terça-feira, agosto 26, 2014

Recessão técnica José Paulo Kupfer

Estadão

É possível que a economia brasileira tenha passado por uma "recessão técnica" no primeiro semestre de 2014. A confirmação ou não desse estado só será conhecida sexta-feira, quando está prevista a divulgação pelo IBGE da variação do PIB, no período de abril a junho.

Caso o resultado venha em linha com a mediana das projeções de analistas, que aponta para um recuo de 0,4%, em relação ao primeiro trimestre, a revisão estatística dos números do crescimento entre janeiro e março pode levar também o primeiro trimestre ao terreno negativo. Com isso, estaria configurado o quadro de "recessão técnica", que ocorre quando a atividade econômica se contrai por dois trimestres consecutivos.

Acontece que esse critério automático não é unânime e seu uso tampouco é isento de riscos. Se o critério mecânico tem a vantagem de ser mais fácil de entender e de carimbar, as desvantagens não são poucas. Pode e tem induzido a erros de avaliação, que se refletem nas políticas econômicas adotadas.

A definição de "recessão técnica" pela simples constatação da ocorrência de dois trimestres consecutivos de retração econômica é o procedimento mais difundido em muitas economias, principalmente na Europa, mas não costuma ser considerado, por exemplo, nos Estados Unidos. Na maior economia do mundo, um Comitê de Acompanhamento dos Ciclos Econômicos, formado por economistas independentes, responsável oficial por decretar início e fim de períodos recessivos, leva em conta uma série de indicadores, com destaque para os do mercado de trabalho.

Em artigo de agosto deste ano, o economista Jeffrey Frankel, professor em Harvard e membro desse comitê, coloca em debate critérios de classificação dos estados recessivos. O economista lista uma série de desvantagens dos critérios automáticos (indicado em relatório recente da LCA Consultores, o texto pode ser acessado, em inglês, no endereço http://migre.me/ld8KZ).

Frankel analisa a situação da Itália, que voltou à recessão, pelo critério dos dois trimestres de crescimento negativo, no primeiro semestre deste ano. Segundo ele, à luz dos critérios americanos, a economia italiana permanece em recessão desde 2008, com recuperação tão fraca em 2010-2011 que melhor seria não considerá-la como tal.

São interpretações diferentes que, é claro, não deixam de produzir consequências. Se a Itália saiu da recessão em 2010-2011, isso poderia significar que a forte política de austeridade fiscal adotada foi bem-sucedida. Mas, se a recessão foi contínua, insistir nos pesados sacrifícios impostos pelas políticas de austeridade pode não ter sido uma boa saída.

Os argumentos de Frankel levam a concluir que é melhor levar em conta tendências um pouco mais longas e conjuntos de indicadores de espectro mais amplo. O economista cita, em defesa dessa proposição, o que se passou no Reino Unido, no início desta década. Depois de constatar dois trimestres de retração, as autoridades britânicas anunciaram, em 2011, que a economia estava em recessão. Revisões de dados no ano seguinte, porém, mostraram que o alarme não correspondia à realidade. Assim, governo, políticos e pesquisadores, ainda que de boa fé, produziram análises e definiram políticas com base em informação falsa.

É nesse sentido que a atual situação da economia brasileira exige avaliações bem cuidadosas. Numa direção, é forte a possibilidade de que o segundo trimestre tenha representado o fundo do poço de 2014 e que, já no terceiro trimestre, a economia ensaie uma recuperação, mas esta pode ser tão tímida e lenta que será difícil falar em retomada. Na direção oposta, o mercado de trabalho dá mostras de que, por critérios demográficas e por causa da dinâmica das vagas menos qualificadas, resistirá mais tempo do que o antes imaginado com taxas de desemprego baixas - e desemprego baixo não bate com recessão.

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