O GLOBO
A União Nacional dos Estudantes tenta hoje uma missão de chance duvidosa: uma indignação a favor. A UNE não faz eleições diretas, nem reflete o pensamento dos estudantes. Tem estado desde 70 sob o controle do PCdoB, eternizado por um processo de escolha com nenhuma transparência. A passeata da UNE, da CUT e do MST não tem nada a ver com os movimentos que sacudiram outros momentos da história do país.
A CUT sempre foi um braço do PT, por isso não é estranho que esteja hoje nas ruas a favor do governo. O MST também. O problema é a UNE.
Ela tem óbvia falha de representatividade. Nos anos 70, não podia ter líderes escolhidos de forma democrática, porque estava na clandestinidade. Mas, de lá para cá, o PCdoB sempre esteve no comando, às vezes junto com o PT em chapas feitas no conchavo.
Para piorar, a UNE vive hoje de verbas públicas.
— É claro que o acesso a um governo mais democrático potencializa uma série de repasses. Mas isso não atrapalhou nas críticas, mantivemos as críticas na área econômica — disse o tesoureiro da UNE, Rovilson Portela.
Na verdade, o governo anterior era tão democrático quanto o atual. Ambos foram eleitos em processos limpos e livres. Só que agora há uma contradição: eles apóiam este governo "mais democrático", do qual recebem mais dinheiro, mas terão que ir para as ruas contra desvios que ocorreram no governo que defendem. Tentarão condenar o mensalão e apoiar o governo no qual o mensalão ocorreu.
A UNE teve três eleições diretas na sua vida recente. A última, em 87, foi impugnada. A União dos Estudantes concluiu, assim, segundo conta Márcio Cabral, membro da executiva, que eleição direta produz "uma dificuldade de representatividade".
A diretoria da UNE é escolhida em voto indireto por delegados enviados pelas unidades de ensino de terceiro grau em todo o país. Há pouca transparência e muita técnica de manutenção de poder na escolha desses delegados. Isso é o que faz com que os quatro milhões de universitários do país, 70% de escolas privadas, sejam representados, há mais de 30 anos, por militantes do mesmo partido.
Só seria natural se a maioria dos estudantes brasileiros fosse militante ou simpatizante do PCdoB. A entidade recebeu este ano R$ 1,1 milhão de recursos públicos para supostamente representar os estudantes.
O problema com uma UNE governada pelo mesmo partido há mais de três décadas é que ela acaba produzindo poucos líderes políticos.
Movimento estudantil sempre foi o caminho pelo qual afloram as vocações políticas. Nos últimos anos, o Brasil viu surgir Lindberg Farias e Fernando Gusmão. Bons quadros. Mas seria mais útil ao país e mais verdadeiro se fosse um processo de disputa de poder com transparência, participação dos estudantes e alternância do poder.
O movimento estudantil dos anos 50, 60 permitiu o aparecimento de políticos importantes da esquerda, do centro e até da direita. O livro "O poder jovem", de Arthur Jose Poerner, mostra bem essa efervescência na qual se formaram quadros importantes para o país. Ulysses Guimarães e José Serra, em épocas diferentes, passaram pelo movimento estudantil. Os anos que se seguiram à ditadura viram surgir do movimento estudantil uma geração de políticos que marcam até hoje a história do Brasil.
A UNE, que hoje vai as ruas tentando se equilibrar entre o governismo e a natural indignação dos jovens, não é sombra do que foi.
A entidade diz que recebia recursos também no governo Fernando Henrique. Os dados do Siafi mostram seis anos sem repasse algum e, por fim, um repasse de R$ 1 milhão em 2002, mas a maior parte liberada no dia 31 de dezembro, último dia do governo. No governo Lula, o dinheiro vem todos os anos.
— A UNE está recebendo muito dinheiro numa parceria com o governo. Isso faz com que a entidade perca a autonomia. Nossa luta é para que o dinheiro venha dos estudantes, não de reitorias, prefeituras, estados. Antes a entidade era combativa, contra Collor, Itamar, Fernando Henrique; estava sempre na ofensiva contra a corrupção — disse Michel Oliveira, estudante da UFPA, militante do P-SOL e da oposição na UNE.
— A UNE hoje é uma entidade governista. A agenda da UNE não é dos estudantes, é do governo — diz José Erinaldo Júnior, do PSTU, um dos fundadores da dissidente Conlute.
Michel Oliveira acha que a marcha de hoje é uma traição aos caras-pintadas.
Protesto a favor, quando o país está indignado como está, não tem nada a ver com movimento estudantil.
TER leitor bem informado é tudo na vida de uma coluna. Vários ajudaram a repor a verdade constitucional. Em caso de impedimento de presidente e vice-presidente, a linha sucessória é, de fato, o presidente da Câmara dos Deputados, do Senado e do STF, como eu disse aqui. Porém, quem assume convoca eleições em 90 dias. Se o cargo ficar vago nos últimos dois anos de mandato, quem assumir terá que fazer eleição em 30 dias.
Entrevista:O Estado inteligente
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