O GLOBO
Quando o ex-presidente Fernando Henrique concluiu seu mandato conquistado democraticamente e passou a faixa ao presidente Lula, eleito também democraticamente, parecia ser o começo do resto de nossas vidas. A maioria dos brasileiros nunca tinha visto o que viram naquele dia de esperança e orgulho. A última vez que um presidente eleito tinha cumprido seu mandato e passado a faixa ao sucessor eleito fora no ano de 1961 e, naquela época, nada dera certo: Jânio Quadros, sete meses depois, renunciou à faixa que recebeu de Juscelino.
Nem no pior dos pesadelos, os brasileiros imaginavam que a horrorosa palavra impeachment — que ainda preferimos deixar assim, como ela veio, estrangeira — fosse de novo freqüentar as páginas dos jornais, as análises dos especialistas, os discursos da oposição.
A melhor saída para a crise é o governo Lula se resgatar de alguma forma; milagrosa. Nada nos últimos dois meses indica que ele tenha estrategistas que consigam se adiantar aos acontecimentos. O governo tem sido empurrado pelos fatos, entre claudicante e abúlico, esboçando reações tardias, contraditórias e insuficientes.
Se algum processo de impeachment levar ao fim antecipado do governo Lula, pode vir a atingir também o vice-presidente, já que o crime que está sendo investigado é eleitoral. Isso nos levaria a um pesadelo ainda pior que é um governo Severino, igual em tudo na vida a uma cambaleante e sob suspeição Câmara dos Deputados. Como isso não seria aceitável, imaginemos o quarto da linha constitucional de poder, o presidente do Senado, Renan Calheiros, homem que esteve na gênese do governo Collor de Mello. O quinto dessa linha estabelecida pela Constituição brasileira seria o único com alguma chance de pacificar o país, convocando eleições: o presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim.
Nada é trivial na atual crise brasileira. Um hipotético impeachment do presidente Lula faria do Brasil o país que, em 20 anos de democracia, teria enfrentado duas vezes, no espaço de 14 anos, esse trauma terminal. A cicatriz deixada faria de nós um país parecido com a caricatura dos governos cambiantes da América Latina dos anos 60-70.
Isso não significa parar a investigação por medo do que se vai encontrar no fim. Até agora, a CPI já apurou muito, mas o principal ainda não se sabe, de acordo com o resumo da deputada Denise Frossard: "falta saber de onde veio o dinheiro". Tudo precisa ser investigado e é preciso ir até o fim com o processo de depuração iniciado, mas é inevitável reconhecer que essa crise não tem saída fácil. Semana passada, um integrante do governo Lula me perguntou, como quem duvida, se eu achava que essa crise é, de fato, a pior dos últimos tempos.
Não tenho dúvidas de que é a pior dos últimos 20 anos. O ex-presidente Collor era um aventureiro que desembarcou em Brasília com um grupo de amigos oportunistas, um partido inventado e um programa econômico ensandecido. O presidente Lula levou 25 anos construindo um partido que o levasse até o Planalto. Quando Collor afundou, parecia estar se confirmando o que muitos previram. A agonia do governo Lula surpreende, espanta e machuca. Quando ficou claro que o governo Collor estava condenado, um grupo de ministros, suficientemente distantes do presidente por não terem partilhado sua história, formou um núcleo de governabilidade. Lá estavam Marcílio Marques Moreira, Célio Borja e Celso Lafer. Hoje, se fosse necessário, quem executaria esse papel? O ministro Antonio Palocci mantém credibilidade, tem conseguido se manter distante — a golpes de banho frio, como ele disse — da confusão política. Mas não tem distanciamento algum do núcleo do poder; sempre foi parte dele. No colapso de Collor, partes fundamentais do sistema político, partidos como PT, PSDB e PMDB, estavam preservadas por terem estado, com maior ou menor convicção, na oposição à patética república da Casa da Dinda.
Isso não torna a crise atual insolúvel. Nenhuma crise o é. O que se discute é qual saída representa um trauma menor. Se ainda é dado sonhar, pode-se querer que o governo encontre seu rumo, nessa vigésima quinta hora, e que o PT consiga fazer sua depuração profunda. Mesmo na hipótese de cassação do registro do PT por uso de recursos em moeda estrangeira e práticas ilegais de financiamento, o que se perderá é uma legenda. As pessoas atrás da legenda continuarão existindo, as idéias que inspiraram a legenda permanecerão tendo defensores, o país continuará perseguindo a evolução institucional, como fez nos últimos 20 anos.
O que está sendo desmontado na frente do país é o que se passava nas entranhas do poder; é o "insustentável preço da vitória" de que falou o deputado Paulo Delgado; é o mau comportamento de alguns dirigentes partidários; é o sentimento de impunidade que dominou certos elementos. A República está intacta, a democracia preservada, a economia tem suportado os golpes graças aos acertos de sucessivos governos na busca incansável de uma moeda estável. No início desta crise, escrevi aqui que esta era uma hora grave e dolorosa. Tem sido mais grave e mais dolorosa do que se imaginava no começo. Mas ela terminará um dia. É preciso não perder o rumo do que queremos preservar: a democracia.
Entrevista:O Estado inteligente
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