Entrevista:O Estado inteligente

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quarta-feira, outubro 15, 2008

Wolf: governos finalmente lançaram um cabo de resgate ao mundo



Martin Wolf

Na semana passada, o mundo viu o "bom Gordon" do Reino Unido em ação. Diante da implosão do sistema financeiro do país, Gordon Brown, o primeiro-ministro do Reino Unido, agiu. O plano elaborado por seu governo é abrangente e ousado. Também será caro. Mas o custo será muito menor do que a alternativa - uma depressão.

Mais importante, outros agora concordam. As reuniões de autoridades financeiras em Washington, no fim de semana, renderam frutos, primeiro no comunicado geral e depois nos programas detalhados de ação. O acordo europeu é particularmente impressionante. Brown pode reivindicar merecidamente a posição de líder. Em conseqüência, o mundo deu um passo para longe do abismo, apesar da estrada adiante permanecer cheia de obstáculos.

Os autores de política finalmente perceberam que um plano para lidar com uma crise financeira tão severa deve conter os elementos que são individualmente necessários e coletivamente suficientes. Dois elementos são necessários: provisão volumosa de liquidez e recapitalização das instituições financeiramente fracas. Dois outros elementos ajudarão, dependendo das circunstâncias: garantias aos emprestadores e compras dos ativos com problemas. Os Estados Unidos, com seu sistema financeiro complexo e ativos hipotecários podres, considerarão garantias ilimitadas difíceis de administrar, mas poderão se beneficiar com as compras. Os europeus parecem estar na situação oposta.

Os programas anunciados são, em escala e construção, o que é necessário. Dificuldades surgirão na contenção dos efeitos distorcedores das garantias e nos arranjos para uma saída de um sistema parcialmente nacionalizado para um melhor regulado do que antes. Mas os anúncios feitos nesta semana, especialmente nos Estados Unidos, epicentro da tempestade, devem reduzir o pânico.*

O programa do Tesouro americano é, finalmente, adequadamente abrangente. Os anúncios europeus, com promessas de gastar mais de 1,873 trilhão de euros, também são impressionantes. Enquanto isso, o Reino Unido já investiu 37 bilhões de libras em três dos maiores bancos do país.

São ações extraordinárias para tempos extraordinários. Mas elas funcionarão? Dois riscos permanecem: primeiro, a preocupação poderá passar da solvência dos bancos para a dos governos; segundo, as economias podem se enfraquecer mais profundamente do que acreditam os autores de políticas. Esses riscos são reais, mas podem ser contidos.

Os governos dispõem do dinheiro que estão prestes a gastar? Sim, é a minha resposta. Na verdade, os governos deverão obter de volta do setor bancário todo o dinheiro que agora estão despejando. Presuma que as economias tenham um futuro. Se tiverem, os principais bancos ganharão dinheiro, como no passado. Se os bancos podem ganhar dinheiro, eles podem pagar os empréstimos. A tarefa é apenas a de projetar o apoio para assegurar que paguem.

A questão da possibilidade financeira é, portanto, uma de credibilidade fiscal: se os mercados se tornarem suficientemente preocupados com as despesas, particularmente em um momento de grandes déficits fiscais, o impacto sobre as taxas de juros e câmbio poderia tornar um default concebível -seja por meio da inflação ou ainda mais diretamente. Mas isto ainda parece extremamente improvável.

Em seu novo Relatório de Estabilidade Financeira Global, o Fundo Monetário Internacional reestimou as perdas com os empréstimos americanos em US$ 425 bilhões e as perdas com o marcar a mercado na dívida federal com hipotecas, dívidas do consumidor e das corporações a US$ 980 bilhões, em um total de US$ 1,405 trilhão, em comparação a US$ 945 bilhões em abril passado. Quanto disso será liquidado não se sabe. Poderia ser substancialmente menos. Mas se a economia mergulhar em uma profunda recessão, poderia ser consideravelmente mais. Mas, a esta altura, isto é "apenas" 10% do produto interno bruto americano.

Isso não é de forma alguma extraordinário para uma grande crise financeira. Além disso, perto de metade dessas perdas recairão fora dos Estados Unidos (as alegrias da diversificação de risco!). Então as perdas totais são de "apenas" 5% do PIB europeu e americano combinados. E uma parte do total já foi paga, ao se levantar cerca de US$ 430 bilhões em capital adicional (em termos que são em grande parte catastróficos para os acionistas).

Contra isto, quatro preocupações devem ser registradas: primeiro, perdas adicionais são prováveis em dívidas hipotecárias domésticas européias já contraídas e como resultado da desaceleração econômica já em andamento; segundo, os países com sistemas bancários excepcionalmente grandes e endividamento doméstico excepcionalmente alto poderão encontrar fardos fiscais mais pesados; terceiro, o setor bancário também precisa de capital extra, para compensar o colapso do chamado setor bancário "paralelo"; e, finalmente, o setor também precisa ser substancialmente melhor capitalizado.

Observadores informados sugerem que US$ 1,5 trilhão em capital adicional pode ser necessário por essas razões. Logo, dobre isto e presuma que tudo venha do Estado: ainda seriam "apenas" 10% do PIB europeu e americano. Se a taxa de juros real, fosse de 2%, isso representaria um aumento permanente nos gastos públicos de 0,2% do PIB. Além disso, isso não seria uma exigência extra por recursos. Seria um reconhecimento de erros do passado: uma parte do que as pessoas achavam que seriam empréstimos privados e que se transformaram em gastos públicos. Coisas realmente acontecem!

Quase todos os governos ocidentais devem ser capazes de escapar ilesos com o que estão fazendo. Mas alguma ajuda poderá ser necessária para os vizinhos fracos, notadamente na Europa central e oriental.

Se este relativo otimismo provar ser justificado também dependerá da severidade da recessão. No mais recente Panorama Econômico Mundial, o FMI poderia ser melhor descrito como preocupado, mas não apocalíptico: a previsão é de que as economias avançadas cresçam 0,5% em 2009, com os Estados Unidos a 0,1% e a zona do euro a 0,2; e os países emergentes deverão crescer 6,1% no próximo ano, com a Ásia em desenvolvimento a 7,7%. No geral, a produção mundial, com taxas de câmbio de mercado, deverá crescer a 1,9% em 2009, uma queda em comparação a 2,7% em 2008 e 3,7% em 2007.

É fácil contar uma história bem pior, com novos colapsos nos preços dos ativos destruindo a confiança e também gerando grandes reduções no consumo e investimento. Mas também é fácil contar uma história melhor: a queda no preço dos commodities liberta os bancos centrais da necessidade de adoção de políticas monetárias agressivas, acelerando a recapitalização dos bancos, ajudando a sustentar o crédito e minimizando as chances de um grande salto nos preços dos ativos em meio a sua queda necessária.

Os governos ocidentais decidiram empregar todos os seus vastos recursos em seus setores financeiros danificados. Ainda virá uma boa dose de dor. A certa altura uma nacionalização parcial das finanças deverá ser substituída por uma privatização e melhor regulação. Mas a maré desta crise já mudou.

*Comentários do secretário assistente interino para estabilidade financeira, Neel Kashkari, perante o Instituto de Banqueiros Internacionais, 13 de outubro de 2008, www.treas.gov

Tradução: George El Khouri Andolfato
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terça-feira, outubro 14, 2008

Por que Krugman merece o Nobel


Seus talentos como teórico são raros; como comunicador são mais raros ainda

Editorial do Financial Times

Em geral, a reação ao anúncio do vencedor do prêmio Nobel é "quem?". Ontem não. Paul Krugman, colunista do "New York Times" é (junto com o falecido Milton Friedman) o homem mais reconhecível a receber a honra. Ele foi premiado pela "análise de padrões de comércio e localização da atividade econômica" e, com igual justiça, poderia ter sido premiado por lembrar ao mundo que idéias econômicas rigorosas importam.

O prêmio não foi surpresa: o Nobel parecia destinado há muito tempo a pousar eventualmente no colo de Krugman. Ainda assim, alguns questionarão o momento da premiação e o fato de Krugman ser um único a receber o prêmio.

O momento - três semanas antes das eleições presidenciais americanas - é provocativo porque Krugman tem sido um crítico afiado e influente tanto do governo Bush quanto de McCain. Depois, tem a decisão do comitê do Nobel de não dividir o prêmio, como faz comumente, com economistas com trabalhos relacionados. Homens como Avinash Dixit tornaram a pesquisa de Krugman possível. Contudo, enquanto os talentos de Paul Krugman como economista são compartilhados por alguns de seus parceiros, seus talentos como comunicador não. Parece que o comitê do Nobel sentiu que o papel de Krugman como intelectual público era mais um fator para a premiação e não um obstáculo.

Isso não é ruim. Como o mundo está novamente se dando conta, a economia tem importância. Krugman sempre foi um exemplar de pensamento econômico claro e defensor dos dados acima das anedotas. Ele foi um analista sensível da crise asiática e tem sido um forte e inteligente defensor da globalização. Seus leitores foram advertidos em boa hora a tomarem cuidado com a loucura das ponto.com e com a bolha imobiliária, aprendendo economia por meio de parábolas sobre um círculo de babás, uma corrida do ouro ou um fabricante de cachorro-quente.

Poucos economistas negarão que a pesquisa de Krugman merece esse prêmio, mas alguns ressentem o fato dele hoje ser muito mais voltado a demolir uma prática de campanha republicana do que de construir um modelo econômico visionário.

Há verdade nisso. Enquanto suas críticas às políticas lamentáveis do governo Bush tenderam a ser verdadeiras, sua ira algumas vezes pode diminuir a persuasão de seu argumento. De qualquer forma, muitos jornalistas podem fazer isso, mas apenas um economista pode escrever uma cuidadosa "teoria de comércio interestelar". Mesmo quando o criador de polêmicas está correto, ocasionalmente faz o sagaz popularizador da lógica econômica passar despercebido.

Não é tarde demais para Paul Krugman voltar ao que faz melhor: explicar como funciona a economia, por que é importante e o que políticas mal direcionadas podem fazer a ela. De fato, essa mudança talvez ocorra em breve. Caso aconteça, não será por causa do prêmio Nobel, mas porque os republicanos não estarão mais na Casa Branca. Uma presidência de Obama talvez persuada Krugman de que seus serviços na frente política não são mais tão urgentemente necessários.

Palavras de ordem e polêmicas têm importância. Assim como modelos e dados. Paul Krugman é mestre em todos eles. A ele, nossos parabéns.

Tradução: Deborah Weinberg

sábado, outubro 11, 2008

Um vento cruel

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Financial Times
11/10/2008
Um vento cruel
Kate Burgess
Tom Braithwaite
Sarah O'Connor


Na maior parte do século passado, a Islândia era pouco mais do que um ponto de descanso para as frotas pesqueiras do Atlântico Norte que cruzavam as águas entre Groenlândia e a ilhas Faroë.

Reykjavík, onde mora grande parte da população de 320.000 habitantes, ainda parece um porto provinciano. Motoristas de táxi acenam para o presidente, e há uma sensação que a maior parte das pessoas tem alguma relação política, comercial ou de parentesco. Entretanto, apesar de seu ar sonolento, a capital islandesa foi transformada na última década. Uma forte expansão para mercados externos trouxe para o país uma influência desproporcional ao seu tamanho e tornou sua população uma das mais ricas per capta do mundo.

Agora, depois de uma semana na qual os três principais bancos da Islândia desmoronaram e foram estatizados - colocando mais de $ 20 bilhões de euros (em torno de R$ 60 bilhões) em risco para a Europa - a fama está virando notoriedade. Como advertiu o primeiro-ministro Geir Haarde nesta semana: "Há um perigo real que a economia da Islândia seja tragada junto com os bancos, e a nação vá à falência."

É um final triste para o que os predecessores de Haarde anunciaram como a transformação econômica que transformou uma comunidade pobre e isolada em um motor de bancos e empresários, com investimentos globais em diversos setores, desde o farmacêutico até a administração de fundos.

A Islândia irrompeu no cenário financeiro mundial nos primeiros anos desta década. Os islandeses compraram fatias do mercado de telecomunicações da Europa Oriental, alguns dos nomes mais conhecidos no varejo do Reino Unido, inclusive House of Fraser e Hamleys, e grande parte do sistema bancário nórdico.

Inevitavelmente, observadores questionaram de onde vinha o dinheiro. Histórias de elos estranhos com a Rússia abundaram. "Freqüentemente, é sugerido algo dúbio ou nebuloso sobre a origem da força financeira islandesa", disse o presidente Ólafur Ragnar Grímsson em 2006, comentando as "explicações imaginativas" para a súbita riqueza islandesa.

Grande parte do mistério girava em torno da figura carismática de Thor Björgólfsson, que mal fez 40 anos, o homem mais rico da Islândia e fundador da Actavis, quarta maior fabricante de remédios genéricos do mundo. Ele começou sua carreira montando uma cervejaria em São Petersburgo, que ele vendeu à Heineken em 2002, arrebatando US$ 100 milhões (em torno de R$ 200 milhões).

Quase na mesma época, Jón Ásgeir Jóhannesson, um jovem executivo da Baugur, maior cadeia de lojas da Islândia, subitamente materializou-se como o comprador desconhecido de uma grande parte da rede Arcadia do Reino Unido.

Na realidade, disse Grímsson, o sucesso da Islândia é facilmente explicável. O país teria se beneficiado de uma combinação fortuita: a globalização e a remoção de controles comerciais e financeiros junto com inovações tecnológicas em informação que tornaram seu isolamento geográfico irrelevante.

Na base do sucesso da Islândia estava a fundição do alumínio e um sistema de pensão forte, baseado na indústria pesqueira, que tinha dinheiro e apetite para investir em ações. A desregulamentação e a privatização do sistema bancário permitiram que os bancos da Islândia -Kaupthing, Landsbanki e Glitnir (na época chamado Islandsbanki)- se diversificassem e se afastassem de suas bases na agricultura e na pesca.

Uma classe de 30 ex-alunos de administração, como Hreidar Mar Sigurdsson, hoje diretor executivo do Kaupthing, banco que, até sua nacionalização nesta semana, era a maior empresa listada da Islândia, agilmente tiraram vantagem dessas mudanças. Como diz um banqueiro: "O Kauphting se achava o Goldman Sachs do Ártico".

Banqueiros e empresários pegaram grandes empréstimos no exterior, investiram nas empresas uns dos outros e expandiram para além-mar. Quando perguntaram a Grímsson onde a Bakkavor, empresa de alimentos islandesa, tinha conseguido fundos para comprar a Geest - em um negócio que tornou a Bakkavor a maior empresa de alimentos prontos no Reino Unido - ele disse: "A resposta é muito simples: 'vem do Barclays Bank'". Grande parte do patrocínio de Björgólfsson veio do Deutsche Bank.

Ao mesmo tempo, os islandeses começaram a fortalecer laços com empresários internacionais como Kevin Stanford, fundador da Karen Millen, e Robert Tchenguiz, empresário imobiliário. A participação de Tchenguiz na J. Sainsbury e Mitchells & Butlers, cadeia de bares do Reino Unido, foi financiada pelo Kaupthing. Tchenguiz também entrou para o conselho da Exista, seguradora islandesa que detinha 25% de participação do Kaupthing.

Na Islândia, a expansão resultou em uma expansão de crédito que, por sua vez, alimentou seu mercado imobiliário e de ações. Em 2003, os proprietários de imóveis da Islândia estavam entre os mais ricos do mundo, apesar de também estarem entre os mais endividados.

Em 2004, soaram alguns alarmes. O Banco Central estava preocupado com uma "onda de 'buy-outs' alavancados de empresas listadas e não listadas, o que explicava o aumento em empréstimos dos bancos". E advertia: "Essas transações forçaram para cima o preço das ações de várias empresas listadas, inclusive financeiras, gerando uma questão sobre o impacto dos preços das ações, caso voltem para baixo".

Um ano depois, o FMI incitou autoridades supervisoras financeiras na Islândia a implementarem testes de estresse para acessar os riscos para o setor financeiro de flutuações na taxa de câmbio. "Isso está se tornando particularmente importante na medida em que os bancos intermediam um volume crescente de empréstimos estrangeiros", disse.

Em 2006, as agências de classificação rebaixaram os bancos. O Moody's Investor Service culpou a deterioração do ambiente operacional doméstico do Kaupthing por causa do rápido aumento das taxas de juros e da moeda em queda. Ele ressaltou o rompimento das operações de financiamento dos três bancos comerciais islandeses.

Os bancos islandeses responderam aumentando a expansão para o exterior e dissolvendo suas posições cruzadas de ações. Eles diversificaram seus financiamentos e aumentaram a ênfase sobre depósitos, particularmente em filiais estrangeiras. O Landsbanki criou o Icesave, seu banco de Internet no Reino Unido, enquanto o Kaupthing lançou o Kaupthing Edge, que no início do ano estava recebendo 700 milhões de euros por mês em depósitos.

Em 2007, o Kaupthing começou a se recompor. Vendeu ativos, diminuiu os empréstimos, reduziu custos. Em janeiro deste ano, desistiu do que teria sido a maior aquisição de sua história: um 'buy-out' do Nibc, banco mercantil holandês.

Outros bancos o acompanharam. Mas não foi suficiente: a retração global de crédito chegou com força neste ano com o aumento do custo de empréstimos de riscos no exterior, enquanto a moeda e os preços dos ativos em Reykjavík caíam. De acordo com o Banco Central islandês, o dinheiro devido pelos bancos aos estrangeiros no segundo trimestre era seis vezes o total de bens e serviços produzidos pela economia islandesa durante o ano. Enquanto isso, a inflação subiu, a produção caiu, e analistas advertem da proximidade da recessão.

Somente agora as conseqüências plenas das expansões ousadas dos bancos nos mercados estrangeiros estão se tornando claras. Na semana passada, o governo islandês tomou a decisão de estatizar o Glitnir, seguida rapidamente pela estatização do Landsbanki. O Kaupthing correu para vender ativos e empréstimos em torno mundo para conseguir se manter no negócio, com efeitos dominó sobre os credores. Tchenguiz perdeu perto de $ 1 bilhão de libras (cerca de R$ 3,4 bilhões) em 24h, após ser forçado a vender sua participação na Sainsbury e na Mitchell & Butlers.

Entretanto, na quinta-feira o Kaupthing também foi estatizado em meio a acusações de Haarde que a decisão do governo britânico de colocar a subsidiária Kaupthing Singer & Friedlander sob administração e congelar seus ativos tinha sido parcialmente responsável pelo colapso.

A queda dos bancos está fazendo o mercado temer o pior. O custo do seguro contra um calote na nação islandesa sobre sua dívida soberana inflou, com o mercado exigindo pagamentos adiantados pela primeira vez desde 2002, no caso do Brasil. Simon Johnson, do Instituto Peterson em Washington, diz: "Esta é primeira vez que vemos um problema soberano verdadeiro como esse da Islândia - a crise está se espalhando."

Uma equipe do FMI está agora em Reykjavík e analistas acreditam que o governo islandês pedirá ajuda. Lars Christensen, economista dos Danske Bank, disse: "Há apenas uma opção sustentável -e esta é o FMI".

A Suécia ofereceu um empréstimo para proteger as operações suecas do Kaupthing. Os bancos centrais nórdicos estão falando em apoiar a Islândia com mais financiamentos. Mas os esforços islandeses para encontrar apoio mais amplo no exterior foram prejudicados por sua baixa reserva em moeda estrangeira e alto déficit comercial. A Rússia indicou que talvez ofereça um empréstimo de $ 4 bilhões de euros (cerca de R$ 12 bilhões), gerando questionamentos entre aliados da Islândia na Otan no Ocidente. A Islândia assegurou que qualquer ajuda não se estenderia além do apoio financeiro.

Enquanto isso, o tom das relações da Islândia com o Reino Unido começou a se deteriorar para níveis não vistos desde a guerra do bacalhau, nos anos 70. Gordon Brown, primeiro-ministro do Reino Unido, falou nesta semana em "ação legal contra as autoridades islandesas" para recuperar 300.000 poupanças no Icesave, depois que o Landsbanki foi declarado insolvente. Desde então, veio a público que 108 condados no Reino Unido, inclusive o de Kent, tinham depósitos de $ 800 milhões de libras (aproximadamente R$ 2,7 bilhões) nos bancos islandeses. Para os contribuintes e investidores no Reino Unido é provável que demore um bom tempo antes de esses fundos retornarem.

Nas palavras de um investidor britânico: "É melhor os islandeses pegarem suas varas de pescar. Vão precisar de muito bacalhau para compensar o que perdemos."

O caminho para a desregulamentação

A história da Islândia começa no século 19, com a chegada dos primeiros colonos permanentes da Noruega. A ilha vulcânica e geologicamente ativa foi governada pela Noruega e depois pela Dinamarca até 1944, quando ganhou independência.

A relativa pobreza do país isolado refletia-se no fato de até 1973 ser classificado como país em desenvolvimento pelo Banco Mundial, por causa da sua dependência excessiva do peixe. Os preços eram centralizados e os impostos eram altos, assim como as tarifas sobre o comércio. Importação e exportação eram altamente reguladas.

"O poder político dominava todo sistema financeiro, que mal podia ser distinguido do sistema político", observou David Oddson, primeiro-ministro entre 1991 e 2004 que liderou o movimento pela desregulamentação dos mercados de capital e pela privatização empresas estatais, especialmente do setor bancário.

Tradução: Deborah Weinberg

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