Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, agosto 17, 2005

Zuenir Ventura Não à reeleição

O GLOBO


Há dois meses feitos ontem, publiquei um artigo que, se me permitem a repetição, terminava assim: "...o gesto que poderia reverter de fato a crise seria Lula abrir mão do apego ao poder e renunciar ao projeto de reeleição, que, como se sabe, tem sido a mãe desses escândalos". Sem ilusão de ser ouvido, volto ao tema porque a idéia agora deixou de ser o palpite leigo de um amador para ser defendida também por dois petistas históricos e sensatos que, além de companheiros confiáveis do presidente, entendem de política e de poder: o governador do Acre, Jorge Viana, e o ex-governador de Brasília Cristovam Buarque.


O primeiro, depois de ir ao Planalto na quinta-feira, deu uma entrevista no domingo a Ilimar Franco conclamando o PT a encarar "seus horrores de frente" e a punir os que erraram. "Não dá para aceitar que ninguém tenha sido punido ainda." Do presidente cobrou, mais do que fala, atitudes, propondo que em nome da estabilidade institucional ele considere "abrir mão de sua candidatura à reeleição".

Buarque, por sua vez, considera que Lula só conseguirá recompor uma base de apoio se abrir mão da reeleição. "Não é hora de fazer política, é hora de fazer história", disse à CBN. Sua proposta, que segundo ele foi apresentada a Lula há dois meses, consiste num projeto de lei que poria fim à reeleição não só do atual presidente, como dos próximos. Em troca, o Congresso aprovaria um conjunto de leis importantes para os últimos dezesseis meses de mandato.

Assim, livre das pressões e dos compromissos da campanha eleitoral, Lula poderia terminar o governo tentando se redimir dos erros — talvez de pé e cabeça erguida, não de joelhos, humilhado, como quer a oposição se ele insistir em se manter candidato. Propor a quem está no poder desistir de continuar pode parecer ingenuidade, pelo menos numa visão estreita e imediatista.

No entanto, este seria não apenas um gesto de desprendimento e grandeza moral digno de um estadista, mas também de sabedoria política. Provavelmente, Lula seria perdoado dos seus pecados (os brasileiros adoram um ato de contrição) e salvaria sua biografia, deixando abertas as portas para a volta em 2010, quando teria ainda 65 anos. Em lugar do desgaste e da desmoralização, em vez da ameaça permanente de impeachment, o presidente evitaria a maldição do segundo mandato e ganharia a possibilidade de entrar para a História sem precisar deixar a vida, só o poder. E o apego a ele, evidentemente.

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