domingo, fevereiro 24, 2013

Uma semana de almanaque, por Vitor hugo Soares

-blog Noblat

Uma semana de almanaque, por Vitor hugo Soares

No computador, ligado para produzir estas linhas semanais de opinião, escuto cantar o artista cearense Belchior, um de meus preferidos do primeiro time da música popular brasileira. O rapaz latino americano que anda outra vez sumido no mundo, interpreta uma famosa música de Chico Buarque de Holanda, gravada no álbum Vício Elegante (1996), no qual empresta seu jeito especial de cantar na regravação de grandes sucessos de compositores da MPB.

A canção que escuto é Almanaque.

Nos versos precisos e bem humorados, um rosário de perguntas incômodas e preocupações inusitadas em "sambas de namoro e amor". Questões levantadas em tempos temerários (a expressão é do grande Nestor Duarte, no título de seu romance fabuloso), pontuados de loucuras, inquietações e dúvidas, mas que os dias correntes na Bahia, em Brasília, em São Paulo, no País e lá fora, revelam que continuam à espera de respostas até agora.

Os fatos, palavras e imagens tristemente produzidos na passagem em Recife, Feira de Santana, Salvador, Brasília e São Paulo, da blogueira Yoani Sanches, combativa e combatida dissidente do regime dos irmão Castro, em Cuba, são atestados contundentes de atualidade das questões que a música levantava há tantas décadas.

Um triste espetáculo de intolerância e burrice com exposição planetária. Daqueles que o conceberam nos desvãos de palácios, gabinetes e embaixada, e dos que os executaram como "paus mandados" ou inocentes inúteis. É difícil entender - e mais difícil ainda explicar -, um espetáculo assim em Recife: a capital pernambucana de tantos heróicos resistentes em longos combates pela democracia e contra a repressão nos anos da canção de Chico, ou em passado mais remoto.

Ou aquele show grotesco de violência e subserviência misturadas, encenado na noite vergonhosa de quarta-feira passada em Feira de Santana. A gloriosa e honrada cidade na entrada do sertão da Bahia, de tantas jornadas históricas lideradas por um de seus filhos mais ilustres, o saudoso prefeito afastado pelo regime militar-civil em 64, Francisco Pinto.

Mais tarde, o deputado Chico Pinto, que se transformaria em um dos mais dignos e emblemáticos parlamentares da história do País em qualquer tempo. Ao lado do colega e amigo pernambucano Fernando Lyra (que morreu dias antes dos episódios deprimentes nas duas cidades que ele tanto amou e exaltou), Chico Pinto é uma referência nacional do bom combate na política e na vida pública e privada, inimigo ferrenho de todas as ditaduras, até a morte.

Escuto a voz cortante de Belchior emprestada à interpretação da música de Buarque:

"Ó menina vai ver nesse almanaque como é que isso tudo começou / Diz quem é que marcava o tic-tac e a ampulheta do tempo disparou / Se mamava se sabe lá em que teta o primeiro bezerro que berrou".

Penso: O que e quem teria movido os cordéis daqueles mansos cordeiros do poder, que agora, com olhos inflamados e veias do pescoço quase explodindo de ira, acenam com notas falsificadas de dólares nas mãos? Militantes femininas de presumíveis "partidos de esquerda e ONGs", que puxam os cabelos e tentam intimidar com gestos vis e palavras grosseiras a jovem blogueira cubana, recebida em sua primeira viagem permitida fora de seu país aos gritos de "vendida ao capitalismo americano", no Aeroporto dos Guararapes, na capital de Pernambuco.

Quanta ironia na cena inacreditável!

Belchior segue com as incômodas perguntas de "Almanaque": Quem penava no sol a vida inteira/ como é que a moleira não rachou?/ Me diz, me diz/ Quem tapava esse sol com a peneira e quem foi que a peneira esfuracou / Me diz, me diz, me responde por favor/ Quem pintou a bandeira brasileira/ Que tinha tanto lápis de cor?"

E a imagem pula para Feira de Santana : A horda ululante impede a exibição do documentário "Conexão Cuba-Honduras", do cineasta baiano Duda Galvão, um dos motivos principais da visita de Yoani ao Brasil. No meio do caos, um momento de luz e lucidez. Na Feira de Chico Pinto, a digna e corajosa figura do senador paulista, Eduardo Suplicy enfrenta a turba enfurecida com uma convocação à reflexão e ao debate. Assim evita o pior, mesmo sem impedir o desastre que já estava consumado.

O resto é o que se viu e se vê no rastro da passagem da blogueira por Brasília, São Paulo e onde quer que vá a dissidente cubana em sua luta, armada com uma câmera e um computador, contra a intolerância e a favor da liberdade de expressão. Ah, e um ar sereno e o riso irônico ao encarar os que a ofendem, parecendo dizer com os olhos: "Senhor, perdoai-os. Eles não sabem o que fazem!"

Ao fundo, antes do ponto final, Belchior segue com as perguntas da canção de Chico Buarque:

..."Quem é que sabe o signo do capeta/ E o ascendente de Deus Nosso Senhor /Quem não fez a patente da espoleta/ Explodir na gaveta do inventor/ Me diz, me diz, me responde por favor/ Quem tava no volante do planeta/ Quando o meu continente capotou? / Vê se tem no almanaque, essa menina/ Como é que termina um grande amor. Me diz, me diz, me responde por favor/ Se adianta tomar uma aspirina, ou se bate na quina aquela dor?".

Responda quem souber!

 

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br


Temor à palavra, por Ruy Fabiano

Blogdo Noblat

Temor à palavra, por Ruy Fabiano

Digamos, por mero exercício de raciocínio, que tudo o que tem sido assacado, sem provas, contra a blogueira cubana Yoani Sánchez é verdade: é agente da CIA, conspira contra o socialismo em Cuba, é antipatriota, financiada por grupos empresariais etc.

Nada disso justifica a vergonhosa recepção que está tendo. Cercear o direito à palavra a alguém cujo destaque se deve exclusivamente ao uso que dela faz – e a nada mais - é uma truculência inominável, intolerável num regime democrático.

Se os adversário de Yoani têm alguma razão para hostilizá-la, a perderam ao tentar silenciá-la mediante métodos bárbaros, piquetes de militantes que remetem às manifestações da juventude nazista. Se ela precisa ser combatida – digamos que precise -, é no campo em que ela atua que isso deve ocorrer.

Afinal, se o seu hipotético delito estaria no que diz (e escreve), é aí que deve ser questionada. A liberação de seu visto para deixar seu país foi apresentada como sinal de que Cuba, no fim das contas, não seria uma ditadura tão intolerável.

Só que a concessão do visto não foi exatamente uma concessão. Estava sendo constrangedor ao regime insistir em negá-lo, graças à projeção que Yoani conquistou internacionalmente.

O governo cubano decidiu então transformar a concessão numa cilada. Articulou-se com o governo brasileiro para que a recepção saísse pela culatra. O meio de que se serviu não poderia ser mais burro. Confirma o que de pior já se disse sobre aquele regime.

É um governo que teme mais a palavra do que a pólvora. O espantoso é que o governo brasileiro, que preside uma democracia, fincada na liberdade de expressão, se associe a tal prática.

A imprensa provou tal parceria, em que o governo brasileiro chegou a enviar emissário a Cuba para inteirar-se da logística da perseguição. Os adversários de Yoani querem responsabilizá-la pelo que não fez, nem defendeu: o embargo econômico dos EUA e a prisão de Guantánamo.

Que tem ela com isso, se nem nascida era quando tais fatos se consumaram? E que força tem para revertê-los se o próprio Obama, que se comprometeu com a causa, não o conseguiu? E ainda: quando foi que fez proselitismo favorável a tais temas?

Sua luta é a de uma cidadã cubana, inconformada em viver num país onde não há eleição há mais de cinco décadas, onde se pune com prisão, tortura e morte os delitos de opinião e onde o elementar direito de ir e vir cabe apenas aos amigos do regime.

Alguns hão de argumentar: "Como, se ela está no Brasil e cumprirá agenda de visita a outros países?". Sim, mas a que preço! O que afinal os adversários de Yoani tanto temem que ela diga que já não tenha dito (e escrito)?

Se é agente da CIA – e seria caso único de um agente cuja missão é se expor -, a melhor ocasião de prová-lo e desmoralizá-la é pelo debate. Há quem tente apontar na mobilização oposicionista para defendê-la um sinal de que estaria articulada para impor ao regime cubano o desgaste que está ocorrendo.

Ora, que oposição ficaria indiferente a uma manobra tão patética como esta, que, além de submeter o país ao comando moral de outro, o expõe internacionalmente como cúmplice de uma ditadura cinquentenária? 
E não é a primeira vez que o governo do PT, que celebrou esta semana sua primeira década no poder, age dessa forma, a serviço de um regime que resiste à democratização.

Houve, em 2007, por ocasião do Pan-americano, o caso de deportação de dois boxeadores cubanos que se desligaram da delegação de seu país e pediram asilo ao governo brasileiro.

Já com relação ao terrorista Cesare Battisti, condenado em última instância pelo Judiciário italiano, o governo não hesitou em violar um tratado de extradição e mantê-lo em território brasileiro. Os boxeadores não eram criminosos, nem estavam condenados, mas foram tratados como se o fossem; Battisti, mesmo condenado, foi tratado como vítima.

Lula, em território cubano, comparou presos políticos, em greve de fome, a bandidos comuns de São Paulo. E Dilma disse que direitos humanos são questão de âmbito interno dos países e que o Brasil não tem autoridade nessa questão para julgar Cuba.

Some-se a isso a inconformidade do PT em absorver a condenação dos mensaleiros e as reiteradas tentativas de regulamentar a mídia e tem-se aí, claramente, um projeto autoritário em marcha. O que a militância da esquerda faz com Yoani é o que quer fazer com a liberdade de expressão aqui mesmo.


terça-feira, fevereiro 19, 2013

A morte de Lyra e a “topada” de Dilma, por Vitor Hugo Soares

Blog Noblat

Um sábio chinês disse no passado: "Há indivíduos cuja morte pesa menos que uma pena para a humanidade. Há outros, porém, cujo desaparecimento tem o peso de toneladas".

Este pensamento oriental segue atualíssimo. Para comprovar, basta olhar ao redor no Brasil e no resto do planeta. Em sua segunda parte, se encaixa com perfeição ao perfil e à história política e humana do ex-parlamentar e ex-ministro da Justiça, Fernando Lyra.

Um brasileiro exemplar, nascido em Pernambuco, que morreu quinta-feira, 14, depois de largo e complicado período de internamento em hospitais de Recife e São Paulo.

Muitos conheceram Fernando (assim ouvi muitas vezes o ex-deputado Chico Pinto chamar com afeto e admiração o amigo e companheiro de grandes combates no extinto MDB). Outros com ele conviveram mais prolongada e intensamente.

Alguns irão, seguramente, falar sobre esta figura humana verdadeiramente plural e admirável, como definiu em linhas brilhantes e emocionadas o senador do PDT e conterrâneo, Cristóvão Buarque, no artigo publicado no Blog do Noblat.

Preciso esclarecer e contextualizar este escrito. Nasci no lado baiano do Rio São Francisco. Passei a infância e parte da juventude em cidades de onde podia ver Pernambuco (e ouvir através das ondas potentes da Radio Jornal do Comércio, falando para o mundo) na outra margem do rio da minha aldeia.

Por sentimento, verdade e reconhecimento pessoal e profissional, não me sentiria bem se deixasse de fazer este registro póstumo.

Afinal, além do destemido e digno combatente político contra a ditadura durante décadas, foi Fernando Lyra quem ao chegar ao poder, na condição de ministro da Justiça, por escolha de Tancredo Neves, aplicou o golpe mortal na censura que durante décadas amordaçou a imprensa e a liberdade de expressão no Brasil.

Portanto, sem poder me considerar seu amigo, como sempre almejei, segui de perto a sua palavra ardente e seus discursos candentes. Testemunhei exemplos e ações. Acompanhei o bom combate de Fernando Lyra.

Jornalista profissional (chefiando durante quase duas décadas primeiro a redação, depois a sucursal do Jornal do Brasil em Salvador), amigo pessoal do ex-prefeito de Feira de Santana e ex-deputado Chico Pinto (outro símbolo autêntico da resistência no velho MDB de Ulysses e Tancredo), não raramente estive ao lado do grande político pernambucano.

Principalmente quando de suas frequentes visitas a Salvador e Feira da Santana, onde ele sempre foi admirado, aplaudido e considerado grande amigo da Bahia.

Algumas vezes participei diretamente de seu combate contra a violência e a intolerância. Até na cela de um quartel do Exército, em Salvador, passei temporada por causa disso.

Sinto honra e orgulho de poder falar destas coisas e sobre este homem de combate permanente na construção da democracia em seu país, mas que nunca deixou de sorrir, sempre manteve incrível bom humor nos palanques e na vida. Morre sem perder a ternura, jamais.

Na nota oficial de governo sobre a morte de Fernando Lyra, a presidente Dilma Rousseff assinala: "a democracia brasileira perdeu um de seus mais expressivos defensores".

Linhas adiante, destaca: "Primeiro ministro da Justiça da redemocratização, Lyra foi o responsável pelo fim da censura oficial, passo fundamental na conquista da liberdade de expressão no País".

Mais da nota: "Exímio articulador político, Fernando Lyra foi um dos expoentes da formação da Aliança Democrática. Teve atuação relevante na Assembléia Nacional Constituinte e representou com brilho os eleitores de Pernambuco na Câmara dos Deputados por 28 anos".

E a conclusão da mensagem assinada por Dilma Rousseff: "Em nome de todas as brasileiras e de todos os brasileiros, apresento meus votos de pesar a sua mulher, Márcia, suas três filhas, familiares e amigos, neste momento de dor".

O sábio chinês citado no começo deste artigo sintetizaria: "Um peso sem tamanho, o da perda de Fernando".

EM TEMPO: Antes de receber a notícia da morte de Fernando Lyra, iniciei este artigo com a intenção de falar sobe "as últimas da presidente Dilma na Bahia", e contar que não foi sem tropeços a mais recente temporada de repouso da presidente da República no privilegiado cenário cinematográfico onde fica situada a Base Naval de Aratu.

Principalmente depois dela sofrer a "topada" que lhe fissurou o dedo grande do pé, logo em seguida à sua chegada à magnífica praia de Inema, na sexta-feira da semana passada.

O assunto, mantido no título, fica para ser tratado depois. Se ainda houver atualidade. E sentido.

 

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mailvitor_soares1@terra.com.br

Ordem, progresso e burrice Guilherme Fiuza

O GLOBO 16/2/13
A praia de Copacabana deverá ser interditada no réveillon (o povo assistirá aos fogos pela TV). É o mínimo que se espera das autoridades, se elas mantiverem seu surto de ordem pós-Santa Maria. E as centenas de blocos carnavalescos que engessam as ruas terão que desfilar em fila indiana em 2014. É mais seguro.
Os homens da lei que chegaram a invadir festa de aniversário em barzinho, lacrando tudo (até o bolo com suas velas assassinas), não haverão de tolerar mais essas aglomerações bíblicas a céu aberto sem saída de emergência (para quem está no miolo da multidão). As paredes são os outros. Se a ordem é interditar primeiro e perguntar depois, é o caso de ir cancelando logo o réveillon e o carnaval - pelo menos na presente forma de ajuntamentos boçais em nome da paz e da alegria.
A ideia não é o controle total? Então onde está o plano de segurança para um corre-corre acidental numa dessas muvucas de milhares - ou milhões - de pessoas comprimidas e eventualmente alcoolizadas? A presidente Dilma foi muito clara, em um de seus comícios após o incêndio de Santa Maria: determinou aos prefeitos de todo o país que tragédias como aquela jamais se repitam em qualquer cidade brasileira. Pronto. 
Nada como uma líder resoluta. A partir daí, cada xerife saiu com sua estrelinha disputando quem embargava mais, quem dava o maior show de interdições de boates, teatros, bares, quiosques e barracas.
Senhor pipoqueiro, onde está o seu alvará? Não tem? Carrocinha lacrada.
Ontem um bueiro entrou em ebulição na Avenida Rio Branco. É o enésimo bueiro na cidade do Rio de Janeiro a atentar contra a população, num histórico recente de explosões súbitas e violentas que já vez dezenas de vítimas. Onde está o plano de segurança contra o subsolo letal? O que deve ser interditado nesse caso? As ruas? Os pedestres? A Light?
O espetáculo dos surtos de ordem pública é patético. Depois da tragédia na boate Kiss, surgiu a proposta de uma medida provisória proibindo as comandas para o pagamento do consumo na saída em casas noturnas. É uma tese incrível: se você pagar um chope de cada vez ao garçom, nunca será refém de uma tragédia. Como se vê, a fronteira entre a civilidade e a estupidez nem sempre é perceptível.
Mas a reação da sociedade em defesa da segurança, da moral e dos bons costumes pode ir muito além disso. Uma semana depois da tragédia em Santa Maria, a Polícia Federal acionou as polícias civis para uma espetáculo dos surtos de ordem pública é patético. Depois da tragédia na boate Kiss, surgiu a proposta de uma medida provisória proibindo as comandas para o pagamento do consumo na saída em casas noturnas. É uma tese incrível: se você pagar um chope de cada vez ao garçom, nunca será refém de uma tragédia. Como se vê, a fronteira entre a civilidade e a estupidez nem sempre é perceptível.
Mas a reação da sociedade em defesa da segurança, da moral e dos bons costumes pode ir muito além disso.
Uma semana depois da tragédia em Santa Maria, a Polícia Federal acionou as polícias civis para uma grande operação na internet.
O objetivo era rastrear piadas que começaram a circular na rede sobre o incêndio. Autoridades policiais informaram que esse tipo de manifestação era crime, anunciando que iriam à caça de seus autores para prendê-los.
A sorte dos bravos investigadores é que demagogia moralista não dá cadeia no Brasil. Mesmo assim, por seus próprios critérios, esses caçadores de espíritos de porco poderiam estar presos: é deles, sem dúvida, a pior piada até agora sobre a tragédia.
Pobre sociedade progressista. Quanto mais se compraz com o espetáculo politicamente correto, mais emburrece.
Condomínios em prédios ricos do Rio de Janeiro estão instalando câmeras em suas fachadas 
para vigiar e punir moradores que atiram guimbas de cigarro pela janela. Chegou enfim o tempo em que os arroubos éticos consagram a ignorância.
A presidente da República ordena o fim das tragédias, determinando que autoridades locais e donos de boates tenham tolerância zero com as ilegalidades.
Em termos de obediência a regras, o exemplo mais eloquente do governo popular é a transformação de agências reguladoras - que criam e fiscalizam regras - em balcões de empregos e propinas, chefiadas por autoridades como Rosemary Noronha, a lobista afilhada de Dilma e Lula. Mas a presidente é mulher e chora - e isso basta à sociedade "progressista".
Agora o estado-maior novelesco já começa a ofensiva de marketing pelo "Papa brasileiro", para se juntar à mulher e ao operário no presépio populista.
Não tem jeito: é pão e circo (e reza para ele não pegar fogo).
Fonte: O Globo

terça-feira, fevereiro 05, 2013

Fato consumado - Merval Pereira


Os especialistas dizem que em política só existem dois fatos a levar em conta: o fato novo e o fato consumado. Consumada a eleição dos dois candidatos oficiais à presidência da Câmara e do Senado, resta agora acompanhar os fatos políticos que decorrerão dessa tomada do Poder Legislativo pelo PMDB. Nas duas vezes em que isso aconteceu, fatos importantes marcaram a História do país.

No biênio 1991/1992, Ibsen Pinheiro presidiu a Câmara e Mauro Benevides, o Senado, e comandaram o processo de impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello. Em 2009/2010, com Michel Temer na Câmara e José Sarney no Senado, o PMDB assumiu a vice-presidência na chapa de Dilma Rousseff.

Um partido com a organização do PMDB não preside o Legislativo sem que esse fato determine seu fortalecimento, e por isso a primeira consequência da eleição de ontem para presidente da Câmara foi o enfraquecimento do PSB como ator de primeiro nível para a eleição de 2014.

A candidatura do deputado federal Julio Delgado não chegou nem a provocar um segundo turno, o que demonstra que foi precipitada a ação do governador pernambucano Eduardo Campos de permitir que seu partido abrisse uma dissidência oficial com a base governista.

Se a vice-presidência na chapa de reeleição de Dilma é a aspiração do PSB, ela ficou mais distante se depender apenas de sua vontade. O PMDB, no comando das duas Casas do Congresso, terá meios de pressionar o governo se quiser manter a situação atual.

Se, no entanto, a possibilidade de governar São Paulo parecer mais atraente a Temer e sua turma, o PMDB estará em condições de abrir mão da vice. Não creio, porém, que, para os interesses do partido, que tem uma força bem distribuída pelo país, circunscrever-se a São Paulo seja um projeto viável.

Tanto o discurso do deputado federal Henrique Alves ontem quanto o do senador Renan Calheiros destacaram uma plataforma positiva para o Congresso que dificilmente será cumprida diante de tantos compromissos políticos assumidos nas campanhas, a começar pela promessa de Renan Calheiros de fazer uma gestão "transparente".

Há, no entanto, temas à vontade para confrontos com o Palácio do Planalto, se e quando necessário. Mas o compromisso dos dois com a defesa da liberdade de imprensa é um ponto que está no DNA do partido que um dia já foi o baluarte da luta contra a ditadura, quando presidido por Ulysses Guimarães. O PMDB, mesmo passível de críticas por seu comportamento o mais das vezes fisiológico, tem compromissos democráticos que nunca foram colocados em questão.

Ambos os presidentes reclamaram das medidas provisórias, que retiram do Legislativo a iniciativa dos debates dos grandes temas nacionais. Nessa miríade de promessas, os vetos presidenciais serão enfrentados, e o pagamento das emendas parlamentares terá um rito mais independente, que não deixe o Legislativo nas mãos do Executivo.

Nos seus quatro "eixos propositivos", Renan incluiu ainda a modernização do Senado, que tem vários estudos da Fundação Getulio Vargas que não saíram do papel, e o reforço do papel do Senado na "modernização e o aumento da competitividade do país".

A avaliação periódica do sistema tributário nacional, com vistas a perseguir a justiça fiscal e o impacto da política tributária na redução das desigualdades, seria uma maneira de fiscalizar a ação do Executivo sem se limitar a relatórios periódicos dos ministros, que comparecem ao Congresso de maneira burocrática e sob a proteção da maioria governista.

Essa comissão, que poderá ser formada por economistas de várias tendências, teria a capacidade de se antecipar ao governo quando isso fosse necessário, marcando a atuação do Congresso na política econômica. Na teoria, teríamos dessa maneira Câmara e Senado atuando com independência, sem submissão ao governo. Na prática, teremos certamente lampejos dessa independência, sempre que o PMDB precisar se impor dentro da aliança governista.

Fonte: O Globo

domingo, fevereiro 03, 2013

Economia só tem fôlego para crescer 3% ao ano- Luiz Carlos Mendonça de Barros


O Globo on

Economia só tem fôlego para crescer 3% ao ano, diz ex-presidente do BNDES

  • Luiz Carlos Mendonça de Barros avalia que expansão maior só ocorrerá com mais investimentos

Retomada. Mendonça de Barros: cenário favorável a crescimento em EUA, China e emergentes Foto: Sergio Zacchi/Valor Econômico
Retomada. Mendonça de Barros: cenário favorável a crescimento em EUA, China e emergentes Sergio Zacchi/Valor Econômico
BRASÍLIA — Sócio-fundador da Quest Investimentos e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros diz que crescimento via consumo já chegou ao limite. Até que se aplique mais em infraestrutura e produtividade, a expansão do país ficará limitada a um patamar inferior aos 4% ao ano que o governo deseja.
O governo passou 2012 anunciando medidas de incentivo à economia, mas o PIB brasileiro não mostrou a reação esperada pela equipe econômica. Por quê?
A economia brasileira sofreu mudanças profundas em 2012 em função de fatores de natureza conjuntural e estrutural. Entre os primeiros, eu citaria como o mais importante a perda de confiança que atingiu os mercados internacionais. Na maior parte do ano prevaleceu a percepção de que teríamos um novo mergulho recessivo no mundo. Seria muito difícil essa perda de confiança não chegar à economia brasileira. E ela chegou, principalmente na atitude dos empresários em relação ao investimento de suas empresas.
Mas o mercado doméstico permaneceu aquecido...
O consumidor brasileiro não entrou nesse clima de pânico e manteve sua velocidade de consumo inalterada. Mas outra força, esta de natureza estrutural, afetou a velocidade de crescimento dos gastos das famílias. Os estímulos estruturais dos anos Lula — principalmente o crescimento do crédito — perderam fôlego pela simples ocupação de todo o espaço ocioso que existia anteriormente. Entre 2006 e 2010, o crédito bancário ao consumo passou de 4% do PIB para 16%. Para se ter uma dimensão desse ajuste estrutural, basta considerar que, em cinco anos apenas, o nível do crédito chegou ao que existe na economia americana quando se descontam os empréstimos imobiliários.
O que o Brasil precisa para crescer de agora em diante?
Daqui para a frente são os novos investimentos que ditarão a velocidade de expansão do PIB. A massa salarial neste início de 2013 continua a crescer a mais de 5% ao ano, o que deve garantir o aumento do consumo das famílias. Mas este crescimento não será suficiente para sustentar o crescimento do PIB a taxas superiores a 3% ao ano.
Como será o cenário externo?
Em 2013, teremos um ambiente externo mais favorável, com a retomada do crescimento nos Estados Unidos, na China e no mundo emergente. Neste mundo mais otimista, creio que vai ocorrer uma retomada dos investimentos no Brasil. De início, ainda de forma modesta, mas, a partir do segundo trimestre, deve se acelerar em função do otimismo que deve vir de fora e da sustentação da renda das famílias e do consumo.
Vale a pena o governo continuar estimulando a economia pelo lado do consumo?
Como o crédito chegou a seu ponto limite, não adianta tentar estimular o crescimento via o canal dos bancos. Os consumidores ocuparam, nos últimos anos, toda a renda disponível para consumo. O outro canal para a expansão dos gastos de consumo — os aumentos reais de salário, principalmente salário mínimo — está também limitado pela inflação. Como muito bem colocou o Banco Central, estamos no limite da oferta interna e somente um esforço para aumentá-la via investimentos é que pode nos trazer de volta, em futuro próximo, as taxas mais elevadas de crescimento.

  http://oglobo.globo.com/economia/economia-so-tem-folego-para-crescer-3-ao-ano-diz-ex-presidente-do-bndes-7478030#ixzz2JqOLeMYg
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