sábado, julho 12, 2003

Diogo Mainardi O Rio dos pornoturistas


"É tão raro o Brasil sobressair em algum
campo que seria justo comemorar o bom
desempenho de nossas prostitutas.
O problema é que não lucramos nada com
isso. Somos inaptos para os negócios"

O Rio de Janeiro é melhor que Cartagena. Também é melhor que San José e Budapeste. A internet está cheia de gente debatendo o assunto. Todos os especialistas estrangeiros concordam num ponto: só Bangcoc é páreo para o Rio em matéria de pornoturismo.

O pornoturismo carioca se concentra em Copacabana. Os hotéis mais recomendados nos guias da categoria são o Debret e o Rio Roiss. Ambos admitem que as prostitutas acompanhem os hóspedes até os quartos. O roteiro dos pornoturistas começa na praia, onde os barraqueiros oferecem, além de cadeira e caipirinha, prostitutas. O barraqueiro Flávio é particularmente prestativo. A seguir, os pornoturistas se dirigem ao bar Meia Pataca, no calçadão. Logo são assediados por garotas de programa de todos os tipos. Como alternativa, podem visitar uma das muitas saunas da cidade: L'Uomo, Quatro-por-Quatro, 65, Monte Carlo, Centaurus. Os guias reclamam do tamanho dos seios das prostitutas do Centaurus. Em compensação, elogiam muito a Roberta, do Monte Carlo.

À noite, os pornoturistas se reúnem na discoteca Help. Tradicionais áreas de meretrício como a Vila Mimosa são desaconselhadas pela falta de higiene. Bem mais seguro é recorrer a empresas como a Escort Company Girl, que possibilitam a escolha das mulheres pelo computador, de Paula, a "ninfeta sapeca", a Lisandra, com "seios à prova de lápis". Um desses guias de pornoturismo jura que "não há nada igual ao Rio". Outro, que nossas "prostitutas gostam de seu trabalho". Outro, que "as brasileiras julgam a prostituição uma atividade natural".

É tão raro que o Brasil consiga sobressair em algum campo que seria justo comemorar o bom desempenho de nossas prostitutas. O problema é que não lucramos praticamente nada com isso. A indústria do sexo rende centenas de bilhões de dólares no mundo todo. O país mais rico, os Estados Unidos, é também o que mais fatura. Só em San Fernando Valley, na Califórnia, são feitos 11.000 filmes pornográficos por ano, que empregam 20.000 pessoas e arrecadam acima de 4 bilhões de dólares. É mais do que a Volkswagen ganha no Brasil. Estrelas como Jasmin Saint-Claire, John Stagliano e Rocco Siffredi já ambientaram alguns de seus filmes no Rio, como os da série Buttman, mas nossas compatriotas só atuaram em papéis secundários. A carioca Veronica Brazil chegou a obter algum sucesso lá fora participando do filme de estréia de John Bobbit, aquele sujeito que foi emasculado pela mulher, mas ela logo desapareceu.

A leitura dos guias de pornoturismo revela as origens do fracasso nacional. A gente está sempre disposto a se vender, mas por um preço baixo demais. Aliamos um temperamento mercenário à mais absoluta inaptidão para os negócios. Nossas autoridades toleram todas as formas de abuso, inclusive a pedofilia e a escravidão, desde que praticadas contra miseráveis. Em nossa sociedade pré-industrial, não sabemos nem ao menos fabricar preservativos, considerados "espessos e pouco confiáveis" pelos turistas estrangeiros. A única contribuição brasileira ao ramo da pornografia, como acontece em todos os outros ramos, é fornecer mão-de-obra não qualificada e mal remunerada. Fernando Gabeira apresentou um projeto de lei para regulamentar a prostituição. Será muito mais útil para o Rio do que os Jogos Olímpicos.

sábado, julho 05, 2003

Diogo Mainardi A bomba do boi-bumbá


"Eu gostaria que Lula esclarecesse que
ensinamentos os intelectuais podem tirar
do boi-bumbá. Aliás, nem sei o que é um
intelectual para Lula, se é um catedrático
petista da USP ou simplesmente alguém
com o ginasial completo"

Em Parintins, Lula ironizou os intelectuais dizendo que eles tinham muito a aprender com a festa do boi-bumbá. Uma semana antes, já havia reclamado que os intelectuais se aposentam aos 53 anos, enquanto os cortadores de cana precisam trabalhar até os 60. Antes de assumir o poder, Lula gostava de se cercar de intelectuais. Agora mudou. Debocha deles.

Dois intelectuais compareceram à festa do boi-bumbá deste ano – Luis Fernando Verissimo e Zuenir Ventura. Ambos lulistas, por sinal. Foram convidados pelo guaraná Kuat, o principal patrocinador do evento. Assistiram aos desfiles no camarote do Kuat Clube, trajando camisetas Kuat, e, da mesma forma que as menos intelectualizadas Joana Prado e Samara Filipo, puderam usufruir as comodidades da ilha do Kuat e do iate Kuat. É uma prova de que os intelectuais são bem menos abestalhados do que Lula imagina. Se fossem tão abestalhados assim, pagariam suas viagens do próprio bolso.

Pelo que consegui entender, o boi-bumbá funciona como os desfiles das escolas de samba, só que há apenas dois blocos, Caprichoso e Garantido, e o enredo é sempre o mesmo, ano após ano. Baseia-se numa lenda local. A mulher grávida do negro Francisco deseja comer uma língua de boi. O negro Francisco sacrifica o boi predileto de seu patrão para satisfazer a mulher. O patrão fica contrariado e manda matar o negro Francisco, que foge para o meio do mato e pede ajuda a um pajé. O pajé ressuscita o boi, e tudo termina em festa. Eu gostaria que Lula esclarecesse que ensinamento os intelectuais podem tirar dessa história. O único que eu consigo tirar é que o povo é infinitamente estúpido, mas não creio que o presidente se referisse a isso. Aliás, eu nem sei o que é um intelectual para Lula, se é um catedrático petista da USP ou simplesmente alguém com o ginasial completo.

O fato de os intelectuais se aposentarem aos 53 anos também não me parece escandaloso. Lula, que não é um intelectual nem nada, conseguiu uma barganha ainda melhor, aposentando-se aos 50 anos, com rendimentos especiais. Muito mais justo do que comparar os intelectuais aos cortadores de cana teria sido compará-los aos usineiros. O governo prometeu investimentos de 550 milhões de reais para a estocagem de álcool. Além disso, os usineiros do Nordeste pleiteiam 500 milhões de subsídios, um pouco mais do que embolsaram no ano passado. Os brasileiros plantam cana há 500 anos. Nada mudou de lá para cá. Ainda fazemos queimadas, ainda usamos mão-de-obra escrava, ainda embriagamos os pobres com aguardente de má qualidade, ainda surrupiamos o dinheiro público.

Nos anos 60, quando a economia chinesa começou a afundar, Mao lançou a chamada campanha de reeducação, em que os intelectuais eram ridicularizados em público e mandados para trabalhos forçados no campo. Lula não é Mao. Ele pode achar que existe mais sabedoria no boi-bumbá do que em Aristóteles, mas nunca vai mandar os intelectuais cortar cana. Só vai persegui-los com erros de concordância.

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