O ESTADO DE S PAULO O diagnóstico da crise feito ontem pelo ex-presidente da República José Sarney levou à tribuna do Senado um homem inteiramente diferente daquele que há pouco mais de um ano, da presidência da Casa, patrocinou o enterro prematuro da CPI que investigaria a participação do braço direito de José Dirceu, Waldomiro Diniz, em atos de corrupção no governo. O discurso por si só dispensou a autocrítica explícita e redimiu seu autor de omissões e atuações recentes, todas a serviço da "decomposição do sistema político" à qual se referiu ontem. Sarney falou como estadista, fez o que Lula não pôde, não soube, não sabe nem pode fazer. Com a precisão dos experientes, José Sarney tocou no ponto: a crise em curso não é de leis; diz respeito aos homens - no sentido universal do gênero -, seus valores éticos, suas condutas. Será mais que um erro, um desperdício, resumir o pronunciamento de Sarney a uma defesa do mandato do presidente Luiz Inácio da Silva. De fato, ele fez um apelo ao bom senso, alertou para que a crise não sirva de pretexto para brigas de poder. Mas de forma alguma se pode dizer que José Sarney tenha subido à tribuna para "defender" Lula no sentido moralmente liliputiano emprestado ao verbo por alguns atores do espetáculo em cartaz. Ao contrário, havia crítica em suas referências à "política de multidões", à "divisão social" como formas de, junto com o terrorismo, se ferir a democracia. "Transferir ao povo o enfrentamento é nocivo ao País", afirmou, em alusão direta à tentativa do governo de intimidar ações contra ele por meio da propaganda superlativa a respeito de suas relações com as massas populares. Contrariando seu estilo, Sarney não tergiversou. Começou logo referindo-se à gravidade da crise e disse com todos os efes e erres não ter dúvida sobre a existência de um "monstruoso" fato: "A compra de votos dentro do Congresso de fato existiu." Em matéria de demolição política, muito mais devastador do que qualquer depoimento até agora na CPI. Sarney falou com autoridade de aliado e, nessa condição, ressaltou a importância de Lula no cenário político, como "símbolo do avanço institucional do País". Fez papel de homem de Estado também ao apelar à reação contra a desesperança e à desmoralização do Parlamento - "a democracia não pode pagar o preço dos corruptos" - e não ficou só na constatação da tragédia. Apontou as reformas necessárias ao melhor funcionamento do sistema político e convocou instituições e sociedade a não desanimarem diante da tarefa de apurar, expurgar e corrigir. Ontem, José Sarney mostrou a face do condutor da transição democrática numa situação absolutamente dramática e adversa, de 1985 a 1990, goste-se ou não de seu passado. Mostrou também como cresce o homem quando deixa de lado circunstâncias relativas à ocupação de espaços de poder, conferindo nessas ocasiões ao Estado a dimensão da província, e faz as pazes com sua independência moral. Sem ouvir, sem falar O presidente da República não considera útil, pelo menos por hora, fazer novo pronunciamento a respeito da crise, tampouco vê necessidade da convocação do Conselho da República conforme lhe sugeriram o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil e o próprio presidente interino do PT. Luiz Inácio da Silva está, assim, sem querer ouvir nem poder falar. A prerrogativa de fazer improvisos aleatórios dizendo só as coisas que lhe passam pela cabeça, sem se preocupar com seus efeitos, Lula perdeu com o agravamento da crise e a repercussão altamente negativa de seu último pronunciamento. Se falar de novo, e escorregar, cai. Voz do dono A oposição não teve um de seus melhores momentos ao passar uma rasteira no governo e aprovar salário mínimo de R$ 384 no Senado. Mas o Palácio do Planalto tampouco fez bonito ao se descuidar de seus interesses no Poder Legislativo. Enquanto o governo levava aquela surra no Senado, o presidente Lula corria o estado do Tocantins fazendo comícios em busca de apoio político no "povo" cujo salário estava em jogo naquele instante. Começo, meio e fim Em 1992, o calvário do então presidente Fernando Collor começou exatamente no ponto onde, hoje, estão concentradas as investigações: nas empresas de fachada abertas no exterior para receber recursos de origem ilegal. As primeiras denúncias de Pedro Collor foram sobre as offshores de Paulo César Farias em Miami. Auto-explicativo Um partido que tem um tesoureiro "informal", convenhamos, dispensa apresentações no tocante a assuntos de caixa 2.
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quarta-feira, agosto 17, 2005
DORA KRAMER A fala que Lula não fez
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