Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, dezembro 02, 2011

Sinais de alerta - MERVAL PEREIRA





O Globo - 02/12/2011

No momento em que universidades tunisianas entraram em greve contra a influência islâmica, após religiosos radicais terem ocupado um campus para pedir a separação entre estudantes homens e mulheres, anuncia-se o adiamento da apuração da eleição no Egito, com informações oficiosas de que a Irmandade Muçulmana teria obtido nas urnas cerca de 45% dos votos, resultado acima do que seus próprios dirigentes previam.

Aqui em Hammamet, cidade a cerca de 40 minutos de Túnis onde se realiza a conferência da Academia da Latinidade sobre “os novos imaginários democráticos” provocados pela Primavera Árabe, dois palestrantes foram além da euforia natural com a abertura democrática na região para fazer advertências importantes.

O ex-primeiro-ministro espanhol Felipe González destacou que é preciso criar condições para que o país receba investimentos que possibilitem seu desenvolvimento.

Ele se referia especialmente à Constituinte que foi eleita em outubro e tem um ano para aprovar as novas leis do país e convocar eleições presidenciais. González ressaltou que justamente as razões que desencadearam os protestos iniciados na Tunísia devem ser objeto de cuidado dos constituintes, como criação de empregos para a juventude, melhores condições para as mulheres.

A proteção aos direitos dos cidadãos é questão ainda muito sensível, depois de anos de governo ditatorial que expôs a população ao arbítrio de qualquer autoridade, até mesmo o fiscal da esquina, cujos achaques levaram o jovem verdureiro a tocar fogo às roupas, imolação pública que foi o gatilho para a mobilização da maioria silenciosa oprimida. Ele chamou a atenção para o perigo de frustrar os cidadãos que se mobilizaram para a “Revolução de Jasmim” e hoje jogam na futura Constituição suas esperanças de um país melhor.

Felipe González lembrou que quando assumiu a Presidência do governo espanhol, em 1982, na redemocratização, levou exatos 10 anos com investimentos negativos, até que conseguisse convencer os investidores de que o projeto espanhol era estável e tinha futuro.

O ex-primeiro-ministro espanhol chamou a atenção para o fato de que a falta de liderança política é a causa da crise da democracia representativa no mundo atual, pois os governos, em que pese continuam tendo a capacidade administrativa de atuar, não têm capacidade política para implementar seus projetos. Ele se referiu especificamente à incapacidade do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de superar o impasse político que divide republicanos e democratas, paralisando o governo norte-americano.

Já o professor de Ciências Políticas Samir Nair, argelino que exerce funções de conselheiro do governo francês, destacou o perigo de as revoltas nos países árabes se transformarem em movimentos religiosos comandados por partidos islâmicos.

Na Tunísia, assim como no Marrocos e tudo indica no Egito, os partidos islâmicos tiveram a maioria dos votos, mas até o momento o discurso oficial de todos eles é que o governo será laico.

O partido islâmico Ennahda, que lidera a coalizão vencedora das eleições na Tunísia, se espelha, pelo menos nas declarações oficiais, no partido turco do primeiro-ministro Recep Erdogan, que, embora islâmico, lidera um governo laico como condição primordial para a manutenção da democracia.

Samir Nair considera que a “Revolução de Jasmim”, que deu início à Primavera Árabe, tem a responsabilidade do exemplo, pois a revolução tunisiana quebrou “o paradigma mental sobre o qual vivia o mundo árabe”.

Para ele, a Tunísia representava o elo frágil, e o Egito o elo forte do encadeamento dos países árabes antes da Primavera Árabe. Frágil a Tunísia por que o governo ditatorial transformara- se em um governo mafioso, assim como no Egito e na Síria os governos passaram a ser uma “máfia hereditária”.

Ao mesmo tempo, por ser o Estado mais forte do mundo árabe, dos movimentos do Egito dependeria a evolução dos outros países árabes. Quando houve a revolução na Tunísia, raciocina Samir Nair, o povo egípcio viu logo que era possível fazer o mesmo lá, e com maior repercussão.

Por isso ele atribui à Tunísia um papel fundamental nos movimentos que se desenrolam nos países árabes. O professor Nair deixou claro em sua palestra que não foi o islamismo que venceu o que ele classifica de “Estado autoritário degenerescente”: “Foi a totalidade da sociedade que o fez, à base de uma mobilização pacífica não-religiosa”.

Ele ressalta que tanto na Tunísia quanto no Egito, não houve reivindicações que não fossem sobre a cidadania, sem conotação religiosa: dignidade da pessoa (contra a corrupção); direitos do homem (contra a arbitrariedade policial); distribuição de rendas (contra a desigualdade); trabalho (contra o desemprego); democracia (por uma sociedade de méritos e não de privilégios).

Com os partidos islâmicos surgindo como grandes forças eleitorais nos países da Primavera Árabe, o professor Nair pergunta: “A democracia não passa de um meio de as forças islâmicas tomarem o poder para mudar as regras do jogo?”. A alternativa seria essas forças se mostrarem realmente democráticas, aceitando a alternância de poder e também o pluralismo na sociedade civil.

Para ele, a resposta não está nas declarações oficiais ou nas promessas, mas sim nas instituições que resultarem da mudança, “os únicos mecanismos reais de proteção da liberdade”.

Ou bem as instituições são republicanas, baseadas na separação público privada, ou a democracia se tornará sinônimo da hegemonia totalitária de forças religiosas, adverte Samir Nair.

Funeral da Ética - ELIANE CANTANHÊDE


FOLHA DE SP - 02/12/11
BRASÍLIA - O embaixador Marcílio Marques Moreira deu adeus à presidência da Comissão de Ética Pública depois que Lula e Carlos Lupi não deram a menor bola para o parecer do órgão contra o acúmulo de funções -Lupi era, simultaneamente, ministro e presidente do PDT. É proibido, mas só depois de meses ele se licenciou do partido.

Perguntei na quarta-feira ao atual presidente da comissão, Sepúlveda Pertence, que já presidiu o Supremo:

"E se Dilma fizer como Lula e não acatar a recomendação da comissão para exonerar Lupi?"

"Eu não sei, mas estou preparado para enfrentar o que der e vier. A recomendação é o máximo que podemos fazer. O poder é da presidente, não da comissão. Ela é que vai sopesar a conveniência ética e política de manter o ministro."

Pois é. Dilma "sopesou" e decidiu manter Lupi mais um pouco, sabe-se lá até quando, apesar...

...do parecer da comissão;

...das acusações de que o Ministério do Trabalho cobra propinas, repassa recursos para ONGs desaconselhadas por órgãos do próprio governo e desvia verbas para o partido e para partidários;

...de o próprio Lupi ter mentido sobre o jatinho e as relações com um empresário esquisitão;

...de ter sido duplo funcionário-fantasma, na Câmara, em Brasília, e na Câmara Municipal do Rio;

...da falta de compostura: "Só saio abatido a bala", "Te amo, Dilma!". (Isso pesou particularmente na recomendação da comissão.)

A decisão da presidente da República mata a Comissão de Ética, enterra a autoridade dos seus integrantes e realça o quanto os órgãos de controle (e a própria CGU) são tratados como balangandãs.

A opinião pública sabe perfeitamente por que a comissão pediu a demissão, mas não por que a presidente insiste (ou insistia até ontem, pelo menos) em manter o ministro. A faxina acabou, mas o lixo continua.

Depois da transfusão, ressaquinha - VINICIUS TORRES FREIRE



FOLHA DE SP - 02/12/11

Um dia após a transfusão de dólares para a Europa, volta a ansiedade sobre asfixia do sistema financeiro



Como de costume, uma rotina, aliás, cada vez mais perigosa, passou a euforiazinha a respeito da "ação coordenada dos bancos centrais" do mundo rico para dar um copo de dólares para a banca europeia, sob risco de sede terminal.

Não podia ser de outro modo. O problema emergencial de financiamento em dólares dos bancos europeus é apenas um sintoma.

A doença vai continuar a piorar a não ser que as lideranças políticas e econômicas da União Europeia tomem alguma medida mais decisiva, nas reuniões que terão na semana que vem.

Caso não façam nada, ou empurrem o problema com a barriga, como o têm feito desde dezembro de 2009, o caldo vai engrossar mesmo.

O mal europeu vai contaminar de vez negócios como, por exemplo, financiamento do comércio mundial, espalhando a crise ainda mais rapidamente pelo resto do mundo.

Isso, claro, se não se fizer uma bobagem ainda maior, como deixar alguma grande instituição financeira mergulhar no vinagre.

Os bancos estão secos de dinheiro porque: 1) governos europeus, devedores da banca, estão quebrando. Logo, bancos podem quebrar;

2) parte da "riqueza" dos bancos, de seus ativos, está valendo cada vez menos (trata-se dos papéis da dívida desses governos);

3) depositantes dos bancos europeus estão fugindo deles;

4) as autoridades supervisoras europeias estão exigindo mais capital dos bancos (isto é, os bancos podem fazer menos negócios, dado um certo patrimônio; logo, eles "emprestam" menos, inclusive entre eles mesmos, os próprios bancos);

5) ninguém quer emprestar dinheiro a bancos que sofrem de sangria de dinheiro, sob risco de calote de seus grandes devedores e numa economia arrochada.

O que, se espera, que se faça? Que o Banco Central Europeu (BCE) baixe sua taxa de juros (que havia elevado neste ano, de modo espantosamente idiótico). Que o BCE expanda e barateie seus empréstimos para os bancos asfixiados. Além do mais, que passe a aceitar quase qualquer coisa dos bancos como garantia para esses empréstimos.

A esperança maior é a de que o BCE financie, quase sem mais, governos e bancos. A esperança é a última que morre. Mas morre.

Tal solução, até agora rejeitada pelos "donos" do BCE, os alemães, dependeria, de qualquer modo, de um esquema de "calote organizado", de refinanciamento dos governos quebrados ou semiquebrados e da expansão do fundo de socorro a governos quase falidos.

Nada disso ainda está arrumado ou nem mesmo acertado. Para piorar, o BCE apenas assumiria o papel de "emprestador-mor e geral de última instância" caso a União Europeia tivesse poderes de intervenção sobre despesas e dívidas dos governos da eurozona. Mario Draghi, presidente do BCE faz apenas um mês, deu essa dica de novo, ontem. Mas foi vago e, no fim das contas, não se sabe se vai ouvir um "nein" furibundo dos alemães.

Segunda-feira alemães e franceses se encontram para discutir o que vão apresentar na cúpula europeia de sexta-feira. Na quinta, o BCE decide a taxa de juros. Não se trata de dizer que o mundo acaba na segunda, dia 12, se nada for feito. Mas a crise vai se espalhar com uma mancha de óleo pela economia mundial.

Foi tudo um vexame Eliane Cantanhede

Folha on line-01/12/2011 

A Comissão de Ética Pública recomenda oficial e publicamente que o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, seja exonerado depois de uma série de irregularidades, de mentiras e de falta de compostura ("Eu te amo, Dilma!").

A presidente da República dá de ombros, desautoriza a comissão e mantém o ministro, apesar de tudo.

O que pode se concluir de tudo isso?

Que a comissão não vale nada nem para nada e que a presidente foi turrona, bateu pé e manteve a decisão já tomada de "não ceder às pressões", seja da imprensa, seja de quem for, para subir a estatística de quedas de ministros para o cabalístico 7.

A novela, porém, não está encerrada. Espera-se, agora, saber como o partido do ministro, o PDT, vai reagir, como os integrantes da comissão de ética vão reagir, como o Congresso vai reagir e que conclusões a opinião pública vai tirar.

Só para lembrar, Lupi entrou na berlinda porque o Ministério do Trabalho é suspeito de pagar propina para ONGs, de liberar verbas para ONGs encrencadas, mesmo depois de pareceres contrários do próprio governo, e de desviar dinheiro para os bolsos partidários.

Enquanto se apurava a história, o próprio Lupi cometeu vários erros de caráter ético: disse que não tinha viajado num jatinho de empresa comprometida e aí surgiu a foto; disse que não conhecia o empresário comprometido e aí o cara contou que estava até no avião. E, no fim, apareceu até filme de jatinho, empresário e ministro, na maior alegria.

Agora, a Folha revela que Luppi não era apenas funcionário fantasma, mas duplo funcionário fantasma, ganhando da Câmara em Brasília e da Câmara Municipal no Rio para não fazer nada.

Se nada disso é questão ética, o que mais seria?!

É fácil para a Comissão de Ética explicar por que pediu a exoneração de Lupi. Mas é improvável que a presidente Dilma Rousseff consiga explicar por que deu de ombros para o pedido e manteve o ministro.

Dilma aposenta fantasias Ricardo Noblat

A essa altura, pouco importa que na próxima semana, de volta da Venezuela, a presidente Dilma Rousseff demita Carlos Lupi do Ministério do Trabalho como recomendou, ontem, a Comissão de Ética da presidência da República. O estrago na imagem dela já está feito.

O estrago na imagem de Lupi foi feito há mais tempo. Ele é um ministro que agoniza sob o sol há mais de um mês. Descobriu-se que alguns dos seus auxiliares cobravam comissões de ONGs a serviço do Ministério do Trabalho. Que ele, Lupi, mentiu ao Congresso ao negar que tivesse viajado em jatinho de empresário.

Ficou-se sabendo que Lupi foi funcionário-fantasma do PDT na Câmara dos Deputados por mais de cinco anos. E que nesse mesmo período foi funcionário da Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro. A Constituição proibe a acumulação remunerada de cargos públicos.

Lupi cheira mal.

Dilma peitou a recomendação da Comissão de Ética Pública. Depois de se reunir, esta manhã, com Lupi, anunciou que pedirá à Comissão a documentação em que ela se baseou para sugerir a saída do ministro. Está disposta a analisar a documentação antes de decidir a sorte de Lupi.

Como se fosse politicamente possível a Dilma ignorar a recomendação da Comissão e conservar Lupi ao seu lado! Se procedesse assim, na prática Dilma estaria dissolvendo a Comissão. Aos membros da Comissão não restaria outra alternativa senão a demissão.

Em menos de 10 meses de governo, Dilma demitiu ou aceitou o pedido de demissão de cinco ministros enrascados com denúncias de malfeitos. Foi apresentada ao país como "a faxineira ética". E sua popularidade cresceu, conforme atestaram pesquisas de opinião.

Os malfeitos de Lupi a ele e ao seu partido pertencem - mas quem se enrascou foi Dilma. Jogou fora a fantasia de "faxineira ética". Confiou que a fantasia já lhe dera o que podia. E - sabe-se bem lá por quê - decidiu afrontar o bom senso acreditando ou fingindo acreditar nas mentiras de Lupi.

Lupi jura ser inocente. Lupi disse a Dilma que pedirá a gravação da reunião da comissão que o condenou. E que em seguida tentará convencer a comissão a dar o dito pelo não dito. Algo do tipo: "Pensando melhor, o ministro não feriu a ética. Deve ser mantido no governo".

Assessores da presidente confidenciam que ela pretendia demitir Lupi por ocasião da reforma ministerial prevista para janeiro. E que não queria dar à imprensa o gosto de ter derrubado mais um ministro com as suas denúncias. Sim, porque não foi o governo que se deu conta das maracutaias promovidas pelos caídos. Foi a imprensa.

Agora, assessores de Dilma garantem que ela demitirá Lupi até o meio da próxima semana. Não o fez hoje "para ganhar tempo". Não esclarecem por que ela precisa ganhar tempo. Lupi deveria ter sido demitido ontem, tão logo Dilma recebeu a recomendação da Comissão. Que ela nomeasse um ministro interino. E voasse a Caracas.

Foi apenas um tremendo erro de cálculo o que levou Dilma a se enrolar com Lupi, a se enrolar mais, e a se enrolar completamente? Por que Lupi parece intimidar a presidente? O que foi feito da tigresa que no caso de Lupi só tem miado?

A "faxineira ética" jaz na lixeira. A tigresa ronda a lixeira.

 

quinta-feira, dezembro 01, 2011

CLAUDIO HUMBERTO


"Vossa Excelência deixou o governo em maus lençóis"

Senador Demóstenes Torres (DEM-GO) elogiando José Sarney por priorizar a Emenda 29

SEGURANÇAS DO SENADO INSINUAM VÍNCULO À PF

A segurança do Senado, constituída por servidores sem qualificação policial, tem raio de ação limitado ao espaço físico do Congresso, mas dispõe de cinco viaturas, quatro delas "caracterizadas" até com sirenes. E exibe coletes negros cuja inscrição, "Polícia Federal Legislativa", denuncia a fantasia que custa caro ao contribuinte e insinua vinculo à Polícia Federal, que é muito admirada no País. A PF nega o vínculo.

SAI DO SEU BOLSO

Os carros transformados em "viaturas policiais" na segurança do Senado são camionetes Nissan X-Terra. Cada uma custa R$ 87 mil.

APENAS SEGURANÇAS

A "polícia" do Senado afirma que as viaturas são usadas para eventual "acompanhamento" na segurança pessoal de senadores.

ELES SE ACHAM

A assessoria do Senado nada informa sobre sua "polícia" "porque mexe com a segurança". Eles se acham os xerifes da Esplanada.

PARECE POLÍCIA, MAS NÃO É

Além de portar armas letais e pistolas de choque, os seguranças do Senado têm até equipamentos para grampear telefones e e-mails.

BRASIL INVESTE EM AEROPORTOS DE... MOÇAMBIQUE

O governo federal apelou à privatização para salvar os aeroportos, mas esbanja nosso dinheiro na África: empréstimo de US$ 300 milhões renovará a frota da estatal Linhas Aéreas de Moçambique (LAM), além da infraestrutura aeroportuária do país, como o aeroporto de Nacala e a ampliação do porto de Beira. Deficitária, a LAM está na lista negra da União Europeia pela insegurança de suas aeronaves.

OLHO INGLÊS

A Petrobras ganhou do governo da Grã-Bretanha garantias para que bancos ingleses financiem a exploração no pré-sal.

"CREDILMA"

Os gastos do governo federal com cartões corporativos, em 2011, já superaram a marca de R$ 40 milhões.

ARAPONGAS GASTADORES

A Agência Brasileira de Inteligência é responsável por mais de 60% dos gastos sigilosos da Presidência da República com cartões corporativos.

FLAGRA DE GAZETEIRO

Para quem quer ser prefeito da cidade "que não para", o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) é muito folgado. Ontem, por volta das 17h, após registrar presença na Câmara, com a pauta cheia, ele flanava na praça de alimentação do shopping Iguatemi, a 25 km do seu local de trabalho.

MÃO BOBA NO SEU BOLSO

O Ministério da Cultura gastou R$ 165 mil só no aluguel de espaço num evento, em São Luís (MA), ontem, que discutiu "políticas públicas" (ou como avançar no bolso do contribuinte) para... terreiros de macumba.

DEPUTADA ROUBADA

A deputada Sandra Rosado (PDSB-RN) teve o carro roubado segunda-feira (21), por volta das 20 horas, no acesso ao Parkshopping, em Brasília. Seu motorista foi rendido por dois bandidos com arma apontada para a cabeça. Ela registrou a ocorrência, mas o carro ainda não apareceu.

ANIVERSÁRIO

O senador tucano Flexa Ribeiro (PA) pediu aplausos pelo aniversário de Romero Jucá (PMDB-RR). "São 35 anos, muito jovem", brincou Gim Argelo (PTB-DF). Flexa tripudiou: "35 anos só como líder de governo..."

RASGAÇÃO DE SEDA

Diante de um elogio do tucano Aécio Neves (MG), o presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), agradeceu: "Aprendi com seu querido avô, Tancredo". Aécio rasgou seda: "Por isso sua trajetória política é repleta de êxitos".

OS SEM-ELEVADOR

O prédio da Câmara onde mora o deputado Romário (PSB-RJ), na 302 Sul, em Brasília, sem elevador de serviço há quinze dias, ontem ficou sem o social. Aos 45, Romário ainda é atleta, mas outro morador, João Lyra (PSD-AL), aos 80, enfrentou escadas para chegar ao 6º andar.

CAIXA-PRETA

Após tergiversar, o primeiro-ministro peruano Salomón Lerner garantiu que o partido do governo é que paga os salários de "Luis Favre". E lembrou que o amigo dele, Lula, tem uma entidade privada. Humm...

ÁGUA VIVA

A atriz Sarah Cintra abre curta temporada hoje (1º), em Brasília, do monólogo Água Viva, de Clarice Lispector, que faria 91 anos em dezembro. No Teatro Goldoni, na 208 Sul. Vai até dia 11.

PENSANDO BEM...

...Só falta subornar os ratos para eles não abandonarem o navio. 

PODER SEM PUDOR

APELO NO AVIÃO


O saudoso Olavo Drummond, que foi ministro do Tribunal de Contas da União, era diretor da Vasp quando, em um voo, descobriu que o banqueiro Olavo Setúbal estava na classe econômica. Convidou-o a se transferir para a primeira classe.

– Paguei pela classe econômica – declinou Setúbal – e estou bem por aqui.

– Você tem que ir – apelou Drummond – Se o avião cair, todo mundo vai pensar que o Olavo que morreu na primeira classe era você e não eu...

BCs ajudam mas não resolvem - ALBERTO TAMER

O Estado de S.Paulo - 01/12/11



As tensões econômicas aumentaram esta semana e os principais bancos centrais - é mangueira fina para apagar um incêndio que se alastra rapidamente - saíram ontem em socorro do mercado financeiro.

Os principais banco centrais do mundo vão oferecer empréstimo em dólares a juros reduzidos para aumentar a liquidez do sistema e atenuar a dificuldade que os bancos estão encontrando para financiar suas operações.

À primeira vista, parecia a chegada da cavalaria para libertar o forte cercado, mas logo se constatou que se tratava apenas de uma tropa ligeira. A mais pesada continuava estacionada em Bruxelas e Berlim, com o general alemão, de espada embainhada, dizendo "vamos esperar porque eles ainda aguentam ..."

O suspiro de alívio no mercado durou pouco. Ficou logo muito claro no mercado que a ação conjunta anunciada pelos bancos centrais, principalmente dos Estados Unidos, pode aumentar a liquidez, mas não resolve o problema da dívida soberana e dos déficits orçamentários que os governos da Eurozona discutem há quase três anos sem chegar a qualquer solução.

O comunicado emitido pelos seis bancos centrais (EUA, Reino Unido, Canadá, Japão, Suíça e Banco Central Europeu) foi muito claro: "O objetivo dessas ações é aliviar as tensões sobre o mercado financeiro e por esse meio mitigar os efeitos dessas tensões no fornecimento de crédito para as famílias e empresas e ajudar a promover a atividade econômica."E ponto final. Nada. Nem uma só palavra sobre a rolagem da dívida.

Na avaliação do mercado financeiro, os bancos centrais decidiram agir para evitar algo parecido como a crise financeira de 2008.

No fundo, diziam, não é que os bancos irão comprar títulos da Grécia, da Itália, da Espanha e até da Alemanha a juros razoáveis porque podem ter mais dólares em caixa. Quando muito, voltariam a emprestar ao setor privado, como pretende e deixa claro o comunicado dos bancos centrais, mas não para os governos endividados.

Se a revista britânica Economist comentou com muito realismo que "os bancos centrais providenciaram hidratante para um paciente de câncer; uma coisa útil de fazer, mas, em última instância, apenas ganha tempo.... A dinâmica subjacente da crise do débito soberano continua sem mudança."

E os analistas do mercado concordam. Atacam a margem do problema, mas deixam a sua essência intocada, como quem vai pagar ou rolar a dívida da Itália, da Espanha e da Grécia?

Resumindo, com a ação integrada dos bancos centrais, fica tudo como está, só não piora, por enquanto. E todos continuam esperando pela França, a Alemanha e o Banco Central Europeu para comprar esses papéis que só estão sendo colocados com valores reduzidos a juros de quase 8%. Os maiores na história da União Europeia.

E a reunião da Eurozona. Os ministros das Finanças da Eurozona estiveram reunidos esta semana em Bruxelas mas apresentaram apenas propostas vagas que não animaram os investidores.

Falam agora em criar um "co-fundo do fundo" financeiro, cujos títulos os países dos G-20 já se recusaram a comprar.

O Brasil foi categórico, só compramos do Fundo Monetário Internacional (FMI). Tudo ficou adiado para o encontro dos presidentes do bloco marcado para o dia 9, mas sem muita esperança pois o governo da Alemanha continua vetando a criação do Eurobônus e quer que o BCE compre mais títulos dos países que estão endividados.

Desde março de 2008, ele já comprou 203 bilhões, mas, sob pressão do representante alemão no seu conselho, deu sinais de recuar nos últimos dias.

O BCE não compra, a Alemanha e a França não compram, o mercado também não, e quando muito, os bancos centrais oferecem dólares a juros baixos para quem quiser, mas isso não animou ninguém.

Restou nesta semana mais um alerta - outro do comissário de (ministro) de Assuntos Econômicos da UE, Olli Rehn, - "Estamos entrando em um período crítico de 10 dias para completar e concluir uma reação à crise da União Europeia", disse. Eles estão dizendo isso há muito tempo mas como não fizeram nada até agora, perderam a confiança dos investidores, com o novo "co-fundo"que inventaram esta semana.

Resumindo e sendo até um pouco grosseiro, ou alguém "engole" esses papéis assumindo, como os bancos europeus, perda de 50% do seu valor, ou a crise financeira da Eurozona poderá causa algo parecido com 2008. Há mais de 1 trilhão de dívida para rolar. E isso, por enquanto, sem contar a Espanha.

E o que resta? O FMI, dizia a Eurozona nesta semana. Com a ajuda dos países fora do bloco. Se não confiam em nós, que confiem no fundo...

Só que o FMI, em plena crise existencial neste momento, saiu por aí a pedir recursos - madame Christine Lagarde veio passar a bolsa até no Brasil e, acreditem, na América do Sul - nesta semana sem muito sucesso.

A posição dos G-20 não mudou, que os governos da Eurozona se entendam, que assumam a dívida mesmo que isso implique em imprimir euros, e depois voltem para conversar.

Só que até agora só não vieram o que aumenta a febre que começa a contaminar o sistema financeiro internacional socorrido agora pela fina mangueira dos bancos centrais... Ufa!

O "erro" de 2008 e o erro de 2011 - ALEXANDRE SCHWARTSMAN


VALOR ECONÔMICO - 01/12/11


A forte queda da atividade no final de 2008 ainda é vista por muitos como prova do "erro" do Banco Central (BC) à época. Segundo essa visão, a demora do BC para reduzir a taxa de juros teria impedido a recuperação mais rápida da economia, assim como uma queda ainda mais pronunciada da taxa real de juros. Essa é a justificativa para que agora o BC procure se antecipar à crise, promovendo uma redução expressiva da taxa real de juros, de cerca de 7% para algo como 4,5% ao ano, com o intuito de evitar a repetição do "erro de 2008".

Há, contudo, equívocos sérios em tal versão. A começar porque superestima - e muito - o papel da política monetária na contração do produto naquele momento. O gráfico mostra o desempenho da produção industrial brasileira juntamente com as estimativas do CPB (instituto de pesquisa do governo holandês) referentes à importação (quantum) e produção industrial globais, tomando como base os níveis observados no terceiro trimestre de 2008. Como se vê, a produção industrial brasileira seguiu muito de perto o desempenho do comércio e da produção mundiais. Isso indica que, mais do que a taxa de juros, foi o contágio da economia global que determinou a aguda retração da economia brasileira no final de 2008.

Obviamente, como sempre insisto, temos que considerar também o que poderia ter ocorrido caso o BC tivesse reduzido a Selic mais cedo, ainda no quarto trimestre de 2008. Parece razoável, dada a relação relativamente estável entre a taxa real de juros e o comportamento da demanda doméstica, que esta última teria reagido ainda mais cedo do que o fez, o que possivelmente teria levado a uma recuperação ainda mais rápida da produção.

Caso isso tivesse acontecido, porém, o comportamento do chamado "hiato do produto", a medida da ociosidade da economia relativamente a seu potencial, também teria sido distinto, assim como o da inflação.

Com efeito, minhas estimativas, combinação da taxa de desemprego e do nível de utilização de capacidade instalada da indústria, revelam que a utilização geral de recursos teria caído cerca de 2,5 pontos percentuais entre setembro de 2008 e março de 2009 (de 88,5% para 86%), movimento consistente com a queda expressiva da inflação em 2009, uma vez considerada a defasagem de cerca de dois trimestres. Tivesse, pois, a atividade se recuperado mais rápido que o observado, muito provavelmente a inflação, que ficou na meta em 2009, a teria superado.

Note-se, ademais, que também o comportamento das expectativas de inflação à época reforça essa noção. Embora tivessem inicialmente se deteriorado, refletindo os temores (meus inclusive) associados à desvalorização da moeda, as expectativas, ao se normalizaram no começo de 2009, ajudaram a criar o espaço para a redução não inflacionária da Selic. Nesse aspecto também o "timing" da reação foi correto, pois a perda de controle das expectativas implicaria - mesmo sob maior ociosidade - inflação superior à meta.

Se isso é verdade, não parece ter havido nenhum "erro" do BC na formulação da política monetária em 2008-09. Pelo contrário, a velocidade de recuperação da economia e o comportamento das expectativas se mostraram consistentes com a meta de inflação, sugerindo adequação da política monetária. Em particular, não há indicações que teria sido possível redução mais expressiva da Selic sem o comprometimento da meta.

Isto dito, a discussão sobre o que foi (e o que poderia ter sido) a política monetária há três anos nos oferece lições que parecem ter sido solenemente ignoradas no atual ciclo. Naquele momento partíamos de uma taxa de inflação pouco inferior ao teto da banda, mas sofrendo os efeitos de um colapso da economia global que levou a uma considerável expansão da ociosidade na economia, cujos reflexos se fizeram sentir sobre a taxa de inflação, com o auxílio luxuoso de expectativas em plena convergência para a meta.

Já ao início deste ciclo de afrouxamento monetário partimos de uma inflação superior ao teto da banda, sob expectativas de inflação ainda consideravelmente acima da meta (na verdade piores hoje do que eram quando da decisão inicial de redução de juros) e com indicações de ociosidade muito menos favoráveis do que as observadas há três anos, dado que as estimativas de utilização de recursos se encontram agora ainda ao redor de 89%-89,5%.

A despeito disso, as taxas reais de juros hoje se encontram em patamares inferiores aos observados em 2009, gerando um impulso ainda maior sobre a demanda doméstica. Sob tais circunstâncias, não me parece que uma crise que gere impacto "equivalente a um quarto do (...) observado durante a crise internacional de 2008/2009" seja suficiente para fazer a inflação retornar à meta em 2012. Só intervenção divina ou uma crise bem mais séria farão o serviço, sugerindo que ao Copom resta torcer pela piora da situação europeia, ou uma súbita onda de religiosidade.

Alexandre Schwartsman é doutor em Economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley e ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC.

A crise na eurozona e a brasileira - ROBERTO MACEDO

O Estado de S.Paulo - 01/12/11


Nosso artigo de 17/11 (A eurozona em crise e seus impasses) tratou da primeira no seu epicentro e das dificuldades de ali solucioná-la. Depois, lá surgiu mais uma ideia, a de uma supervisão fiscal dos países em maior dificuldade, exercida por autoridade supranacional, para neles garantir ajustes fiscais efetivos, o que abriria espaço para o Banco Central Europeu (BCE) ter maior papel na crise, em particular adquirindo montantes maiores de suas dívidas. Argumenta-se que sem essa garantia a Alemanha não se disporia a aceitar esse papel ampliado do BCE. Mas, como outras, essa ideia ainda não avançou e a crise se agrava. Ficamos de examinar o impacto no Brasil, o que faremos a seguir.

Com a piora da crise na zona do euro em agosto, percebeu-se aqui uma redução mais forte da atividade econômica. Isso ficou evidente pelo boletim Focus do Banco Central (BC), que semanalmente mostra previsões de analistas do mercado financeiro. Na última edição de 2010, ele previa aumento de 4,5% do produto interno bruto (PIB) em 2011. No final de julho, esse número havia caído para 4%, mas desde então a queda se acelerou. No fim de agosto, para 3,8%; no último boletim, de 25/11, 3,1%. Ou seja, nos últimos quatro meses caiu quase o dobro do ocorrido nos primeiros sete do ano.

Por trás dessas quedas do ritmo de atividade econômica também esteve presente uma política do BC. Preocupado com o ainda forte crescimento da economia no início do ano e seu impacto sobre uma inflação, que se acelerava, o Banco Central conteve o crédito desde então, só o aliviando recentemente, quando percebeu que a crise na eurozona repercutiria negativamente no Brasil. De janeiro a julho, o BC também aumentou a taxa básica de juros, só revertendo o processo em agosto.

Há quem aponte também um papel contracionista da parte do governo federal, que em fevereiro anunciou um corte orçamentário, mas não de despesas efetivas, de R$ 50 bilhões. Esse corte, contudo, caiu para R$ 21 bilhões, segundo o jornal Valor (15/11, página A2).

Na realidade, a colaboração do governo federal em matéria de ajuste das contas públicas foi ínfima. De novo veio um forte aumento de arrecadação, que lhe permitiu manter a sua meta de superávit primário - receitas menos despesas exceto juros da dívida -, mesmo expandindo gastos. Com a desatenção da imprensa, esse superávit costuma ser divulgado como "poupança que o governo faz para pagar juros". Trata-se de mistificação, pois uma coisa que ele logo faz é esse pagamento, sem o que quebraria, e tal superávit é alcançado mais pelo aumento da arrecadação de impostos. Ou seja, quem poupa mesmo é o contribuinte, a sustentar um governo cada vez maior. Aliás, há a perspectiva de que a carga tributária venha a alcançar novo recorde este ano.

Assim, cabem regras mais adequadas de avaliação do setor público, que, entre outros aspectos, examinem a sua "poupança" relativamente à arrecadação e foquem também a proporção de despesas destinadas a investimentos, como em infraestrutura, relativamente a gastos de custeio. Estes continuam a revelar um governo incapaz de conter seu contínuo crescimento e que sacrifica investimentos no altar de suas (in)conveniências políticas, inclusive mantendo malcheirosa ceva de políticos e organizações não governamentais (ONGs) que polui o noticiário das ações ministeriais. Segundo o economista Mansueto Almeida, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Valor, 28/11, A2), em 2011 o governo federal voltou a reduzir seus escassos investimentos.

Portanto, na desaceleração da nossa economia há claramente os efeitos combinados da política do BC, recentemente revertida, e da crise na eurozona. Estes últimos penetram aqui via expectativas de consumidores e empresários, que diante do noticiário negativo contraem consumo e investimentos. Ao mesmo tempo, surgem dificuldades nas exportações, como nos preços das commodities e no crédito a essa atividade. Se a crise "eurozônica" se agravar ainda mais, as duas últimas dificuldades se acentuarão, tal como na crise mundial que eclodiu em 2008. Do lado dos consumidores, é possível que para muitos deles a forte expansão do crédito nos últimos anos tenha atingido seu limite de endividamento, o que estaria adicionando outro elemento contracionista do lado da demanda.

Diante do medíocre crescimento que a economia revela, a presidente Dilma Rousseff recentemente exortou a população a consumir e os empresários a investir. Mas isso será inócuo, pois agentes econômicos não costumam pautar-se por discursos desse tipo. Em particular, consumidores preocupam-se mesmo é com suas finanças e com a perspectiva de desemprego, enquanto empresários não põem suas empresas em risco diante de dificuldades ligadas à crise ou por outras razões. Tome-se, por exemplo, o caso da Vale, que conterá seus planos de investimentos em 2012.

O que a presidente poderia realmente fazer para estimular a economia do País, e torná-la menos vulnerável ao vaivém da economia internacional, seria tomar medidas efetivas para ampliar poupanças e investimentos brasileiros, em particular do governo, e sem ampliar a carga tributária. Reduzi-la seria ótimo, mas ainda é um sonho.

A seriíssima carência de investimentos financiados com poupança própria marca outra crise, brasileira, crônica e sem solução, embora muito antiga. Quando se olha o cenário mundial, há países que crescem bem mais que o Brasil, como a China e a Índia, e também poupam e investem parcelas muito maiores de seu PIB do que aqui.

Sem isso é fiada essa conversa de que "país rico é país sem pobreza". O Brasil poderá até reduzir substancialmente esta última, mas continuará emergente, sem alcançar a superfície em que navegam nações efetivamente ricas, que aí estão porque no passado pouparam e investiram suficientemente para alcançá-la.

O destino de aliados do Itamaraty - EDITORIAL O GLOBO

 01/12/2011


Já é da História que Lula e o PT foram sensatos em manter a rota da política econômica, ao assumirem em 2003. O governo e o país escaparam de grave crise. Mas, talvez para compensar o "conservadorismo", uma manobra radical foi executada na política externa.

Instituiu-se a "diplomacia companheira", inspirada na ideologia nacionalista e terceiro-mundista das décadas de 60 e 70 do século passado, quando Unctad era sinônimo de independência. Ressuscitou-se um antiamericanismo juvenil, importado do passado, do mundo bipolar da Guerra Fria. O primeiro grande feito da diplomacia companheira foi rejeitar a proposta americana da Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Aplausos foram ouvidos na Casa Rosada, ocupada pelos Kirchner, e no Palácio Miraflores, do caudilho Hugo Chávez. Cumpriu-se um ritual de conferências apenas para sacramentar a decisão prévia de não se fazer acordo com os "gringos". Todas as fichas foram apostadas na Rodada de Doha, no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC), para uma profunda liberação do comércio mundial. Não deu certo. Doha se frustrou, está congelada na OMC, a Alca foi esquecida, e Brasil/Argentina e parceiros do Mercosul não assinaram qualquer acordo bilateral relevante para alavancar as exportações. Ao contrário de vários outros países.

Se a China houvesse rateado nos últimos nove anos, o Brasil não teria resgatado a dívida externa com divisas das exportações. O fracasso da diplomacia companheira no plano comercial está expresso no estado perene de crise no Mercosul e no fato de o Brasil continuar com uma parcela ínfima das exportações mundiais (entre um e dois por cento).

No plano político, o Itamaraty dos tempos lulopetistas não foi melhor. O avanço da Primavera Árabe já despejou na lata de lixo da História um dos parceiros escolhidos pela política externa instituída em 2003, Muamar Kadafi, "amigo e irmão", no entender de Lula. Ao menos, já com Dilma no Planalto, o Itamaraty foi coerente com o passado de profissionalismo e, na ONU, condenou as atrocidades do ditador. Mas fraquejou diante da ditadura dos Assad, em fase de implosão, mesmo quando as ruas das cidades sírias já estavam manchadas de sangue. Parece ter havido uma recaída na tosca ideia de que ser independente é estar do outro lado em que se encontram os Estados Unidos, mesmo que, para isso, se tenha a companhia de ferozes ditadores. Mas, diante da escalada da violência do regime, a ponto de causar reação da própria Liga Árabe e de antigos aliados como a Turquia, o Itamaraty recuou. Antes tarde.

O processo acelerado de mudanças no Norte da África aconselha coerência no compromisso com princípios e cuidados com alianças descabidas, seladas apenas por caprichos ideológicos. O Irã de Ahmadinejad, outro ungido pela diplomacia companheira, ruma célere para voltar a ser um estado pária, como depois da revolução islâmica de Khomeini. A tresloucada depredação da embaixada britânica, um videoteipe do cerco à representação diplomática americana em 1979, é sugestiva.

O momento deveria ser de revisão da política de alianças exóticas. Por enquanto, esta diplomacia de varejo tem sido contestada por fatos que ocorrem em regiões distantes. O Itamaraty precisa estar preparado para quando companheiros geograficamente mais próximos caírem em desgraça.

O fim do euro? - MIRIAM LEITÃO

O GLOBO - 01/11/11




Empresas começam a analisar o que fazer diante desse pior cenário, o mercado procura jurisprudência para saber como receber os títulos emitidos em euro. O mundo está pensando no impensável. Essa foi a capa da "Economist" esta semana e a manchete do Financial Times online. Ontem foi um dia de alívio, com a ação dos bancos centrais, mas a solução ainda tarda.

Não é desejável, nem é provável, mas começa a parecer possível o fim do euro. Todas as ações tomadas pelos governos chegam sempre como reação aos fatos, mas jamais se adiantam a eles. Ontem, o alívio foi provocado pela decisão do Fed, Banco Central Europeu e bancos centrais da Suíça, Canadá, Inglaterra e Japão de, numa ação coordenada, atuar para dar mais liquidez aos mercados. Mas isso foi após o rebaixamento da nota de 35 bancos pela Standard & Poor's.

O fim do euro pode detonar uma sucessão de eventos de escala global. A crise não se restringiria aos 17 países. Pelo seu poder de detonar crises em cascata é que os analistas se seguram na tese de que a Europa fará o que for possível para manter a Zona do Euro. Mesmo assim, uma parte das mentes das grandes corporações financeiras, empresariais e até dos governos começa a se perguntar: e se?

Os britânicos são conhecidos pela fleuma. Eles não são os que se desesperam primeiro. O leitor da revista "Economist" se acostumou com análises frias, objetivas, nada alarmistas. Por isso, o último número espantou. Lá está escrito, no editorial, que sem uma mudança dramática nas ações dos líderes europeus e dos dirigentes do BCE o euro pode entrar em colapso em semanas. Sim, a revista disse "semanas". E para sustentar a tese fatalista e terminal cita o exemplo da Itália, que terá em janeiro que honrar C 30 bi que estarão vencendo. Se o mercado não refinanciar a dívida, e o BCE não agir, "o terceiro maior devedor do mundo pode ser empurrado para o calote".

Imagina o que aconteceria com a Alemanha se o euro acabar ou se o país sair do bloco? Seria restabelecido o marco como moeda e ele se fortaleceria imediatamente, o que tiraria a competitividade de uma economia que vive da exportação. Sempre se imagina o que a Grécia perderia caso saísse, mas na verdade todos perdem, inclusive a poderosa Alemanha. Ontem, os dados de desemprego da região mostraram como o país mais forte continua bem, mesmo com os outros países piorando. O desemprego da Zona do Euro subiu para 10,3%, maior nível em 13 anos; o desemprego da Alemanha caiu para 6,9%, menor nível em 20 anos. Houve um início de corrida ontem para títulos alemães por investidores temendo o colapso do euro e querendo refúgio.

Se o franco-suíço teve que contra-atacar um ataque especulativo que valorizou muito a moeda, num momento de corrida por refúgio, imagina o que seria de uma moeda alemã num cenário de estouro da boiada? O economista-chefe de um dos maiores bancos brasileiros, que acaba de voltar de uma rodada por bancos europeus, me disse que o ano não termina sem uma solução "para o bem ou para o mal". A revista apela para Angela Merkel agir rapidamente e diz que "a menos que ela escolha rapidamente, a chanceler alemã vai acabar descobrindo que a escolha foi feita por ela".

O também britânico "Financial Times" trouxe ontem o resultado de uma pesquisa com grandes empresas mostrando que a maioria já começa a pensar no que fazer no pior dos cenários, que é o do colapso da moeda de 13 anos, que une 17 países. Mesmo empresas fora da Zona do Euro estão fazendo planos. A Inglaterra tem sua própria moeda, mas 47% das suas exportações vão para países da região. Não há, portanto, como escapar dos reflexos.

Ontem foi um dia bom por causa da ação coordenada dos bancos centrais e liderada pelo Fed, mas todos sabem que uma injeção de liquidez pode ter resultado num dia, mas não é a solução final de todos os problemas.

O dilema alemão é mais complexo. Uma análise publicada pelo Centro de Estudos Europeus mostrou que, na visão de muitos políticos alemães, o país é criticado por não liderar mas se liderar vai ser acusado de arrogante e dominador. De fato, quando Angela Merkel toma a frente, há sempre um analista para dizer que o país está conquistando no campo monetário o controle da Europa que perdeu no campo de batalha por duas vezes.

Os cenários feitos pelas empresas, mercado e governos são sempre assustadores. A saída de alguns países da Zona do Euro, como Grécia, Portugal e Irlanda, fará terra arrasada destes países. Eles entrariam em forte recessão. Pelas conexões financeiras, bancos de outros países seriam afetados. Quem carrega papéis emitidos em euro em que moeda receberia? Outro cenário é a redução do número de membros no bloco. Ficariam só os grandões e haveria uma espécie de balcanização monetária. Se a Alemanha tentar se salvar sozinha não conseguirá. De um lado, pela supervalorização da sua moeda, por outro, pelo fato de que seus bancos carregam dívidas de vários países da área.

Os cenários do fim da união monetária são catastróficos e terão consequências globais. É só nisso que se segura, de forma tênue, a esperança de que os países tudo farão para salvar o euro. E, espera-se, em tempo.

O despertar árabe e Israel - THOMAS L. FRIEDMAN

O Estado de S.Paulo - 01/12/11


Netanyahu tem motivos para preocupar-se com a Primavera Árabe na região, mas não pode se abster de agir diante de um despertar palestino em seu quintal



Israel enfrenta o maior desgaste de sua situação estratégica desde sua fundação. Hostilizado por seu antigo aliado, a Turquia, suspeita que o Irã, seu arqui-inimigo, esteja desenvolvendo a bomba nuclear. Os dois países mais fortes com os quais tem fronteiras - Síria e Egito - estão mergulhados na revolução. Os dois vizinhos mais fracos - Gaza e o Líbano - são controlados pelo Hamas e pelo Hezbollah.

Foi neste contexto que o premiê Binyamin Netanyahu compareceu na Knesset, na semana passada, para afirmar que o despertar árabe provocará o "retrocesso" do mundo árabe, e está se transformando numa "onda islâmica, antiocidental, antiliberal, anti-israelense, antidemocrática". Neste momento, seria imprudente ceder parte do território aos palestinos, ele disse: "Não sabemos quem acabará com qualquer pedaço de território de que eventualmente possamos abrir mão".

Netanyahu teria afirmado que, quando aconselhou o presidente Barack Obama e outros líderes ocidentais a tomar cuidado ao apoiar o levante contra o então presidente do Egito, Hosni Mubarak, disseram-lhe que ele não compreendia a realidade: "Hoje eu pergunto, quem é que não compreendia a realidade?" A análise de Netanyahu dos perigos com que Israel se defronta está correta, e a situação poderá se agravar ainda mais. O que está errado é o seu diagnóstico quanto a como as coisas se desenrolaram, e também sua prescrição do que será preciso fazer a respeito - e estes pontos obscuros também poderão se tornar perigosos para Israel.

Seu diagnóstico: desde o começo, as autoridades israelenses insistiram que Obama contribuiu para pressionar a saída de Mubarak em vez de salvá-lo. Absurdo. Os ditadores árabes foram derrubados pelo seu povo; não havia como salvá-los.

Não se pode menosprezar o temor de Israel de que os islâmicos tomem o poder nos países que estão ao seu redor. Mas esta é uma possibilidade concreta precisamente por causa dos últimos 50 anos de ditadura árabe, durante os quais somente os islâmicos conseguiram se organizar nas mesquitas, enquanto na arena política não era permitido criar partidos democráticos, seculares, independentes.

A receita de Netanyahu é abster-se de agir. Entendo que, neste período de incertezas, Israel não queira ceder parte do território a um movimento palestino dividido. O que não entendo é o motivo para abster-se de agir. Israel tem um despertar árabe exatamente em seu quintal, na pessoa do premiê Salam Fayyad, da Autoridade Palestina.

A melhor defesa de Israel está em fortalecer o fayyadismo - até mesmo cedendo aos serviços de segurança palestinos novas responsabilidades a fim de aumentar a sua legitimidade. Isso não só contribuiria para estabilizar o próprio quintal de Israel, como também lançaria os alicerces da solução de dois Estados e de melhores relações com o povo árabe. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Um copo d"água no deserto - VINICIUS TORRES FREIRE

FOLHA DE SP - 01/11/11



Naqueles boletins médicos sobre doentes graves que aparecem no noticiário, muitas vezes a gente ouve que o "estado do paciente é estável". Isso quer dizer apenas que, tenha o doente um tumor do tamanho de uma laranja ou meia dúzia de balas no corpo, os sinais vitais desse paciente ao menos pararam de piorar: ficaram num mínimo aceitável.

Depois do mutirão de ontem dos bancos centrais do mundo rico, a gente poderia ouvir um relato semelhante: os bancos europeus estão "em estado estável". Mas a doença é ruim e a contaminação continua.

O Fed, o banco central dos EUA, baixou ontem os juros para empréstimos em dólares a seus pares da Europa. Os BCs europeus, por sua vez, têm agora mais dólares à disposição para emprestar aos bancos.

Os bancos europeus estavam ficando sem fundos em dólares (e não só em verdinhas, o que é grave, pois têm "contas a pagar" em dólares). Perderam acesso ao mercado americano (fundos de investimento), pois os fundos dos EUA temem emprestar à banca europeia, sob risco de quebra devido à crise do euro.

Os bancos europeus também não conseguem captar dinheiro bastante entre eles mesmos, trate-se de dólares ou euros, pois as instituições financeiras desconfiam uma das outras: podem quebrar.

A ação dos BCs do mundo rico, enfim, é apenas de uma transfusão de sangue que tem por objetivo tratar um sintoma específico. Nada disso trata da doença de fundo.

Decerto a transfusão é melhor do que um choque ou do que a morte. Pode ainda ser um sinal de que líderes políticos e autoridades econômicas venham a tomar medidas decididas e decisivas para lidar com a crise dos governos quebrados.

Por outro lado, o socorro americano de ontem parece muito com o de meados de 2007, quando o sistema financeiro euro-americano começou a desabar, mais de um ano antes da explosão da crise em 2008.

Isto é, está havendo um aperto geral de crédito na praça europeia: um "credit crunch", como se escrevia ontem nestas colunas. A ação emergencial significa que em breve haveria risco de quebra de um ou outro banco, asfixiado por falta de "funding", de crédito e recursos para financiar suas operações.

Na presente situação europeia, a quebra de um banco seria um desastre pelo menos "psicológico", mesmo que não se tratasse de instituição grande o bastante para causar tumulto sistêmico "concreto".

Obviamente, presume-se, ainda mais depois das incompetências de 2008, as autoridades não deixariam um banco quebrar de fato. De algum modo, tapariam os rombos e o banco iria para a UTI ou a estatização. O impacto "psicológico", porém, tenderia a ser devastador também.

Dada a gravidade da operação de emergência (a transfusão de dólares para a banca europeia), por que houve tanta animação nas praças financeiras do mundo?

Ao que parece, os "mercados", os donos do dinheiro grosso, interpretaram a atitude dos BCs como a aceitação do fato de que governos e o Banco Central Europeu precisam abrir as arcas e colocar mais dinheiro em banco e país semiquebrado.

Na semana que vem, a direção do BCE e, no dia seguinte, governos europeus se encontram para deliberar sobre como, se, quando e em que medida vão bancar a crise. A Europa está mesmo no bico do corvo.

A turba ataca em Teerã - EDITORIAL O ESTADÃO

O Estado de S. Paulo - 01/12/11



No Irã dos aiatolás, só há dois tipos de manifestações de protesto. Aquelas que a teocracia reprime com brutalidade, como as que, em um desafio sem precedentes, tomaram as ruas de Teerã em meados de 2009 para denunciar a fraudada reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad. E aquelas que o regime apoia, quando não incentiva, como acaba de acontecer agora, para manter aceso o ódio aos inimigos que abomina - o "ente sionista" (Israel), o "grande Satã" (Estados Unidos) e o "pequeno Satã" (Reino Unido).

Destes, o único alvo físico ainda disponível no país são as imponentes edificações da missão diplomática britânica, no coração da capital iraniana - famosas por sediar em 1943 a conferência em que os líderes aliados Franklin Roosevelt, Winston Churchill e Josef Stalin planejaram as etapas finais da guerra contra a Alemanha nazista e o Japão. Anteontem, as dependências, em tese protegidas por acordos internacionais, foram invadidas e saqueadas por uma turba de 300 a 400 "estudantes", na realidade membros da milícia Basij, ligada ao aiatolá Ali Khamenei.

A própria televisão iraniana mostrou que forças dos serviços de segurança assistiram, impassíveis, às cenas de vandalismo. Levou horas até que agentes em trajes de combate, porém contrafeitos, retirassem os agressores. O ultraje lembrou de imediato a ocupação da embaixada americana em Teerã por uma horda xiita, logo em seguida ao advento do Estado policial-clerical que se autodenominou República Islâmica, em 1979. Os invasores mantiveram 52 funcionários reféns durante 444 dias.

A violência contra a representação do Reino Unido, condenada em termos duros pelo Conselho de Segurança da ONU, foi a resposta dos ultrarradicais do regime à decisão do governo do primeiro-ministro David Cameron, na semana passada, de impor ao Irã severas sanções econômicas, em decorrência das conclusões da AIEA, o fiscal nuclear das Nações Unidas, de que o país está no limiar de produzir a bomba atômica. Ao determinar o congelamento de todos os contatos com o Banco Central iraniano, Cameron foi mais longe nisso do que os próprios Estados Unidos.

Na segunda-feira, o Parlamento de Teerã "exigiu" a expulsão do embaixador Dominick Chilcott, por sinal instalado há bem pouco tempo na capital, enquanto o aiatolá Khamenei fulminava a "arrogância" do Reino Unido, com o seu histórico de "humilhar nações, destruir as suas culturas e apossar-se de seus recursos". Não é de agora que a maioria dos iranianos odeia os britânicos - pela derrubada, em 1951, do primeiro-ministro Muhammad Mossadegh, que nacionalizou a petrolífera anglo-iraniana, e por seu apoio ao governo tirânico do xá Reza Pahlevi, nos anos 60 a 70.

Em 1987, quando o Irã acusou a Grã-Bretanha de apoiar o Iraque com o qual estava em guerra, o encarregado de negócios Edward Chaplin chegou a ser agredido por membros da Guarda Revolucionária. Pouco depois, Londres determinou a retirada de todo o seu pessoal em Teerã. Repetiu a decisão ontem, ao fechar a sede da representação e o conjunto onde residiam os seus 26 funcionários, e dar 48 horas para o Irã fazer o mesmo na capital britânica.

O chanceler do Reino Unido, William Hague, descartou o rompimento formal de relações. Isso aconteceu, por iniciativa britânica, depois do decreto religioso que condenou à morte, em 1989, o escritor anglo-indiano Salman Rushdie por sua obra Os versos satânicos, considerada blasfema pelos aiatolás. Os dois países reataram apenas em 1998. Desta vez, Londres prefere deixar entreaberta uma fresta de diálogo com o governo Ahmadinejad, cuja chancelaria emitiu um incomum pedido de desculpas pelo ataque de anteontem.

Especula-se que o episódio faz parte de uma prolongada batalha pelo poder entre o grupo do presidente e as alas mais conservadoras do regime. Por incrível que pareça, Ahmadinejad estaria inclinado a reduzir as tensões com a comunidade internacional. Quanto à linha dura, parece claro que procura chegar a um confronto com o Ocidente, na esperança de acuar os sobreviventes da oposição interna e galvanizar as ruas de Teerã, fazendo-as distanciar-se das influências liberalizantes da Primavera Árabe.

Sonho tunisiano - MERVAL PEREIRA

O Globo - 01/12/11



Do momento em que um jovem vendedor ambulante de frutas e verduras se imolou em praça pública no interior da Tunísia, em protesto contra os desmandos das autoridades, até hoje, um ano depois, quando seu gesto continua desencadeando manifestações populares na região que já derrubaram nada menos que três ditadores, e levaram às urnas, pela primeira vez em eleições democráticas, vários países, houve uma "reinvenção da liberdade", valor central da condição do homem moderno.

A definição é da escritora Hélé Béji, uma das principais intelectuais da Tunísia, fundadora do Colégio Internacional de Tunis, que participa a partir de hoje da conferência da Academia da Latinidade que vai debater justamente as consequências, para a região e para a democracia, da chamada Primavera Árabe.

Criada para discutir a questão do multiculturalismo num mundo dominado pela hegemonia dos EUA, mesmo antes dos atentados do 11 de Setembro, a Academia da Latinidade reúne intelectuais, na maioria de países de origem latina, e se propõe a intermediar as relações do Ocidente com o Oriente, tendo como base o fortalecimento da democracia.

Seu secretário-geral, o filósofo e sociólogo brasileiro Candido Mendes, diz que esta XXIV Conferência, intitulada "Os novos imaginários democráticos", pretende discutir as muitas interrogações que estão postas sobre a afirmação da identidade coletiva dos que desencadearam a Primavera Árabe, em meio às tensões da guerra de religões, da queda de ditaduras e do fundamentalismo renovado na região mediterrânea.

O que se pretende debater, segundo Candido Mendes, é se a democracia tornou-se uma ideia universal possível, no encontro de um diálogo num mundo marcado pela indiferença, pelo mal-entendido entre a laicidade e o mundo islâmico, e se é possível a compreensão efetiva do pluralismo étnico ou do multiculturalismo nas construções nacionais que se seguirão às mudanças.

A escritora tunisiana parece não ter dúvidas. Para ela, "assistimos, pela primeira vez na História contemporânea, e com ressonância mundial e não somente regional", à reinvenção da liberdade, e "a partir de agora não há mais fronteiras morais ou políticas" entre o mundo livre, que se identificava com o Ocidente, e os outros mundos.

Candido Mendes ressalta que, com o fim da antiga homogeneidade de um mundo dividido entre centros e periferias, será preciso enfrentar as novas contradições entre afirmação identitária, autodeterminação e prioridade democrática.

Já Hélé, entusiasmada com o momento, fala da "aceleração da História", quando "a ação, o gesto, a rebelião, a palavra foram mais rápidos que o pensamento". Ela considera que estamos diante de uma "ampliação infinita, mundial do que conhecíamos como mundo livre". A partir de agora, para Hélé, os povos da Primavera Árabe são livres para imaginar a liberdade, e não apenas recebê-la dentro de um modelo predefinido pelo Ocidente.

Ela vê o momento atual como uma "segunda independência" para os países que haviam trocado a dominação exterior do colonialismo por uma dominação interior, das ditaduras. E compara os movimentos revolucionários que ocorrem nos países da Primavera Árabe à Renascença europeia dos séculos XV e XVI.

A revolução tunisiana, para Hélé, deu à palavra "democracia" uma acepção mais ampla que toca todas as esferas da existência social e humana nas sociedades afetadas, e não se limita apenas à ruptura de um sistema político arcaico ou a uma forma de governo.

Não se trata, diz ela, de somente construir um novo sistema político ou estabelecer regras honestas e justas de representação política, mas da possibilidade única de criar novos modos de relações humanas que não sejam baseadas em hierarquias antigas ou em comunidades envelhecidas ou ainda em medos ancestrais ou proteções patriarcais.

Será preciso, adverte, um trabalho individual de autorregulação, de autodisciplina, pois com o desaparecimento dos antigos sistemas coercitivos também desapareceram as referências históricas. Hélé pensa que, dentro do novo ambiente democrático, haverá necessidade de uma nova autoridade, que não pode ser religiosa.

"Nossas novas democracias estão à procura de sua própria autoridade, de seus próprios mitos, de seus próprios símbolos, de suas próprias tradições, seus próprios códigos, seu próprio discurso, seus próprios fundamentos ainda não formulados, em nome de uma nova cultura", divaga Hélé.

As democracias modernas estão enfraquecidas pelo excesso de individualismo e pela ganância financeira, na visão de Hélé Béji, e estão longe de serem perfeitas, especialmente no campo da justiça social. Ela considera que a conferência da Academia da Latinidade pode explorar, nos diversos campos das ciências humanas, as consequências do que acredita ser um novo ciclo histórico da democracia, que, "através da extraordinária revolução do sul do Mediterrâneo, joga novas luzes sobre a crise das democracias ocidentais".

A conferência se debruçará também, segundo Candido Mendes, sobre o impacto dessas mudanças nos caminhos clássicos do mundo europeu, envolto na crise da esquerda, do emprego e, sobretudo, das novas demandas por avanços nos direitos humanos e de cidadania, num espaço político novo e complexo.

Mais pragmático que sua colega Hélé, o secretário-geral da academia ressalta a importância, nos países subdesenvolvidos que fazem parte desse processo, das políticas públicas para reduzir a marginalidade social, distribuir melhor a renda e acelerar os resultados.

Se não fossem os políticos... - CARLOS ALBERTO SARDENBERG

O Globo - 01/12/2011


Se não fossem os políticos, a economia americana e, pois, a mundial estariam em situação muito melhor. Sinais de recuperação reapareceram por lá. Os consumidores foram às compras no feriadão do Dia de Ação de Graças e têm se declarado mais confiantes. Não há mais destruição de empregos, e novas vagas começam a aparecer. As empresas estão com o caixa pronto para novos investimentos. Ontem, foi uma sequência de boas notícias: empresas privadas abriram mais de 200 mil vagas em outubro, o dobro do esperado; as vendas de casas subiram 10% em outubro, contra queda de 4% no mês anterior; e dois indicadores importantes mostraram atividade industrial em expansão.

Mas continua tudo emperrado do outro lado. Não se sabe como o governo pode apoiar (ou atrapalhar) a recuperação e como vai lidar com o enorme buraco das contas públicas. Com um presidente democrata, Obama, e uma Câmara de Deputados controlada pelos republicanos, há um empate político que impede a formulação de um programa econômico de médio prazo.

Em tempos normais, os moderados dos dois lados, a direita dos democratas e a esquerda dos republicanos, construiriam um plano de consenso. Não é mais assim. De um lado, o Partido Democrata deslizou um pouco para a esquerda com Obama. De outro, o Partido Republicano avançou demasiadamente para a direita, podendo ser considerado o culpado principal nesta história.

Há diferenças ideológicas históricas e, afinal, iguais às existentes em qualquer outro país. Os democratas, esquerda, favorecem o gasto social, financiado por impostos cobrados sobre os grupos de maior renda e sobre grandes empresas e bancos. Republicanos, direita, acham que gastos do governo funcionam mal, quaisquer que sejam, de maneira que a saída é criar condições para que o setor privado faça o serviço de gerar crescimento e emprego. Por isso, quanto menos impostos melhor, especialmente para os que têm capacidade de investir.

Na prática, porém, são mais inteligentes aqueles governantes que não se prendem ferreamente à ideologia e se acertam com as circunstâncias. Bill Clinton, democrata, fez um forte ajuste de contas públicas. Ronald Regan, republicano, aumentou impostos.

Além disso, estes não são tempos normais. Se Obama colocou uma montanha de dinheiro público para salvar bancos e grandes empresas, temendo que seu colapso arrastasse toda a economia, por que os republicanos não poderiam topar algum aumento de imposto para financiar déficits orçamentários que podem abortar a recuperação privada?

O presidente Obama fez genuínos esforços de composição. Isso, aliás, custa-lhe a oposição dos dois lados. No seu próprio partido, acusam-no de ser extremamente condescendente com os bancos e o big business. Do outro lado, consideram-no um perigoso esquerdista. No meio do espectro político, muitos consideram que ele não conseguiu unir o país. É preciso reconhecer que ele assumiu em circunstâncias particularmente difíceis, mas é para isso mesmo que se elegem os líderes, não é?

No terreno do bom-senso, economistas de diversas tendências concordam que os Estados Unidos precisam de uma combinação de estímulo público imediato e austeridade em médio e longo prazos. Ou seja, gastos públicos direcionados, agora, para as pessoas mais atingidas pela crise, os desempregados, e algum tipo de subsídio para setores econômicos com maior propensão de gerar empregos. Praticamente todo mundo concorda que não há como escapar de aumento de impostos para financiar essas despesas sem aumentar ainda mais o déficit público. E há diversas maneiras para se cobrar mais impostos dos mais ricos, sem aplicar nenhum confisco. Uma vez consolidada a recuperação do setor privado - o que se mede pela queda do desemprego - sairiam os estímulos e entraria o corte de despesas.

Parece sensato, mas há um obstáculo insuperável no lado republicano. Todos os seus principais líderes prometeram formalmente que não votariam nenhuma legislação que aumentasse impostos de qualquer tipo, para qualquer setor ou pessoa. É mais do que radical. É loucura. A revista "Economist", por exemplo, sugeriu que nem seria necessário elevar alíquotas de impostos.

Bastaria eliminar ou reduzir deduções que beneficiam as famílias de maior renda. Nem isso passa.

Além de ideologia, há aí um cálculo político dos republicanos. Como o presidente Obama tem baixo índice de aprovação e como a economia se recupera lentamente, eles acreditam ter grande chance de tirá-lo da Casa Branca em novembro próximo. Os democratas reagem - e pronto, lá se foram as possibilidades de programas bipartidários. O país está em plena campanha eleitoral, quando as posições normalmente radicalizam.

Assim, até final do próximo ano, não haverá programa econômico de médio prazo nos EUA. Os governantes, no Executivo e no Legislativo, vão empurrar com a barriga e reagir às emergências. Não são estúpidos a ponto de deixar que o país mergulhe no desastre.

O Federal Reserve, Fed, o banco central, tem espaço para manobras independentes, como fez ontem, e pode ajudar a evitar o pior. Mas a variável chave continua a ser o ajuste das contas públicas, que não depende do Fed, mas sim do desempate entre o presidente e o Congresso.

Não é só na Europa que faltam líderes de maior sabedoria.

PREVIDÊNCIA PÚBLICA

Funcionários públicos da Inglaterra fizeram greve, ontem, para protestar contra a reforma da previdência iniciada pelo governo conservador de David Cameron. Como toda reforma, em qualquer país, o objetivo é aumentar o tempo de contribuição, o valor da contribuição e, em certos casos, reduzir o valor da pensão. A idade mínima de aposentadoria, por exemplo, está sendo elevada de 65 para 67 anos, para homens e mulheres.

Diz o governo britânico que, sem as reformas, o déficit previdenciário pode chegar logo a "perigosos" 9 bilhões de libras, algo como R$25 bilhões. Sabem qual o déficit da previdência dos funcionários públicos federais no Brasil? R$50 bilhões neste ano, o dobro do que os ingleses consideraram temerário.

Não é difícil entender por que a presidente Dilma, que não é conservadora, está apressando a votação da sua reforma. Também é fácil verificar que esse déficit é mais um pedaço da herança maldita que recebeu de seu patrocinador.

Dez na berlinda Dora Kramer


O Estado de S. Paulo - 01/12/2011
 


A Justiça dá notícia de que dez governadores correm o risco de ter os mandatos cassados, caso sejam comprovadas as denúncias de que cometeram abusos na campanha eleitoral de 2010.

São acusados de extrapolar do exercício do poder e de usar indevidamente os meios de comunicação.

Eram 11 até anteontem, quando o Tribunal Superior Eleitoral decidiu arquivar o caso do governador de Roraima, Anchieta Júnior. Permanecem na berlinda os governadores do Acre, Alagoas, Amazonas, Ceará, Tocantins, Minas Gerais, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro e Piauí.

Não é um acontecimento trivial nem irrelevante. Afinal, nos últimos anos três governadores já foram cassados pela Justiça por motivos semelhantes e agora os chefes de Executivos estaduais que enfrentam o questionamento dos respectivos mandatos são praticamente um terço dos eleitos ou reeleitos.

Pode-se atribuir as ações ao choro dos perdedores, já que os processos são de iniciativa dos adversários que aspiram a assumir no lugar dos que sejam eventualmente afastados.

Fato é, porém, que os governadores correm risco e com eles os resultados das eleições de um ano atrás que bem ou mal, a depender da substância das provas, ficam em aberto.

Ou, se o processo demorar e durar o tempo todo dos mandatos, os condenados ficam inelegíveis. Seja por força da sentença propriamente dita ou por efeito da Lei da Ficha Limpa.

O assunto, quando da cassação dos governadores da Paraíba, do Maranhão e do Tocantins, suscitou questionamentos sobre a interferência da Justiça na vontade do eleitor.

É um ponto a se discutir. Mas, ao mesmo tempo, é de se notar que a Justiça Eleitoral avançou em relação ao entendimento que dava a eleição como o ponto final de qualquer contestação.

Em nome desse fato consumado durante muito tempo ficaram impunes aqueles que haviam sido eleitos a poder de abusos e infrações, o que é das formas mais contundentes e perversas de deformação da vontade do eleitor.

Os processos, óbvio, não significam que os governadores - todos eles, parte deles ou nenhum deles - tenham culpa no cartório.

Mas a realidade das campanhas eleitorais nos fornece exemplos de sobra a respeito da maneira abusada como muitos se comportam em relação à regra do jogo, cujo objetivo é preservar minimamente a igualdade de condições na disputa.

Nesse sentido com o tempo é possível que as ações tenham o educativo efeito de fazê-los pensar duas vezes antes de optar pela má-fé eleitoral.

Águas a rolar. A defesa que o governador Geraldo Alckmin faz da candidatura própria à Prefeitura de São Paulo não quer dizer nada em termos de aliança, ou não, com o PSD de Gilberto Kassab.

Significa apenas que Alckmin marca uma posição para o início das negociações. Estranho seria se entregasse os pontos na largada.

Numa nice. Fernando Henrique Cardoso já sublimou questões do cotidiano partidário. Não deve ter paciência para a luta acirrada entre a tolice e a vilania em que se transformou o debate político no Brasil.

De onde parece ter optado por se divertir, conforme indicam a invenção do slogan "yes, we care" e a declaração de que o futuro do partido é mais difícil de prever que o desfecho da crise na Europa.

Ninguém viu. O senador Eduardo Suplicy esclarece que, ao contrário do que vem sendo dito, o mecânico que acusa assessores do Ministério do Trabalho de terem lhe cobrado propina para o registro de um sindicato não o informou da tentativa de suborno.

Mandou apenas um e-mail falando da dificuldade de conseguir o registro. "Se tivesse conhecimento", diz o senador, "teria encaminhado o caso para o Ministério Público, para a Controladoria-Geral da União e para o ministro da pasta".

A Secretaria-Geral da Presidência da República informa que o ministro Gilberto Carvalho tampouco recebeu e-mail com a denúncia.

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