Entrevista:O Estado inteligente

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sábado, janeiro 24, 2009

Crise de abundância Dora Kramer

O ESTADO DE S. PAULO

Se a eleição para presidentes da Câmara e do Senado tivesse sido anteontem muito provavelmente o PMDB hoje teria o comando das duas Casas. Hoje, a probabilidade seria menor.

Na semana que vem, pode se reduzir e, no dia 2 de fevereiro tudo pode acontecer, inclusive o senador José Sarney e o deputado Michel Temer ficarem no ora veja. É uma hipótese remota, mas já não absurda para efeito de análise da cena.

Principalmente daquela que se desenrola longe dos olhos do público, na coxia dos partidos, onde as forças da reação se movimentam poderosa e dissimuladamente.

Candidato a presidente do Senado depois de assegurar ao partido, aos colegas e ao presidente da República que não teria mais saúde nem paciência para aguentar essa vida de conflitos e intrigas, preferindo se dedicar à literatura, José Sarney busca apoios.

Começou pela ala do partido que preferia manter o compromisso com o PT, votar em Tião Viana no Senado e garantir a presidência da Câmara para Michel Temer. Foi recebido com frieza, mas com fidalguia.

Tom gentil que não traduz a verdadeira disposição do grupo, cujo ânimo é absolutamente conflituoso.

Ao presidente Luiz Inácio da Silva já fizeram chegar as queixas e a informação de que os pemedebistas adeptos de Temer trabalharão por Tião Viana.

Assumidamente próxima do PSDB - de cujo governo fez parte - essa turma já mandou recados ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e aguarda a volta do governador José Serra do exterior para procurá-lo. O argumento: para a candidatura de Serra em 2010, melhor a eleição do PT no Senado.

Nessa ofensiva, petistas e pemedebistas têm discurso preparado para trabalhar a rusga do DEM com o PT. Dirão o seguinte: se o que o partido quer é confusão na área governista, a derrota de Sarney seria perfeita, pois o deixaria agastado não só com o PT, mas também com Lula, que não teria se empenhado na eleição dele.

Não é uma tarefa fácil, mas é de se registrar que esse pessoal é o mesmo que durante o primeiro mandato de Lula impôs sucessivas derrotas a Sarney e Renan Calheiros dentro do partido, mesmo estando formalmente na oposição e de fato sem ministérios nem cargos importantes na máquina pública.

Hoje dispõem de boa parte do patrimônio federal do PMDB e têm acesso ao presidente da República.

Querem acoplar ao capital a presidência da Câmara, que o próprio partido acabou pondo em situação de risco por querer também a do Senado. Percebe-se com nitidez agora que a proclamada unidade do PMDB era de fachada.

Incitado por Renan Calheiros e sentindo-se em desvantagem, o outro grupo partiu para tentar se igualar aos adversários internos disputando o Senado com Sarney, tido como imbatível.

Condição que poderá perder, se a forte reação inicial prosperar. Sozinho, o PT talvez não tivesse êxito no embate. Mas, com a ajuda dos pemedebistas e do trunfo deles junto com PSDB e ao DEM (candidatura Serra), Tião Viana ganha reforço importante.

Se será suficiente, os próximo dias e o andamento da candidatura de Michel Temer na Câmara dirão. Quanto mais risco houver de o PT retaliar no início da noite do dia 2 de fevereiro, se de manhã for derrotado pelo PMDB no Senado, mais acirrado tenderá a ficar o conflito interno no partido.

Batalha que pode ser assim resumida: o PMDB quer derrubar Sarney, que pode derrubar Michel Temer, que preside um partido com muitos votos, muita influência, muito poder, muita força, muita ousadia e, por isso mesmo, pode ter muitos problemas numa demonstração de que o que excede às vezes prejudica.

À italiana

Avaliação de um ex-embaixador do Brasil em Roma é a de que não adianta o governo brasileiro apostar no "esquecimento" do caso Cesare Battisti como ocorrem com as crises por aqui.

A Itália não dará trégua, podendo, além de chamar de volta o embaixador em Brasília, criar obstáculos - mediante exigências burocráticas - para a entrada de cidadãos brasileiros no País.

Matemática aplicada

É tradicional: a contabilidade de campanhas dificilmente se entende com o número de eleitores disponíveis.

A julgar pelos números dos dois pretendentes à presidência do Senado, há muito mais que 81 votos (79, descontados os concorrentes) no colegiado, bem como na Câmara os 513 deputados não são suficientes para preencher as listas de apoios que os quatro candidatos alegam ter.

Só Michel Temer, do PMDB, divulga vantagem de 300.

No Senado, contam-se como seguros para Tião Viana "trinta e tantos" votos, aos quais seus aliados acrescentam três ou quatro do PMDB, mais dissidências do PSDB e do DEM, duas legendas até agora de compromisso feito com José Sarney, cuja listagem está em 56 votos.

Noves fora, ou tem muita gente mentindo ou muita gente se iludindo.
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quarta-feira, janeiro 21, 2009

Dora Kramer Refazer a América



O Estado de S. Paulo - 21/01/2009
 

 dora.kramer@grupoestado.com.br

Vinte minutos e nenhuma mistificação. Barack Hussein Obama foi ao ponto e disse apenas o necessário num discurso de posse sem enfeites.

Realista no traço do perfil da crise, duro com as ameaças à segurança de seu país, generoso na referência aos mais pobres, conciliador na proposta de estender a mão a quem se propuser a “abrir o pulso”, entusiasmado e otimista ante a tarefa de conduzir a nação ao reencontro dos valores que fizeram dos Estados Unidos a maior, mais perene e poderosa democracia do mundo.

Obama não falou de si, não exaltou suas qualidades, não vestiu o figurino de salvador, não vendeu facilidades nem se mostrou intimidado ante a imensidão das dificuldades.

Falou de tolerância, de honestidade, de patriotismo, de coragem, de lealdade, de trabalho. Exibiu-se ao planeta como o homem certo na hora exata.

Se será um excelente ou um medíocre presidente é uma dúvida a ser tirada ao longo dos próximos quatro anos. Agora, Obama cumpre o papel concernente ao momento de poço fundo. Tem a medida necessária ao tamanho do rombo.

Para um problema imenso, só uma solução radical como a eleição de um presidente negro por fora, multirracial por dentro, algo alternativo nas maneiras, neófito na política para o tamanho das trajetórias habitualmente cumpridas antes da chegada ao topo, jovem e ao mesmo tempo tradicionalista.

Cioso da missão de representar o início de uma era de recuperação da economia, da credibilidade interna e externa, da capacidade de indignação perdida diante de tantos e tão escabrosos desastres ocorridos sob a administração George W. Bush.

Frank Rich, colunista do New York Times, fala a respeito num artigo em que compara a comoção provocada pela divulgação dos papéis do Pentágono sobre a guerra do Vietnã, em 1971, e a apatia dos americanos frente aos descalabros em série do governo Bush: as mentiras sobre as armas de destruição do Iraque, as torturas nas prisões de Guantánamo e Abu Ghraib, os bilhões gastos nas guerras e na reconstrução do Iraque, a crise econômica, a corrupção, o clientelismo, a incompetência.

“Após oito anos sendo surrada pelo governo Bush, a nação ficou semicatatônica”, escreve Rich a propósito da absorção de tais acontecimentos ao cotidiano de um país que já não se espantava com mais nada.

Um país que obrigou um presidente da República recém-reeleito a renunciar porque se descobriu que a campanha dele, com a ciência de Richard Nixon, o presidente em questão, espionara a sede do Partido Democrata.

Na avaliação do analista, Barack Obama terá mais chance de defender uma “política nova e incisiva” quanto mais se empenhar em revelar aos americanos tudo sobre “as malfeitorias de Bush”. Frank Rich, no entanto, na véspera da posse duvidava dessa possibilidade por causa de declarações de Obama defendendo a necessidade de “olharmos para a frente, e não para trás”.

Obama nada disse que faça supor a abertura de investigações, mas tampouco deixou de levar em conta o que se passou e proclamar a mudança genuína, “o fim dos sentimentos mesquinhos e das falsas promessas, das recriminações e dos dogmas desgastados que por tanto tempo estrangularam a nossa política”.


Tipo exportação

Bob Woodward, célebre repórter do caso Watergate, escritor, editor do Washington Post, lista “dez lições para o presidente Barack Obama aprender com o governo Bush”, que merecem ser lidas e absorvidas por governantes em geral.

1. É o presidente que dá o tom. Não seja passivo ou tolere divisões virulentas.

Quer dizer, o papel de árbitro é essencial e indivisível.

2. O presidente precisa fazer com que todos se coloquem, mesmo - ou especialmente - quando há divergências.

As posições e opiniões dos auxiliares precisam ser de conhecimento do chefe.

3. Um presidente precisa fazer o dever de casa para elaborar e respaldar suas políticas.

Não pode, nem deve, atuar “de ouvido”.

4. Presidentes precisam ser francos e se certificar de que más notícias cheguem ao Salão Oval (o gabinete presidencial).

O isolamento é nefasto e contraproducente.

5. Presidentes precisam fomentar a cultura do ceticismo e da dúvida.

Certezas inabaláveis são um atalho para o equívoco.

6. Presidentes recebem dados contraditórios, e precisam classificá-los de forma rigorosa.

Não abrir mão, portanto, do discernimento pessoal.

7. Presidentes devem dizer a mais dura verdade ao povo, mesmo que isso signifique dar notícias muito ruins.

Otimismo tem hora.

8. Motivos nobres não são garantia de uma política eficiente.

Os fins não necessariamente justificam os meios.

9. Presidentes devem insistir num pensamento estratégico.

Visão de longo prazo é indispensável.

10. O presidente deve adotar a transparência. Alguma versão do que aconteceu na Casa Branca (ou no Palácio do Planalto) sempre vai se tornar pública

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Celso Ming O mundo quer confiar



O Estado de S. Paulo - 21/01/2009
 

Creso, rei da Lídia no século 6º antes de Cristo, era o homem mais rico do mundo conhecido. Mas, lá pelas tantas, inseguro sobre seu futuro, mandou consultar o oráculo de Delfos. O deus respondeu que ele deveria fugir quando o mulo ocupasse o trono do país dos medos. Creso se tranquilizou. “Nunca um mulo chegaria a rei de lugar nenhum”, disse.

Quando Ciro, rei dos medo-persas, invadiu a Lídia, Creso não fugiu como lhe recomendara o oráculo. Perdeu a coroa e sua riqueza espantosa. Tarde demais para entender. Ciro era um híbrido, filho do rei persa e de uma princesa dos medos.

Se a analogia é um tanto forçada, vale a torcida. Barack Obama, um híbrido de pai africano e mãe americana, assume o comando do país mais poderoso do Planeta e terá de enfrentar os reis do mundo financeiro e sua crise, que não podem ser deixados soltos. Como Creso, não tem agora para onde fugir. O mundo quer acreditar que essa vai ser a guerra que este mulo do século 21 vai vencer.

Na cerimônia de posse, o presidente Obama fez ligação direta com o coração e a alma dos americanos e dos demais cidadãos do mundo. Falou de escolhas novas mas baseadas em valores antigos, no uso da inteligência, no trabalho duro, no aproveitamento das oportunidades, na coragem necessária para enfrentar problema por problema.

“Nossa economia está muito enfraquecida, consequência da ganância e da irresponsabilidade por parte de alguns, mas também por nossa falha coletiva em fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas; empregos destruídos; empresas fechadas. Nossa assistência à saúde é cara demais; nossas escolas reprovam demais; e cada dia traz mais evidências de que as maneiras como usamos a energia fortalecem nossos adversários e ameaçam nosso planeta.”

Não só os americanos, mas também o resto do mundo canaliza sua energia e está disposto a agarrar a confiança que vem de gente de boa vontade e sem mentira.

É provável que a nova equipe econômica de Obama não saiba ainda o que fazer agora para acabar com a crise. O novo pacote econômico, de US$ 825 bilhões, cujo projeto será formalmente encaminhado ao Congresso americano para discussão, parece de longe insuficiente para enfrentar as demandas do contra-ataque.

Obama falou também que o mercado não pode ser deixado solto e que precisa de vigilância (watchful eye). Sem isso, descontrola-se e sai dos trilhos.

O problema é que, se o mercado está globalizado, também precisa de vigilância globalizada. Instituições de bairro não darão conta de tanta supervisão.

Além disso, um olho poderoso não é nada se não houver um braço forte. E não está claro como essa coordenação pode ser feita por instituições globais, num mundo onde o poder continua sendo exercido por estados nacionais limitados e egoístas e, até agora, destituídos de liderança.

Também aí, não importa se o organismo de controle é grande ou pequeno, mas se funciona e quanto funciona.

Por ser híbrido, Ciro uniu reinos antes antagônicos e com essa união de forças enfrentou, uma a uma, as ameaças a seu império. Por isso, foi chamado de Ciro, o Grande.



Confira

A virada não aconteceu - As bolsas não se deixaram influenciar pelo pronunciamento envolvente do presidente Obama. Ao contrário, os preços caíram nas principais praças.

Prevaleceu a percepção de que não há mágica e que a saída para a crise vai demorar.

As próximas semanas enfrentarão a divulgação dos balanços. E a tendência é de que será um susto atrás do outro.

E é provável que as primeiras estimativas sobre o PIB dos países ricos no quarto trimestre também venham ruins. E aí veremos se o governo Obama terá respostas para tudo isso.

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