O ESTADO DE S PAULO
A confusão entre o ilícito eleitoral e o crime de corrupção leva à tolerância com ambos As investigações sobre o pagamento de mesadas a deputados e arrecadação ilegal de fundos partidários tiveram ontem um dia especialmente negativo ao abrirem espaço, na cena principal, para a briga entre PT e PSDB. Os petistas parecem acreditar que ganham fôlego com a existência de tucanos na lista de beneficiários do sistema Marcos Valério de irrigação financeira e estes, por sua vez, reagem como se não tivessem nada com isso e fossem vítimas de uma ignomínia. No jogo de reações, os dois partidos se engalfinham e não raro perdem o pé - como aconteceu ontem numa acirrada disputa em torno de um documento de utilidade nula - da situação e a noção de si. Como em qualquer processo a respeito de qualquer coisa, a confusão favorece a que não se chegue a lugar algum, resultado (ou falta de) tanto mais almejado quanto maior for a culpa do patrocinador do mistifório. A apresentação de uma nova lista de sacadores das contas valerianas, a maioria tucanos ligados à campanha à reeleição do então governador de Minas Gerais, Eduardo Azeredo, em 1998, levou o desarranjo ao auge. Quem não é político, jornalista ou personagem do escândalo está, de fato, se confundindo e chegando perto da perigosa conclusão de que estamos tratando apenas de um crime continuado, iniciado em 98 pelo PSDB e assumido em 2003 pelo PT. A diferença convém que se estabeleça, embora ela não se dê nas bases pretendidas pelo atual presidente do PSDB, senador Eduardo Azeredo, e seus companheiros de partido. O senador diz que os R$ 9 milhões obtidos por Marcos Valério para sua campanha por intermédio de empréstimos bancários são de inteira responsabilidade do tesoureiro que fez a transação e, portanto, está tudo certo. Repete o presidente Luiz Inácio da Silva na tese do alheamento total e também o imita na pressuposição de que o crime eleitoral seja aceitável. Não é e basta lembrar que no início do escândalo as denúncias se resumiam a trocas de recursos financeiros entre partidos e eram, nessa moldura, veementemente negadas pelos petistas loucos de indignação. Com o andar da carruagem e o aparecimento de ilícitos mais graves do ponto de vista do Código Penal o caixa 2 foi assumindo o lugar do bom infrator. O senador tucano tampouco pode fugir à evidência de que a sistemática do empréstimo sem preocupações com garantias ou com o saldo da dívida é a mesma. E ficam por aí as semelhanças. Ao contrário do que pretendem fazer crer alguns governistas, o caso atual não é mera continuidade daquilo que Marcos Valério já fazia há algum tempo. Não. O que está em processo de esclarecimento é um esquema ilícito de arrecadação que o PT opera há mais de década em várias prefeituras. Uma vez próximo da Presidência da República, recorreu aos métodos e habilidades de Marcos Valério para ampliar e centralizar sua operação a fim de fazer frente às novas necessidades financeiras do projeto expansionista do partido. É disso que se trata, de uma investigação sobre desvio, lavagem, uso indevido em campanhas eleitorais e transferência de dinheiro para parlamentares; isso com o envolvimento de toda a cúpula do partido e de auxiliares diretos do presidente da República. Para dizer o mínimo. Sob pressão O senador Eduardo Azeredo não sairá agora da presidência do PSDB porque, na avaliação dos tucanos, isso criaria mais uma situação de similitude com o PT. Mas foi arquivada qualquer possibilidade de Azeredo continuar à frente do partido depois de novembro, quando será eleito o novo presidente. O escândalo sacramentou, mas a decisão de trocar o comando já estava tomada antes. Figurinos Cada um com sua peculiaridade, os mineiros desempenharam papéis bem marcados diante das CPIs: Marcos Valério apresentou-se na condição de profissional da fé na sinceridade coletiva - "Sejamos francos uns com os outros" -, Renilda Santiago fez as vezes de rainha do lar alienada e Cristiano Paz adotou a linha angelical. O sócio de Marcos Valério declarou-se surpreendido com tudo: o montante dos empréstimos ao PT, o destino do dinheiro, a queima de provas, a identidade de portadores, só não estranhou nesses anos todos o trânsito de milhões pelas contas da agência SMPB. Traço comum entre os três, as declarações de arrependimento por terem sido "omissos". Mesmo peso O PSDB tem razão de considerar impróprio o vice-presidente da CPI da Compra de Votos, deputado Paulo Pimenta, ter pegado carona com Marcos Valério logo após o depoimento que terminou na madrugada de ontem. Da mesma forma foi inadequada - e conviria a mesma imposição de reparos - a visita do presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio Amaral, à casa do deputado José Dirceu na semana anterior ao depoimento do ex-ministro. Não faria mal às investigações um certo ordenamento no tocante às condutas dos integrantes das CPIs.
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Entrevista:O Estado inteligente
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quinta-feira, agosto 11, 2005
DORA KRAMER: Aos diferentes, a diferença
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