Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, maio 31, 2005

Merval Pereira:O vice se prepara





O fato de o vice-presidente da República, José Alencar, ter anunciado que não será candidato nem ao governo de Minas nem ao Senado nas próximas eleições não significa que ele esteja pensando em desistir da vida pública. Muito ao contrário, há sérios indícios de que ele também está sentindo o “comichão do futuro”, como já definiu o ex-presidente Fernando Henrique com relação ao PSDB, e em Brasília já não é mais segredo que o vice-presidente tem entre seus planos se candidatar à Presidência da República na sucessão de Lula, decisão que será reforçada caso o PL seja mesmo trocado pelo PMDB na composição da chapa da reeleição.

O senador Jefferson Peres, do PDT, ele também um “presidenciável”, se dispõe a apoiar Alencar caso ele confirme a candidatura. Também o deputado Armando Monteiro, presidente da CNI, “desconfia” que o vice-presidente esteja planejando se candidatar à sucessão de Lula.

Às suas pregações contra os juros altos, uma bandeira altamente popular, José Alencar está adicionando críticas mais amplas à política econômica do governo. Ele terá uma reunião hoje com um grupo de economistas de esquerda, todos ligados ao Conselho Federal de Economia, que prepararam um documento intitulado “Política econômica, governança e governabilidade”, no qual defendem políticas econômicas “consistentes com a estabilização, a redução da vulnerabilidade externa e o desenvolvimento” baseadas na expansão do mercado interno, especialmente o consumo das famílias, investimento privado e gastos públicos.

Estarão presentes: Sidney Pascotto da Rocha, presidente do Conselho Federal de Economia; Ney Cardim, vice-presidente; Reinaldo Gonçalves e João Paulo de Almeida Magalhães, conselheiros do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro.

Os economistas convidados pelo vice-presidente consideram “um grave erro estratégico” o governo ter adotado políticas monetária, fiscal e salarial que classificam de restritivas, e implementado medidas de liberalização cambial, comercial e financeira. Eles denunciam no documento que órgãos importantes para a gestão macroeconômica foram entregues “a representantes de determinados grupos dominantes”, numa clara referência a pessoas ligadas ao governo de Fernando Henrique que hoje estão em postos chave da equipe econômica, como o secretário-executivo Murilo Portugal e o secretário do Tesouro, Joaquim Levy.

Segundo eles, as políticas macroeconômicas e medidas tributárias e previdenciárias adotadas pelo governo consolidam um modelo “marcado pela crescente vulnerabilidade externa e exclusão social”. O primeiro resultado desse “grave erro estratégico” é que “a realidade brasileira atual distancia-se cada vez mais de um projeto de desenvolvimento com crescente inclusão social”, e apelam ao nacionalismo do vice-presidente defendendo um modelo apoiado “em bases nacionais”.

As propostas que vão levar ao vice-presidente misturam medidas de ruptura, como uma auditoria na dívida externa, o que levaria à interrupção dos pagamentos, e controle do fluxo financeiro para impedir evasão de divisas. É exatamente o inverso da política econômica adotada pela Fazenda comandada por Palocci. Evidentemente, a redução das taxas de juros é a primeira das 12 medidas que sugerem.

A “redução significativa da taxa de juro básica (Selic), que remunera os títulos públicos”, seria acompanhada de uma mudança de perspectiva econômica, e a taxa de juro passaria a ser focada “no ajuste das contas públicas”.

Segundo os economistas, a taxa de redesconto deve ser desvinculada da taxa Selic e, assim, “quando houver inflação de demanda, o Banco Central passará a usar ativamente a taxa de redesconto, os depósitos compulsórios e o IOF para regular o crédito”.

Eles defendem ainda a interferência direta do governo no mercado, com uma “política de rendas pactuada”. Quando a economia se aproximar do de pleno emprego, diz o documento, o governo estabeleceria “uma política de rendas pactuada, com vistas a assegurar a continuidade do crescimento com relativa estabilidade de preços”.

Eles defendem também uma renegociação dos contratos das empresas privatizadas, para “promover mudanças imediatas no sistema de reajuste das tarifas de serviços de utilidade pública no sentido de eliminar o atual sistema de indexação”. A redução do spread e dos custos dos serviços prestados pelos bancos seria obtida “por meio da implementação efetiva de medidas de defesa do consumidor e de combate às práticas comerciais restritivas”.

O documento defende a “interrupção da captação de recursos externos pelo setor público, recomposição contínua das reservas internacionais como um aspecto estratégico da gestão macroeconômica” e a reversão da atual liberalização cambial e financeira, “via maior controle da conta financeira e de capitais do balanço de pagamentos, para impedir a evasão de divisas”. Prega a intervenção no mercado cambial para atingir “nível real favorável às exportações e à substituição das importações, e compatível com o equilíbrio dos fluxos de capitais externos”.

Entre as medidas para reduzir a vulnerabilidade externa estão um imposto de exportação sobre commodities, a avaliação custo-benefício social dos projetos de investimento externo direto no país, e o controle dos pagamentos no exterior, com o fortalecimento do sistema nacional de inovações.

Chegam a detalhes como sugerir o cancelamento do programa de Parcerias Público-Privadas para “reverter o processo de desnacionalização dos setores de produtos não comercializáveis internacionalmente de modo a reduzir a rigidez das contas externas do país”.

NOTA:Os estudos da consultoria Macroplan que analisei nas colunas do fim de semana estão no livro “Quatro cenários para o Brasil - 2005-2007” (Ed. Garamond).
O GLOBO

AUGUSTO NUNES:O país inclemente com seus órfãos

A brasileira Maria Aparecida Matos protagonizou, durante um ano e sete dias na cadeia, uma emblemática história de horror. Aos 24 anos, acaba de recuperar a liberdade física, por decisão do ministro Paulo Gallotti, do Superior Tribunal de Justiça. O epílogo sensato não dispensa o país de reflexões sobre o conjunto do drama. Inspira justificados temores e obriga à interrogação inevitável: quantos casos similares não arrastaram e arrastam correntes pelos labirintos do sistema penitenciário?

Em maio de 2004, funcionários de uma farmácia em São Paulo surpreenderam Maria Aparecida na tentativa de furtar um xampu e um condicionador. Somados, custavam R$ 24. O salário esquálido de empregada doméstica, mãe de dois filhos, não permitia requintes tão caros. Não tinha aquele dinheiro, mas sucumbira à vontade de cuidar melhor dos cabelos. Cometera o pecado da vaidade.

Analfabeta, Maria Aparecida aprendeu apenas a desenhar o nome. Não lê jornais nem vê noticiários de TV. Não sabia, na semana em que conheceu a primeira das muitas estações do calvário, que três meses antes um figurão chamado Waldomiro Diniz fora filmado protagonizando cenas de extorsão explícita. Tampouco sabia, enquanto policiais a trancafiavam na cadeia feminina, que Waldomiro passeava por supermercados de Brasília, espalhando parcelas da fortuna arrecadada no submundo da gatunagem federal.

Sem dinheiro nem cabeça para pensar em advogados, Maria Aparecida entregou-se às mãos do destino. Foram mãos inclementes quase sempre. Só pareceriam menos brutais depois que a Pastoral Carcerária mobilizou a advogada Sônia Regina Arrojo e Drigo. Teimosa, valente, disposta a enfrentar a loucura codificada, Sônia lutou bravamente, mas em vão, para que Maria Aparecida aguardasse em liberdade o julgamento.

Os guardiães da lei recusaram tamanha regalia a uma reincidente em atentados contra o patrimônio. Em ocasiões anteriores, ela tentara subtrair os mesmos objetos do desejo: cosméticos baratos. A primeira negativa, decretada pela 2ª Vara Criminal de São Paulo e encampada pelo Tribunal de Justiça, prolongou a temporada num viveiro de prisioneiras ferozes. O equívoco judicial lhe marcaria a alma e o rosto. Maria Aparecida conta que perdeu a visão direita e ganhou cicatrizes na face em sessões de tortura estimuladas por carcereiros.

Em abril, a juíza Patrícia Álvares Cruz pronunciou a sentença: por medida de segurança, ao menos um ano de reclusão no hospício. A pena poderia ser estendida por tempo indeterminado se assim recomendasse o resultado dos exames destinados a aferir seu equilíbrio mental. O Tribunal de Justiça encampou a sentença. A essa altura, o caso fora içado da penumbra pelo repórter Gilmar Penteado, da Folha de S.Paulo.

Ele entrevistou Maria Aparecida já transferida para o hospício. "Ela tenta esconder o lado direito do rosto", notou. "Passa a mão pela face, vira a cabeça. E pergunta o que fazer para recuperar a antiga aparência". Sempre vaidosa, garantiu que fora muito bonita. Talvez tenha sido, antes dos vincos que envelhecem precocemente as órfãs do Brasil. Dias depois, já condenada, transpirava aflição. Tinha medo de "virar patrimônio" - ficar ali até morrer, no jargão dos detentos. Livrou-a do lento assassinato o recurso ao STJ.

O caso Waldomiro nem chegou ao fim do inquérito. Ele nunca soube o que é uma noite no catre, experiência repetida 372 vezes por Maria Aparecida. Ainda assim, declara-se feliz. "Parece mentira", sorri. O Brasil parece mentira.

Lula decerto ignora o caso. Só isso explica por que ainda não enviou a Maria Aparecida o necessário pedido de perdão. Com um xampu e um condicionador.
JB

segunda-feira, maio 30, 2005

Aposentadoria FHC

........Fernando Henrique esclarece
Incluído por Carlos Heitor Cony entre os supostos beneficiários da mesma lei que garantiu ao escritor uma controvertida compensação financeira, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu ao colunista para esclarecer seu caso e dissipar equívocos. Segue-se a mensagem:
"Li na coluna Sete Dias publicada pelo JB no último dia 21 referência feita por Carlos Heitor Cony a uma indenização que eu teria recebido em decorrência da lei que fixou reposições para os perseguidos políticos pelo regime autoritário. Em geral não respondo às referências miúdas a meu respeito, feitas por quem não se dá ao trabalho de se informar sobre os fatos. Mas, como se trata de matéria que vem se repetindo, esclareço:
a) não recebi, nem pedi, indenização de qualquer governo por ter sido afastado compulsoriamente da cátedra da Universidade de São Paulo. Recebo apenas proventos proporcionais ao tempo de serviço efetivamente cumprido, na forma do decreto que me aposentou em 1969, somado a ele, pela Lei da Anistia de 1979, o tempo de exclusão. Ou seja, cerca de 2/3 da aposentadoria a que faria jus como professor catedrático, depois das três teses que defendi, como mandavam regulamentos da Universidade de São Paulo.
b) abri mão, quando eleito presidente da República, da aposentadoria a que teria direito como senador. Fui reembolsado apenas da parte que já havia pago para gozar desse direito quando me aposentasse.
c) no Brasil, depois da Constituição de 1988, na ausência de lei específica, os ex-presidentes não têm direito a qualquer pensão, assim como, pelo menos até meu período de governo, não gozavam de qualquer verba de representação.
Grato se puder publicar estes esclarecimentos, despeço-me com um abraço afetuoso,
Fernando Henrique"
JB em 28.11.2004 Coluna Augusto Nunes

Marcos Sá CorrêaE por falar em aposentadoria...

29.05.2005 | Por falar em peru bêbado, onde será que o deputado José Genoíno andava com a cabeça quando disse que os sacríficios do "povo pobre e humilde deste país" servem "para financiar aposentadorias polpudas"de certas pessoas? Claro que ele se referia ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas, se tivesse juízo, o presidente do PT se contentaria em chamar o adversário de "fariseu, despeitado, irresponsável, invejoso, demagogo, preconceituoso, elitista e arrogante".

Isso, em política, não dá briga. Mas aposentadoria polpuda – ou demagógica, farisaica, irresponsável e elitista – não é assunto em que se mexa no governo Lula. Isso, como a corrupção administrativa, não é exclusidade de ninguém na jovem democacia brasileira. Cada um cuida da sua. O presidente da República, por exemplo, é um aposentado precoce. No governo Itamar Franco, a República resolveu indenizá-lo, com a generosidade de sempre, quando se trata de servir os amigos, pelos 31 dias que passou no DOPS paulista por causa de uma greve no ABC.

Lula foi preso em 1981, quando o regime militar estava caindo aos pedaços. Teve tratamento leve. Anos depois, deu uma longa entrevista ao jornalista Augusto Nunes, contando os privilégios carcerários que conseguiu arrancar na época do delegado Sérgio Fleury. Na última campanha eleitoral, havia em seu site na inernet uma entrevista de dona Marisa dizendo que, ao visitá-lo no xilindró, os filhos pensaram que o pai estivesse num hotel.

Podia ser pura bravata. Mas nada disso foi descontado da aposentasdoria especial que emplacou em março de 1996. Especial quer dizer que ela furou o teto do INSS. Aliás, era quase três vezes maior que o limite para os proventos da patuléia. Veio com efeito retroativo a 1988 e direito a atrasados – R$ 56.478,00 – desde 1990. Por que a diferença? Porque em 1988 Lula estava exercendo, com certo enfado, diga-se de passagem, o mandato de deputado mais votado do Brasil.

Ao aposentar-se, Lula tinha 51anos de idade e 26 anos de serviço. Ganhou tempo graças à insalubridade no trabalho, que valeu até para os anos em que ele se dedicava em tempo integral à direção do sindicato dos metalúrgicos. Sete anos atrás, alguém insinuou na imprensa que o arranjo era a sua conversão à maracutaia. "Imoral foi me cassarem, me prenderem e obrigarem a empresa a me demitir", ele respondeu. A aposentadoria especial, em si, era "legítima e justa", por ser "uma conquista dos anistiados".

E ficou por isso mesmo. O assunto poderia estar encerrado, se de vez em quando o próprio governo não cometesse o desatino de revolvê-lo, com fez o deputado Genoíno. Logo agora que está em trânsito pela internet um texto anônimo – tão anônimo como os titulares das "aposentadorias polpudas"de que falou Genoíno – sobre esse tema tão atual e palpitante. É assinado "CM".

"CM" parece bem informado pelo menos sobre endereços na internet, porque já andou até pelos computadores do Ministério Público no Rio de Janeiro. Diz, em resumo, que o campeão dos pedidos de indenização para vítimas da ditadura militar é o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, que está no quarto mandato de deputado pelo PT. Já se ocupou de indenizações que, somadas, tiraram da União 900 milhões de reais. Cobra 30% sobre o valor das causas bem sucedidas. Pode-se não acreditar numa linha sequer dessa denúncia. Mas basta folhear os jornais de todo dia para sentir que a tal herança maldita do regime militar está virando um grande negócio.

no mínimo

Tudo o que você gostaria de saber sobre a CPI dos Correios



Pelos cientistas políticos Murillo de Aragão e Cristiano Noronha da empresa de consultoria Arko Advice:
1.Quais são os próximos passos da CPI?
Os líderes terão que indicar os membros da comissão. Não há um prazo rígido definido pelo Regimento Interno do Congresso. Fala-se em até 30 dias. Conforme afirmou na semana passada o presidente do Senado, Renan Calheiros, o prazo é o do bom senso.

2. Se os líderes não indicarem nomes para integrar a CPI, o que acontece?
A tarefa caberá ao presidente do Congresso Nacional. O Regimento Interno do Congresso impõe data limite para que sejam feitas as indicações pelo presidente.

3. Havendo indicação de membros, a comissão funciona automaticamente?
Não. É preciso que haja quorum. No primeiro encontro, presidido pelo parlamentar mais velho presente à reunião, é feita a eleição do presidente. O quorum mínimo para a primeira reunião é de metade mais um do total dos membros da comissão. Portanto, como ela é composta de 32 parlamentares, é necessária a presença de pelo menos 17 congressistas. Depois de eleito o presidente, as reuniões seguintes podem ser feitas com um terço dos membros, ou seja, 11.

4. Com que partido ficam a presidência e a relatoria?
O presidente é eleito. O relator, escolhido pelo presidente eleito da Comissão. Entretanto, há uma regra informal que diz que, como se trata de Comissão Mista, um dos cargos fica com o maior partido na Câmara, no caso o PT, e o outro com o maior partido no Senado. Como PSDB e PFL formaram um bloco (juntos, os dois partidos têm 29 senadores; o PMDB tem 22 senadores), um dos cargos pode ficar com a oposição. O governo estuda uma forma de entregar os dois cargos a seus aliados.
Havia também outra regra segundo a qual o maior partido da Câmara teria direito à presidência da Casa. O PT acabou perdendo o cargo para o PP. O mesmo poderia acontecer na CPI. Como o governo tem maioria na comissão, poderia derrotar a oposição no voto. Isso poderia gerar mais turbulência. É preciso agir com muita prudência.

5. Qual a composição da Comissão?
O governo tem maioria. São 19 integrantes da base e 13 representantes da oposição. Isso significa que o governo pode evitar a primeira reunião da comissão, quando o quorum mínimo para abrir a sessão será de 17 parlamentares.
Como para as reuniões seguintes são necessários apenas 1/3 dos membros da Comissão (11), será mais difícil para o governo evitar o funcionamento da CPI.
Por ter direito a sete cadeiras, o PMDB será fundamental para o governo manter o controle da comissão. Mais uma vez o Palácio do Planalto está dependente do partido.

6.Quando a CPI deve começar a funcionar?
É imprevisível. O governo tentará adiar o seu funcionamento até o final de junho. Como haverá recesso em julho, espera que as férias do meio do ano possam esfriar o clima político no Congresso. Ao mesmo tempo, poderá acelerar as investigações por meio da Polícia Federal, Ministério Público e Corregedoria Geral da União. Desta forma, o governo esvaziaria a utilidade da comissão.

8. O governo ainda pode, de forma regimental, derrubar a CPI?
Sim. O deputado João Leão (PL-BA), vice-líder do governo no Congresso, apresentou questão de ordem na qual afirma que o requerimento da oposição é genérico ao passo que a Constituição exige fato determinado para criações de CPIs. A questão de ordem será examinada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, que é presidida pelo deputado Antonio Carlos Biscaia (PT-RJ).
Caso o requerimento seja aprovado pela CCJ e pelo plenário do Congresso, a CPI poderá ser evitada.

9. Quais as chances de sucesso dessa estratégia?
Pequenas, embora não inexistentes. O governo terá que enfrentar duas batalhas: uma na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara e outra no plenário. A segunda é mais difícil. Assim como não houve disposição de parte expressiva dos parlamentares de retirar suas assinaturas para evitar a CPI (especialmente de senadores), pode não haver para votar a favor da questão de ordem do deputado João Leão. Será mais uma estratégia do governo para, pelo menos, postergar o funcionamento da Comissão.

10. Há relação entre a CPI e a sucessão presidencial?
Sim. O próprio presidente Lula admitiu isso durante viagem ao Japão. A oposição espera mostrar que existe corrupção no governo Lula. Espera que a CPI atinja o Planalto, direta ou indiretamente.

11. Caso a CPI venha a funcionar, quais os riscos para o governo?
O primeiro deles é desgastar a imagem do governo e do presidente Lula, desde que se confirmem casos de corrupções nos Correios. Ficará a sensação de que o palácio estava protegendo irregularidades. Uma vez descobertos casos de fraude, a oposição poderá sair fortalecida, pois defendeu desde o início a apuração das denúncias.
Outro risco é a ampliação do escopo das investigações para outras estatais, em vez de restrita apenas aos Correios, com eventual participação de aliados e pessoas ligadas ao governo, direta ou indiretamente, no escândalo.

12. Como o governo pode evitar esses riscos?
Não há como evitá-los totalmente, e sim minimizá-los. Para tanto, terá que escolher os parlamentares mais fiéis de sua base para integrar a comissão.

13. Há risco de a CPI, uma vez em funcionamento, por em risco a reeleição de Lula?
Pequeno. A não ser que seja descoberto um esquema de corrupção que envolva diretamente o Partido dos Trabalhadores ou algum membro do governo muito próximo ao Palácio do Planalto. Entretanto, é indiscutível que a imagem do governo já está abalada com o caso.
Blog Ricardo Noblat

Com todos os méritos

O presidente nacional do PT, José Genoino, acabou de dizer no Bom Dia Brasil da Rede Globo que o PT não ficará com fama de "abafador de CPIs".
Salvo engano, o PT tentou abafar a CPI dos Bingos que, em breve, o Supremo Tribunal Federal mandará que seja instalada. A CPI foi criada, mas os líderes do governo e dos partidos que apóiam o governo se recusaram a indicar seus membros.
Também salvo engano, o PT tudo fez para que a CPI do Banestado não desse em nada ou acabasse em pizza. Foi mais ou menos isso o que aconteceu.
E, salvo alucinação coletiva, o PT usou todos os meios possíveis para impedir a criação da CPI dos Correios.
Ora, o PT virou abafador de CPIs, sim. E com todos os méritos.
BLOG Ricardo Noblat

FERNANDO RODRIGUES:A gênese da crise

FERNANDO RODRIGUES:A gênese da crise TÓQUIO - Lula teve um almoço com brasileiros no sábado, em Nagóia. Era o último trecho de seu giro pelo Oriente, depois de visitar Seul (Coréia do Sul) e Tóquio (aqui no Japão). O petista estava animado. Saiu da Ásia deixando um saldo de dezenas de acordos e memorandos assinados. Os contratos podem resultar em investimentos de US$ 4 bilhões com os coreanos e US$ 2,1 bilhões com os japoneses. A conferir.
Na frente dos brasileiros locais em Nagóia, Lula fez um auto-elogio. "Enquanto tinha gente que viajava para o exterior para receber título de doutor honoris causa, eu viajo para vender e promover o país."
Mais adiante, o petista atacou Fernando Henrique Cardoso de maneira mais direta. Disse que o tucano "se perdeu" ao ter entrado no projeto da reeleição. Nesse ponto, Lula voltou a repetir seu raciocínio sobre o tema. Acha que só vale a pena se: 1) houver segurança de que um segundo mandato será melhor que o primeiro e 2) se não for necessário fazer o que chama de "alianças espúrias".
Tem chamado a atenção nas observações mais recentes de Lula a freqüência com que ataca FHC. O petista também repete à exaustão sua tese sobre reeleição.
A animosidade contra FHC é natural. O tucano provoca. Já no caso da reeleição, é difícil perscrutar a cabeça do presidente. Quando fala em não fazer "alianças espúrias", fica uma dúvida: será que Lula considera coerentes os acertos que fez com o PP (ex-Arena e partido de Paulo Maluf) e PTB (Roberto Jefferson)?
Essa confusão mental do presidente da República é a gênese de todos os desacertos na área política de seu governo. Assim como não vê nada espúrio em defender o PTB, só enxerga problemas nos outros. Muitas vezes, a crise se instala por causa da análise errada que o governante faz da conjuntura. Além da dificuldade para admitir seus desacertos.
folha de s paulo

VINICIUS TORRES FREIRE:Choque ético, urubus e economia

 SÃO PAULO - A dita esquerda do PT tem feito troça involuntária e de mau gosto da gestão Lula ao reivindicar um "choque ético" no governo. Uma das pantomimas finais e desesperadas do governo Collor foi a nomeação de um "ministério ético" (isto é, Collor parecia dizer ao país que, até então, seu ministério fora um conluio de bucaneiros e salteadores).
Afora o ridículo inadvertido da lembrança de Collor, a esquerda do PT faz o teatro habitual. Na melhor das hipóteses, Lula vai eletrocutar só urubus mais evidentes, que rapinam licitações nas estatais. De resto, se quiser manter a aparência de que governa, terá de refazer seu pacto com o grão-urubu de cada partido satélite (PTB, PP, PL), nas condições desvantajosas que são a de um governo sistematicamente derrotado no Congresso e acuado na opinião pública.
Mas esse "pacto de governabilidade" está garantido (vamos dar esse nome generoso à feia barganha que virá)? Como acalmar os urubus em meio à zoeira da CPI? Não há como evitar baixas na "base aliada", por mais controle que o governo venha a ter da CPI dos Correios. Quanto mais tiros certos da CPI, mais baixas na "base aliada", maior o custo dos pedidos dos urubus. Por outro lado, quanto mais controle governista da CPI, mais agitação oposicionista haverá. Ou PSDB e PFL consideram que já aproveitaram o bastante da crise e vão se acalmar?
Isso tudo se passa em um momento em que o impulso de 2004 e torrentes de crédito popular ainda sustentam a economia. Apesar da obstinação alucinada do Banco Central, os juros ainda não embicaram a produção para baixo, o que pode começar a acontecer agora, em meados do ano.
Pode ser que a economia baixe suavemente e, mesmo na pior das hipóteses, o pleno impacto da desaceleração na vida do povo comum ocorreria mais tarde, no último trimestre. O governo tem algum tempo, pois, para se recuperar das tolices políticas antes de enfrentar os efeitos das tolices econômicas. Mas tem feito esforços para enganchar uma crise na outra.
folha de s paulo

DISPUTA PELO CONTROLE

 Depois do naufrágio de seus esforços para impedir a instalação da CPI dos Correios, o governo parece ter tomado consciência de que novas táticas para bloquear a investigação parlamentar estão fadadas ao insucesso. É provável que a base governista procure, mesmo assim, criar o máximo de dificuldade possível, com o intuito de ganhar tempo até o recesso parlamentar de julho. Nessa hipótese, a CPI seria instalada no segundo semestre, oferecendo ao Planalto uma oportunidade de "esfriar" o assunto.
Essa estratégia lembra a utilizada em relação à CPI dos Bingos, que terminou por ser objeto de um recurso ao STF (Supremo Tribunal Federal). No entanto, o presidente do Senado, Renan Calheiros, já emitiu sinais claros de que não repetirá os atos de seu antecessor, José Sarney, que naquela ocasião preferiu se omitir nas indicações de parlamentares.
Enquanto deflagra uma operação de caça às bruxas, para pressionar e punir seus rebeldes, o governo petista deve concentrar-se na tentativa de indicar o relator da CPI. A comissão será composta por 32 membros -19 da situação e 13 da oposição. A presidência caberia às legendas governistas e a relatoria às agremiações oposicionistas. O grupo formado por PFL e PSDB já sugeriu um nome para a função -o senador César Borges (PFL-BA). Mas o que se apurou das conversas entabuladas ontem, após a chegada do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de sua visita à Ásia, indica que o governo insistirá em seu intuito de controlar a relatoria.
Caso venha a obter o que pretende, o Planalto ganharia mais margem de manobra para circunscrever a CPI e suas conclusões aos aspectos que considera convenientes, evitando desdobramentos indesejáveis. A dinâmica dessas comissões, porém, nem sempre segue um roteiro prévio, que possa ser inteiramente controlado pelos que a dirigem.
O que o país espera e precisa é que o inquérito seja conduzido com seriedade e que os fatos venham a ser esclarecidos, sem tergiversações e acordos espúrios de bastidores.
folha de s paulo editorial

Lucia Hippolito: José Dirceu criou um monstro. Ou mais de um

"O ministro José Dirceu virou uma espécie de Judas de sábado de Aleluia fora de época. Está sendo impiedosamente malhado por adversários e por aliados, antigos e novos.
Isto porque José Dirceu foi responsabilizado pela crise política e, sobretudo, moral que atingiu o coração do governo Lula.
José Dirceu é o principal responsável pela crise política? É, é sim, mas não é de hoje. O ministro cometeu um equívoco fatal na montagem do governo. Como principal estrategista político do governo Lula, José Dirceu é um completo fracasso.
A principal tática de Dirceu foi a engorda artificial das bancadas aliadas para construir uma maioria no Congresso, isto porque nas eleições de 2002 o eleitorado não deu ao PT maioria na Câmara e no Senado.
Quando aumentou a bancada do PTB, por exemplo, de 26 deputados para 40 antes mesmo da posse de Lula, José Dirceu tinha que saber que estava criando um monstro. Esta bancada não engordou assim pelos belos olhos do chefe da Casa Civil. Monstros precisam ser alimentados.
Assim também aconteceu com as bancadas do PL, do PSB, do PCdoB. Ideologia não enche barriga, e o ministro sabe disso. Prometeu, e não cumpriu. No mundo da fisiologia, prometer e não entregar é o pior dos pecados.
Mas José Dirceu, acostumado a dar ordens no PT e a comandar um aparelho partidário, achou que era espertíssimo e que ia dar a volta em fisiológicos históricos, acostumados a canibalizar o Estado brasileiro há décadas. José Dirceu achou que era o rei do caqui e fez papel de bobo. Coitado!
No primeiro ano do governo Lula, o talento do ministro José Dirceu para a articulação política foi cantado em prosa e verso. Mas um governo no primeiro ano aprova tudo. Não pelo talento de qualquer ministro, mas pela legitimidade dos milhões de votos que o presidente da República obteve nas urnas.
Nos anos seguintes, tudo fica mais difícil, e aí sim, aparece o talento dos articuladores políticos. Foi quando o ministro José Dirceu colheu os seus fracassos mais retumbantes.
Mas o pobre José Dirceu não deve ser crucificado sozinho. Boa parte da responsabilidade do fracasso deve ser debitada na conta pessoal do presidente Lula.
O ABC de uma política presidencial ensina que não se deve entregar a coordenação política ao chefe da Casa Civil. Isto porque qualquer crise é transferida imediatamente para dentro do Palácio do Planalto.
Qualquer presidente minimamente dotado para a política sabe que o coordenador político tem que ser um parlamentar ou um ministro com gabinete fora do Planalto.
Mas o presidente Lula acha que é um ser iluminado e destinado a reinventar o Brasil. Deu no que deu.
BLOG Ricardo Noblat

Com todos os méritos

O presidente nacional do PT, José Genoino, acabou de dizer no Bom Dia Brasil da Rede Globo que o PT não ficará com fama de "abafador de CPIs".
Salvo engano, o PT tentou abafar a CPI dos Bingos que, em breve, o Supremo Tribunal Federal mandará que seja instalada. A CPI foi criada, mas os líderes do governo e dos partidos que apóiam o governo se recusaram a indicar seus membros.
Também salvo engano, o PT tudo fez para que a CPI do Banestado não desse em nada ou acabasse em pizza. Foi mais ou menos isso o que aconteceu.
E, salvo alucinação coletiva, o PT usou todos os meios possíveis para impedir a criação da CPI dos Correios.
Ora, o PT virou abafador de CPIs, sim. E com todos os méritos.
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The way you look tonight - Lionel Hampton Quartet

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domingo, maio 29, 2005

A última do Lula: um plano de metas para o ano 2022 por Josias de Souza

Não há mais dúvidas: Lula é mesmo uma espécie de caçador que foi à casa da Vovozinha para salvar a Chapeuzinho Vermelho e acabou casando com o Lobo Mau. Mas o presidente talvez esteja enojado da opção que fez. Tanto que encomendou ao camarada-estrategista Luiz Gushiken um plano de metas para vigorar até 2022. Duas décadas de convivência com a desfaçatez é tudo o que Lula e o ex-PT parecem dispostos a agüentar. A paciência do petismo tem limites.

Em carta recebida da Presidência da República, o repórter foi convidado a ajudar a "construir o Brasil do futuro". A mesma correspondência foi enviada a outros 49.999 brasileiros. Todos foram instados a visitar um endereço eletrônico (www.presidencia.gov.br/br3t). Ali, digitando-se uma senha individual, as pessoas são apresentadas a um tal "Projeto Brasil 3 Tempos".

O repórter alarmou-se com a súbita responsabilidade acomodada sobre os seus ombros estreitos: "O projeto depende da sua opinião". Com o auxílio de acadêmicos, o governo elaborou um questionário. Coisa ambiciosa. Aborda 50 temas -da política cultural à nanotecnologia. "Com a sua participação, esses temas serão discutidos, formando o alicerce de um processo de gestão estratégica, que permitirá a construção de um futuro melhor", estimula a mensagem.

Embora sensibilizado com tanta deferência, o repórter achou melhor declinar do convite para participar da ambiciosa empreitada governamental. Súbito, lembrou-se de Stefan Zweig. Autor do livro "Brasil, País do Futuro", o escritor austríaco suicidou-se em fevereiro de 42, em Petrópolis (RJ), por não suportar o presente. Observando a sem-vergonhice dos dias que correm, o repórter por vezes também sente as ânsias da morte voluntária.

A colaboração com Gushiken revolveria perigosamente os subterrâneos da psique do repórter. O id poderia receber mal a idéia. Decerto decodificaria as respostas ao questionário do Planalto como evidências da cumplicidade com o governo. Um governo que, por indigno, não merece ajuda. Seria arriscado. Muito arriscado. Arriscadíssimo. Melhor evitar. Não é hora de apressar o encontro com Stefan Zweig.

Nada como o presente para desacreditar o futuro. Enquanto Gushiken, instalado no terceiro andar do Palácio do Planalto, finge construir 2022, Lula, na sala ao lado, e José Dirceu, no pavimento superior, conduzem operações que destroem 2005.

Poder-se-ia imaginar que o "tour-de-farsa" fosse coisa combinada. Lula e Dirceu mergulhariam o país no caos de propósito, só para que Gushiken pudesse erigir dos escombros uma nação novinha em folha, nascida do zero. O mais provável, no entanto, é que Gushiken esteja mesmo planejando um imaginário Brasil das maravilhas, a ser gerido por uma improvável Alice petista.

Às voltas com as contradições de uma gestão convencional, o ex-PT perde-se num ziguezague incompatível com qualquer sonho de futuro. Ao autorizar o chefão da Casa Civil a ajoelhar-se diante de Roberto Jefferson, ao permitir que sussurre súplicas ao pé do ouvido de Anthony Garotinho, o presidente demonstra que governos, assim como escritores e repórteres, também flertam com o suicídio.

Antes de elaborar o questionário que enviou ao repórter e a outros brasileiros mais ilustres, Gushiken realizou uma pesquisa de opinião. Foi coordenada pelo Instituto de Estudos Avançados da USP. Ouviram-se 104 pessoas. Gente qualificada, com nível superior (100%), doutorado (41%), pós-doutorado (5%) e mestrado (12%). Entre os pesquisados, 80% consideraram que, no futuro, o brasileiro exibirá um sentimento de "crescente intolerância à corrupção na vida pública". A despeito da conclusão óbvia, o governo não hesita em recorrer ao cangaço parlamentar para tentar inviabilizar a apuração da roubalheira que lhe corrói as entranhas.

Hoje, o maior inimigo do ex-PT não é mais a elite conservadora. Tampouco é neoliberalismo. Muito menos o mercado financeiro. O principal adversário do ex-PT é, e nisso vai uma extraordinária dose de ironia, o seu próprio passado. O partido virou um boxeador zonzo. Encontra-se nas cordas. Nos raros instantes em que consegue abrir os olhos, percebe que o adversário que o soca impiedosamente tem a mesma cara do velho PT, aquela legenda combativa de outrora, defensora intransigente da ética.

Nada mais trágico para o "anjo" presumido do que acabar confundido com os demônios que sempre combateu. O petismo é vítima das próprias trapaças. O "triunfo" do ex-PT converteu-se na desgraça do PT. O "sucesso" de um matou o outro. Não há projeto de futuro capaz de subsistir a um presente tão promíscuo.

Um novo Brasil, organizado e sério, exigiria respeito ao erário. Mas Lula achou melhor não correr o risco de melhorar o país. Optou pelo arcaísmo de sempre. Preservou a névoa de atraso que recobre o vale-tudo da predação patrimonialista. A covardia cobra agora o preço da desmoralização.

Por todas as razões, o repórter quer distância do mirabolante plano de metas de Gushiken. Mas, levando-se em conta que está contribuindo com a bilheteria do circo -o "Projeto Brasil 3 Tempos" custará à Viúva cerca de R$ 900 mil-, sente-se no direito de dar um palpite gratuito ao companheiro-estrategista.

Aí vai: se não puder ajudar a consertar o presente, caro camarada, é melhor deixar o futuro em paz. No rumo em que as coisas vão, o amanhã terá o incômodo semblante de anteontem. Em 2022, o país terá retrocedido a uma era muito remota. Não haverá mais PT. Pior: não existirá mais Brasil. Restarão apenas uns poucos hominídeos. Entre eles o "homo petebê erectus" e o "homo dirceu sapiens". Travarão renhidas contendas, para decidir quem controlará o último osso e quem ocupará mais espaços na derradeira caverna, um buraco escuro, úmido e fétido.
 Folha de S. Paulo

Over the rainbow - Jane Monheit

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Governo reabilitou Garotinho -Ricardo Noblat


Garotinho estava no fundo do poço. Ou quase no fundo.
Perdera a guerra contra a violência como Secretário de Segurança Pública do Rio. Perdera no Estado as eleições do ano passado em alguns dos mais importantes municípios. E mais recentemente perdera os direitos políticos - embora ainda tenha tempo de reavê-los para disputar a sucessão de Lula em 2006.
Então o governo resolveu apelar para todos os meios desde que pudesse abortar a CPI dos Correios.
E o ministro José Dirceu, coordenador político in pectore, deixou as diferenças de lado e pragmaticamente apelou para Garotinho.
Somente Garotinho poderia tirar cerca de 15 assinaturas de deputados do PMDB que haviam apoiado a criação da CPI.
O ministro telefonou meia dúzia de vezes implorando a ajuda de Garotinho, segundo relato de Garotinho.
Ouviu que tinha muita cara de pau para pedir procurar a quem tanto o governo maltratara. E ouviu conselhos para não temer a CPI porque todo governo deve satisfações ao Congresso e ao povo.
Garotinho cobrou alto para tirar o traseiro da cadeira.
Como o governo não pagou seu preço, deixou as assinaturas onde estavam e saiu debochando do ministro por aí.
Ficou por cima da carne seca.
Se atacado pelo governo mais adiante, poderá dizerá que está sendo retaliado porque não o socorreu em uma hora difícil.
Quem o imaginava enfraquecido dentro do PMDB será obrigado a admitir que ele continua forte.
Ao cabo, o governo passou um atestado de que Garotinho continua sendo uma peça importante no jogo da sucessão presidencial.
BLOG Ricardo Noblat


O que um diz ter ouvido do outro

D Elvira Lobato, hoje, na Folha de S. Paulo:
"O ex-governador do Rio de Janeiro e presidente regional do PMDB, Anthony Garotinho, voltou ontem a ironizar as tentativas do chefe da Casa Civil, José Dirceu, de obter a retirada da assinatura de deputados ligados a ele do requerimento da CPI dos Correios. Segundo Garotinho, Dirceu é responsável pela desarticulação política do governo Lula.
"Acho que o governo Lula chegou a um grau de confusão política criada pelo ministro José Dirceu. Ele é o criador de toda a confusão", disse Garotinho. "Hoje está claro que as confusões foram criadas por pessoas que eles nomearam. Toda a nomeação passa pela Casa Civil", afirmou.
No programa de rádio ""Bom Dia, governadora", comandado na rádio Tupi pela mulher, Rosinha Matheus, Garotinho disse que Dirceu prometeu apoiar as reivindicações do Estado por maior participação nos royalties do petróleo e pelo desbloqueio de dinheiro da chamada conta B do Banerj, destinado ao pagamento de passivos trabalhistas do antigo banco estadual, privatizado na década passada.
Garotinho reproduziu os supostos diálogos que manteve com o ministro em dois telefonemas, na noite de quarta-feira, intercalando com comentários sarcásticos as frases que atribuía a Dirceu.
Segundo ele, depois de dizer não à primeira proposta feita por Dirceu, o ministro das Comunicações, Eunício Oliveira (PMDB), lhe telefonou avisando que o chefe da Casa Civil tinha nova proposta a lhe fazer. ""Que proposta? Já deixei clara a nossa posição", teria dito Garotinho a Eunício.
Dirceu, disse Garotinho, começou a segunda conversa sugerindo que convencesse deputados de outros Estados a retirar o apoio à CPI, já que ele se negava a fazer tal pedido aos deputados do Rio.
""Garotinho, então faz o seguinte: os deputados do Rio, vai ser muita bandeira, mas tira os deputados de outros Estados, como o deputado Cabo Júlio (MG) ou o Gilberto Nascimento (SP)", teria dito Dirceu, segundo Garotinho.
O ex-governador disse que respondeu à sugestão de Dirceu com um ""negativo". Em seguida, segundo ele, o ministro acenou com apoio às duas reivindicações da governadora. Segundo Garotinho, Dirceu disse: ""Vamos conversar. Estou disposto a ir ao Rio para a gente retomar os entendimentos sobre a questão dos royalties do petróleo".
Rosinha, que entrevistava o marido no rádio, comentou: ""Nesta hora, ele acha que é devido, mas na hora de mandar, não manda".
Dirceu confirmou, por meio de sua assessoria, que telefonou para Garotinho. Disse, porém, que não falou sobre CPI com o ex-governador. Por conta das recentes declarações de Garotinho, o ministro cancelou sua ida ao Rio, prevista para o fim de semana."
BLOG  Ricardo Noblat

Corrupção e consumo conspícuo-RUBENS RICUPERO

Bem no início da Sudene, ao visitar Salvador para inaugurar a primeira sede estadual da agência, Celso Furtado quis dividir o quarto de hotel com seu representante local por achar absurdo que o governo gastasse duas diárias com viagem curta. Recusou a mordomia e só ficaram sabendo o representante, o hoje professor emérito da USP Francisco de Oliveira e nós, presentes, no dia 23, à abertura no Mackenzie da Cátedra Celso Furtado, a quem ele contou a história. Celso era, de fato, assim: figura exemplar de austero servidor do Estado, encarnação da virtude republicana.

O episódio confirma o que escrevi na Folha, na ocasião de sua morte: com ele, desaparecia "o intelectual do outro Brasil". Um país mais modesto e antiquado, não isento de corrupção, mas superior em valores, símbolos e sonhos, que sabia para onde queria ir e encontrava às vezes dirigentes capazes de conduzi-lo.
No luto que ora nos entristece pela República, ao ver como a conspurcaram detentores indignos de mandatos populares, faz bem ao nosso coração de brasileiros saber que tivemos homens públicos do calibre de Celso Furtado.
Celso foi dos primeiros a perceber que, sob a corrupção dos políticos, escondia-se fenômeno subjacente que constitui colossal obstáculo cultural ao desenvolvimento. Em sociedades subdesenvolvidas como a brasileira, as heterogeneidades, isto é, os contrastes de estrutura entre economias diversas praticadas por diferentes regiões e segmentos sociais, geram efeito perverso. Os mais ricos importam do exterior não apenas bens sofisticados mas padrões de consumo disseminados em economias prósperas, que aqui, porém, criam ilhas de luxo em oceano de privações. Pior, boa parte do excedente, da poupança, acaba esterilizada em gastos suntuários, impedindo a acumulação do capital para os investimentos geradores de produção e emprego.
A tendência ao consumo conspícuo não é exclusiva do Brasil e da América Latina, embora tenha sido agravada pelos fatores históricos e culturais que deixaram os invasores holandeses, apesar de provenientes da Holanda da idade de ouro, boquiabertos diante do fausto nababesco das festas dos senhores de engenho. A diferença com outras regiões é que na Ásia, por exemplo, os governos conseguiram, com a política econômica e de impostos, uma combinação de estímulos e castigos que leva o empresário a reinvestir o que ganha na produção. Segundo constatou a Unctad, a lucratividade dos empreendimentos é comparável nas duas regiões. O que muda é a ausência na Ásia da prática brasileira de "empresário rico, empresa pobre", isto é, a retirada pelo dono dos lucros não-reinvestidos, causa da maioria dos colapsos ou das vendas a grupos estrangeiros de empresas modelares. Provas de que a gastança irresponsável continua são a publicação de número inteiro de uma revista dedicada ao consumo conspícuo, rebatizado de AAA, e a inauguração de sede gigantesca de loja seleta que vende mais artigos de luxo que os próprios fabricantes franceses.
Não será isso também uma forma de corrupção que mantém elos obscuros com a outra, a dos que roubam ou subornam? Nem todo consumo conspícuo é fruto de crime, mas é notória a ligação de gastos ostentatórios com lavagem de dinheiro e fortuna súbita oriunda de falcatruas, agora mesmo realçada com a famigerada falência de banco paulista. Nesse sentido, a justa campanha contra os impostos excessivos é incompleta.
Falta dizer que, além de excessivos, os impostos são injustamente direcionados, pois reprimem o acanhado consumo dos assalariados, mas deixam escapar os que não declaram e que deveriam ser taxados na base da mera ostentação de sinais visíveis de esbanjamento. Além de eqüitativa do ponto de vista moral e social, a repressão ao consumo conspícuo só traria benefícios econômicos, já que os esbanjadores não investem, diferentemente dos empresários exemplares, como Olavo Setubal e Antônio Ermírio.
Por trás de tudo, há algo mais inquietante: um caldo de cultura produzido pelo "gosto da cobiça", um ambiente social apodrecido pela perda de valores de solidariedade, pelo abandono da aspiração a uma vida de trabalho e virtude. Quando uma sociedade toda, inclusive os que deveriam guiá-la e sua consciência crítica -intelectuais, profissionais de comunicação-, deixam-se corromper pela obsessão do luxo e dos bens materiais, não surpreende que alguns não olhem os meios de surfar nessa onda. Montesquieu ensinava que a corrupção de um governo começa pela do seu princípio- a honra na monarquia, o medo no despotismo, a virtude na República. Se quisermos restaurar a República, não basta reprimir o vício e o crime. É preciso restabelecer a virtude, redistribuindo o dinheiro do consumo conspícuo para fins sociais mais justos.
folha de s paulo

PSDB passa a se julgar novo porta-voz da moralidade, função do PT na era FHC

Lula e FHC trocam de papel e mudam discurso
JOSIAS DE SOUZA
COLUNISTA DA FOLHA

O escândalo dos Correios operou na cena política uma subversão de papéis. Ao entregar-se a articulações destinadas a asfixiar uma CPI encabeçada pelo PSDB de Fernando Henrique Cardoso, o PT de Luiz Inácio Lula da Silva rompeu o último elo que ainda o prendia ao passado. O tucanato passou a julgar-se o novo porta-estandarte da moralidade.
De acordo com avaliação de FHC, feita em troca de telefonemas com correligionários nas últimas 48 horas, Lula e o PT perderam o que lhes restava de "identidade". O "novo" petismo, que já fora aceito pela elite, que já cedera ao receituário liberal, que já fizera as pazes com o mercado financeiro, sacrifica agora os derradeiros vestígios de seu patrimônio político mais valioso. Um dote que Lula definira no título de um artigo que escrevera para a "Gazeta Mercantil" em 2000: "A honestidade como vantagem comparativa".
No vale-tudo semântico dos últimos dias, certas frases do passado ficaram desobrigadas de fazer sentido. Afirmações como essas:
1) "Estou convicto de que somente as investigações de uma CPI podem esclarecer até que ponto o governo está envolvido nesse mar de lama. E mais: estou convencido também de que somente a mobilização da sociedade vai levar o Congresso a instalar a CPI de que o Brasil tanto precisa" (Lula, em artigo veiculado pela Folha em 31 de agosto de 2000);
2) "Não posso aceitar o pressuposto de que abafei crimes. A leviandade da imprensa e o golpismo sem armas da oposição estão criando um clima de fascismo e terror insuportável. Não para mim, que tenho até instrumentos psicológicos para resistir. Quem pode não suportar é o país" (FHC, em entrevista em "O Globo" no dia 23 de maio de 2001).
Submetidos às novas conveniências, Lula e FHC protagonizam um velho enredo. Só que com as falas trocadas. Levado às cordas da "CPI dos Correios", Lula vê "conspiração e golpe" onde antes enxergava "mobilização" legítima da "sociedade". No exercício regular da implicância ranzinza que caracteriza a prática oposicionista, FHC impinge ao sucessor a mesma pecha de abafador de negócios escusos que ontem considerava intolerável.
"Ninguém abafa mais nada no país", provoca FHC. O ex-presidente recorre a um tipo de armamento retórico que parece extraído do paiol do antigo PT. Reproduz a atmosfera de "terror insuportável" de que se julgava vítima. Valendo-se da metáfora, o líder tucano assestou contra Lula uma imagem ornitológica. Disse que, sob o petismo, o país perdeu o rumo. Tal qual um "peru bêbado em dia de Carnaval." Peru de Carnaval? "De Natal", corrigiria FHC.

Não é de hoje
O fenômeno que desgovernou o governo FHC e agora desvia Lula do bom caminho não é coisa de agora. Vem sendo reproduzido pelo menos desde a gestão de José Sarney (1985-89). Tão logo tomam posse, os diferentes presidentes dividem a máquina pública entre os partidos que se dispõem a dar-lhes suporte no Congresso. O pretexto da "governabilidade" submete nacos do Estado aos apetites de diferentes siglas.
Na entrevista que concedeu ao "Globo" em 2001, FHC foi inquirido sobre a qualidade das "alianças" que se formaram à sua volta. "Precisei avançar com o atraso, uma ironia da história", disse na ocasião. A ironia custou a perda da Presidência para o PT.
Uma vez eleito, Lula recompôs parte do consórcio partidário que se alinhara a FHC. Passou a conviver com políticos que antes chamava de "picaretas". Entre eles Roberto Jefferson, do PTB carioca, protagonista do esquema supostamente montado para extorquir verbas públicas em estatais e autarquias como os Correios.

Rumo a 2006
Ao ceder aos desejos de políticos de reputação duvidosa, Lula conferiu ao balcão das barganhas brasilienses aparência de problema insanável. E reavivou a pretensão do PSDB de retomar o poder na disputa de 2006. Excluindo-se do rol de candidatos, FHC diz em segredo que Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, é o melhor nome para confrontar Lula no próximo ano. Em matéria de assepsia, seria inigualável.
Lula e o PT tentarão refrear o ímpeto moralista do PSDB arrastando o governo de FHC para o centro de uma outra CPI, a do "Setor Elétrico", que irá funcionar simultaneamente à dos Correios. O petismo entra na guerra em desvantagem. Por ora, o maior inimigo do PT é a história do PT.
Confrontados com os ecos do passado, os comentários do alto comando petista soam constrangedores. "A oposição quer ganhar no grito. Os partidos que apóiam o governo e o PT não podem apoiar essa CPI [dos Correios]", diz o ministro José Dirceu (Casa Civil). Logo ele, que, em artigo lançado no sítio do PT na internet, defendera em 2000 a abertura de CPI da corrupção contra FHC.
"Mais uma vez o governo FHC faz de tudo para impedir a instalação de uma CPI", anotara Dirceu, então presidente do PT. "Agora tudo se agravou para o governo e para a aliança política que o sustenta, formada pelos partidos PSDB, PMDB e PFL, sempre com o apoio do PPB e do PTB". Excluindo-se o PSDB e o PFL, este último co-autor do pedido de "CPI dos Correios", todas as siglas citadas pelo ministro encontram-se integradas ao governo Lula.
"Tenho dúvidas sobre a contribuição de tantas CPIs na apuração de fatos relevantes. Muitas são partidarizadas, servem apenas de palanque político", diz Aloizio Mercadante, líder do governo no Congresso. Logo ele que, em 2 de maio de 2001, subira à tribuna da Câmara para defender a investigação dos escândalos do PSDB.
"O dever com a histórica do Brasil é o de viabilizar uma CPI. Ela não pune previamente. Apura, dá transparência", dizia. O Mercadante de 2001 discorria sobre sua experiência na CPI do Collorgate, que teve Dirceu como um dos signatários. A lembrança injeta dose de ironia ao suplício do PT. Roberto Jefferson, que levou o petismo às cordas na semana passada, ganhou notoriedade ao atuar como capitão-mor da milícia que defendia Fernando Collor de Mello na CPI da qual Mercadante costumava se ufanar.
folha de s paulo
Comentário : Josias de Souza esquece - de propósito ou não, de esclarecer que o loteamento do Estado, com a nomeação para cargos técnicos nas estatais de "membros da aliança" jamais aconteceu antes. Da forma em que seu comentário é feito chega a parecer saudades da ditadura. A corrupção implícita na farta distribuição de cartões de crédito para uso dos apaniguados é única na história.A citação de FHC
"Precisei avançar com o atraso, uma ironia da história" está correta - mas a gerencia do Estado não foi entregue a "aliança", PP e PTB não mandavam, e ditavam rumos como agora. Jamais foi dado "cheque em branco" ao "parceiro" Roberto Jeferson.

JANIO DE FREITAS :O nome da crise

 Crise política não resulta de um só fator. Mas, entre os elementos que a provocaram, há sempre um principal, gerador da maioria dos outros que se acumularam e conjugaram.
A derrota do governo na disputa pela CPI dos Correios, com a conseqüente instalação de ares de crise, é atribuída por Lula e José Dirceu ao apoio de parlamentares do PT e do PC do B ao requerimento de inquérito, uns "nove" que se recusaram a retirar a assinatura. Apesar de irrelevante, uma vez que o requerimento apresentou os apoios necessários, o número de resistentes citado pelos governistas merece uma observação: tanto Dirceu e outros podem dizer que faltaram xis, como se pode dizer que sua citação não é verdadeira, porque nada indica quantos, de fato, manteriam ou mudariam de lado.
A aprovação da CPI não é, como tantos dão a entender, "a" crise. É o ponto atual, e por ora culminante, de um desarranjo que vem de muitos meses, em uma seqüência de agravantes cuja culminância anterior foi a derrota do governo para Severino Cavalcanti na disputa pela presidência da Câmara.
Na seqüência do desarranjo, a relevância pode variar, caso a caso, de uns para outros dos fatores. Em todos, porém, um fator permanece entre os de maior influência: José Dirceu. Na útil definição que a gíria proporciona, o trator José Dirceu.
Na derrota vexaminosa do comando governista em torno da CPI, o papel determinante de José Dirceu mostrou-se com clareza total. Levado por sua truculência permanente, precipitou um bate-boca com a oposição que a acirrou, agraciou-a com amplos espaços na mídia, obrigou-a a empenhar-se em uma disputa que de início era só provocação retórica -e José Dirceu nem ao menos sabia com que forças contava. A rigor, veria já tardiamente, não contava, mas para isso tem a saída de outra truculência: culpa um punhado de segundos e terceiros.
A percepção das circunstâncias está nublada no governo, há muito tempo, pelo deslumbramento de Lula (com o poder e, mais ainda, com ele mesmo) e pela truculência de José Dirceu. No caso da CPI, José Dirceu nem ao menos se deu conta de que havia um ingrediente muito forte, ausente, por exemplo, na disputa perdida para Severino Cavalcanti: a opinião pública, ativada pela unanimidade da mídia. José Dirceu tomou o comando da operação abafa e partiu para cima das lideranças partidárias e de muitos parlamentares, sem considerar que os punha diante dessa escolha: o governo já enfraquecido e mais perturbado, além de velho descumpridor de acordos, e, de outra parte, o eleitorado com seu apoio para um gesto valorizador também na tabela palaciana. Era hora de sutileza, não de truculência.
As diferenças de intensidade com que José Dirceu tem aplicado o seu estilo atropelador não alteram a linha que, desde o início do governo, caracteriza a sua ação com o Congresso, com a mídia e no âmbito governamental. Exceto na política econômica, e exceto em termos, José Dirceu não reconhece limites políticos e administrativos à sua interferência autoritária. Se não convém fazê-lo por via direta, interfere por via indireta, valendo-se, inclusive, de porta-vozes ocultos (mas nem tanto) que tem em jornais. Nada na prática política do governo e de Lula é alheio à sua influência incisiva.
Como tático do governo, Dirceu não tem mostrado as habilidades com que formulou a estratégia para Lula. Não é responsável pela "crise da CPI" por ter aprovado o vigarista para os Correios, como o acusa o senador Cristovam Buarque -ele próprio incapaz de dar, em seus tantos pronunciamentos recentes, explicação respeitável para recusar apoio à investigação parlamentar da corrupção. O nome da "crise política" é José Dirceu porque a crise é do governo, e o dedo forte na política do governo, forte demais e certo de menos, vê-se em José Dirceu.
folha de s paulo

ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES:A importância mundial do gás natural

Segundo as estimativas do Ministério de Energia dos Estados Unidos, o crescimento do consumo mundial de gás natural gira em torno de 2,2% anuais. Isso é válido para os próximos 20 anos. Trata-se de uma taxa de crescimento superior à do consumo de petróleo -1,9%- e de carvão -1,6% ("International Energy Outlook 2004, Washington: Department of Energy").
A taxa de crescimento do consumo nos países em desenvolvimento é ainda mais alta -cerca de 2,9% ao ano. Em 2025, o consumo de gás natural nesses países terá dobrado em relação a 2001.
A evolução do consumo desse energético vem sendo acompanhada com muita atenção porque o gás natural constitui um substituto adequado e flexível para o petróleo, que escasseia ano a ano. Ademais, as reservas conhecidas de gás natural são suficientes para o consumo mundial durante 61 anos.
As maiores reservas de gás natural estão no Oriente Médio, no Leste Europeu, na Nigéria e nos países da ex-União Soviética. Mas o Brasil não está mal nesse campo. Pesquisas recentes descobriram reservas substanciais nas Bacias de Campos e Santos, além de outras regiões. E a Petrobras está adiantada na construção de grandes gasodutos. O trecho Campinas-Japeri, por exemplo, estará concluído em novembro de 2005. No próximo ano, a empresa dará início e terminará os trechos Lorena-Poços de Caldas, Coari-Manaus e outros (Ricardo Vigliano, "Cinquenta anos em quatro", Brasil Energia, janeiro de 2005). Trata-se de providências importantes para garantir uma parcela do montante da energia exigida por um país continental que precisa crescer de forma sustentável durante muitos anos.
A participação do governo de São Paulo na exploração e transporte de gás natural tem sido igualmente responsável. Esse energético é crucial para a indústria e, futuramente, poderá se tornar importante para o transporte público coletivo em todo o Estado. Nos últimos anos, os avanços foram significativos. Em 2000, os paulistas consumiam cerca de 3 milhões m3 por dia. Hoje, só a Comgás distribui mais de 12 milhões m3 diariamente.
São Paulo não só dispõe de boas reservas como abriga a maioria das indústrias que produzem os equipamentos para extração e transporte do gás natural. Segundo o secretário de Ciência e Tecnologia, João Carlos de Souza Meirelles, o Estado está se movimentando também na área da petroquímica, procurando consolidar os pólos Mauá-Capuava, Cubatão, São José dos Campos, Pindamonhangaba e Paulínia ("As estratégias de São Paulo para a área energética", Brasil Energia, janeiro de 2005).
Neste momento em que a Bolívia decidiu elevar abruptamente a tributação das empresas estrangeiras que lá operam, é animador saber que as autoridades brasileiras estão pensando seriamente no futuro do Brasil e agindo de forma conseqüente para garantir o adequado provimento de energia para as atividades econômicas, pois sem energia não há produção, exportação, empregos e muito menos receita tributária.
folha de s paulo

VALDO CRUZ:Gosto pela coisa

BRASÍLIA - Cena passada no governo Fernando Henrique Cardoso e relembrada, dias desses, por um ex-ministro do tucano por causa do escândalo dos Correios, protagonizado por um apadrinhado do PTB.
Articulador político de FHC, o então ministro recebia em seu gabinete deputados do PP de Severino Cavalcanti para discutir uma indicação política no governo federal. O diálogo foi mais ou menos esse:
"O nome que vocês estão indicando tem o perfil adequado para o cargo"?, perguntou o ministro. "Claro, é competente, sério, conhece a área", foi a resposta que se ouviu no gabinete.
O ministro quis saber, então, se o apadrinhado era honesto. "Honestíssimo, honestíssimo", bradaram os deputados. "Ah, então não vamos nomear, não. Daqui a um mês vocês vão pedir para trocar."
Real, o diálogo irônico mostra que o governo de plantão sabe muito bem o que alguns parlamentares pretendem com indicações políticas: negócios. Daí alguém honesto não ter perfil para durar no posto.
Óbvio que não podemos generalizar. No governo há funcionários honestíssimos. Mas a série de escândalos dos últimos anos indica também que a praga do fisiologismo é a porta de entrada daqueles em busca de maracutaias.
Não é de hoje que é assim. Boa parte da nossa classe política sobrevive dessa forma. Alguns fazem bem mais do que isso -enriquecem.
Sem maioria no Congresso, o governo Lula também se entregou a essa prática. Mais uma das inúmeras que antes, na oposição, criticava sem dó.
De fato, num governo em minoria congressual é preciso dividir espaço com os aliados. O petismo, porém, foi além dos tucanos. Escancarou a política de distribuição de cargos.
Resignados, os petistas dizem hoje que, infelizmente, não há outro caminho para governar o país. Triste sentimento fatalista. Em determinados casos, trata-se de algo pior: tomaram gosto pela coisa.
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