O Exército não está cercando as favelas cariocas apenas em busca de armas roubadas dos seus arsenais. O Exército está nas ruas do Rio para recuperar a honra e a respeitabilidade enxovalhadas por sete bandidos que, confiados no êxito de ações anteriores, e seguros da impunidade que costuma premiar a petulância dos criminosos no Brasil, invadiram na madrugada de sexta-feira o quartel do Estabelecimento Central de Transportes, em São Cristóvão, e levaram uma pistola 9mm e dez fuzis FAL 7.62.
Apoderar-se de armas dos quartéis das Forças Armadas é, mais que um crime, uma afronta. Em face da gravidade do ataque às instituições militares, a cúpula do Exército — e também das outras Armas — tem o dever de usar todos os meios de que dispõe, todos os recursos materiais, técnicos e humanos ao seu alcance, e só descansar quando as armas forem recuperadas, os culpados entregues à Justiça, o respeito e a auto-estima restaurados.
Seria o absurdo dos absurdos permitir que o tráfico se abasteça nos quartéis das Forças Armadas — que os arsenais destinados a defender o país sejam usados para roubar, assaltar e matar cidadãos. É questão de defender a honra; é questão de resguardar princípios; e é questão de impor invioláveis limites à ação dos bandidos.
Que não se confunda essa operação excepcional para recobrar armas roubadas com a atribuição de um rotineiro poder de polícia às Forças Armadas para desarticular o tráfico — equívoco que o bom senso se encarrega de desaconselhar. No combate à criminalidade, tarefa constitucional do aparelho de segurança pública, o papel dos militares é, justamente, o de impedir que o crime se arme com petrechos de guerra subtraídos de seus paióis, sem prejuízo de algum apoio à inteligência policial. O que se quer das Forças Armadas não é que saia às ruas rotineiramente, fazendo as vezes da Polícia Militar, mas que permaneça nos quartéis — de sentinela, vigiando, espiando, guardando o que é seu.
E que a vigorosa reação do Comando Militar do Leste, além de peremptório recado aos bandidos, sirva às autoridades policiais em geral como exemplo de cabal intolerância com o crime.