Entrevista:O Estado inteligente

domingo, agosto 07, 2005

Mario Sergio Conti Retorno: São Paulo

 
no mínimo
Há buracos nas ruas e nas calçadas de São Paulo. Nas ruas, o asfalto parece ser remendado de maneira constante. Os carros sacolejam. As calçadas estão em petição de miséria. O padrão muda de uma casa para a outra. Pisos de cimento, de pedra, de cerâmica. A uniformidade se dá pelo desleixo. E pelos buracos. Como a cidade está cheia de ladeiras, a impressão geral é de que não foi feita para andar. Bicicletas e carrinhos-de-bebês circulam com enorme dificuldade. Estamos todos sobre topografia incerta, semovente.

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Tudo parece excessivo: os ruídos, as cores, as vozes, o calor, a luz do sol, o número de pessoas. Sensação de burburinho permanente, de algaravia. Tinha esquecido o som das buzinas, dos pneus que cantam. Nos primeiros dias, estranho as vozes que ouço, altas e em português. Depois, com os palavrões ouvidos em conversas de rua. Não há como aferir, mas acho que o calão se tornou parte integrante da linguagem cotidiana. São senhoras, adolescentes, velhos, balconistas – todos a falar palavrões na frente de estranhos, alto.

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São Paulo é um colosso labiríntico. As distâncias são enormes. Os caminhos, decifráveis apenas pelos nativos. E mesmo assim, cada um no seu pedaço. Os de Perdizes se perdem no Itaim. Os da Vila Mariana não sabem como se orientar na Freguesia do Ó. Não há um centro estabelecido. Ele era na Sé e adjacências. Tranferiu-se para a avenida Paulista. Hoje deve estar na Faria Lima. Mas há gente, muita gente, que raramente passa nesses lugares.

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O ônibus, de dentro, lembra uma gaiola. Ou uma cela. As pessoas parecem tristes. Ninguém lê. Ninguém parece prestar atenção na paisagem. Estão absortos, ensimesmados. Os cobradores ainda existem. Os bancos são duros. A distinção de classe é palpável. Os ônibus foram feitos para os pobres. São eles que devem passar, diariamente, duas, três, até quatro horas encafuados.

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Chico de Oliveira disse, já não recordo onde, que o Brasil está virando uma sociedade de lúmpens. Visualmente, é verdade. As ruas estão coalhadas de sujeitos obviamente improdutivos, desempregados, camelôs, guardadores de carros, mascates, pedintes. Gente desprotegida, sem eira nem beira, sem perspectiva de futuro. Potencialmente, gente disposta a tudo. Mas o dominante, na fisionomia deles, são a derrota, a impotência, o ressentimento, o conformismo.

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Chico de Oliveira é fogo. Na aurora do governo Lula, em "O ornitorrinco", ele descreveu sociologicamente em que o PT se transformara. Teorizou inclusive o surgimento de uma nova classe. Com requintes de baixo nível, foi hostilizado pelos novos poderosos. Tarso Genro chegou a qualificá-lo de "metafísico". A atual crise política, no entanto, está traçada em "O ornitorrinco": a nova classe, os arrivistas, os gângsteres, os fundos de pensão, as teles, os juros. Só faltou a cafetina Jane.

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Reencontro numa transmissão de televisão da CPI uma velha conhecida: a retórica parlamentar. É de "Nobre deputado", "Vossa Excelência" e "eu repilo" para baixo. Na aurora de minha atividade profissional, eu cobria a Câmara Municipal de São Paulo. Ali tive contato com a oratória palavrosa e errada, com a linguagem que encobre o pensamento, com as fórmulas de tratamento vazio – e também com a esperteza, a corrupção, as traições, a enganação geral que são a matriz da política oficial. A mim eles não enganam.

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Com sua massa de edifícios, suas avenidas repletas de automóveis, com o cimento e o asfalto a lhe definirem a fisionomia – ainda assim a impressão geral que São Paulo dá é de fragilidade. Nada parece feito para durar, mesmo os prédios, viadutos e túneis mais recentes. As construções parecem transitórias, provisórias. Na frase famosa do "Manifesto do Partido Comunista", Marx escreve que na sociedade burguesa "tudo que é sólido se desmancha no ar". No Brasil, a sociedade dominada pela burguesia deu uma passo à frente: a sua maior cidade, São Paulo, não é sólida, o seu desmanche é constante.

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Reencontrei sabiás, maritacas, bem-te-vis, andorinhas, beija-flores. Oásis voadores. Odete continua linda.

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A propaganda é onipresente. Não há regras para controlá-la. Ela grita na televisão, no rádio, nos jornais, nas revistas, nos cartazes de todos os tamanhos, nas faixas, nos panfletos, nos ônibus, nos táxis, nas poltronas dos aviões, nos alto-falantes, nas fachadas dos prédios, nos guarda-chuvas, nas camisetas. Elas apregoam as virtudes de mercadorias que poucos podem comprar.

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Um conhecido me diz que mais de 60% das verbas publicitárias brasileiras não se destinam à mídia tradicional. Elas não vão para anúncios, identificados e delimitados como tais. Vão para patrocínios, promoção de eventos, organização de atividades esportivas e culturais, merchandising, divulgação de marcas, assessorias de marketing e imprensa. A propaganda se espalha assim pela sociedade inteira, se intromete nos domínios da arte, do jornalismo, nas roupas, nos livros, na paisagem urbana e na natureza. A mercantilização é chocante, agressiva. Bárbara. O olho não tem onde repousar.

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No meu bairro, árvores mirradas e doentes, pequenas, tentam a duras penas sobreviver à poluição e aos vândalos. Um temperamento poético lembraria Drummond: a flor que rompeu o asfalto. Mas não, as arvorezinhas são protegidas por grades horrendas, que as aprisionam e encobrem. Nas grades, está pintado, com letras grandes: "Secretaria do Verde e do Meio-Ambiente". O poder público, ao fazer propaganda de si mesmo, destrói a sua própria iniciativa.

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As faixas são a propaganda dos remedidados. Há uma que propagandeia a colocação de outras faixas. Há outra, nas ruas de escolas de ricos, na qual a prefeitura conclama os motoristas a "excercitar a cidadania no trânsito". Ela ecoa outra faixa, que propagandeia uma academia onde se "exercita os glúteos e os bíceps". A cidadania é, pois, um músculo a ser "exercitado", e não um direito, uma condição social.

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Continuam ótimos os poucos bares, na região da avenida Paulista, que só vendem sucos e sanduíches. O gosto da goiaba, do maracujá, do umbu, do limão, da melancia. Há meia-dúzia de atendentes numa área exígua, de menos de três metros quadrados. Eles se trombam o tempo todo.

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Como resumir São Paulo? Nos seus shopping centers. O barulho, o comercialismo, a feiúra, o congestionamento, a algaravia, a fragilidade, a sua designação em língua estrangeira, a sua matriz americana, tudo neles é São Paulo.

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