| A lógica da impunidade |
| Dom Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra, vai ou não rezar uma missa para encomendar a alma do soldado morto? |
| Por Reinaldo Azevedo Sou tentado a endossar as palavras desse inacreditável Jaime Amorim, o chefão do MST em Pernambuco. Também acho que o MST não tem nada a ver com a morte de um soldado e a tortura de outro. De fato. A verdadeira responsável pelos crimes é a impunidade. Quem comanda a impunidade é o governo federal. Quem comanda o governo federal é Lula. O resto é silogismo, leitor amigo. Os sem-terra desrespeitam a lei de forma sistemática, continuada e pública. Nada acontece. Ao contrário. O governo prevarica e não aplica a lei antiinvasão. Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça, já pregou a acomodação tática da Constituição na relação com o MST. Há dias, Lula foi abraçar os invasores da Veracel. Miguel Rossetto, o ministro do Desenvolvimento Agrário, foi à inauguração de uma Escola Superior de Invasões e aplaudiu líderes que defendiam a ocupação de “latifúndio produtivo”, não atentando para a contradição dos termos. O MST impõe leis próprias nos territórios que domina. Ali, não vigem as leis do Brasil. São terras descontínuas de um outro país. Duvido, de fato, que o comando do movimento ache que já chegou a hora de matar policiais. Ainda não. Os assassinos o fizeram porque o ambiente em torno lhes disse que podiam, já que eles podem qualquer coisa e nada acontece. A propósito, quem aparece negando vínculos com as mortes é justamente Jaime Amorim. Se a gente souber quem é Amorim, todo o resto fica claro. Culpar quem?
São inúmeras as histórias, e o jornalismo não se interessa muito por elas, de ajustes de contas que os sem-terra promovem entre si, ora em guerras internas, ora envolvendo grileiros e até proprietários. E todos se mostram interessados em manter longe a lei e a polícia. É um Estado paralelo, onde o MST exerce as funções de Executivo, Legislativo e Judiciário, tendo João Pedro Stedile como juiz supremo, chefe do Parlamento e líder da, literalmente, oligarquia a que pertencem ele próprio, Gilmar Mauro e Jaime Amorim, dentre outros. Raul Jungmann, ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, vai ao ponto quando vê aí o que pode ser uma antecipação do Abril Vermelho prometido pelo MST. Ora, dirão, isso é crime comum; não tem nada a ver com a ação em favor da reforma agrária. Não importa o que motivou a ida dos policiais ao assentamento nem saber se os que mataram um soldado e torturaram outro estavam ou não numa disputa por terra. A questão a ser abordada é o ambiente que lhes disse ser isso possível. O sr. Jaime Amorim, como sói acontecer quando o MST ultrapassa toda e qualquer linha do razoável na disputa política — afinal, o movimento, mesmo sem ser legal, é político, certo? —, se apressa em dizer que nada tem com isso, que sua própria gente deu queixa à polícia contra os perseguidos. Faz de conta que se trata de um confronto entre PMs e um assentado convertido ao banditismo puro e simples. Amorim, que integra um movimento que não respeita a lei, também não respeita a inteligência do próximo: um policial foi morto e outro foi torturado num território controlado pelo Estado paralelo chamado Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Quem é ele?
E, se me permitem uma indagação, lá vai: dom Tomás Balduíno, presidente da Comissão Pastoral da Terra, vai ou não rezar uma missa para encomendar a alma do soldado morto? Pois é: me dou conta de que nem mesmo sei se, para dom Tomás, policial também tem alma.
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Entrevista:O Estado inteligente
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quarta-feira, fevereiro 09, 2005
PRIMEIRA LEITURA :A lógica da impunidade Por Reinaldo Azevedo

Sharon e Abbas anunciam cessar-fogo
DA REDAÇÃO
O premiê de Israel, Ariel Sharon, e o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Mahmoud Abbas, anunciaram ontem um cessar-fogo para interromper a violência que já dura mais de quatro anos na região.
Apesar dos discursos positivos e do aperto de mãos dos dois líderes, o cessar-fogo, assim como tréguas anteriores, corre o risco de fracassar. Grupos terroristas palestinos afirmaram ontem que não têm nenhum compromisso com o fim dos ataques. E não foi assinado nenhum documento formal para decretar a trégua.
O anúncio foi feito em cúpula no balneário de Sharm el-Sheik (Egito), da qual participaram o presidente do Egito, Hosni Mubarak, e o rei Abdullah, da Jordânia.
"Hoje, no meu encontro com o presidente Abbas, nós concordamos que todos os palestinos interromperão a violência contra todos israelenses em todas as partes e, ao mesmo tempo, Israel cessará suas ações militares contra todos os palestinos em todos os lugares", disse Sharon.
"Pela primeira vez há esperança para a nossa região de um futuro melhor para os nossos filhos e netos. Nós temos de agir com cautela. É uma oportunidade muito frágil. Apenas com o fim do terror poderemos construir a paz", disse o premiê. "Israel pretende honrar o direito dos palestinos de viver em independência e com dignidade", acrescentou, pedindo ainda a todos os presentes que "declarem que a violência não terá permissão para matar a paz".
Abbas, por sua vez, afirmou: "Nós chegamos a um acordo com Sharon para cessar todos os atos violentos contra israelenses e palestinos onde quer que estejam". O presidente da ANP disse ainda que a paz significa o estabelecimento de "um Estado democrático palestino ao lado de Israel".
"A calma que prevalecerá em nossas terras a partir de hoje é o começo de uma nova era", disse.
O encontro histórico foi o primeiro envolvendo Sharon e Abbas -na época premiê- desde 2003, quando os dois se reuniram em Ácaba (Jordânia) para lançar o "Mapa do Caminho" (plano de paz apoiado pelos EUA).
Mas desta vez o cenário é diferente, porque não havia mais a sombra de Iasser Arafat, morto em novembro, visto com desconfiança por americanos e israelenses. Além disso, agora Abbas conta com o aval popular, pois foi eleito presidente da ANP em votação democrática há um mês.
Sharon, na cúpula de ontem, convidou Abbas para se reunir com ele em seu rancho em Israel. O presidente da ANP aceitou e, segundo o chanceler palestino, Nabil Shaat, o encontro pode ocorrer em breve. Os dois também irão a Washington separadamente para se reunir com o presidente dos EUA, George W. Bush.
Em Roma, a secretária de Estado Condoleezza Rice, que esteve nesta semana no Oriente Médio, disse que enxerga uma "vontade de paz" na região, mas advertiu que os palestinos devem agir com firmeza para conter a violência contra Israel e contra a sua própria população. Rice admitiu que há limites para a ação das forças de segurança palestinas. "Mas há lugares onde elas podem agir."
Como parte das iniciativas de confiança mútua, que visam a retomada do processo de paz, Sharon disse a Abbas que libertará 900 prisioneiros e transferirá o controle de cinco cidades palestinas na Cisjordânia, começando por Jericó. Os palestinos defendem um número mais amplo de presos libertados.
Reações
Em Londres, o chanceler Jack Straw afirmou que o Reino Unido está disposto a fazer o possível para ajudar os dois lados. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Joshka Fischer, disse que seu país apóia os esforços americanos para resolver o conflito israelo-palestino.
Nas ruas, palestinos e israelenses se mostraram céticos com as promessas de seus líderes no Egito. As transmissões dos discursos de Abbas e de Sharon despertaram pouca atenção. Zaki Issa, 72, dono de um restaurante em um campo de refugiados perto de Ramallah (Cisjordânia), afirmou: "A vida aqui é um inferno, uma cadeia, aceito qualquer solução". O israelense Yonatan Abukasis, que perdeu uma filha de 17 anos em atentado palestino, disse que ainda tem "esperança" na paz.
Egito e Jordânia
Mubarak e Abdullah afirmaram ontem que enviarão para Israel seus embaixadores. Eles haviam sido retirados no fim de 2000 após o agravamento da violência. Israel gostou da decisão, mas criticou a ausência de uma data.
Com agências internacionais
Folha de S.Paulo - Editoriais: "LUTA FEIA" - 09/02/2005
Numa proposta orçamentária que procura reduzir despesas em diversas áreas para manter elevados gastos com segurança, a administração George W. Bush prevê uma firme redução dos subsídios agrícolas a partir de 2006. Caso seja aprovado sem alterações pelo Congresso, o corte nos gastos públicos com a agricultura será de 10%.
A notícia foi recebida com relativo otimismo no Brasil, pois vai ao encontro das reivindicações dos países emergentes em prol de uma maior liberalização do comércio de produtos primários. O tema é um dos principais pontos da atual rodada de discussões da Organização Mundial do Comércio (OMC) e interessa diretamente aos produtores brasileiros.
Os subsídios à agricultura, ao lado de barreiras sanitárias e outras modalidades de salvaguarda, fazem parte de um arsenal de medidas que tornam as regras mundiais de comércio mais favoráveis às economias desenvolvidas. Ao oferecer subsídios a produtores agrícolas, os EUA, assim como a União Européia, fazem com que seus produtos sejam artificialmente mais baratos, anulando as vantagens de outros países.
O Brasil é um dos líderes de um grupo de nações que insiste em não ceder às novas propostas de liberalização dos países desenvolvidos caso não haja uma contrapartida na área agrícola. Essa questão também é um dos principais obstáculos a um acordo do Mercosul com os EUA em torno da Área de Livre Comércio das Américas (Alca).
Segundo o diário norte-americano "Wall Street Journal", além da necessidade de reduzir seu explosivo déficit público, o governo norte-americano já estaria trabalhando, ao propor a redução, com a necessidade de avançar nas discussões da OMC.
Mesmo que seja assim, a proposta ainda terá de ser aprovada pelo Congresso. E os sinais, como resumiu o senador republicano Saxby Chambliss, presidente do Comitê de Agricultura do Senado, são de que haverá "uma luta feia". Não é a outra coisa, aliás, que se tem assistido nas negociações internacionais.
Cocaína e política Cesar Maia
Como forma de sustentar a lucratividade, os narcotraficantes apostam em duas direções. A primeira é criar e ampliar as novas áreas de venda e o Brasil é seu alvo principal. A cada dia, a proporção que corresponde à passagem dos carregamentos para outros países, especialmente europeus, é menor, ao mesmo tempo que cresce, mais que proporcionalmente, a parte que entra no Brasil como mercado consumidor final. A segunda é a pesquisa na engenharia genética com vista à maior produtividade, maior resistência aos herbicidas e maior concentração de substância alucinógena.
Numa recente ação da polícia antinarcóticos colombiana, foram identificados em Sierra Nevada, a 5.600 metros de altitude, cultivos em que a proporção de cocaína sobe de 25% para mais de 90%. No Peru, entre 1995 e 2000, a área plantada de coca passou de 115 mil para menos de 35 mil hectares. Em 2003, já havia subido para 65 mil hectares, quase o dobro. A pasta base de cocaína - PBC -, mesmo a produzida no Peru, era geralmente levada para refino na Colômbia. Com a ação bem-sucedida do governo Uribe, ela se desloca substancialmente para laboratórios na fronteira com o Brasil, para onde é exportada.
As informações da DEA - o Departamento Antinarcóticos dos Estados Unidos - indicam que por esse caminho estariam sendo enviadas ao Brasil 30 toneladas por ano para consumo interno. Estes dados coincidem com os da Polícia Nacional do Peru. As principais rotas para o Brasil estão nas regiões de Ucayali e dos Rios Apurimac e Ene. Carregamentos passam pela região de Marechal Taumaturgo e pela fronteira entre I‡apari e Assis Brasil, no Acre. A Junta Internacional de Controle de Drogas, ligada à ONU, no relatório de 2003 apontou o Brasil como estratégico fornecedor de produtos químicos para o refino de drogas na Bolívia, no Peru e na Colômbia. A Operação Púrpura procurou identificar e reprimir a venda de permanganato de potássio para esse fim. As dificuldades crescentes enfrentadas na produção de coca a partir da pasta introduziram no Brasil vários laboratórios clandestinos de refino. Recentemente, a polícia de São Paulo reprimiu um deles. Estes laboratórios, situados nas proximidades dos centros de consumo no Brasil, diminuem os custos e os riscos, pois facilitam a compra e o transporte dos insumos químicos. O laboratório descoberto pela Polícia Federal em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, em fins de julho de 2003, refinava pelo menos 400 quilos de cocaína por mês ou quase 5 toneladas por ano.
A oferta de crack, inicialmente concentrada em São Paulo, já se difunde pelo Brasil, alargando o mercado e chegando ao consumidor de baixa renda. Pior que a cocaína, o crack é substância brutalizante em seus efeitos, o que explica parte das chacinas e até mesmo assassinatos em família, com cenas de horror. A existência de laboratórios de PBC no Brasil aproximou as redes de produção, distribuição e consumo de drogas, criando e multiplicando um tipo de atacadista antes pouco comum no País. Com isso o mercado brasileiro passou a ser prioritário para os narcotraficantes internacionais. O "efeito balão" citado pode explicar o retorno de movimentos - aparentemente políticos - que criam e criaram, nas últimas semanas, sérios problemas aos governos boliviano e peruano. No primeiro caso, diretamente associado ao plantio, mas apresentado sem associação com o refino, e, no segundo, num discurso nacionalista pelo menos curioso.
No Estado do Rio de Janeiro, um levantamento feito a partir de notícias na imprensa mostra que o número de conflitos em torno do controle das bocas-de-fumo cresceu pelo menos 60% entre 2003 e 2004. As facções, antes concentradas no Rio e em São Paulo, hoje se multiplicam, com outros nomes, em cidades grandes e médias. As gravações entre um jogador de futebol e traficantes mostraram mais uma delas em Feira de Santana. Vitória reproduz com todas as características a dinâmica - narcovarejo, presídios, terror urbano - vista no Rio no ano de 2002. No início dos anos 1990, uma facção - Comando Vermelho - controlava 90% dos pontos-de-venda de drogas. Hoje se pulveriza e controla pouco mais de 50%. Novos comandos surgiram - ADA, TCP, TC - e não há mais a coesão interna que existia, explicando o aumento do número e dos pontos de confronto. E a repetição sistemática em complexos de muitas comunidades geminadas, como na Maré, São Carlos/Turano, Rocinha/Vidigal, Macacos...
Se antes havia alguma dúvida quanto ao grau de envolvimento direto e necessário das forças federais, construindo força policial adjunta ao Exército, além da Polícia Federal, que conta com apenas 6 mil policiais, hoje não há nenhuma dúvida. E, se isso não for feito em breve, terá de ocorrer a fórceps. Ainda há tempo de este drama não se transformar em tragédia. Olhando para a Colômbia, poderíamos dizer: de te fabula narratur.
Cesar Maia é prefeito da cidade do Rio de Janeiro
O Estado de S. Paulo CELSO MING- Aumentar a dose
(1) O exportador pede que o governo tome providências para impedir o tombo do dólar com o objetivo de não desestimular exportações. Assim, se atender ao exportador e as autoridades conseguirem reverter a tendência de queda do dólar, as exportações serão reforçadas e, com isso, maiores receitas em dólares pelos exportadores ajudarão a derrubar o dólar no câmbio interno.
(2) O próprio exportador vem contribuindo para a valorização do real, na medida em que antecipa o mais que pode a liquidação dos seus contratos de câmbio. Há meses, permanece vendido em dólares e comprado em reais.
(3) Quando sai à compra de dólares e, portanto, quando aumenta as reservas; ou quando reduz o peso dos títulos lastreados em moeda estrangeira no passivo público total - o Banco Central não faz outra coisa senão derrubar a chamada vulnerabilidade externa. À medida que reduz a vulnerabilidade externa, aumentam as condições para fortalecimento do real.
(4) O caso russo é elucidativo. A Rússia decretou a moratória de sua dívida em 1998, obrigou seus credores a engolir um calote e, por isso, fez um estágio no inferno financeiro global. Mas, porque tem petróleo e, mais do que isso, porque empilhou reservas externas que ao final do ano passado chegaram a US$ 121 bilhões, os títulos da dívida da Rússia acabam de ser contemplados com o cobiçadíssimo grau de investimento (investment grade) pelas agências de classificação de risco. É esse "carimbo" aposto nos títulos de dívida que abre as carteiras de investimentos dos fundos de pensão dos Estados Unidos. Enfim, quanto mais dólares o Banco Central comprar para incrementar suas reservas, mais perto o Brasil estará do grau de investimento e, portanto, de atrair mais capitais que, por sua vez, concorrerão para valorizar o real.
Os críticos da atual política econômica não estão entre os que se notabilizam por coerência. Os mesmos que exigem que o Banco Central aumente o mais rapidamente que puder as reservas externas são também os que pedem o controle na entrada de capitais. Parece não lhes passar pela cabeça que, ao trancar as portas para os capitais, nem que seja apenas para os voláteis, fica mais difícil acumular reservas.
As coisas poderiam ser resolvidas mais facilmente se o governo aceitasse uma dose maior de superávit primário, hoje de 4,25% ao ano, o que em 2005 chegará a cerca de R$ 85 bilhões, para alguma coisa perto dos 5,5%. ( Superávit primário, como é sabido, é a sobra de arrecadação destinada ao pagamento da dívida pública.)
Quanto mais alto for o superávit, mais os juros da dívida pública podem cair. E, quanto mais baixos forem os juros reais, menos capitais voláteis estarão sendo atraídos para o País. Conseqüentemente, menor será a pressão no câmbio pela queda do dólar.
No entanto, o governo prefere gastar. Aumenta a carga tributária ao insuportável para, em seguida, autorizar a gastança. As despesas não-financeiras do governo foram equivalentes a 16,6% do PIB em 2003 e subiram a 17,4% do PIB em 2004, conforme mostram as estatísticas do Ministério da Fazenda processadas pelo especialista Raul Velloso.
JOSÉ MÁRCIO CAMARGO O Brasil e o risco do petróleo
O Brasil e o risco do petróleo
Após um período de queda, os preços internacionais do petróleo voltaram a subir. Nos últimos dias, porém, recuaram novamente. Diante dessa incerteza sobre o rumo do barril, alguns analistas têm chamado a atenção para o fato de que um aumento dos preços do petróleo, na medida em que gera pressões inflacionárias na economia americana, poderá forçar o Fed (banco central norte-americano) a aumentar a rapidez com que vem elevando as taxa de juros, o que tenderia a inverter o fluxo de recursos para os países emergentes e aumentar seus prêmios de risco, principalmente o do Brasil.A US$ 50 o barril, o preço do petróleo já atingiu níveis próximos aos do início dos anos 1980. A preços de hoje, quando deflacionados pelo PPI dos Estados Unidos, em 1979, os preços correspondiam a mais de US$ 70 o barril. A US$ 50 o barril, os preços já significam um aumento de 150% em relação à segunda metade dos anos 1990, quando permaneceram na casa dos US$ 20 o barril, e de mais de 60% se comparado aos primeiros quatro anos dos anos 2000 (aproximadamente US$ 30 o barril). Sem dúvida, um choque de preços extremamente forte. Esse fato, por si só, já desperta o receio de que a economia americana (e o mundo) venha a repetir as condições de estagflação, como ocorreu na primeira metade dos anos 1980.Entretanto as condições da economia americana no momento são também muito diferentes das daquele período. Em primeiro lugar, no final dos anos 1970, a economia americana apresentava um baixo nível de ociosidade (em 1979, o grau de utilização da capacidade produtiva da indústria era de 86%) e a produtividade crescia a taxas relativamente baixas (nos primeiros anos da década de 1980, a produtividade crescia a taxas abaixo de 1% ao ano). Por outro lado, o país vinha de um período de políticas fiscal e monetária extremamente frouxas por mais de uma década, que resultaram em elevadas taxas de inflação desde meados dos anos 1970 (nesse período, as taxas de inflação chegaram a atingir dois dígitos).Ao contrário, o atual choque do petróleo pegou a economia americana em situação muito mais saudável do que no início dos anos 1980. Em primeiro lugar, após as elevadas taxas de investimento dos anos 1990 e a pequena recessão dos primeiros anos da década de 2000, o grau de utilização da capacidade produtiva é relativamente baixo para padrões históricos da indústria americana (79%).Da mesma forma, a rápida retomada dos investimentos, principalmente em tecnologia, já a partir do final de 2003, sugere que os ganhos de produtividade deverão permanecer elevados, próximos a 3% ao ano. Não é por outra razão que, apesar dos aumentos dos preços do petróleo nos últimos anos, a taxa de inflação ao nível do consumidor, conforme medido pelo Índice de Preços ao Consumidor, o CPI (principalmente o núcleo deste índice), permaneceu extremamente baixa, ao variar de 1% a 2,5% ao ano.Finalmente, os elevados déficits fiscais do presente são um fenômeno relativamente recente (últimos três anos), após vários anos de superávit fiscal.Em tais condições, a possibilidade de que pressões inflacionárias decorrentes de aumentos nos preços do petróleo venham a forçar o Fed a acelerar a trajetória de aumento dos juros é remota, a menos que a taxa de crescimento da produtividade se reduza substancialmente -algo que não parece provável, devido à retomada dos investimentos em tecnologia desde o final de 2003- ou os preços atinjam níveis extremamente elevados.Porém existe um risco ao qual os analistas têm dado pouca ênfase, mas que nos parece mais provável do que o descrito acima, qual seja o de uma queda substancial nos preços do petróleo. A demanda por petróleo na economia americana corresponde a 3% do PIB daquele país. Um retorno dos preços aos níveis que vigoraram em 2003, US$ 30 o barril, representaria uma queda de 40% em relação aos preços atuais. Supondo que a elasticidade-preço da demanda por petróleo na economia americana seja zero, no curto prazo, isso significaria um aumento de renda real disponível de aproximadamente 1,2% do PIB. Como o consumo representa mais de 70% do PIB americano, isso resultaria em um aumento de consumo e, portanto, da demanda agregada, da ordem de 0,8 ponto percentual do PIB. Em lugar da taxa de crescimento de 3,5% a 4% em 2005, que tem sido estimada pelos analistas, o PIB dos Estados Unidos poderia crescer a taxas próximas a 5% pelo segundo ano consecutivo.Um crescimento dessa magnitude, em uma economia com taxas de juros reais próximas de zero, dificilmente seria assimilado sem pressões inflacionárias por duas razões.Primeiro porque tal crescimento teria um efeito negativo sobre o déficit em conta corrente do país, aumentando-o de forma considerável, o que tenderia a gerar mais desvalorização do dólar e fator adicional de pressão inflacionária.Segundo, e mais importante, porque reduziria rapidamente o grau de ociosidade da indústria americana, criando espaço para repasses dos aumentos de custos aos preços dos bens finais e, portanto, pressões inflacionárias ao nível do consumidor, mesmo que a produtividade continuasse crescendo a taxas relativamente elevadas.Nessas condições, o Fed se veria diante da necessidade de elevar as taxas de juros mais rapidamente, antes que essas pressões inflacionárias se materializassem nos índices de preços. E, nesse caso, com o aumento mais rápido dos juros reais, os riscos de uma redução forte da taxa de crescimento e inversão dos fluxos de capitais para os países emergentes e, portanto, para o Brasil, não devem ser minimizados.
Folha de S.Paulo - Rio de Janeiro - Claudia Antunes: Samba da devastação - 09/02/2005
Pois não deve ser atribuído apenas ao feriado carnavalesco o fato de não ter havido indignação maior diante da ação de madeireiros e ruralistas que bloquearam a rodovia BR-163, no Pará, em protesto contra medidas do Incra e do Ibama que deram prazo para o recadastramento de terras na região e suspenderam a exploração florestal em áreas em situação fundiária irregular.
Em sua coluna de domingo no "Mais", Marcelo Leite já previa um recuo do governo. E foi o que aconteceu, pelo menos parcialmente: alguns dos terrenos em litígio serão liberados neste ano para as madeireiras e, embora a portaria que ordenou o recadastramento tenha sido mantida, o Incra concordou em enviar uma equipe à região para receber documentos e analisar caso a caso.
O site "O Eco", que acompanhou a queda-de-braço desde o início, mostrou como fazendeiros com títulos de propriedade irregulares se aproveitaram das reivindicações dos madeireiros quanto à safra de 2005 para tentar manter tudo como está. E o pior: com apoio de boa parte dos prefeitos e políticos paraenses, sob o argumento de que empregos seriam afetados por mais essa tentativa de ordenar a bagunça fundiária na Amazônia.
Se isso não é motivo para uma onda de indignação nacional, fica difícil saber o que pode ser. No entanto, as críticas às concessões governistas ficaram quase restritas às ONGs ambientalistas. Enquanto isso, a população das metrópoles litorâneas sambava tranqüila, sem se dar conta de que nesse passo pode perder até os parques de ecoturismo que lhe servem de alívio para o estresse urbano.
Folha de S.Paulo - Bras�lia - Igor Gielow: Cinco chatices - 09/02/2005
1 - Como o governo vai tocar, de fato, as famosas parcerias público-privadas? Onde os empresários serão recebidos para discuti-las? Em algum fórum aberto e transparente ou em gabinetes recheados de políticos de olho em financiamento para suas campanhas em 2006? Dúvida técnica: como ficará a garantia prevista no projeto para os investidores, segundo a qual eles receberão repasses caso a obra não esteja dando o retorno esperado? No caso da Petrobras, isso deu um prejuízo com termelétricas que pode chegar a R$ 4,1 bilhões.
2 - A grande novidade em política pública de saúde prometida pelo governo, o grupo de trabalho que analisará a descriminalização do aborto, será para valer? Ou vai naufragar nas águas do conservadorismo igrejeiro, nossa versão brejeira do radicalismo cristão da era Bush?
3 - Falando em grupos de trabalho, eles continuarão a pulular às dezenas? A Casa Civil argumenta que eles são instrumento eficaz de discussão, citando o fato de que, dos 25 encerrados com sua participação, 7 pariram leis, portarias ou decretos, e os outros, sugestões às áreas correlatas. Pode ser, mas cada vez que aparece um novo grupo para discutir a sardinha, ou algo assim, a coisa fica com cheiro de embromação ou assembleísmo.
4 - Quanto dinheiro público será despejado na operação de salvar a Varig? Por quanto tempo mais o mau empresário será recompensado?
5 - Servirá para algo além de compor base a reforma ministerial? Ou apenas acomodará aliados inusitados como Roseana e o PP? O fracasso da área social ficará impune?
Por fim, ficam as desculpas pelo azedume. A vida é bem mais doce e interessante do que isso tudo.
Folha de S.Paulo - S�o Paulo - CLÓVIS ROSSI - 09/02/2005
SÃO PAULO - Robert J. Shiller, autor do livro "Exuberância Irracional", ensina economia, em especial mercados financeiros, na mitológica Yale há exatos 20 anos.
Ontem, no jornal "The New York Times", lamentou que "a visão de mundo que as pessoas obtêm em uma moderna escola de negócios pode levar a uma desconexão ética". Pudica expressão essa.
Na verdade, Shiller quer dizer, como explicita depois, que os currículos de matemática financeira ensinam cada indivíduo a "maximizar os próprios ganhos esperados".
"Espera-se que as pessoas sejam totalmente egoístas, constantemente calculando suas próprias vantagens, sem pensar nos outros. Se a premissa é a de que todo mundo roubaria a prataria se soubesse que conseguiria sair com ela (...), é difícil saber quando começar a falar sobre ética."
Não é mera coincidência qualquer semelhança com a brasileira e folclórica Lei de Gerson (lembra-se? É aquela do anúncio de cigarro em que o ex-jogador diz que o bom é "levar vantagem em tudo").
Para Shiller, os escândalos corporativos ocorridos nos anos recentes, em especial nos Estados Unidos, são produto desse, digamos, currículo não-escrito das escolas de negócio.
Bom, agora transponha esse vício de origem ao fato de que boa parte dos economistas brasileiros de maior presença na mídia foi educada nos Estados Unidos. Em especial, os economistas das instituições financeiras que os jornalistas tomam, acriticamente, como gurus infalíveis, exatamente o oposto do que são.
Aí, você tem dois fenômenos acoplados, ambos negativos: primeiro, o fato de que a maior parte desse pessoal engole o que é ensinado em escolas estrangeiras como as tábuas da lei, sem a menor vontade (ou capacidade) de pensar por conta própria. Engole, pois, essa "desconexão ética". Depois, volta para aplicar o aprendido em cima da bugrada pela qual não tem o menor respeito, por se sentir superior.
Dá para revogar a Lei de Gerson nesse tipo de ambiente?
Folha de S.Paulo - Editoriais: O RISCO XIITA - 09/02/2005
A minoritária, liderada pelo atual primeiro-ministro, Iyad Allawi, aprova a idéia de um poder laico. A majoritária, que corresponde a uma coligação de 22 partidos, formada em torno do aiatolá Ali al Sistani, sofre forte influência religiosa.
Embora um moderado, que também defende a separação entre religião e política, Sistani tende a somar forças com xiitas de estirpe mais tradicional, como o xeque Ibrahim Ibrahimi, para quem a Carta do país deve ter como base a "sharia", a lei islâmica, que regularia questões fundamentais como a família, o casamento e o divórcio.
Chega-se, então, a um paradoxo, que já havia sido antecipado por diversos analistas: os EUA fizeram uma guerra, derrubaram o ditador Saddam Hussein, prometeram democracia e, como produto final, podem colher algo semelhante a uma república religiosa islâmica.
O vice-presidente Dick Cheney foi prudente ao comentar esse cenário. Disse que os iraquianos caminham na direção de soluções institucionais que "não se parecem com aquilo que ocorreria em Wyoming ou Nova York". Mas disse também não acreditar que esteja em gestação algo próximo do integrismo religioso.
Resta saber se a rede de mesquitas xiitas e seus aiatolás se deixarão dissuadir pela presença militar norte-americana ou pelo esforço que os EUA farão para que os sunitas, inclinados a defender um Estado laico, se reintegrem ao processo político.
Com essas incógnitas ainda a serem desvendadas, a possibilidade de um poder religioso xiita no Iraque preocupa seus vizinhos predominantemente sunitas -como a Jordânia e a Síria- e anuncia novas dificuldades para os EUA.
Folha de S.Paulo - Editoriais: JARDINS PRIVATIZADOS - 09/02/2005
O prefeito José Serra está interessado em intensificar as parcerias com a iniciativa privada com vistas a ampliar e preservar áreas ajardinadas em São Paulo. O mecanismo não é novo e tem dado bons resultados. Desde a década de 90 os paulistanos habituaram-se a ver placas publicitárias em áreas públicas dando conta de que elas são mantidas por esta ou aquela empresa. Segundo levantamento realizado pela prefeitura, seriam em torno de cem os locais mantidos por intermédio de parcerias.
A idéia do novo prefeito é elevar esse número para mais de mil nos próximos dois anos. Além disso, a troca de serviços por espaço publicitário seria ampliada para outros itens, como a colocação de grades nas laterais de avenidas.
Segundo noticiou esta Folha, a prefeitura já consultou uma série de empresas e agências de publicidade a respeito do projeto. As áreas prioritárias são as avenidas 23 de Maio, Bandeirantes, Cidade Jardim, Paes Leme, Tiradentes e Radial Leste.
Acordos desse tipo, embora positivos, exigem cuidados. Não se trata apenas de uma terceirização, na qual uma empresa privada é paga para realizar serviços que seriam mais custosos à administração pública.
Essa modalidade de parceria também envolve uma venda indireta de espaço público: sem dinheiro para pagar pelos serviços -no caso para preservar ou ampliar os jardins-, a prefeitura propõe que um particular o faça, contemplando-o com o direito de explorar publicidade em determinados pontos da cidade.
Há vários riscos embutidos nessas transações, entre eles o aumento abusivo da publicidade em ruas e edificações e o terreno fértil que se cria para a promiscuidade entre empresas e o poder público.
Esperemos que o prefeito José Serra, ao aumentar a abrangência dessas parcerias, saiba agir com a devida cautela, de modo a evitar que tais riscos se materializem.
Jornal O Globo Editorial Sob suspeita e VIOXX Decisão insensata MARCOS BENCHIMOL
Sob suspeita
Em setembro do ano passado, quando a Merck Sharp & Dohme decidiu retirar do mercado o antiinflamatório Vioxx, porque poderia causar infartos e derrames, abriu-se uma crise sem precedentes. Outros remédios, alvo de denúncias, caíram sob suspeita, e o resultado foi uma inédita perda de credibilidade da FDA, a agência americana responsável pelo licenciamento de todos esses remédios e que, como se revelou, tinha especialistas com vínculos com a indústria farmacêutica.
No Brasil — como em praticamente todo o mundo — as decisões da FDA sempre foram aceitas sem contestação. Havia até a tendência de considerar rigorosos demais os critérios adotados, que alongavam excessivamente o tempo entre a descoberta de um novo medicamento e seu lançamento no mercado.
Não é de admirar que o resultado da situação atual seja a desorientação — não só de pacientes como de médicos. Recomenda-se a todos fazer uso da maior cautela, mas é claro que o conselho só pode valer para os médicos, que mesmo assim pouco mais podem fazer do que evitar, quando possível, receitar remédios novos e recorrer aos antigos e consagrados. Como os novos medicamentos, justamente os que estão sob suspeita, são particularmente eficazes, e os efeitos colaterais indesejáveis surgem com o uso prolongado, presume-se que a adoção de períodos menores seja um cuidado razoável.
É essencial que a FDA e outras agências recuperem sua independência e com ela a credibilidade perdida. Enquanto isso não acontece, os médicos que sejam prudentes e os doentes que evitem a automedicação.
VIOXX Decisão insensata MARCOS BENCHIMOL
Oremédio Vioxx, que permitiu ao laboratório Merck Sharp & Dohme faturar, em 2003, US$ 2,5 bilhões, foi retirado do mercado porque um estudo de 18 meses, com 2.600 pacientes, revelou que ele aumenta o risco de infarto e acidente vascular encefálico.
A medida causou espanto porque o remédio é útil para uma infinidade de situações clínicas com um adequado perfil de segurança, quando utilizado por reduzido espaço de tempo e sob orientação médica precisa. Essa classe de medicamentos (antiinflamatórios não hormonais) age inibindo a produção de substâncias inflamatórias (prostaglandinas) que em determinadas situações podem ter efeitos desastrosos, como reduzir a proteção gástrica e provocar gastrites, úlceras, hemorragias e mesmo perfurações do tubo digestivo. Podem, também, propiciar toxicidade renal, diminuindo a taxa de filtração renal, e ainda elevar a pressão arterial.
O grupo que mais requer este tipo de medicação é o de idosos, que freqüentemente apresentam hipertensão arterial, cardiopatias e processos degenerativos ósteo-articulares, tornando-se altamente vulneráveis às graves complicações deste tipo de tratamento. Como geralmente o “sistema” pressiona os médicos à prescrição farmacológica, é muito comum nossos velhinhos saírem das consultas direto para a farmácia com sua famigerada receita de um antiinflamatório.
Muitos pacientes com processos dolorosos crônicos, como artroses, usam esses remédios sem qualquer cerimônia, e o que é mais absurdo, sob uso contínuo. Mas são eficazes, se usados judiciosamente e durante um pequeno intervalo de tempo, com efeitos adversos escassos e geralmente bem tolerados.
A duração do tratamento, no estudo, foi absurdamente longa, e as complicações cardiovasculares começaram a aparecer somente após 18 meses. Não seria mais sensato advertir na bula que não se fizesse uso contínuo? Afinal, todos os remédios podem ter efeitos adversos. E como esta droga faz parte de um grupo com mecanismo de ação muito semelhante, deve-se retirar do mercado as demais? E os antiinflamatórios de primeira geração menos seletivos? Por que ainda são vendidos?
O uso indiscriminado de remédios e a venda orientada por balconistas de farmácia devem ser combatidos. Mas não se deve “queimar” uma poderosa medicação devido a um efeito adverso não usual na prescrição habitual. Nesta decisão não prevaleceu o bom senso.
MARCOS BENCHIMOL é médico.
Jornal O Globo - Elio Gaspari A luz da MaracuLight
Arma-se uma situação na qual a patuléia terá de ficar entre o financiamento de um mau negócio ou a reestatização da empresa. A Light foi privatizada em 1996 depois de uma tenebrosa transação na qual mudou-se o edital da concorrência, aceitaram-se moedas podres e mexeu-se no sistema de cálculo das tarifas. Tudo isso e mais um telefonema de FFHH para Jacques Chirac, convencendo-o a botar a estatal francesa EDF no lance. Dias antes do leilão o governo brasileiro pagou ao francês US$ 200 milhões de contas antigas. A empresa foi vendida para saciar a sede politica da privataria.
Em apenas dois anos, a EDF desempregou cinco mil pessoas (mantendo seis mil) e devolveu aos seus acionistas 25% do que pagou pela Light. Como reconheceu o supertucano Sérgio Motta, o negócio fazia parte de um bolo de transações elétricas que “envergonha o processo de privatização”.
Se a Light passa por dificuldades isso se deve ao fato de ter acreditado na existência do dólar de R$ 1,20 e de ter comprado outras distribuidoras com expectativa de lucros futuros. Se isso fosse pouco, depois de ter sentido o gostinho do dinheiro nos dois primeiros anos, a matriz francesa desinteressou-se de um negócio que rende pouco ou dá prejuízo. Em português claro, a compra da concessão da distribuidora de energia para a cidade do Rio foi um mau negócio para a EDF. Assim como foi mau negócio para os calvinistas de Genebra a expedição do almirante Villegagnon, no século XVI.
Como diria Alan Greenspan, às vezes os negócios vão mal por falta de sorte. Fez-se o possível para socorrer a Light. O governo deu-lhe empréstimos que produziram lucros artificiais de R$ 407 milhões em 2002. Deram-se também aumentos extraordinários de tarifas, mas o mercado foi perverso.
Desde a encrenca do calote da Eletropaulo, no início do governo de Lula as concessionárias de energia elétrica chantageiam o governo. Ameaçam degradar os serviços e soltar em cima da nação petista o fantasma da quebra de contratos. Quem está quebrando contratos são as empresas.
Se o governo não disser com todas as letras que a retomada da concessão é uma alternativa séria e decente, ele (e os consumidores) serão tungados por mais uns dez anos, até que a Viúva seja convidada a ficar com a conta. Foi assim nos anos 70, quando a ditadura se viu obrigada a engolir a empresa que nos anos 20 pertencera a Percival Farquhar (Tony Ramos) e será assim amanhã. O governo não deve ter medo da palavra reestatização. As concessionárias é que precisam temê-la.
É falsa idéia de que a saída da EDF do Rio (ou de qualquer outra elétrica de qualquer outro lugar) é ruim para o país. Foi o raciocínio de que era bom para o país trazer a EDF para o leilão da Light que contaminou a concessão. A encrenca de hoje nasceu em 1996.
ELIO GASPARI é jornalista.
Merval Pereira Desobediência civil
PARIS. O governo tem boas razões para temer que a insatisfação da sociedade civil com o aumento da carga tributária reverta em uma manifestação maciça de oposição na eleição presidencial do próximo ano, como aconteceu na capital paulista, onde a prefeita Marta Suplicy, embora bem avaliada, foi derrotada pelo atual prefeito José Serra em grande parte devido ao aumento extorsivo dos impostos municipais e da criação de um sem-número de novas taxas, o que lhe valeu o apelido de Martaxa. Antes disso, porém, se o governo não agir rápido, é possível que um amplo movimento de desobediência civil vingue, capitaneado até mesmo por organizações como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), cujo presidente, Roberto Busato, em artigo recente, comparou o aumento da carga tributária a uma “nova derrama”, referindo-se aos tributos que Portugal cobrava do Brasil e que provocou a Inconfidência Mineira. Segundo Busato, “era na área fiscal que o colonizador de então exibia na plenitude o seu espírito tirânico. A cobrança de um quinto, o quinto dos infernos, sobre toda a produção de ouro gerou revolta e indignação. Quem diria que, séculos depois, com o país já livre da tirania externa (mas subjugado a outro tipo de tirania, interna), um quinto nos soasse como amenidade? Hoje, pagamos em impostos algo próximo a um terço do que produzimos. E a contrapartida, a prestação de serviços, é a mais precária possível”. Ele criou uma comissão na OAB, composta por tributaristas como Ives Gandra Martins e coordenada pelo ex-chefe da Receita Federal Osíris Lopes Filho, para fazer um estudo da carga tributária brasileira. Busato acusa o governo de ter ultrapassado os limites legais com a edição da Medida Provisória 232, que aumentou o Imposto de Renda e a Contribuição Social sobre Lucro Líquido dos prestadores de serviço tributados pelo lucro presumido. Esses impostos, que no início do governo Lula eram calculados sobre 17% do faturamento das empresas, hoje já o são sobre 32% e passariam a ser sobre 40% se a medida provisória não tivesse sido adiada para novos estudos. Diante da reação da sociedade civil, o presidente Lula decidiu chamar para conversar representantes do empresariado. Ao mesmo tempo, ressurge a idéia do deputado Miro Teixeira de fazer uma Constituinte restrita — a ser aprovada por referendo no fim do ano, juntamente com o referendo sobre armamentos — para tratar apenas da reforma tributária. Mesmo com a descentralização de impostos definida na Constituinte de 88, a fatia da União na arrecadação não encolheu, como seria natural num sistema federativo, devido a uma brecha deixada na Constituição pela qual o governo federal pôde criar as contribuições sociais, impostos que não têm que dividir com estados e municípios. Em 1988, a única contribuição vigente era o Finsocial, que correspondia a 6,5% da arrecadação federal. Hoje, as contribuições respondem por 44% dessa arrecadação, inclusive a Confins, que o governo Lula aumentou de 3% para 7,6%, e que foi a grande responsável pelo aumento da carga tributária federal. Entre 1998 e 2003, na gestão de Fernando Henrique, a carga global saltou de 29,6% para 35,5% do PIB, alegadamente por conta do ajuste fiscal necessário para enfrentar as crises externas surgidas desde a segunda metade dos anos 90. Há 20 anos, em 1985, os impostos compartilhados entre União, estados e municípios representavam 75% do total, enquanto 25% eram da União. Hoje, esse equilíbrio se transformou: os não compartilhados são 55% do total, e os compartilhados 45%. Com isso, em 2002 a União ficou com 69,2% da arrecadação, os estados, com 26,4%, e os municípios, com 4,4%, voltando, portanto, à situação que existia antes da reforma “radicalmente descentralizadora” da Constituição de 1988, quando a União arrecadava diretamente 70% da carga tributária nacional, o equivalente a 22,4% do PIB. O atual governo aprofundou a estratégia iniciada no governo Fernando Henrique, o que fez a carga tributária passar de 28% do PIB em 1994 para 36% atualmente e, como se vê, crescendo. Segundo técnicos, a política tributária do atual governo federal privilegia, em um grau sem precedentes, a cobrança de contribuições sociais, que não são compartilhadas com outros níveis de governo, em prejuízo da arrecadação dos impostos de renda e, sobretudo, de produtos industrializados, repartidos através dos fundos de participação. Essa centralização dos impostos no governo federal já está provocando um movimento de protesto dos governadores, especialmente os de oposição. Jorge Rachid, secretário da Receita Federal, garante que se a carga tributária ficar acima do nível da de 2002, que foi de 35,5% do PIB, “medidas de emergência” serão tomadas para compensar o aumento. Como em 2003 foi obtida uma pequena redução, interrompendo o crescimento da carga tributária, que ficou em 34,88% do PIB, mesmo se ela voltar a 35,5% terá havido um aumento de um ano para o outro. O problema é que o governo trabalha com a premissa de que a carga tributária tem que ser do tamanho da despesa e, como a despesa do Estado vem aumentando, a tendência da carga é aumentar também. A reação da sociedade seria, portanto, contra o aumento dos gastos do Estado. O autor americano Henry David Thoreau foi o primeiro a teorizar sobre a desobediência civil, em seu ensaio de 1849. E também a colocá-la em prática. A desobediência civil parte do princípio de que leis injustas não devem ser obedecidas. Henry Thoreau deixou claro em seu ensaio que se recusara a pagar impostos por não apoiar a escravidão e por ser contra a Guerra Mexicana, tendo sido preso por tal atitude. Com a decisão, queria se pronunciar “em termos práticos, como cidadão”.
Miriam Leitão Falso brilhante
terça-feira, fevereiro 08, 2005
Demérito universitário DENIS LERRER ROSENFIELD
DENIS LERRER ROSENFIELD
Se há um ponto de consenso entre as universidades de alto nível em qualquer lugar do mundo é que o mérito deveria ser o único critério de conhecimento. Um pensador da esquerda democrática, Norberto Bobbio, é preciso a esse respeito: “Na escola, que não pode deixar de ter uma finalidade seletiva, o critério de mérito é exclusivo.” Alia-se a ele um outro pilar do ensino superior: a liberdade de ensinar e conhecer. Quando restrições começam a ser feitas, concernentes ao mérito e à liberdade, a própria função da universidade é questionada.
O projeto de reforma universitária proposto pelo MEC é cheio de “truques”, que visam a enfraquecer os pilares de uma universidade livre. Quando se refere à “gestão democrática” das atividades acadêmicas, ele procura politizar decisões que deveriam ser fruto do avanço do conhecimento, do progresso na formação dos estudantes, traduzindo-se em maiores bens para a sociedade em geral. Uma proposta como essa tem ainda o benefício de captar o apoio de sindicatos e corporações universitárias, cuja preocupação principal se reduz à eleição direta para reitor. Observe-se que não há uma única universidade qualificada no mundo que considere a “gestão democrática” e a “eleição direta” para reitor critérios universitários e de conhecimento. Ademais, no caso brasileiro, a melhor universidade, a USP, é, segundo os critérios do MEC e das associações docentes e de funcionários, a menos “democrática”.
Outra pérola do projeto consiste em subordinar a criação de novos cursos e universidades e, inclusive, o conhecimento a “necessidades sociais”. Imaginem, então, um funcionário membro do partido (de escolha do ministro, pois ocupa um cargo comissionado) decidindo, com sindicatos, a função social da pesquisa, do ensino e da extensão. A pesquisa deve se fazer livremente, sem nenhum condicionante senão a seriedade e a qualidade do trabalho. Trata-se de um critério que não admite nenhuma derrogação, tendo no professor e no pesquisador os seus únicos árbitros. Se o governo tem interesse numa área de pesquisa determinada, o que é legítimo, ele dispõe das políticas das agências de fomento, como Capes, CNPq, Finep e Fundos Setoriais.
O projeto se aproveita também da penúria das IFEs para propor um aumento de recursos, sem nenhuma contrapartida do ponto de vista do mérito e do desempenho. A folha dos inativos sairia das universidades públicas, devendo o Tesouro assumir esse ônus, sem que seja especificado como. Ademais, as universidades teriam assegurado 75% da receita constitucionalmente vinculada à manutenção e ao desenvolvimento do ensino, além de terem a segurança de que os recursos anuais não poderiam ser inferiores aos do ano anterior. Consolida-se, assim, o status quo de cada universidade, independentemente do mérito e de qualquer avaliação séria. Se é bem verdade que as universidades públicas estão entre as melhores do Brasil, não é menos verdadeiro que algumas delas se encontram entre as piores. Como diferenciá-las do ponto de vista dos recursos? Onde se encontra, para conhecimento público, o ranking das universidades brasileiras, segundo critérios de mérito? A armadilha dessa medida consiste em que os reitores das IFEs tendem, por falta de recursos, a aprovar o projeto, pois são seus beneficiários.
O projeto tem, ademais, um nítido viés antiprivatista, como se as universidades públicas fossem do “bem” e as privadas, do “mal”. Ao mesmo tempo em que estipula uma série de medidas de controle das instituições privadas, cala sobre o desempenho sofrível de boa parte das instituições públicas. Por exemplo, o artigo 64, § 1, estipula que universidades e centros universitários privados devem ter a sua autorização de funcionamento renovada periodicamente segundo avaliação da qualidade de ensino. As IFEs prescindem de um tal mecanismo de “autorização”? O viés antiprivatista chega a ter a conotação própria de um nacionalismo estreito. Assim, o projeto assegura que pelo menos 70% do capital total e do capital votante das universidades privadas devem pertencer a brasileiros natos ou naturalizados há mais de dez anos. Ou seja, se Harvard ou Stanford pretendessem se estabelecer no país, estariam impedidas!
DENIS LERRER ROSENFIELD é professor de filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS).
segunda-feira, janeiro 24, 2005
Diogo Mainardi O Brasil para os brasileiros
desavisados. Ou os que buscam sexo barato.
Não temos monumentos. Não temos ruínas
arqueológicas. Nossas cidades históricas são
um amontoado de casebres ordinários e
igrejas com santos disformes"
Eu tenho uma regra. Uma regra elementar. Qualquer um pode segui-la. Funciona sempre. Quando a imprensa publica repetidas reportagens sobre o aumento do turismo brasileiro para os Estados Unidos, está na hora de juntar suas economias, ir correndo até o cambista da esquina e trocar tudo por dólares. Em seis meses, seu dinheiro terá dobrado de valor. Não há a menor possibilidade de erro. Outro dia, O Globo publicou uma reportagem dessas. Continha cinco sinais inequívocos de descalabro cambial: 1) Depois de dois anos, a loja de departamentos americana Bloomingdale's voltou a exibir a bandeira verde-amarela em sua fachada. 2) Os vôos da Varig para os Estados Unidos estão com a lotação completa para os próximos três meses. 3) As escolas de esqui no Colorado agora oferecem cursos em português. 4) A Disney estima um crescimento de 17,2% de visitantes brasileiros em Orlando. 5) Uma vereadora do Partido Verde do Rio de Janeiro foi passar as férias com a família em Nova York e aproveitou para assistir à montagem do espetáculo A Gaiola das Loucas, na Broadway. Trata-se da mesma vereadora cujo caminhão de som me acordou diariamente durante a última campanha eleitoral. Escute o conselho de seu amigo Diogo. Os números não batem. O real irá despencar. Ponha o carro à venda e compre dólares. Ponha o apartamento à venda e compre dólares. Depois me escreva agradecendo.
Não que haja algo de errado em querer viajar para os Estados Unidos. Pelo contrário. Quem nunca foi até lá deve pegar o primeiro avião e se mandar imediatamente. Entre viajar para os Estados Unidos e rodar pelo Brasil, é muito mais recompensador viajar para os Estados Unidos. O potencial turístico brasileiro costuma ser grandemente superestimado. Jamais seremos uma meta preferencial dos estrangeiros. O país tem pouco a oferecer. Só desembarcam aqui os turistas mais desavisados. Ou então os que buscam sexo barato. O mundo está cheio de lugares mais atraentes que o Brasil. Da Tunísia à Croácia, da Indonésia à Guatemala. Temos muitas praias. Mas nosso mar é feio. Turvo. Desbotado. Com despejos de esgoto. Pouco peixe. Peixe ruim. Chove demais. Chove o ano todo. Não temos monumentos. Não temos ruínas arqueológicas. Nossas cidades históricas são um amontoado de casebres ordinários e igrejas com santos disformes. Não temos o que vender porque não sabemos fazer nada direito. Não temos museus. Sou um pervertido, e teria o maior interesse em conhecer o museu da Base Aérea de Brasília, onde está exposta a taça de champanhe manchada de batom que dona Marisa usou na inauguração do avião presidencial. Mas como convencer um turista dinamarquês de que vale a pena fazer o mesmo? Nossas florestas estão sempre em chamas. Não sabemos comer. Desrespeitamos as normas básicas de higiene, contaminando os estrangeiros e a nós mesmos. Roubamos. Com um pouco de sorte, até matamos. O Brasil só serve para os brasileiros. A Embratur deveria parar de fazer propaganda enganosa sobre o país no exterior. Por falar em exterior, para onde vamos no Carnaval?
quarta-feira, janeiro 19, 2005
Diogo Mainardi Lula é caro demais
Pelas minhas contas, Lula é caro demais. A gente não tem dinheiro para
bancar mais seis anos de petismo.
Exemplo 1:
Guilherme Estrella era sindicalista da CUT e presidente do diretório do
PT de Nova Friburgo. Quando Lula foi eleito, nomeou-o diretor de
Exploração e Produção da Petrobras, um dos cargos estratégicos da
companhia. A imprensa, na época, alertou para os riscos do aparelhamento
petista, que favorecia a filiação partidária em detrimento da
qualificação profissional. Agora, dois anos depois, já dá para avaliar
os resultados de sua gestão. Em 2004, a produção nacional de petróleo
caiu mais de 3%. Foi a primeira queda desde 1991. Nos oito anos de
Fernando Henrique Cardoso, a produção aumentou, em média, 10% ao ano.
Pulou de 692.000 barris diários, em 1994, para 1,5 milhão, em 2002. Se
Estrella tivesse mantido o ritmo de crescimento de seu antecessor, a
Petrobras estaria produzindo 315.000 barris diários a mais. Com o barril
a 45 dólares, perdemos cerca de 5 bilhões de dólares ao ano. Repito: 5
bilhões.
Exemplo 2:
O presidente da Petrobras, José Eduardo Dutra, não se abalou com o mau
desempenho da companhia. Pelo contrário. Comemorou a queda de produção
de 3%. Disse que temia uma diminuição ainda maior. A produção de
petróleo caiu, segundo ele, por causa do atraso na entrega das
plataformas P-43 e P-48. O contrato com a Halliburton, empresa
responsável pela obra, previa uma pesada multa em caso de atraso. A
Halliburton atrasou, mas por algum motivo não teve de pagar a multa. O
rombo foi inteiramente transferido para o contribuinte. Dutra não tem um
passado empresarial. Fez carreira como sindicalista da CUT e senador do
PT pelo estado de Sergipe. Não sei o que é pior. A falta de tarimba
administrativa o levou a partidarizar as nomeações para cargos técnicos
e a abolir o esquema de bonificações instituído por Henri Philippe
Reichstul, que premiava os dirigentes que apresentavam ganhos de
produtividade. O efeito foi imediato. Queda de 3% na produção.
Exemplo 3:
Lula declarou, em campanha eleitoral, que as plataformas P-51 e P-52
deveriam ser construídas no Brasil. A bravata lulista levou a Petrobras
a suspender a licitação das obras no fim do governo passado. Atualmente,
a P-52 está sendo feita num estaleiro de Cingapura. Repito: Cingapura,
não Brasil. Em relação ao projeto original, será entregue com um ano de
atraso e irá custar 300 milhões de dólares a mais. Quanto à P-51, a
licitação foi vencida pela mesma empresa de Cingapura, pelos mesmos 300
milhões de dólares a mais, mas o atraso estimado, se tudo correr bem,
será de dois anos. As plataformas produzem 180.000 barris por dia. Cada
ano de atraso corresponde, portanto, a uma perda de quase 3 bilhões de
dólares.
Somando tudo: 5 bilhões de dólares pela queda de produção em 2004 + 3
bilhões pelo atraso de um ano da P-52 + 6 bilhões pelo atraso de dois
anos da P-51 + 600 milhões pelo aumento do preço das plataformas = 14,6
bilhões de dólares de custo lulista.
Isso só na Petrobras. Não dá para calcular os danos no resto do Brasil.
quinta-feira, janeiro 06, 2005
Versão piorada de Francis Diogo Mainardi
"Oito anos depois de morrer, Paulo Francis
continua sendo o mais influente pensador
brasileiro. Não existem mais intelectuais
como ele no país. Só versões pioradas"
Paulo Francis morreu oito anos atrás. A opinião geral é que sou a versão piorada dele. Como responder? Que não é verdade? Claro que é verdade. Digo apenas que a culpa não é minha. Eu me empenho no meu trabalho. Leio, estudo, escrevo, reescrevo. Não faço melhor porque não consigo. Não tenho capacidade. O único fato que alego em minha defesa é que não sou um principezinho. Não herdei o trono de Paulo Francis na imprensa brasileira. Fui posto em seu lugar por falta de alternativas. Porque não encontraram ninguém à altura. Se sou a versão piorada do Paulo Francis, é porque o Brasil, como um todo, piorou. Ficamos ainda mais conformistas, ainda mais rasteiros, ainda mais venais. Pegue a turma de Paulo Francis dos tempos do Pasquim, por exemplo. Apareceu algum humorista de verdade de lá para cá? Não. Apareceram somente chargistas a serviço do regime, como Chico Caruso. Se eles vivessem na Alemanha nazista, estariam pintando caricaturas de judeus com o nariz adunco nas vitrines do gueto. Então não me cobrem por ser uma pantomima grotesca do Paulo Francis. É bem mais instrutivo me ver como aquilo que realmente sou: um simples reflexo da irremediável deterioração intelectual e artística do país.
Oito anos depois de morrer, Paulo Francis continua sendo o mais influente pensador brasileiro. Não é novidade que o melhor da mentalidade nacional se encontra na imprensa. Isso acontece desde Euclides da Cunha. O problema é que Paulo Francis costuma ser mais recordado por seu temperamento do que por sua obra. Seus admiradores sentem saudade de seu talento para o deboche. Seus detratores reclamam de seu ar afetado. Como seria natural num país de analfabetos, discute-se acaloradamente a respeito de sua personalidade, mas ninguém parece disposto a reler seus livros. A republicação de sua obra nos últimos dois anos, pela editora Francis, passou em branco. Dedicaram-lhe apenas umas notinhas chochas nos jornais. É um erro. Uma estupidez. Um país pobre de idéias como o nosso não pode abrir mão de maneira tão leviana de um escritor como Paulo Francis.
Quer um conselho? Releia seu livro de memórias Trinta Anos Esta Noite, publicado originalmente em 1994, no aniversário do golpe militar de 31 de março. Onze anos depois, ficou ainda melhor. Diz mais a respeito do Brasil e dos brasileiros do que Casa-Grande e Senzala. Paulo Francis, para usar uma de suas expressões, não escreve "à brasileira". Não sentimentaliza, não enobrece, não edulcora seu passado. Ao mesmo tempo que se penitencia por suas velhas idéias esquerdistas, ele ridiculariza, uma a uma, toda aquela "gente nojentinha" que nos governou de 1950 em diante. Trinta Anos Esta Noite escancara o lado mais repulsivo do caráter nacional: adesista, fisiológico, acovardado, desonesto, reacionário, primitivo, roceiro. Paulo Francis refletia sobre as asnices brasileiras até mesmo quando lia Samuel Pepys. Ele morreu denunciando a roubalheira institucionalizada das empresas estatais. A Petrobras deveria pedir-lhe desculpas póstumas. Não existem mais intelectuais como Paulo Francis no país. Só versões pioradas.segunda-feira, dezembro 20, 2004
Diogo Mainardi A minha retrospectiva
Lula, e sim pelo motim na Casa de Custódia
de Benfica, no Rio de Janeiro. Bandidos do
Comando Vermelho esquartejaram bandidos
do Terceiro Comando e jogaram futebol com
suas cabeças. Foi o episódio que melhor
representou a barbárie nacional. Quando
me lembrar de 2004, a imagem será esta:
a de uma cabeça rolando, talvez batendo na trave"
É fácil enganar os brasileiros. Depois de apenas um ano de crescimento, estamos crentes de que o futuro será ainda melhor. Lula, que não é tonto, adotou o crescimento sustentado como bordão publicitário. No discurso de abertura da última reunião ministerial, em que fez um balanço dos dois primeiros anos de governo, ele repetiu dez vezes que o Brasil está a caminho do desenvolvimento. E garantiu que, ao contrário do que aconteceu no passado, "não se trata de bolha, de espasmo". A segunda etapa da campanha "O melhor do Brasil é o brasileiro", que será veiculada no ano que vem, irá bater nesse ponto. A propaganda oficial pretende mostrar que entramos definitivamente na "era do desenvolvimento sustentável". Ou, para usar a metáfora presidencial, que chegou "a hora da colheita".
Não sei dizer por quanto tempo a economia brasileira poderá continuar a crescer. Um ano? Dois anos? Depende do que ocorrer lá fora. Depende da cotação da banana no mercado internacional. O fato é que, cedo ou tarde, o crescimento do país irá despencar. Não dá para crescer, a longo prazo, quando se aumentam os gastos com o funcionalismo público, como fez Lula. Não dá para crescer com o pior ensino do mundo. Não dá para crescer com 50.000 assassinatos por ano. Quando Lula fala em crescimento sustentado, a única dúvida é saber se o crescimento se sustenta, ou não, até 2006. Se sim, Lula se reelege. Se não, ele volta para casa. A recessão é inevitável. Virá de qualquer maneira. Tendo de torcer por uma data, é melhor que ela venha antes das eleições, e não depois. Assim, pelo menos, a gente tem uma pequena chance de se livrar do PT.
Ao fazer o balanço dos dois primeiros anos de governo, Lula aproveitou para elogiar o ministro Eduardo Campos, que, como bom pernambucano, acaba de ter o quarto filho, numa demonstração de que é um "nordestino vigoroso". É exatamente isso que se esperaria de um presidente: um incentivo à explosão demográfica no Nordeste. A seguir, Lula negou que seu governo tenha se limitado a dar continuidade às políticas de Fernando Henrique Cardoso. A acusação de que seu governo é um mero apêndice do anterior o atazana profundamente. Ele tem razão. Essa história de continuísmo está sendo mal contada. A verdade é a seguinte: como os petistas não têm a menor noção de administração pública, são obrigados a imitar seus predecessores, quaisquer que eles sejam. Da mesma maneira que, em Brasília, Lula herdou as políticas de Fernando Henrique, Marta Suplicy, na prefeitura de São Paulo, herdou as de Maluf, com suas obras eleitoreiras e o rombo nas contas públicas. Lula não segue as imposições dos banqueiros internacionais. Ele simplesmente não sabe fazer de outro jeito.
Ainda que Lula consiga se reeleger em 2006, seu governo será rapidamente esquecido. Daqui a dez anos, ninguém mais se lembrará dele. Não sobrará uma única idéia, uma única iniciativa que recorde sua passagem pelo poder. Para mim, 2004 não ficará marcado por Lula, e sim pelo motim na Casa de Custódia de Benfica, no Rio de Janeiro. Bandidos do Comando Vermelho esquartejaram bandidos do Terceiro Comando e jogaram futebol com suas cabeças. Foi o episódio que melhor representou a barbárie nacional. Quando me lembrar de 2004, a imagem será esta: a de uma cabeça rolando, talvez batendo na trave.
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