Entrevista:O Estado inteligente

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terça-feira, abril 22, 2008

Xico Graziano Gradeação ecológica



O Estado de S. Paulo
22/4/2008

A família Monteiro reside há 30 anos em Campo Grande. Seus próceres, Marcela e Zeito, agrônomos, criam gado no Pantanal. Idealistas, inventaram uma nova técnica: a “gradeação ecológica”. Mostram como, na prática, se compatibiliza pecuária com preservação ambiental.

O simpático casal, formado na Esalq, em Piracicaba, conta com o auxílio dos três filhos, também agrônomos. Naquela terra alagada de Mato Grosso do Sul, cheia de matadores de onça, defender a natureza soa estranho. Afinal, derrubar a mata ainda continua sendo a ordem do insustentável progresso. Mas a família Monteiro insiste. Na Fazenda São João, produzir não significa depredar.

A planície pluvial do Pantanal, chamada “chaco” no Paraguai e na Bolívia, tem o tamanho do território paulista. O lado brasileiro ocupa 60% do curioso ecossistema, distribuindo-se entre Mato Grosso (35%) e Mato Grosso do Sul (65%). Bioma riquíssimo em biodiversidade, sofre a terrível ameaça predatória da civilização.

Cerrados ralos e cerradões constituem a vegetação elevada, formando matas fechadas conhecidas como cordilheiras. Estas se entremeiam com os típicos campos do Pantanal, terras baixas, alagadas temporariamente durante a cheia. Lagoas coalhadas de jacarés permeiam campos e cordilheiras, trazendo aspecto ímpar à região. Soberba biodiversidade.

Curiosamente, pequenas elevações do terreno, murunduns de superfície arredondada, se destacam na paisagem dos campos. Chamadas de capões, essas proeminências do terreno, contendo minúsculos bosques, permanecem fora d’água mesmo no período das chuvas. Adorna-as, invariavelmente, um cupinzeiro.

Ali nasceu a gradeação ecológica. Normalmente, ao serem abertas para a pecuária, essas áreas de campo pantaneiro são devastadas pela lâmina, ou correntões, do trator. Tenta-se nelas reproduzir a formação de pastagens típicas do cerrado seco. Dá errado. Os pastos apresentam baixa produtividade, o gado pouco engorda. Enfraquece o capim.

Na Fazenda São João, ao contrário, os capões e sua vegetação são integralmente mantidos, utilizados como refúgio de fauna e flora. Um trator de pequeno porte os rodeia, sem machucar os murunduns. O campo baixo é, numa operação conjunta, gradeado e semeado com a Brachiaria humidicola, gramínea que sobrevive mesmo quando os campos ficam cobertos por uma lâmina d’água.

A técnica, simples, eleva a produtividade sem alterar significativamente o ecossistema. O equilíbrio natural se mantém, as águas fluem. Atesta-o a bicharada. Mamíferos e aves pastam juntamente com o gado. Na cheia, os murunduns, preservados, secam as patas do gado. Viram locais de descanso.

A experiência técnica dos Monteiros, conhecida e relatada pela Embrapa de Campo Grande, pode evoluir. Os agrônomos pensam agora em substituir a grade pelo plantio direto, reduzindo a escarificação do terreno virgem. A gramínea exótica formará um consórcio com a pastagem natural. Zero de desmatamento, mínimo impacto ambiental.

Hoje, 22 de abril, é o Dia da Terra. Criada a partir dos protestos ecológicos liderados por Gaylord Nelson, senador norte-americano, a data acabou adotada internacionalmente desde 1990. Na comunidade agronômica, a comemoração se soma àquela lembrada no Dia Mundial da Conservação do Solo, passada em 15 de abril.

O solo é patrimônio da humanidade. Sua erosão, provocada pelo cultivo inadequado, é a pior chaga da agricultura. Quando chuvas torrenciais encontram o solo descoberto, provocam enxurradas que lavam a superfície do terreno, carregando a fertilidade, roubando a produtividade das lavouras. A lama marrom machuca o solo, marcando-o com feias e profundas cicatrizes, as profundas voçorocas.

Nas regiões tropicais, especialmente, o desmatamento expõe o terreno, coberto de secular húmus, à força da intempérie. Nisso reside o pecado capital. Trazidas da Europa, as técnicas de cultivo baseadas na aração do solo, próprias para regiões temperadas, mostram-se desastrosas nos países do Hemisfério Sul. Curvas de nível e terraços, projetados pela boa agronomia desde os anos 1960, ajudam a combater o mal da erosão. Mas a verdadeira solução chegou apenas recentemente, por meio do plantio direto na palha, tecnologia revolucionária que promove a semeadura sem passar o arado nem a grade no terreno. O solo se mantém estruturado, coberto, protegido.

Quem conhece os rios do Pantanal, como o Coxim e o Taquari, se assusta com a quantidade de praias que cresceram em suas margens. Eles, porém, não nasceram assim assoreados. Toda aquela areia acabou ali depositada por causa da erosão do solo em suas cabeceiras. Derrubados os cerrados a montante, em São Gabriel ou Rio Verde, milhões de toneladas da camada superficial do solo rodaram água abaixo.

O desprezo pela natureza, rompendo os seus ciclos fundamentais, exibe certa arrogância humana. É certo que o desenvolvimento da agricultura e da pecuária permitiu a evolução. Entretanto, o avanço tecnológico, estimulado pelo desmesurado crescimento populacional, fez o homem imaginar que tudo conseguiria. O problema ecológico advém dessa prepotência, somada à cobiça.

A gradeação ecológica no Pantanal significa um recuo humilde, e inteligente, na exploração rural. Há que respeitar os ciclos da natureza, entendendo-os convenientemente para deles se aproveitar, sem os destruir. Isso é desenvolvimento sustentável.

Hoje também se comemora o Descobrimento do Brasil. Após séculos, o Pantanal está sendo redescoberto. O turismo ecológico valoriza o colar vermelho, e vivo, do tuiuiú. Os pecuaristas modernos investem no gado ecológico. Falta apenas salvar a coitada da onça.

Xico Graziano, agrônomo, é secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo. E-mail: xico@xicograziano.com.br
Site: www.xicograziano.com.br

domingo, março 02, 2008

Suely Caldas

As ONGs laranjas

Impressiona a desfaçatez, a falta de zelo e o desprezo com que o governo do PT trata o dinheiro público manejado por ministros e altos funcionários. À famosa frase de Lula "assino um cheque em branco em favor de Roberto Jefferson" (o deputado que denunciou o mensalão e nunca explicou o destino de R$ 4 milhões ilegais que recebeu do PT), juntou-se agora outra da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, para quem os repasses de dinheiro feitos pelo ministro do Trabalho, Carlos Lupi, para ONGs de políticos de seu partido (o PDT), devem ser tratados "com menos fígado e mais racionalidade".

Traduzindo em miúdos, os aliados podem cometer deslizes éticos porque do governo sempre receberão tolerância, compreensão e carinho. Foi com tal generosidade que Lula batizou Lupi de "o mais republicano dos ministros", ao inocentá-lo, esquecendo que o dinheiro foi parar em mãos de políticos pedetistas que comandam as ONGs.

Pressionado por denúncias da imprensa (não da Controladoria-Geral da União, que deveria, mas só fiscaliza quando interessa), Lupi cancelou quatro convênios, através dos quais repassaria R$ 25,77 milhões para essas ONGs, com o suposto objetivo de qualificar jovens profissionais. Até um asilo de idosos recebeu dinheiro para treinar jovens. Antes disso, o ministro resistiu o quanto pôde, por vários dias se recusou a esclarecer as denúncias, como é obrigação de todo homem público que lida com dinheiro de impostos. E só concordou em atender à imprensa depois da interferência do presidente.

Segundo reconheceu Lupi, os quatro convênios continham irregularidades, mas ele manteve outros com entidades suspeitas investigadas pelo Ministério Público ou por Tribunais de Contas. Só o reconhecimento das irregularidades seria mais do que suficiente para o presidente da República acatar recomendação da Comissão de Ética de demitir Lupi caso ele continue se recusando a deixar a presidência do PDT. O favorecimento partidário na contemplação de dinheiro do Ministério do Trabalho é exuberante em mostrar a incompatibilidade de um ministro acumular os dois cargos. Por servir a todos os brasileiros como ministro, Lupi deveria pautar sua conduta por princípios de isenção, impessoalidade e imparcialidade. Se faz o oposto e usa o ministério para favorecer seu partido, ele não merece permanecer no cargo.

Mas o presidente Lula escolhe o lado errado, desautoriza a Comissão de Ética, passa a imagem de fraqueza e conivência com os atos do ministro e deixa correr solta a corrupção nas ONGs - o mais novo instrumento de desvio de dinheiro público encontrado pelos políticos. Ora, se a ONG Unitrabalho, de Jorge Lorenzetti, amigo e churrasqueiro de Lula, foi contemplada com R$ 15 milhões sem prestar serviço algum e nada aconteceu, é possível esperar alguma reação desse governo em relação ao ministro Lupi?

É extraordinária a criatividade dos políticos em buscar formas de se apropriar de dinheiro público, sobretudo se o período eleitoral se aproxima. Quando a privatização fechou a torneira dos bancos estaduais, eles alvejaram as empresas distribuidoras de energia elétrica. Também privatizadas, miraram o alvo das operações financeiras denominadas Antecipações de Receitas Orçamentárias (AROs). Com a proibição das AROs, recorreram a ONGs laranjas. E por aí vai. Se um ralo fecha, eles logo inventam um novo.

Segundo o ex-presidente da Comissão de Ética Marcílio Marques Moreira, "o que mais incomoda a comissão nem é tanto o fato concreto, mas a tendência da autoridade pública de justificá-lo com o argumento de que todo mundo faz, que alianças políticas são necessárias para garantir a governabilidade, que os fins justificam os meios". Argumentos que abrem crateras onde se instalam confortavelmente e sem medo políticos e homens públicos de péssima qualidade, os que querem se dar bem, enriquecer ilicitamente, tirar proveito do cargo e do poder de manejar com dinheiro público. A população é quem menos conta para eles.

E assim caminha a nossa débil democracia, navegando na turbulência e à deriva, conduzida por gente despreparada, para quem garantir liberdade e eleição basta, ignorando que democracia se constrói com instituições fortes e resistentes à interferência de maus governantes e com um Estado e seus agentes conscientes do dever de servir e proteger o cidadão. A guinada de voltar e seguir caminho contrário da desconstrução é possivelmente o pior legado do período Lula.

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