Não houve surpresa na reunião do diretório nacional do Partido dos Trabalhadores deste fim de semana. Sem fugir ao senso comum, a montanha só poderia ter parido um rato. O bloco dissidente até que se empenhou, e teve razão para alimentar alguma esperança. Na véspera do encontro, em ato de multidão, ressuscitou a conhecida alma combativa da militância espontânea e desapegada das benesses do poder. Daquela militância que se opõe aos descaminhos da atual linha política.
Mas a realidade não tardou a se afirmar. Os membros da burocracia mostraram que, a despeito da mudança de nomes, vale uma tradição de mando incontestável na cúpula, pela qual, e com o aval do presidente Luiz Inácio, o partido é conduzido com mão de ferro. Mão de ferro, é claro, contra os que acreditavam na vitória da esperança contra o medo. Mas luvas de pelica, nas relações novas, estabelecidas com aqueles que sempre foram considerados os adversários principais. No fim, foi aprovada uma resolução pífia, sem nenhuma autocrítica pelo clima em que mergulharam o pais, e a esquerda em particular.
Não é novidade que cúpulas dos partidos de extração social-democrata tenham se vendido ao capital, tão logo se vissem vitoriosas. Mas o que ninguém poderia contar é com a rapidez com que isso se deu com a do Partido dos Trabalhadores. O que a social-democracia européia levou quase um século para desfazer de seu patrimônio histórico, o grupo comandado por Lula, Dirceu e uns outros de menor significação conseguiu consolidar em menos de uma década. Tiveram base interna para fazer isso? O trágico é que, sim, encontraram apoio interno. O que reforça a leitura sobre a irreversibilidade do processo.
Recuperando a trajetória histórica, vamos constatar que das três vertentes originais do PT, é numa delas, especificamente, que Lula encontra a sustentação para a guinada doutrinária que o levou ao projeto do poder-pelo-poder. Da guinada doutrinária que o transformou em quindim da Casa Branca, de Wall Street e do FMI.
Não foi na vertente saída das Comunidades de Base da Igreja, embora alguns de seus dirigentes tenham sido cooptados, que ele foi buscar esse apoio. Não foi, também, na base dos egressos das correntes marxistas que lutaram contra a ditadura, embora alguns de seus representantes expressivos tivessem se acomodado. Foi da base sindical do ABC que Lula extraiu a sustentação para o sentido minimalista imposto à estratégia petista, como forma de chegar ao Planalto sem grande oposição dos poderosos.
O ridículo ''Lulinha, paz e amor'' é produto de algo que lembro ter ouvido de um dos, outrora, mais combativos dirigentes da CUT, num debate de bancada petista, no início do segundo mandato de FHC. Ele já se achava cansado dos embates contra as privatizações e a desmontagem do Estado social dos primeiros quatro anos, e ''queria ganhar uma ao menos''. Queria fazer um acordo, com concessões inaceitáveis, numa das votações da abertura do segundo turno de mandarinato tucano-pefelista. Era Jair Meneguelli, que recentemente abriu mão de ocupar a titularidade do mandato parlamentar por conta do alto salário que recebe na presidência de uma dessas abomináveis entidades do Sistema S. Não ganhou naquela ocasião, para ''ganhar'' agora.
Mas vale outro exemplo recente, produzido pela corrente hegemônica da Central Única dos Trabalhadores, a Articulação Sindical, correspondente do ''campo majoritário'' petista. Permitiu que seu presidente se desligasse da entidade para ocupar o Ministério do Trabalho. Para quê? Para contestar a política econômica da dobradinha Palocci-Meirelles? Certamente que não. Está lá para dar aval, através de uma resistência consentida.
Não é fácil, portanto, a tarefa da esquerda petista que mantém os compromissos com os princípios cunhados nos Congressos partidários em duas décadas de intensos debates. Vão para uma eleição interna imprevisível, não só no resultado, como até na participação. E se um dos seus candidatos alcança o segundo turno e eventualmente vence o pleito, tendo em vista a desmoralização do atual grupo dirigente? Terá condições de levar a prometida autonomia às ultimas conseqüências, negando apoio à candidatura Lula à reeleição, caso ele insista na manutenção do atual modelo econômico e na política de alianças que retrocedeu em relação à já inaceitável composição anterior?
Se for para isso, vale o empenho heróico. Se não...
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