Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, junho 02, 2008

clipping de 2 de junho

Clipping de Hoje
 
 
 Correio Braziliense
  MÁFIA DOS CAIXÕES NA MIRA DA POLÍCIA FEDERAL
  Paralisação deixa Brasília sem ônibus por 24 horas
  Lula sugere debate sobre alta do petróleo
 Folha de S. Paulo
  ROSINHA É ACUSADA DE RECEBER DINHEIRO DO CRIME EM CAMPANHA
  Entrevista da 2ª: 'Sul maravilha' põe em risco o índio isolado, diz sertanista
 Gazeta Mercantil
  EMPREGO NO CAMPO AUMENTA APÓS 30 ANOS DE ESTAGNAÇÃO
  Petrobras adia estimativa sobre o campo de Carioca
  Investimento estrangeiro no País tem saldo positivo
 O Estado de S. Paulo
  PROJETO IGUALA APOSENTADORIA DO SERVIDOR COM A DO INSS
  É preciso apertar a política fiscal, diz Pastore
  Base aliada põe em xeque o futuro das CPIs
  Lula defende etanol e fala em 'guerra necessária'
 O Globo
  PF investiga caixa dois de deputados do Rio
  Lula diz que será o 'chato do etanol'
  Minc diz que Blairo Maggi está isolado
 Valor Econômico
  INDÚSTRIA MANTÉM RITMO INTENSO NO 2º TRIMESTRE
  Lula põe culpa no petróleo e isenta etanol
  PT articula frente contra Dilma 2010
     
 Entrevista
  Brasil pode acompanhar pesquisas mundiais (Valor Econômico)
  Há 37 anos na Funai, sertanista reclama da estrutura do órgão e da falta de recursos (Folha de S. Paulo)
 Especial
  INDÚSTRIA MANTÉM RITMO INTENSO NO 2º TRIMESTRE (Valor Econômico)
  Inflação e juros afetam demanda por alimentos (Valor Econômico)
  Setores travam "queda-de-braço" para conter alta de preços (Valor Econômico)
 Brasil
  "Lá no Palácio da Guanabara não tem mosca azul", diz Cabral sobre 2010 (Valor Econômico)
  'Restos a pagar' permitem balanço positivo (Valor Econômico)
  BNDES deu dinheiro para obras sem licença (O Globo)
  Brasil discutirá mudanças climáticas com o G-8 (Valor Econômico)
  Brasil precisa estar alerta para agenda "insidiosa" na OMC, diz Azevedo (Valor Econômico)
  Cedae equaciona dívidas e se prepara para emitir debêntures e fazer IPO (Valor Econômico)
  Estado do Rio projeta investimentos de R$ 95 bi em três anos (Valor Econômico)
  Estudo investiga efeitos do aquecimento (Valor Econômico)
  Guggenheim sai e Furtado assume Greenpeace no Brasil (Valor Econômico)
  Importação, exportação e frio afetam setor de calçados (Valor Econômico)
  Indústria têxtil prevê 2º trimestre aquecido (Valor Econômico)
  Investidor dos EUA estuda lançar fundo de US$ 200 milhões para projetos no país (Valor Econômico)
  Leis para dar agilidade ao PAC estão paradas (Valor Econômico)
  Mudança de regras divide empresas do setor (Valor Econômico)
  ONU debate hoje violência policial no Brasil (O Globo)
 Agronegócio
  Trigo se descola e preço cai 11% em maio (Valor Econômico)
 Empresa e Tecnologia
  Demanda por alimentos e energia eleva oferta de emprego no campo (Gazeta Mercantil)
  Fim de safra de cana reduz vagas no NE (Gazeta Mercantil)
 Colunas
  Ancelmo Gois - Diabo americano (O Globo)
  Brasil - Bloco contém perda de competitividade (Valor Econômico)
  Brasil S.A - Fundo da discórdia (Correio Braziliense)
  Mercado Aberto - Microsoft tem nova estratégia sobre Yahoo! (Folha de S. Paulo)
  Painel - Aerocâmara (Folha de S. Paulo)
  Política - A briga no STF (Valor Econômico)
  Por dentro do mercado - FSB e Fitch atenuam aperto monetário (Valor Econômico)
  Ribamar Oliveira - Política fiscal contracionista (O Estado de S. Paulo)
 Política
  ROSINHA É ACUSADA DE RECEBER DINHEIRO DO CRIME EM CAMPANHA (Folha de S. Paulo)
  É preciso apertar a política fiscal, diz Pastore (O Estado de S. Paulo)
  PF investiga caixa dois de deputados do Rio (O Globo)
  'Haverá novos mensalões, haverá caixa 2' (O Estado de S. Paulo)
  'Maggi foi derrotado', diz Minc (O Globo)
  "Intensivão" para Dilma (Correio Braziliense)
  Com medo de derrota, aliados podem adiar CSS (O Globo)
  Congresso deixa de lado projetos das comissões (O Estado de S. Paulo)
  Crimes cibernéticos e Amazônia tornam-se prioridades para a PF (Valor Econômico)
  Curtas - Alckmin e Kassab (Valor Econômico)
  Deputado aliado tenta CPI do caso Alstom (Folha de S. Paulo)
  Documentos não esclarecem a atuação de Peri na guerrilha (Folha de S. Paulo)
  Eleição pode afetar caso Paulinho (O Estado de S. Paulo)
  Funai estima que 69 grupos estejam isolados (Folha de S. Paulo)
  Governistas não querem retalhar proposta (Gazeta Mercantil)
  Governistas tentam votar CSS na terça-feira (Gazeta Mercantil)
  Governo corre para salvar emendas da base (Folha de S. Paulo)
  Governo corre para salvar emendas da base (Folha de S. Paulo)
  Governo liga polícia a tortura de jornalistas (Folha de S. Paulo)
  Guia dá pista sobre sumiço de guerrilheiro no Araguaia (Folha de S. Paulo)
  Interesses políticos vão definir destino da reforma tributária (Gazeta Mercantil)
  Interpol vai fichar foragido (O Estado de S. Paulo)
  Irmã recebeu carta no começo da década de 70 (Folha de S. Paulo)
  Legendas devem recusar candidatura de acusados (O Estado de S. Paulo)
  Lins interveio para proteger doadores, diz PF (Folha de S. Paulo)
  Lula equipara dificuldades em lavoura a balcão (Folha de S. Paulo)
  Lula quer rever fundo internacional (O Globo)
  Lula põe culpa no petróleo e isenta etanol (Valor Econômico)
  Lula vê 'guerra necessária' em defesa do etanol (O Estado de S. Paulo)
  Máfia do jogo financiou Rosinha, diz Procuradoria (Folha de S. Paulo)
  Marinho anuncia saída para campanha (Gazeta Mercantil)
  Novas gravações da PF complicam Paulinho (O Globo)
  O comércio da morte (Correio Braziliense)
  Base aliada põe em xeque o futuro das CPIs (O Estado de S. Paulo)
  Oposição perde arma com fracasso de CPI (O Estado de S. Paulo)
  Órgãos federais terão de divulgar contratos em site (O Estado de S. Paulo)
  Pedetista sairá de conselho para não julgar Paulinho (Folha de S. Paulo)
  PT articula frente contra Dilma 2010 (Valor Econômico)
  PF deve ser acionada para investigar a máfia dos ossos (Correio Braziliense)
  PF vê elo entre Álvaro Lins e milícias (O Estado de S. Paulo)
  Presidente recua e decide participar de reunião do G8 (O Estado de S. Paulo)
  Rebelião de aliados pode adiar votação da nova CPMF (Folha de S. Paulo)
  Relator não vai abordar dossiê FHC no texto final (O Estado de S. Paulo)
  Reserva indígena degradada (Correio Braziliense)
  Sem espaço, direita brasileira encolhe e busca identidade (Gazeta Mercantil)
  Tudo para o arquivo (Correio Braziliense)
  Uma ajudinha aos candidatos aliados (Correio Braziliense)
  Vitória de Jaques Wagner (Correio Braziliense)
  Minc diz que Blairo Maggi está isolado (O Globo)
  Lula defende etanol e fala em 'guerra necessária' (O Estado de S. Paulo)
 Economia
  EMPREGO NO CAMPO AUMENTA APÓS 30 ANOS DE ESTAGNAÇÃO (Gazeta Mercantil)
  PROJETO IGUALA APOSENTADORIA DO SERVIDOR COM A DO INSS (O Estado de S. Paulo)
  Petrobras adia estimativa sobre o campo de Carioca (Gazeta Mercantil)
  'Lula deveria apertar a política fiscal' (O Estado de S. Paulo)
  Algodão pode dar condenação (O Estado de S. Paulo)
  Após retração nos anos 90, bancos e montadoras ampliam as vagas (Folha de S. Paulo)
  Às vésperas do Copom, juros fecham em queda (Gazeta Mercantil)
  Biocombustíveis no centro do debate (O Globo)
  Bolsa lidera em maio, com 6,96% (Gazeta Mercantil)
  Bovespa opera próxima de pico histórico (Folha de S. Paulo)
  Brasil e Argentina fecham acordo automotivo por mais cinco anos (Gazeta Mercantil)
  Brasil quer mais acordo com Cuba (Gazeta Mercantil)
  Clima afeta produção (Correio Braziliense)
  Clima ameaça potencial energético do país (O Globo)
  Clima exige mudanças no sistema elétrico brasileiro (Gazeta Mercantil)
  Companhia e Petrobras reforçam aliança estratégica (Gazeta Mercantil)
  Consórcio Ceste antecipa usina de Estreito (Gazeta Mercantil)
  CVM tumultua balanços do trimestre (Valor Econômico)
  Emprego nas metrópoles avança 32,4% (Folha de S. Paulo)
  Empresas de TI diversificam fornecedores (Folha de S. Paulo)
  Ex-importadora da Cisco aponta prejuízo de R$ 40 mi (Folha de S. Paulo)
  Governo compra dois novos jatos (O Estado de S. Paulo)
  Governo fará economia adicional de R$ 13 bi (Gazeta Mercantil)
  Governo gasta só 14% dos recursos previstos (Gazeta Mercantil)
  Gustavo Franco aposta na classe C e vende 20% da Unik para BID e IFC (Valor Econômico)
  Indústria reclama do câmbio (O Globo)
  Inflação preocupa mais que desaceleração (O Estado de S. Paulo)
  Lei agrícola dos EUA é atacada por manter subsídios (O Estado de S. Paulo)
  Leilão vira arma para combater especulação (Gazeta Mercantil)
  Lula diz que será o 'chato do etanol' (O Globo)
  Lula culpa especulação pela alta de preços (Folha de S. Paulo)
  Mercado projeta elevação de 0,5 ponto percentual na Selic (Gazeta Mercantil)
  Mercado reduz otimismo após alta de ações (Folha de S. Paulo)
  Mercado vê aumento de ao menos 0,5 ponto no juro (Folha de S. Paulo)
  Oscilação maior da Bolsa desafia investidor (Folha de S. Paulo)
  País terá novo perfil de investidor (Gazeta Mercantil)
  Petrobras distribui juros e dividendos (Valor Econômico)
  Petrobras passa a ter 23% da Braskem (Valor Econômico)
  Lula sugere debate sobre alta do petróleo (Correio Braziliense)
  Preços na contramão da inflação (O Globo)
  Recursos da nova Previdência vão para banco estatal (O Estado de S. Paulo)
  Recursos da nova Previdência vão para banco estatal (O Estado de S. Paulo)
  Regras para TV paga mudam hoje (O Globo)
  Renda fixa perde para a inflação no mês e no ano (Valor Econômico)
  Reunião do Copom domina atenções (O Estado de S. Paulo)
  Secretário diz que Fórum deixou enorme frustração (O Estado de S. Paulo)
  Taxa de juros sobe até 0,75 (Correio Braziliense)
  Tupi já produz em março, diz presidente (Folha de S. Paulo)
  Vale dobra a Estrada de Ferro de Carajás (Gazeta Mercantil)
  Vale e Eletrobrás ajudam e Ibovespa avança 1,11%, aos 72.592 pontos (Gazeta Mercantil)
  Venda de jornais sobe mais no Brasil do que no mundo (Folha de S. Paulo)
  Investimento estrangeiro no País tem saldo positivo (Gazeta Mercantil)
  Entrevista da 2ª: 'Sul maravilha' põe em risco o índio isolado, diz sertanista (Folha de S. Paulo)
 Opinião
  A questão Raposa Serra do Sol (Correio Braziliense)
  Brasília: cabeça, tronco e rodas (Correio Braziliense)
  Cabo-de-guerra pelos recursos do Sistema S (Gazeta Mercantil)
  Células-tronco e medicina regenerativa (Valor Econômico)
  Commodity coloca promoção no chinelo (Valor Econômico)
  Cruzamento de jacaré com elefante (Gazeta Mercantil)
  Desafios da diplomacia sul-americana (O Estado de S. Paulo)
  Drogabrás (O Estado de S. Paulo)
  Estado delinqüencial (O Estado de S. Paulo)
  Fato irrefutável (O Globo)
  Injustiça doméstica (Folha de S. Paulo)
  Mendigos de Montreal e crianças de São Paulo (O Estado de S. Paulo)
  Na ponta do lápis, o que importa é a expansão fiscal (Valor Econômico)
  Nova CPMF, velha aberração (O Estado de S. Paulo)
  O Brasil a caminho da maioridade (Valor Econômico)
  O CNJ e os cartórios (O Estado de S. Paulo)
  O pré-sal e o fundo soberano (O Globo)
  Olhar a formação pela frente e não pelo retrovisor (Gazeta Mercantil)
  Pelo método confuso (Folha de S. Paulo)
  Quem viver, verá! (O Globo)
  Reeleição impossível (Correio Braziliense)
  Trânsito legal (Correio Braziliense)
  Triunfo da ortodoxia (O Estado de S. Paulo)
  Um anjo pôs a mão em Lula (Correio Braziliense)
  Um evento com bons resultados (O Estado de S. Paulo)
  Unasul entre desesperança e audácia (Valor Econômico)
 Internacional
  Brasil e Cuba consolidam parceria com visita de Amorim (Gazeta Mercantil)
 Geral
  MÁFIA DOS CAIXÕES NA MIRA DA POLÍCIA FEDERAL (Correio Braziliense)
  Paralisação deixa Brasília sem ônibus por 24 horas (Correio Braziliense)
     
 
 
 
 

''Lula deveria apertar a política fiscal''

O ESTADO DE S PAULO

Affonso Celso Pastore: ex-presidente do Banco Central

Leandro Modé


No início da semana passada, o Banco Central (BC) informou que o déficit em conta corrente (que inclui transações de comércio, serviços e rendas do Brasil com o exterior) alcançou o recorde de US$ 14,1 bilhões entre janeiro e abril, o equivalente a cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). Embora o buraco tenha sido coberto pelo investimento estrangeiro, alguns economistas alertaram para a velocidade com que se vem deteriorando. Para se ter uma idéia, no primeiro quadrimestre do ano passado, o saldo estava positivo em US$ 2,04 bilhões. Terça-feira, durante um evento no Rio, o ex-presidente do BC Affonso Celso Pastore chamou a atenção para o risco de o déficit subir para entre 4% e 5% do PIB, nível que, segundo ele, sempre trouxe problemas para o País. Na sexta-feira de manhã, ele recebeu o Estado em seu escritório, na zona oeste de São Paulo. Pastore diz que, no curto prazo, o déficit não preocupa, mas reafirma que um porcentual de 4% a 5% do PIB seria "muito perigoso". Para evitar que se chegue até lá, recomenda mais aperto fiscal, o que também contribuiria para a queda da inflação. "Se o presidente Lula quiser passar para a história como o presidente que produziu a virada no crescimento econômico, deve pegar a política fiscal e dar mais uma apertada no parafuso, para que seja mais austera do que agora."



link Ouça a íntegra da entrevista com o ex-presidente do BC som

link Veja o especial das contas externas do País especial

link Confira a evolução das taxas de juros no governo Lula especial

link Veja o especial sobre inflação no mundo especial


O déficit em conta corrente preocupa?

A curto prazo não. No acumulado em 12 meses, está em pouco mais de 1% do PIB. A média dos últimos quatro meses está em torno de 2% do PIB. Olhado estaticamente, não preocupa, pois o Brasil tem fluxo de capitais. Nesse fluxo, há o investimento estrangeiro direto, que cobre qualquer um desses montantes. O que não se pode é deixá-lo crescer indefinidamente.

O que fazer para não deixá-lo crescer indefinidamente?

É preciso olhar o que está por trás. Se você perguntar para alguns empresários, eles dirão que é óbvio que o déficit em conta corrente está crescendo porque o câmbio real se valorizou. Em vez de olhar para o lado do câmbio e para quaisquer outras interpretações possíveis, fiquemos com uma identidade contábil, que é independente de ideologia. Ela diz que a demanda total doméstica está 2% do PIB acima do investimento. Em outras palavras, o crescimento do déficit é uma manifestação da expansão muito rápida da demanda doméstica. A outra manifestação se dá nas pressões inflacionárias. Ambas são filhas do mesmo problema: crescimento de demanda muito forte, não sustentável no nível atual.

Como desacelerar?

Há duas formas. A mais clara, com menos custo para a sociedade, é cortar gasto público. Vejo com grande simpatia a proposta de alguns membros do PT de que o governo deveria subir a meta de superávit primário (atualmente em 3,8% do PIB). Uma meta entre 5% e 5,5% do PIB representaria um grande avanço para a economia. Como a receita do governo, hoje, está dada, uma meta maior implicaria corte dos gastos de custeio. Uma elevação do superávit para essa faixa entre 5% e 5,5% do PIB tiraria entre 1,2% e 1,7% do PIB de pressão sobre a conta corrente, sobre a demanda. Não diria que isso substitui totalmente a elevação da taxa de juros. Mas o ciclo inteiro de subida, que será longo, certamente seria muito beneficiado por um superávit primário maior. Teríamos, conseqüentemente, alguns ganhos. O primeiro é que, quando sobe a taxa de juros, cai o consumo das famílias e o investimento. O Brasil perde com isso porque cresce menos e o bem-estar das famílias também cai. O caminho aberto para o presidente da República está muito claro: subir a meta de superávit primário. Com isso, vai consolidar uma política econômica que tem uma vertente correta no plano macroeconômico, mas ultimamente se vem desviando desse caminho graças a uma política fiscal que, do ponto de vista do gasto público, é insustentavelmente expansionista.

Qual o impacto da política industrial no déficit em conta corrente?

Antes de mais nada, é preciso dizer que o governo resolveu "escolher os vencedores". O primeiro foi a indústria automobilística, que ficou com 53% dos recursos. Os outros 47% ficaram com os mortais que não produzem automóveis no Brasil. O governo disse que o objetivo é elevar a taxa de investimento de 17%, 18% do PIB para 21%. Não consigo ver como irá a 21%. Digamos que vá. Se for, o déficit em conta corrente vai crescer na mesma proporção. Ou seja, o déficit atual, de entre 1% e 2% do PIB, iria para entre 4% e 5% do PIB. Pode-se abrir espaço para isso, desde que o governo corte 1,5% ou 2% do PIB do seu gasto, aumentando sua poupança.

4,5% a 5% do PIB é perigoso?

Sempre tivemos problema com esse nível. Alguém dirá: "Mas agora somos grau de investimento." Somos justamente porque paramos de fazer as besteiras que fazíamos quando tínhamos déficit em conta corrente de 4,5%, 5% do PIB. Pode ser que o mercado demore para perceber a bobagem, mas acaba percebendo. Portanto, 4,5% a 5% do PIB é muito perigoso, não é só pouco perigoso.

Por que, apesar do crescente déficit em conta corrente, o real continua se valorizando ante o dólar?

Porque tem fluxo de capital maior do que o déficit em conta corrente. É por isso que não vejo um risco de crise na conta corrente. A situação normal do Brasil é ter déficit em conta corrente. Por que o Brasil tem déficit em conta corrente? Porque tem uma poupança baixa. O déficit em conta corrente é o excesso de investimento sobre a poupança. A China tem superávit em conta corrente porque tem poupança maior que investimento. As evidências empíricas da literatura mostram que países com poupança alta crescem mais. Para crescer a taxa de investimento, o Brasil precisa ter déficit na conta corrente. Agora, são déficits dentro de limites razoáveis. O atual, de 1,5%, 2% do PIB, é razoável.

Como aumentar a poupança?

Passa pelo aumento da poupança do governo, com corte do gasto público.

Nesse contexto, como vê a decisão anunciada sexta-feira pelo ministro Mantega, de que a meta informal de superávit primário será elevada de 3,8% para 4,3% do PIB e esse 0,5% adicional vai compor o fundo soberano?

Depende de como você veste a moça, ela pode parecer feia ou bonita. Superávit primário é um excesso de arrecadação sobre os gastos primários, que somente pode ser utilizado para reduzir a dívida pública. Ou seja, é dinheiro que sai do circuito econômico: os gastos do governo são cortados. Ponto final. O que o ministro anunciou se parece muito mais com um esquema de "transferência" de recursos: arrecada 0,5% do PIB a mais, porém não destina esses recursos à redução da dívida, e sim a financiamentos de empreendimentos - aqui no Brasil, e mais tarde, quando puder comprar dólares, no exterior. Quem receber esse "financiamento" vai gastá-lo. Onde? Ninguém sabe. Para produzir os efeitos que descrevi, o governo precisaria de um superávit entre 5% e 5,5% do PIB efetivamente cortando gastos.

O que dá para projetar em termos de taxa de juros considerando um aumento do superávit primário para o nível que o sr. considera adequado e levando em conta a meta atual, de 3,8% do PIB?

É muito difícil projetar o ciclo de subida do juro porque há muitas variáveis interferindo. Existe uma inflação mundial nos alimentos e nos custos que mexe nas expectativas. Não quero colocar números nisso, mas vamos ter 5 ou 6 reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) de alta da taxa de juros. Se sobe a meta de superávit primário, corta-se isso ou corta-se a intensidade das últimas elevações do ciclo.

Como avalia o grau de investimento ao Brasil?

Se você olhar pela janela, não há nenhuma diferença marcante após a promoção. Mas, no último ano, quando o mercado já sabia que o Brasil ia virar grau de investimento, percebe-se uma queda substancial nas taxas com as quais recursos são captados lá fora. Teve gente que achou isso ruim. Após a promoção pela (agência) Standard & Poor?s, alguns empresários declararam que viria uma enxurrada de dólares para cá, que o dólar ia derreter. O dólar não é sorvete e não derrete. Esses mesmos empresários têm de lembrar que todas as aberturas de capital feitas nos últimos anos tiveram quase 70% de recursos de estrangeiros. Antigamente, um empresário, para pegar recurso estrangeiro, tinha de tomar empréstimo em dólar, portanto, corria risco de câmbio. Vimos muitas empresas que, por isso, quebraram. O mercado de capitais está produzindo o milagre de as empresas se financiarem na própria moeda com recursos em dólares de estrangeiros, que estão correndo o risco de câmbio. O Brasil tem um benefício enorme de ser grau de investimento. O País tem de defender essa posição e buscar novas promoções. Isso se faz com uma política fiscal muito mais responsável do que a atual. Se o presidente Lula quiser passar para a história como o presidente que produziu a virada no crescimento econômico, o incentivo dele é pegar a política fiscal e dar mais uma apertada no parafuso para que seja mais austera do que agora.

Se o déficit em conta corrente e a inflação estão ligados, a alta dos preços não é culpa do feijãozinho, como disse o ministro Mantega?

No tempo dos militares, existia a inflação do chuchu. Outro dia vi um artigo do Alexandre Schwartsman (ex-diretor do BC), no qual ele dizia: "Tire os preços que subiram e, assim, se põe a inflação onde quiser." Se você brincar com essa história de atribuir a inflação aos preços que mais subiram, é até engraçado. Como piada fica muito divertido. Mas, como orientação de política econômica, realmente é um erro. Inflação é um fenômeno monetário. Ainda que o governo persista nessa tentativa estóica de tirar um imposto aqui e outro ali para ver se o preço do pãozinho cai, qualquer aluno do primeiro ano de economia sabe que isso mexe em preço relativo, mas não no nível absoluto de preços. A Argentina usou e abusou desse tipo de medida e olha a inflação como está lá agora. No passado, o Brasil abusou de controle de preços e a inflação foi para hiper. Tem de atacar com taxa de juros.

Como avalia o BC nessa história?

O BC está exercendo o papel que tem de exercer. A sociedade não gosta de subida do juro. Paul Volcker (presidente do Fed, o banco central dos Estados Unidos, entre 1979 e 1987), quando subiu a taxa de juros, teve de enfrentar na Massachusetts Avenue (em Washington) um protesto de agricultores, que puseram tratores dentro da cidade. Isso é natural no mundo inteiro.

O mundo hoje vive uma situação semelhante à da década de 70, quando Volcker elevou fortemente os juros nos EUA para conter os preços. Mas há quem argumente que a inflação atual é de custo e, portanto, não seria debelada pela ação da taxa de juros. O que o sr. pensa?

Inflação é inflação. Não tem inflação de custo ou de demanda. Pode começar numa subida de salário e ir para o preço, pode começar no preço e depois ir para o salário. Sempre é assim. Você tem razão: há semelhanças entre o momento atual e o da década de 70, o que não significa que sejam absolutamente iguais. Essa inflação mundial terá de ser tratada pelos bancos centrais em algum momento lá na frente. Não vai tardar muito para que tomem medidas para baixar essas taxas. Mesmo nos EUA, já começa uma discussão sobre quando o Fed iniciará a alta do juro.

Como o cenário externo pode influenciar a economia brasileira?

A situação é complexa e as coisas mudam rapidamente. No início da crise do subprime, temia-se uma recessão profunda nos EUA, desacelerando a economia mundial, inclusive a brasileira. O Fed reagiu cortando agressivamente os juros, o que minimizou a probabilidade de crise sistêmica. Embora a economia americana deva desacelerar - e está desacelerando -, provavelmente desacelera menos do que imaginávamos antes. Ainda assim, deve andar de lado em 2009, 2010. Talvez o cenário para a economia mundial seja um pouco melhor. Sem crise sistêmica e com o crescimento nos EUA desaquecendo menos, a desaceleração mundial é menor, e pega menos o Brasil.

Governo quer igualar Previdência

O ESTADO DE S PAULO

Projeto de lei está sendo elaborado para nivelar as regras para aposentadoria dos servidos públicos e privados

Suely Caldas, RIO


Até o fim deste ano, o governo vai enviar ao Congresso Nacional um projeto de lei igualando regras de aposentadorias e pensões dos funcionários públicos com as que vigoram para os trabalhadores privados, entre elas a limitação do valor da aposentadoria ao máximo de 10 salários mínimos aplicado aos aposentados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O secretário de Previdência Social, Helmut Schwarzer, anunciou ao Estado que a mudança valerá apenas para quem ingressar no serviço público após a promulgação da lei e não será aplicada aos que estão na ativa hoje, que continuarão se aposentando com o último salário, geralmente muito acima do teto do INSS. Um desembargador, por exemplo, se aposenta com mais de R$ 20 mil.

Os militares do Exército, Marinha e Aeronáutica serão excluídos das mudanças e continuarão regidos pelas regras atuais.

Entre novos e antigos, haverá uma faixa intermediária daqueles que ingressaram no serviço público desde 1º de janeiro de 2004 -data da implementação da reforma previdenciária do governo Lula -, que poderão optar entre a regra atual ou a nova - esta implica contribuir para o INSS com até 11% sobre o teto de 10 mínimos e aplicar um excedente no fundo de previdência complementar da União que tramita na Câmara dos Deputados, mas que precisa ser aprovado simultaneamente ou até antes do novo projeto de lei.

Essa é a principal mudança nas regras de aposentadorias e pensões dos servidores que os técnicos dos Ministérios da Previdência e Planejamento trabalham para começar a ser debatida no governo este mês, no Congresso no próximo semestre e com aprovação prevista para o ano que vem, revelou o secretário Helmut Schwarzer. "A intenção é aproveitar o ano não eleitoral e aprovar o projeto em 2009, a tempo de implementá-lo em 1º de janeiro de 2010."

Não haverá perdas para os funcionários atuais porque, para eles, não serão alteradas as regras de cálculo da contribuição e dos benefícios. O peso das mudanças vai recair sobre os novos que ingressarem no serviço público a partir de 2010, que passarão a receber aposentadorias e pensões equivalentes ao que ganham trabalhadores privados.

Hoje o abismo separando os servidores públicos e privados faz com que o déficit da previdência pública da União, Estados e municípios some mais do que o dobro do INSS, aproximando-se de R$ 100 bilhões.

Só o rombo da União fechou 2006 em R$ 30,4 bilhões, resultantes de despesas de R$ 46,5 bilhões (pagamentos de aposentadorias e pensões) e receitas (R$ 10,7 bilhões de contribuições do governo federal e R$ 5,4 bilhões dos servidores).

Proporcionalmente, a previdência pública custa para o contribuinte brasileiro mais do que a dos trabalhadores privados, visto que o INSS paga 25 milhões de benefícios e a União só 1 milhão (650 mil para servidores civis e 350 mil militares).

NOVAS REGRAS

Valerão só para os novos servidores que ingressarem a partir de janeiro de 2010

Serão equiparados aos trabalhadores privados

Teto da aposentadoria será limitado a 10 salários mínimos

Acima desse valor, só contribuindo para um fundo de pensão

Militares serão excluídos

Servidores dos poderes Executivo, Judiciário, Legislativo e Ministério Público terão uma única previdência

Contribuições irão para uma conta única capitalizada pelo Banco do Brasil

INSS ampliado vai administrar também a previdência pública

Estados e municípios vão aderir às regras depois

VALDO CRUZ A quem pertence?


FOLHA DE S PAULO

 BRASÍLIA - Não é de hoje que entidades e líderes internacionais dizem que a Amazônia não é patrimônio brasileiro, mas mundial. Estocada que ganhou força depois da queda da ministra Marina Silva.
Reagindo a essa onda, o presidente Lula desabafou que o mundo precisa entender que a Amazônia tem dono. E esse dono é o povo brasileiro. Até aí, tudo bem. Questão de soberania nacional.
O problema é saber qual povo brasileiro pode ser considerado o verdadeiro dono da Amazônia. Se você fizer essa pergunta ao governo, acredite, ele dificilmente saberá dar uma resposta exata.
Dos 5 milhões de quilômetros quadrados da Amazônia Legal, 35% são reconhecidamente terras públicas: reservas de preservação ambiental, indígenas e quilombolas. Apenas 4% são, com certeza, propriedade privada.
Os outros 61% são de titularidade questionável ou no mínimo indefinida. Tem muita terra de ninguém ou de qualquer um. Daquele que chega primeiro, do que grila, do que corrompe o dono do cartório para obter um registro falsificado.
A turma da terra privada contesta os 4%. Diz que eles detêm hoje entre 20% a 30% da Amazônia. Mas ninguém tem certeza, ninguém quer realmente provar nada.
Tanto que o governo chamou um recadastramento nos 36 municípios que mais desmatam na região e apenas 20% dos proprietários se apresentaram para dizer que são donos legais de suas fazendas. O restante preferiu ficar no anonimato, na ilegalidade mesmo.
Então, da próxima vez que o presidente Lula sair falando por aí que a Amazônia tem dono, melhor cobrar de sua equipe que identifique esses brasileiros. Uma medida essencial é fazer um amplo processo de regularização fundiária na região, trabalho para o Incra.
Caso contrário, qualquer plano de combate ao desmatamento será como plantar em areias movediças, como bem define o ministro Mangabeira Unger, o gringo-brasileiro que tomará conta da região.

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