Entrevista:O Estado inteligente

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quarta-feira, outubro 15, 2008

Decadência do Ocidente?



Miguel Ángel Bastenier

O cataclismo financeiro de Wall Street servirá algum dia para balizar o início da decadência do Ocidente - seu domínio sobre o mundo? Nestes últimos anos não faltaram sinais no caminho, como as guerras do Iraque e do Afeganistão com sua exibição de impotência militar e política; ou o que promoveu o desencadeamento desses dois conflitos, como o 11 de Setembro. Mas, mais que buscar datas chaves, parece mais útil enumerar fenômenos de média e longa duração, e por isso dificilmente individualizáveis, sempre com um denominador comum: a oposição generalizada, não só aos EUA como a todo o mundo ocidental.

Embora as conseqüências da debacle sejam de alcance universal, são os países mais desenvolvidos que mais terão de pagar a fatura da extrema desregulamentação da economia, e da mesma forma que, por exemplo, a crise de 1929 afetou menos a Espanha de Primo de Rivera do que a Alemanha de Weimar, o Terceiro Mundo não deve temer, ao contrário da Europa ou dos EUA, perder o que não tem. E esse estar parcialmente ao abrigo da catástrofe torna-se compatível com uma certa satisfação - um deleite - pelo que acontece no Ocidente, como já ocorreu no caso dos EUA e as Torres Gêmeas.

É um sentimento difuso que habita grande parte do mundo árabe e islâmico, estimulado pelo colonialismo, o conflito árabe-israelense, a invasão do Iraque e a guerra não se sabe como nem contra quem das áreas tribais do Paquistão; do mesmo procede e medra a idéia mais que a organização das diversas Al Qaedas que há no mundo; está longe e pacificamente aparentado com uma sensação que o visitante ocidental pode perceber na China, de que os nativos trabalham como se lhes devessem algo, como se houvesse uma conta - e Max Weber falava na cobiça da alma oriental - para ganhar, de preferência em moeda forte. Da mesma forma, o denota a existência de uma neopirataria nas costas da Somália e outras águas do Índico, cujos promotores encontram algum reflexo na opinião própria, quando afirmam que o deles não é saque, mas pedágio por navegar águas cuja posse reclamam; e, de notável interesse para a Espanha, quando o indígena latino-americano, empenhado no que considera a reconquista de seu próprio país, ou as forças que nesse mundo pós-ibérico se dizem antiimperialistas, fazem cara de está tudo muito bem empregado.

Uma fenomenal carga de adversidade ativa, unida sem qualquer contradição a um formidável fascínio pelo êxito material dos países envolvidos, vai crescendo de temperatura em tudo o que nos últimos séculos - a grosso modo, desde o início da era colombiana - foi para o Ocidente "o resto do mundo". A exceção talvez seja a África Negra, que talvez não esteja suficientemente articulada para se expressar com algum grau de força coletiva. Mas essa carga, que se expressa em seu caso criminoso e extremo no terrorismo internacional, também está presente em fórmulas basicamente mitológicas de oposição ao poderoso, como a adoção de estratégias e teorizações alternativas, tal como ocorre com o chamado socialismo do século 21 do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ou o comunitarismo aymara do boliviano Evo Morales; ou, ainda mais genericamente, na contraposição, que se dá em alguns países da Ásia, entre um "etos" confuciano e o individualismo possessivo ocidental, cujo subtexto consiste em negar a plena aplicabilidade da democracia tal como se conhece hoje nessa parte do mundo. A hostilidade que sempre existiu entre o favorecido e o que não o é encontra sua "justificativa" intelectual. Contra o suposto espólio, uma nova "justiça redistributiva".

E entre toda essa preamar, incitada por uma televisão ubíqua e a globalização eletrônica que mostram como é o Ocidente e a tudo o que crê ter direito, floresce uma reação generalizada, que no tocante à reivindicação antiespanhola na América Latina se resume em um díptico perfeito: paga e cala; tanto vale o barril de petróleo ou a restauração do barroco colonial; e se abrir a boca que seja para pedir desculpas.

Esse é o mundo que parece que vem; muito mais complexo e perigoso que o da extinta bipolaridade das duas superpotências; a neonata unipolaridade da grande potência restante, ou a multipolaridade indecifrável, dentro da qual a Europa ainda não decidiu que papel quer um dia exercer.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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sábado, agosto 16, 2008

Israel vai criar primeira rede de carros elétricos do mundo


A instalação de 500 mil tomadas permitirá recarregar as baterias em todo o país
Ana Carbajosa
Em Jerusalém
Viver sem petróleo. É o sonho da legião de países importadores que aspiram a reduzir as emissões de gases poluentes, deixar de depender de países politicamente instáveis e sanar os bolsos dos consumidores. No caso de Israel, país em conflito com seus vizinhos do Oriente Médio, as aspirações de suficiência energética são muito sérias. E pretendem consegui-la com a implantação da primeira rede de carros elétricos do mundo, que terá 500 mil pontos para recarga de baterias por todo o país e cujos automóveis a pilha começarão a sair às ruas no ano que vem. Para alimentar a rede elétrica, o governo vai semear placas solares no deserto de Neguev e implementará uma série de medidas legislativas.
"No passado já fizemos isso com a alta tecnologia, com o software. No futuro vamos liderar o mundo das energias renováveis", explica Hezi Kugler, diretor-geral do Ministério de Infra-Estruturas de Israel.
Até agora os carros elétricos não pegaram no mercado, em parte pela falta de autonomia e de pontos para recarregar as baterias. Israel considera que, por suas características, pode ser o lugar ideal para esse tipo de projeto. Nesse pequeno país, a distância entre os núcleos urbanos não supera 150 km. Além disso, parte de suas fronteiras - com o Líbano e a Síria - é intransitável para os israelenses por motivos políticos, o que reduz as viagens de longa distância. "Não temos paz com nossos vizinhos. Essa infelicidade se transforma em oportunidade para experimentar novas tecnologias", afirma Mark Regev, porta-voz do primeiro-ministro israelense, Ehud Olmert.
O carro poderá ser carregado em casa à noite, usando os excedentes energéticos do dia, ou em pontos distribuídos pelo país, assim como em postos de serviço. As fábricas Nissan e Renault se comprometeram a produzir esses veículos em massa em 2011, mas os primeiros começarão a circular no próximo ano.
Os israelenses procuram deixar para trás o conceito de carro-motorista/proprietário. O novo modelo econômico se parece muito com o dos telefones celulares. Os carros seriam os aparelhos e a rede de baterias a companhia telefônica. "As pessoas vão parar de comprar carros, assim como pararam de comprar telefones. O que se contrata é o uso do aparelho para um número máximo de quilômetros, assim como o serviço técnico", explica Dafna Berezovski, diretora de marketing da Better Place, a empresa que está por trás do invento. O preço mensal do contrato do carro elétrico, afirmam, será sempre menor do que o que os motoristas gastam hoje por mês em gasolina. O pai da criatura é o empresário israelense-americano Shai Agassi, um sedutor que passeia por fóruns como o de Davos e que já conseguiu convencer o governo israelense e o dinamarquês, e está prestes a seduzir outros países europeus, incluindo o Reino Unido. Seu primeiro-ministro, Gordon Brown, mostrou-se muito interessado.
"Israel é só o primeiro passo. Aspiramos a uma revolução energética em todo o mundo", diz Agassi. Será a empresa privada Better Place que cobrirá os gastos desse projeto, para o qual contam com financiamento pelo menos para a primeira fase (130,5 milhões de euros, aos quais deverão se acrescentar outros 533 milhões). O governo, por sua vez, modificará as leis e incentivará o uso dos novos carros. Hoje os israelenses pagam até 80% de impostos ao comprar um carro; o Executivo os reduzirá para 20% para a compra de veículos elétricos.
A idéia foi gestada há um ano, quando Agassi encantou o presidente Shimon Peres durante um encontro de empresários. Entusiasmado Peres, Agassi o informou sobre as reformas legislativas necessárias, incluindo poderosos incentivos fiscais. Eles são detalhados pelo diretor-geral Kugler, que conta que os carros são apenas uma peça da engrenagem da revolução energética com a qual Israel pretende em 2020 ter reduzido pelo menos 25% das importações de petróleo. "Esses carros têm de se alimentar com energia limpa. Não faria sentido reduzir por um lado as emissões e por outro aumentá-las para produzir a eletricidade que consomem."
Nesta mesma semana o governo aprovou um pacote legislativo milionário para incentivar as energias renováveis. Tem na cabeça tirar o máximo rendimento energético do deserto de Neguev, no sul do país, onde serão instalados projetos de energia solar de até 4 mil megawatts. Até cinco ministérios deverão se coordenar para levar adiante esses projetos faraônicos.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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