| Míriam Leitão - Ajuste das empresas |
| Panorama Econômico |
| O Globo |
| 9/3/2006 |
José Roberto Mendonça de Barros acha que o comércio exterior terá um efeito negativo no PIB este ano. A balança comercial continuará alta, com saldo de US$ 40 bilhões, mas as importações aumentarão, substituindo produção local. Empresas brasileiras elevarão investimento no exterior para continuarem competitivas no mercado internacional. Nada disso é necessariamente ruim, mas pode ter um impacto negativo no PIB. O economista, que já foi secretário de Comércio Exterior e é grande conhecedor da economia brasileira, acha que as empresas estão entrando em novo ciclo de ajuste; estão se ajustando ao dólar baixo. Tomam decisões para sobreviver que são boas para elas, mas, em seu conjunto, podem não ser boas para o país. Na visão de José Roberto, a competição dos produtos asiáticos com os brasileiros em terceiros mercados vai se acirrar, e muito; entre outras razões, porque a produtividade industrial brasileira estagnou. Até outubro de 2005, os empresários não acreditavam que o câmbio ficaria neste nível, imaginavam que a valorização do real era temporária e, em seus cenários para 2006, previam um câmbio de R$ 2,40 a R$ 2,50 para o começo do ano. — Só a partir do fim do ano é que passaram a admitir que o câmbio vai seguir apreciado por um bom período, e que é preciso, portanto, ajustar a estratégia que vinha sendo perseguida — diz. São várias estratégias, na verdade. Todas juntas mostram que a economia pode estar entrando em outro ciclo de ajuste. Da mesma forma que, em 2002, os empresários verificaram que tinham de investir em exportação — e isso garantiu estes anos de crescimento da exportação — agora a tendência é aumento de importação para redução de custos e investimento em outros países. José Roberto acha que as exportadoras seguirão quatro rotas principais. A primeira será seguida pelos produtores de commodities , cujos preços estão em alta. Eles continuarão exportando tentando compensar a queda do câmbio com aumento dos preços. Em 2005, conseguiram, mas está cada vez mais difícil. E isso leva à segunda rota: empresas que começam a pensar em instalar fábricas no exterior, principalmente China, Rússia, Espanha, Bélgica, Estados Unidos, México Chile, Colômbia, Europa Oriental, América Central. — Os dados já mostram uma considerável elevação do investimento brasileiro no exterior, que foi superior a US$ 1,2 bilhão em janeiro. Conheço vários casos nas áreas têxtil, alimentar, artefatos de metal, autopeças, mecânica, bens duráveis de consumo, química, material de transporte — conta ele. Mesmo fazendo todo o sentido do ponto de vista da empresa, José Roberto acredita que pode não ser bom para o país, principalmente porque o detonador desta ida para o exterior é o câmbio baixo e não uma estratégia de globalização das empresas. O terceiro movimento para se adaptar ao câmbio é o que sempre se usa em caso de dificuldade: troca do empregado antigo por um novo e troca de componentes produzidos aqui por importados, mais baratos. Isso reduz custo de produção. E já está ocorrendo. Segundo José Roberto, há empresas que reduziram, desta forma, com turn over , 10% do custo da folha salarial. Uma outra empresa foi à China para comprar um forno que ficaria mais caro se comprado no Brasil. Lá soube que tinha quatro tipos de fornos diferentes e para pronta entrega. — O setor de máquinas vai sofrer muito. Como neste mercado os contratos são feitos para entrega em 12 meses, não vai se sentir muito num primeiro momento, mas depois pode pesar bastante. Com este ganho de escala, o setor de máquinas na China pode cobrar substancialmente mais baixo. O quarto grupo de empresas, sem conseguir exportar, vai se voltar mais para o mercado interno, mas aqui sofrerá uma dura competição exatamente pelo aumento da importação incentivada pelo câmbio. — Em resumo, vejo em 2006 um ano de fortes movimentos estratégicos e táticos como resposta ao barateamento do dólar e da elevação da competição em todos os mercados. Os empresários vão lutar ainda com a contínua elevação da carga tributária, com o medíocre crescimento da economia em 2005 e a piora nas condições de infra-estrutura. Entretanto, navegar é preciso, e muitas das mudanças antevistas vão resultar em empresas mais robustas e competitivas. A situação brasileira agora é, segundo ele, quase única no mundo. De um lado, tem os estímulos dados pelo crescimento mundial que elevam as exportações; por outro, os juros elevadíssimos atraem mais capital e seguram o crescimento e, portanto, a importação. O Brasil, então, acumula altos superávits comerciais e grande fluxo de capitais que levam à grande valorização da moeda. Com as entradas de capitais, o país derrubou o endividamento e isso diminuiu mais ainda o risco-país. Tudo leva a mais valorização do câmbio. José Roberto acha que pode facilmente chegar a R$ 2 a cotação do dólar e isso antes que os efeitos da queda dos juros e de algum crescimento produzam a força contrária à valorização cambial. A situação abre oportunidades para várias empresas para se ajustar, crescer e ficar competitivas, mas abre um fosso no qual outras cairão. É da vida empresarial, mas o fenômeno agora é criado por uma conjuntura muito específica. E tudo isso pode criar desequilíbrios para o país. |
Entrevista:O Estado inteligente
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