A simples leitura dos jornais oferece um quadro assustador do cinismo delinqüente que marca o comportamento dos que estão do lado de lá. Eles são claros. Não se preocupam em apagar as impressões digitais. Tudo é feito às escâncaras. Esbofeteia-se a verdade numa escala sem precedentes. Vejamos, ao acaso, alguns registros da crônica política (ou policial) deste lusco-fusco da cidadania.
O presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Tarso Genro, num discurso indignado e moralizante, prometera promover a 'refundação' do partido. Pois bem, em recente reunião do Diretório Nacional da agremiação, o Campo Majoritário, sob a batuta efetiva do investigado José Dirceu, aprovou um documento suave nas autocríticas, mas contundente no ataque 'às estratégias oportunistas da direita' para 'abreviar o mandato popular, legal e legítimo, do presidente Lula'.
Ao mesmo tempo, foi sepultada a anunciada intenção de Tarso Genro de levar o partido a negar legenda para as próximas eleições aos seus parlamentares que renunciassem aos mandatos, como seria o caso do comandante Dirceu e do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, a fim de não serem cassados, conservando assim o direito de pleitear um novo mandato no ano que vem. Quer dizer, o crime compensa. Até Delúbio Soares, bode expiatório do partido, tirou uma casquinha. O PT aceitou os termos da carta em que seu ex-tesoureiro pediu afastamento por tempo indeterminado da agremiação, não sem antes deixar de mencionar seu 'compromisso com o povo brasileiro' e concluir com 'saudações petistas'. Como disse o jornalista Clóvis Rossi, a resolução do PT e a carta de Delúbio 'são uma impostura e um escárnio'.
Enquanto isso, o presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, após encontro reservado com o presidente da República, tentou adiar a abertura do processo de cassação do deputado José Dirceu. Pressionado, acabou reconsiderando. Agora, José Dirceu está na fila dos que poderão perder o mandato. De fato, o ex-ministro da Casa Civil está lutando em várias frentes. Recentemente, uma liminar da Justiça suspendeu a audiência na 8ª Vara Cível de Santo André em que estariam frente a frente Dirceu e João Francisco, irmão do prefeito assassinado Celso Daniel. Em 2002, Francisco acusou Dirceu de envolvimento no esquema de propina que estaria relacionado ao assassinato do prefeito. Por ter mandato parlamentar, Dirceu tem a prerrogativa de indicar o local e a data para ser ouvido. Agarrou-se ao privilégio. É importante que a imprensa não abandone essa pauta. Há fortes indícios de que as primeiras experiências para o lançamento do mensalão foram testadas nos laboratórios petistas de Santo André.
Em carta enviada à presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Lula reassumiu o papel de paladino da luta contra a corrupção. 'Todos os erros e desvios' devem ser 'apurados e punidos, doa a quem doer', afirmou. Curiosamente, o presidente da República não se sente obrigado a explicar o empréstimo que recebeu do PT e considera natural que as agremiações partidárias operem com caixa 2. Aparentemente, não se dá conta de que é o responsável direto pelo descalabro. Na verdade, Lula segue uma estratégia consciente.
Sabe que se assumir as suas responsabilidades, como governante e ícone petista, o escândalo cairá no seu colo. Por isso, assume uma postura autista, não desce do palanque populista e, conseqüentemente, não governa. O presidente, caro leitor, não é um iniciante. Além disso, está sendo orientado por um tarimbado criminalista. Lula sabe o que faz. Tonto não é. O jogo de faz-de-conta, no entanto, acabou. O depoimento de Duda Mendonça, talvez a primeira aragem de verdade que varreu o Congresso Nacional, e a entrevista de Valdemar Costa Neto à revista Época explodiram como uma bomba no Palácio do Planalto. O presidente da República está, queira ou não, no epicentro do terremoto. Seu discurso à Nação, fraco e inconsistente, não resolveu nada. Um pedido genérico de desculpas só agrava a percepção da culpabilidade presidencial. O pagamento feito a Duda Mendonça no exterior derruba a versão do empréstimo. E as afirmações de Valdemar Costa Neto reforçam o feeling da sociedade: 'O Lula, o José Dirceu e o Delúbio faziam parte da mesma família', afirmou o ex-presidente do PL. Qual a origem da dinheirama? Esta é a pergunta que está sem resposta. A deputada Denise Frossard, especialista em casos de criminalidade intrincada, não descarta a hipótese Hugo Chávez. É uma boa pauta.
A dimensão do crime já começa a minar os alicerces das instituições. Por isso, é preciso aplicar a terapêutica prevista na nossa estrutura democrática. O presidente da República precisa dizer a verdade. Caso contrário, o processo de impeachment será inevitável. A situação é gravíssima, mas, ao mesmo tempo, purificadora.
Graças ao papel histórico da imprensa e à legítima pressão da sociedade, o Brasil não será o mesmo. Impõe-se, para isso, que a sociedade, sobretudo a juventude, se vista de verde-eamarelo e, saindo às ruas e praças deste Brasil democrático, dê um basta às tentativas, claras e despudoradas, de inauguração da maior pizzaria da nossa História. E, ao mesmo tempo, exija mudanças legais profundas que sejam capazes de expurgar a corrupção institucional que tanto nos envergonha.
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