Entrevista:O Estado inteligente

sábado, abril 12, 2003

Diogo Mainardi Enfim, como diria Gil...

"Lula atribuiu-se o mérito de ter
salvado a economia. Como os índices
só haviam piorado porque acreditaram
em suas bravatas, não há do que se
gabar. Ele só consertou um pouco
do estrago que havia feito"

Gilberto Gil almoçou na Associação Comercial do Rio de Janeiro. Depois do almoço, discurso. Depois do discurso, entrevista coletiva. Depois da entrevista coletiva, deslocamento para a Biblioteca Nacional. Outro discurso. Não sei para onde Gil foi depois disso. Desisti de segui-lo. Cansei. Durante o almoço, Gil revelou gostar da vida de ministro. Há algo de errado em quem gosta da vida de ministro.

Entre uma coisa e outra, acompanhei Gil por cerca de cinco horas. Não consegui colher uma única declaração aproveitável. No discurso da Biblioteca Nacional, por exemplo, a propósito de um dicionário de música popular brasileira, ele citou Octavio Paz, que teria escrito sobre a "suspensão no ar, na atmosfera, no éter, de signos, símbolos, microrganismos, partículas, células, em extraordinária rotação sobre nossas cabeças, que são os verbetes, em seu próprio suporte, as palavras, com todos os seus interstícios, em suas materializações nos livros...". Preciso reler Octavio Paz urgentemente. Nesse ponto do discurso, perdi a concentração. Deixei de transcrevê-lo. Para passar o tempo, comecei a contar quantas vezes Gil empregava a interjeição "enfim". Foram dezessete.

Bem melhor do que ouvir um discurso de Gil é ouvir um de Lula. Nunca houve, em nossa história, um presidente que falasse tão claro quanto ele. Poucos dias atrás, em Barcarena, no Pará, Lula disse que o Brasil foi castigado por políticos que pensam apenas em seu mandato. No mesmo discurso, ele demonstrou que, como o resto dos políticos, pensa apenas em seu mandato, reivindicando mais quatro anos no poder. Ou seja, 100 dias depois da posse, já estamos novamente em campanha eleitoral. E podemos contar com um presidente que, segundo sua própria definição, se considera um castigo para o país.

Na semana anterior, Lula havia declarado algo ainda mais espantoso. Ele reconheceu que, quando estava na oposição, disparava bravatas o tempo todo. Indiretamente, ele chamou seus eleitores de otários. Porque quem acredita em bravatas só pode ser otário. Lula está certo, claro. Porém é surpreendente que ele tenha a coragem de debochar de seus eleitores em público, de forma tão ostensiva. Nem o mais brucutu dos coronéis nordestinos trataria seu curral eleitoral com tanto desdém. Estou começando a desconfiar dessa história de que Lula saiu de Pernambuco num pau-de-arara. Ele deve ter algum parente latifundiário em Garanhuns.

Na segunda-feira, em cadeia nacional, Lula traçou um balanço de seus primeiros meses de governo. Atribuiu-se o mérito de ter salvado a economia, melhorando câmbio, balança comercial e risco país. Como esses índices só tinham piorado porque os investidores acreditaram em suas bravatas, não há do que se gabar, visto que ele se limitou a consertar um pouco do estrago feito anteriormente. Com muito laquê e piscando o olho esquerdo sem parar, Lula levou cinco horas para extrair nove minutos de programa. Pois eu passei cinco horas com Gil e extraí ainda menos. Ponto para Lula.

domingo, abril 06, 2003

Diogo Mainardi A comédia da fome


O Iraque será reconstruído pelas mesmas empresas que construíram o Brasil. A Halliburton, por exemplo, quando ainda era comandada pelo atual vice-presidente americano, Dick Cheney, construiu o gasoduto Brasil–Bolívia. A Bechtel também foi convidada para repartir o bolo bilionário da reconstrução iraquiana. Em suas atividades no Brasil, a Bechtel ergueu desde usinas elétricas até fábricas de meias de náilon, mas seu nome é recordado, sobretudo, pelos reatores nucleares de Angra dos Reis. A Fluor, cujo nome é associado à instalação de grandes siderúrgicas e fábricas de automóveis no Brasil, irá participar, igualmente, da boca-livre iraquiana, da mesma forma que a Washington Group International, a empreiteira responsável, entre nós, pelas obras da hidrelétrica de Itaipu. Tudo indica, portanto, que o Iraque, depois da guerra, ficará igual ao Brasil. Bagdá será uma réplica exata de Teresina. Basra, uma réplica de Francinópolis. Nassiriah, uma réplica de Guaribas.

O trabalho de reconstrução do Iraque será coordenado pela Usaid, a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional. Andrew Natsios, seu diretor, ficou conhecido no mundo todo por ter declarado, algum tempo atrás, que os africanos não deveriam receber remédios contra a Aids porque nem sabiam ler as horas. A Usaid sempre foi muito ativa no Brasil. Em 1964, depois do golpe militar, mandou seus técnicos para cá e reformou nosso ensino, do primário até a universidade. Se aplicar a mesma receita educacional no Iraque, conseguirá dobrar o número de analfabetos em poucos anos. Até hoje a Usaid financia programas assistenciais no Brasil, ligados à preservação da floresta tropical, à prevenção da tuberculose e à luta contra a exploração sexual de crianças. Durante a viagem de Lula aos Estados Unidos, cogitou-se inclusive de a Usaid ajudar no Fome Zero.

Não que o Fome Zero precise de ajuda. As melhores mentes do governo já estão engajadas no projeto. Outro dia, o Ministério da Cultura anunciou que pretende oferecer incentivos fiscais aos produtores que se dispuserem a rodar seus filmes em regiões carentes, usando mão-de-obra e figurantes locais. Depois do bolsa-escola, bolsa-renda, bolsa-alimentação, bolsa-criança cidadã e bolsa-qualificação profissional, agora também querem lançar o bolsa-figuração. Guaribas vai virar um pólo cinematográfico, a futura Hollywood do agreste. O único inconveniente é que nordestinos famintos só servem para interpretar nordestinos famintos. Ficam um pouco inverossímeis em outros papéis. Temo que, nos próximos anos, tenhamos de assistir a uns dezoito filmes sobre Antônio Conselheiro e Canudos. Mas nunca se sabe. Pode ser que surja um novo Marlon Brando por lá. Ou um novo Fred Astaire, que revolucione o gênero musical. Se a experiência de implantar um pólo cinematográfico em Guaribas der certo, os técnicos do Ministério da Cultura, em direta concorrência com os da Usaid, podem ajudar a implantar um em Nassiriah, transformando-a numa Hollywood do deserto. Será nossa contribuição desinteressada para a reconstrução do Iraque. O problema da fome, pelo menos, estará resolvido. Tanto aqui como lá.

sábado, março 29, 2003

Diogo Mainardi A PanTomima beduína



"Marta Suplicy pode ficar mais tranqüila
porque seu companheiro arrumou uma
posição no governo Lula.
O mundo pode
ficar mais tranqüilo. Estamos todos em
boas mãos, brasileiros, iraquianos,
ingleses, americanos"

O melhor de todos é Mohamed Said al-Sahaf, o ministro da Informação iraquiano. Outro dia ele chamou o presidente americano de "anão" e o secretário de Defesa britânico de "asno". Para alguém que passa o dia inteiro na frente da TV e já enjoou do habitual espetátulo de bombas de fragmentação caindo sobre a população civil de Bagdá, não pode haver atração mais excitante do que as entrevistas coletivas de Sahaf. Dão um pouco de cor local, com seu repertório clássico de insultos vindos diretamente da casbá ou de filmes de segunda linha de Hollywood. Cuspindo nos microfones, Sahaf declarou que o "pequeno Bush lidera uma gangue internacional de bastardos criminosos, uma superpotência de Al Capone", que ele é um "vilão", "um biltre", "um homem vil que será amaldiçoado pela eternidade". Para Sahaf, Colin Powell é um "idiota", e Donald Rumsfeld, um "cão", à frente de "mercenários abomináveis". Quanto aos britânicos, só merecem o profundo desdém de Sahaf, pois não passam de "hediondos lacaios que os canalhas dos americanos esmagam com a sola dos pés". Em entrevista recente, o assessor especial de Lula para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, ofereceu asilo no Brasil a Saddam Hussein. Ao mesmo tempo, os vereadores do Rio de Janeiro decretaram o presidente Bush "persona non grata" na cidade. Se Saddam Hussein é bem-vindo por aqui, e Bush não, faço questão de convidar, igualmente, o ministro Sahaf, essa impagável pantomima beduína. Por mais atrocidades que ele tenha cometido em nome do regime iraquiano, aceito hospedá-lo em minha casa, contanto que ele prometa ficar o tempo todo no terraço, deblaterando contra os moradores do prédio ao lado.

Além de oferecer asilo a Saddam Hussein, Marco Aurélio Garcia também afirmou que o Brasil está disposto a acolher refugiados de guerra iraquianos. Como se nossas cidades fossem muito melhores do que Basra sob o bombardeio de tropas anglo-americanas. Como se nossos bandidos fossem muito melhores do que "Ali, o Químico", aquele que exterminou os curdos com gás mostarda. Como se nossos miseráveis vivessem muito melhor do que refugiados num acampamento da ONU. Por falar nisso, Benedita da Silva confessou que não gostaria de estar na pele do articulador do Fome Zero, José Graziano, "com essa responsabilidade de dar combate à fome e à miséria". Benedita da Silva é ministra da Assistência e Promoção Social. Seria de supor que a responsabilidade de seu ministério fosse, justamente, dar combate à fome e à miséria. Eu não gostaria de estar na pele dos refugiados iraquianos que vierem para cá. E muito menos na dos miseráveis brasileiros.

A principal medida do governo Lula depois da deflagração da guerra no Iraque foi conceder-se um vital setor de comunicação internacional. O chefe do novo setor é o companheiro de Marta Suplicy, Luis Favre. Em fevereiro, li com apreensão que a prefeita de São Paulo andava "sumida e sorumbática", porque nenhuma posição no governo federal havia sido oferecida a Favre. Agora, ela pode ficar mais tranqüila. O mundo pode ficar mais tranqüilo. Estamos todos em boas mãos, brasileiros, iraquianos, ingleses, americanos.

domingo, março 09, 2003

Diogo Mainardi No país do Carnaval

"Por trás da fachada irreverente do Carnaval, só há um desavergonhado
e rastejante
beija-mão"

O camarote de Gilberto Gil, em Salvador, consagrou a ascensão do novo poder político brasileiro. O ministro Antônio Palocci, acompanhado pela mulher, Margareth, apareceu com uma camisinha pendurada no pescoço. Onde Palocci estava no Carnaval de 2002? No desfile de escolas de samba de Ribeirão Preto? Ou vistoriando os estragos causados pelas enchentes em sua cidade? E o ministro Jaques Wagner? No ano passado, ele proferiu um discurso contundente sobre a farra de recursos públicos no Carnaval baiano, acusando a prefeitura de Salvador de "engordar os bolsos de fabricantes de bebidas e trios elétricos". Neste ano, ao lado do prefeito Imbassahy, Wagner rendeu-se à atmosfera festiva do camarote de Gil. Com muito uísque e cerveja grátis, assistiu à passagem dos trios elétricos abraçado à mulher, Fátima, que vestia um "top" da estilista Vera Arruda, segundo as colunas sociais. No discurso do ano passado, Wagner também denunciou o ex-governador Antonio Carlos Magalhães de se valer da construtora de seu ex-genro para desviar as verbas do orçamento da Bahia e depositá-las em contas particulares no Econobank, das Ilhas Cayman. Excepcionalmente, Antonio Carlos Magalhães não compareceu ao camarote de Gil neste Carnaval. Mas compareceu em 2002. E em 2001. E em 2000. Em 2002, ao vê-lo no camarote de Gil, o trio elétrico de Armandinho, Dodô e Osmar prestou-lhe uma comovida homenagem. Em 2001, a banda Chiclete com Banana proclamou que "A Bahia não vai deixar ACM só". Em 2000, o bloco Filhos de Gandhi definiu-o como "o presidente da moralidade do Brasil". Carnaval é assim mesmo. Por trás da fachada irreverente, só há um desavergonhado e rastejante beija-mão. Basta ver a Beija-Flor, que ganhou o concurso das escolas de samba do Rio de Janeiro com seu enredo chapa-branca, de propaganda oficial, abençoado por aquele assustador fantoche de Lula.

A filha do ministro José Dirceu foi fotografada no camarote de Gil. No ano passado, quem passou por lá foi um dos filhos do ex-presidente Fernando Collor de Mello, Arnon. Outro filho ilustre, José Sarney Filho, mereceu elogios de Gil por sua atuação como ministro do Meio Ambiente do governo Fernando Henrique Cardoso. Gil votou em Fernando Henrique em 1994, contra Lula. Em 1998, um primo de Collor, Euclides Mello, então candidato ao governo de Alagoas, declarou contar com o apoio de Gil. Onde Euclides Mello se encontrava no Carnaval de 2003?

Se o camarote de Gil pode ser usado para traçar o mapa do poder político no Brasil, outra notícia do período de Carnaval, dada sem o menor destaque nas páginas locais de O Globo, ajuda a delinear o perfil moral do brasileiro: "Walter Barbosa Júnior furtou a carteira do turista chileno Ricardo Ramos. Após uma perseguição, um grupo de trinta banhistas espancou o ladrão, levando-o para o mar, na tentativa de afogá-lo, o que só não aconteceu pela ação de seis guardas". Naquela segunda-feira, o jornal estava cheio de referências aos dois malfeitores do momento, Fernandinho Beira-Mar e Silveirinha. Os trinta linchadores de Copacabana foram perdoados. O Brasil não tem espaço para tantos vilões ao mesmo tempo.

sábado, fevereiro 01, 2003

Diogo Mainardi Orgulho de quê?



"Lula já foi elevado, aos olhos
dos brasileiros, a líder planetário.
O resultado dessa exaltação nacional
será o de sempre: o mundo irá adiante,
deixando-nos para trás. Quanto a essa
história de que somos únicos, só será útil
para quem quiser arrumar uma boquinha
com algum político muito vagabundo"

O aspecto mais extraordinário da correspondência entre Mário de Andrade e Carlos Drummond de Andrade é o índice onomástico. Onde está Hitler? Onde está Stalin? Onde está Mao? Como se explica que dois de nossos mais ilustres escritores tenham trocado cartas de 1924 a 1945 sem jamais mencionar esses nomes? Como se explica que eles não tenham dedicado uma única linha à Longa Marcha? Ou à Guerra Civil Espanhola? Ou à ocupação da Polônia? Ou ao cerco de Stalingrado? Ou ao dia D? Ou aos campos de concentração?

Os Andrades também não manifestam o menor interesse pelos poetas estrangeiros. Nas cartas, eles nunca citam, por exemplo, Eliot, Pound, Auden, Lorca ou Montale. Preferem citar Emílio Moura, Augusto Meyer e Sérgio Milliet, seus conterrâneos. Além disso, divulgam insistentemente suas próprias obras: "Aqui vai a Escrava. É oferta de amizade e admiração, acredite. Você pode distribuir os exemplares que vão juntos?". Ou: "Tenho poucas relações em São Paulo e se acaso existe aí algum amigo seu a quem o meu livro interesse, mande-me o nome e o endereço dele". Ou: "Gostaria que você me dissesse quais os jornais daí para os quais vale a pena mandar o volume (eu não acredito na crítica desses jornais, mas respeito a tradição)".

A desconfiança em relação ao resto do mundo se revela desde o começo da correspondência, quando Mário de Andrade tenta convencer Drummond de que lhe falta "o espírito da mocidade brasileira". Ele conclama: "Carlos, devote-se ao Brasil, junto comigo. Ser brasileiro é uma coisa única no mundo; é de uma originalidade delirante". Inicialmente, Drummond resiste: "Acho o Brasil infecto. Não tem atmosfera mental; não tem literatura; não tem arte; tem apenas uns políticos muito vagabundos". Algum tempo depois, porém, Drummond muda de idéia e vai servir aqueles mesmos "políticos muito vagabundos", tornando-se assessor do ministro da Educação do governo Getúlio Vargas.

Enquanto isso, Mário de Andrade se engaja na Liga de Defesa Paulista, defendendo a separação de São Paulo "desses brasis africanos", cheios de gaúchos, "cabeças chatas" e o "vomitório araxento" dos mineiros. Nada disso impede que, mais tarde, graças à ajuda ministerial de Drummond, Mário de Andrade venha a trabalhar para o Estado Novo. Drummond, por sua vez, em 1944, percebendo a irremediável deterioração da ditadura getulista, debanda para o Partido Comunista e passa a compor poesia doutrinária.

Agora, com o governo do PT, estamos recauchutando a velha retórica andradiana do "abrasileiramento do Brasil". Existe um certo orgulho no ar. O orgulho de pertencer a uma cultura de "originalidade delirante". Lula, por suas especificidades, já foi elevado, aos olhos dos brasileiros, a líder planetário. O resultado dessa exaltação nacional será o mesmo de sempre: o mundo irá adiante, deixando-nos para trás, em Itabira. Quanto a essa história de que somos únicos, e de que podemos tratar os outros de igual para igual, só será útil para aqueles que quiserem arrumar uma boquinha com algum político muito vagabundo.

sábado, janeiro 18, 2003

Diogo Mainardi Corrente chapa-branca

"No novo Brasil lulista, os bons sentimentos afundam na demagogia, os bons propósitos esbarram no corporativismo, os bons princípios camuflam a incompetência, os bons auspícios manifestam um otimismo cabalístico"

Decidi passar seis meses por ano no Rio de Janeiro. Tem mais a ver com a fisioterapeuta do meu filho do que com a cidade em si. Aos poucos, porém, vou me acostumando à vidinha carioca. Até comecei a ler os cronistas locais. Em particular, Zuenir Ventura. Como pude sobreviver esse tempo todo sem ele? Zuenir Ventura virou meu guia, meu oráculo. Recorto seus artigos e releio-os compulsivamente, várias vezes por dia. De tudo o que ele diz, eu digo o contrário. De tudo o que ele faz, eu faço o contrário. É a coisa mais cômoda que existe. Basta ver como ele se posiciona e, sem parar para pensar, escolher o lado oposto. É bom viver sem pensar.

Outro dia, por exemplo, Zuenir Ventura elogiou o hábito dos banhistas de Ipanema de aplaudir o pôr-do-sol. Desde então, quando ouço os aplausos da janela de meu apartamento, sinto vontade de arrumar as malas e ir embora daqui. Carioca é meio caipira. Aplaudir o pôr-do-sol é pior do que aplaudir aterrissagem de avião. A linguagem hiperbólica de Zuenir Ventura só reforça o mal-estar: "Atordoados pela beleza, deslumbrados com o delírio de luz e cor, os banhistas permanecem em contrito silêncio, observando a enorme bola de fogo realizar sua lenta e cuidadosa descida". Em Ipanema, o sol se põe atrás da favela do Vidigal. Zuenir Ventura descreve a cena como uma autêntica "visão do paraíso". Para mim, o paraíso tem esgoto e água encanada. E não é do Comando Vermelho.

Para Zuenir Ventura, o pôr-do-sol da primeira terça-feira do ano foi ainda mais espetacular do que o normal. Depois de consultar especialistas em meteorologia, concluiu que o fenômeno estava diretamente relacionado com a transição política do país. O pôr-do-sol de Ipanema se tornou uma espécie de estrela de Belém, anunciando o início de uma Nova Era. Ignoro qual seja o significado simbólico para o fato de, desde aquele dia, ter chovido sem parar no Rio de Janeiro. Zuenir Ventura está muito esperançoso com o governo Lula. Tanto que já o definiu como "histórico". É esquisito que alguém faça julgamentos históricos antecipadamente. Que eu saiba, a história só pode ser escrita depois dos acontecimentos. Trata-se, no máximo, de uma aposta. Se Zuenir Ventura aposta a favor do governo, sou obrigado a apostar contra. Todas as minhas fichas no preto, croupier.

Concordo que é um despropósito cismar com Zuenir Ventura. Ele parece ser uma pessoa afável, generosa, simpática, disponível, amiga. Fala bem de todo mundo e, mesmo quando assume um tom indignado, continua inócuo. O problema é que passei a identificá-lo com os aspectos mais irritantes do novo Brasil lulista: os bons sentimentos afundam na demagogia, os bons propósitos esbarram no corporativismo, os bons princípios camuflam a incompetência, os bons auspícios manifestam um otimismo cabalístico. Como a maior parte dos brasileiros, Zuenir Ventura aderiu a essa corrente para a frente, a essa corrente de Santo Antônio chapa-branca. Espero que a tal lua-de-mel com o governo acabe logo. Cansei de ver gente aplaudindo o pôr-do-sol. Cansei de ler artigos sobre bursite.

sábado, dezembro 21, 2002

Diogo Mainardi Lula chora, mas quem sofre sou eu

"Gilberto Gil pretende continuar a dar
espetáculos no exercício do cargo de
ministro. É injusto. A única vantagem
de ter Gilberto Gil como ministro da
Cultura seria passar quatro anos sem
ouvi-lo cantar"

Em dezembro de 1989, o ditador panamenho Manuel Noriega se refugiou na embaixada do Vaticano. Para tirá-lo de lá, os soldados do Psyop, especialistas em guerra psicológica do Exército dos Estados Unidos, bombardearam-no dia e noite com rock, amplificado por caixas acústicas de 10.000 watts. Em poucos dias, Noriega se rendeu, com os nervos em frangalhos.

Um saxofonista do Rio de Janeiro chamado Sangar Vidal usa a mesma tática do Psyop. No último domingo, estacionou seu Monza branco na orla de Ipanema, direcionou potentes caixas acústicas para as janelas do apartamento em que estou hospedado e bombardeou-me com seu CD new age Quando as Folhas Caem.

Depois de oito horas de música ininterrupta, entrei num estado de absoluto descontrole emocional, exatamente como Noriega. Quem também tem estado com os nervos meio abalados é Lula. Ele chora demais. Chora quando vê novela, chora quando visita a cidade natal, chora quando recebe o diploma de presidente. O resto do PT é igual. Sempre tem alguém chorando. Uma hora é José Genoíno, outra hora é Heloísa Helena. Nada exclui que o Psyop possa estar por trás disso. O companheiro Bush gosta de desestabilizar governos alheios. Pior ainda no caso de governos suspeitos, como o do PT. Se Lula chora convulsivamente ao receber o diploma de presidente, o que fará quando o dólar romper a barreira dos 5 reais, ou quando a taxa inflacionária superar os 65%, ou quando o crédito internacional escassear e formos obrigados a decretar moratória? O primeiro escalão do PSDB governou por oito anos e fracassou clamorosamente.

Diante desse fato, Lula decidiu formar seu ministério com o segundo escalão do PSDB. Por acaso esse surto de irracionalidade tem algo a ver com o Psyop? Eu, no lugar de Heloísa Helena, instauraria uma CPI para investigar o caso. Outra atitude que denota certo desorientamento por parte de Lula é a escolha de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura. Frei Betto, conselheiro do presidente eleito, desaprovou. Eu também. Para arredondar o orçamento doméstico, Gil pretende continuar a dar espetáculos durante o exercício do cargo. É injusto. A única vantagem de ter Gil como ministro da Cultura seria passar quatro anos sem ouvi-lo cantar. Comprei seu último disco, dedicado a Bob Marley. É um exemplo de métrica tropicalista. Coisas como: "Você que eleve-se alto ao céu" ou "Ob-observando hipócritas". Proponho aumentar seu salário e poupá-lo de cantar. Para o Ministério da Cultura, Frei Betto teria preferido Antonio Candido. Cogitaram-se também os nomes de Nélida Piñon, Marilena Chaui e Antonio Grassi. Eu teria apoiado com entusiasmo qualquer um deles, contanto que, ao contrário de Gil, prometessem abandonar suas atividades intelectuais e artísticas por quatro anos.

Ano-Novo é tempo de otimismo. As pessoas tendem a acreditar que o futuro sempre será melhor que o passado. No caso, eu aposto o contrário. Aposto que 2003 será muito pior que 2002. O ideal para mim seria pular direto para 2004. Um ano a menos de desastres. Boas festas.

sábado, novembro 16, 2002

Diogo Mainardi Para cá de Bagdá

"Alguns países resistem a bloqueios
econômicos por anos e anos. Outros
capitulam rapidamente. O Brasil
pertence à segunda categoria. Os
brasileiros nunca foram um exemplo
de coragem e ousadia"

Florença viveu seus dias de Porto Alegre. O Palácio da Signoria assumiu o aspecto do Palácio Farroupilha. O Davi, de Michelangelo, atingiu a magnitude do Monumento Júlio de Castilhos. O Domo rivalizou com a Catedral Metropolitana. Foi o resultado do Fórum Social Europeu, que reuniu, em Florença, o mesmo pessoal que, durante o reinado petista, costumava se reunir em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial. Em apenas cinco dias, beneméritos representantes de milhares de ONGs solucionaram, entre outras coisas, a fome no mundo, a epidemia de Aids, o trabalho escravo e o contrabando de mogno. Donos de todas as virtudes, eles terminaram o evento com uma marcha pela paz, em que 500.000 manifestantes se opuseram à guerra contra o Iraque.

Estou indeciso sobre essa guerra. Quando ouço Bush ou Blair, viro pacifista. Quando ouço os pacifistas, fico com vontade de bombardear pessoalmente Bagdá. Os pacifistas dizem que os americanos só querem petróleo mais barato. Duvido que uma guerra contra o Iraque possa surtir esse efeito, mas seria muito vantajoso para o Brasil. Imagino que Lula, secretamente, esteja torcendo para que isso aconteça. Quem perderia alguns trocados seriam os tiranos árabes que se apropriam de boa parte da renda petrolífera de seus países. Um dia depois da marcha pela paz em Florença, o filho do presidente líbio Muamar Kadafi apareceu num estádio de futebol italiano. Ele é o segundo maior acionista particular do time do Juventus. Agora está pensando em comprar o time do Lazio. Diminuir o preço do petróleo significaria apenas diminuir a fortuna desviada por essa gente.

E o que dizer das vítimas inocentes? Elas servem de justificativa tanto para um lado quanto para o outro. Os belicistas recordam as centenas de milhares de vítimas inocentes que Saddam Hussein torturou, decapitou, exterminou com armas químicas e mandou para o massacre em guerras insensatas. Os pacifistas respondem apontando as vítimas inocentes que os bombardeios americanos certamente provocariam. Além de se oporem à guerra, os pacifistas também querem suspender o bloqueio econômico contra o Iraque. Eles afirmam que essa medida só afeta as pobres criancinhas iraquianas, que morrem por falta de comida e remédios, como repetem sem parar as agências de notícias de Saddam Hussein. O argumento dos pacifistas é exatamente o mesmo que Margaret Thatcher usava para defender a África do Sul durante o regime de apartheid. Ela dizia que os maiores prejudicados por um eventual bloqueio econômico britânico seriam os próprios negros miseráveis.

Alguns países resistem a bloqueios econômicos por anos e anos. Outros capitulam rapidamente. O Brasil pertence à segunda categoria. Os Estados Unidos já retaliaram o Brasil em três diferentes oportunidades. A primeira, em 1962, contra a Lei de Remessa de Lucros de Jango. Dois anos mais tarde, ele foi deposto. Em 1977, os americanos mudaram de idéia e passaram a pressionar os militares brasileiros para restaurar a democracia. Foi o que aconteceu. Em 1978, os Estados Unidos desconfiaram de nosso programa nuclear. Prontamente, nós lhes fornecemos todas as garantias exigidas. Os brasileiros nunca foram um exemplo de coragem e ousadia. De fato, acho que vou desistir de bombardear Bagdá.

segunda-feira, novembro 04, 2002

Diogo Mainardi O Brasil do Zé Carioca





"O programa cultural do novo governo
exalta os mestiços alegres, cheios de
ginga.
E calcula que eles podem render
um bom dinheirinho. Com Lula,
voltaremos
a ser o Brasil brejeiro dos tempos da
Aliança para o Progresso"

"Somos mestiços." É a primeira frase do programa cultural do governo Lula. De uma classe dirigente que pretende representar o novo, seria de esperar uma idéia um pouco menos caduca. Um pouco menos de preguiça intelectual. O elogio da mestiçagem podia fazer sentido nos anos 20 ou 30. Contrapunha-se a um determinismo racista que via o mestiço como um ser inferior, como um degenerado. Hoje, na melhor das hipóteses, lembra o "pé-na-cozinha" que Fernando Henrique Cardoso atribuiu a si mesmo. Populismo rasteiro. E um tanto ofensivo. Nossa mestiçagem é resultado de uma limpeza étnica, de um estupro coletivo praticado por senhores de engenho brancos contra escravas negras. Nada do que se orgulhar, portanto. Até porque o elogio da mestiçagem acaba embutindo um furto cultural. Como reagiria um negro americano se lhe dissessem que o jazz é fruto da mistura abastardada entre brancos e negros? Mas o problema é ainda mais grave. O programa do novo governo exalta, paternalisticamente, os mestiços alegres, musicais, cheios de ginga, antropofágicos, festeiros. E calcula que eles podem render um bom dinheirinho para o país. Basta aproveitá-los direito. Basta fazê-los dançar frevo ou maracatu e exibi-los no mundo inteiro. Com Lula no poder, voltaremos a ser o Brasil folclórico e brejeiro da Aliança para o Progresso. O Brasil do Zé Carioca.

Uma das principais propostas do novo governo é "democratizar o acesso à cultura". Na prática, isso significa levar a Orquestra Sinfônica para tocar no Piscinão de Ramos. Foi o que fez Antonio Grassi, secretário da Cultura do Rio de Janeiro e um dos signatários do programa de governo. Outro signatário, Beto Almeida, sugeriu suspender o pagamento da dívida externa para poder distribuir jornais e revistas grátis entre os pobres. O projeto de "TV regionalizada" é de Hamilton Pereira. O modelo ideal desse tipo de televisão, segundo ele, é uma reportagem da TV Cultura sobre a Semana do Tropeiro de Sorocaba, seu curral eleitoral. Já a prefeitura petista de Porto Alegre contribuiu com as "oficinas de descentralização". Nelas, "deixa-se aflorar o sensível e o imaginário, ao aportar o benefício da dúvida, o prazer e a emoção na descoberta de relações invisíveis ao primeiro olhar". Entendeu? Na era Lula, "oficinas de descentralização" irão difundir-se por todo o país.

O PT é o partido do funcionalismo público. Por esse motivo, é natural que a estratégia do novo governo seja burocratizar ao máximo. Na área de cultura, promete-se criar uma infinidade de novos órgãos, dotados de siglas sugestivas como SNPC, ou PNIC, ou PNC, ou INRC. Os signatários do programa lulista se queixam de que FHC destinou poucos recursos à cultura. É curioso notar, porém, que quase todos eles sobreviveram nos últimos anos graças à benevolência do Estado, recebendo salários do Estado, ensinando em universidades do Estado, produzindo obras subsidiadas pelo Estado. O igualitarismo do novo governo embaralha alta cultura e baixa cultura. E difunde a idéia demagógica de que todos os brasileiros possuem talento artístico, embora muitos se encontrem escondidos por causa do nosso "apartheid cultural". Não sei se o Brasil realmente tem tantos artistas escondidos. Sei que tem muitos que poderiam se esconder.

domingo, novembro 03, 2002

Miriam Leitão Dúvidas futuras



Nenhuma área passou por mudanças tão radicais e profundas, no segundo governo Fernando Henrique, como o setor de telecomunicações. Os empresários do setor se reuniram esta semana em Florianópolis, num megaevento, e admitem não saber o que vai acontecer no futuro. A proposta do PT não é clara e as empresas enfrentam um momento de retração do mercado após o boom.

Tudo o que se sabe das propostas do partido é o que foi divulgado no programa de campanha. Diz que tudo o que está acontecendo no setor de telefonia “prova que o modelo adotado pelo governo FH é equivocado e são necessárias mudanças”.

E o que aconteceu foi a mais extraordinária expansão do serviço no Brasil.

O próprio texto do partido dá o número de 142% de aumento da rede fixa, em três anos, e 421%, em celular.

Em 97, apenas 6% da classe D tinham telefone fixo na região da Telemar. Agora, este número foi para 61%. Da classe C, o número foi de 34% para 82%.

Apesar disso, o programa do PT diz que o modelo é equivocado.

“A proposta do Partido dos Trabalhadores foi contrária ao fatiamento do grupo Telebrás. Deveríamos seguir estratégias semelhantes às adotadas por vários países como França, Alemanha, Espanha. O país deveria, portanto, reorganizar e reestruturar o grupo Telebrás, fundindo todas as teles e a Embratel numa única grande empresa nacional.”

Como é impossível voltar atrás, fica-se sem saber como eles pretendem mudar o modelo.

Houve sim alguns erros e este é um momento de mudanças: os empresários reunidos esta semana em Florianópolis estão prevendo que, assim que a lei permitir, haverá uma consolidação com empresas mais fortes comprando empresas em dificuldades. Mas tudo será evolução do atual modelo.

— Seria maluquice retroceder. Espero que ninguém pense nisto no próximo governo — disse-me um empresário.

Na Futurecom 2002, passaram 5.370 pessoas em painéis e seminários; ela teve, só de convidados internacionais, 200 painelistas e palestrantes nos quatro dias de evento. O organizador do encontro Laudálio Veiga Filho considera que, com todo o discurso de crise, este encontro foi tão concorrido quanto os outros.

Nada são flores no setor, mas não é o caso de rever o eixo central da política. Apenas aperfeiçoamentos.

O setor, no resto do mundo, sofre os efeitos da ressaca do excesso de expectativa sobre o crescimento da demanda.

No Brasil, a partir da privatização, os investimentos anuais cresceram fortemente. O Sistema Telebrás investia, por ano, cerca de R$ 5 bilhões. Em 99, o investimento foi de R$ 12 bilhões; em 2000, 14 bilhões; em 2001, R$ 23 bilhões; para este ano, a previsão é de R$ 9 bilhões.

— Nós estamos falando em crise porque o país voltou aos níveis de investimento mais normais — diz Valerijonas Seivalos, da Qualcomm.

O presidente da Siemens, Aluizio Birro, acha que é mais do que isso:

— Houve um superinvestimento no mundo, mas, no Brasil, isso foi induzido pela antecipação de metas exigida pela Anatel. As empresas encomendaram demais, a demanda não cresceu tanto, e hoje estão estocadas de equipamentos. Resultado: as fabricantes de equipamentos estão com capacidade ociosa.

O boom brasileiro foi tão forte que atraiu um número muito alto de produtores de equipamentos, e a competição, na opinião deles, ficou predatória.

Existem dez fabricantes de equipamentos no Brasil e a previsão que se faz é que alguns acabarão indo embora.

— Eu fui o primeiro a chegar, serei o último a sair, mas acho que nunca sairei — diz Birro. A Siemens instalou no Brasil uma linha de telégrafo entre Rio e Rio Grande do Sul para apoiar o Exército brasileiro em 1867 na guerra da Tríplice Aliança. Em 1905, instalou-se definitivamente no Brasil.

Os fabricantes dividem-se hoje entre pessimistas e otimistas, mas a Siemens não pode estar no primeiro grupo. Sua fábrica de Manaus está trabalhando em três turnos.

— Alguns produtos estão com grande demanda, outros não. A fábrica de Curitiba está com capacidade ociosa — conta Birro.

A indústria está procurando novos nichos e encontrando velhos problemas.

Um painel sobre o mercado de telecomunicações fez uma consulta interativa sobre como era possível aumentar a oferta de telefones se o país crescia pouco. Sessenta por cento disseram que a saída é oferecer telefone para as classes D e E. Fernando Terni, da Nokia, não acredita nisso:

— Eles não têm dinheiro. Este é um país com a renda mal distribuída.

Isso provocou polêmica na mesa. Sérgio Quiroga, da Ericsson, e o consultor José Luís de Souza sustentaram que há caminhos para vender para consumidor de baixa renda.

Luís Carlos Cornetta, da Motorola, diz que está otimista porque há vários nichos de mercado para serem explorados e, além disso, está exportando US$ 700 milhões de celulares.

No fim do debate, todos foram convidados a dar conselhos para o próximo ministro das Comunicações, caso ele estivesse no plenário lotado. Na mesa, estavam a Cisco System, a Embrael, a Qualcomm, a Ericsson, a Promon, a Motorola e a Nokia.

Aconselharam o próximo governo a não reinventar a roda, nem tentar ruptura com o atual modelo, porque o caminho é o do aperfeiçoamento de tudo o que foi feito nos últimos anos.

Um deles lembrou que Lula soube, duas horas depois da eleição, que era o presidente eleito graças ao avanço tecnológico que o Brasil conseguiu nos últimos quatro anos

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