Entrevista:O Estado inteligente

domingo, agosto 02, 2009

Cláudio de Moura Castro O próximo passo

da veja

"Conseguir uma educação de qualidade 
é possível, como demonstraram os muitos 
países que deram esse salto"

Ilustração Atômica Studio

É preciso entender que em educação, como em outros setores, há etapas a ser vencidas. Enquanto faltam escolas, construí-las tem um impacto fulgurante nas estatísticas. Mas essas escolas são apenas caricaturas se lhes faltam livros, equipamentos e professores. Suprir essas lacunas resulta também num grande salto na matrícula e na qualidade. O passo seguinte é ter professores minimamente preparados, uma administração central operante, currículos claros e não estar em greve todos os meses (seja de quem for a culpa). Esses aperfeiçoamentos trazem ainda bons frutos na qualidade e na deserção. Mas, daí para a frente, os erros e deficiências vão se tornando menos óbvios, as correções mais sutis e o seu impacto resvaladiço. As mudanças fáceis já foram feitas, restam aquelas politicamente mais conflitantes. Ou seja, mais se avança, mais difíceis se tornam os avanços subsequentes.

Faz algumas décadas, estávamos vergonhosamente distantes de países como Chile, Argentina e Uruguai – os menos ruins da América Latina. Na verdade, as matrículas eram inferiores às da Bolívia e do Paraguai. A um ritmo espantosamente rápido, conseguimos nos aproximar do nível de matrícula do Chile, da Argentina e do Uruguai. Nenhum outro país latino-americano avançou tão depressa nas últimas décadas. Não é pouca coisa. De fato, a partir da década de 90, acelera-se a expansão do nosso ensino, com a clara liderança dos estados mais prósperos. Crescem Minas, Rio Grande do Sul e Paraná, mais do que os outros. Norte e Nordeste permanecem travados. Mais para o fim da década, começam a avançar os retardatários. Ao fim do milênio, a universalização da matrícula é obtida. O desafio maior passa a ser a qualidade. Não obstante, tanto na matrícula quanto na qualidade, começamos a patinar, avançamos pouco ou estagnamos. Depois que fizemos o fácil, os próximos passos são mais árduos e de impacto mais diáfano.

A última rodada do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) mostra que começamos a encontrar problemas para avançar. Estacionaram estados tradicionalmente com melhores resultados, como Minas, Rio Grande do Sul e São Paulo. Em contraste, só avançam os estados do Norte, os mais atrasados. Ou seja, progridem apenas aqueles em que o mais simples ainda estava por fazer. Travam aqueles cujas falhas não estão mais em erros grosseiros, mas em desvios menos óbvios. Conhecemos os problemas. Precisamos lidar com muitos professores que apenas parecem ensinar, porque aprenderam em arremedos de faculdade. De fato, os professores não aprendem a dar aulas. Nos primeiros anos, seus alunos são cobaias. Não há prêmios para quem faz certo ou puxões de orelha para os incompetentes e negligentes. A administração é perfeita no papel, mas capenga na implementação. O currículo é para gênios ou é ambíguo – ou ambos. Em muitas redes educativas, a politicagem ainda não foi expulsa da escola. O tempo de classe é insuficiente na regra formal e ainda menor depois que se descontam feriados, festas, greves, atrasos e perdas de tempo de todos os tipos. E por aí afora. Para resolver esses problemas, não teremos sucesso sem pisar nos calos dos que resistem às mudanças.

Em resumo, é relativamente fácil chegar a uma educação medíocre para todos ou quase todos (embora isso nos tenha consumido cinco séculos). O grande problema é que hoje os números mostram estagnação da matrícula, evasão elevada – sobretudo no ensino médio – e qualidade sem avanços substanciais. O desafio é conseguir uma educação de qualidade. Que é possível demonstraram os muitos países que deram esse salto. Alguns são até mais pobres do que o Brasil, e quase todos os ricos eram mais pobres quando deram esse salto.

O grande trunfo do país é a existência de uma avaliação escola por escola. Prova Brasil, Ideb eExame Nacional do Ensino Médio (Enemmostram exatamente onde estamos e quanto avançamos – que se calem os palpiteiros. Esperamos que essa avaliação indique os progressos a ser obtidos em um futuro próximo. Porque nunca houve tanta atenção e mobilização social em prol da nossa educação. Não podemos contar com reformas voluntaristas, frutos do idealismo e destemor de um ou outro. Somente uma exigência irrecusável da nossa sociedade será capaz de empurrar o sistema educativo para a frente e para enfrentar as mudanças politicamente penosas.

MILLÔR

DA VEJA

EU, TRADUTOR ELETRÔNICO

Quando abro o Google e procuro o que procuro, no mundo inteiro ou aqui na esquina, fico besta com os robôs que sabem tudo, encontram tudo, traduzem tudo.

Traduzem, ah! Peraí, já vivi muito disso. Não vão tirar de mim uma atividade da qual ainda posso precisar num amanhã qualquer, ou mesmo amanhã de manhã.

Impulsionado pelo medo de perder um emprego ainda exequível, resolvi entrar no campo do invasor eletrônico, usando suas próprias armas. Peguei a frase que Machado de Assis escreveu há mais de 130 anos e que acabaram colocando na entrada da ABI, traduzi de uma língua pra outra e de outra pra uma, desde o português inicial até o português final. Me acompanhem.

PORTUGUÊS

ESTA É A GLÓRIA QUE FICA ELEVA HONRA E CONSOLA

Para o Inglês
this is the glory and honor that is elevated console

Para o Sueco
detta är ära och heder som är förhöjda konsol

Para o Espanhol
esta es la gloria y el honor son elevadas consola

Para o Alemão
Dies ist die Herrlichkeit und Ehre sind erhöhte Konsole

Para o Francês
Ceci est la gloire et l'honneur sont augmenté console

Para o Italiano
Questa è la gloria e l'onore essere aumentato console

Para o Galego
Este é alimento por glória e honra de ser aumentado consola

Para o Catalão
Aquest és alimentat pels aliments per la glòria i l'honor de ser l'augment de la consola

Para o Húngaro
Ez az élelmiszer adagolják a dicsöség, és az a megtiszteltetés, hogy a megnövekedett konzol

Para o Grego
Console.

Para o Português
Este produto é alimentado para a glória e a honra de o aumento Console

RADAR

DA VEJA


Lauro Jardim
ljardim@abril.com.br

 

Um contrato de opção para 2010

Germando Luders
Candidato? Meirelles: assim como Serra, diz que só decidirá se é candidato em março

Faltam dois meses para Henrique Meirelles, enfim, dizer a que partido se filiará para disputar a eleição de 2010. Ele deve filiar-se ao PP e pode concorrer ao governo de Goiás. Mas o mistério não será desfeito logo. Aos mais próximos, Meirelles tem se servido de uma expressão do mercado financeiro para explicar que vê a filiação a um partido como um "contrato de opção, que pode ou não ser exercido". Decisão mesmo sobre candidatura, só em março. Até lá, fará como José Serra: empurrará com a barriga o assunto.

 

• Governo

Lula irritado com a Vale

Rafael Andrade
Missão difícil
Agnelli: tem de enfrentar a crise e agradar a Lula


Na quinta-feira, Lula pediu a Guido Mantega e ao presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que encontrem uma maneira jurídica de mudar o acordo de acionistas da Vale. Quer que o governo, através do BNDESPar e da Previ, que integram o bloco de controle da empresa, assumam de fato as rédeas da Vale, comandada por Roger Agnelli, ex-Bradesco, também um dos controladores. Nos últimos meses, Lula já vinha demonstrando publicamente sua insatisfação com a companhia. Mais de uma vez, puxou as orelhas de Roger Agnelli, reclamando de demissões na empresa e do que considerou um freio exagerado nos planos de investimentos. Se, de fato, a determinação de Lula andar, está destinada a ser uma fonte de polêmica incessante. Afinal, a companhia foi privatizada em 1997.

 

• Eleições 2010

Ciro Quadros
De um petista muito próximo de Lula sobre a viabilidade da candidatura de Ciro Gomes ao governo de São Paulo: "O Ciro tem um quê de Jânio Quadros que atrai os paulistas. Mas um Jânio no bom sentido". Falta explicar o que se quer dizer com "Jânio no bom sentido".

 

 Senado

O advogado do Sarney
Antonio Carlos Almeida Castro, o Kakay, será o advogado de defesa de José Sarney no Conselho de Ética.

 

• Brasil

Abaixo o socialismo
Depois de passar uns dias com o Mickey na Disney World, José Dirceu seguiu para uma temporada de sol na casa de um amigo brasileiro em Saint Barth, no Caribe. A ilha é conhecida por ser um paraíso de milionários.

Pelo telefone
De lá, manteve vários contatos telefônicos com José Sarney e Roseana, tentando montar uma estratégia para salvar a pele do presidente do Senado.

 

• Petróleo

Queima de 2 bilhões de reais
O total de gás natural produzido e não utilizado pela Petrobras em junho foi de 9,2 milhões de metros cúbicos por dia. Parece muito, e é. Para que o leitor possa mensurar, seguem três informações relevantes. Primeiro, é quase o dobro de um ano atrás. Em segundo lugar, em dinheiro essa diferença significa um desperdício de cerca de 5 milhões de reais por dia - ou 2 bilhões de reais por ano. Finalmente, na Noruega, esse desperdício de gás é zero. E a Petrobras ainda paga royalties pelo gás que queima. Prejuízo para o acionista e para a União.

Não tem desculpa
Essa perda é mais inconcebível ainda quando se sabe que a Petrobras é a segunda empresa de energia que mais investe em pesquisa e desenvolvimento tecnológico no mundo. Em 2008, foram 900 milhões de dólares. Perde somente para a Shell.

 

• Economia

Mudanças na Michelin
Será anunciado nos próximos dias o novo presidente da Michelin no Brasil e na América do Sul. É o executivo Jean Phillipe Ollier. Ele substituirá Luiz Roberto Anastácio, que morreu na queda do voo 447, menos de um mês depois de assumir o cargo.

 

 Copa 2010

Guaraná versus Coca-Cola
O guaraná Antarctica patrocina a seleção, mas não contará com as transmissões da Globo na Copa de 2010 para se aproximar do torcedor brasileiro - a exemplo do que fizera em 2006. A Coca-Cola, uma das empresas patrocinadoras da Fifa, exerceu seu direito de preferência e comprou na semana passada uma das cotas da Globo para a Copa da África do Sul.  

 

• Cinema

Sumiu o dinheiro

Paulo Giandalia/Folha Imagem
Bolso vazio
Padilha: tema de digestão difícil para alguns


José Padilha,
 diretor de Tropa de Elite, tem um roteiro pronto para dirigir um filme sobre corrupção na política, baseado no mensalão. Só que ele está às voltas com um pequeno problema: não consegue captar um centavo. Ainda não encontrou uma empresa que queira meter o dedo nessa cumbuca.

J.R. Guzzo Um mundo correto

da veja

"Trata-se de um mundo cada vez mais correto, 
no papel – e cada vez mais chato, na vida real."

O cidadão que trabalha, paga impostos e trata, basicamente, da sua vida não faz ideia da quantidade de leis e regulamentos a que tem de obedecer hoje em dia para viver bem. Também não sabe a quantidade de coisas que está proibido de ler, ver e ouvir – mais uma vez, para o seu próprio bem. Ele mesmo, naturalmente, não sabe como cuidar de si, nem definir a sua qualidade de vida; é preciso, assim, que o poder público pense e decida em seu lugar, escolhendo o que é melhor para todos e para cada um, e isso desde a primeiríssima infância. A maior parte dos brasileiros não sabe, mas é proibido por lei, por exemplo, fazer publicidade de mamadeiras, chupetas e bicos para mamar, "em qualquer meio de comunicação" – e, para não ficar nenhuma dúvida, também são vetados "promoções, cupons de desconto, sorteios e brindes" envolvendo esses produtos. A ideia superior das autoridades, no caso, é promover a amamentação no seio materno. Para sorte dos bebês que não gostam de se alimentar assim (e das mães que não têm a quantidade de leite desejada pelo governo), continua permitida a fabricação, venda e uso de mamadeiras – mas é ilegal falar que elas existem. Não está claro qual o problema que foi resolvido com essa lei, mas se alguém perguntar a respeito aos peritos em saúde pública infantil provavelmente ouvirá que o Brasil tem uma das políticas de aleitamento "mais avançadas" do mundo.

A situação até que seria razoável se esse tipo de coisa ficasse mais ou menos por aí. Mas não fica. Rolam no Congresso Nacional, no momento, mais de 200 diferentes projetos de lei destinados, na visão de seus autores, a fazer o bem; todos eles estabelecem algum tipo de proibição ou de limitação à publicidade de produtos ou serviços. Fora do Congresso, a única instância autorizada pela Constituição a legislar sobre o tema, autoridades estaduais têm as mesmas ambições de criar regras sobre o que pode e o que não pode ser dito. O estado do Paraná, por exemplo, acaba de proibir que seja exposta em seu território qualquer peça de propaganda com palavras em idioma estrangeiro, a menos que esteja acompanhada de tradução. A decisão, desde logo, causa algumas sérias dificuldades de ordem prática. Como faz, por exemplo, um comerciante de computadores que precisa utilizar a palavra software num cartaz a ser colocado em sua vitrine? O texto da lei não apresenta nenhuma sugestão a respeito do procedimento a seguir.

O bonito, no caso, é que a própria lei que cria a proibição utiliza, logo no seu artigo 1º, uma palavra em idioma estrangeiro, caput, e não faz tradução nenhuma, o que, tecnicamente, deveria sujeitar o governo estadual a uma multa de 5 000 reais – ou até 10 000, talvez, se for considerado que o caso é de reincidência. É para lá de esquisita, também, a sintaxe utilizada na redação da lei. "A tradução", escreve-se ali, "deve ser do mesmo tamanho que as palavras em outro idioma expostas na propaganda" – ou seja, o governo do Paraná, tão preocupado com as línguas estrangeiras, não notou que seu principal problema, por enquanto, é mesmo com a língua portuguesa.

Tudo isso fica menos cômico quando se considera que a cada medida desse tipo a autoridade pública não apenas vem encher a paciência do brasileiro com mais uma interferência inútil em seu cotidiano; comete, igualmente, uma agressão contra a liberdade de expressão. É inevitável. Todas as vezes que se escreve alguma lei sobre questões nas quais a liberdade de expressão está envolvida, o cidadão fica menos livre para se exprimir; não se conhece, na experiência humana, nenhum episódio em que tenha acontecido o contrário. Outra consequência dessas tentativas de regular cada vez mais coisas é a criação de uma teia de obrigações na qual já não basta que o indivíduo obedeça à lei comum e respeite os direitos dos outros – ele precisa, também, levar uma vida considerada virtuosa e ser protegido de si próprio. Deve consumir alimentos com a quantidade correta de nutrientes e, de preferência, orgânicos. Não deve andar de automóvel. Deve considerar que vegetais como uma árvore, por exemplo, são titulares de direitos. Não deve tomar banhos com duração superior a três minutos, para não esgotar as reservas de água doce do planeta. Deve beber com moderação. Não deve assistir a programas de televisão (ou ler livros, ver filmes, ouvir músicas) que visem à obtenção de lucros comerciais. Deve, ao fim da linha, morrer no peso ideal.

Trata-se de um mundo cada vez mais correto, no papel – e cada vez mais chato, na vida real.

Diogo Mainardi Um mundo correto

da veja

"Eu tenho um imenso respeito pelos ratos venezianos. 
Um respeito que beira a vassalagem. Eles, por sua vez, 
me tratam com certa soberba. Eu entendo. Os ratos venezianos 
pertencem a uma estirpe nobre"

Veneza está infestada de ratos. Quatro ratos para cada habitante. Um total de 200 000 ratos. Perambulo todas as noites à procura deles. Olha o rato saindo do tubo do esgoto! Olha o rato atravessando o canal a nado! Olha o rato morto com um fiozinho de sangue escorrendo pelo canto da boca!

Eu tenho um imenso respeito pelos ratos venezianos. Um respeito que beira a vassalagem. Eles, por sua vez, me tratam com certa soberba. Eu entendo. Os ratos venezianos pertencem a uma estirpe nobre. O impacto que seus antepassados –rattus rattus – tiveram no desenvolvimento das artes foi incomensuravelmente maior do que o de todos nós – brasileiros brasileiros – em mais de 500 anos de história.

A igreja do Redentor é obra dos ratos venezianos. Melhor dizendo: a igreja do Redentor é obra de Andrea Palladio, um dos mais importantes arquitetos de seu tempo, mas ela só foi erguida para comemorar o fim de uma epidemia de peste, em 1576. Quem propagou a epidemia? Os ratos venezianos e suas pulgas. Eles voltaram a disseminar a peste em 1630, matando outras dezenas de milhares de pessoas. O resultado foi melhor ainda: para comemorar o fim da epidemia, Baldassare Longhena projetou a igreja de Santa Maria della Salute.

Nos períodos de epidemia, os navios com pestilentos a bordo tinham de permanecer ancorados ao largo de Veneza, em quarentena, com uma bandeira amarela no mastro. Alguns dias atrás, a imagem se repetiu, quando passageiros e tripulantes de um navio proveniente da Turquia foram impedidos pela guarda costeira de desembarcar na cidade, porque as autoridades temiam que eles fossem portadores de gripe suína. As barreiras sanitárias erguidas pelos italianos funcionaram até agora. Ninguém morreu de gripe suína na Itália. É o contrário do que ocorre no Brasil. Nós já conquistamos uma primazia nesse campo: de acordo com as estatísticas da Organização Mundial de Saúde, temos a segunda maior taxa de mortalidade por gripe suína do mundo. Atrás apenas deles – os argentinos nos argentinos.

Michel de Montaigne passou por Veneza em 1580, quatro anos depois da epidemia que inspirou a igreja do Redentor. Ele associou a peste ao mau cheiro dos canais venezianos, ignorando o papel dos ratos no contágio. Nos Ensaios, ele filosofou que filosofar é aprender a aceitar a própria morte. Nisso ninguém supera os brasileiros. Nós morremos pacatamente, resignadamente, bovinamente, sem atribuir responsabilidades pelas epidemias, sem protestar contra o ministro da Saúde, sem jogar tomates no presidente da República. No Brasil, falta um Andrea Palladio, falta um Baldassare Longhena. Falta também Tamiflu. Por outro lado, morremos melhor do que os outros. Morremos como Montaigne.

VEJA Recomenda

 

 

CINEMA

Kevin Mazur/Wireimage/Getty Images
À Deriva: pai e filha crescendo juntos, dolorosamente


À DERIVA
 (Brasil, 2009. Desde sexta-feira em cartaz no país)

• Depois de Nina e de O Cheiro do Ralo, o diretor Heitor Dhalia muda radicalmente de tom neste seu terceiro longa-metragem: em vez de enredos urbanos (especificamente, paulistanos), volta ao verão de 1979 na vida de uma família em férias em Búzios, no litoral fluminense. Pelos olhos da filha mais velha, Filipa (a estreante Laura Neiva, encontrada no Orkut quando 600 outras candidatas ao papel já haviam sido reprovadas), acompanha-se a derrocada do casamento dos pais sob o peso de rancores. Filipa, que está ela própria despertando para a sexualidade, acha que a raiz dos problemas está no alcoolismo da mãe (Debora Bloch, em uma chance merecida fora das novelas) e nas infidelidades do pai (o francês Vincent Cassel). Mas, claro, compreende de maneira apenas incompleta ou distorcida o que vê. Com uma condução firme e discreta, que reproduz nas imagens e na bela trilha de Antonio Pinto a qualidade das coisas lembradas, Dhalia concentra-se no duro processo de crescimento não só da menina mas também de seu pai – que, na interpretação excelente de Cassel,é uma dessas figuras expansivas e solares em torno das quais só resta aos outros orbitar, queiram eles ou não.

 

 

TELEVISÃO

Divulgação
The Alzheimer's Project: drama humano

THE ALZHEIMER'S PROJECT (estreia na terça-feira 4, na HBO, às 22h)

• Esta belíssima série em quatro partes aborda uma das doenças mais temidas da atualidade, a demência de Alzheimer, sob suas várias luzes. Pacientes nos estágios iniciais do mal manifestam seu medo e frustração com os inexplicáveis vazios de memória. Um episódio dedicado aos que cuidam dos doentes mostra o desafio de conviver com pessoas que a cada dia são menos elas mesmas. Alguns dos mais renomados cientistas da área explicam como a doença funciona e o que eles estão fazendo para mitigar seu impacto pessoal e social – já que seus números só fazem crescer. No segundo episódio, é bom ter lenços à mão: crianças entre 6 e 15 anos falam sobre como é conviver com avôs e avós doentes e assim resumem de maneira cristalina o significado do Alzheimer – uma doença que aniquila tudo aquilo que nos faz humanos.

 

LIVRO

MILAGRES DA VIDA, de J.G. Ballard (tradução de Isa Mara Lando; Companhia das Letras; 248 páginas; 47 reais)

• Nas páginas finais desta autobiografia, o escritor inglês (nascido em Xangai, onde seu pai trabalhava em uma indústria têxtil) James Graham Ballard relata, com serenidade, o diagnóstico do câncer de próstata que viria a matá-lo em abril último, aos 78 anos. Milagres da Vida é, portanto, a obra de um homem consciente de que seu fim estava próximo. Trata-se de uma narrativa cheia de cor e movimento. Ballard rememora a infância em Xangai e o período em um campo de prisioneiros, durante a invasão da China pelo Japão na II Guerra Mundial (episódio que inspirou seu romance O Império do Sol). Também lembra seu esforço para criar três filhos, na Inglaterra, enquanto tentava a sorte como escritor, e examina o escândalo suscitado por suas obras mais provocativas, A Exposição de Atrocidades Crash. Leia trecho.

 

DISCOS

Kevin Mazur/Wireimage/Getty Images

Conor Oberst: canções sobre a vida na estrada


OUTER SOUTH, 
Conor Oberst and the Mystic Valley Band (Music Brokers)

• O cantor e guitarrista americano Conor Oberst foi líder do Bright Eyes, que fazia uma excelente combinação de folk, country, pop e eletrônica. No ano passado, Oberst lançou um CD-solo e saiu em turnê com uma nova banda, The Mystic Valley. Outer South é seu novo trabalho com o grupo. Oberst divide os vocais com o baixista Macey Taylor e com o também guitarrista Taylor Hollingst-worth (cuja voz roufenha, na canção Air Mattress, imita o estilo de Bob Dylan). Muito apropriadamente para um disco com levada folk, as dezesseis faixas falam da vida de músico na estrada. É um tema batido, mas as letras de Oberst superam o lugar-comum. O disco também tem grandes momentos instrumentais, como I Got the Reason, canção de sete minutos com guitarras distorcidas e teclados Hammond.

 

Fernando Mucci

João Carlos Martins: biografia musical  


PÁGINAS DE UMA HISTÓRIA, João Carlos Martins (Flautin 55)

• Um dos maiores nomes brasileiros da música erudita, João Carlos Martins, de 68 anos, começou como pianista, especializando-se na obra de Bach. Uma série de problemas de saúde acabaria impedindo que ele seguisse tocando piano. A partir de 2004, ele se dedicou à regência e criou a Orquestra Bachiana, cujo repertório vai de Bach, Beethoven e Mozart a compositores atuais. Como o título anuncia, Páginas de uma História é uma biografia musical de João Carlos Martins – inclui comentários breves do músico antes de cada faixa. Começa com registros de suas leituras de Lizst aos 10 anos, nas quais já se anunciava o talento do intérprete. Entre as gravações mais recentes, o disco traz Martins à frente de sua Orquestra Bachiana, em uma bela versão de Adiós, Nonino, do argentino Astor Piazzolla, com arranjo do maestro e compositor Mateus Araújo.

 

 

Cinemateca VEJA

 

• Em São Paulo e no Rio de Janeiro, nesta semana: Robin Williams é o professor que abre os horizontes de seus alunos em Sociedade dos Poetas Mortos (leia a crítica).

 

   
• Nos demais estados, nesta semana: Robert De Niro é o boxeador Jake La Motta na obra-prima Touro Indomável, de Martin Scorsese (leia a crítica).



Como comprar a Cinemateca VEJA

Em bancas, livrarias e redes de supermercados, a 13,90 reais o exemplar avulso. Para assinar, ligue 3347-2180 (Grande São Paulo) ou 0800-775-3180 (outras localidades), de segunda a sexta-feira, das 8 às 22 horas. Pela internet, acesse www.assineabril.com

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