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Entrevista:O Estado inteligente
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domingo, agosto 02, 2009
da veja Os mais vendidos
História Um livro intrigante sobre a II Guerra Mundial
História
Uma guerra sem fim
Qual a utilidade de mais um livro de história da II Guerra Mundial?
A obra de Andrew Roberts tem a resposta
Bettmann/Corbis/Latinstock![]() |
| O PRAÇA E OS GENERAIS Hitler, que foi cabo na I Guerra, se achava superior a todo o estado-maior. Ninguémé louco impunemente |
Historiadores de guerra são itens mais ingleses do que os vasos de aspidistra nos jardins. Como as plantas, eles passam imutáveis, de uma geração à seguinte, escrevendo sobre os mesmos temas, sempre do indisfarçável ponto de vista da Inglaterra e do Ocidente. Ao contrário das plantas, eles acrescentam muito em substância e análise ao que ficou para trás. O mais extraordinário desses historiadores atualmente é Andrew Roberts. Aos 45 anos, o bravo e precoce pesquisador já escreveu sobre Napoleão Bonaparte, Lord Wellington, a batalha de Waterloo e a dinastia Windsor. Ele tentou e triunfou em sua própria História dos Povos de Língua Inglesa, livro homônimo de outro escrito por ninguém menos do que Winston Churchill. Roberts acaba de publicar uma nova história da II Guerra Mundial, um calhamaço de 712 páginas intitulado The Storm of War, ainda sem tradução para o português. O título revela a essência moral do livro: a revolta com a violenta destruição de vida e recursos trazida por uma guerra mundial.
Andrew Roberts havia antes esmiuçado as tensões latentes entre os chefes aliados (Churchill, Franklin Roosevelt, Dwight Eisenhower e sir Alan Brooke) e como eles as superaram convergindo para um único pensamento estratégico. Ele amplia o foco em The Storm of War, mantendo, porém, o admirável método de discorrer sobre os grandes fatos e os grandes homens revelando no percurso a fragilidade, a pequenez e a miséria que as guerras impõem a todos. Mas o diferencial a justificar a publicação dessa nova história da II Guerra está no acesso irrestrito e exclusivo que Andrew Roberts teve a arquivos de documentos e cartas até então mantidos lacrados por herdeiros desconfiados ou desinteressados de estudiosos, generais, políticos e outras figuras-chave do esforço de guerra aliado.
O livro de Roberts terá seu lugar assegurado na galeria dos relatos sobre a guerra pela franqueza, honestidade e desassombro das revelações e inferências constrangedoras para governos, países e pessoas envolvidas no conflito. Algumas delas:
• Os alemães entraram triunfalmente em Paris em 14 de junho de 1940. O primeiro invasor nazista só foi morto pela resistência, organizada por militantes comunistas, em junho de 1941 – ou seja, logo depois de as tropas de Hitler invadirem a União Soviética (22 de junho de 1941). Até então, comunistas e nazistas tinham um pacto e eram bons amigos.
• Mais franceses lutaram ao lado dos nazistas do que dos aliados.
• O governo de Vichy, vergonhoso arranjo administrativo da França ocupada, não era tão capacho quanto se pensa. Vichy prendeu e executou espiões alemães.
• A loucura racista de Hitler (que levou ao exílio os melhores cientistas judeus e alemães não nazistas) e seu convencimento de que era superior a seus generais em estratégia condenaram a Alemanha à derrota militar desde o começo.
Roberts defende o ataque nuclear ao Japão exatamente como foi executado pelos americanos – duas bombas lançadas sobre cidades populosas. A escolha de um alvo simbólico, diz ele, não teria assustado a obstinada casta dirigente militarista do Japão imperial, que só se renderia mesmo depois de a segunda – e última – ogiva americana ser jogada sobre Nagasaki.
Sindicatos A briga pelo cofre do FAT
BrasilVacilou, dançou O ministro do Trabalho aproveita um cochilo da oposição para colocar |
Fotos Marcos Arcoverde/AE e Andre Dusek/AE![]() |
| ATROPELOU O ministro Carlos Lupi se uniu aos sindicatos para eleger o novo presidente do conselho do FAT. A senadora Kátia Abreu, que já contava com a vaga, ficou na saudade |
O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, do PDT, impôs uma dura derrota à oposição. O centro da disputa foi o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), abastecido com dinheiro de impostos e controlado por um conselho deliberativo que inclui governo, sindicatos de empresários e de trabalhadores. Por um acordo de cavalheiros, a presidência do conselho é rotativa: cada bloco passa dois anos no comando. Até a semana passada, quem dava as cartas no FAT eram os trabalhadores, mais especificamente a Força Sindical, central vinculada ao ministro Lupi. No próximo biênio, o controle caberia aos empresários. As quatro maiores associações patronais – as confederações da indústria (CNI), da agricultura (CNA), do comércio (CNC) e do sistema financeiro (Consif) – se articularam para escolher um nome. Decidiram deixar a indicação para a CNA, presidida pela senadora Kátia Abreu (DEM-TO). Só que excluíram das negociações duas outras associações patronais, a de serviços (CNS) e a de turismo (CNTur). Aí, abriram uma brecha para que Lupi os derrotasse.
O presidente da CNS, Luigi Nese, havia se candidatado a presidente do conselho, mas não foi levado a sério pelas outras confederações por ser um novato: a instituição que ele preside não tem um ano de vida e só ingressou no conselho do FAT em abril. "Quando eu disse que queria disputar a indicação, responderam que 'pato novo não pia'. Um desrespeito", diz Nese. Ele, então, recorreu a Lupi. O ministro anteviu a oportunidade de dar um tombo na senadora Kátia Abreu, aguerrido nome da oposição, e prometeu apoio a Nese. Munido da bênção oficial, cabalou votos nas centrais sindicais. No dia da eleição, nadou de braçada: elegeu-se com o apoio do ministro e dos sindicatos. "O que aconteceu foi consequência da postura hostil e raivosa que a senadora Kátia Abreu e o DEM mantêm em relação ao governo e às centrais sindicais", diz Lupi.
O ministro gaba-se de ter vencido sem quebrar a alternância de poder, já que o novo presidente dirige uma confederação patronal. O grupo da senadora, que ameaça abandonar o fundo, tem outra leitura: Nese seria apenas um preposto de Lupi. Na presidência do conselho, ele comandará um orçamento de 43 bilhões de reais em 2010, ano em que se elegerão o presidente da República, governadores, deputados e senadores. A maior parte desse dinheiro é gasta no seguro-desemprego e no abono salarial do PIS. Mas uma parcela pode ser manobrada por meio de empréstimos do BNDES e de programas de qualificação profissional tocados pelas centrais sindicais. A oposição teme que esses recursos, sob a presidência de Nese, acabem no caixa dois de políticos da base governista. Olho nele, Kátia.

Imprensa Jornal de Sarney não conta nada
Só lá Sarney é santo
Como O Estado do Maranhão, jornal da família do
senador, cobre os escândalos que envolvem o político
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Diogo Schelp
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"Maranhenses desconfiam da ida do homem à Lua", anunciava, no dia 20 passado, uma manchete no site da TV Mirante. A afiliada da Rede Globo pertence ao grupo de comunicações da família do senador José Sarney (PMDB). O conglomerado inclui as principais retransmissoras de TV do estado, quase duas dezenas de estações de rádio e o jornal diário de maior circulação, O Estado do Maranhão. Nas últimas semanas, todo esse aparato de comunicação - com uma forcinha de afiliadas locais do SBT ligadas ao ministro de Minas e Energia, Edison Lobão - dedica-se a esconder dos maranhenses os rolos de José Sarney com nepotismo, conta no exterior, desvio de dinheiro público e tráfico de influência. É mais fácil acreditar que o homem nunca pisou na Lua.
O Estado do Maranhão vai às bancas com uma versão peculiar da realidade. Nela, Sarney é uma espécie de santo martirizado pela "mídia paulista", pela oposição no Congresso, pelo Ministério Público e pelas pessoas que vazaram as gravações telefônicas, feitas pela Polícia Federal, entre o senador e seus parentes. O jornal diz que tudo não passa de manipulação política e pede rigor na investigação de quem passou os grampos à imprensa. Quando não dá para ser ainda mais servil,O Estado simplesmente muda de assunto. Sempre que possível, as manchetes exaltam as manifestações de apoio a Sarney, para passar a impressão de que toda a população maranhense é unânime na crença de que o político é vítima de uma campanha para tirá-lo da presidência do Senado e, assim, atingir o governo Lula. VEJA tentou entrevistar o diretor do jornal, Ribamar Corrêa. Mas ele se negou a falar.
No Maranhão, 90% dos meios de comunicação do estado estão nas mãos de grupos políticos. Infelizmente, não se trata de exceção. Fora dos grandes centros econômicos do Sul e do Sudeste, praticamente inexiste uma imprensa regional independente e isenta. Estima-se que quase três centenas de governadores, prefeitos e parlamentares sejam donos de veículos de comunicação no Brasil. E o que é pior: a Constituição não permite que deputados federais e senadores sejam sócios de empresas concessionárias de serviço público. Ou seja, eles são proibidos de ter rádios e TVs, sob o risco de perderem o mandato. A regra é ignorada sem solenidade. Quando muito, os políticos colocam as empresas no nome de parentes e laranjas ou assinam um termo "licenciando-se" da gestão de seus negócios de comunicação. Como se isso evitasse que o conteúdo do noticiário obedecesse a seus interesses. Dos oitenta deputados federais e senadores com outorgas de rádio e TV, dois terços são das regiões Norte e Nordeste.
No Maranhão, as empresas dos Sarney e de Edison Lobão não são as únicas controladas por políticos. O grupo detentor das afiliadas da Rede Record e de algumas emissoras de rádio tem entre seus sócios o deputado federal Roberto Rocha (PSDB), inimigo dos Sarney. Na disputa pelo posto de o segundo maior jornal em São Luís estão O Imparcial, dos Diários Associados, um grupo nacional sem ligação direta com políticos locais, e o Jornal Pequeno, alinhado com qualquer liderança que se oponha aos Sarney. Em ambos, noticiam-se os escândalos recentes. Incapaz, portanto, de controlar todas as informações que chegam aos seus súditos, Sarney contratou uma equipe de quinze jornalistas recém-formados para inundar a internet - principalmente sites e blogs do Maranhão - com comentários positivos a seu respeito. Em outra tentativa de contrapor-se ao inevitável, na última sexta-feira, em seu artigo semanal na Folha de S.Paulo, o senador reclamou da falta de uma "lei de responsabilidade da mídia" e se diz vítima de "tortura moral". É mesmo como acreditar que o homem não foi à Lua.
Brasil Sarney: fim de linha
da veja
A RENDIÇÃO DO ÚLTIMO CORONEL
O presidente do Senado anuncia a Lula sua disposição de entregar
o cargo para preservar o mandato, abrindo o processo de sucessão.
O que o Brasil espera é que ele sirva para mudar as práticas e os
vícios que alimentam a corrupção e o fisiologismo na política
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Otávio Cabral e Diego Escosteguy
Fotos Sérgio Lima / Folha Imagem e Paulo Liebert /AE![]() |
| SARNEY? QUE SARNEY? Lula defendeu publicamente o presidente do Senado até quando lhe foi conveniente para garantir a gratidão e o apoio do PMDB na sucessão presidencial |
O senador José Sarney lutou muito, mas não conseguiu vencer os fatos. Ao decidir disputar a presidência do Senado, em fevereiro passado, acreditava que o cargo era uma garantia de imunidade para ele e a família – àquela altura já investigada pela Polícia Federal por suspeita de uma multiplicidade de crimes. A visibilidade, porém, teve efeito contrário e acabou colocando o mais longevo dos políticos brasileiros no centro de uma devastadora crise no Congresso. José Sarney, o último dos coronéis, rendeu-se diante de tantos escândalos. Na semana passada, o senador disse ao presidente Lula que está cansado e que resolveu deixar o cargo. "Não aguento mais. Vou negociar uma saída", afirmou, de acordo com um interlocutor privilegiado do presidente. A conversa aconteceu na segunda-feira, pelo telefone, quando Lula ligou para saber notícias sobre o estado de saúde de Marly Sarney, esposa do presidente do Senado, que se recupera de uma cirurgia em São Paulo. Sarney, de acordo com o relato feito por Lula, estava abatido, disse que não conseguia dormir havia dias e se culpava pelo estado de saúde da mulher, que sofrera um acidente doméstico, fraturando o braço e o ombro.
Nos às vezes tortuosos códigos da política, desabafos como o do senador Sarney podem ser interpretados como um simples blefe, uma ameaça velada ou até chantagem de alguém em busca de proteção. Não é o caso. Desde o início da crise, Lula se empenhou pessoalmente na defesa de Sarney, sem nenhum pudor, a ponto de causar constrangimentos ao seu partido, quando desautorizou publicamente o líder do PT, senador Aloizio Mercadante, que havia pedido o afastamento do presidente do Congresso. Depois da conversa telefônica com José Sarney, porém, Lula mudou completamente o tom. Antes disposto a sacrificar um pouco da própria popularidade em troca de um punhado de votos no Congresso e de uma provável aliança com o PMDB na campanha eleitoral de 2010, o presidente vislumbrou a hora de mudar o discurso. Sarney? "Não é um problema meu. Não votei para eleger Sarney presidente do Senado, nem para senador. Votei nos senadores de São Paulo. Quem tem de decidir se ele fica presidente é o Senado", disse Lula em entrevista, recolhendo a boia. Jamais, portanto, poderá ser acusado de ter associado sua credibilidade à tentativa de manter no cargo um presidente do Congresso envolvido em nepotismo, desvio de dinheiro, contas no exterior... E, daqui a alguns dias, Lula pode, quem sabe, invocar até uma conveniente crise de amnésia: Sarney? Que Sarney?...
O presidente, o PMDB e seus aliados já começaram a discutir o futuro do Senado pós-Sarney, mas muito distante daquele que deveria ser o ponto de partida. Lula, por exemplo, está preocupado com questões mais práticas, como a sucessão. Trabalha para que Sarney renuncie, o que obrigaria o Senado a convocar novas eleições em cinco dias, evitando que a Casa ficasse sob o comando do vice-presidente, Marconi Perillo, do PSDB. O PMDB, republicano como sempre, quer continuar com a presidência, mas tem dificuldades em encontrar um candidato que seja da absoluta confiança do partido e que tenha a ficha limpa – missão aparentemente impossível. Sarney é o quarto político que presidiu o Senado nos últimos dez anos a cair em desgraça. Antes dele, Antonio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e Renan Calheiros passaram por processos idênticos, o que mostra que o problema principal nunca foi enfrentado. "O Senado vive uma crise institucional provocada pela falta de ética, pela complacência com o uso indevido dos recursos públicos e pela falta de transparência", analisa o cientista político Lúcio Rennó, da Universidade de Brasília. "Não adianta apenas mudar os nomes. É necessária uma mudança radical nas práticas." A questão é que isso não interessa a quem deveria promover as mudanças – e os escândalos envolvendo o senador José Sarney explicam por quê.
A família Sarney sempre teve um apreço especial pelo setor energético, feudo do clã há pelo menos duas décadas. Além de dividendos políticos, o controle do setor proporciona outras vantagens. A Fundação José Sarney, criada pelo senador no Maranhão, é acusada de desviar dinheiro de um convênio com a Petrobras. O Instituto Mirante, ONG presidida pelo filho-problema Fernando Sarney, recebeu recursos da Eletrobrás para financiar projetos culturais no estado – parte desviada para contas de empresas da família. Fernando Sarney é o mesmo empresário que fez bons negócios na década de 80 vendendo postes de luz à estatal de energia do Maranhão ao mesmo tempo em que presidia a empresa por indicação do pai. A incursão mais recente e enrolada dos Sarney no campo energético ocorreu em Santo Amaro, no interior do estado. Lá, a Petrobras descobriu um manancial de gás natural. Há três anos, com a valorização do gás no mercado internacional, a Agência Nacional do Petróleo decidiu licitar a área para exploração. Antes que isso acontecesse, porém, o senador José Sarney tomou posse do local. Tomou posse, explique-se, porque há indícios de que houve grilagem de terras e estelionato – tudo coincidentemente conjugado com decisões de órgãos federais do setor energético comandados por pessoas ligadas a Sarney.
Fotos Ana Araújo e Celso Junior/AE![]() |
| O IMPÉRIO SOB INVESTIGAÇÃO Vista aérea do Convento das Mercês (à dir.), sede do Memorial José Sarney, em São Luís, e o poço de gás – a válvula em terras do grupo na região dos Lençóis Maranhenses (à esq.). A situação se agravou com as revelações sobre desvio de dinheiro público, tráfico de influência e grilagem de terras |
Oficialmente, as áreas onde ficam os reservatórios de gás pertencem à empresa Adpart, que tem o presidente do Senado como cotista. O problema é que existem enormes discrepâncias entre o que dizem os papéis da empresa de Sarney e o que indicam as certidões dos imóveis. O que se media em poucos metros nas certidões dos cartórios do Maranhão passou a se contar em centenas de hectares nos documentos de Brasília. O milagre da multiplicação é que permitiu ao senador se tornar proprietário da área minada de gás. Numa certidão, Sarney diz ter comprado 200 hectares do lavrador Clodoaldo Garcia Lira. Entrevistado por VEJA, porém, o lavrador disse que vendera somente um "pedacinho" pequeno de terra, onde cultivava caju e mandioca. Ele diz ter vendido o terreno por 25.000 reais, pagos em dinheiro vivo por Ronald Sarney, irmão do presidente do Senado e procurador dele nos negócios de Santo Amaro. Diz o lavrador: "Meu terreninho ficava a uns 10 metros do poço". Depois da venda, o poço apareceu misteriosamente dentro do terreno. "Foi o pessoal do Sarney que cercou", diz o lavrador.
O principal poço de gás localizado nas terras também está cercado por arames e madeira. Entrevistado, o capataz de Sarney, José Ribamar Rodrigues de Oliveira, diz ter feito o serviço: "O doutor Ronald (irmão de Sarney) que me pediu. O presidente Sarney já veio aqui três vezes visitar o poço. Isso aqui tudo é do Sarney". Será? Em fevereiro de 2006, o então ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, indicado por Sarney para o cargo, autorizou a Agência Nacional do Petróleo a licitar a área. A Panergy, empresa que ganhou a licitação, pagou 1,1 milhão de reais ao governo pelo direito de investir na região. A empresa só aguarda a anuência ambiental do Instituto Chico Mendes para começar a exploração. Diz Normando Paes, dono da Panergy: "Trata-se de um campo de gás e não esperamos problemas para explorar. Fui informado pelo governo de que a área é pública e pertence ao estado do Maranhão". Telma Thomé, presidente da estatal de gás do Maranhão durante o processo de licitação da ANP, confirma que a área é pública. "As terras são do estado do Maranhão. Nós sempre trabalhamos os projetos de exploração de gás com essa perspectiva", diz ela. O cartório da cidade não ajuda a esclarecer o mistério. Diz a tabeliã Elke Viviane: "O pessoal do Sarney trouxe a certidão de compra das terras. Não posso falar mais nada". Nem precisa.
O desfecho da crise envolvendo Sarney representa um golpe contra as tradicionais oligarquias políticas brasileiras, mas não o definitivo – aliás, longe disso. Antonio Carlos Magalhães, Renan Calheiros, Jader Barbalho e Sarney produziram herdeiros, biológicos ou não, que mantêm vivas as seculares práticas coronelistas. O tamanho e a importância que tem o PMDB no cenário nacional é o maior exemplo disso. Como um câncer em processo de metástase, o partido é o abrigo seguro desse jeito peculiar de fazer política, desses grupos que continuam espalhados pela máquina do estado empenhados exclusivamente em girar a roda do fisiologismo e da corrupção. Se a renúncia de Sarney se confirmar, alguém é capaz de imaginar que os indicados pelo senador no setor elétrico serão demitidos? Não, não serão. Eles continuarão lá, fazendo tudo o que sempre fizeram, igualzinho ao que manda a cartilha atrasada pela qual reza a maioria dos políticos brasileiros, independentemente da agremiação a que pertencem. Afinal, essa é, e ainda vai continuar sendo por muito tempo, a mais eficiente e segura forma de fazer política: trocando votos por cargos, permutando verbas por apoio, empregando parentes e amigos – tudo com o nosso dinheiro.
José Cruz /ABR![]() |
| TUDO POR UM VOTO Mercadante, líder do PT no Senado, fez nota pela saída de Sarney e foi desautorizado por Lula |
sábado, agosto 01, 2009
Villas-Bôas Corrêa A saída da crise pela porta da frente
JORNAL DO BRASIL
A primeira fase da crise ética do Senado está nos seus estertores diante da evidência que a campanha eleitoral não pode começar, na etapa preliminar da definição das chapas e das convenções partidárias, neste clima de bagunça, de troca de insultos e representações no Conselho de Ética contra o senador José Sarney (PMDB-AP), para forçar a sua renúncia ou a derrubada da presidência do Senado.
Alguns sinais no horizonte indicam a transa dos bastidores para abrir uma brecha na muralha da insensatez para a articulação de uma fórmula de entendimento que desarme os dois lados, para que o desmoralizado Congresso vote projetos do interesse do governo e dos candidatos, com a liberação de verbas para a continuação da gastança.
Em ginga de corpo para driblar a oposição e confundir a bancada governista, o presidente mudou o tom dos seus improvisos e declarações aos repórteres, para afirmar que a crise do Senado não é um problema dele, mas do próprio Senado.
Uma aparente cambalhota, que tem a sua singela decifração. O presidente não está abandonando o seu aliado Sarney às traças: abre a portinhola dos fundos para uma trégua. Os senadores petistas reagiram ao enquadramento na tática lulista para garantir votos da oposição com as sucessivas declarações de apoio à permanência de Sarney na presidência do Senado. Antes de uma rachadura suicida, o presidente deu uma no cravo e outra na ferradura.
Para os rebeldes petistas, o recado do dar o dito pelo não dito: "Não é um problema meu. Eu não votei para eleger o senador José Sarney presidente do Senado. Nem votei para ser senador pelo Maranhão ( Sarney é senador eleito e reeleito pelo Amapá), nem votei no Temer, no Arthur Virgílio, não votei para ninguém. Votei nos senadores de São Paulo". E um final que soou como um samba de Cartola aos ouvidos petistas: "Quem tem que decidir se o presidente Sarney continua presidente do Senado é o Senado, que o elegeu".
Em outra das muitas entrevistas, Lula cutucou o Legislativo a trabalhar para que o país não seja prejudicado com o atraso na aprovação de projetos importantes. No Senado, muitos se preocupam com o agravamento da crise, enquanto a Câmara anda de banda. O alinhavo por baixo do pano pode criar um impasse que paralise o Conselho de Ética, engasgado com o excesso de uma dúzia de pedidos de investigação de denúncias contra o presidente José Sarney. Na reunião prevista para terça-feira, o presidente do Conselho, senador Paulo Duque (PMDB-RJ), não sabe como distribuir os pedidos de investigação que, até segunda devem passar de 15. E a oposição suspeita que Paulo Duque pretende arquivar o pacote de todas as representações.
Como o prazo está encurtando, o Senado terá de encontrar uma solução urgente antes de atravessar o beco, pois é de uma evidência solar que este Congresso não tem credibilidade, não inspira a menor confiança para a saída única para a crise crônica que se agrava a cada dia.
O modelo que nasceu torto, caducou. E antes de qualquer proposta sofisticada, o Legislativo tem que enfrentar o desafio de saltar o muro das mordomias, das vantagens, da verba indenizatória e de várias outras regalias indefensáveis, como a verba para a contratação de três dezenas de assessores para os gabinetes individuais de senadores e deputados, das quatro passagens aéreas semanas para o fim de semana nos lençóis domésticos, quando têm à disposição, em Brasília, apartamentos mobiliados ou a verba para pagar a diária dos hotéis.
É uma tolice acusar de inimigos de Brasília os que criticam os abusos dos que desmoralizam a capital inaugurada antes de estar pronta e que nunca conseguiu extirpar a praga das mordomias, criadas para vencer as resistências dos que se recusavam a mudar com a família para a cidade em obras no ermo do cerrado.
Na campanha eleitoral de 2010, este será um tema inevitável no debate sobre a crise crônica dos três poderes, viciados nas mordomias, e que no Congresso passou dos limites na sequência de escândalos que corroeram a sua credibilidade.
Para o doente desenganado, apela-se para todos os recursos. O Congresso não pode ser tratado com doses homeopáticas de despistamento. O eleitor não pode esquecer que sem Congresso e liberdade de imprensa não há democracia.
Ruptura e desastre Cesar Maia
DOIS CONCEITOS deveriam ser caros aos políticos. Um de Gladwell -"Tipping Point"- e outro tendo como referência a Teoria da Catástrofe de René Thom. O primeiro é quando um evento de pequena escala produz um ponto de ruptura ou inicia esse processo. O segundo estuda as causas de eventos naturais em ruptura quando tudo parecia normal.
As equações de previsão são de alta complexidade. No final de um pequeno livro, Woodcock e Davis a adaptam para a política. Exemplificam com a militarização do Império Romano, transformando as relações de produção no campo pelo uso de escravos, formando um exército de cidadãos. O sistema foi ruindo silenciosamente. É como um processo político onde os elementos de ruptura são correntes submersas. Quando afloram, sugerem imprevisibilidade.
Na Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mudava o quadro a seu favor, decidiu por um bloqueio naval, pela dificuldade em ocupar a ilha. O que não previa é que estava mexendo com os exportadores dos EUA. A pressão empresarial para entrar na guerra foi irresistível.
A combinação desses dois conceitos é básica na política, pela diversidade e velocidade dos fatos, e com isso a possibilidade de pequenos impactos, invisíveis, se tornarem viróticos (das fitas cassete de Khomeini ao blog que expôs o caso Monica Lewinsky).
As análises em política têm que ser feitas num diagrama de alternativas. Vamos escolher dois fatos e apostar que podem ser "Tipping Points" e estarem dentro da adaptação política feita por Woodcock e Davis. Um é o caso Honduras, um pequeno país pobre. O kit chavista, usando a formalidade constitucional, deu certo na Venezuela e foi levado à Bolívia e ao Equador. Cooptou o presidente Zelaya que ao arrepio da lei quis aplicar o kit-Chávez na marra. Chávez colocou as garras de fora e expôs sua impaciência golpista. E, então, foi aplicada a bushiana prevenção estratégica. Novos terceiros mandatos ruirão daqui para a frente, marcados pelo kit fraude-constitucional. Seu fim expansionista cessou.
Outro fato é a linguagem desabrida de Lula. Sua popularidade permite tudo. Mas vão sendo acumulados na memória popular e o levaram a um ponto onde sua sobrevivência passou a depender desta enorme popularidade. Quando esta se acomodar, a corrente da memória das declarações extemporâneas poderá produzir o jato de um gêiser, como o segundo tempo do Plano Cruzado.
São exercícios que podem estimular cada um a fazer os seus, com base nestes conceitos, e projetar cenários.
Mírian Leitão Juros e juros
| O Globo - 01/08/2009 |
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| Os juros bancários podem continuar caindo mesmo que a Selic não caia. Por vários motivos: eles permanecem altíssimos; caíram proporcionalmente menos do que a Selic; a inadimplência começará a cair; a estabilização da Selic em nível mais baixo dará aos tomadores uma noção melhor do custo do dinheiro. Os bancos públicos poderiam incentivar a competição se tivessem custos menores. Os juros bancários caíram em todas as modalidades em junho, mas há quedas e quedas. As taxas cobradas pelos bancos são tão altas que quando caem é como sair do vigésimo para o décimo nono andar. |
Dora Kramer -Sétimo sentido
| O Estado de S. Paulo - 01/08/2009 |
Certamente deve ter achado que as críticas em relação a ele ficavam restritas à oposição e à imprensa, dois setores que Lula aprendeu a desprezar depois de ter sido reeleito apesar dos vários escândalos de corrupção que permearam o primeiro mandato. Não levou em conta um dado fundamental: em se tratando de José Sarney, há todo um passivo desfavorável. São poucos os que valorizam o papel de Sarney na transição democrática. Por ironia, boa parte deles trabalha na imprensa ou milita na oposição. A maioria das pessoas lembra de Sarney como o presidente que afundou o Plano Cruzado por causa de uma eleição e deixou o País com 80% de inflação ao mês. Embora tenha sido a principal figura da Nova República, com a morte de Tancredo Neves, Sarney acabou se transformando em símbolo do que há de mais retrógrado na República. Quando à fama se juntaram os fatos divulgados nos últimos meses, o que poderia ser má impressão consolidou-se como rejeição. Isso a intuição de Lula não foi capaz de detectar. Abandonado pelo sexto sentido, o presidente recorreu aos préstimos de um sétimo e, pragmaticamente, mudou o discurso. "Não é problema meu", disse Lula na quinta-feira sobre o destino de José Sarney na presidência do Senado. A declaração foi imediatamente interpretada como a senha para o desembarque, atribuído a pesquisas que indicariam malefícios para a popularidade do presidente, decorrentes do apoio entusiasmado a Sarney. Pode ser e pode não ser. Com o presidente Lula nunca se sabe direito o que representa realmente sua posição ou o que é apenas mais uma manifestação de sua falta de compromisso com a palavra dita. Logo no início da crise Lula falou a mesma coisa, que o Senado era um outro Poder e que a ele caberia resolver seus problemas. Isso depois de ter mobilizado o governo em prol da eleição de Sarney para a presidência do Senado e minutos antes de abrir a temporada de defesa explícita e de intervir diretamente na posição da bancada do PT, majoritariamente favorável ao afastamento. Se a declaração for mesmo o que pareceu à primeira vista, é de se concluir que, na visão do presidente, Sarney é insustentável no cargo. Nesse caso, o recuo de Lula cumpriria dois objetivos: minorar os efeitos do distanciamento entre suas ações e a opinião do público e tentar evitar que a derrota presumida de Sarney seja vista como um fracasso pessoal do presidente. Que tanto fez e nada conseguiu em prol do protegido. O conselheiro O ex-prefeito César Maia elaborou uma espécie de manual com "50 conselhos para os políticos". Eis a maioria deles. . Nunca mude de personagem. . Há uma diferença entre buscar recursos para fazer política e buscar a política para fazer recursos. . Atire sempre na pessoa jurídica do seu adversário, nunca na pessoa física. . Fique bravo por fora, mas tranquilo por dentro. . Sempre haverá um bêbado numa reunião. Dê a palavra a ele. . Só polemize se souber o que vai dizer na quinta jogada. . Seu adversário sabe tudo de você. Você só precisa saber uma coisa dele. . Os âncoras da TV têm mais credibilidade que você. Nunca os desminta. . É na pré-campanha que se fixa a imagem no celuloide. Na campanha se revela. . Escolha a biografia de no mínimo dois políticos e as conheça bem. . Os números quebrados impressionam mais. . O voto se pede, mas não se suplica. . Em plenário, responda concordando e prossiga... discordando. . Não é você que é bonito, mas o poder que você tem. Dura apenas o seu mandato. . A retórica pomposa ridiculariza. . Nunca desminta a imprensa; faça uma nova afirmação. . Cada aperto de mão é uma pesquisa qualitativa. . A eleição de hoje não é a última da história. . Nunca minta. Fale o necessário. . Prometa só o possível. . Não fale mais do adversário na frente da família. Ela não entenderá quando ele for seu parceiro. . Nunca tranque as portas. No máximo, as feche. . Ideologia não é tudo na política. Política sem ideologia é nada. . Case com uma mulher mais velha. (no caso das mulheres políticas) Case com um homem muito mais velho. . As pesquisas tratam do que você deve fazer e não do que você já fez. . Enxugue o suor antes de oferecer a mão para o aperto. . Seu publicitário sabe muito menos que você sobre política. . Aprenda a sorrir como o Blair (Tony, ex-primeiro ministro da Inglaterra) e faça assim na TV e nos velórios. . A internet não substitui a imprensa. . A imprensa continua importante. . A imprensa não é fundamental. . A notícia de hoje desaparece duas horas depois. . Cuidado quando as notícias forem em série. . Conheça umas quatro piadas sobre políticos. Curtas. E as use. |
Celso Ming -Máquina emperrada
| O Estado de S. Paulo - 01/08/2009 |
Pelo lado bom, há vários pontos a acentuar. Primeiramente, por ter sido bem mais baixa do que o esperado. A queda do PIB dos Estados Unidos no segundo trimestre foi de 1,0% em termos anuais. Os analistas imaginavam uma retração em torno de 1,5%. Em segundo lugar, pelo fato de mostrar que a retração praticamente perdeu velocidade, passando a impressão de que a economia já vem voltando do fundo do poço para a superfície. Pelo lado ruim, também há o que dizer. Foi completado o quarto trimestre consecutivo de queda da atividade econômica americana e, além disso, é a pior recessão em quase 30 anos. Essa queda começou mais embaixo porque houve uma redução ainda mais acentuada do PIB no trimestre anterior, já que a revisão dos números mostrou queda no primeiro trimestre de 6,4%, e não de apenas 5,7%, como as estatísticas preliminares haviam acusado. Os dados finais de 2008 também foram piores. O PIB caiu 1,9% e não só 0,8%, como dispunham os dados provisórios. O que conta agora é saber o que vem pela frente. Ainda não dá para dizer que a partir de agora haverá só recuperação e que a crise ficou para trás. Na economia americana, o consumo pesa cerca de 70% na formação da renda nacional. E, neste momento, o consumo está sendo muito castigado por dois principais fatores. O primeiro deles é o aumento do desemprego. Os números do Departamento do Trabalho apontam redução de 6,5 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos desde dezembro de 2007, mês em que começou a recessão. Além disso, a própria recuperação da atividade econômica se fará com redução de postos de trabalho. Em toda a economia, as empresas estão cortando pessoal ou, então, contratando menos do que antes. Basta dar uma espiada para ver o que está acontecendo com as montadoras de veículos. Os assalariados estão aceitando remuneração mais baixa pela mesma carga de trabalho. O desemprego nos Estados Unidos aumentou de 4,9% ao final de 2007 para 9,5% em junho deste ano, último dado disponível. E os especialistas esperam que, no início de 2010 atinja 10%. Isso significa que a massa de renda do consumidor tende a diminuir e, com isso, reduzir a velocidade da recuperação. O segundo fator que tende a conter o consumo é a continuada desvalorização do patrimônio das famílias americanas. Os preços das casas, em geral o principal ativo de uma família, caíram 17% em um ano. As aplicações financeiras vêm proporcionando um retorno dificilmente superior a 3% ao ano. Os fundos de pensão perderam reservas e isso sugere ao americano que a renda futura de sua aposentadoria corre riscos, o que exige ampliar a poupança pessoal e, portanto, reduzir o consumo. O aumento das dificuldades da economia americana realça a boa fase relativa da economia brasileira, que deverá terminar o ano com um crescimento em torno de zero por cento. Se isso ficar confirmado, poderá ser o quinto do Planeta. Nada mau para o Brasil, desde que o governo Lula não faça nenhuma grande besteira na condução da política econômica. |
Merval Pereira -Entendendo a opinião pública
| O Globo - 01/08/2009 |
A crise no Senado tem produzido como efeito colateral uma discussão que já se tornou recorrente no governo Lula sobre o papel da mídia e sua repercussão na opinião pública. O presidente do Senado, José Sarney, se proclama vítima de uma perseguição dos grandes meios de comunicação, assim como fez o senador Renan Calheiros quando coube a ele enfrentar uma série de acusações que o tiraram da presidência do Senado. Quando o deputado Sérgio Moraes disse que estava "se lixando" para a opinião pública, repetia a postura de um outro deputado, Roberto Brant, que, para se livrar da cassação pela participação no mensalão, fez um discurso de defesa na tribuna da Câmara onde advertiu seus pares para que tivessem cuidado "com o monstro da opinião pública". Pediu que pensassem "apenas no povo", no pressuposto, muito em voga no atual governo, de que a "opinião pública" representa apenas uma parcela de elite da sociedade, e não os cidadãos de maneira geral. |
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