| Merval Pereira - Sonho ou pesadelo? |
| O Globo |
| 9/3/2006 |
O Ibope está constatando, através de uma pesquisa diária desde segunda-feira, que o prefeito paulistano José Serra é um candidato fortíssimo para a sucessão do governador Geraldo Alckmin ao governo de São Paulo. O tracking , pesquisa telefônica diária que mede a tendência do eleitorado, termina hoje, e os resultados estão sendo analisados na prefeitura para uma decisão final, que deve ser anunciada idealmente no próximo domingo. A redução das tensões internas no tucanato deveu-se exatamente a essa idéia, discutida no domingo na casa do secretário municipal Andréa Matarazzo, com a presença do presidente do PSDB, senador Tasso Jereissati, e do ex-presidente Fernando Henrique. Foi a isso que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se referiu quando falou sobre a necessidade de ousadia para vencer, na homenagem ao governador Mario Covas, no início da semana. Na teoria, os tucanos poderiam dispor do que já foi apelidado de um “dream team” para tentar derrotar Lula nos três estados mais importantes do país — São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais — que representam praticamente metade do universo eleitoral brasileiro. Além de Alckmin e Serra pacificados em São Paulo, o PSDB teria o apoio do PFL no Rio, por meio de um acordo com o grupo político de Cesar Maia, e a liderança incontestável do governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Mas, parafraseando Garrincha, falta combinar não com os adversários, mas entre eles mesmo. O governador Aécio Neves antecipou seu regresso do Canadá para estar presente na reunião de amanhã em São Paulo, e não parece estar muito satisfeito com essa “pax paulista”, que atinge diretamente seus interesses de longo prazo. Se a manobra der certo, em 2010 o PSDB teria já candidato certo: Alckmin, para a reeleição, ou Serra como governador paulista, caso Alckmin não seja eleito este ano. Dessa maneira, o futuro político de Aécio ficaria emparedado mais uma vez pela predominância dos paulistas nas decisões do partido, do que definitivamente ele não gosta, e não é de hoje. Ele, o cearense Tasso Jereissati, o amazonense Arthur Virgílio, e o governador Marconi Perillo, de Goiás, formam um grupo de líderes tucanos que demonstram certa impaciência com a centralização das decisões no núcleo paulista do partido. Os pré-candidatos mais fortes são paulistas — Geraldo Alckmin e José Serra — mas os demais líderes regionais pretendem lembrar a eles que qualquer decisão tem que passar por outras instâncias partidárias. Não foi à toa que Perillo se rebelou contra uma decisão da chamada “Santíssima Trindade” e pediu um colégio mais amplo para a escolha do candidato, que ele quer que seja Alckmin. Com a possibilidade de um tucano se eleger, o projeto de Aécio pode ter que ser adiado para 2014, quando ele será no máximo senador da República e o PSDB terá estado no poder por oito anos novamente, enfrentando o desgaste natural da fadiga de material. Ou, se o eventual presidente tucano não tiver sucesso capaz de reelegê-lo em 2010, esse sonho pode ser jogado até para 2018. Esse quadro difícil se complica ainda mais com a possibilidade de Serra se eleger governador de São Paulo. A não ser que ele se comprometa a não concorrer à Presidência em 2010, o que seria pedir demais. Mas para a manobra paulista dar certo, os tucanos precisam ter apoio integral de Minas, coisa que Serra não teve em 2002. Atribui-se ao apoio que Lula teve do PMDB do então governador Itamar Franco os 58,4% dos votos que recebeu no primeiro turno, contra apenas 13,4% recebidos por Serra. Como Aécio foi eleito no primeiro turno, com 57,6%, é fácil constatar que os acordos políticos que elegeram Aécio foram os mesmos que deram praticamente o mesmo número de votos para Lula em Minas, onde ele teve até 25% de votos a mais em algumas regiões, comparados com a votação que teve em 1998. Hoje, com mais razão ainda, o governador Aécio Neves terá papel fundamental na campanha presidencial, a favor do PSDB ou, se não se empenhar, favorecendo pelo menos indiretamente Lula. O prefeito José Serra já havia feito um acordo com Aécio para aprovar uma emenda constitucional acabando com a experiência da reeleição, mas essa solução, que interessava também ao PT, foi rejeitada pela opinião pública e hoje uma proposta nesse sentido está congelada na Câmara. A dificuldade maior, além do fato de ter um sentido puramente oportunista para resolver uma disputa interna do PSDB, é que nenhum dos candidatos na disputa, a não ser Lula, por razões óbvias, aceitaria ter um mandato de apenas quatro anos. Seria preciso aumentar o mandato presidencial para cinco anos, o que daria também a Lula mais um ano de mandato em caso de reeleição. E não há clima político para prorrogações de mandato. Também não será fácil um acordo com o PFL para indicar o candidato a governador do Rio de Janeiro. Se o prefeito Cesar Maia for esse candidato, o acordo é automático, mas se ele insistir em indicar um político de seu grupo, mesmo que seja seu filho, o deputado federal Rodrigo Maia, o PSDB do Rio já se decidiu por uma candidatura própria. Com a provável confirmação da verticalização pelo Supremo, dificilmente o PMDB terá candidatura própria, o que fará com que o grupo de Garotinho ganhe uma importância fundamental na eleição presidencial no Rio. Em 2002, Lula obteve 47,2% dos votos no primeiro turno, contra 30,6% obtidos por Garotinho. Um acordo de seu grupo com o PSDB é mais provável do que com o PT, mas a aliança dos tucanos com o PFL do Rio pode dificultar essa aproximação. De qualquer maneira, não é certo que ele consiga transferir seus votos, que podem ir para Lula mesmo contra sua vontade. |
Entrevista:O Estado inteligente
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quinta-feira, março 09, 2006
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