O GLOBO
Para os estudiosos de pesquisas de opinião pública, só havia uma possibilidade de o presidente Lula perder a reeleição em 2006: se passasse a imagem de que teria mudado de lado, identificado com a elite econômica, ou se se envolvesse diretamente em escândalos de corrupção. Talvez por isso, nos primeiros momentos da crise política em que o país se debate há três meses, o Palácio do Planalto tenha tirado do bolso do colete a tese insustentável da conspiração das elites, para Lula afastar-se das acusações de que seu governo favorece os banqueiros com a política de juros altíssimos. Talvez por isso, também, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso venha insistindo na tese de que "Lula virou a casaca".
As pesquisas de opinião já estão mostrando que as duas "pragas", afinal, pegaram em Lula, que até aqui parecia estar "blindado" das acusações de corrupção que atingem todo o seu entorno político, já tiraram de seu governo mais de 50 altos dirigentes, entre ministros e diretores de estatais, e transformaram o PT, seu maior sustentáculo político, em um partido identificado com a corrupção que tanto combatia.
Uma pesquisa feita por telefone pelo Ibope, de segunda a quarta-feira, em nível nacional, mostra que Lula já perde num hipotético segundo turno para os três mais fortes candidatos tucanos — o prefeito José Serra, o governador Geraldo Alckmin e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso — e já está ameaçado até mesmo pelo ex-governador Garotinho, que reduziu dramaticamente a diferença para Lula num segundo turno.
A amostra por telefone é um pouco mais rica, na definição de Carlos Augusto Montenegro, diretor do Ibope. Ele diz que, às vezes, o telefone antecipa o que vai acontecer mais adiante. Para confirmar essa tendência, ele já está fazendo uma pesquisa de campo face a face, que termina hoje, e já começará uma outra, que termina na próxima segunda-feira. Montenegro não revela, mas em Brasília tem-se como certo que as pesquisas foram encomendadas por partidos políticos, entre eles o PMDB.
No primeiro turno, Lula ainda ganha de seus adversários, mas a diferença se aproxima da margem de erro, a não ser com Garotinho, onde a distância ainda é grande, mas mesmo assim Lula não vence no primeiro turno. O fato é que as pesquisas mostram que Lula está voltando ao patamar histórico de 28%, 30%, que foi sempre o seu nível nas campanhas em que foi derrotado.
No segundo turno, Lula perde com diferença bastante acentuada para Serra, e perde também, embora mais apertado, para Fernando Henrique e Alckmin. Essa seria uma péssima notícia para o prefeito paulistano José Serra, que tinha como trunfo o fato de ser o único tucano que venceria Lula no segundo turno. Mas ele tem ainda um argumento: a ameaça representada por uma eventual candidatura do ex-governador do Rio Anthony Garotinho.
A derrocada da popularidade do presidente Lula é tão grande que o índice de "ótimo e bom" da pesquisa face a face já está menor do que o "ruim e péssimo". E o índice de pessoas que desaprova o governo Lula já está maior do que o que aprova. Esse declínio é tão acentuado, e a possibilidade de mais fatos acontecerem até o fim das CPIs previsto para novembro tão verdadeira, que o Ibope já está trabalhando com a alternativa de Lula não se candidatar, ou não chegar ao segundo turno se insistir na reeleição.
Nesse caso, as simulações preliminares indicam que Garotinho iria para um segundo turno contra os candidatos tucanos, e venceria uma disputa com Geraldo Alckmin, do PSDB. Mas perderia para José Serra. As análises dos assessores de Garotinho com o cruzamento de dados de pesquisas anteriores indicavam que ele vence Alckmin com certa facilidade em todas as regiões do país, especialmente no Norte e Nordeste, mas perderia no cômputo final para o governador paulista devido à força eleitoral de Alckmin no Estado de São Paulo.
Por isso, a estratégia de Garotinho agora é passar alguns dias na semana viajando por São Paulo, e se aproximar do líder do PMDB paulista, o ex-governador Orestes Quércia, que se mantém uma incógnita nessa disputa, e será fundamental para o sucesso de uma candidatura do PMDB, seja ela qual for. O ex-governador Anthony Garotinho sofre da mesma síndrome de Brizola: não entra em São Paulo. Teve apenas cerca de 13% dos votos na capital paulista nas últimas eleições, e tem pouca penetração no estado, que abriga 25% do eleitorado brasileiro.
Essa nova pesquisa Ibope feita por telefone, que indica uma tendência de vitória de Garotinho sobre Alckmin num hipotético segundo turno da eleição de 2006, ainda precisa ser confirmada pela pesquisa face a face que será divulgada no início da próxima semana. Mas, se confirmada, representará uma mudança nas expectativas eleitorais e terá certamente influência na decisão do diretório nacional do PMDB que se reunirá nos próximos dias para aprovar um calendário para possíveis prévias a serem realizadas em março do próximo ano para a escolha dos candidatos.
Pelo cronograma previamente aprovado pelos governadores — o que foi visto como uma vitória preliminar de Garotinho — os candidatos deverão se inscrever até dezembro deste ano. Já há um movimento dentro do diretório nacional, porém, para que esses prazos não sejam aprovados, pois determinariam, por exemplo, a exclusão prévia de um nome de peso como o do presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Nelson Jobim, que não poderia se inscrever, pois só deixará o STF em abril de 2006.
A derrocada de Lula parece ser tão irreversível que não é exagero imaginar que dentro de um mês já não será nenhum grande trunfo vencê-lo, mesmo no primeiro turno. O que valerá, então, será a capacidade de cada candidato diante das outras alternativas, o que colocará no tabuleiro novas candidaturas, inclusive no PMDB.
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