Entrevista:O Estado inteligente

domingo, agosto 15, 2004

Duro com duro

RUBENS RICUPERO


O choque do petróleo mais a desastrosa Guerra do Vietnã se reforçaram mutuamente para fazer dos anos 70 a década da estagflação e um dos pontos mais baixos do moral coletivo do povo norte-americano. Em 1974, desembarquei em Washington, em meio a quilométricas filas nos postos de gasolina, para permanência que se prolongaria por mais de três anos. Durante esse período, assisti ao inexorável desenlace de Watergate, à penosa renúncia de Nixon num triste dia de chuva, à "débâcle" wagneriana da derrota final do Vietnã e da queda de Saigon, aos últimos helicópteros levantando vôo do terraço da embaixada dos EUA com cachos humanos dependurados do trem de aterrissagem. Foi tremendo o golpe sofrido pelo amor-próprio e a autoconfiança de gente emocionalmente exausta com uma guerra interminável. As investigações parlamentares devassaram impiedosamente a CIA e as outras agências de inteligência, escancarando arquivos que vomitaram segredos tenebrosos. O "Freedom of Information Act", a extraordinária façanha dos repórteres do "Washington Post", guiados pelas anônimas revelações de "Deep Throat", a emulação dos demais jornais no frenesi investigativo prometiam garantir que os cidadãos americanos nunca mais seriam manipulados por mentiras oficiais a pretexto da segurança nacional. A hipótese parecia ainda mais remota no momento em que resoluções do Congresso proibiam expressamente o aventureirismo de operações clandestinas em Angola, no Chifre da África, tornando inevitável o desengajamento do ativismo intervencionista. Produziram-se filmes memoráveis, o documentário "Hearts and Minds", "Nashville", um dos grandes filmes políticos de Altman. Mais tarde, chegaria a vez de "Apocalypse Now". Como toda guerra, a do Vietnã fez passar a segundo plano as considerações econômicas. Déficit, dívida, inflação eram preocupações de pouca monta diante dos caixões enrolados em bandeiras americanas deslizando em esteiras rolantes da barriga dos aviões de transporte, como se fosse uma produção em série. Entre 1971 e 1973, Nixon teve de liquidar o essencial do sistema de Bretton Woods: a conversibilidade dólar-ouro e a paridade fixa, abandonada pela flutuação cambial. Nos anos seguintes, a inflação não parou de crescer, mesmo após o fim do conflito, e ingressou no terreno dos dois dígitos na passagem para a década de 1980. A explosão do preço do petróleo contagiou as outras commodities, e uma nova palavra se incorporou ao dicionário, estagflação, a combinação de preços crescentes com economia estagnada. Chegou ao fim na Europa o sonho do crescimento acelerado dos "30 anos gloriosos"; um fenômeno deprimente fez sua aparição para instalar-se em definitivo, o desemprego estrutural. Um sonho tropical, o do "milagre brasileiro", estava também prestes a acabar. Com os petrodólares reciclados, ainda ensaiamos, por um tempo, adiar o ajuste imposto pela quadruplicação da fatura petrolífera. Inventamos a ficção da dívida externa "bem administrada", a fim de justificar o ritmo forçado, mas dedos invisíveis já escreviam na parede os sinais do fim. Quando ele veio, foi fulminante, o papel de algoz cabendo a Paul Volker, o presidente do Fed. Ao elevar a taxa de juros ao nível de 14% a 16%, ele não podia ignorar que condenava ao colapso toda a América Latina e outros mais de lambujem. Fez isso com a mesma indiferença granítica embutida na frase do secretário do Tesouro de Nixon, John Connally: "Our currency, but your problem" ("A moeda é nossa, mas o problema é de vocês"). O resto é, como dizem os necrológicos, uma longa, infindável, dolorosa enfermidade, que o paciente vem suportando com estoicismo e resignação. Quem me seguiu até aqui deve estar perguntando aonde quero chegar. Afinal de contas, o Iraque, o Afeganistão não são o Vietnã, e a economia mundial não dá sinais de recaída inflacionária nem de estagnação. Muitos aspectos, a maioria talvez, são bem diversos. Não obstante, a tendência, o sentido geral são perturbadores. Desde o 11 de Setembro, vivemos a banalização da guerra, o conflito permanente, no qual a única coisa que muda é o alvo. As despesas totais com segurança dos Estados Unidos estão em mais de US$ 450 bilhões por ano. Os déficits orçamentário e externo atingem 5% do PIB cada um, continuam a crescer sem perspectiva de redução, e o endividamento se expande a taxas exponenciais. A volta do crescimento tem se mostrado errática e vacilante, avançando a passos de bêbado. A economia européia não consegue decolar, a nipônica está sendo puxada pelas da China e dos asiáticos. Esses últimos crescem porque, em boa medida, o "buraco negro" do voraz consumo ianque lhes aspira e devora as exportações. Não é a receita de um mundo saudável. Nesse campo minado, o petróleo está sempre ameaçando explodir. Já quase bateu em US$ 50 o barril, voltou para US$ 44 ou US$ 43, mas os eflúvios não são tranqüilizadores. Temos uma espécie de inferno astral petrolífero, a conjunção da mais aguda expansão da demanda em 24 anos com baixo potencial de aumento adicional da oferta a curto prazo e uma perigosa equação geoestratégica em alguns dos principais produtores. No Iraque, onde se supunha que a invasão facilitaria o escoamento de produção em aumento, o contrário é o que se está vendo: a resistência à ocupação, a sabotagem das instalações provocam freqüentes interrupções e constituem uma das razões recentes da volatilidade das cotações. Na Rússia, a ação governamental contra a empresa Yukos põe em perigo a extração de 1,7 milhão de barris diários. A incerteza do referendo na Venezuela, a contínua tensão com o Irã, já escalado para ser o próximo alvo dos fundamentalistas do Pentágono, obviamente não ajudam. O pior, contudo, é a sombra angustiante de terror e violência que se projeta sobre o futuro da Arábia Saudita, pátria de Bin Laden, da maioria dos perpetradores dos atentados nos Estados Unidos, origem, inspiração e financiadora da mais virulenta modalidade de fundamentalismo islâmico, símbolo do conflito ideológico de civilizações com os americanos. Quando, em 1979, a revolução dos aiatolás suspendeu o fornecimento de óleo iraniano, o barril disparou até o que equivaleria hoje a US$ 100 em preço atualizado. Imagine o que sucederia se algo interrompesse o suprimento de óleo saudita, que representa 10% da produção mundial e a maior reserva! Estamos longe disso e oxalá -expressão muito apropriada neste caso- nunca cheguemos a tal ponto. Em termos corrigidos, o aumento atual é bem inferior aos dos anos 70. Mesmo assim, nas duas ocasiões em que ocorreram altas da mesma magnitude, em 1990 e no outono de 2000, a economia voltou à recessão. Tudo vai depender de quanto durem os aumentos e de sua principal causa, a guerra, o terrorismo, a violência no Oriente Médio. Sem abrandamento nesses dois pólos rígidos, deve-se temer o pior, pois, conforme lembrava Noel, "duro com duro não faz bom som".
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:26 PM
ELIANE CANTANHÊDE

De "denuncista" a denunciado


BRASÍLIA - O depoimento do jornalista Luís Costa Pinto publicado pela revista "Isto É" desta semana é avassalador, não para um jornalista nem para um veículo de comunicação, mas para toda uma categoria. Em resumo, ele admite que errou feio, ao publicar, lá se vão uns dez anos, uma capa da revista "Veja" informando que o então deputado Ibsen Pinheiro -ex-presidente da Câmara e citado como presidenciável- tinha depósitos de US$ 1 milhão. Eram de US$ 1.000. Tudo é grave, mas o mais grave é que o erro foi descoberto a tempo, antes de a revista ir para as bancas. Mas só foram feitos ajustes. Há diferentes versões: seria caro, o repórter "bancou" a informação, medo de uns e acomodação de outros. Resultado: a "onda denuncista" ganhou corpo e impediu que todos ouvissem os argumentos do réu (ou vítima), lessem a auditoria da consultoria Trevisan a seu favor, tivessem clemência. E jogou fora a vida política e a paz pessoal de Ibsen Pinheiro. Ele foi cassado, emagreceu dez quilos e fechou-se em silêncio. Um dado perturbador é que o pivô dessa história foi, nada mais, nada menos, Waldomiro Diniz -que já naquela época trabalhava e denunciava ao lado de José Dirceu e de Aloizio Mercadante nas CPIs de Collor, primeiro, e do Orçamento, depois. Na versão de Costa Pinto, quem lhe deu as cifras erradas foi Waldomiro, anos depois flagrado pedindo 1% em negociata com um bicheiro. O "mea culpa" de Costa Pinto expõe a imprensa e o PT quando se discute o Conselho Federal de Jornalismo e corrobora minha posição desde o início: a favor da discussão sobre algum tipo de olhar externo sobre a atividade jornalística e contra um conselho em forma de autarquia proposta pelo presidente- ou seja, com a mão do Estado, do governo e de entidades alinhadas a partidos políticos. Ontem, o PT era o "denuncista". Hoje, é o denunciado clamando contra os "denuncistas". Para Ibsen: pedido de desculpas serve para alguma coisa?
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:24 PM
CLÓVIS ROSSI

Os áulicos e os fatos


SÃO PAULO - O ministro Ciro Gomes deu, na quinta-feira, notável demonstração de bom senso e ponderação com a seguinte declaração: "Qualquer brasileiro desempregado, qualquer dona-de-casa assustada com a violência, qualquer estudante frustrado porque não consegue uma boa escola ou qualquer pessoa que sofre humilhações nas filas dos hospitais [devido] à precariedade da saúde tem todo o direito de reclamar do nosso governo. Temos de ter humildade, porque nós estamos muito longe de já ter cumprido aquilo que foi o compromisso [de campanha] que é a esperança". Pena que os áulicos que infestam os palácios de governo usem os dados de crescimento da economia, que é real, para tapar os fatos (também reais) apontados não pela oposição, mas por um não-áulico como Ciro. Aliás, fatos antes também expostos por outro ministro capaz de pensar independentemente (Tarso Genro, da Educação), em artigo para esta Folha (dia 25 passado). Nele, Tarso defendia o "início de uma transição" do modelo econômico herdado, "capaz de crescer concentrando renda", para uma "nova situação estrutural". Comentei o artigo neste espaço, e o ministro mandou uma carta, dessas típicas de prestação de contas aos chefes, mas não negou que Lula herdara um modelo econômico "e busca a superação deste". São dois, portanto, os ministros capazes de enxergar, não na baixa, mas no melhor momento da economia no período Lula, que a esperança "está longe" de ter vencido, para usar a expressão de Ciro. Lula pode acreditar nos áulicos e nas pesquisas em que subiu uns pontinhos. Ou pode lembrar que Fernando Henrique Cardoso também teve pesquisas semelhantes, reelegeu-se e terminou seu segundo período sem que seu próprio candidato defendesse seu legado (e o modelo que Tarso Genro diz querer superar).
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:23 PM

MAÍLSON DA NÓBREGA

O ESTADO DE S.PAULO Domingo, 15 de agosto de 2004

Stalinismo cultural

O malsinado projeto de criação da Agência Nacional do Cinema e do Audiovisual (Ancinav) teria sido inspirado em idéias de artigo do secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães ou com elas coincidiria. Cacá Diegues, Miriam Leitão, Merval Pereira, Arnaldo Jabor criticaram a proposta e seus contornos stalinistas. O mesmo se viu nos editoriais do Estado, da Folha de São Paulo e do Globo de domingo passado.
O projeto mostra os contraste deste governo. A banda "A" conduz de forma responsável a gestão da economia, enquanto a banda "B", saudosa da era Vargas, é anticapitalista, despreza a importância da propriedade privada e assim por diante. O ministro Gilberto Gil associou seu nome ao projeto e à banda "B", o que não faz justiça ao seu passado de lutas pela democracia.
Deve ter comprado gato por lebre.
Tais contradições resultam da inacabada transição do PT. Lula reproduz por estas plagas a trajetória dos socialistas europeus do pós-guerra, mas diferentemente deles teve que escolher um atalho para chegar ao poder. Lá, a convergência às novas idéias e à moderação levou muitos anos para angariar o apoio da convenção partidária. Aqui, a Carta ao Povo Brasileiro, a boa nova, foi aprovada pelo diretório a quatro meses das eleições.
Daí a convivência conspícua do velho e do novo no governo. A crença na democracia e em uma economia orientada pelo mercado se mistura com visões autoritárias e devaneios estatizantes.
O artigo de Guimarães impressiona pelo seu antiamericanismo. Segundo análise de Merval Pereira, "todo seu raciocínio vai no sentido de conter a indústria audiovisual americana e estimular meios de comunicação brasileiros a colaborar para a criação de uma 'cultura nacional', sem a qual se 'enfraquece a capacidade do Estado de promover a defesa dos interesses nacionais'".
Incorporadas no projeto, essas idéias criaram um monstrengo de inspiração autoritária, que se transformado em lei submeteria a produção audiovisual a um pequeno grupo de burocratas. A Ancinav teria também o poder de tributar e assim aumentar o preço dos ingressos de cinema e de outros canais de lazer.
Para Miriam Leitão, basta começar a ler o projeto para concluir o quanto ele é abusivo.
Outro aspecto impressionante do artigo, que busca desqualificar ações de governos passados, é a crítica à importação de modelos institucionais (americanos, provavelmente), como as agências reguladoras, a autonomia do Banco Central e o regime de metas de inflação, que constituiriam exemplos de "mentalidade e atitudes miméticas".
A crítica se aplicaria, por extensão, aos outros países que adotaram esses modelos. Agências reguladoras autônomas, uma invenção americana do século 19, existem onde houve privatização (que o autor condenaria) de serviços de infra-estrutura. A idéia de autonomia formal dos bancos centrais nasceu nos EUA, mas o Reino Unido, o Japão e os membros da zona do euro a adotaram nos anos 1990. O regime de metas de inflação, da Nova Zelândia, vigora em mais de 50 países. O que é bom se copia sem preconceitos ideológicos.
A rigor, seria de condenar nossos republicanos por imitarem a democracia americana, que como se sabe foi uma revolução das mais profundas da História. Para Bernard Bailyn, "as reformas sociais e políticas que marcaram a Revolução Francesa já estavam parcialmente em vigor na América muito antes": a separação entre o Estado e a Igreja, a igualdade perante a lei, a abolição dos privilégios e a proteção dos indivíduos contra o poder coercitivo do governo. Por isso, lá não existe Ancinav.
Como disse Jean-François Ravel, referindo-se aos franceses, "o mistério do antiamericanismo não é a desinformação - a informação sobre os EUA é muito fácil de encontrar - é a vontade de estar desinformado".
Um exemplo para contrapor os argumentos de Guimarães é a nossa privatização das telecomunicações em 1998 e a criação da agência reguladora, a Anatel. De lá para cá, a densidade telefônica saltou de 14 para 100 acessos por habitante. Mais de 50 milhões de brasileiros puderam comprar telefones cada vez mais baratos. Passamos de 24 para 94 milhões de telefones celulares e fixos em serviço.
Se as idéias por trás da Ancinav valessem, deveríamos esquecer Graham Bell, o americano inventor do telefone, e usar tambores soberanos.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:21 PM
A persistência no arbítrio

DORA KRAMER


Garimpando a pesquisa CNT/Sensus de junho, o PPS descobriu o seguinte dado: consultadas 2 mil pessoas sobre liberdade de imprensa, 65% delas disseram que estão satisfeitas com o nível de liberdade de expressão existente no país. As que se declararam desconfortáveis com o ''excesso'' de independência somaram 18%.
Ainda que não compartilhe dessa convicção democrática, até por uma questão de prática de respeito à maioria, conviria ao governo arquivar de vez as tentativas de criar restrições ao trânsito de informações.
Não dá certo e continuará dando errado, pois já ficou demonstrado que as ações governamentais de repercussão mais negativa - interna e externamente falando - foram todas relativas ao tema.
Não se sustenta o argumento ouvido aqui e ali, segundo o qual isso se deve à reação corporativa dos veículos de comunicação e dos jornalistas responsáveis pelo noticiário, porque a rejeição às limitações está claramente expressa nas manifestações de cartas de leitores e de instituições não diretamente ligadas ao ofício da comunicação.
Donde a conclusão óbvia de que a liberdade de imprensa, assim como a estabilidade econômica, é um valor coletivo já plenamente consolidado e do qual a sociedade demonstra que não abre mão.
Na questão da estabilidade, os que estão agora no poder demoraram, mas feliz e finalmente compreenderam que o conceito não tem dono, não pertence a governos, a partidos nem a ideologias: é fator de bem-estar comum e pressuposto inamovível de qualquer país com razoáveis pretensões ao desenvolvimento e à organização institucional.
Em relação à livre ação e pensamento, no entanto, o breve, mas consistente, histórico desse governo no assunto - e aqui incluem-se vários casos, desde a primeira tentativa de impor critérios oficiais à concessão de patrocínios culturais, até os casos em curso, passando pela tentativa de cassar o visto do jornalista do New York Times - não aconselha otimismo no tocante à impossibilidade de novas tentativas autoritárias.
Aos indicadores: há um padrão de comportamento pelo qual, num primeiro instante, o governo reage em bloco contra as críticas, insistindo em suas razões. Num segundo momento, surgem discordâncias pontuais e, finalmente, vem o recuo.
Até que uma nova ofensiva não apenas repete os termos da proposta anterior, como os apresenta reforçados. Caso típico da questão dos limites aos patrocínios. O Planalto recuou, mas depois ampliou e detalhou o plano de controle sobre a produção cultural no projeto da Agência Nacional de Cinema e Audiovisual. Manteve o fundamento e aprofundou os instrumentos de domínio do Estado.
Esses recrudescimentos ainda apresentam a agravante de conquistar adeptos entre os que antes faziam a crítica interna. Tomemos o caso do ministro Gilberto Gil, da Cultura.
No ano passado, ele reagiu consoante à sua biografia, postou-se contra o chamado ''dirigismo''. Agora, deu-se ares de surpreendente arrogância acusando os críticos da Ancinav de estarem contra o aperfeiçoamento da democracia e quererem transformá-lo de reprimido em repressor.
Compreende-se que um artista de inequívoco livre-pensar, como Gilberto Gil, se assuste ao se ver na berlinda desse tipo de debate. Mas, prestasse ele um pouco mais de atenção no tom e nas palavras que vem usando e perceberia que adotou - mesmo involuntariamente - o figurino absolutista.
Indignado com a avaliação vigente de que o governo, se pudesse, caminharia para trás no tocante à garantia das liberdades, Gilberto Gil declarou: ''Não acredito que o governo Lula vá acabar com a democracia, até porque eu não vou deixar''.
Força de expressão? Provavelmente, mas a frase soa de uma onipotência atroz. A democracia no Brasil persiste não por vontade nem ação individual de quem quer que seja, mas por categórica afirmação da cidadania.
Fenômeno parecido ocorre com o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que salvou o governo do vexame completo no episódio Larry Rother, para meses depois achar normal a idéia de o Estado patrocinar proposta de determinar como será a atividade jornalística no Brasil e chancelar proibição a funcionários públicos de transmitirem informações sem autorização superior.
Diz ele que não aceita ''carapuça de censor'', rejeita a qualificação de ''mordaça'' na vigilância ao servidor e, como Gil, diz que não permitirá agressões às liberdades.
Mas aí é que está: as palavras dos ministros da Justiça e da Cultura, ou de qualquer outro integrante do governo, de nada servem no tocante à garantia da segurança democrática do país, se - a despeito das palavras - o que prevalece, e se repete com obstinada freqüência, é a propositura e a defesa de princípios com a indisfarçavél marca da arbitrariedade.
dkramer@jb.com.br
[15/AGO/2004]
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:19 PM
Miriam Leitão

Tamanho do gargalo

A Coppead acabou de concluir uma pesquisa com os cem maiores exportadores sobre o gargalo logístico. O resultado é pior do que o esperado. As exportações cresceram 52% desde 99, aumentando a demanda por estrutura logística, e os problemas se agravaram: segundo o professor Paulo Fleury, 94% dos exportadores disseram que a atual estrutura de transporte não atende ou atende precariamente às necessidades e 65% acham que vai piorar. Os resultados da pesquisa serão divulgados pelo professor Fleury nesta segunda-feira no X Fórum de Logística, no Hotel InterContinental, no Rio. Os dois portos mais bem avaliados são o de Santos-Guarujá e o de Sepetiba-Rio. Mas, mesmo nesses dois, os empresários apontaram os problemas mais recorrentes. Greves são um fator perturbador para 74% dos usuários de Santos, e, no Rio, elas são o principal problema para 82% dos usuários. Tarifas e tempo de liberação das mercadorias são os dois outros mais freqüentes problemas em ambos os portos. Aliás, as greves são o mais citado entrave em todos os portos do país, segundo a pesquisa. O porto mais mal avaliado é o de Tubarão, que é, em volume, o maior do Brasil. Santos é o maior em carga geral.
Um exportador leva, em média, 27 horas para chegar ao porto e 52 horas para liberar a carga. Isso em média. O tempo máximo é de 240 horas, ou dez dias, para chegar com a carga ao porto e de 288 horas, ou 12 dias, para liberar a carga.
— Os portos dominam o comércio: 95% das exportações brasileiras são por via marítima. Pela pesquisa, 80% das empresas disseram que o impacto dos gargalos logísticos no custo final do produto é alto ou muito alto. Uma das razões para isso é que esses gargalos obrigam a manutenção de um alto nível de estoques. A pesquisa apurou que, em média, as empresas têm que manter os estoques para 22 dias. Isso significa um custo extra de US$ 4,8 bilhões na operação. Há empresas que disseram ter 90 dias de estoque por causa dos gargalos logísticos. Esse custo afeta a margem de lucro para 90% das empresas — diz Fleury.
A falta de infra-estrutura logística e o risco regulatório retiram competitividade do produto brasileiro exatamente quando as exportações aqui estão dando um salto. Os gargalos estão prendendo o país no meio do salto. O crescimento das nossas vendas para o exterior após a desvalorização é impressionante e ele é contido exatamente pelas mais diversas dificuldades que atravancam o caminho de um exportador.
— Logística é um sistema. Vai desde a gerência do estoque, transporte, até o embarque do produto. Tudo tem que ser olhado de forma integrada. E aí vem a primeira dificuldade. O Brasil escolheu dividir a área da regulação por agências e órgãos diferentes que agem separadamente: Antaq, ANTT, Ministério dos Transportes e Receita Federal. Isso sem falar no risco regulatório criado por Ibama, TCU, Ministério Público. O Brasil precisa montar um time para trabalhar em conjunto e juntar todos os que interferem no processo no mesmo sistema de tomada de decisão. Hoje vem tiro de todo lado. Da maneira como está, ninguém está pensando o sistema como um todo. Falta planejamento integrado; até estatística é difícil conseguir para estudar os problemas — reclama Fleury.
A privatização melhorou a operação dos terminais: o tempo médio de atracação dos navios de contêineres caiu de 19 horas para 3 horas; melhorou 83%. A movimentação de contêineres/ hora aumentou de 10 para 34, uma melhoria de 249%.
— Foram privatizados os terminais, mas não a área comum dos portos, nem a área posterior, a dragagem. O avanço no terminal acaba sendo anulado nas outras áreas. E porto é dominante no comércio — conta Fleury.
A globalização está ampliando fortemente o volume de comércio mundial. De 95 a 2003, as trocas internacionais cresceram duas vezes mais do que o crescimento do PIB do planeta. O Brasil, que vinha encolhendo sua participação nesse comércio, voltou a elevar sua parcela. De 95 a 99, tempo do câmbio fixo, as exportações brasileiras cresceram apenas 3%. Depois da desvalorização, cresceram 52%. Em 98, a exportação era 7% do PIB; no ano passado, chegou a 13%. As nossas vendas para o exterior sempre foram geograficamente diversificadas. Nos últimos anos, isso se ampliou quando caiu o percentual vendido para a Argentina, que é bem perto de nós, e aumentou o fornecimento para a China, que fica lá do outro lado do mundo. Tudo está indo na mesma direção: aumento da demanda por uma estrutura logística, que está entrando em colapso.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 1:18 PM
Merval Pereira

Sem hegemonia


O presidente Lula tem sido muito criticado pelo fato de ter perdoado a dívida do Gabão, uma ditadura africana que visitou recentemente, e pelos financiamentos prometidos para obras viárias em diversos países vizinhos. Além do bilhão de dólares já anunciado para reativar o intercâmbio comercial com a Argentina, agora em momento delicado com as barreiras alfandegárias que estão sendo levantadas contra nossas exportações, o presidente Lula assinou convênios, no valor de outros tantos bilhões, tanto com o Peru quanto com a Colômbia para financiamentos de estradas e outros meios de integração regional.
O projeto brasileiro é ambicioso, e tem como objetivo criar, com a união do Mercosul e o Pacto Andino (Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Bolívia), um pólo econômico que se contraponha aos blocos já existentes na Comunidade Européia, nos EUA com a Nafta e o grupo de países asiáticos. O presidente Lula, esta semana, disse que sonha com “a nação sul-americana”, numa reafirmação da política de união dos países da região, e não apenas comercial.
O especialista em política internacional Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ, diz que é preciso “construir instituições comunitárias dignas, como tribunal arbitral para dirimir essas disputas eternas com a Argentina”, até chegar ao Parlamento e até mesmo à moeda única do Mercosul. Para ele, o Mercosul, do ponto de vista econômico, “seria até lesivo ao Brasil. Mas ele é um grande projeto político. Está ligado a essa projeção do Brasil como potência regional”.
O cientista político Clóvis Brigagão, diretor-adjunto do Centro de Estudos das Américas da Faculdade Cândido Mendes, diz que o Brasil “sempre teve dificuldade de assumir essa liderança e pagar a conta. Para ser líder, para ter parceiros ampliados, tem que pagar a conta”, ressalta ele, para quem os financiamentos fazem parte da “real politik”.
Bem-humorado, lembra da época do presidente Eurico Gaspar Dutra, quando os EUA mandaram iôiôs ao Brasil “e virou uma febre”. Agora o Brasil está dando computadores, kits-educação para países africanos. “Nós já perdoamos dívida da Polônia, por que não perdoar a do Gabão, diante dos interesses econômicos envolvidos?”, pergunta Brigagão, se referindo ao petróleo do Gabão.
Ele diz que nunca acreditou “nesse negócio de terceiromundismo”, embora sempre tenha sido “a favor de termos uma autonomia, de buscar a independência”. Brigagão acha que estão sendo construídas alternativas à hegemonia unilateral dos EUA “sem arrogância, sem pretensão de confrontação, mas também sem subserviência”. Liderança é hegemonia, lembra ele, para ressaltar: “Não é preciso que a hegemonia seja agressiva, como a de Bush”.
Clóvis Brigagão se preocupa com o déficit de civis treinados para participar em forças internacionais de cooperação, como a que o Brasil chefia no Haiti. Ele diz que a participação de brasileiros nos organismos internacionais é inferior à de países como o México e a Argentina, num momento em que o Brasil surge com destaque no cenário internacional.
O professor Francisco Carlos Teixeira, defendendo a aproximação com a África, lembra que “se estivéssemos crescendo a 5%, que deve ser a meta, teríamos um déficit de energia enorme, precisaríamos importar petróleo. Ficar na mão do mundo árabe- islâmico, além dos tumultos e da distância, é terrível. Aqui em frente, de Cabinda até a Nigéria, há o melhor petróleo possível, e temos condições de fornecer a eles o que eles precisam: técnicos, vacinas, assistência médica”.
Para ele, “é extremamente sábio, em termos de longo prazo, construir parcerias produtivas e não exploratórias com a África negra”. Segundo ele, perdemos nossa posição para a França, que “acabou ficando até com campos de petróleo que antes haviam sido apontados para a Petrobras”, na gestão de Fernando Henrique. Teixeira lembra que os EUA estão construindo uma superbase naval em Porto Príncipe, capital do Haiti, onde o Brasil chefia uma Força Internacional de Paz da ONU desde junho e onde haverá o jogo da seleção brasileira.
“Os americanos estão tentando se instalar também no Gabão e com grande interesse em Cabinda, além da Nigéria onde já estão instalados, tendo a África Negra como alternativa ao mundo islâmico”, ressalta Carlos Teixeira. Tanto ele como Brigagão concordam que a atuação do Brasil como líder regional não deve ter o caráter hegemônico, e está sendo esperada pelos vizinhos.
“A interferência do Brasil na negociação da dívida da Argentina com o FMI, a intermediação do Brasil na Venezuela foram movimentos políticos importantes e bem-vindos”, ressalta Teixeira. Talvez nem tão bem-vindos para os EUA, que enxergam traços de uma tentativa de montar uma política externa brasileira de contraposição à hegemonia americana. Não é essa motivação, garante Francisco Carlos Teixeira, embora o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães seja tido por antiamericano. E no governo petista, há correntes que realmente sentem nostalgia de uma guerra ideológica contra os EUA.
Como lá também estão alojados próximos à Casa Branca falcões que ainda não se convenceram de que o governo Lula não tem nada a ver com o de Fidel ou o de Chávez, a quem agora o PT deu apoio formal, evidentemente sinalizando uma posição do governo Lula, que oficialmente é neutro, o potencial de conflito é enorme.
Quanto às obras de infra-estrutura financiadas pelo BNDES, Carlos Teixeira lembra que “grande parte das construtoras são brasileiras”. Segundo ele, as obras na Venezuela aumentam nossa capacidade de exportação: “A grande saída é o Caribe e a carretera Pan-Americana que abre o Pacífico para nossas exportações”. Brigagão chega a dizer que a Venezuela é mais estratégica para o Brasil do que a Argentina, inclusive por causa do petróleo. “Nós precisamos de uma Venezuela rica e estável politicamente”, concorda Francisco Carlos Teixeira.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 12:57 PM

sábado, agosto 14, 2004

AVANÇO AUTORITÁRIO 14.8.2004 EDITORIAL DA FOLHA DE S.PAULO


É alarmante que uma série de projetos e propostas do governo petista venha a público com as marcas indeléveis do autoritarismo, procurando restringir liberdades e estender um véu de opacidade sobre a atividade pública. É chocante e deplorável que o PT, partido que participou da luta pela redemocratização do país, chegue ao poder para atentar contra as conquistas democráticas e turvar o pouco de transparência dos poderes que a sociedade brasileira, a duras penas, conquistou. Não é, no entanto, nada surpreendente que um partido com raízes na esquerda despreze a democracia ao ver-se no poder, dando livre curso a suas fantasias e delírios leninistas. É assim que o PT, ao mesmo tempo em que promove uma escalada para tomar de assalto a máquina pública e dominar plenamente os instrumentos de poder, trata de erguer uma blindagem de leis e regulamentações com o propósito de impedir a sociedade de ter acesso ao que transcorre nos bastidores da cena política. O governo petista quer proibir que o Ministério Público investigue e que a imprensa publique o que não é de seu interesse. Chega ao extremo de tentar cercear, por meio de uma normatização grotesca, a possibilidade de funcionários públicos conversarem com jornalistas. Enganam-se os que pensam que é à sociedade que essas normas visam proteger, como tentou pateticamente fazer crer o ministro Luiz Gushiken. Ele mesmo já havia em outra ocasião deixado claro do que se trata: evitar que os poderosos sejam atingidos por fatos "negativos". Desde os tempos da ditadura militar não se viam concepções tão atrasadas e rudimentares -se bem que perigosamente ardilosas- de como devem ser as relações dos governantes com os princípios democráticos e republicanos. Diante desse ignominioso surto de medidas que resvalam para o autoritarismo, é de esperar que a defesa das instituições republicanas e das liberdades fale mais alto e impeça alguns dos que cercam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de levar a cabo seus intentos antidemocráticos.
Publicadoem: Sun, Aug 15 2004 12:05 AM
Merval Pereira 14.8.2004 Espetáculo e resultados
O “jogo da paz”, como está sendo chamada a partida de futebol que a seleção brasileira fará na próxima quarta-feira em Porto Príncipe contra a seleção do Haiti, faz parte do que a revista especializada em política internacional “Foreign Affairs” tem chamado de “novo protagonismo brasileiro”, e que o chanceler do governo Fernando Henrique, Celso Lafer, classifica de “política-espetáculo”. O fato é que quase dois anos depois de tomar posse o presidente Lula tem na política externa um dos pontos altos de um governo sem grandes destaques além da economia.
Algumas ações são claramente demagógicas, como a proposta de um fundo internacional contra a fome com a taxação de venda de armas. Outras, como o jogo de futebol da seleção brasileira no Haiti, embora nascida da cabeça de uma especialista em marketing, têm um lado meritório que reafirma nossa liderança no continente.
Superado um primeiro momento dominado por um esquerdismo exacerbado, a atuação de Lula nos fóruns internacionais e uma bem montada ação de fortalecimento da liderança do país na área do Mercosul e na América Latina têm dado ao governo uma dimensão internacional bastante positiva.
O G-20, grupo organizado pelo Brasil e pela Índia para enfrentar os Estados Unidos e a União Européia nas negociações internacionais, foi sem dúvida uma vitória da diplomacia brasileira, e conseguimos avançar agora nas negociações na Organização Mundial do Comércio. Para o professor de política internacional Francisco Carlos Teixeira, da UFRJ, “a política externa é o lado que o governo do PT teve menos dificuldade de implantar uma política coerente, e isso se deveu em larga escala ao fato de já existir uma doutrina anterior, ligada ao secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães”.
O ex-chanceler Celso Lafer, no posfácio de seu livro recém-lançado “A identidade internacional do Brasil e a política externa brasileira”, diz que, no plano da postura, o governo Lula vem, até o momento, “timbrando em deliberadamente dissociar-se, em matéria de externa, do anterior”. Faz isso, segundo Lafer, para “dar uma satisfação ideológica interna compensando continuidades bastante explícitas com o governo anterior na condução da política macroeconômica”.
Lafer diz “ter dúvidas” sobre a utilização da política externa para satisfação ideológica interna, e diz que isso provoca “multiplicação das tensões e incertezas”. Para o professor Francisco Carlos Teixeira, o enfoque da nossa política externa realmente mudou: “Até Fernando Henrique, tínhamos uma obsessão no eixo norte-atlântico, com Estados Unidos e União Européia. O governo do PT abriu a possibilidade de parcerias estratégicas com China, Índia, África do Sul; ampliou o debate no interior do Mercosul”.
Hoje, segundo o professor Francisco Carlos Teixeira, a política externa está trabalhando como se fosse um tabuleiro tridimensional: “Parcerias estratégicas, onde entram também os Estados Unidos e a União Européia; o G-20, onde o papel do Brasil é de liderança regional muito importante que mudou a OMC. Fizemos quebrar a negociação em Cancun para ganhar essa negociação em Paris; e o Mercosul. Cada vez que a gente se mexe num desses tabuleiros, acumula força para o outro. É a melhor política externa brasileira desde a época do Geisel”, empolga-se.
Já Celso Lafer diz que, no plano político, “em função do estilo diplomático do governo Lula”, é possível detectar, “no tema sul-sul, uma ilusória aspiração de enrijecer o quadro internacional com uma nova polarização ideológica”.
A comparação com a política externa de um dos governos ditatoriais foi, por coincidência, também sutilmente lembrada pelo ex-presidente Fernando Henrique em recente palestra em seu instituto quando, na presença do novo embaixador americano no Brasil, fez uma análise histórica das relações dos dois países. Mas, evidentemente, sem a admiração contida no comentário do professor Teixeira.
Segundo o ex- presidente Fernando Henrique, “o período militar foi um período atritado, havia até no imaginário a bomba atômica. O que fizemos foi tirar da pauta os fatores de atrito que contaminavam a relação. Não podemos pensar que somos uma potência num continente em que há um poder hegemônico global. O Brasil cresceu economicamente, somos um global trader . Compare com o México ou a Argentina. Temos que ter um grau de confiança, e não ter alinhamento. Mas não podemos dizer que somos uma potência, com capacidade bélica, e vamos atuar. É de nosso interesse não ter conflitos com os EUA, para realizar os nossos interesses”.
O ex-presidente define como de interesse nacional uma política de não agressão à potência dominante. “Em vez de imaginar a afirmação nacional pela via militar, ou pela ingerência, imaginá-la pela via de uma sociedade mais democrática e uma economia mais pujante”. O ex-presidente não se referiu a ele, mas certamente estava pensando no chefe da Casa Civil, José Dirceu, que por várias vezes já defendeu publicamente o fortalecimento militar da América do Sul como maneira de a região se impor nas negociações internacionais.
Para Fernando Henrique, o marco dessa postura independente mas sem confrontação foi a negociação em Doha, pois “a definição efetiva de nossos interesses depende dos acordos multilaterais”. Fernando Henrique diz que o que faz a diferença é que, além da agricultura, somos um país industrializado e de serviços. “Quem compra serviços é o continente americano, a China compra soja e daqui a pouco vai produzir aço. O mercado que qualitativamente mais interessa é o dos EUA. Não é possível imaginar que podemos substituí-lo por mercados emergentes”.
Por realismo, o ex-presidente sugere “evitar conflito com os Estados Unidos, porque é perder”. Segundo Lafer, o estilo da política externa do governo Lula discrepa da definição tradicional: “Diplomacia inteligente, sem vaidade; franca, sem indiscrição; enérgica, sem arrogância”.

DORA KRAMER 14.8.2004 Cadáveres insepultos

DORA KRAMER 14.8.2004 Cadáveres insepultos


Em boníssima, perfeita e providencial hora surge a história publicada pela Isto É, segundo a qual a mistura de ambição, ignorância, má-fé, açodamento e leviandade levou jornalistas e políticos de destaque nacional a um conluio que resultou na publicação de uma informação falsa que, 11 anos atrás, contribuiu decisivamente para a cassação do mandato do deputado Ibsen Pinheiro.
Além do prejuízo à reputação, à carreira e ao futuro do parlamentar, o embuste feriu o essencial compromisso com os fatos, implícito na relação entre imprensa e sociedade, cujo sustentáculo é a liberdade de expressão, ora em estado de questionamento explícito.
Em resumo, a ópera é a seguinte: o jornalista Luís Costa Pinto resolveu confessar que à época da CPI do Orçamento recebeu uma informação a respeito da movimentação financeira de Ibsen, publicou sem conferir e, depois de avisado do equívoco, cedeu à orientação de sua chefia para ''arrumar alguém'' da CPI que confirmasse o falso como verdadeiro. Encontrou um parlamentar disposto ao papel de ventríloquo de aspas e ficou assim tudo resolvido para desinformação do leitor e infortúnio do injustiçado.
Dias depois, a CPI corrigiu burocraticamente os valores - de US$ 1 milhão para US$ 1 mil -, não deu destaque ao fato, Ibsen Pinheiro foi de público execrado e lá se vão 11 anos do mais absoluto silêncio de todas as partes a respeito do episódio.
Surge agora a versão real e num momento especialmente feliz: quando o governo, de um lado, defende o controle da atividade jornalística e, de outro, acusa a imprensa e a oposição de promoverem uma ''onda de denuncismo'' contra esse mesmo governo.
Como pano de fundo, ainda temos a CPI do Banestado que reuniu um monumental banco de dados a respeito de centenas de pessoas, a partir da quebra indiscriminada de sigilos fiscais e bancários pedida pelo relator, José Mentor, um petista de relações estreitas com o ministro da Casa Civil, José Dirceu.
O mesmo José Dirceu que à época da CPI do Orçamento era deputado e, junto com o também então deputado e hoje senador Aloizio Mercadante, valia-se dos serviços do funcionário da Caixa Econômica Federal, Waldomiro Diniz.
O mesmo Waldomiro Diniz que, segundo o jornalista Costa Pinto, o procurou em 1993 para oferecer boletos bancários pertencentes a Ibsen Pinheiro como suposta comprovação de que o deputado teria movimentado US$ 1 milhão em suas contas.
''Pegamos o Ibsen'', disse ele, de acordo com Costa Pinto, ao apresentar os documentos - adulterados, viu-se depois - que tinha como tarefa fornecer à CPI, para uso externo dos parlamentares amigos.
Temos, pois, nessa confissão do jornalista, todos os elementos dos debates ora em cartaz.
Começando pela manipulação e uso ilegal de documentos de comissões parlamentares de inquérito: se, como acusa o governo, hoje são instrumentos utilizados pela oposição, o foram em larga e péssima medida usados pelo PT na leviana aliança que de quando em vez une políticos interessados em fazer da impressa canal de transmissão de seus interesses e jornalistas em busca de um sucesso tão rápido quanto inconsistente e socialmente nefasto.
Justiça se faça, tal prática não é nem foi prerrogativa exclusiva do PT. A indústria dos grampos, dos dossiês, da agressão aos direitos e garantias individuais tem criação e sustentação coletiva e suprapartidária.
O PT entra com destaque aqui porque age agora como se jamais tivesse tido participação nessa escola da ética do escândalo e do jornalismo de delegacia de polícia, que abre mão do dever de distinguir dados falsos de informações verdadeiras e se deixa usar pelo primeiro construtor de dossiês que lhe aparece à frente.
Propõe controle de informação, bem como ataca o Ministério Público, com conhecimento de causa, porque teme ser vítima do uso das mesmas armas de que se valeu contra os adversários.
Parte do pressuposto da má-fé, tenta imprimir a quaisquer acusações o vezo da engendração ardilosa e desmoralizá-las pela inoculação, no imaginário popular, do conceito geral de ''denuncismo''.
Denúncias há responsáveis e irresponsáveis, assim como existem as respondíveis e as irrespondíveis. Da mesma forma, entre procuradores, jornalistas e políticos transitam desviantes.
Nem de longe, por isso, corrigem-se situações pela via da restrição à liberdade, à investigação, à fiscalização, ao cotejo de dados, à exposição de contradições, à cobrança de explicações.
O episódio relatado pela Isto É mostra que a verdade tem várias formas de aparecer, ainda que demore e cause irrecuperáveis prejuízos. A única maneira de mantê-la eternamente desconhecida, porém, é a obstrução dos canais de informação à sociedade.
Nenhum conselho controlador teria o poder de evitar casos como esse. Mas a imprensa livre tem pelo menos como, através do constrangimento da exposição pública, contribuir para que se mantenham no terreno das exceções.


sexta-feira, agosto 13, 2004

Luiz Garcia 13.8.2004 Novas visitas à redação



O projeto que cria o Conselho Federal de Jornalismo (CFJ) deveria — até como homenagem às desejadas virtudes de nosso estilo profissional — ter texto simples, direto e objetivo.
Mas quem o escreveu — ou quem, na Casa Civil, reescreveu certos trechos — preferiu esbanjar generalizações nas quais o tom enfático não esconde a ausência de explicações objetivas sobre o que se pretende atingir; principalmente, sobre como chegar lá. Isso permite a cada um entender o que bem quiser. Se algo entender.
Por exemplo, o conselho e suas filiais estaduais deverão orientar, disciplinar e fiscalizar “o exercício da profissão de jornalista e da atividade de jornalismo”.
Esse conjunto de expressões chega muito perto de significar que a nova autarquia — um braço do Estado — terá poderes perigosamente próximos do controle sobre tudo aquilo que os meios de comunicação levarão à sociedade. Inclusive sobre o que ocorre nos salões e desvãos do mesmo Estado a que serve a dita autarquia.
Pior, prevê-se um controle a priori, com atitudes e formas de tratamento preestabelecidas. Não há outra forma de entender o verbo “orientar”. Vai ver, não é essa a intenção, nem da Federação Nacional dos Jornalistas, mãe da criança, nem de Lula, pai adotivo. Pode ser apenas problema de mau texto mesmo. Oremos.
Adiante, o CFJ ganha o poder de criar um código de ética e disciplina, a que todos os jornalistas do país estarão submetidos. Esse documento regulará os deveres do jornalista com a comunidade, as suas relações com os outros jornalistas e ainda um enigmático “dever geral de urbanidade”.
Num trecho de humor negro, afirma-se que o jornalista, ao obedecer a todas as essas normas, deverá manter “independência em qualquer circunstância”.
Vai ser um bocado complicada essa independência obrigatória.
Pior, o projeto ignora princípio elementar do jornalismo. É com certeza indispensável uma permanente preocupação ética; mas isso nem de longe sugere uma padronização de comportamentos e decisões. Exemplo elementar: seria ético divulgar sem qualquer apuração complementar uma informação não oficial de fonte policial? A única resposta firme e enfática a essa pergunta é: Depende.
Depende do lugar, da polícia do lugar, da fonte em questão e do que o jornalista sabe sobre sua forma de agir. E boa comunicação social terá a comunidade em que os diferentes veículos tenham respostas honestamente diferentes a esse tipo de pergunta. Todos, por exemplo, somos a favor da denúncia a serviço do interesse público, e contra o denuncismo contratado por interesses desonestos. Apenas não há como defini-los com precisão num texto de lei. Não se conhece melhor maneira de tratar o assunto do que cada um seguir sua consciência — e aguardar o julgamento da opinião pública.
Mais do que um código pasteurizante, o que serve ao leitor é uma permanente e obsessiva preocupação ética nos meios de comunicação — sem a menor obrigação de uniformizar a informação.
O fato é que não há códigos ou leis que cubram todas as alternativas, todas as escolhas, todas as nuances de tratamento de um assunto. A única alternativa para o futuro CFJ será designar um representante da autarquia para cada redação, incumbido de examinar, caso a caso, “a fiel observância dos princípios de ética e disciplina da classe”.
Não acredito que haja um só membro da Fenaj que se preste a um papel desses. Lembrará muito outro tipo de visitantes que, em tempos passados mas não esquecidos, decidiam o que seria ou não seria publicado.

sábado, agosto 07, 2004

Diogo Mainardi 7.8.2004 As Olimpíadas do Pateta

"Nossos atletas em Atenas: os meus preferidos
são os que chegam desacreditados aos Jogos
e, confirmando todos os prognósticos, perdem
logo de cara. Quanto mais incompetentes, melhor"



Estou pronto para as Olimpíadas. Enrolado na bandeira nacional, e vestindo uma camiseta de poliéster amarelinha, cortesia do Banco do Brasil, pretendo acompanhar com ardor o desempenho de nossos atletas em Atenas. Eles não costumam decepcionar. Quando não são eliminados no primeiro dia de competição, são invariavelmente eliminados no segundo. Os meus preferidos são os que chegam desacreditados aos Jogos e, confirmando todos os prognósticos, perdem logo de cara. Como o pugilista maranhense nocauteado no terceiro assalto por um filipino canhoto. Ou a esgrimista paranaense sorteada para enfrentar, em sua estréia, a segunda melhor do time romeno. Ou o judoca goiano que sofre um estiramento no primeiro minuto da repescagem. Ou o corredor paulista que comemora o quarto lugar obtido numa final B. Quanto mais incompetentes, melhor. Apreço também os que gozam de um certo favoritismo e, por falta de controle emocional, acabam sendo derrotados por atletas estrangeiros de retrospecto claramente inferior. Só desaprovo aqueles irresponsáveis que teimam em ir derrotando seus adversários um a um até a conquista de uma improvável medalha de bronze, com direito a lágrimas no pódio e dedicatórias a Deus. O dever dos atletas brasileiros é perder. Perder sempre. Preferivelmente, de maneira espalhafatosa, tropeçando nos obstáculos e se esborrachando na pista.
Sobre as virtudes cívicas da derrota, assista a Campeão Olímpico. Trata-se da obra definitiva sobre o tema. Estrelado por Pateta e dirigido por Jack Kinney, insere-se no ciclo esportivo formado por A Arte da Defesa Pessoal, A Arte de Esquiar, Como Nadar, Como Jogar Beisebol e Como Jogar Golfe. Em Campeão Olímpico, Pateta repercorre a origem dos Jogos Olímpicos e se exibe nas principais modalidades do atletismo. Claro que ele tropeça nos obstáculos. Claro que se esborracha na pista. Foi tropeçando nos obstáculos e se esborrachando na pista que Pateta derrotou Hitler. O lançamento de Campeão Olímpico ocorreu em 9 de outubro de 1942. As Olimpíadas estavam suspensas por causa da II Guerra Mundial. Os últimos Jogos, realizados em 1936, em Berlim, haviam sido transformados em plataforma de propaganda para o nazismo, exaltando conceitos como supremacia racial, orgulho nacional, disciplina marcial e adoração do líder totêmico. O documentário celebratório de Leni Riefenstahl sobre as Olimpíadas de Berlim mostra tudo isso. Campeão Olímpico é o contrário. Dura oito minutos. E, em apenas oito minutos, Pateta consegue destruir o ufanismo esportivo do nazismo e de outros regimes totalitários.
Comemoram-se o Dia D e a batalha de Stalingrado. Proponho comemorar igualmente as Olimpíadas do Pateta. Ao tropeçar nos obstáculos e se esborrachar na pista, os atletas brasileiros não irão derrubar Hitler, porque não temos nenhum Hitler. Quem sabe derrubem um diretor do Banco do Brasil. Quem sabe até

sábado, julho 31, 2004

Diogo Mainardi Brasil, cúmplice de um crime

"Lula foi à África. De novo. Assinou acordos
para o plantio de mandioca com o ditador do
Gabão. Deveria ter aproveitado a viagem
para condenar o regime genocida do Sudão.
Preferiu falar sobre maracatu"
Sudão. De um lado, os milicianos árabes ou "janjawid". Do outro, a população negra da região de Darfur. Os milicianos árabes querem tomar a terra dos negros. Já assassinaram cerca de 30.000 pessoas. Incendiaram vilarejos. Praticaram estupros em massa. Raptaram crianças. Envenenaram as fontes de água. Um milhão de habitantes de Darfur foram obrigados a abandonar suas casas. Dois milhões estão desnutridos. Cento e cinqüenta mil se refugiaram no Chade. Trata-se da maior crise humanitária da atualidade. Que lado o Brasil escolheu nessa tragédia? O dos negros? Claro que não. O Brasil escolheu ficar com o regime do Sudão e seus esquadrões da morte árabes. Lula nos tornou cúmplices das atrocidades cometidas em Darfur.
A questão está sendo debatida no Conselho de Segurança da ONU. Os Estados Unidos, desde o fim de junho, defendem a imposição de sanções contra o regime ditatorial do Sudão, que arma e protege os milicianos árabes de Darfur. França, Inglaterra, Alemanha, Espanha e Chile apóiam a iniciativa. O Brasil, não. Uniu-se à Argélia e ao Paquistão para obstruir a proposta americana. O representante brasileiro na ONU, Ronaldo Sardenberg, sugeriu dar mais tempo ao regime do Sudão. A Anistia Internacional calcula que 1.000 pessoas morrem por semana em Darfur. Dar mais tempo aos paramilitares sudaneses significa permitir o assassinato de ainda mais gente. Como disse o jornal Washington Post, o Brasil considera mais importante a soberania do que a vida.
Os parlamentares dos Estados Unidos, na última semana, definiram a situação em Darfur como um genocídio. Pediram uma intervenção urgente do governo americano, multilateral ou unilateral. Ou seja, com ou sem a ONU. George W. Bush ameaçou abertamente os chefes militares sudaneses, incitando-os a conter os "janjawid". O candidato do Partido Democrata, John Kerry, foi ainda mais veemente. Discursando na maior associação de negros do país, demandou a punição imediata dos mandantes do genocídio. O movimento negro americano pressionou os políticos a se ocupar do genocídio de negros no Sudão. A ministra de Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, que representa o movimento negro brasileiro, optou por ignorar o imobilismo criminoso de seus colegas de governo.
Lula foi à África. De novo. Doou cinco ou seis computadores à população de São Tomé e Príncipe e assinou acordos para o plantio de mandioca com o ditador do Gabão, Omar Bongo, conhecido por ser o líder estrangeiro com o maior número de propriedades imobiliárias em Paris. O presidente deveria ter aproveitado a viagem à África para condenar o regime genocida do Sudão. Preferiu falar sobre maracatu. A megalomania petista considera o Brasil importante o bastante para merecer uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU. Neste ano, ocupamos uma cadeira rotativa. A primeira decisão relevante de nosso mandato foi sobre as sanções ao Sudão. Escolhemos o lado errado. Decidimos ser coniventes com um crime. Ainda bem que daqui a um ano e meio tomam de volta nossa cadeira rotativa.

domingo, julho 25, 2004

Diogo Mainardi Perde Brasil

"Usar dinheiro público para patrocinar o time
de voleibol a gente engole. Para patrocinar a
torcida é demais. O Banco do Brasil irá gastar
9,5 milhões de reais para patrocinar a torcida
brasileira nas Olimpíadas. O jeito é torcer contra
nossos atletas"


O time de voleibol do Brasil acaba de conquistar a Liga Mundial. As finais foram em Roma. Os torcedores brasileiros ocupavam um setor inteiro das arquibancadas. Vestiam camiseta amarela, com a marca do Banco do Brasil. Usar dinheiro público para patrocinar o time de voleibol a gente engole. Usá-lo para patrocinar a torcida é demais. O departamento de marketing do Banco do Brasil irá gastar 9,5 milhões de reais para patrocinar a torcida brasileira nas Olimpíadas de Atenas. O mote da campanha é Brilha Brasil. O jeito é torcer contra nossos atletas. Perde, Brasil.
Além de patrocinar a torcida do time de voleibol, o Banco do Brasil está patrocinando a torcida pela reeleição de Lula. Dois dos maiores dirigentes do banco, Henrique Pizzolato e Ivan Guimarães, trabalharam na última campanha presidencial lulista, respectivamente como arrecadador de fundos e coordenador financeiro. Pizzolato foi premiado com o cargo de diretor de marketing do banco e é responsável pela campanha Brilha Brasil. Guimarães tornou-se presidente do Banco Popular do Brasil e é acusado de ter defendido o patrocínio de 5 milhões de reais aos cabos eleitorais petistas Zezé di Camargo e Luciano. O Banco do Brasil gastou 70.000 reais nos espetáculos em que a dupla sertaneja arrecadou fundos para a construção da nova sede do PT. Pizzolato e Guimarães são ligados à CUT, que tem contado com o patrocínio do Banco do Brasil em seus principais eventos, como a festa de vinte anos e o oitavo congresso nacional. Lula é a grande atração da TV CUT, programa semanal feito pelos mesmos publicitários que administram a conta de propaganda do Banco do Brasil. Uma conta que vale 142 milhões de reais anuais.
Quem cuidou do dinheiro de Lula na campanha eleitoral agora cuida de nosso dinheiro no Banco do Brasil. Quem cuidou de sua segurança agora cuida de nossa segurança. Um dos guarda-costas de Lula, Francisco Baltazar da Silva, foi nomeado superintendente da Polícia Federal de São Paulo. Atualmente, está sendo investigado pela compra de 134 600 dólares através do doleiro Toninho da Barcelona. Outro guarda-costas de Lula, Mauro Marcelo de Lima, ganhou a função de diretor-geral da Abin, nosso serviço de espionagem. Entre suas credenciais, há um curso de dublagem e uma ponta numa telenovela de 1982, Elas por Elas. Agente secreto com pendores artísticos é sempre uma temeridade. Em seu discurso de posse, algumas semanas atrás, Mauro Marcelo admitiu estar na "torcida por um bis" presidencial de Lula. O serviço de espionagem dos Estados Unidos, no passado, também torceu pela reeleição de um presidente. O resultado foi Watergate.
As campanhas pelo time de voleibol e pelo bis de Lula só perdem para a campanha pelo desarmamento. O sofisma é o seguinte: o cidadão corre mais riscos com uma arma na mão do que sem ela. O que se pretende demonstrar é que a responsabilidade pelo crime é nossa, não do poder público. Se os guarda-costas de Lula não sabem defender a população, então não podem impedi-la de tentar se defender por conta própria, mesmo que de maneira desastrada. Bem mais honesto do que desarmar o cidadão com falsos argumentos seria oferecer-lhe um curso de tiro e defesa pessoal. Todo mundo com uma arma no coldre e andando a cavalo. Perde, Brasil.

sábado, julho 10, 2004

Diogo Mainardi Pobre é bom negócio

"Os pobres, nos livros de Guimarães Rosa,
falam melhor do que nós, pensam melhor do
que nós, se comportam melhor do que nós.
Rosa glorifica a bandidagem, as idéias
e a espiritualidade dos pobres. Ele era
o John Travolta da 'nonada'"

10/7/2004





A gente gosta de pobres. A gente gosta tanto deles que nunca pensou em torná-los menos pobres. A gente gosta de votar em pobres, de reclamar de pobres, de escrever sobre pobres. De fato, a literatura brasileira desapareceria se não fossem eles. A Feira de Livros de Paraty acaba de homenagear Guimarães Rosa, o maior representante do pauperismo na literatura nacional. Os pobres, em seus livros, falam melhor do que nós, pensam melhor do que nós, se comportam melhor do que nós. Dá vontade de largar tudo e ir morar no sertão mineiro. Enquanto eu atravesso a Visconde de Pirajá para comprar meio quilo de alcatra no açougue, os sertanejos rosianos atravessam um universo épico. Enquanto eu combato os cupins no chão de sinteco da sala, eles combatem o Diabo em pessoa. Rosa glorifica a bandidagem, as idéias e a espiritualidade dos pobres. Uma espiritualidade muito semelhante à sua, aliás. Rosa conseguia acreditar simultaneamente em umbanda, kardecismo e cientologia. Era o John Travolta da "nonada".
Lula, no balanço de um ano e meio de poder, tentou demonstrar que está trabalhando pelos pobres, embora não tenha podido dar um aumento relevante do salário mínimo. Um aumento para 275 reais, segundo os economistas petistas, representaria um custo adicional aos cofres públicos de cerca de um bilhão e meio de reais. Um bilhão e meio de reais é a quantia que Lula gasta anualmente em propaganda, para persuadir o eleitorado pobre de que ele está trabalhando pelos pobres. Que eu saiba, nenhum governo do mundo gasta tanto em propaganda quanto o nosso. Um bilhão e meio de reais foi também o que a Petrobras gastou para comprar uma distribuidora de botijões de gás. O maior problema do Brasil é o gigantismo do Estado. Como responde Lula? Aumentando ainda mais o Estado. Um bilhão e meio de reais, enfim, é bem menos do que Lula gastou na liberação de recursos aos seus aliados, para obter votos no parlamento ou para financiar obras eleitoreiras. A democracia brasileira se fundamenta no achaque eleitoral e na compra de votos.
Lutar pelos pobres, no Brasil, é sempre um bom negócio. O caso mais flagrante é o das aposentadorias aos perseguidos pelo regime militar. José Dirceu foi um dos primeiros beneficiários da Lei de Anistia, passando à frente de muitos octogenários e nonagenários mais pobres do que ele. A rigor, Dirceu ficou menos pobre por ter defendido uma revolução comunista em favor dos pobres. Uma dúvida: ele entrega um quinhão de sua aposentadoria ao partido ou a regra se aplica apenas ao seu salário ministerial? Quem também furou a fila da Comissão de Anistia e garantiu uma rica aposentadoria vitalícia foi Carlos Heitor Cony. Como se sabe, Cony contestou duramente o regime militar, sobretudo quando esteve na direção de órgãos subversivos como a revista Desfile ou quando se prestou a redigir os manifestos indignados do grande revolucionário Adolpho Bloch.
Ainda bem que o Brasil tem tantos pobres. Dá e sobra para todo mundo: para os escritores, para os políticos, para os revolucionários, para os jornalistas. O que seria de nós sem tantos pobres?

sábado, junho 19, 2004

Diogo Mainardi MM: de motoboys e Marshall

Diogo Mainardi
MM: de motoboys e Marshall
"Ainda não entendi se, para termos direito ao
Plano Marshall lulista, precisamos primeiro nos
submeter ao bombardeio e à destruição de nossas
cidades, como aconteceu na Europa Ocidental" 19/6/2004
Morrem dois motoboys por dia em São Paulo. Morrem mais motoboys em São Paulo do que soldados americanos no Iraque. São Paulo é a Bagdá da entrega rápida. A prefeitura paulistana nunca se interessou em descobrir quantos motoboys morriam na cidade. O mérito foi do documentário Motoboys: Vida Loca, atualmente nos cinemas. Antes que os documentaristas denunciassem o fato, a prefeitura computava apenas os motoboys que morriam no local dos acidentes, desconsiderando os que morriam em hospitais.
Os autores de Vida Loca tentaram entrevistar Marta Suplicy sobre a carnificina dos motoboys. Ela marcou e desmarcou a entrevista em cinco diferentes ocasiões. Quando o documentário ficou pronto, ainda que sem o depoimento da prefeita, surgiu a idéia de mostrá-lo para a comunidade de motoboys, num telão no Vale do Anhangabaú. Os órgãos da prefeitura deram a permissão para o evento. Até o dia em que o diretor da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb) assistiu ao documentário e se alarmou com uma passagem que chamava atenção para a entrevista repetidamente cancelada por Marta Suplicy. O diretor da Emurb mandou retirar aquela passagem do documentário, caso contrário o evento no Vale do Anhangabaú seria suspenso. E foi mesmo.
Depois de ignorar a morte dos motoboys por mais de metade do mandato, Marta Suplicy decidiu agir, retomando um decreto de Celso Pitta que impunha o cadastramento da categoria. Entre uma despesa e outra, o cadastramento pode chegar a 300 reais. O equivalente ao salário mensal de um motoboy. Os petistas são assim: desconhecem os problemas, respondem somente a quem lhes interessa, punem seus opositores, consideram que o Estado lhes pertence, estão em permanente campanha eleitoral e aplicam medidas de adversários políticos que antes contestavam. Os motoboys vão continuar morrendo em São Paulo, só que agora devidamente cadastrados.
Lula, por outro lado, parece ter amadurecido. Ele pediu um Plano Marshall para o Brasil. Boa, Lula. Finalmente, Lula. O Plano Marshall foi idealizado pelos Estados Unidos para ajudar a reerguer as economias da Europa Ocidental, depois da II Guerra Mundial. Ainda não entendi se, para termos direito ao Plano Marshall lulista, precisamos primeiro nos submeter ao bombardeio e à destruição de nossas cidades, como aconteceu na Europa Ocidental. Acho que não. Acho que Lula quer o Plano Marshall sem o detalhe dos 20 milhões de mortos. O Plano Marshall subsidiou a importação de produtos americanos por parte dos europeus e financiou a reconstrução de suas indústrias. O resultado foi transformá-los em satélites dos Estados Unidos. Lula está absolutamente certo em querer transformar o Brasil num satélite dos Estados Unidos. O que mais podemos desejar? Difícil será convencer os americanos de que o investimento vale a pena. Os europeus podiam oferecer um mercado promissor e mão-de-obra instruída. O Brasil é diferente. Se construirmos indústrias demais, faltará gente capacitada para apertar os botões. Quando Fidel Castro tinha 12 anos de idade, endereçou uma carta ao presidente americano pedindo uma nota de 10 dólares. O Plano Marshall, na cabeça de Lula, funciona mais ou menos do mesmo jeito. Ele pede uns dólares e o presidente americano dá. Lula é igual a Fidel Castro. Um Fidel Castro com 12 anos de idade.

sábado, maio 22, 2004

Diogo Mainardi Minha entrevista com Lula

"Quando um candidato não comparece a
um debate, é comum substituí-lo por uma
cadeira vazia. Entrevistei uma
cadeira vazia"

Pedi uma entrevista a Lula. Ele não deu. E acrescentou: "Esse tal de Mainardi, nem sei aonde fica". Decidi então entrevistar seu mais célebre imitador, o Bussunda, do Casseta & Planeta. Ele responderia em nome do presidente, no falso gabinete do falso Palácio do Planalto. Bussunda não concordou. Achou melhor não se associar a mim. Pensei em entrevistar outro imitador. Há muitos por aí. Fernando Henrique Cardoso imita Lula. Lulu Santos imita Lula. Até num torneio de dominó em Joinville apareceu um imitador de Lula. Chama-se Romualdo Caldeira de Andrada. Acabei desistindo da idéia. Quando um candidato não comparece a um debate na televisão, é comum substituí-lo por uma cadeira vazia. Entrevistei uma cadeira vazia:

O irmão de Celso Daniel declarou à Justiça que o dinheiro das propinas de Santo André era entregue diretamente a José Dirceu. Por que ele mentiria?

...

O senhor se cercou de assessores provenientes da prefeitura de Santo André, como Gilberto Carvalho e Miriam Belchior. O senhor não acharia conveniente suspender esses funcionários até o assassinato de Celso Daniel ser definitivamente esclarecido?

...

Quando o senhor anunciou que dobraria o valor do salário mínimo e criaria dez milhões de empregos, sabia que seria impossível cumprir essas metas ou acreditava em suas promessas? A hipótese mais benévola é a de que o senhor mentiu despudoradamente na campanha eleitoral, disparando um monte de asneiras em busca de votos. A hipótese menos benévola é a de que o senhor nunca parou para pensar o que de fato faria se ganhasse as eleições. Qual a hipótese correta?

...

O senhor costuma ser comparado a Fernando Henrique Cardoso na gestão da economia, mas é uma injustiça, porque seu governo interrompeu as privatizações, contratou 50 000 novos funcionários públicos e inflou a folha de pagamento do Estado. O resultado foi o aumento de impostos, o aumento do desemprego e a menor taxa de crescimento da história do Brasil, num primeiro ano de mandato. Como o senhor se sente quando o comparam a seu predecessor?

...

O senhor alardeia a reforma previdenciária como uma de suas maiores conquistas, mas ela nem terminou de ser votada pelos parlamentares. Se a proposta original já era insuficiente, o que pensar depois da PEC paralela? Daqui a quanto tempo ela precisará ser modificada?

...

O senhor cancelou a licitação de duas plataformas da Petrobras, com o argumento de que deveriam ser construídas no Brasil. Esse seu populismo nacionalista custará uns 5 bilhões de dólares aos contribuintes. Por que o senhor não vende a Petrobras?

...

O senhor acredita que a reportagem do New York Times sobre seu hábito de beber faça parte de uma trama internacional? Quem teria tramado e qual o motivo da trama?

...

O senhor pretende nos agraciar com um segundo mandato?

sábado, maio 15, 2004

Diogo Mainardi Abstinência da razão

15/5/2004

"A vida pública nacional é uma mistura
de hipocrisia, conchavo e acobertamento.
Pior ainda é essa gente que nos governa"

Não sei se o desempenho de Lula é afetado pelo consumo de álcool. Pode ser que sim, pode ser que não. Não descarto inclusive que tenha um efeito benéfico sobre ele. Se Lula parar de beber, nada garante que não decrete moratória na mesma hora. O correspondente do New York Times não disse que o presidente bebe demais. Não disse que o álcool afeta seu desempenho. Não disse que essa é uma preocupação nacional. A única referência nesse sentido está contida no título da reportagem. Lula só leu a primeira linha, aquela com letras bem grandes. O que o correspondente do New York Times disse foi apenas que alguns políticos e jornalistas começam a se perguntar se o hábito de beber do presidente não estaria afetando sua capacidade de governar. Não há nada de errado em se perguntar uma coisa dessas. Errado seria não se perguntar. Nas rodas de políticos, nas redações de jornais, em reuniões de empresários e no cineminha do Alvorada, é comum ouvir essa preocupação. Pode ser injusta, pode ser ofensiva, mas está lá, correndo à boca pequena.

Lula disse que um presidente não tem de responder a sandices como a do correspondente do New York Times. Claro que tem. Não é sandice nenhuma. Pelo contrário. Considerando que a imprensa não se cansa de retratá-lo com um copo na mão, é perfeitamente legítimo o interesse em saber quantas doses de uísque ele toma, e se isso pode prejudicar seu desempenho. Na realidade, não há nenhuma pergunta que não possa ser feita a um político. E não há nenhuma pergunta que um político possa se recusar a responder. Lula não admite isso. Acostumou-se com uma imprensa que está sempre a seu serviço, domesticada, oferecendo cumplicidade. O espanto do presidente foi tão grande que a melhor reação que lhe ocorreu foi anular o visto do correspondente do New York Times e chutá-lo para longe do país. É a atitude mais ignóbil da história do Brasil democrático. Lula agiu como a rainha de copas de Alice no País das Maravilhas, que manda cortar a cabeça de quem a contraria.

O presidente pode deportar quem ele quiser, mas isso não altera o fato de seu consumo de bebidas alcoólicas ser um tema político relevante. Em primeiro lugar, o gosto por uma cachacinha foi usado como peça de propaganda eleitoral, reforçando sua imagem popular, contraposta à do pedante Fernando Henrique Cardoso. Ou seja, rendeu-lhe votos. Em segundo lugar, coloca-o na mão dos políticos. Quem espalha aos jornalistas que o presidente bebeu nesta ou naquela reunião reservada são os deputados e senadores dos partidos aliados. Qual o motivo? Não seria para enfraquecer o governo e, dessa forma, forçar a liberação de emendas e a nomeação de seus apadrinhados para órgãos públicos? O copo de uísque do presidente, nesse caso, teria um preço elevado para o contribuinte.

O New York Times feriu o orgulho pátrio. Políticos e jornalistas saíram em defesa do presidente, condenando a reportagem. Os mesmos políticos e jornalistas que, em privado, trocam comentários maliciosos sobre o assunto. A vida pública nacional é uma mistura de hipocrisia, conchavo e acobertamento. Pior ainda é essa gente obtusa e truculenta que nos governa. Guido Mantega disse que o New York Times obedece a interesses econômicos estrangeiros. Luiz Gushiken alertou contra ameaças à soberania nacional. José Genoíno sugeriu expulsar o correspondente do jornal, idéia prontamente acatada pelo presidente. Como sempre, descambamos para o nacionalismo autoritário. Como sempre, caímos na bananice. Como sempre, erramos do começo ao fim.

Meu conselho ao presidente 24/3/2004

"O álcool é o pior problema do Brasil. Lula deveria dar o exemplo e parar de beber em
eventos a que comparece. No primeiro ano
de governo fomos informados sobre tudo o
que ele bebeu em cada encontro político ou social"

Dou um conselho a Lula. Pare de beber em público. O álcool é o pior problema do Brasil. Pior do que a fome. Pior do que o desemprego. Pior do que a criminalidade. Pior do que a saúde pública. Porque ele agrava todos os outros problemas. Sessenta e cinco por cento dos acidentes fatais nas estradas estão relacionados ao consumo de álcool. Setenta por cento dos assassinatos também. Calcula-se que o alcoolismo seja responsável pela perda de 5% do PIB. Coisa demais para um país pobre como o Brasil. Coisa demais para um país em recessão. O combate ao alcoolismo deveria ser uma prioridade do governo.

Só que, para funcionar, Lula deveria dar o exemplo. Deveria parar de beber em eventos a que comparece. No primeiro ano de governo fomos informados sobre tudo o que o presidente bebeu em cada encontro político ou social. As notícias da imprensa a seu respeito sempre vieram acompanhadas por detalhes de suas preferências alcoólicas, independentemente do tema tratado. Sobre a reforma ministerial: "Antes de iniciar o jantar, tomando uma dose de uísque, Lula falou sobre quanto é difícil demitir um amigo". Sobre a lei orçamentária: "Enquanto comia um churrasco e bebia uísque, Lula afirmou que a receita não estava prevendo aquela arrecadação". Sobre suas viagens pelo interior do país: "Lula comeu einsbein com uísque Johnny Walker Black Label".

Lula costuma argumentar que ninguém pode resolver os problemas do Brasil com canetadas. Pode sim. Uma boa canetada pode eliminar o artigo da Constituição que permite aos infratores recusar-se a se submeter ao teste do bafômetro. Outra boa canetada pode proibir a venda de bebidas alcoólicas nas estradas. Outra boa canetada pode aumentar o imposto sobre o álcool. No supermercado perto de casa, uma garrafa de pinga custa 2,68 reais. Menos do que um litro de leite longa vida. Difícil imaginar que um país em que uma garrafa de pinga custa menos do que uma de leite possa prosperar.

Não se trata de uma questão moral ou de etiqueta. Nem de perda de autoridade. Lula deve parar de beber em público simplesmente porque o Estado não tem dinheiro para arcar com os custos do alcoolismo. No Congresso Nacional existem muitos projetos de lei que visam a limitar a propaganda das bebidas. O primeiro a ser atingido deveria ser o próprio presidente. Ele é o maior garoto-propaganda da indústria do álcool. Se parasse de aparecer com copos de uísque na mão, já seria um bom passo. Se, além disso, ele se abstivesse de tomar álcool e se engajasse numa campanha contra a bebida, o Brasil só teria benefícios. Lula até agora fracassou em todas as áreas. O saldo de seu governo é muito negativo. Parando de beber em público, ele finalmente seria recordado por algo de bom.

Mario Sergio Conti Se você pensa que cachaça é água



15.05.2004 | O presidente Jacques Chirac tem um problema com álcool. Num país onde o vinho é a bebida nacional, Chirac gosta mais de cerveja. A França é o país que mais consome vinho no mundo: são 75 litros por francês ao ano. Os maiores tomadores de cerveja são os checos (160 litros/habitante/ano), seguidos de perto pelos irlandeses (155 litros). A França vem em trigésimo-quinto lugar (39 litros) – e o Brasil em vigésimo-sétimo (50 litros).

O que talvez seja mais grave, Chirac prefere a cerveja belga à nacional. Ele está na contramão não só do gosto popular como do seu eleitorado específico: na França, a cerveja é tomada principalmente pelos jovens, e a maioria dos que votam em Chirac tem mais de 45 anos.

Não que o presidente não aprecie ou não tome vinho. Quando a rainha Elisabeth II, da Inglaterra, esteve em Paris no mês passado, Chirac ergueu um brinde a ela no jantar de gala com uma taça de um excelente vinho da Borgonha, um Chateau Mouton Rotcshild.

Em campanha eleitoral, ou em visita a feiras de agricultura e alimentação, Chirac toma um golinho de tudo o que os eleitores ou expositores lhe oferecem: conhaque, calvados, cidra, champanhe, armagnac, poire etc. Mas com amigos, em restaurantes e brasseries, o presidente sempre pede cerveja belga.

Os hábitos etílicos do presidente não configuram uma preocupação nacional. Mas sazonalmente aparecem referências na imprensa. E quando se fala com um francês sobre bebidas, é batata: vem a informação, seguida de um muxoxo ou de um sorriso maledicente, de que o presidente gosta de cerveja belga.

***

O presidente Lula tem um problema com álcool?

Nas vezes que estive com ele, não notei problema algum. Uma vez, ele almoçou no restaurante que havia no andar de cima da redação de “Veja”. Tomou, como todos os outros que estavam à mesa, uns dois copos de vinho. Depois, ele e um assessor tomaram uma dose de licor Stregha.

Há quatro anos, durante um jantar num restaurante no Jabaquara que ele frequentava, onde havia um excelente camarão à provençal, Lula bebeu uma dose de uísque e, quando muito, dois copos de cerveja. Era uma conversa sem objetivo definido.

Na campanha para as prefeituras de 2000, acompanhei Lula durante uma semana para fazer uma reportagem. Fomos ao Rio Grande do Sul, ao Paraná e a Pernambuco. Ele bebia em alguns almoços e em outros, não. No jantar, bebia sempre. Tomava a bebida que lhe oferecessem. Se houvesse uísque, de uísque ia. Duas doses, no máximo. Aqui em Paris, no ano passado, num coquetel de fim de dia, assim como os cinco ex-primeiros socialistas que estavam na embaixada do Brasil, o presidente tomou vinho.

Já bebi com outros presidentes: Ernesto Geisel, José Sarney, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Alguns beberam menos (Sarney), outros mais (Lula), mas todos cabem na categoria de bebedores sociais: aquele a quem o álcool não afeta o desempenho profissional e o equilíbrio emocional. Nunca o vi nenhum deles bêbado, ou um pouco alterado, ou eufórico, por ter bebido demais.

***

Se nunca demonstrou ter problemas com bebida, Lula passou a beber mais, ou em excesso, ao se tornar presidente?

Dois conhecidos (gente de cinema) que participaram de projeções de filmes no Palácio do Alvorada me disseram que o presidente bebeu muito. Um deles contou: duas doses, grandes, de uísque, antes do filme. Durante a projeção, um garçon não deixou o copo do presidente esvaziar. No jantar, ele tomou vinho. Depois, fez um discurso que o meu interlocutor considerou desconexo. Ambos me disseram que o presidente falou palavrões à torto e à direito. E usou uma expressão bem grosseira – que não irei reproduzir por receio que o Planalto me obrigue a voltar ao Brasil).

Dois outros amigos, jornalistas, contaram que se bebia bastante nos churrascos e peladas de fim de semana na Granja do Torto. O que pode parecer uma grande revelação, mas alguém já foi a um churrasco com futebol onde não se bebesse tonéis de cerveja ou caipirinha?

Passei a acompanhar o noticiário político pela lente etílica. Repetidas vezes, notícias envolvendo o presidente relataram com detalhes, de passagem, como quem não quer nada, o que ele bebeu. Exemplo: o jantar com jornalistas na casa de uma colunista em Brasília.

Houve referências explícitas. O presidente da CUT disse que o presidente bebeu antes de tomar uma determinada medida. Uma colunista de economia repetiu o mesmo raciocínio, mas em relação a outra medida. Carlos Heitor Cony escreveu na “Folha” que o presidente é chegado a um “aperitivo”.

Começaram então as piadas. Em telefonemas e emails. E também de gente de passagem por Paris, inclusive funcionários do governo. Algumas delas caíram na internet. Aqui mesmo, no “Nominimo”, Tutty Vasquez disse que o novo avião presidencial vai se chamar “Air Force Fifty-One”. Segundo me contaram, um programa humorístico de televisão, chamado “Casseta e Planeta”, também fez graça com os supostos exageros etílicos do presidente.

Aí comecei esperar a reportagem. Era fatal que alguma publicação da grande imprensa se dispussesse a esmiuçar a relação de Lula com a bebida. Se políticos e jornalistas, se os poderosos, se o magma onde se fundem as fofocas brasileiras falava de Lula e bebida, a pauta estava dando sopa e alguém iria transformá-la em matéria. Ainda mais numa quadra em que a popularidade do governo estava em queda.

***

Leon Trotsky escreveu na sua biografia de Stálin, que ficou inacabada porque Stálin mandou que lhe cravassem uma picareta de gelo na cabeça, que na Rússia a expressão que designa um alcólatra na última linha é “mais bêbado que um sapateiro georgiano”. E lembrou em seguida que Stálin era filho de um sapateiro georgiano. Acusar o adversário de bêbado é moeda corrente na luta política.

Não apenas porque o excesso de álcool altera a capacidade de discernimento. O alcolismo é problema de saúde pública na maioria dos países. (Nos países muçulmanos, Alá seja louvado, pelo menos esse problema não existe).

Em si, dependendo da personalidade do político, o consumo de álcool independe não só das idéias que ele defende como não tem ligação direta com a sua capacidade de elaboração e liderança. Hitler não bebia. Churchill bebia feito um gambá – uísque e champanhe – o que não o impediu de ser um democrata e liderar a resistência contra o fascismo.

O alcoolismo é um problema na Rússia há quinhentos anos, quando foi inventada a vodka. Trotsky, que não bebia, tinha idéias de como combater o alcolismo. Perdeu o poder antes de colocá-las em prática. Stálin, que bebia (sobretudo vinho georgiano, que é ruim paca), ordenou durante a Segunda Guerra Mundial que se desse uma dose de vodka todas às noites a cada soldado do Exército Vermelho.

Mikhail Gorbachev quis controlar a produção de vodka. Àquela altura, 40% da população masculina russa padecia de alguma forma de alcolismo.

(Essa é uma questão complicada: o que é o alcolismo? Tecnicamente, uma pessoa que bebe diariamente é alcólatra, pois não concebe a existência sem bebida. É um viciado, um dependente. Mas geralmente é considerado alcoólatra aquele cuja vida é atrapalhada pela bebida: ele perde o emprego, agride a mulher, precisa beber de manhã etc).

Boa parte da produção de vodka, durante os anos confusos da glasnost e da perestroika, caiu na ilegalidade. Ela passou a ser destilada em alambiques clandestinos, que produziam veneno, literalmente. Entre outros motivos, Gorbachev se tornou impopular, sobretudo nas camadas mais pobres, porque quis limitar o consumo de vodka.

Seu sucessor, Boris Ieltsin, fez campanha e foi eleito, também entre outros motivos, porque prometeu diminuir o preço da vodka. Ieltsin era (é ainda?) alcoólatra, em qualquer sentido que se dê à palavra. No congresso do Partido Comunista em que ele rompe com o stalinismo, a televisão mostrou, ele andava pelos corredores do plenário em ziguezague, bebadaço.

Vladimir Putin foi reeleito prometendo não aumentar o preço da vodka. Mas ele nunca bebe em público. Só vai de água mineral. E tem imagem de esportista, se vangloria de lutar bem judô. A imprensa russa diz que ele é mais popular entre as mulheres do que entre os homens. Justamente porque não bebe: o alcolismo, em qualquer país, é uma doença eminentemente masculina.

***

Durante a campanha eleitoral, Lula declarou que gostava de tomar uma cachacinha. Na sua coluna em “Veja”, em setembro de 2002, Diogo Mainardi escreveu que gostaria de saber quantas cachaças Lula gostava de tomar por dia. Como eleitor, a informação lhe parecia pertinente: uma coisa é votar em quem toma uma cachaça de vez em quando; outra, votar em quem toma quatro por dia. Mainardi, se não me falha a memória, deu o exemplo de Jânio Quadros, um pau d’água que chegou à presidência sem que se questionasse a sua resistência ao álcool.

No mês passado, Mainardi voltou a associar Lula e bebida. Ele sugeriu que o presidente parasse de beber em público, para não parecer que esteja incitando o consumo de álcool.

A sugestão é sensata, em termos de saúde pública. No Brasil, o alcolismo está entre as dez maiores causas de internações clínicas. Ele é responsável também por 10% das faltas ao trabalho e 80% dos acidentes de trânsito. E também pela degradação, pela ruptura familiar, pela infelicidade e traumas de crianças: quem tem ou teve amigos alcólatras sabe do que estou falando.

Como o problema existe, é pertinente todo esforço para não banalizar o consumo de álcool. É só por esse motivo que na França é proibida a propaganda de álcool – assim como de cigarro. Inclusive cerveja, que só no Brasil não é considerada uma bebida alcólica.

***

Para vexame da imprensa brasileira, a esperada reportagem sobre Lula e a bebida foi feita por Larry Rother Jr e acabou saindo no “New York Times”.

A reportagem é pertinente. Não conta nenhuma mentira. Fala das conversas sobre o assunto. Diz que quase ninguém quer se pronunciar em público sobre o tema. O correspondente tentou ouvir o porta-voz do presidente. Repetiu algumas piadas. Reproduziu algo do que havia sido publicado a respeito: frases fora de contexto de uma coluna de Diogo Mainardi, uma piada da coluna na internet de Claudio Humberto Rosa e Silva, um comentário de Ali Kamel n’“O Globo” – sendo que esse último defendia que havia preconceito contra Lula). O mais importante: Larry Rother reconheceu claramente que era impossível dizer se havia um problema do presidente com a bebida.

A reportagem do “New York Times” não é uma denúncia. Ela me pareceu uma típica matéria de correspondente estrangeiro, numa edição de domingo carregada de tortura no Iraque: é leve, trata de um tema pouco importante, busca retratar uma situação entre o exótico e o folclórico, traz uma foto engraçada com Lula rindo, de chapeuzinho vermelho, segurando uma caneca de cerveja acima da cabeça.

A matéria tem uma estupidez: o título. Ele diz que o jeito de Lula beber tornou-se “preocupação nacional”. O erro não foi de Larry Rother, que em nenhum momento usa a expressão “preocupação nacional”. Foi um erro de edição.

Certamente que a reportagem poderia ter sido melhor, mais completa. Qualquer publicação brasileira (exceto o “JB”), teria recursos para fazê-la. Não a fizeram porque não quiseram. Quem a fez foi Larry Rothman, do jeito dele. Um jeito isento e profissional, como disseram o diretor de redação do “Times” e o ombudsman do jornal.

***

Aconteceu o que se sabe. Políticos da situação e da oposição enrolaram-se em estandartes auriverdes e saíram em praça pública, rufando tambores contra o ultraje à honra nacional. O imperialismo ianque foi fustigado. A notória associação do Departamento de Comércio americano com Larry Rother foi exposta. A sobejamente conhecida incapacidade da imprensa americana de produzir uma reportagem decente foi repisada. Veio a nu o sórdido complô entre o ex-porta-voz de Collor, Brizola e as multinacionais. A decadência inevitável do “New York Times” (vide Jayson Blair!) foi confirmada e reconfirmada. Um exaltado chegou a dizer que o jornal está ainda pior que o “JB”. A nota oficial do Palácio do Planalto usou o termo “amiúde”, esclareceu que os hábitos do presidente não diferem do dos seus compatriotas e nos informou, sisuda, que às vezes Lula trabalha “mais de doze horas” por dia.

O Brasil estava unido contra o nefando Rother, o seu jornal empulhador e o sinistro torturador George W. Bush. O Brasil defendia com gunhas e arras o seu presidente. O Brasil se insurgia contra os dragões da maldades. Emocionado, derramei algumas furtivas e patrióticas lágrimas no bar mais próximo, o Poliveau, entornando um copinho de poire – sim, confesso, eu era um admirador da Turma do Poire, liderada por Ulysses Guimarães, um bebe-quieto por excelência.

No dia seguinte, o presidente acordou invocado e expulsou o jornalista peçonhento. Tudo se transformou no seu contrário. Lula foi chamado de tacanho, turrão, beócio, primitivo, prepotente, arrogante, destemperado.

Passaram mais alguns dias e o presiente, magnânimo, voltou atrás na expulsão, apesar do jornalista não ter pedido desculpas. Chamaram a turma do deixa-disso. Acochambraram. Medraram. Deram um jeitinho. Acabou em pizza.

Para desespero de meus familiares, desde o início da “crise” passei a cantarolar os versos irmortais:

“Se você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão”.

A marchinha não me sai da cabeça. É um inferno.

***

Como fica a imagem brasileira no exterior?

Nenhum jornal francês repercutiu a reportagem do “Times”.
Eles deram notas curtas sobre a expulsão do correspondente americano, comum resumo sumário da matéria de Larry Roth.

Para se ter um exemplo do senso de proporção: o “Monde deu dez linhas sobre Lula, “Times” & bebida. E deu na íntegra, em uma página inteira, o relatório da Cruz Vermelha sobre as tortura dos militares americanos no Iraque. Engraçados os franceses, não? Eles se interessam por assuntos absolutamente marginais. Não captaram o que havia por trás da matéria do “Times”.

No caminho do restaurante, para jantar com um amigo francês, Alain, ele me perguntou: Que história é essa do “Monde” de hoje que o presidente do teu país bebe? Chegamos ao restaurante, as crianças nos distraíram, o assunto mudou, falamos do Iraque, de anti-semitismo na Alsácia, de “Cidade de Deus”, dos filhos, das perspectivas de Chirac para 2007, das Olimpíadas. E por aí foi. Esquecemos de Lula.

Ninguém está preocupado na França com o Brasil, com o seu presidente, beba ele ou não. Houve um período, entre a eleição e, digamos, um ano depois da posse de Lula, quando se acreditava que o PT fosse oferecer uma alternativa à esquerda, que o Brasil foi levado a sério. Esse período acabou. Ninguém quer mais saber de nós.

Nem nós, brasileiros. É infindável a nossa capacidade para nos envolvermos em discussões estéreis. Vocês passaram um mês debatendo aí se aquele sambista bêbado deveria ter deixado de fazer propaganda da cerveja A para fazer da B. Depois vocês passaram mais um mês falando de bingo. E agora derrubaram florestas e secaram rios de tinta para atacar o americano, defender o presidente, e depois defender o americano e atacar o presidente. Como se isso tivesse alguma importância. Como se isso fosse resolver algum problema nacional. Nenhum brasileiro melhorou ou piorou de vida com a reportagem de Larry Rother e a gritaria que se seguiu a ela. O Brasil continuou na mesma. O Brasil não sai da mesma. Essa é a sua tragédia.

segunda-feira, maio 10, 2004

Diogo Mainardi Quero entrevistar o Lula


"Duda Mendonça prometeu me ajudar.
Agradeci
e perguntei: 'O presidente
apresentou como novas ambulâncias
repintadas. Ele não é como
uma ambulância
velha, repintada pelo senhor?' "

Acordei invocado. Peguei o telefone e liguei para o Palácio do Planalto.

– Quero entrevistar o Lula.

A telefonista transferiu a chamada para a Secretaria de Imprensa do presidente. O chefe do departamento, Ricardo Kotscho, informou-me que iria encaminhar o pedido de entrevista ao responsável pelo agendamento, acrescentando, de forma desalentadora, que uma penca de jornalistas de todas as nacionalidades estava à minha frente.

Como eu continuava invocado, e não queria saber de esperar meses e meses, liguei para o Ratinho, que recentemente conseguiu furar a fila de jornalistas e entrevistar Lula na Granja do Torto, com direito a churrasco e recital de sanfona. Ratinho se comprometeu a interceder em meu favor, aconselhando o presidente, seu amigo, a me receber prontamente. Ratinho me assegurou também que eu ficaria encantado com Lula, porque sua equipe é uma porcaria, mas ele é uma pessoa da melhor qualidade, tanto que foi o único que se preocupou em distribuir dentaduras aos pobres.

O empenho de Ratinho não aplacou meu ímpeto. Resolvi ligar para Duda Mendonça. Sua secretária despejou sobre mim uma gravação de Caetano Veloso cantando Nirvana. Fiquei ainda mais invocado do que antes. Duda Mendonça explicou que raramente se encontra com Lula, mas pretende vê-lo na semana que vem, para mostrar-lhe sua última campanha publicitária, aquela que compara dados de doze meses de Fernando Henrique com os de catorze de Lula. Duda Mendonça prometeu me ajudar a conseguir a entrevista. Agradeci e perguntei:

– O presidente apresentou como novas cinco ambulâncias que tinham sete anos de uso, mas foram repintadas para a ocasião. Ele não é como uma ambulância velha, repintada pelo senhor?

Modestamente, Duda Mendonça respondeu que não. Ele foi o maior responsável pela eleição de Lula. O destino o puniu infligindo-lhe a contratação de Luis Favre, o marido da prefeita Marta Suplicy.

A seguir, pensei em telefonar para José Dirceu, mas li que ele não apita mais nada no governo. Liguei então para Frei Betto, um dos melhores amigos de Lula. Ele não me atendeu. Voltei a ligar no dia seguinte. Ele estava em reunião. Liguei no outro dia. Ele continuava em reunião.

Cada hora mais invocado, procurei na internet o número da Secretaria de Comunicação e liguei para Luiz Gushiken. Como ele não estava, falei com um de seus assessores, que me recomendou ligar para o todo-poderoso secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho. Antes de trabalhar com Lula, Gilberto Carvalho era o principal colaborador do prefeito assassinado de Santo André, Celso Daniel. O irmão de Celso Daniel, em depoimento à Justiça, acusou Gilberto Carvalho de conhecer os esquemas de propina da prefeitura e de ter entregue, pessoalmente, o dinheiro arrecadado a José Dirceu. Ocorreu-me que, além de pedir uma entrevista, valeria a pena aproveitar o telefonema para ouvir a versão de Gilberto Carvalho sobre o caso, mas ele preferiu não retornar minhas ligações.

No futuro, quando eu acordar invocado, acho mais fácil falar com o Bush.10/5/2004

Arquivo do blog