Já a responsabilidade está lá, devidamente explicada. O artigo 85, por sinal, diz que "são crimes de responsabilidade os atos do Presidente da República que atentem contra a Constituição Federal" e, em seguida, destaca sete princípios dela. Entre estes, dois merecem sua atenção: "II - o livre exercício do Poder Legislativo, do Poder Judiciário, do Ministério Público e dos Poderes constitucionais das unidades da Federação"; e "V - a probidade na administração".
Seu governo, pelo qual o sr. é o responsável-mor, tem atentado contra esses princípios em grau agudo. O ex-chefe da Casa Civil, seu antigo companheiro e homem-forte, conferiu a membros do PT o poder de emprestar, sem registro contábil, enormes quantias de dinheiro das empresas de Marcos Valério e repassá-las a parlamentares e partidos, ou seja, a representantes do povo, cujos salários e benefícios são pagos pelo povo. Não vou nem me deter no fato de que as datas dessas "doações" - que não foram transferidas para fornecedores das campanhas eleitorais, mas para contas pessoais dos políticos ou seus assessores - coincidem com votações importantes. O repasse desse dinheiro já constitui atentado contra o livre exercício do Poder Legislativo.
Sua administração, realizada pelas pessoas que o sr. indicou para os mais diversos cargos de ministérios e estatais, também está longe de ser proba. Fraudes foram identificadas em diversos órgãos. Altos funcionários do Palácio do Planalto, como Waldomiro Diniz, ou gente com livre trânsito por suas dependências, como Delúbio Soares, são acusados de tráfico de influência, caixa 2, cobrança de propinas e outros delitos sérios. Não interessa se quem desviou recursos das estatais era deste ou daquele partido - como o sr. mesmo diz, partido é partido e governo é governo, embora raras vezes o sr. não tenha expressado o contrário -, mas que esses desvios foram realizados em sua administração, a mando de pessoas que o sr. colocou ali.
O sr. sabia que Valério estava "cuidando" das finanças do partido que levou o sr. ao cargo máximo da nação. Nada fez. Sabia também que as agências desse sr. no mínimo dobravam de faturamento a cada ano graças aos contratos com diversas entidades dos três poderes, em processos de licitação no mínimo conduzidos. Nada fez. O sr., aliás, tem se omitido em todas as crises do seu governo. Um presidente responsável de país sério jamais permitiria que seu "superministro" continuasse no cargo depois de saber que ele não é nem sequer capaz de ter assessor de ficha limpa.
Perceba o sr. que, diferentemente da maioria, não estou esperando por uma grande revelação de seu envolvimento pessoal com alguma verba ilícita ou favorecimento imoral, o tal "batom na cueca". Até porque o sr. já deve explicações sobre empréstimos que tomou do PT e não foram pagos pelo sr. e sobre o fato de a firma de seu filho ter sido adquirida por valores acima do mercado por uma empresa financiada por fundos públicos. Batons e cuecas, de resto, não têm faltado.
O que estou dizendo é que o sr. não tem sido responsável. Que o sr. não está à altura do cargo que ocupa. E isso não porque seja de origem pobre e não tenha diploma universitário, mas porque atentou contra os princípios citados e, além disso, se comporta da maneira como vem se comportando a respeito de todas essas contravenções.
Como vê, continuamos a falar da sua ética. Não me parece ético, por exemplo, que um presidente da República finja que não existam tais provas, como se tudo fosse boataria da oposição e da mídia, e siga viajando e discursando como se fosse governar. Seu dever primeiro é ser transparente com a sociedade. Li que o sr. pretende fazer pronunciamento à nação pela TV na semana que vem. Não será suficiente. O sr. tem de esclarecer fatos e assumir sua participação, e não dizer que "nunca se combateu tanto a corrupção" e isentar a si mesmo por ter sido supostamente traído pelas pessoas com as quais convive há mais de 25 anos. Tem de dar entrevistas para a imprensa, permitindo o democrático exercício da contestação. E tem de parar de transferir culpas para os outros, antecipando campanha eleitoral na qual não terá respostas consistentes a dar.
O sr. conta com uma complacência que só países subdesenvolvidos oferecem a um mandatário. O que chama de "elites" - a classe que toma decisões no País - quer sua permanência, pois os bancos, a indústria exportadora e a maioria dos parlamentares e sindicalistas nunca se deram tão bem. A população das regiões mais pobres, não porque beneficiadas por sua política social, mas porque iludidas por seu discurso populista, de pobre-coitado-que-chegou-lá, por enquanto o "perdoam". Seus velhos companheiros de partido, incluindo intelectuais, estão mais revoltados com sua política econômica do que com a desmoralização completa da máquina pública. Outros preferem dar ênfase às picaretagens de Roberto Jefferson (que novidade!) e aos erros do governo anterior (que o sr. copia no que tinha de pior) do que à sua estratégia eleitoreira em 2002 e ao descalabro da sua gestão.
Mesmo assim, há um limite claro para seu escapismo. Protestos em setembro já estão sendo organizados para tirar o espaço que a mídia confere ao sr. quando fala a algumas centenas de tolos nesses palanques dos grotões. Não estou dizendo como o sr. deve se conduzir. Nem preciso lhe contar a infinidade de situações em que me recusei a dar propinas ou maquiar despesas; o sr. certamente sabe como é nosso país, ainda que pregue tanto patriotismo. Mas é para ajudar a mudar isso que foi eleito. Minha ética me exigiu lembrá-lo das leis e dos valores escritos desta sociedade que o sr. representa e, em minha livre opinião, dizer que o sr. não os respeitou nem respeita.
A ARTE DE DANÇAR
A nova coreografia do Grupo Corpo, Onqotô ("onde que estou?" em mineirês), com músicas de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, tem momentos excelentes. Caetano repete "É só isso", como se fosse cantar o verso de João Gilberto em Bim Bom ("É só isso meu baião/ E não tem mais nada não/ O meu coração pediu assim"), e as letras com influência concretista - exceto os versos de Gregório de Mattos e Camões - seguem falando no princípio e infinito do universo e na relação entre origens nacionais e coisas globais ("se tudo começou no big bang/ só tinha que acabar no big mac"), enquanto se escutam estilos como baião, modinha, samba e rap, arranjados com ênfase na vibração timbrística e percussiva (incluindo palmas), assim como os ótimos figurinos, luzes e cenários. As coreografias, que também investem na repetição requebrada, não avançam muito em relação a 21 ou Parabelo, a não ser em Tão Pequeno, dois pas-de-deux paralelos que enchem o palco de sugestões ternas e terrenas. Mas a criatividade dos Pederneiras está toda ali, única como é na dança brasileira.
UMA LÁGRIMA
Para Ibrahim Ferrer, morto aos 78 anos, o cantor e compositor cubano famoso pela interpretação de Perfume de Gardênia, de voz doce e forte como rum.
DE LA MUSIQUE
Acompanho com simpatia o trabalho de Los Hermanos, cada vez mais na fronteira entre MPB e pop, como outros de sua geração. O novo CD, 4, mostra que cada vez mais eles, principalmente Marcelo Camelo, acham uma forma-canção ousada. Evitam a rima, a métrica regular e o refrão, fazem "enjambement" (o verso que continua na outra linha), criam imagens marcantes que Chico Buarque assinaria ("como se a alegria recolhesse a mão/ pra não me alcançar"; ou "clareira no tempo/ cadeia das horas/ eu meço no vento/ o passo de agora"). Mas a melodia ainda insiste muitas vezes em não se entrelaçar com a letra, subjugada à marcação rítmica. Minha preferida: Sapato Novo.
POR QUE NÃO ME UFANO
Sugestão de adesivo: "Eu não esperava outra coisa. Mesmo assim, estou indignado."
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