Entrevista:O Estado inteligente

sábado, agosto 13, 2005

Lucia Hippolito : A fala do trono

ESTADO DE S PAULO

O presidente da República falou. Depois de dois meses de crise e depois das revelações de envolvimento do PT na corrupção. Depois de ver seu ministro mais poderoso cada vez mais enredado em toda sorte de denúncias, depois de ver seu governo atolado na lama e sua biografia comprometida, o presidente falou.

E fez um discurso pífio. Aguado, frustrante, insuficiente.

Para começar, houve o equívoco do destinatário. O presidente Lula não se dirigiu ao povo brasileiro, mas ao seu ministério, permitindo que a Nação assistisse, como se espiasse uma conversa alheia pelo buraco da fechadura.

O presidente enfileirou números positivos, exaltou feitos de seu governo, conclamou os ministros a trabalhar ainda mais, para que seu governo seja ainda melhor.

No meio do discurso, como que de contrabando, Lula permitiu-se algumas rápidas referências à crise política. E aí frustrou a todos. Declarou-se traído (por quem, mesmo?), indignado (tão ou mais que todos os brasileiros) e concluiu que "nós devemos pedir desculpas" (nós quem, cara-pálida?) e especificou: "O PT deve pedir desculpas", "o governo deve pedir desculpas". Ou seja, nada a ver com ele.

Em nenhum momento Lula assumiu qualquer responsabilidade por ter delegado atribuições demais e poderes demais a José Dirceu, Delúbio Soares e Silvio Pereira ou por ter sido omisso desde que assumiu o governo - no mínimo.

Afirmações vagas sobre apurações rigorosas, promessa de punições do tipo doa-a-quem-doer. E foi só.

É muito pouco, presidente. É dolorosamente pouco para a gravidade da crise, para a profundidade do envolvimento de seu partido e de seu governo e para as expectativas geradas pela demora de dois meses em se dirigir à sociedade brasileira e pelo atraso de três horas do raquítico discurso de ontem.

Como resposta às sérias acusações que pesam sobre sua candidatura, seu partido, seus companheiros e seu governo, sua Excelência continua devendo ao povo brasileiro explicações minimamente convincentes.


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