Com o presidente que tem, o governo Lula só poderia dar no que deu. Ele é despreparado e leviano. Seu programa, um refogado de discursos sem pé nem cabeça, que um ministrou ou outro tentou pôr em prática, à falta de idéia melhor para ocupar o mandato. Sua agitação, uma fuga do trabalho pela válvula da hiperatividade, que não passa de um estado febril da indolência. Nesta crise, ele mostrou que é capaz de fazer qualquer coisa para não fazer nada. Tudo isso sempre esteve tão evidente, que quem resolveu se enganar com ele não teve nem que gostar de Lula. Bastou que gostasse de ser enganado.
Por aí, ele tem todo o direito de dizer agora que o remédio é engoli-lo até a última dose. Mas a obrigação de engoli-lo não implica fazer de conta que dá para levá-lo a sério, quando ele pousa na enxurrada de roubalheira como uma garça no esgoto. Queira ou não queira, esta roubalheira é sua, parte inseparável de seu governo. E ainda por cima virou, de uma hora para outra, sua mais vistosa realização administrativa, produto dos defeitos que ele pavoneou desde janeiro de 2003, como se fossem a marca de um estilo pessoal e inconfundível.
Lula usou seus defeitos como se com eles pudesse tecer o manto de Arthur Bispo do Rosário para se apresentar ao Juízo Final. O que esperava com isso? Aparentemente, provar ao Brasil que um presidente poderia ser exatamente como ele é. Era uma espécie de desagravo que fazia a si mesmo. Mas se era assim, não pode de repente usá-los como blindagem contra as denúncias e pistas que caem sem parar à sua volta, cada vez mais perto de sua cadeira. Seus defeitos, por maiores que sejam, não podem servir para tudo, para governar e para não governar, para se meter em tudo e para não ter nada a ver com o que está acontecendo. Talvez pudessem, se enquanto era tempo Lula fosse discreto. Mas ele tomou posse como se o país lhe devesse uma indenização pelos anos que gramara como candidato à presidência da República. Entronizou-se com charutos cubanos, centenas de ternos e avião de US$ 56 milhões. E o que esbanjou em ostentação lhe falta agora em austeridade, o luxo mais precioso de um presidente cercado de corrupção por tudo quanto é lado.
Para ser convincente no papel de chefe enganado pela voracidade dos cupinchas, Lula precisaria pelo menos lavar as mãos da Gamecorp. Mas O Globo mostrou outro dia que ele bateu o martelo no leilão de capilés, em que a Telemar investiu R$ 5 milhões na empresa de seu filho Lulinha, esperando ganhar não se sabe bem o quê. A publicação dessa história parece ter inspirado o presidente a defender, em vários improvisos, o direito à privacidade dos inocentes, lambuzados injustamente pelos jornais. Pelo visto, ele sinceramente não reconheceu nessa maracutaia um caso de enriquecimento suspeito, senão ilícito. Nada parece mais sincero em Lula do que sua fé na autocomplacência.
E nisso, diga-se de passagem, foi encorajado durante muito tempo pelos jornalistas. Ele tem uma filha que foi estudar em Paris por conta de um empresário. Tem um filho que usou um jato da FAB para fazer pagode com amigos no palácio da Alvorada. Tem uma aposentadoria precoce que transformou seus 31 dias de cadeia branda num dos melhores negócios do mercado de indenizações políticas. E, durante muitos anos, nada disso escandalizou a imprensa como os escândalos das mordomias na ditadura militar. Criado na indulgência, ele talvez esteja convencido de que tudo o que faz se baseia no direito de mudar os costumes de um país iníquo.
Afinal, ele é o "Lula, o filho do Brasil", retratado no livro de Denise Paraná como o jovem operário que, em 1962, participou do linchamento de um empresário na rua Vemag, no ABC. A fabriqueta, "uma pequena tecelagem, uma fábrica de meias", foi invadida por grevistas que passaram por sua porta. Acuado no escritório, o dono da firma atirou. Feriu um piqueteiro na barriga. E, diz Lula, "o pessoal ficou invocado", jogou-o pela janela do segundo andar, e o chutou no chão até que "outros grevistas apartaram". O homem "foi para o hospital, mas acho que morreu". O impressionante nesse relato é que Lula, com uma habilidade narrativa que honra sua fama de grande comunicador, consegue ao mesmo tempo ficar próximo do fato e longe do crime, trocando sem parar o sujeito da frase. Quem vê tudo é ele. Quem bate são os outros. Quem leva bala é "um companheiro". Quem vai a forra é "o pessoal".
O perfil feito por Denise Paraná mostra que Lula estava pronto para lidar com a crise do mensalão. Não é de hoje que as coisas, em seu currículo, ocorrem onde lhe convém. Mas não dá para pretender que a Gamercorp passe em branco por toda esta lambança. Não porque ela tenha ligação direta com os assuntos que as CPIs dos Correios e do Mensalão apuram. Mas porque, ao imantar o presidente, criou um campo magnético que o liga diretamente à pilhagem dos porões. Esse, pelo menos, é o caminho que os raios percorrem nas tempestades.
Entrevista:O Estado inteligente
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