Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, agosto 10, 2005

Editorial de O Globo Ameaça visível




Ainvestigação do esquema de financiamento de políticos com dinheiro ilegal enfrenta dificuldades desde o início, no pedido de instalação da CPI dos Correios. Os primeiros obstáculos, por óbvio, foram criados diretamente pelo governo, com pressões para que parlamentares não aderissem à proposta de criação da comissão; e, depois, por meio da idéia da ampliação das investigações, para abranger o governo passado e com isso tentar embaralhar os trabalhos de apuração das denúncias pela CPI.

As entrevistas, os depoimentos do dissidente petebista Roberto Jefferson e a confirmação, com provas, do esquema do propinoduto que o ex-deputado aliado havia denunciado tornaram infrutíferas aquelas manobras.

O mensalão de fato existia, malas recheadas de dinheiro transitavam no eixo Belo Horizonte-Brasília e milhões haviam sido embolsados por deputados da base aliada — petistas não seriam esquecidos — não por coincidência em fases de votações importantes no Congresso e no limite do prazo para a mudança de partidos. Há todas as evidências de troca de apoio parlamentar por cifrões.

A CPI dos Correios, como se esperava, vai além de casos de corrupção na estatal, e tem funcionado. Agora, promete avançar nas descobertas com o cruzamento das informações de incontáveis documentos que tem recebido. A nova ameaça visível contra o trabalho de desvendar esse esquema de traficância de dinheiro e influência em Brasília, montado pela cúpula petista e Marcos Valério, vem do presidente da Câmara, deputado Severino Cavalcanti, do PP, partido irrigado generosamente pelas malas desse propinoduto.

O primeiro sinal de alerta veio com a decisão de Severino de não despachar para a Comissão de Ética alguns pedidos de cassação, entre eles o do ex-ministro e deputado José Dirceu, do PT. Ontem, porém, o presidente da Câmara voltou atrás e mandou tramitar os processos, remetendo-os à Comissão de Ética. Se não o fizesse, daria mais tempo para José Dirceu renunciar sem perder os direitos políticos

É hora de Severino Cavalcanti se colocar à altura do momento por que passa o Congresso, em que não há espaço para jogadas de bastidores, no pior figurino do baixo clero.

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