bento, dom Tadeu de Albuquerque, tem uma justificativa que já se tornou clássica. A apostila-teste seria um método para despertar a reflexão dos alunos. "A visão que está ali não é necessariamente a do professor, é apenas uma forma de chamar a atenção dos alunos para o tema", diz. O teste foi aplicado em março e, em setembro, a mãe de um aluno queixou-se à direção do colégio. Segundo dom Tadeu, o próprio professor reconheceu a infelicidade da escolha e decidiu não utilizar mais o material. O colégio tinha dado o assunto por encerrado, o que fez o abade do Mosteiro de São Bento, dom Roberto Lopes, lamentar que dois meses depois a polêmica tenha se tornado pública. É fundamental, no entanto, que absurdos como esse venham à tona. Em boa parte das escolas brasileiras, privadas ou públicas, circulam livros com explícita propaganda ideológica, muitos com aval do Ministério da Educação. Que os pais fiquem de olho como os dos alunos do São Bento. O preço da omissão é criar uma legião de perfeitos idiotas latino-americanos.
Um novo ranking internacional sobre o ensino de ciências mostra um cenário nada animador para o Brasil. Mais de 400 000 estudantes, matriculados em escolas públicas e particulares de 57 países, responderam a uma prova de conhecimentos científicos básicos – e os brasileiros aparecem em destaque negativo no grupo dos piores. Mais precisamente na 52ª colocação (veja quadro abaixo). Esse fato não chega a surpreender. As avaliações para aferir o nível do ensino no Brasil reafirmam a péssima qualidade geral. Na comparação com os outros países as deficiências da educação brasileira parecem ainda mais constrangedoras. A mais abrangente dessas avaliações internacionais é justamente feita pela -OCDE (organização que reúne países da Europa e os Estados Unidos), responsável pelo atual ranking de ciências. Há sete anos a -OCDE testa os estudantes em leitura, matemática e ciências. O Brasil ocupa invariavelmente as últimas colocações. No ranking anterior de ciências, de 2003, o país havia ficado em penúltimo lugar. Nada mudou de lá para cá. No fim do ensino fundamental, os alunos continuam a ignorar a função dos órgãos do corpo humano, encaram com espanto o fato de a Terra girar em torno do Sol, desconhecem o que seja a camada de ozônio e são incapazes de definir a expressão "água potável".
O resultado decepcionante dos estudantes brasileiros em ciências não é exatamente uma surpresa. Um conjunto objetivo de indicadores ajuda a explicar a situação. O mais espantoso deles veio à tona em um levantamento recente do Ministério da Educação (MEC) e diz respeito aos professores. Além de pouco preparados para o exercício da profissão, como todos os outros, 70% dos professores de ciências de escolas públicas ainda carecem de uma especialização na área. Isso mesmo: eles ensinam a matéria sem sequer ter estudado para isso. Outro problema grave é a escassez de laboratórios de ciências nas escolas. Apenas 20% delas dispõem de um. Esse é um limitador para os alunos estabelecerem a necessária relação entre a teoria e a sua aplicação no mundo real.
Como resultado, os jovens ingressam nas faculdades de ciências com deficiências típicas dos primeiros anos do ensino fundamental – e costumam sair for-mados sem ter progredido o suficiente na matéria. A realidade, não há dúvida, compromete a produção científica do país. O Brasil responde por apenas 0,2% dos pedidos internacionais de patentes e está em 43º lugar em um ranking mundial de desenvolvimento tecnológico. Isso numa lista de 72 países. Resume Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, o órgão de apoio à pesquisa em São Paulo: "Milhões de pessoas com uma base científica tão sofrível certamente representam um obstáculo para o avanço tecnológico no Brasil". O ranking da -OCDE chamou atenção para o desastre em 2003 e nada foi feito para mudar o quadro. O novo alerta da semana passada vai também passar despercebido?
A medicina psicossomática deixou de ser um ramo de segunda classe. A influência dos sentimentos sobre a saúde física nunca foi tão pesquisada e o controle das perturbações psíquicas entrou para os receituários clínicos
Anna Paula Buchalla
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O perfil dos somatizadores
20% da população mundial é afetada pelos transtornos de somatização
O distúrbio é mais comum em mulheres e entre elas os sintomas costumam ser mais severos
42,6 anos é a idade média dos somatizadores
40% deles têm depressão
20% apresentam transtorno do pânico ou ansiedade
Os somatizadores estão entre os principais usuários do sistema de saúde: 60% das consultas médicas referem-se a pacientes com queixas sem nenhuma causa orgânica
As principais reclamações são: Dor no peito • Fadiga • Tontura • Dor de cabeça • Dor nas costas • Falta de ar • Insônia • Dor abdominal
É quase certo que, ao demonstrar um desconforto físico, você já tenha ouvido que está "somatizando". Mas o que é exatamente somatização? Trata-se de um processo pelo qual distúrbios de origem psíquica, emocional, traduzem-se em mal-estar, com ou sem causa orgânica definida. Os dez problemas mais relatados pelos somatizadores são dor no peito, fadiga, tontura, dor de cabeça, inchaço, dor nas costas, falta de ar, insônia, dor abdominal e torpor. Não faz tanto tempo assim, a esmagadora maioria dos médicos ocidentais relegava tais pacientes ao limbo de um ramo até então pouco prestigiado da psiquiatria – o da medicina psicossomática. Mas esse quadro começa a mudar.
Muitos clínicos estão dando mais atenção aos quadros de somatização. Eles, agora, procuram escutar os somatizadores da forma preconizada por Maimônides, um médico mouro do século XII: "Uma consulta deve durar uma hora. Durante dez minutos, ausculte os órgãos do paciente. Nos cinqüenta minutos restantes, sonde-lhe a alma". Com isso, passaram a oferecer meios de tratar o seu padecimento atual e evitar os futuros, em vez de se apressarem em livrar-se dos "neuróticos". Além disso, equipes de pesquisadores dedicam-se a tentar desvendar os mecanismos pelos quais as emoções podem resultar em afecções. Vários deles, inclusive, já foram descobertos (veja quadro). Pode-se dizer que a medicina ocidental está revendo o dogma de que sintomas só são passíveis de tratamento se originados em problemas físicos descritos cientificamente. Nesse caminho, segue a trilha da antiga medicina oriental, segundo a qual um sintoma, mesmo sem causa orgânica suficientemente identificada, é, em si, um desequilíbrio a ser curado.
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Convivência pacífica Cientistas japoneses criaram um rato que não tem medo de gato. Essa experiência representa um passo rumo à descoberta de fórmulas para o controle farmacêutico das emoções que causam problemas físicos
Embora desde o grego Hipócrates, considerado o pai da medicina ocidental, haja registros de processos de somatização, o fenômeno só ganhou um nome no início do século XX. O médico austríaco Wilhelm Stekel, um dos pioneiros da psicanálise, lançou a expressão alemã organsprache ("fala dos órgãos") para denominar sintomas físicos associados precipuamente ao lado psíquico. Na versão para o inglês, o termo foi traduzido como somatization, palavra criada a partir do radical grego "soma", corpo. Atualmente, os médicos fazem uma distinção entre transtorno somatoforme e somatização. O primeiro caracteriza-se por queixas físicas recorrentes, mas sem causas detectáveis por exames clínicos ou de imagem. É o caso, por exemplo, de um paciente que reclama de dores de estômago, mas, submetido a uma endoscopia, não apresenta nenhuma lesão nesse órgão. Para que a doença seja diagnosticada como um transtorno somatoforme, é preciso que a pessoa exiba um ou mais sintomas por um período mínimo de seis meses. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 20% da população do planeta manifesta quadros da doença. "Os sintomas são reais. O sofrimento desses pacientes não é menor do que o daqueles que apresentam problemas com causas orgânicas bem definidas", disse a VEJA a psiquiatra americana Lesley Allen, especialista no assunto.
A palavra somatização, por sua vez, hoje é usada especificamente para as doenças identificáveis por meio de exames, desencadeadas por sobrecarga emocional. Certas doenças têm um componente fortemente somático. É o caso de asma, úlceras, fibromialgia, gastrite, alergias e herpes, principalmente. As situações que mais deflagram respostas somáticas são as de stress decorrente de um luto ou de uma separação conjugal. Para não falar da onipresente depressão, é claro. "Na verdade, não existe um só sentimento que não tenha uma repercussão física. O que varia é a intensidade da emoção e a vulnerabilidade do corpo", afirma o psiquiatra Geraldo Ballone, de Campinas.
É freqüente confundir somatização com hipocondria. São coisas completamente diferentes. O hipocondríaco é alguém preocupado em excesso com a própria morte. Seu medo é tanto que ele freqüentemente interpreta um mal-estar passageiro como um sinal de doença grave. O exemplo perfeito é o do personagem de Woody Allen no filme Hannah e Suas Irmãs, que tinha certeza de que suas dores de cabeça eram um sintoma de um tumor no cérebro e, por isso, submetia-se a tomografias da cabeça como quem tira pressão arterial. O que somatizadores e hipocondríacos têm em comum são as idas freqüentes ao médico. "As somatizações são responsáveis por um número muito alto de consultas", diz o psiquiatra José Atilio Bombana, da Universidade Federal de São Paulo. Calcula-se que até a metade de todos os gastos do sistema público de saúde deva-se a somatizações.
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Sentimentos revelados Comportamentos histriônicos ou contidos demais favorecem as doenças psicossomáticas. Entender e expressar as emoções é a melhor forma de se proteger
Do ponto de vista fisiológico, já se sabe que o processo de somatização ocorre no eixo hipotálamo-hipófise-supra-renal (veja quadro). Com o auxílio da medicina molecular e exames de imagem de altíssima precisão, está-se conseguindo mapear em detalhes os canais de comunicação entre o cérebro e os sistemas imunológico e endócrino. A interação entre corpo e mente se dá por meio de uma intrincada rede de hormônios, proteínas e neurotransmissores que não cessam de interagir. Os cientistas querem definir o que ocorre ao certo quando há um descompasso entre o cérebro e esses sistemas, especialmente nos momentos emocionais mais críticos. Apesar de haver uma longa estrada a ser percorrida, ao entender em parte como os sentimentos afetam o organismo, a medicina deu um passo adiante rumo à prevenção e à cura de doenças típicas da somatização.
No plano estatístico, as evidências da relação entre o psicológico e o físico sempre foram elusivas. Não são mais. Dois estudos publicados neste ano, um no Jornal da Associação Médica Americana (Jama) e outro no Archives of Internal Medicine, atestam a conexão. No primeiro deles, rea-lizado com quase 1.000 pacientes, entre 35 e 59 anos, vítimas de infarto que exerciam funções com grande demanda emocional mostraram-se duas vezes mais predispostas a sofrer um novo evento cardíaco. No segundo estudo, o professor de psicologia Sheldon Cohen, da Universidade Carnegie Mellon, analisou 319 artigos médicos que relacionavam emoções intensas com falhas do sistema imunológico. Ele concluiu que tais emoções podem acelerar a progressão até mesmo de males associados à aids. Há também uma pesquisa notável, levada a cabo por médicos ingleses do London College. Depois de acompanharem 9.000 pessoas durante doze anos, eles descobriram que os que tinham relacionamentos íntimos marcados por brigas e conflitos sofriam 34% mais risco de apresentar um distúrbio cardiovascular.
Não se pode incorrer no simplismo de afirmar, como fazem alguns psicólogos, que toda e qualquer doença tem origem nos sentimentos. "Mas é provável que, por determinação genética, haja pessoas mais propensas a ficar doentes por causa de emoções excessivas", diz o psiquiatra Mario Alfredo De Marco, da Universidade Federal de São Paulo. A mesma situação pode ser mais desgastante para uma pessoa e menos para outra, não apenas pelo perfil psicológico de cada uma, mas por efeito de uma tendência genética para reações hormonais mais ou menos fortes. Fatores culturais também são relevantes. Um levantamento aponta que os brasileiros estão entre os campeões de somatização (veja o mapa na pág. 164). "Comportamentos histriônicos ou contidos demais podem resultar no aparecimento de afecções", diz o psiquiatra Bombana.
Estudos mostram que um bom suporte afetivo e determinados tipos de terapia psicológica são capazes de melhorar a resposta imunológica até mesmo em pacientes de câncer. Uma das linhas de pesquisa mais avançadas nessa área é a da professora americana Lesley Allen. Ela defende a terapia cognitivo-comportamental, associada a técnicas de relaxamento, exercícios moderados e uso de antidepressivos, para diminuir a severidade dos sintomas entre os somatizadores. Os antidepressivos, aliás, têm fornecido resultados surpreendentes. Pacientes tratados com esses remédios apresentaram uma redução considerável nas idas ao médico, especialmente aqueles que sofriam da síndrome da fadiga crônica, distúrbio recorrente entre os somatizadores. Outra linha de pesquisa também começa a esboçar-se. No início de novembro passado, a equipe do pesquisador Hitoshi Sakano, da Universidade de Tóquio, criou em laboratório ratos que não têm medo de gatos. Por meio de alterações genéticas, os cientistas conseguiram remover determinadas células do sistema olfativo dos roedores, responsáveis por detectar a presença de ameaças. Ao terem esse grupo de células desligado, as cobaias aproximaram-se de um gato sem manifestar pavor. Essa experiência representa um avanço na direção de remédios próprios para o controle de emoções que podem causar problemas físicos.
Não se trata, é claro, de demonizar o lado sentimental. De sugerir que todos sejamos robôs gélidos. Tanto os sentimentos bons quanto os ruins foram – e são – fundamentais para a preservação da espécie, como demonstrou o naturalista inglês Charles Darwin, o primeiro a estudar de forma abrangente a influência das emoções instintivas no processo evolutivo. Se elas nos trouxeram até aqui, compreendê-las pode nos levar ainda mais longe do ponto de vista da saúde física. Na falta da pílula mágica que tudo amenize ou controle (e com a qual sonhava até mesmo Sigmund Freud, o pai da psicanálise), cabe a todos nós tentar evitar que sejamos possuídos por sentimentos que redundem em sofrimento físico. Expressá-los sem medo é uma boa medida. Dito assim, parece simples. Não é. Até mesmo os pacientes mais articulados encontram dificuldades ao traduzir seus sentimentos em palavras. O escritor americano William Styron, um dos que melhor expressaram a tristeza e a melancolia, descreveu sua dor psíquica constante como "algo tão misteriosamente doloroso que não é possível nem por meio de mediação intelectual chegar perto de uma descrição". Sim, as palavras nem sempre alcançam a alma.
Por uma vida mais serena
As alternativas que comprovadamente ajudam a amenizar os sintomas da somatização, ao aliviar o sofrimento emocional
Meditação Acredita-se que a meditação modula a resposta do sistema nervoso ao stress. Consegue-se isso por meio do controle da ansiedade. O estudo mais recente nesse campo submeteu pacientes cardíacos à meditação e comprovou que eles tiveram uma redução da pressão arterial
Terapias cognitivo-comportamentais O objetivo do método é fazer o paciente aprender a controlar os sintomas. Ou seja, ensiná-lo a evitar a cadeia de reações emocionais que leva o corpo a responder com sinais físicos. Também chamado de terapia breve, é especialmente eficaz para aplacar sintomas clássicos, como taquicardia, tontura e falta de ar
Psicanálise Ainda que nunca tenha criado uma teoria psicossomática, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, foi um dos seus mais importantes precursores. Ao iniciar a prática clínica, Freud percebeu que as manifestações da histeria correspondiam a uma anatomia imaginária. Ao contrário das outras duas técnicas, a psicanálise age na raiz do problema. Nesse caso, faz toda a diferença saber se os sintomas de uma somatização são fruto da história pessoal do paciente. É uma abordagem profunda e complexa, que demanda tempo e disposição para que o paciente se aventure no autoconhecimento. Os resultados desse tipo de terapia para a melhora da saúde, embora mais demorados, já foram provados cientificamente
Avalie se você tem um perfil psicossomático
O questionário abaixo foi elaborado a pedido de VEJA pela psicóloga Marilda Lipp, do Centro Psicológico de Controle do Stress. Responda às perguntas e verifique se o seu modo de sentir e agir é o de uma pessoa suscetível à somatização. Lembre-se de que o diagnóstico preciso só pode ser feito por um especialista
Até 3 pontos: Seu perfil não se parece com o de pessoas que sofrem de doenças psicossomáticas. Você provavelmente é o tipo de pessoa que está em sintonia com suas emoções
De 4 a 5 pontos: Você tem alguma dificuldade de identificar ou nomear as suas emoções. Isso pode resultar em algumas manifestações físicas. Aprender a identificar e dar vazão ao que sente o ajudará a não sofrer desconforto físico diante de problemas que são, na verdade, mais de origem psicológica do que biológica
6 ou mais pontos: Ao que tudo indica, você tem muita dificuldade para entender o que se passa em seu íntimo, de nomear suas emoções e de admitir o que sente. Seu corpo provavelmente mostra sinais de desgaste diante de tanta emoção reprimida. Recomenda-se procurar ajuda especializada
O domingo 25 de novembro deveria ter sido dia de festa no estádio da Fonte Nova, em Salvador. Depois de dois anos na terceira divisão do Campeonato Brasileiro, o Bahia, uma das maiores torcidas do Nordeste, tinha a chance de subir para a segunda divisão. Para isso, bastava um empate com o goiano Vila Nova. Com 60.000 torcedores, o estádio estava lotado. Do lado de fora, outras 20 000 pessoas esperavam o fim do jogo para pular ao som de trios elétricos. O placar ainda marcava zero a zero aos 39 minutos do segundo tempo quando um dos degraus do anel superior da arquibancada cedeu e abriu um buraco de 4 metros de comprimento por 70 centímetros de largura. Doze torcedores caíram por esse vão, a 25 metros do solo. Seis morreram na hora. Um não resistiu aos ferimentos e sucumbiu enquanto era atendido. Cinco escaparam milagrosamente. A tragédia aconteceu tão rápido que não foi notada pelos árbitros, jogadores nem pela maior parte da torcida. Quando o jogo terminou, os torcedores invadiram o campo para comemorar como se nada tivesse acontecido. Demorou meia hora para que a notícia se espalhasse e a festa se transformasse em luto.
As causas do desmoronamento são visíveis. O estádio da Fonte Nova encontra-se em petição de miséria. A manutenção de sua estrutura é vergonhosa. Entre 2002 e 2003, medições feitas com sismógrafos descobriram que, quando a torcida pulava, abalava o concreto das arquibancadas. O governo estadual, dono da Fonte Nova, passou então a limitar o público a 60.000 pessoas, pouco mais da metade da capacidade original. Foi uma medida insuficiente. Para garantir a segurança dos torcedores, era preciso gastar 50.000 reais por mês na manutenção estrutural do estádio. Mas, em 2006, por exemplo, o governo gastou apenas 10% desse valor. No começo deste ano, a Fonte Nova estava tão deteriorada que o governo interditou 75% dos lugares, porque pedaços de cimento da arquibancada superior caíam sobre os torcedores das cadeiras inferiores. Toda a armação de concreto precisava ser reparada, mas foram feitos somente uns remendos. Uma mão de tinta depois, o estádio foi inteiramente liberado.
Há três meses, um comitê do Sindicato das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) fez uma vistoria na Fonte Nova e concluiu que a arena era a mais insegura do país. Sua estrutura encontrava-se seriamente comprometida. Os vergalhões de aço que sustentam o concreto armado estavam expostos por todos os lados. Pontos de infiltração de água brotavam nas arquibancadas. "Não é preciso ser especialista para fazer o diagnóstico. Qualquer leigo, a olho nu, veria que o estádio corria risco", diz o arquiteto Vicente de Castro Mello. O relatório do Sinaenco foi amplamente divulgado, mas o governo baiano não tomou nenhuma providência. Não queria interditar o estádio para não prejudicar a campanha do Bahia e, assim, irritar os torcedores. Além disso, o governador Jaques Wagner simplesmente não sabia o que fazer com a arena. Salvador é candidata a ser uma das sedes da Copa de 2014. Para ser confirmada, precisa ter um estádio decente. Mas Wagner ficou na dúvida se deveria implodir a Fonte Nova e construir um novo estádio no seu terreno, no centro de Salvador, ou se era melhor apenas reformá-lo e erguer um campo novo para a Copa em uma área afastada. Enquanto ele pensava, a arquibancada ruiu. Depois que a tragédia aconteceu, Wagner decidiu implodir a Fonte Nova, mas não puniu nenhum dos responsáveis pela manutenção do estádio.
Além da Fonte Nova, o Sinaenco avaliou a situação de outros 26 estádios situados nas capitais candidatas a sediar jogos da Copa. Hoje, nenhum deles coloca os torcedores em risco. Mas a maior parte precisa ser reformada para que possa ser usada em 2014, mesmo que seja só para os treinos das seleções. Entre os estádios, o Serra Dourada, de Goiânia, é o que está em piores condições. Muitos de seus pilares e algumas das vigas de sustentação estão corroídos. Quando isso acontece, o aço que sustenta o concreto armado enferruja e o material perde resistência. Os arquitetos encontraram vários pontos de corrosão também no anel superior do Mineirão, de Belo Horizonte. O governo mineiro alega que já está fazendo os reparos necessários. A deterioração atingiu até o Morumbi, uma das arenas mais bem conservadas do país. A estrutura de concreto de suas arquibancadas tem pontos de desgaste e outros em que os vergalhões de aço estão expostos. Repita-se: todos esses estádios precisam de manutenção, mas são seguros e não oferecem riscos aos torcedores. "Hoje, esses problemas estão em fase inicial. Só se tornarão graves se ninguém fizer nada nos próximos anos, como aconteceu na Fonte Nova", diz o presidente do Sinaenco, José Roberto Bernasconi.
O problema, claro, não se resume ao torneio de 2014. Há vários casos de risco em estádios menores, que recebem jogos de campeonatos regionais e do Brasileiro. Toda a estrutura do Couto Pereira, do time do Coritiba, no Paraná, apresenta infiltrações e corrosão. O concreto armado do Olímpico, do Grêmio de Porto Alegre, também está em franca decomposição. O Arruda, do Santa Cruz, e a Ilha do Retiro, do Sport, apresentam desgaste na estrutura de sustentação. Para evitar acidentes como o da Fonte Nova, o ministro do Esporte, Orlando Silva, decidiu criar uma repartição para fiscalizar a manutenção das praças esportivas. No Brasil, sempre precisa morrer gente para que providências sejam tomadas.
Fotos Lailson Duarte/Jornal O Popular; Eugênio Sávio/Placar; Rubens Chiri/Perspectiva e divulgação
Os presidentes Hugo Chávez, da Venezuela, Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, compartilham o projeto de modificar as leis para ampliar o próprio poder, a prática de excluir a oposição de qualquer debate político e a estratégia de inventar inimigos externos para dar a impressão de que só o presidente tem a capacidade de defender os interesses nacionais. Nos últimos anos, Chávez tem sido o principal modelo dessa forma de governar. À medida que o projeto populista avança, os três governantes impõem a seus países um perigoso paradoxo. Ao mesmo tempo que abusam dos mecanismos da democracia para destruir o estado de direito, alimentam a instabilidade política que pode destituí-los. O desmanche das instituições democráticas, a condução ideologizada da economia e a promoção do ódio a quem discorda do governo empurram a sociedade para a beira do precipício. Na semana passada, Venezuela, Bolívia e Equador tinham os nervos à flor da pele devido à refundação de suas respectivas constituições nacionais, um dos estágios daquilo que Chávez chama de "socialismo do século XXI". O nome pode ser simplesmente traduzido como um projeto de poder vitalício.
A Bolívia é o mais candente exemplo de uma nação em que o tecido social e a coesão nacional foram levados ao limite da ruptura por um governo aventureiro. Eleito num momento de crise, o presidente Evo Morales decidiu que isolaria seu país numa recriação do império inca, só que desta vez com fundamentos socialistas. Para concretizar a fantasia, iria governar apenas para uma parcela de eleitores preferenciais – os indígenas e os pobres –, e tudo faria para cercear os direitos políticos e econômicos do restante da população, acusada de "oligarquia" e escolhida para bode expiatório das mazelas nacionais. Em busca de músculos para instalar a utopia, Morales inventou de convocar uma Assembléia Constituinte em que seus partidários são maioria. No sábado 24, a Constituinte boliviana reuniu-se em um quartel da cidade de Sucre sem a presença da maioria dos deputados da oposição e aprovou às pressas o índice da nova Carta Magna. Essa institui, entre outras novidades, a possibilidade de Morales se reeleger indefinidamente e a expropriação de propriedades privadas que não atendam ao vago conceito de "função social".
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Protesto contra a reforma constitucional proposta por Hugo Chávez para aumentar o próprio poder reuniu 200 000 manifestantes em Caracas, na semana passada. À direita, a primeira imagem em quatro anos da senadora colombiana Ingrid Betancourt, seqüestrada pela guerrilha comunista em 2002
O resultado foi uma explosão de descontentamento. Protestos tomaram as ruas de muitas cidades bolivianas. Revoltados com a atitude de Morales, seis dos nove governadores convocaram uma greve geral em seus departamentos, como são chamados os estados bolivianos. Nem por isso Morales desistiu da idéia de "refundar" o país, expressão que aprendeu com seu mentor, o venezuelano Hugo Chávez. Eleito em 1998, Chávez é agora o autocrata de um regime espalhafatoso, sustentado com o lucro do petróleo. Uma de suas primeiras medidas foi aprovar em plebiscito uma Constituição escrita sob medida para lhe dar maior poder. Não contente, escreveu uma nova que será submetida a plebiscito neste domingo, 2. Se aprovada, dará ao coronel mandato vitalício e poder ilimitado. Terá ido longe demais? Nas últimas semanas muitos de seus partidários recusaram-se a aceitar a institucionalização da ditadura e pularam para as fileiras da oposição. Na quinta-feira, 200.000 pessoas marcharam em Caracas pedindo o voto contra a reforma.
A mesma estratégia foi adotada pelo equatoriano Rafael Correa. Na semana passada, seus partidários na Assembléia Constituinte votaram a dissolução do Congresso Nacional, eleito democraticamente pelos equatorianos. Com exceção do Equador, onde o presidente ainda está em um estágio incipiente de destruição do tecido social do país, na Bolívia e na Venezuela o cenário beira o caos. Para Morales a situação é especialmente delicada porque, ao contrário de Chávez, ele não tem petrodólares para subornar adversários e comprar o apoio dos pobres. O sentimento separatista começa a tomar corpo na parte mais rica, produtiva e moderna da Bolívia. Os governadores anunciaram a elaboração de uma carta declarando a autonomia de seus territórios, a ser levada a referendo.
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Chávez em comício pelo "sim": uma estratégia é inventar inimigos
Tudo indica que se podem repetir cenas confusas como as da semana passada, quando estudantes oposicionistas tomaram delegacias e roubaram as armas da polícia, obrigando as forças de segurança a fugir de Sucre para o departamento vizinho, junto com o governador. O caos era tão grande que sete dezenas de presos que haviam aproveitado a confusão para fugir da cadeia voltaram, voluntariamente, a suas celas. O presidente tem até o dia 14 para aprovar sua Constituição, prazo impossível de cumprir. Os artigos precisam ser analisados um a um e receber pelo menos dois terços dos votos para a aprovação. Só então o texto poderia ser submetido a um referendo. "Obviamente, os governadores vão se negar a realizar o referendo", disse a VEJA o cientista político boliviano Carlos Toranzo, da Fundação Friedrich Ebert, de La Paz. A revolta dos governadores é basicamente uma manifestação de desespero com a administração ineficiente, caótica e ideologizada de Morales. Depois de nacionalizar as reservas de gás e petróleo no ano passado, apropriando-se de investimentos da Petrobras, o governo não consegue mais atender à demanda doméstica de combustível. Falta diesel para os tratores e caminhões no campo, o que reduzirá a área cultivada em pelo menos 25% neste ano. O ódio ideológico contra os fazendeiros também atrapalha. "Todo produtor rural, brasileiro ou não, é tachado de latifundiário e de oligarca. Só falta a gente ser chamado de criminoso", disse a VEJA o brasileiro Roberto Valle, dono de uma fazenda em Santa Cruz de la Sierra.
A exportação de gás natural também está em perigo. Para cumprir o contrato que assinou com a Argentina no ano passado, a Bolívia teria de elevar a produção de gás em 75%, até 2010. Neste ano, no entanto, o crescimento será de apenas 2%. "O aumento dos impostos, as medidas autoritárias e a mudança forçada dos contratos com empresas estrangeiras paralisaram os investimentos", diz o engenheiro Pedro Camarota, diretor de negócios da consultoria Gás Energy, do Rio de Janeiro. Morales segue a fórmula de colocar a culpa dos problemas do país em um inimigo qualquer, no caso "a elite" ou "a oligarquia". O mesmo faz Rafael Correa, que neste ano expulsou de seu país o representante do Banco Mundial. Na semana passada, em busca de uma polêmica externa às vésperas de um plebiscito de resultado imprevisível, Chávez rompeu relações com Álvaro Uribe, o presidente da Colômbia. Na verdade, o venezuelano tinha metido os pés pelas mãos no papel de mediador de negociações para libertar Ingrid Betancourt. Seqüestrada pelas Farc quando concorria à Presidência da Colômbia, ela está no cativeiro da guerrilha comunista desde 2002. Na quinta-feira passada, um vídeo apreendido pelo Exército colombiano mostrou Ingrid viva, mas magra e abatida.
Sob o comando do austero general William Tecumseh Sherman (1820-1891), o exército ianque empreendeu uma longa travessia de Atlanta, na Geórgia, até Savannah, já na região litorânea, e depois rumo à Carolina do Sul e do Norte, estados confederados. Sherman conhecia bem a motivação central de seus soldados: a pilhagem. Cidades e fazendas foram destruídas para enfraquecer os sulistas, mas também para dividir o butim. Uma das passagens mais terríveis da Guerra Civil Americana – que opôs o norte do país ao sul escravista, entre 1861 e 1865 –, a campanha arrasadora do general da União é o tema de um romance histórico exemplar: A Marcha (tradução de Roberto Muggiati; Record; 416 páginas; 39 reais). Conhecido sobretudo por outra ficção histórica, Ragtime, que se passa nas primeiras décadas do século XX, E.L. Doctorow, de 76 anos, construiu um admirável painel dos dramas humanos precipitados pela guerra. Seu romance examina os personagens – reais ou fictícios – que vivem nas zonas morais ambíguas próprias do conflito.
Sherman é uma dessas figuras contraditórias. Embora seja movido pelo desejo de acabar com a escravidão, ele mesmo é um racista. Os escravos libertos acompanham seu exército como um peso morto, pois o general não admite negros na frente de batalha. Outra personagem, a sulista Emily Thompson, perde o pai e a propriedade na guerra, mas acaba se juntando ao inimigo ianque, como enfermeira, depois que se apaixona por Wedre Sartorius, médico da União. Josiah Culp e o negro Calvin vagam pela região do conflito no exercício de uma nova técnica: a fotografia, pela primeira vez utilizada extensamente para registrar uma guerra.
Nenhum personagem é mais emblemático do que Pearl Wilkins. Filha de uma escrava com o patrão, ela tem a pele branca. Vivendo entre duas raças, dois mundos, Pearl acompanha o exército em busca da liberdade. Travestida de menino do tambor, é adotada por um tenente e depois por um general Sherman atormentado pela perda do filho. Mas logo Pearl retoma sua identidade de mulher negra, unindo-se a um soldado irlandês que teve uma infância pobre nas ruas de Nova York – união que parece ser um esperançoso recado de Doctorow aos Estados Unidos de hoje: a miscigenação como resposta ao racismo. A Marcha, aliás, traz suas alusões subterrâneas ao atual conflito do Iraque. Para Doctorow, o romance histórico funciona como uma metáfora do tempo presente. A Marcha leva o leitor à conclusão de que não existe passado – é sempre agora.