Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 13, 2014

‘Gasto público deveria ser limitado por uma lei’, diz Armínio Fraga - economia - geral - Estadão

'Gasto público deveria ser limitado por uma lei', diz Armínio Fraga - economia - geral - Estadão

'Gasto público deveria ser limitado por uma lei', diz Armínio Fraga

Há poucas semanas, o senador Aécio Neves, candidato dado como certo para disputar a presidência pelo PSDB, oficializou a escolha do economista Armínio Fraga para o posto de coordenador econômico de sua campanha. Nesta série de entrevistas que ouve economistas integrados ao debate político e, não raro, ligados aos partidos, Fraga é o mais engajado. Muitos já o consideram ministro da Fazenda, caso o PSDB ganhe a eleição. Ex-presidente do Banco Central, Fraga diz que ainda não se aprofundou no estudo das propostas, mas o esboço tem pilares claros: fortalecer a política fiscal, ajustar a inflação para o centro da meta, desengavetar a reforma tributária, entre outras medidas que podem exigir ajustes nem sempre populares. Mas ele acredita que o importante é antecipar o que deve ser feito, sem "populismo" eleitoral. "O custo de tomar medidas impopulares é muito menor do que o de não tomar", diz na entrevista que segue.

Como o sr. vê a economia hoje?

Estou vendo um quadro que se quantifica com poucos números. Um crescimento baixo, já entrando pela quarto ano, e a sinalização de que o ano que vem também pode ser difícil por causa dos problemas que estão se acumulando. Ao mesmo tempo, há uma inflação alta, em torno de 6%, já há bastante tempo, mas reprimida. A inflação real anda mais alta. Talvez entre 7% e 8%. Esse não é um quadro bom. Há também o fato de que o déficit em conta corrente do Brasil caminha para 4% do PIB no momento em que os Estados Unidos segue para a normalização da taxa de juros e, eventualmente, a China deve desacelerar. Isso também é uma questão, especialmente porque a taxa de investimento do País não está aumentando. Agora está acontecendo um movimento no mercado - que eu diria ser técnico, com recursos mais de curto prazo, indo para um lado ou para outro, mas isso não deve trazer um grande conforto. O quadro geral ainda não é tranquilo lá fora. Olhando aqui para dentro no Brasil, hoje o governo concede 60% do crédito, que incorpora ainda repasses do BNDES. Há não muitos anos eram 40%. É um modelo testado por nós, testado por vários outros países que tende a não entregar o resultado que se quer - tanto do ponto de vista de produtividade, da qualidade das decisões de crédito e financiamento que são tomadas, quanto do ponto de vista do risco. O exemplo radical são os Estados Unidos com as grandes do mercado de hipotecas, Fannie Mae e Freddie Mac (empresas privadas, mas com propósito público, que eram implicitamente garantidas pelo governo), que tiveram uma participação fundamental na bolha - uma senhora bolha. Mesmo nos países mais maduros, essas lições permanecem válidas. Há outros temas, de caráter mais setorial. Energia está no topo da lista. Estamos correndo um risco muito grande nessa área. Os dados, infelizmente, vêm piorando. É grave a questão. O setor de petróleo é outro bem conhecido. À Petrobrás foi designado o papel de grande locomotiva do setor, mas, ao mesmo tempo, o governo vem asfixiando o fluxo de caixa da empresa. Para não falarmos de outras intervenções, como o mix de política industrial, política setorial também. Enfim, que não vem dando resultado. Talvez fosse até previsível. Em paralelo, estamos vivendo a crise no setor de etanol - o que é uma tristeza. O setor tem tudo para ser um líder global. Esse é um setor menos antipático ao meio ambiente do que o do petróleo, que o dos combustíveis fósseis. Estamos na situação singular de subsidiar o setor de combustíveis fósseis - algo que vai na contra mão da recomendação técnica. A determinação é taxar e não subsidiar, porque esse setor produz um efeito negativo para a sociedade. Esse é o típico caso em que se recomenda fazer o oposto do que estamos fazendo. A infraestrutura também é uma área que apresenta muitos desafios. Nesse caso, a visão é que temos uma moeda com dois lados. Por um lado, a infraestrutura virou um gargalo seriíssimo em praticamente todas as suas dimensões - e, portanto, é uma barreira ao crescimento. Mas ela deveria ser uma fantástica oportunidade. Eu acho que se os futuros governos acertarem a mão nas questões regulatórias e em outras que influenciam esse setor, eu penso que ele pode virar ao nosso favor. Mas, nesse momento, é um problema. O resumo é o seguinte, pensando de uma maneira mais esquemática: a minha leitura é que hoje nós temos uma macroeconomia que está perdendo as âncoras. A área fiscal perde credibilidade, o chamado tripé certamente está bem fragilizado. A microeconomia, que deveria funcionar mais livre, apostando na concorrência, sofre por estar muito amarrada - e amarrada na parte que cabe ao governo. Portanto, temos dificuldades em buscar mais produtividade. Subindo ainda mais um nível nesse esquema, penso que isso tudo espelha uma grande crise no Estado - um Estado que vem continuamente crescendo, mas não tem sucesso em entregar aquilo que se espera dele. A qualidade da educação avança lentamente. A população se queixa muito dos serviços de saúde. Hoje um tema absolutamente vivo e importante é o da segurança. No geral, seria preciso atacar essas questões. Claro que ninguém ainda inventou uma fórmula para fazer transplante de Estado - essa é uma questão de prática. São os governos que vão, aos poucos, melhorando ou piorando as instituições de um país - e o governo precisa cuidar disso melhor. Não há exemplo de país que tenha se desenvolvido sem um Estado bom. Pode ser pequeno ou médio. Eu sou cético em relação a ideia de que um País como nosso pode e se desenvolver com um Estado grande demais. Um país precisa crescer, precisa distribuir também, com certeza, mas eu não vejo o mundo social como um jogo de soma zero. É preciso balancear as coisas. Mas eu vejo o nosso modelo falhando, tanto pelo lado da distribuição, que ainda é muito ruim, como pelo lado do crescimento. Diga-se de passagem, não acho que os dois sejam incompatíveis. Ao contrário. Mas é preciso estruturar o funcionamento do Estado para que ele atinja esses objetivos - e nesse momento, eles não estão sendo atingidos. 



O que, na sua avaliação, pode acontecer por causa dos problemas que descreveu?

Eu vejo várias dimensões, como já mencionei. Algumas delas mais dramáticas, outras menos. Eu colocaria no topo da lista hoje a questão da energia. Na medida que a água atingir um certo nível - e já estamos quase lá - provavelmente será preciso organizar um pouco as regras do setor. A política de subsidiar ou reduzir de maneira artificial o custo da energia aponta na direção de mais escassez lá na frente. Não ajuda. Há que se tomar muito cuidado. Se nós tivermos o azar de as chuvas continuarem fracas, será preciso tomar providências o quanto antes. Isso é delicado porque o tema é facilmente misturado com a política - mas é inevitável que seja assim. Faltou planejamento. Esse setor deveria trabalhar com flexibilidade para aguentar não um ano de seca, mas três. Essa era a regra dos especialistas. A energia é o caso em que poderia haver um problema maior - os outros casos não são tão dramáticos, mas são igualmente sérios. O governo vem esticando a corda em várias áreas da chamada macroeconomia. Chega um ponto em que o cobertor fica curto. Eu penso que chegamos a esse ponto. O caso da Petrobrás é um exemplo. Descapitalizaram a empresa. O governo precisa arrumar recursos de outra maneira. Isso gera subsídios. No setor elétrico, por exemplo, os custos elevados de sustentar esse modelo, as estimativas variam, mas os consumidores já estão sentindo o custo das termoelétricas. É grave. O custo é grande. Então: de um lado a inflação preocupa, do outro lado, o impacto fiscal preocupa. Assim, há uma sensação geral de perda de confiança que vem paralisando bastante o investimento. Esse é um caminho mais lento em direção ao futuro - e lento numa direção ruim. Estamos em um ano de eleição. Tipicamente, em anos de eleição, os governos são mais flexíveis na condução das políticas. Aconteceu em 2010. Só que, neste ano, o governo já entra com dificuldades. O saldo do primário já vem sendo atingido com receitas não recorrentes e alguns artifícios de natureza contábil, mas é preciso dar uma resposta mais clara, até para que, mais adiante, seja possível retomar a trajetória de queda da taxa de juros, que voltou a níveis muito elevados. Essa, ao meu ver, é uma boa forma de se pensar o que precisamos num regime macroeconômico. Eu venho dizendo, já há algum tempo, que o Brasil tinha que ter como objetivo juros de BNDES para todo mundo. O Pérsio Arida (um dos economistas que idealizou o Plano Real), numa palestra recente, sugeriu que o conjunto das políticas macroeconômicas se voltasse para atingir esses objetivos também. Ou seja: ter juros mais normais no Brasil. Esse é um quadro que sugere o esgotamento de um modelo. Já vivemos isso na nossa história. Modelos se esgotam. Isso é percebido por analistas, mas, normalmente, se encontra muita dificuldade na hora de mudar. Os modelos, por piores que sejam, têm sempre ganhadores - e os ganhadores se agarram aos modelos e procuram evitar as mudanças. É uma questão de economia política. Isso aconteceu conosco na década de 70, quando o Brasil procurou esticar o modelo que já não era capaz de entregar resultados. Deu no que deu. Naquela época foram crises de balanço de pagamento, inflação e tudo mais. Não quero dizer que a situação é igual. Mas é fato que o Brasil hoje está vulnerável e precisa mudar. Essa segunda dimensão de crise é mais difusa porque são vários fatores agindo ao mesmo tempo. E ainda temos a possibilidade de 2015 ser ainda um ano com baixo crescimento. Há tensões políticas e sociais. São quadros complexos, mas que tem no fundo essa linha - é preciso mudar.

Levando em conta essas questões de curto prazo, o que o governo precisa fazer na largada em 2015 para resolver os problemas?

Cabe uma resposta bem ampla - talvez mais ampla do que possamos detalhar aqui. Eu começaria com o lado macroeconômico. Começaria com um reforço muito transparente das bases do tripé. Deveríamos ter metas claras e transparentes para a contabilidade do saldo primário. As metas deveriam ser plurianuais. Haveria também um comprometimento com a normalização dessa situação de inflação reprimida e, ao mesmo tempo, a busca de convergência para a meta. Se as duas ações são coerentes, elas se reforçam. Nos últimos anos, o Brasil viveu momentos difíceis em que a política fiscal era expansionista, a política de crédito público - que é muito relevante aqui no Brasil - era também expansionista e o Banco Central tentava, do seu lado, enxugar a demanda e segurar a inflação. Eu penso que esse reforço traria um grau de coerência. Racionalizar a atuação dos bancos públicos faria parte dessa equação. Do lado macro, isso ajudaria a reduzir o prêmio de risco que o Brasil paga. Quando o Brasil paga mais, todas as empresas que estão aqui pagam mais, todas as pessoas que vivem aqui pagam mais também. É algo muito direto. No lado que nós podemos chamar de micro, eu penso que há necessidade de abrir mais frentes. Na infraestrutura, ao meu ver, seria necessário um trabalho detalhado em cada área, repensando o que vem sendo feito, procurando estimular o debate e o entendimento sobre porque as coisas não estão acontecendo. Penso que há dimensões que são de arquitetura - do desenho mesmo. Mas tem também o lado da execução. É preciso repensar o modelo com o setor privado em diferentes áreas. Em vários casos, pode caber privatização. A agenda da infraestrutura é muito ampla - inclui portos, aeroportos, ferrovias, rodovias, energia, telecomunicações, saneamento. Inclui praticamente tudo da nossa infraestrutura. Mas existem vários outros temas. O Brasil precisa, urgentemente, pensar numa reforma tributária que simplifique o sistema. Isso envolveria, essencialmente num primeiro momento, todo o aparato de tributação indireta. ICMS. IPI. Organizar e simplificar seria muito bom. Cabe mencionar que, ao meu ver, o crescimento da carga tributária precisa ser limitado. Para isso, volto um pouquinho ao lado macro - o Brasil precisa também adotar um limite para relação gasto público e PIB.

Por lei?

Por lei ou por decisão de governo, num primeiro momento. Mas é preciso trabalhar para isso. Hoje, para um País de renda média, nos temos uma carga tributária muito elevada. Isso é contraproducente. Isso está dentro daquela ideia de que a economia precisa continuar trabalhando para melhorar a distribuição de renda desse País - que é terrível ainda - mas, ao mesmo tempo, precisa também criar condições para que a taxa de investimento também aumente, para que o País seja mais produtivo. São muitos os assuntos nesse mundo que chamo de micro. É muito trabalhoso. Mas não creio que seja um bicho de sete cabeças. Dá para fazer se tivermos uma agenda e também pessoas capazes ocupando posições chaves. É um desafio enorme de RH também.

Qual seria o teto de crescimento do gasto público?

Os gastos teriam que crescer igual ou abaixo do PIB. E na trajetória que está os gastos crescem mais que o PIB...
Há muito tempo - e isso é natural. A sociedade tem demandas. Por mais que tenha crescido e melhorado muito nos últimos 20 anos, o Brasil ainda é um País carente. Mas é fato que se você fizer uma pesquisa vai identificar que a sociedade quer tudo. Mas isso é uma grande ilusão. É preciso pensar a coisa de uma forma dinâmica. Instantaneamente, você pode até tentar alocar mais. Mas olhando a trajetória para frente, esse não é o melhor modelo. É um trabalho difícil, mas politicamente importante. Precisa ser feito com transparência. É típico em momentos de eleição a gente ouvir propostas em que a conta não fecha. Dizem: eu quero 10% para cá, outros 10% lá, mais 10% aqui. Você vai fazer a conta e não fecha. E vem: vou ter de aumentar a carga tributária em tantos pontos do PIB. Sinceramente, para um País como o nosso, é difícil imaginar como isso possa acontecer. É um tema difícil. Eu não sou político. Vejo apenas a necessidade de um debate honesto. Não populista.

Qual seria o tamanho do esforço fiscal?

Acho que será preciso fazer um levantamento da situação. Não dá para arriscar um número agora. Mas acho que o Brasil precisa de uma meta positiva para o saldo primário, talvez maior um pouco do que ela é hoje, nem que seja um tempo. E essa meta deve ser plurianual. Essa parte é menos difícil. O tema do crescimento do gasto é complexo. Não podemos nos iludir. Mas esse tem que ser um objetivo a perseguir com rigor e, se for necessário, com a proposição de reformas também. Não tenho um programa pronto aqui para discutir.

Em que campos as reformas?

Eu penso que em todas as dimensões do gasto. Antes de tudo, é preciso mapear para, depois, tomar as decisões. Hoje eu presto uma assessoria ao senador. Estudo e acompanho o que acontece no Brasil, mas continuo dedicando uma parte do meu tempo à minha empresa. Mais adiante, se ocorrer uma mudança, e eu participar, com a eleição do senador Aécio, seria o caso de eu e muitos outros refinarmos essas questões. Mas elas estão na categoria de questões polêmicas que se prestam ao populismo que, ao meu ver, não agregam nada à qualidade da discussão e ao próprio eleitor. Eu estou sendo um pouco cuidadoso porque acho que é impossível negar a importância disso. Mas ir além é perigoso.

O próprio Aécio falou que está disposto a tomar medidas impopulares...

Sim, falou. Mas o que ele não falou - e eu não tenho procuração para falar por ele - é que o custo de tomar as medidas por ventura impopulares é muito menor do que o de não tomar. As pessoas têm de cair na real.



Na prática, como é possível reduzir o gasto público com tanta demanda reprimida?


É questão de dar ao orçamento a importância que ele merece num ambiente democrático. É preciso incluir tudo no orçamento - todos os subsídios - e discutir o que dá para fazer e o que não dá para fazer. A sociedade quer ou não aumentar a carga tributária? Que custos e benefícios isso traria? A questão é decidir. Não é possível transformar o Brasil instantaneamente numa Suíça ou num Estados Unidos. Dá para chegar lá, mas demora um pouco e de trabalho.

A como fica a distribuição de renda? Uma das críticas é que isso implicaria cortes em programas sociais...

Não creio. Se você olhar os números vai ver que o bolsa família não consome tanto dinheiro assim para o tamanho do resultado que gera. Acho que precisamos discutir o que fazer além do bolsa família. O próprio senador Aécio Neves tem feito propostas nessas direção - inclusive pensa em transformar em lei. Seria ótimo para deixar claro à população que esse é um tema importante. Mas precisamos ir além. As pessoas querem ter qualidade vida, mesmo quando têm uma vida difícil. Mais do que isso - querem trabalhar, querem que seus filhos se qualifiquem para ter uma vida digna. Temos que usar o bolsa família como uma base. Todos os candidatos sabem disso. Às vezes fazem ameaças: dizem que vão acabar com o bolsa família. Isso é um absurdo. É uma mentira. É preciso analisar melhor para onde o dinheiro público está indo. O Gustavo Franco fala com frequência que há no Brasil o bolsa empresário. Ele coloca isso de uma maneira muito gráfica, muito boa. Isso precisa ser discutido. Sempre. Agora, antes da eleição, e depois também. É uma carência no debate: para onde vai o dinheiro? Qual o impacto distributivo de tudo isso? É um ótimo tema para encarar de frente.

E de onde o sr. acredita que viria o crescimento econômico?

Esse é outro ponto bom. É uma bela pergunta: de onde vem o crescimento? É como aquela pergunta das criancinhas: de onde vem os bebês? Certamente, o crescimento não vem com as cegonhas. O crescimento vem de mais investimento em capital, em educação e de mais produtividade em geral. Ou seja: vem de uma economia que funcione melhor. E quem é o grande participante da economia? O Estado. Então é preciso que o Estado também faça a sua parte. Mas isso não querer dizer que seja preciso aumentar o gasto público. Aumentar o gasto pode gerar demanda no curto prazo. Mas demanda não basta. É preciso resposta da oferta: mais produção, mas emprego, mais investimento. O crescimento depende do casamento entre demanda e oferta. Hoje fica claro que o governo fez uma aposta hiper keynesiana na demanda. De novo, eu insisto: claro que deve haver demanda. Nenhum empresário vai investir se não acreditar que vão comprar os produtos deles. Mas precisa haver oferta - e é isso que está falando no Brasil. Não falta demanda. A demanda continua lá.

Estabilizando o Brasil, quando o crescimento poderia ser mais robusto?

Rápido. Um ano. Dizer em quanto é chutar um pouco, mas um País que tem uma renda per capita inferior em 20% a renda per capita dos mais ricos deveria poder crescer durante vários anos a 4%, 5% ao ano, mesmo com a demografia piorando. Temos que nos lembrar que a taxa de crescimento da força de trabalho caminho para zero ao longo de relativamente pouco tempo. No passado, só daí vinham uns 3 pontos porcentuais de crescimento. Essa nova realidade sugere que um crescimento sustentável de 4 a 5% seria excepcional. E acho também que a China vai cair para algo assim. Havia um certo sonho aqui de que o Brasil poderia crescer 10% ao ano - mas é bem mais difícil. Nem sei se é viável numa sociedade como a nossa, que tem uma preocupação muito grande e correta com o social. A China tem uma preocupação com o emprego, mas só um regime autoritário poderia fazer o que eles fizeram: reproduzir um modelo de desenvolvimento sem rede de proteção social - algo altamente indesejável do meu ponto de vista. Mas aqui no Brasil há uma certa inveja do que eles fizeram. Eu não teria inveja, não. Acho que estamos bem. É só arrumar a casa.

O sr. mencionou privatizações. Há setores em mente?

Nenhum especificamente. Mas penso que todos os da infraestrutura se oferecem bem para esse caminho - o que o governo chama de concessões. É a mesma coisa. Eu não tenho medo de usar a palavra que acho correta. Mas praticamente todos da infraestrutura cabem em regimes de concessão, em parcerias público privadas, sem perda de controle do regramento que cabe ao Estado em vários desse setores. Não creio que isso seja incompatível com esse desenho. Como esse desenho é do presidente Fernando Henrique, ficou hibernando um tempo, e agora voltou. É ótimo que tenha voltado.

No evento de aniversário do Real, o ex-presidente Fernando Henrique disse que o Plano Real é o início de um processo que foi interrompido. O espírito é retomar àquele processo?

É preciso ter na cabeça a sequência do que aconteceu. O Plano Real tirou o País do caos. Não havia chance para nós na bagunça da hiperinflação. Depois veio a reforma do Estado. O Estado no Brasil fazia coisas demais. Estava envolvido em siderurgia, fertilizantes, tinha presença maciça no setor financeiro, com bancos estaduais. Nada daquilo vinha dando certo. Houve essa guinada e, na época, a decisão de Fernando Henrique foi focar em saúde e educação especificamente. Nas outras, ter uma presença indireta - sempre que possível, acreditando na concorrência. Eu penso que não há nada mais saudável do que a concorrência. Os empresários não querem moleza. Querem um ambiente previsível, limpo, para concorrer, inovar, investir e assim por diante. Hoje eles são meio reféns da situação e isso não é o ideal. Depois da guinada, as coisas foram evoluindo. Houve a chegada do PT ao poder - num primeiro momento, uma excelente surpresa. Agora, de uma certa maneira, estamos retrocedendo. O presidente Fernando Henrique, naquela comemoração, fez menção a um ponto claro, como aliás é do feitio dele, sobre a atuação do governo. Usando minhas palavras, mas colocando mais o ou menos o que ele disse: a fase de uma presença e de atuação do governo em vários desses pontos, saúde e educação, por exemplo, já alcançou quantitativamente um tamanho bom. Mas agora chegou a fase da qualidade. O Estado precisa melhorar a qualidade dos serviços que entrega para a população. Além desses dois, o tema da segurança é um dos mais importantes e o tema da regulação, idem. Tem muita coisa a ser feita do ponto de vista qualitativo. Foi o que ele colocou lá e eu penso que é uma boa maneira de definir o que é preciso fazer.

O que fazer com a política do salário mínimo, que começa a ser revista no início de 2015?

É outro tema que precisa ser discutido. O salário mínimo cresceu muito ao longo dos anos. É uma questão de fazer conta. Mesmo as grandes lideranças sindicais reconhecem que, não apenas o salário mínimo, mas o salário em geral, precisa guardar alguma proporção com a produtividade, sob pena de, em algum momento, engessar o mercado de trabalho. A política do salário mínimo tem tido impactos relevantes. É um tema muito complexo e polêmico. Não tenho uma receita pronta. Estou prestando uma assessoria ao senador Aécio Neves, mas não estou entrando neste nível de detalhe. Outras perguntas que chegam com frequência é sobre como fazer a reforma tributária, o que fazer com as desonerações, o que fazer com os preços congelados - vão liberar de uma vez, vão fazer gradualmente? São questões da maior importância. Quem assumir o governo vai ter de pensar em tudo isso. Mas o tema é polêmico. Eu gosto muito de analisar as coisas antes de emitir uma opinião. É opinião antiga, de gente que faz conta, que o vínculo do salário mínimo com a previdência tem um custo. Como ocorre em todos os outros temas, é preciso pensar em custos e benefícios. Nesse ponto, entramos no terreno da política, onde não me sinto à vontade para entrar, especialmente neste momento. É fácil ser mal interpretado.

O sr. mencionou que o importante é ter um ambiente favorável aos negócios. Estão pensando também na reforma trabalhista?

É outro tema. Não tenho dedicado muito tempo a essa área. Todo economista que fala de reforma no Brasil cita as reformas tributária, trabalhista, previdenciária. São temas antigos. Eu não teria uma proposta. O Brasil, bem ou mal, está com o desemprego baixo. Talvez não seja um tema tão urgente quanto o da reforma tributária.

E além da reforma tributária, há outra reforma prioritária?

Sim. Toda a política externa do Brasil precisa ser repensada. Essa estranha predileção por parcerias e aproximações com regimes autoritários, como Cuba e outros exóticos, não tem trazido nenhum benefício ao Brasil. Não quero dizer que o Brasil não precisa ter um diálogo com todo mundo, com a Venezuela, por exemplo. Mas o Brasil precisa se engatar nas grandes locomotivas mundiais. Esse é um ponto muito importante. Já não é de hoje que vejo com muita preocupação a posição do Brasil no ranking do Banco Mundial chamado Doing Business. É um ranking de ambiente de negócios e o Brasil está lá embaixo na classificação. Não me lembro exatamente a posição, mas sei que ele está lá atrás. Eu penso que o Brasil poderia tratar de todas essas dimensões.

Em termos de política externa, o que deveria ser feito?

Como a maioria dos economistas, tenho muita simpatia por acordos multilaterais. Mas esse front não tem avançado. Quem sabe agora, com o embaixador Roberto Azevêdo (diplomata brasileiro, diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, a OMC), as coisas comecem a andar. Ele começou muito bem. Mas é uma tarefa muito difícil. O Brasil precisa estar preparado para entrar nela e ter, claro, do outro lado, uma costura igualmente aberta. A própria postura dos Estados Unidos tem sido difícil em temas como o setor agrícola e o antidumping. Esse é um caminho. Mas, na prática, em paralelo à OMC, a maioria dos países tem feito acordos bilaterais e regionais. O Brasil precisa avançar nesse direção. Primeiro, imagino, com a Europa, que já está pipeline (expressão em inglês que significa roteiro) há algum tempo. Eventualmente, poderíamos pensar algo com Estados Unidos e China. Talvez seja necessário repensar o Mercosul também. Especialistas acreditam que o Brasil, a essa altura, poderia transformar a união aduaneira num tratado de livre comércio. Tenho simpatia pela ideia.

O sr. é a favor da autonomia do Banco Central?

Sou. E sou porque, na prática, é o que os governos tendem a fazer na maior parte do mundo. Eu gosto de usar a nomenclatura "autonomia operacional". Ou seja: a definição das metas ficaria com o governo e, claro, deveriam ser metas de longo prazo para não ficarem expostas aos ventos do círculo político. Mas o governo preservaria esse direito. Isso significa ter mandatos para os dirigentes do Banco Central. Claro que se houvesse problemas na atuação, se não estiverem cumprindo os seus objetivos, o governo, no limite, poderia pedir ao Senado a remoção de quem for, inclusive do presidente. Esse é um sistema bem testado e requer um Banco Central transparente. Mas, hoje, ninguém questiona isso. Eu passei pelo Banco Central e posso garantir: uma das grandes vantagens do modelo de metas da inflação é justamente a interação com os analistas, os economistas, os consultores que trabalham, no fundo, de graça para o Banco Central. O Banco Central apresenta suas ideias, explica o porque de suas ações e recebe as críticas, que são extremamente úteis. Funciona bem. Claro que precisa ser um sistema flexível, no sentido de o Banco Central poder e dever trabalhar para suavizar o ciclo econômico - é uma função clássica - e ser o guardião da estabilidade financeira. Esse seria o desenho. Eu creio que isso deva ser transformado em lei.

Na sua passagem pelo Banco Central, em 1999, o sistema de metas de inflação serviu como uma âncora. Nesse momento de transição, que o sr. descreve como difícil, o sistema de metas pode ser um âncora ou será preciso outra política?

O sistema de metas de inflação é muito bom, mas sozinho não chega lá - é preciso uma âncora fiscal. Foi o que aconteceu naquela época. Lembro muito bem do esforço fiscal, naquele momento muito maior e, em paralelo ao esforço de aumentar o saldo primário, houve também todo um trabalho que desembocou na Lei de Responsabilidade Fiscal. Nós que estávamos no governo na época já procurávamos cumprir. O projeto já havia sido apresentado e aquilo era uma bússola para o nosso trabalho. Sem o fiscal, o sistema de metas teria fracassado. Eu penso que a situação hoje é idêntica nesse sentido. O momento naquela época era mais turbulento, porque havia medo que a inflação voltasse a níveis elevados. Primeiro, as expectativas no início de 1999 eram muito dispersas, depois, muito elevadas, entre 20% e 50%. Nós tínhamos saídos de um ambiente hiperinflacionário, a duras penas. Antes do Plano Real, vários planos foram testados e deram errado. Havia um receito naquele momento: será que vai ser mais um caso como os outros? Felizmente, não foi. Mas foi preciso um esforço fiscal que, aliás, foi anunciado pelo presidente antes da eleição - isso é muito importante. Ele teve a coragem e o bom senso de pactuar isso com a sociedade e, depois, pôde fazer as coisas com toda a tranquilidade. De novo, eu repito o que disse para a situação de hoje: o custo para o ajuste é muito menor que o custo do não ajuste. Naquela época, as projeções para o crescimento do PIB eram menos 4% em janeiro de 1999. Depois, acabou sendo ligeiramente positivo - uma diferença de 4%. Eu sou a favor que as providências sejam tomadas.

Nessa reorganização, como ficam os repasses dos bancos públicos, como BNDES?

Esse é um daqueles temas. Eu penso que o trabalho dos bancos públicos carece de mais análise e transparência. Não existem estudos sobre o que o BNDES vem fazendo há décadas. Eu até conheço o trabalho do BNDES e creio que um estudo seria bastante interessante. Mas o BNDES vem se agigantando, fazendo empréstimos a taxas muito baixas, sem, ao meu ver, uma análise do impacto social desses programas, até para que se possa decidir se vale a pena continuar ou não. Carece de transparência. Minha impressão é que vai ser preciso fazer essa análise - e o papel do BNDES, a médio prazo, será menor. Não há muita dúvida. É preciso dizer que a maioria das atividades não precisa de subsídio. Eu já disse isso. Os empresários precisam ter um ambiente bom para trabalhar, mas não há necessidade de subsidiar. Até acho que os subsídios põem pressão na taxa de juros para o não favorecidos.

Qual seria o papel da indústria?

O papel da indústria é muito importante. É inegável que a nossa indústria vive um momento difícil. O ataque nessa questão precisa ser feito em várias frentes. Toda essa questão do Custo Brasil, da infraestrutura, da questão tributária faz parte da resposta, bem como a integração do País às cadeias globais. Eu penso que as lideranças empresariais - hoje muito bem representadas por pessoas como Pedro Passos (sócio da Natura e Presidente do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), que vêm revolucionando a maneira de pensar o setor - têm uma visão mais holística da coisa. Mas é inegável, também, que a evolução natural do desenvolvimento leva o setor de serviços a ficar maior do que o da indústria. Não há problema nisso. Às vezes, as pessoas pensam que só é bom o que elas podem pegar, mas não é assim. Só para citar um exemplo: há os serviços de saúde. Tem coisa mais importante do que a saúde? Vai ser natural: com o tempo, o setor de serviços vai ganhar mais espaço. O turismo, o entretenimento, a saúde, a educação. Mas está claro que a indústria precisa de uma atenção. Tem cura. O Brasil é grande. Não tenho medo nessa área, mas vejo muitas dificuldades.

O sr. viveu duas transições na prática - a de 1998 para 1999 e depois o final do governo de Fernando Henrique para o de Lula. Agora está no meio do debate de uma eventual transição. Há comparações entre os diferentes momentos?

Eu vivi outra transição. Fui diretor do Banco Central em 1991 e 1992. Fiz parte da segunda equipe econômica do governo Collor (ex-presidente Fernando Collor de Mello) para criar as condições de estabilização. Foi uma tremenda encrenca aquela época. Eu acho que faz parte do processo de amadurecimento. Se eu puder colaborar, estou disposto. Desde que haja - e no caso do meu relacionamento com o senador Aécio há - um alinhamento muito grande de visões de sociedade, de governo. É uma visão genuinamente progressista e eficiente, que tem capacidade de entregar resultado. Eu fiquei muito contente quando ele me procurou.

E faz quanto tempo?

Eu o conheço há mais de 20 anos. Não foi uma coisa da noite para o dia. Mas a conversa começou em janeiro de 2013 e se aprofundou nos últimos meses. De novo: eu estou mais na estratégia do que na prática. Não faço parte da campanha. No momento, eu não posso e não é isso que ele espera de mim. Mas, eventualmente, se ele tiver sucesso - e eu acredito que terá - eu estou a disposição.

Como sr. está vendo o cenário eleitoral?

Muita água ainda vai correr. Há um clara insatisfação com o que se tem hoje. Há espaço para a mudança. Eu espero que isso aconteça - não vou esconder as minhas preferências que são óbvias a essa altura -, mas penso que seria bom, de qualquer maneira, que aconteça. Eu acredito no debate que acontece pela imprensa, mais no caderno econômico do que no de política, aqui no Brasil. O debate econômico é muito bom. Eu leio os jornais de outros países. O Brasil tem densidade nessa discussão. É preciso que essa densidade seja de alguma utilidade também para o debate político. Isso tudo pode ser muito bom, mesmo que seja o ano em que os governos costumam esticar um pouco acorda para se reelegerem.





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    Estadão 

    Não faz muitos anos, sempre que eu voltava de qualquer estadazinha no exterior, por mais curta que tivesse sido, caía em cima de jornais e revistas brasileiros com uma fome de javali, lamentando sempre não ter estado presente a tal ou qual episódio. Só não lamentei em 64, porque mandaram me prender, acho que em meados do ano, e eu, Deus é grande, desde fevereiro estava, vejam vocês, estudando na Califórnia, com bolsa americana. Eu devia ser um tremendo subversivo safado mesmo, disseminando ideologias exóticas com a maior desfaçatez, no seio da pátria capitalista e ainda por cima à custa dela, sem tocar num miligrama do ouro de Moscou.

    Havia rumores horripilantes e diziam que as cartas eram lidas pelos órgãos de segurança, além de todo mundo ser suspeito de deduragem. Os jornais eram difíceis e estavam sob censura ou severa marcação. Glauber apareceu em Los Angeles, vindo do México, onde lhe contaram que pegaram um colega de turma nosso, lhe enfiaram uma granada na boca e puxaram o pino. Bem mais tarde, já em Salvador, eu soube que esse colega tinha morrido mesmo, mas de um tumor no cérebro - sabe como é, tumor no cérebro, cabeça explodindo, clima de boataria sinistra, o pessoal vai confundindo as coisas. A gente acreditava em tudo, é claro, e aí, quando assustaram minha mãe, botando na televisão minha cara e meu nome completo (que é indecentemente comprido) e dizendo que eu estava sendo procurado por subversão ou crime contra a segurança nacional, fui me aconselhar com um ilustre professor meu, dr. Sherwood, e disse a ele que, com aquela conversa de granada na boca e similares, eu não voltaria ao Brasil nem arrastado. Ele me tranquilizou, daríamos um jeito.

    Mas não precisou. Transcorrido o tempo que passei em Los Angeles, já tinham esquecido minha subversão, até porque fui um subversivo de quinta categoria e nem acertei a me tornar comunista, apesar de haver chegado a encarar O Capital - se bem que mande a honestidade confessar que não passei das primeiras cem páginas, se tanto. Mas, até mesmo por causa do clima político da época, minha avidez de saber tudo o que sucedera em minhas ausências do Brasil só fez crescer.

    Agora não. Cheguei de volta e não corri atrás de revista ou jornal nenhum, mal e porcamente espiei os noticiários da internet. Estava fora e minhas duas crônicas mais recentes foram, digamos, de viagem. Agora talvez esteja na hora de voltar aos assuntos locais. É, pode ser, mas, espero que com a vênia dos gentis leitores, resolvi que não volto. Semana que vem, eu volto, quem sabe, aí já deve ter havido tempo bastante para a descompressão. Mesmo a passada de olhos rápidos e apreensivos que dei nas notícias mostrava que as novidades eram as velhidades de sempre, em suas cada vez mais exuberantes manifestações. Não há teclado que aguente, nem juízo que não amoleça.

    Explicado o transe, passo a comentar, a troco de nada, um documentário a que assisti, complementado por um par de leituras curiosas. É sobre uma novidade japonesa. Segundo essas fontes, o Japão está longe, muitíssimo longe de ser uma nação pudica e de sexualidade reprimida, como muita gente acha. Dizem elas que o negócio lá é da pá virada e tudo quanto é serviço ou prática sexual tem uso corrente e aceito socialmente, dentro de algumas linhas mestras (que eles não dizem quais são, mas devem ser todas abaixo da cintura).

    Bem, não sei direito, nem vem muito ao caso. O caso é que agora estão comerciando por lá o xodó. É o seguinte, por exemplo: o freguês ou a freguesa não querem casar ou ter compromisso. Comumente, compram o sexo que desejam, do jeito que desejam, com os parceiros que desejam. Mas cada vez mais se espalha entre eles a falta de um elemento presente nos antigos namoros, noivados e casamentos. Aquele chameguinho, a convivência de segredos, mãozinhas dadas e dedinhos entrelaçados, bolinação discreta no cinema, ciumeirinhas e arrufos, pipoquinha na boca, risadinhas cúmplices, mãos dadas na calçada - enfim, namoro mesmo, namorico. Tudo isso abrange romance nos gestos, olhares e palavras, mas sem envolvimento emocional de nenhum dos dois lados e imagino que cobrado por hora. O contratado faz uma espécie de papel teatral, o contratante também. E há quem goste de repetir o parceiro e quem não goste, há quem não faça sexo com o contratado, há todos os tipos. Os japoneses são danados, daqui a pouco aparecem com um aplicativo de iPhone que baixa papos chameguentos de vários tipos, debitados na conta do celular. Acho que o próximo passo será contratar cônjuges por hora ou temporada. Ou já se faz isso, inclusive aqui? Será que Nelson Rodrigues tinha razão, quando disse que o dinheiro compra tudo, inclusive amor sincero?

    *

    P.S. - Sei que disse que não ia tocar em certos assuntos, mas acaba não dando para segurar e aí me despeço com umas perguntinhas locais. Caso sejam descabidas ou asnáticas, perdoem a ignorância - e perguntar não ofende. A primeira pergunta é sobre o prejuízo da Petrobrás, com a compra da tal refinaria. Já que ninguém sabia do negócio, a compra se fez sozinha? E, mais uma coisa, não havia um tal "domínio do fato" no caso do mensalão, ou seja, quem está no comando não tem responsabilidade ou culpabilidade? Ninguém tinha domínio do fato, na cúpula da Petrobrás? Assinaram sem ler a aprovação de um negócio que já foi qualificado de criminoso, contra o patrimônio da empresa. Não pega nada? Segundo eu soube, o deputado Genoino não escapou da cana em parte por ter assinado uns cheques sem lê-los. Finalmente, uma homenagem a meu saudoso amigo Zózimo: "E o pessoal do kkkkk, hein? Vai continuar cacacacando".


    sábado, abril 12, 2014

    Competitividade é o nome do jogo Josef Barat

    O ESTADO DE SÃO PAULO - Economia e Negócios

    Quarta Feira, 09 de Abril de 2014.


    Num mundo em que a produção e o consumo são globalizados, o nome do jogo é Competitividade. E como um país torna a sua produção competitiva? O fator crucial chama-se Produtividade, que significa tirar dos fatores de produção o melhor rendimento por unidade aplicada. Ou seja, ao entrar no jogo, o objetivo é produzir mais e melhor ao menor custo. Assim, os fatores de produção Capital, Recursos Naturais e Recursos Humanos devem se combinar da forma mais eficiente a um dado nível de desenvolvimento tecnológico. Como a tecnologia permeia as funções de produção e como a sua evolução tem uma dinâmica cada vez mais veloz, se o uso dos fatores de produção não a acompanha, compromete-se o potencial de desenvolvimento.

    As vantagens competitivas de um país dependem, portanto, da disponibilidade dos fatores de produção, associada à capacidade de inovação por meio de novas tecnologias. Em países ou regiões menos desenvolvidos, o capital é o fator escasso, os recursos humanos são abundantes – porém com baixo nível de qualificação – e os recursos naturais podem ou não representar um ativo relevante. A natureza pode não ser favorável, mas com alta qualificação de seus habitantes e capacidade inovadora pode-se atingir altos níveis de renda. Assim, por exemplo, a Coréia do Sul, país pobre em recursos naturais e com população pouco maior, gera o dobro do PIB da Argentina, país abençoado pela natureza e um povo razoavelmente culto. Acontece que, para a Coréia, produtividade, inovação, qualificação do fator humano e alto desempenho das infraestuturas fazem parte do seu perfil competitivo.

    E o Brasil como se sai neste jogo? Na partida temos três vantagens importantes: extensão continental, amplo mercado consumidor e uma natureza ainda pródiga, apesar de séculos de ocupação predatória, desmatamentos e poluição das águas. Dá para se sair bem no agronegócio e em alguns segmentos industriais, pela incorporação de tecnologias avançadas e uma reconhecida capacidade empresarial. Mas ao longo do jogo, constata-se a dificuldade na chegada, pois as infraestruturas necessárias para dar suporte ao desenvolvimento são obsoletas, insuficientes ou degradadas. Os recursos humanos qualificados são escassos, enquanto os sem qualificação são abundantes e não atendem os requisitos de uma economia moderna. É muito baixa a capacidade de inovar e gerar conhecimento, pela escassez de centros de pesquisa e universidades de relevo.

    Por outro lado, a capacidade empresarial, embora potente, depara-se permanentemente com grandes obstáculos: carga tributária irracional e extorsiva; escassez de mão de obra adequada; inflação que distorce custos; insegurança jurídica e assédio de agentes públicos corruptos. Como quem gera a riqueza de um país é o trabalho e o empreendedorismo, a nossa participação no jogo da competitividade já fica comprometida antes de vislumbrar o final. A preservação da indigência educacional – que avilta o trabalhador – e do sistema tributário – que inibe o empreendedor – reduzem consideravelmente as vantagens iniciais apontadas na entrada do jogo. Os níveis de produtividade da atividade econômica são muito baixos, salvo as honrosas exceções de praxe. É difícil reverter esse quadro a curto e médio prazo, principalmente quando o país se deixa levar apenas pelo oportunismo de novas dependências e por políticas públicas imediatistas, sem visão estratégica.

    O mais grave, por fim, é o inevitável declínio da credibilidade do país, associado a esse quadro. Num momento em que precisamos de investimentos, qualquer investidor olha com desconfiança um país onde se vislumbra descontrole das contas públicas; inflação ficando fora de controle; tribunais onde a justiça tarda, falha e gera insegurança; um Congresso incapaz de se debruçar sobre as grandes questões; além de um mal estar social pairando no ar. É muita areia para este caminhão chamado Brasil, obsoleto, vacilante, sem rumo e já dando mostras de fadiga do material...


    Josef Barat - Economista, Consultor de entidades públicas e privadas, é Coordenador do Núcleo de Estudos Urbanos da Associação Comercial de São Paulo.

    Celso Ming O gato de Schrödinger

    O gato de Schrödinger - economia - versaoimpressa - Estadão
    Quem ouve as entrevistas de algumas autoridades brasileiras da área econômica corre o risco de achar que este é um dos países avançados em física quântica.


    Pois, em física quântica, tem o gato de Schrödinger. Em famoso debate com Albert Einstein, em 1935, o físico austríaco Erwin Schrödinger propôs um experimento em que um gato estaria vivo e morto ao mesmo tempo. (Para explicações pormenorizadas, confira no Google.) E a mesma física quântica apresenta o Princípio da Incerteza, formulado em 1927 pelo físico alemão Werner Heisenberg, segundo o qual o observador nunca consegue determinar a posição exata de uma partícula subatômica, porque ele próprio altera a posição do objeto.

    O ministro Guido Mantega, por exemplo, repete que a inflação é temporária e está sob controle, o que contraria a percepção das pessoas comuns que há meses se assustam quando vão à feira. Às vezes, Mantega também diz, como a partir de 2011, que a forte oferta de dólares no câmbio interno é o produto de uma guerra cambial promovida por grandes bancos centrais e deve ser revertida por subtrair competitividade à indústria dos emergentes. Outras vezes, como agora, o ministro sustenta que a forte entrada de dólares é bem-vinda porque ajuda a combater a inflação e já não sustenta que é coisa ruim, causada pela guerra cambial, ainda que a ação dos bancos centrais continue.

    Mantega não é o único. O secretário do Tesouro, Arno Augustin, está sempre pronto a produzir fenômenos quânticos, especialmente quando se trata de calcular as contas públicas. Em síntese, as autoridades dizem que estão vendo uma coisa enquanto os demais estão vendo outra. Mais, ainda, em momentos diferentes, a mesma coisa é vista de outro jeito, como no caso da guerra cambial, que agora joga a favor.

    Em política existem ainda dois princípios sobre como proceder diante de coisas ruins e de coisas boas. Velho procedimento determina, por exemplo, que as ruins devem ser escondidas e as boas, escancaradas. A ideia é sempre tirar proveito próprio do que acontece ou deixa de acontecer. Outro princípio de sabedoria política, enunciado pelo pensador Nicolau Maquiavel, é o de que o príncipe (o dirigente) deve fazer o mal de uma vez e o bem, aos poucos.

    Quando não é claro ou escamoteia a realidade, o dirigente tenta reduzir um problema. Ao dizer que a inflação está sob controle e é suportável, não quer enfrentar o custo político do ataque às causas. Mas, quando admite que a distribuição à população de determinadas contas a pagar só ocorrerá depois das eleições, cria o problema de como isso se fará, se aos poucos ou se de uma vez. Pelo conselho de Maquiavel, é melhor que o atraso das tarifas da energia elétrica, dos combustíveis e dos transportes urbanos seja descarregado de uma vez. Mas já há quem avance que uma marretada assim provocaria vítimas demais. Daí por que melhor seria distribuí-las em marretadinhas sucessivas.

    O problema adicional é que tudo isso cria incerteza, que não guarda simetria rigorosa com o princípio de Heisenberg. Para o empresário que planeja um investimento ou para o consumidor que tem em mente uma grande compra, fica difícil saber em que terreno estará pisando dentro de um ano. Nem que se aprofunde em física quântica.


    domingo, abril 06, 2014

    Sem mistificações - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

    PERCA TEMPO - O BLOG DO MURILO: Sem mistificações - FERNANDO HENRIQUE CARDOSO

    O Estado de S.Paulo - 06/04

    Quando me empenhei em fazer algumas reformas e modernizar a estrutura produtiva do Brasil, tanto das empresas privadas quanto das estatais, não o fiz movido por caprichos ou por subordinação ideológica. Tratava-se pura e simplesmente de adequar a produção brasileira e o desempenho do governo aos novos tempos (sem discutir se bons ou maus, melhores ou piores do que experiências de tempos passados). Eram, como ainda são, tempos de globalização, impulsionados por novas tecnologias de comunicação e informação, como a internet, e por avanços nos sistemas de transporte, como os contêineres, que permitiram maximizar os fatores produtivos à escala mundial. Daí por diante a produção se espalhou pelo mundo, independentemente do local de origem do capital. Os mecanismos financeiros, por sua vez, englobaram todos os mercados, interligados por computadores.

    Nas novas condições mundiais, ou o Brasil se integrava competitiva e, quanto possível, autonomamente aos fluxos produtivos do mercado ou pereceria no isolamento e em desvantagem competitiva, pelo atraso tecnológico e pela ineficiência da máquina pública. As privatizações foram apenas parte do processo modernizador. Tão importante quanto foi a transformação do setor produtivo estatal. O objetivo era transformar as empresas estatais em companhias públicas, submetidas a regras de governança, fora do controle dos interesses político-partidários, capazes de competir e de se beneficiar das dinâmicas do mercado.

    A zoeira das oposições, Lula e PT à frente, foi enorme. Acusavam o governo de seguir políticas "neoliberais" e de ser submisso ao "consenso de Washington". A cada leilão para exploração de um campo de petróleo (especialmente daquele onde se veio a descobrir óleo no pré-sal) choviam protestos e mobilizações de "organizações populares", bem como ações na Justiça para paralisar as decisões. Com igual ou maior vigor, as oposições e os setores da sociedade que ainda não se haviam dado conta das transformações por que passava a economia global protestavam contra as concessões de serviço público, como no caso da telefonia, e iam ao desespero quando se tratava de privatizar uma companhia como a Vale do Rio Doce ou as siderúrgicas (que, aliás, foram privatizadas nos governos Sarney e Itamar).

    Alegava-se que as empresas eram vendidas na bacia das almas, por preços irrisórios. Na verdade, no caso da telefonia, venderam-se 20% de suas ações, as que garantiam seu controle, por R$ 22 bilhões, preço que superou em mais de 60% o valor mínimo estabelecido. Além disso, a privatização permitiu um grande volume de investimentos nos anos seguintes, sem falar do salto tecnológico e do aumento de produção que as privatizações renderam ao País. Passamos, por exemplo, de 2 milhões de celulares nos anos 1990 a 260 milhões hoje em dia.

    Dizia-se que as privatizações reduziriam os empregos, quando houve uma expansão extraordinária deles. Que a Vale estava sendo trocada por nada, quando foi difícil encontrar contendores no leilão porque seu valor, na época, parecia elevado, e se hoje vale bilhões foi porque houve investimento e ação empresarial competente (diga-se de passagem, em impostos hoje a Vale paga muito mais ao governo, por ano, do que pagava em dividendo quando era uma estatal). A Embraer, de quase falida, passou a ser uma das maiores empresas do mundo.

    Isso tudo foi paralisado a partir do governo Lula, no afã de manter a pecha sobre o governo anterior de "vendedor do patrimônio nacional" e de neoliberal. Nada de concessões, privatizações nem modernização que cheirasse a globalização. Enquanto os ventos do mundo favoreceram a valorização das commodities agrominerais, graças à China, e houve abundância de dólares, a máquina econômica rodou a todo o vapor e deu a ilusão de que bastaria expandir o crédito, baixar os juros e incentivar o consumo para o PIB crescer e o bem-estar se generalizar. A crise financeira global de 2007/9 ensejou ao governo Lula a oportunidade, bem aproveitada, de fazer políticas anticíclicas, com resultados positivos. Terminados os efeitos mais dramáticos da crise, os governos de Lula e Dilma fizeram uma leitura equivocada: estava dada a licença para enterrar o passado recente dos anos 1990 e aderir sem rebuços ao populismo econômico: mais Estado, mais impostos, menos juros, mais salários, mais consumo e às favas com as concessões e modernizações, às favas com o papel regulador do Estado - pelas agências - em relação ao mercado.

    Deu no que deu. O governo Dilma, premido pelas dificuldades de fazer a máquina pública andar e pela sociedade, que exige melhor qualidade dos serviços, redescobriu as concessões (ah, mas não são privatizações, dizem, como se outra coisa tivesse sido feito com as telefônicas...). E as faz mal feitas: pouco dinheiro privado e muito crédito público. Dá-se conta agora de que a retomada das empresas estatais pelos partidos, como se vê na Petrobrás e na Caixa, bem como o uso abusivo do BNDES, deu mau resultado. E ainda houve uma perda bilionária de recursos, criaram-se novos "esqueletos" (dívidas não reconhecidas publicamente) e contabilidades criativas impostas para esconder transferências de recursos não declaradas no Orçamento.

    Como deve estar arrependida a presidente Dilma, no caso da Petrobrás, de não se haver desembaraçado do ônus político legado por seu antecessor, que permitiu ao interesse privado e político penetrar a fundo nas empresas estatais...

    Apesar de tudo, PT e governo já se estão preparando para enganar o povo na próxima campanha eleitoral fazendo-se de defensores do interesse popular, como se este se confundisse com estatização e hegemonia partidária, e estigmatizando os adversários como representantes das elites e fiadores dos interesses internacionais.

    Cabe às oposições desmistificar tanto engodo, tomando à unha o pião dos escândalos da Petrobrás, rechaçando a pecha ideológica de "neoliberal" e reafirmando a urgência de mudar os critérios de governança das estatais.


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    Vara curta - DORA KRAMER

    PERCA TEMPO - O BLOG DO MURILO: Vara curta - DORA KRAMER

    O Estado de S.Paulo - 06/04

    Essa história tem 30 anos. O senador Aécio Neves lembrou-se dela outro dia, quando a pesquisa do Ibope registrou queda na popularidade da presidente Dilma Rousseff e, no PT, agitaram-se as vozes defensoras do "volta, Lula".

    Mário Andreazza e Paulo Maluf disputariam a legenda da Arena para a candidatura presidencial. Para Tancredo Neves, avô de Aécio, então seu secretário particular, interessava a vitória de Maluf na convenção, pois Andreazza teria, na sua avaliação, mais condições de vencê-lo no colégio eleitoral de janeiro de 1985.

    Tancredo, então, resolveu "confidenciar" a uma jornalista que corria um burburinho sobre uma possível renúncia de Maluf à candidatura. No dia seguinte, diante da manchete, Maluf desmentiu com veemência, reafirmando a postulação da qual, jurou, não desistiria de forma alguma.

    Inspirado nesse episódio, o agora candidato à Presidência da República há cerca de dez dias decidiu abordar pela primeira vez o assunto da possibilidade de o ex-presidente ser candidato nesta eleição, dizendo que para ele tanto faz enfrentar Lula ou Dilma.

    Voltará ao tema sempre que considerar oportuno. Oportunidade esta de atingir múltiplos objetivos. O primeiro foi lançar um dos motes da campanha, que é a ideia de derrotar "o modelo do PT" independentemente de quem for o candidato a fim de capitalizar "uma antipatia generalizada que existe contra o partido".

    O segundo, desmistificar a figura de Lula como um candidato considerado imbatível. "Quis mostrar que não temos medo." Outro, e aí a provocação assemelha-se ao gesto do avô, amplificar o coro do "volta Lula" de forma a mais cedo ou mais tarde obrigar a presidente Dilma a reafirmar sua candidatura.

    Qual a finalidade? Evidentemente, tornar cada vez mais difícil a hipótese da troca de nomes. Além disso, na concepção do tucano, falar abertamente na possibilidade de outra candidatura que não seja a da reeleição de Dilma é uma maneira de disseminar a cizânia no campo adversário e dar a entender que o jogo do lado de lá não está definido.

    Além disso, Aécio Neves quis mandar um recado à própria tropa, pois considerou que o PSDB estava muito passivo diante do assunto. Melhor dizendo, acuado mesmo. "Achei que era hora de furar essa bolha, tratar o tema com naturalidade porque Lula não é um fantasma nem é uma unanimidade."

    Arsenal. Os adversários já contam com a ausência da presidente Dilma Rousseff nos debates antes do primeiro turno das eleições.

    Ainda assim vão explorar o tema Petrobrás, deixando no ar à presidente os questionamentos tanto sobre os negócios que renderam prejuízos quanto a respeito da redução do valor e da capacidade de investimento da estatal durante sua gestão.

    Isso nos debates e nos programas do horário eleitoral. Dilma será convidada a explicar também por que o governo se empenhou tanto contra a CPI.

    A Petrobrás será presença recorrente na campanha. Pesquisas internas feitas no campo da oposição identificaram que mais de 70% dos consultados já ouviram falar das denúncias "de corrupção" (a pergunta foi posta nesses termos) na empresa e que o assunto é de fácil entendimento por parte da população.

    Tudo junto. Para tentar superar as dificuldades do PSDB no Rio, Aécio Neves vai jogar em duas vertentes: na aliança informal com o PMDB e na candidatura própria ao governo do Estado.

    Enquanto no oficial assegura apoio à presidente Dilma, no paralelo Sérgio Cabral Filho cala e consente ante a articulação do voto "Aezão" por pemedebistas defensores do apoio ao tucano para presidente e Luiz Fernando Pezão, candidato de Cabral, para governador.

    A fim de marcar presença do número 45 na disputa, o PSDB estuda lançar a candidatura de um economista. Está entre três nomes: Elena Landau, Edmar Bacha e Gustavo Franco.


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    Vista aérea do passado -Humberto Werneck

    Vista aérea do passado - cultura - versaoimpressa - Estadão
    Estadão 
    Por alguns segundos meu olhar farejou aquele mar de telhados, ávido como num jogo dos sete erros, até achar o que buscava. E aí, também como no jogo, ficou quase impossível ver outra coisa na paisagem em preto e branco: como pude não localizar de cara a nossa casa, inconfundível, a maior do quarteirão, se dava para ver até o flamboyant plantado por meus pais quando lá chegamos, em abril de 1947, o já enorme flamboyant expansionista cujos galhos haveriam de estender sua sombra até quase o outro lado da rua?
    Saciado, o olhar pode agora passear pelas imediações, e cada reencontro é uma alegria. Na mesma quadra, para começar, convivendo ainda com espaços vazios, reconheço as casas do vovô Santos, dos tios Fernando e João Antônio, do dr. Euler, do dr. White Lírio da Silva - para a molecada das vizinhanças, dr. Branquinho da Silva. A residência dos Cardellini, cuja nacionalidade italiana viera tornar menos unânime a brasileirice do nosso bairro, quebrada também pelo suíço Georges Pavie, o iugoslavo Jerko Ledic, o turco (ou já seria libanês?) Bechara do armazém e por um alemão impronunciável.
    Volto à foto aérea, feita em 1955, e me pergunto se na rua de baixo já se instalou a família búlgaro-mineira de que faz parte uma dentucinha de óculos, a Dilminha, sobrenome Rousseff, que no começo dos anos 60 fará parte da nossa turma de bairro. Num tempo em que todo mundo morava em casa (não há na imagem um só prédio de apartamentos), a chegada de um novo morador, estrangeiro ou não, era um acontecimento. As mães de família se apressavam em visitar os recém-chegados, não raro em revoada e munidas, qual Reis Magos, de pratinhos com alguma guloseima. Não se tratava, claro, de hospitalidade em estado puro; as boas-vindas eram ocasião também, ou sobretudo, para xeretar as armas & bagagens dos forasteiros.
    Entrava-se na casa dos outros, ainda, para as novenas, quando o oratório da santa itinerante peregrinava de lar em lar. As famílias eram, de modo geral, "boas famílias" - categoria em que por certo não entrava um casal da nossa rua que, soube-se logo, não se casara nos conformes. Não convinha ter contato, talvez contagioso, com esse par juntado, amasiado, amancebado - tudo rima para pecado. A mulher, então, cujo mau comportamento se estampava até no excesso de maquiagem, essa nem pintada!
    A foto que tenho nas mãos informa que no ano de 1955 ainda não se erguera a igreja do Carmo, em cujos confessionários irei mais tarde despejar minha caçamba semanal de malfeitos quase nunca veniais, sempre os mesmos, fazer o quê?, a tal ponto que o confessor, mal me reconhecia, já vinha com a pergunta: sozinho ou acompanhado? O mesmo já acontecia na igrejinha de Santa Rita, espetada no cocuruto do morro onde morávamos. O pároco, padre Eymard, com seu álibi de "neurótico de guerra" - pois acompanhara nossas tropas na campanha da Itália -, era biruta o bastante para interromper a missa, ainda que fosse no momento da Consagração, a hóstia a meio caminho das alturas, hoc est enim corpus meum, para catar atrás do altar uma vassoura ali deixada para tal finalidade e com ela pôr para correr o cachorro que tivesse confundido a Casa de Deus com a Arca de Noé. Nesses casos, de nada adiantava o padre Eymard ter pendurado na entrada a placa formidanda: "Homens sem paletó, crianças que choram e cachorros nesta igreja: NÃO!"
    Depois de muito vadiar pela fotografia, meu olhar à nossa casa torna, e acende em mim a vontade de saber: o que acontece lá dentro no instante em que passa o aviãozinho com a câmera? Ferreira Gullar viveu experiência semelhante e fez de sua curiosidade um poema. Limito-me a imaginar em prosa que boa coisa não estarei fazendo naquele início de puberdade. Culpa de meus pais, que ainda não compraram as obras completas de Machado de Assis na edição da Jackson que até hoje me acompanha. Autodidata também em trabalhos manuais, é possível, é provável que eu esteja entregue a uma atividade da qual cheguei a me considerar o inventor. Ouço ainda o riso escarninho do mais sabido João Batista, entre baforadas de seu precoce mata-ratos, quando, orgulhoso, lhe segredei a descoberta. Pouco importa. Pioneiro ou não, assunto não me faltará no domingo, quando das entranhas do confessionário vier a indagação de sempre: sozinho ou acompanhado?





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    As coisas mudam - João Ubaldo

    As coisas mudam - cultura - versaoimpressa - Estadão
    Estadão 

    O título de hoje faz uma afirmação não muito original, mas inevitável. Não estou mais em Paris desta vez e, sim, em Berlim, cidade onde já morei e aonde volto sempre que posso, porque é das minhas duas ou três preferidas e vale muito a pena ser visitada. Quando o muro caiu, eu morava aqui. Um dos comentários mais frequentes entre os visitantes costumeiros era de que aqui, como em outras capitais europeias, a cidade já estava pronta. Ao contrário do Brasil, onde tudo parecia mudar de nome, endereço ou aparência, depois de uns poucos meses de ausência, aqui tudo estava no lugarzinho de sempre, desde o monumento grandioso à lojinha na esquina da Nürnbergerstrasse.

    Não mais. É um escândalo. Espero que, quando fizer minha indispensável revisita ao Zoológico, ainda o encontre lá, com a mesma aparência e no mesmo lugar, até porque não deve ser fácil carregar elefantes e hipopótamos de lá para cá. Claro, era de se antecipar que, com a unificação da Alemanha, a cidade fosse mudar, mas isto me aparece um abuso. O restaurantezinho de nome italiano que ficava a poucos metros daqui virou uma espécie de antro ameaçador, em que dá um certo medo de entrar. Fechou até - acreditem! - aquele restaurante ótimo do EuropaCenter, na sobreloja, onde as garçonetes eram simpaticíssimas, falavam todas as línguas e conseguiam adaptar ao freguês todos os pratos do menu. Muito inquietante.

    Mas não somente a aparência de Berlim mudou. Do ponto de vista brasileiro, agora há também notáveis diferenças. Não vim fazer palestras ou leituras desta feita, vim para bater perna mesmo, de maneira que não encontro plateias curiosas sobre nós, como de outras vezes. Parecem jazer no passado os tempos épicos em que eu era obrigado a discutir os índios que frequentavam nossos quintais no Rio de Janeiro e ser tido como deslavado mentiroso, por responder que não conhecia a Amazônia. Mas, se não há plateias para fazer perguntas interessantes, há sempre com quem trocar umas palavrinhas, sobretudo com motoristas de táxi, meus preferidos. Faz pouco tempo, o Brasil era lembrado com entusiasmo e admiração e Lula era frequentemente citado quase no mesmo tom.

    Deve ser a Copa. Não sei que assombrações podem estar sendo divulgadas na imprensa, mas agora não se referem mais, com os olhos acesos, aos traseiros de nossas mulheres e a seu temperamento tão dadivoso, amplamente apregoados pelas agências de viagem, nem mesmo lembram o sol e o carnaval, nem mesmo cantam "ai, se eu te pego". Agora querem saber se não vão ser assaltados dentro do hotel. Não fiz uma pesquisa de opinião, mas, pelo que ouvi, especialmente de Helmut, a quem já lhes apresento, a preocupação é essa. Em algumas coisas, mesmo os mais pessimistas têm dificuldade em acreditar, como os arrastões em restaurantes, mas do resto eles têm medo. Um deles chegou a me perguntar se adotamos um toque de recolher nas nossas grandes cidades, após o qual todo mundo se tranca a sete chaves e só sai de ambulância, camburão ou tanque do Exército, porque já viram pela televisão tropas de combate nos centros urbanos, do mesmo jeito que no Afeganistão ou na Síria.

    Helmut, nome fictício que empresto a um motorista de táxi amigo meu, que faz ponto numa transversal do Ku'damm (e continua lá, Deus é grande), estava com planos de comparecer à Copa, mas agora se encontra meio dividido. A violência, contudo, não é o principal fator de sua dúvida, antes pelo contrário. Não temos grande intimidade, mas agora me ocorre que ele leva uma forte parecença com Peter Lorre, no papel do Vampiro de Dusseldorf. De qualquer forma, tivemos um diálogo digno de nota, enquanto eu procurava a lojinha onde costumava comprar bagulhinhos para levar de lembrança ao Brasil e que também sumiu.

    - Eu vi outra coisa interessante sobre o Brasil, na televisão - disse ele. - Sempre vejo coisas interessantes sobre o Brasil. Nesta eu não acreditei muito, mas talvez você possa me dizer se é verdade.

    - Qualquer coisa que se diga sobre o Brasil pode ser verdade, Helmut, você já deve saber disto.

    - É, eu sei, mas isto... Bem, é o seguinte. Eu vi que o sujeito pode matar a mulher em casa, se arrumar, sair para dar parte na polícia, confessar, assinar um papel e voltar para casa na hora, sem problema, é isso mesmo?

    - Não, que é isso, também não é assim.

    - Ah, foi o que eu pensei. É porque tudo estava contado com detalhes e eu até vi as caras de uns dois que fizeram isso.

    - Bem, a verdade é que pode acontecer. A lei brasileira é muito moderna. Mas não se mata tanto assim. Nesses casos mesmo, é porque o assassino não foi preso em flagrante, é réu primário e tem domicílio conhecido. Mas não fica impune, é processado depois. E, se for condenado, vai para a cadeia, como em qualquer outro lugar.

    - Nessa reportagem, eles diziam isso. Mas ainda nenhum deles tinha sido condenado.

    - É, demora um pouco.

    - Muitos anos?

    - Sim, a depender do caso, dos advogados e assim por diante.

    - Grande país - disse Helmut.

    - Como assim?

    - Agora estou pensando em acabar minha velhice por lá. Sem aquela... Sem minha mulher, vai ser muito divertido - concluiu ele, com uma risadinha meio vampiro de Dusseldorf.






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    MAC MARGOULES. A rebelde venezuelana

    A rebelde venezuelana - internacional - geral - Estadão
    Estadão 

    Quando María Corina Machado chegou à Assembleia Nacional, na semana passada, a expectativa era grande. Afinal, sua pátria estava em brasa viva, com centenas de milhares de manifestantes nas ruas contra o governo de Nicolás Maduro, outro tanto contra estes opositores e a maioria na fila do supermercado.


    Enquanto ardia o país da deputada venezuelana, o governo brasileiro seguia à risca a nova diplomacia protocolar latino-americana. Solidarizou-se em viva voz com o mandatário em apuros. Já ante a repressão truculenta dos manifestantes pelo governo Maduro, que já matou 39 pessoas e enviou centenas aos hospitais, o Planalto guardou silêncio tumular.


    É esse silêncio que hoje mobiliza María Corina. Com o carismático líder oposicionista Leopoldo López na cadeia e o moderado governador Henrique Capriles longe das ruas, hoje ela é o rosto mais reconhecido do levante popular contra o governo bolivariano. Tornou-se embaixadora da causa e veio ao Brasil para encerrar um giro internacional. Sua pauta inicial era alertar sobre o perigo que ronda a região na conflagração bolivariana.


    A caminho, viu seu mandato de deputada anulado, não por sentença judicial, voto na Assembleia Nacional, nem incapacidade física, conforme contempla a Constituição que Hugo Chávez firmou. Foi por canetada, que ao lado das bombas de gás lacrimogêneo made in Brazil é a ferramenta mais eloquente do acossado poder bolivariano. Quem assinou a ordem foi o presidente da Casa, Diosdado Cabello, o mesmo que presidiu, impávido, a sessão no ano passado em que seguranças chavistas agrediram 17 legisladores, quebrando o nariz de María Corina.


    Tudo sem palavra alguma de Brasília, nem naquela ocasião, tampouco agora. Não foi diferente na Organização dos Estados Americanos, instância máxima da diplomacia na região, onde, no mês passado, a maioria das nações patrocinaram uma molecagem com perfume de democracia. Votaram para deixar María Corina falar à cúpula das nações, mas fecharam as portas para que ninguém mais a ouvisse. Com um sim do Brasil.


    Como entender a posição brasileira? No saguão do hotel em São Paulo, rodeada de assessores, María Corina Machado abre um sorriso franco e fita o interlocutor com olhar desconcertante. "É muito difícil entender esse silêncio. A indiferença é consentimento."


    São os laços econômicos que compram a vista grossa do vizinho? "A Venezuela é um governo que sequer honra as dívidas com seus próprios fornecedores e sócios", afirmou. "As empresas internacionais não podem repatriar seus dólares. As regras mudam. O mercado deixou de crescer."


    Sobram, então, questões políticas. Ou, como prefere María Corina, "algumas afinidades ideológicas". Aí, ela não esconde seu espanto. Chegou ao Brasil em meio à reflexão nacional sobre os 50 anos do golpe. "A própria Dilma foi vítima dos atropelos da ditadura. Ela foi perseguida e torturada. Ela, que é mulher e mãe, teria de sentir a dor das mães venezuelanas", acrescentou.


    María Corina não teve audiência com a presidente Dilma e não foi recebida pelo Itamaraty. Cafezinho e conversa, só com congressistas, que a saudaram no Plenário como heroína da pátria. Um pequeno grupo de contrariados até que tentou marcar presença, com uma bandeira solitária com os dizeres "Fora Corina, golpista!". No entanto, foram expulsos pela segurança da Casa e o desagravo bolivariano morreu de inanição. Pelo menos em solo alheio.


    Enquanto escrevia este artigo, a mais tenaz oposicionista venezuelana embarcava para casa sem saber se iria para os braços do povo ou para a cadeia. Mais uma baixa do labirinto bolivariano.

    É COLUNISTA DO 'ESTADO' E CHEFE DA SUCURSAL BRASILEIRA DO PORTAL DE NOTÍCIAS VOCATIV






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    A escalada - economia - celso Ming

    A escalada - economia - versaoimpressa - Estadão
    A escalada. Estadão 

    Se a variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em março, a ser divulgada nesta quarta-feira, tiver alcançado 0,84%, como esperam os analistas pesquisados pelo Banco Central, em 12 meses a inflação saltará para 6,07%. Até junho, é alta a probabilidade de que transborde o topo da meta, de 6,5% ao ano.

    São magnitudes que, por si sós, provocarão a disparada dos mecanismos defensivos clássicos de remarcação por todos aqueles que formam preços, do quitandeiro da esquina até as grandes empresas.

    Mas este já não é o único fator que começa a detonar os mais variados reajustes por toda a economia. O represamento dos preços administrados é outro. Como é que se comporta o empresário que precisa prever recursos para a recomposição dos seus estoques, se sabe, com nove meses de antecedência, que uma carga colossal de reajustes já está programada para o início de 2015?

    O governo Dilma já anunciou que recomposições alentadas das tarifas de energia elétrica ficarão para depois das eleições. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, confessou que o problema do setor não é insuficiência de oferta de quilowatts, mas de preço. Há pelo menos mais 15% a 20% de correção de tarifas dos combustíveis e dos transportes urbanos postergados para o ano que vem. O governo também não esconde que vem aí um aumento de impostos, o que implica certa dose de inflação futura.

    Enquanto isso, empurrado por aumentos de cerca de 10% das despesas do governo federal, pelo achatamento artificial dos preços administrados represados como mencionado, pela falta até mesmo de uma campanha por redução do consumo de energia e por um mercado de trabalho que nunca esteve tão apertado, o consumo segue "robusto", como repete o Banco Central. E vai sancionando remarcações:

    A cabeleireira cobra mais e a cliente não reclama e paga; o restaurante tasca mais 10% no preço da massinha à bolonhesa e o cliente não reclama e paga; o serviço de valetes pede "30 contos" para garantir vaga por pouco mais de uma hora de estacionamento e o cliente não reclama e paga...

    Enquanto isso, o Banco Central, sempre a reboque das expectativas, está praticamente sozinho no contra-ataque à alta. Já elevou os juros básicos a 11% ao ano e continua entregando uma inflação do mesmo tamanho de quando a Selic não passava de 7,25% ao ano. Tenta diminuir a velocidade do carro na descida apenas acionando o breque de mão e tem de ouvir, até de economistas de renome, que a política monetária não funciona.

    Enquanto isso, o ministro da Fazenda repete a cada entrevista que está mais do que ótimo fazer um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) de apenas 1,9% do PIB e que a "inflação está estável, sob controle e não preocupa", mesmo quando ameaça disparar para acima do teto da meta, os tais 6,5% ao ano.

    Mas o assalariado sente na carne e no seu bolso o estrago provocado pela escalada dos preços.







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    Do golpe ao Plano Real -SUELY CALDAS

    Do golpe ao Plano Real - economia - versaoimpressa - Estadão
    Do golpe ao Plano Real Estadão 

    Março começou e terminou com o aniversário de dois importantes eventos da história recente: em 1.º de março, o País comemorou 20 anos da primeira arrancada do Plano Real e, em 31 de março (mereceu lembrar, não festejar), completou 50 anos do golpe militar que subjugou os brasileiros à tirania de uma ditadura que durou 21 anos. Entre o fim da ditadura e o início do Plano Real se passaram nove anos, nos quais José Sarney e Fernando Collor dividiram o poder - anos desperdiçados, de fiasco, muitos retrocessos e nenhum avanço no progresso econômico e social do País.

    No plano político, a ditadura foi um desastre e suas marcas são hoje lembradas para nunca mais serem repetidas: fechou o Congresso, extinguiu partidos, cassou direitos políticos, prendeu, torturou e matou opositores. Na economia o desastre foi amenizado pelo crescimento econômico, mas a renda se concentrou, os ricos se deram bem, os pobres empobreceram e a miséria cresceu. Enquanto os militares festejavam com ufanismo o "milagre econômico", o Censo do IBGE de 1970 denunciava: a renda cresceu, mas não foi distribuída. Hoje se calcula que 70% da riqueza gerada pelo "milagre" foi apropriada pelos 10% mais ricos.

    "A economia vai bem, mas o povo vai mal", reconheceu na época o general Garrastazu Médici, o terceiro dos cinco militares ditadores. "É preciso primeiro fazer o bolo crescer para depois distribuir", tentava se explicar o então ministro da Fazenda, Delfim Netto, hoje conselheiro da presidente Dilma Rousseff. Enquanto ele foi ministro, o bolo nunca foi distribuído. A inflação era alta, atrapalhava o "milagre". Não há problema, Delfim decretou um tabelamento de preços fantasioso que ninguém respeitava, a não ser a Fundação Getúlio Vargas, que o registrava no cálculo da inflação. Na gestão Geisel, o ministro Mario Henrique Simonsen desfez e denunciou a falsificação grosseira da inflação.

    Como convém a governos autoritários, o Brasil precisava ter sua bomba nuclear, e o programa começou com a construção de usinas nucleares que deixaram um passivo gigante, milhões de dólares perdidos em equipamentos enferrujados em Angra dos Reis (RJ) e o vazio da ilusória bomba. Como agora, o BNDES foi usado para distribuir dinheiro subsidiado a empresas que morreram e que lhe deram o apelido de "banco hospital".

    Na gestão do último ditador e com Delfim Netto de volta ao comando da economia, a conta chegou em 1982, trazendo uma megadívida externa, que chegou a US$ 150 bilhões (as reservas cambiais não atingiam nem 8% disso), e uma moratória que mergulhou o País em grave recessão, arrocho salarial, desemprego, tragédias sociais. Para conseguir dinheiro do FMI, Delfim assinou muitas cartas de intenção, com promessas fantasiosas, nunca cumpridas e que marcaram o Brasil com o carimbo de "país moleque".

    Heranças dos governos militares, na gestão Sarney pioraram muito a dívida pública (interna e externa) e a hiperinflação, que atingiu o impressionante recorde de 85% no mês e 5.000% no ano no final do governo. Seis planos de estabilização não conseguiram controlar a inflação, a dívida externa foi negociada, mas a interna só crescia. Com zeros seguidamente cortados e nomes alterados, a moeda continuava desmoralizada, os preços subiam várias vezes ao dia e o brasileiro perdeu a noção do valor do dinheiro.

    O Plano Real pôs freios de arrumação na bagunça. Inflação contida e controlada já era meio caminho para arrumar o resto: a dívida interna parou de crescer, os governos estaduais foram proibidos de tomar novos empréstimos enquanto não se enquadrassem em regras de estabilidade econômica, bancos estaduais e distribuidoras de energia foram vendidos, a União assumiu as dívidas de governadores e prefeitos mediante controle rígido de gastos. Enfim, foram fechados muitos ralos por onde escapavam déficits crônicos, desperdícios, roubalheiras, desvios de dinheiro público para corrupção e campanhas eleitorais. E havia a Lei Fiscal para punir políticos irresponsáveis. Mas isso foi só o começo.

    É JORNALISTA E PROFESSORA DA PUC-RIO E-MAIL: SUCALDAS@TERRA.COM.BR





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      Publique seu livro - Celso Ming

      Publique seu livro - economia - versaoimpressa - Estadão

      Publique seu livro. ESTADÃO 

      Diz a sabedoria popular que três coisas o ser humano deve fazer na vida: plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Para aqueles que se aventuram nesse terceiro projeto, mais desafiador do que passar uma boa história para o papel foi, até agora, conseguir publicá-la. Mas isso está mudando. A internet propiciou o aparecimento das chamadas plataformas de autopublicação, que facilitam o processo para os pequenos autores.

      Basta cadastrar-se online e converter arquivos em programas de edição de texto, como o Word, para o formato de livro eletrônico (e-book). O processo inclui instruções para que o próprio autor defina a capa e o preço da obra. Feito isso, o livro eletrônico pode ser vendido online para interessados no mundo todo.

      Algumas plataformas de autopublicação oferecem também a venda de exemplares impressos, sob pedido (on demand). Não há exigência de tiragem mínima e os royalties para o autor variam de 35% a até 70% do valor de capa, substancialmente mais do que os 10% geralmente oferecidos no mercado editorial convencional. É um caminho novo para quem pretende deixar a história da família para os netos, editar contos eróticos ou distribuir apostilas de um curso.

      A Bookess, uma das pioneiras na autopublicação no Brasil, oferece serviços extras, como revisão, elaboração do projeto gráfico e da ficha catalográfica. Mesmo com todos os trâmites, o escritor pode ver seu livro pronto em até 30 dias, a um custo sete vezes mais baixo do que o vigente pelas vias tradicionais.

      A nova modalidade atraiu a atenção de grandes empresas como Amazon e Saraiva, que lançaram suas plataformas de autopublicação em português, em dezembro de 2012 e em junho de 2013, respectivamente. O diretor-geral da Amazon.com.br, Alex Szapiro, destaca a importância do novo caminho para obras que antes ficariam engavetadas, uma vez que as editoras convencionais têm capacidade limitada para revisar manuscritos.

      Os livros publicados pela plataforma gratuita Kindle Direct Publishing (KDP) alcançam, por semana, em média, 20% dos mais vendidos no Brasil pela Amazon.com. Mas é um sistema que está só começando por aqui. Na Alemanha já atinge 50%; na França e na Espanha, 40%. Nos Estados Unidos, editoras tradicionais têm recorrido à autopublicação para garimpar novos autores, a exemplo de E. L. James, que começou pela KDP, antes de se tornar campeã de vendas com o título "50 tons de cinza".

      Deric Guilhen, diretor de produtos digitais da Saraiva, enxerga na autopublicação mais uma opção para os leitores. "Temos o maior site de venda de livros do Brasil, não podíamos ficar de fora desse movimento. Mas não nos esquecemos da importância do processo de curadoria convencional para as editoras", pondera. Dos 25 mil títulos à venda na loja digital da Saraiva, cerca de 10% são da plataforma Publique-se, que possui 11,5 mil autores cadastrados.

      "A falta de um trabalho editorial profissional prejudica a qualidade do texto final", afirma Susanna Florissi, coordenadora da Comissão do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Para Marcelo Cazado, diretor executivo da Bookess, a tendência é a de que a autopublicação domine o mercado: "Muitos escritores têm recusado convites para migrar para grandes editoras por terem mais flexibilidade na autopublicação e mais autonomia para definir seus próprios preços e políticas de direitos autorais". / COLABOROU DANIELLE VILLELA





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        sexta-feira, abril 04, 2014

        O samba-da-presidenta-doida Reinaldo Azevedo Folha de S.Paulo

        O samba-da-presidenta-doida - 04/04/2014 - Reinaldo Azevedo - Colunistas - Folha de S.Paulo

        O samba-da-presidenta-doida

        Existe a revisão virtuosa da história. À medida que se descobrem novos documentos, que se apela a saberes não convencionais para as ciências humanas, que se estudam fontes de narrativas antes consideradas fidedignas, o passado pode ganhar novo contorno em benefício da precisão. É o oposto do que está em curso nestes dias, nos 50 anos do golpe militar de 1964. A memória histórica foi abolida em benefício da memória criativa e judiciosa. Dilma se tornou a personagem-símbolo desse saber que se erige como nova moral. Na solenidade de privatização do aeroporto do Galeão, resolveu apelar a Tom Jobim e citou o "Samba do Avião". Segundo disse, a música ligava o Brasil de hoje ao do passado ao "descrever" a chegada ao país dos brasileiros que voltavam do exílio, depois da anistia, "após 21 anos".

        É o samba-da-presidenta-doida. A música é de 1962, o golpe foi desferido em 1964, e a Lei da Anistia é de 1979, quando os exilados, então, começaram a voltar –15 anos, portanto, depois do golpe, não 21. A canção faz uma evocação lírica do Rio; nada a ver com protesto. Ao contrário até: o narrador revela aquele doce descompromisso bossa-novista: "Este samba é só porque/ Rio, eu gosto de você"... Não havia nada de programático a ser interpretado: "A morena vai sambar" queria dizer que a morena iria sambar. Sugiro um estudo aos teóricos do Complexo Pucusp: o mal que o golpe fez à cultura metafórica brasileira.

        Na semana passada, lembrei que, em 1987, em vez de reciclar os ódios ao Estado Novo, inaugurado em 1937, o Brasil cuidava do futuro e vivia o processo constituinte, aprovado pela Emenda nº 26, de 1985, que tinha a anistia de 1979 como pressuposto. "Anistia" que, por fatalidade da língua, tem a mesma raiz de "amnésia" e significa, para todos os efeitos da política e do direito, "esquecimento". Por óbvio, isso não impede que se procure a verdade, coisa que não cabe a um ente do Estado. Por natureza, ele irá justificar a ordem de compromissos que o instituiu.

        Assim, uma comissão oficial da verdade, lamento!, é mentirosa "ab ovo". Nem o governo negro da África do Sul se negou a apurar atos protagonizados por adversários do apartheid. A do Brasil, contrariando a lei que a instituiu, já deixou claro que sua vocação é demonstrar que o Lobo Mau era mau e que os Chapeuzinhos Vermelhos eram bons.

        Num pequeno discurso, Dilma reconheceu, oblíqua e envergonhadamente, a Lei da Anistia e, de novo, elogiou os que tombaram. Na sua lista não estão as 120 pessoas (no mínimo) assassinadas por grupos terroristas, inclusive os de que ela fez parte. Ai de quem se atrever a lembrar, no entanto, os crimes sinistros de poetas da morte como Lamarca e Marighella! Passa a ser tratado por alguns cronistas –que têm de opinião arrogante o que exibem de orgulhosa ignorância– como sócio e partícipe da tortura. Transformam supostos adversários em caricaturas para que fique fácil vencê-los –no boteco ao menos. Fazem com a história o que Dilma fez com o "Samba do Avião". Como responder? Jogando no seu colo o corpo despedaçado de Mário Kozel Filho ou o crânio esmagado de Alberto Mendes Júnior? Nem sabem do que falo. Não dá para entrar nesse jogo rasteiro.

        Não pretendo voltar ao golpe neste espaço –a menos que ache necessário. O que hoje desperta o meu interesse é essa esquerda que se ancora numa falsa gesta do passado para assaltar o futuro, como evidenciam as lambanças na Petrobras e o esforço suarento do petista André Vargas para explicar o lobby no Ministério da Saúde em favor de um doleiro –assunto que vai se tornar ainda mais rechonchudo. O que me mobiliza é fazer a sociologia dessa "burguesia do capital alheio", ainda a minha melhor expressão para definir essa gente. Na quarta, um desenhinho animado da presidente, em sua página oficial no Facebook, dava "um beijinho no ombro" para "us inimigo". Uma "Dilma Popozuda" é evidência de arrogância e descolamento da realidade, não de graça. Dilma Bolada está no comando.



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        terça-feira, abril 01, 2014

        O grande golpe da ditadura de 1964 -Vinicius Torres Freire -Folha de S.Paulo

        O grande golpe da ditadura de 1964 - 01/04/2014 - Vinicius Torres Freire - Colunistas - Folha de S.Paulo

        ENTRE 1964 e 1984, a renda média por cabeça no Brasil cresceu pouco mais do que 108% (isto é, mais do que dobrou). Nos 20 anos anteriores, entre 1943 e 1963, a renda per capita havia aumentado 131%.

        Quer dizer que os anos do "milagre econômico" foram uma lenda? Não, não é disso que se trata aqui. Essa comparação muito elementar serve apenas de alerta simples sobre o risco de bobajada, ou coisa pior, embutido em argumentos binários, numeralhas sem contexto e outras simplificações históricas e sociais.

        Isto posto, as taxas de crescimento entre o fim da guerra e o colapso da ditadura foram impressionantes. Considere-se que nos 20 primeiros anos da democracia, 1985-2005, o crescimento da renda per capita média foi de apenas 22%. Nos últimos 20 anos, melhorzinhos, de 42%.

        Entre outras selvagerias, o que 1964 teve de especialmente perverso foi o golpe mortal que deu nas nossas esperanças de civilização, por um bom tempo. Crescemos mal, pouco e porcamente agora porque somos ignorantes, desiguais, violentos e autoritários. A partir de um certo ponto, crescimento demanda civilização.

        A ditadura prosseguiu a aprofundou nosso método de desenvolvimento econômico injusto. Abortou a democratização política precária (entre outros problemas, a grande massa analfabeta ficou sem voto até 1988). Enterrou a última oportunidade de reforma agrária quando isso ainda fazia sentido econômico e social (democratizaria a propriedade, daria comida a gente no campo, atenuaria nosso desastre urbano); hoje, em geral reforma agrária é um programa de assistência social ineficiente. Na nossa tradição ignorante, agravada por selvagerias ditatoriais, matou a democratização da escola pública, que teria nos deixado menos desiguais em termos de poder, renda e acesso a oportunidades.

        Trata-se hoje muito da política da ditadura. Menos da repressão econômica, festejada em massa pela elite industrial e agrária até pelo menos fins dos anos 1970. Parte do "milagre" foi feito com o couro dos trabalhadores, com reduções de salário real e depois de crescimento da renda do trabalho bem abaixo dos ganhos de produtividade, com repressão e assassinato de sindicalistas, de greves, de líderes populares rurais. Essa gente anda esquecida.

        O "milagre" foi a fundo na tradição brasileira de rapinar o Estado para cevar a empresa privada com subsídios variados, de juros baratinhos, dinheiro direto de impostos e até com a socialização da dívida externa (o Estado bancou de certo modo a dívida externa privada). O "milagre" foi feito também de inflação, de oligopólios que mamavam à vontade numa economia fechada à concorrência e de endividamento externo suicida, problema que foi uma praga até o início do governo FHC, em 1995.

        A lerdeza das décadas recentes e muito dessa perversão cruel que é o Brasil têm a ver com a maneira do nosso crescimento acelerado de antanho, feito de modo a atropelar
        e esfolar o povo miúdo, a maioria. Foi uma industrialização selvagem, concentradora de renda e de uma negligência cruel com a civilização, avanços sociais, o que hoje nos
        impede de crescer mais rápido e nos legou títulos mundiais em termos de violência, desigualdade e ignorância.



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