BRASÍLIA - Ontem foi um dia de vitórias do governo na CPI dos Correios. A bancada governista conseguiu evitar a convocação do presidente do Sebrae, Paulo Okamotto, do ex-secretário de Comunicação Estratégica Luiz Gushiken e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles. Okamotto teria pago um suposto empréstimo de R$ 29 mil do PT para o presidente Lula.
Os integrantes da CPI descartaram também nova audiência com o doleiro Toninho da Barcelona, preso em São Paulo e condenado a 25 anos de prisão por lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Em depoimento a integrantes da CPI, em São Paulo, Toninho afirmou ter participado de operações de remessas de dinheiro para o exterior, feito por petistas e outras autoridades. Não apresentou, contudo, provas. A oposição queria ouvi-lo novamente em sessão pública. Foi derrotada.
Na discussão, os governistas tentaram descredenciar o depoimento que Toninho.
- É o primeiro doleiro que vejo que tem especialização partidária - disse o deputado Henrique Fontana (PT-RS).
A senadora Heloísa Helena (PSOL-AL) ironizou:
- Pelo amor de Deus ou de Karl Marx! Que se ache um doleiro que trabalhou para o PSDB. Ninguém agüenta mais isso!
O deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) acusou o governo de montar uma operação abafa.
- Abafa não. Queremos evitar a molecagem de tentar, a qualquer preço, incluir o presidente nesta história - protestou Jorge Bittar (PT-RJ).
Outra vitória importante do governo foi o envio de 40 requerimentos para a CPI do Mensalão, incluindo a convocação de Daniel Dantas, do grupo Opportunity, e outros nomes ligados ao escândalo.
Apesar da operação governista, foi aprovado em bloco, por consenso e em votação simbólica, um pedido que atinge o presidente Lula. Foi solicitada cópia da ata da reunião do conselho diretor da Telemar na qual foi aprovada a compra de ações da empresa Gamecorp. A empresa pertence a Fábio Luiz, filho de Lula, e há suspeita de tráfico de influência.
Toda confusão começou quando os deputados Antonio Carlos Magalhães Neto e Onyx Lorenzoni (PFL-RS) pediram preferência para votar a convocação e quebra de sigilo bancário de Okamotto. Os pefelistas argumentaram ser necessário comprovar a operação e o registro nas declarações de Imposto de Renda, sob risco de o presidente ter cometido crime fiscal. A estratégia dos dois era ''expor a operação-abafa'' do governo. Petistas gritavam ''moleques''.
O governo, que tem a maioria dos integrantes na CPI, ganhou com margens apertadas, contando até com o voto do relator, deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), que foi criticado.
De última hora, a senadora Ideli Salvatti (PT-SC) conseguiu tirar da lista pedido que investigaria supostas viagens do filho de Lula ao Japão antes de fechar negócio com a Telemar.
BRASÍLIA - O requerimento que transfere para a CPI do Mensalão a atribuição de convocar o banqueiro Daniel Dantas foi apresentado pelo deputado Carlos Abicalil (PT-MT). Dantas é acusado de ser um dos financiadores do esquema de corrupção comandado por Marcos Valério, por intermédio de três de suas empresas: a Brasil Telecom, a Telemig Celular e a Amazônia Celular. As três repassaram para as contas das agências DNA e SMPB aproximadamente R$ 145 milhões. Só a Telemig repassou R$ 90 milhões.
- As empresas de Dantas, ao lado da Visanet, estão entre as principais financiadoras privadas das contas de Valério - afirmou a senadora Ideli Salvatti (PT-SC).
A oposição acusou o PT de ter medo de ouvir Dantas na CPI dos Correios, transferindo o depoimento para a ''CPI do Abafão''. Os governistas defenderam-se, alegando que, se for necessário, os parlamentares poderão apresentar outro requerimento convocando Dantas para depor.
- A nossa CPI dos Correios fará o cruzamento dos dados e das movimentações bancárias de Valério e Daniel Dantas. Se aparecer de fato a digital dele, o que é bastante provável, será inevitável que nós o convoquemos para depor - admitiu um petista.
Outros depoimentos estão previstos pela Comissão que investiga o mensalão. Entre elas estão os deputados José Mentor (PT-SP), o ex-chefe de gabinete da liderança do PP, João Cláudio Carvalho Genu, e Silvana Japiassú, secretária do ex-presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP).
A oposição não abriu mão de ouvir os depoimentos de José Genoino, do ex-assessor da Casa Civil Marcelo Sereno, do dono da empresa Garanhuns, José Carlos Batista e do ex-diretor do Departamento Nacional de Infra-estrutura Terrestre (DNIT) Sérgio Pimentel.
BRASÍLIA - Dizendo-se ''usado'', o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil Henrique Pizzolato afirmou ontem à CPI dos Correios que não sabia que os pacotes que mandou buscar no Banco Rural para o PT, a pedido de Marcos Valério de Souza, continham dinheiro. Nos envelopes havia R$ 326 mil. Ele não convenceu os integrantes da CPI. Pizzolato voltou a insinuar que o então ministro Luiz Gushiken (Secom) interferia nas decisões de investimento da Previ, o fundo de pensão do BB. Parlamentares suspeitam que fundos de previdência sejam uma das origens dos recursos para o caixa dois do PT. Gushiken nega qualquer ingerência.
O ex-diretor apareceu na atual crise quando o auxiliar da Previ Luiz Eduardo da Silva surgiu na lista de sacadores das contas de Marcos Valério. Ele disse que entregou o dinheiro para Pizzolato. Segundo o ex-diretor do banco, ele recebeu um telefonema em janeiro de 2004 de uma funcionária da DNA, agência de Marcos Valério que tem contrato com o BB, pedindo que ele buscasse ''documentos'' no Rio, onde mora.
Pizzolato disse que não conhece a pessoa do partido que pegou os dois pacotes em sua casa. A versão de Pizzolato tem contradições com o depoimento do auxiliar à PF. O ex-diretor afirmou que não sabia que o endereço dado pela funcionária da DNA era do Banco Rural. Luiz Eduardo disse que Pizzolato pediu, ao telefone, que ele fosse à agência e deu o nome da pessoa que deveria procurar.
Ex-presidente do Conselho Deliberativo da Previ, Pizzolato afirmou que o presidente do fundo, Sérgio Rosa, era influenciado por Gushiken.
- Ele disse que estava sofrendo muita pressão política e não sabia se ia suportar. Ele foi muito lacônico - disse Pizzolato.
A declaração teria sido dada quando o então presidente do conselho cobrou explicações de Rosa sobre a opção da Previ de manter representantes na Brasil Telecom e não na Telemar. A decisão contrariava estudo feito por técnicos do fundo segundo o qual os ativos da Telemar valiam mais. Segundo Pizzolato, foi convocada uma reunião do conselho em Brasília com Rosa, mas o encontro teve de ser remarcado porque ele estava reunido com Gushiken.
- O presidente da Previ pediu para que aguardássemos porque estava com Gushiken e iria ao ministro Antonio Palocci - afirmou, acrescentando que eram comuns reuniões não-oficiais'' entre Gushiken e Rosa.
Apesar de ter integrado o comitê financeiro da campanha de Lula, Pizzolato disse que não arrecadava recursos. Ele organizaria reuniões com empresários.
Pizzolato recebia R$ 39,5 mil; era um dos 27 diretores do BB
PRIMEIRA LEITURA
— No depoimento à CPI dos Correios, o ex-diretor de Marketing do BB Henrique Pizzolatto revelou que tinha uma renda mensal de R$ 39,5 mil. O ex-diretor acha pouco e diz, fazendo comparações com os bancos privados, que o salário total dele era motivo de piada no mercado. A cesta salarial de Pizzolato era composta assim: R$ 19 mil como diretor de Marketing do BB; R$ 4 mil como conselheiro da Previ; R$ 12,5 mil como conselheiro da Embraer; R$ 4 mil como conselheiro da Associação Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil. Pizzolato disse que o BB tem pelo menos 27 diretorias, todas com salário de R$ 19 mil. Disse, também, que foi escolhido para a o cargo pelo ex-presidente do banco Cássio Casseb. Indagado pelo senador César Borges (PFL-BA) se a escolha do nome dele não havia sido uma indicação política do PT, pelo fato de ter sido militante sindical bancário, Pizzolato respondeu: "Que eu saiba, não".
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