| A memória do povo e o poder do carisma |
| artigo -Jarbas Passarinho |
| O Estado de S. Paulo |
| 7/3/2006 |
Quando a sucessão de fraudes e crimes praticados pelo chamado núcleo duro do Partido dos Trabalhadores foi revelada, a sociedade indignou-se. Lembravam-se, os seus eleitores, das promessas éticas do partido da estrela vermelha quando oposição ferrenha aos tucanos no governo, e comparavam os discursos éticos do passado com o comprovado procedimento imoral do PT, tão pronto conquistou o Palácio do Planalto. À decepção sucedeu o desalento, desde o flagrante filmado de Maurício Marinho embolsando a propina com a naturalidade dos puros. Os discursos de Roberto Jefferson inflamavam a revolta popular. Houve, até, quem assegurasse votar nele para presidente da República. Ouvi-lo passou a ser uma desforra, especialmente para os que exerceram o voto de protesto. Consideravam-se traídos por terem votado como punição a Fernando Henrique Cardoso pelo mau desempenho no seu segundo mandato, com "apagão" e sua política cambial desastrosa, que chegou a cotar o real superior ao dólar. Ouvi, já de pessoas letradas da direita intelectualizada, que FHC fora um Kerenski, com a diferença de que o fora de propósito, para manter a esquerda no poder. Aliás, no governo, e não no poder, a se interpretarem as palavras escritas do assessor Frei Beto: "O PT estava no governo, mas não ainda no poder." Era imprescindível fazer a diferença entre ganhar uma eleição e aparelhar o Estado para durar indefinidamente no governo. Expressão, de resto, atribuída a Prestes ao agradecer a saudação de Arraes, no Recife, mas que o "Cavaleiro da Esperança" negou nos livros ditados aos jornalistas seus camaradas do Partidão. Depois que os depoimentos comprometeram moralmente altas figuras do PT, ouvi o profundo desalento de um amigo, que vem das derrotas da esquerda nas suas três tentativas históricas de vencer os conservadores, inclusive pelas armas. Não diria exaltado, mas totalmente desesperançado do "Brasil melhor, da sociedade justa e igualitária" com que sonha desde as leituras propedêuticas de Marx. Disse que, diante do tsunami político que se prolongava por semanas, reforçado nas provas contundentes de fraude, de crime e de recebimento de "brindes" compensatórios das licitações fraudadas, "Lula estava morto". Politicamente, é claro, se bem que, para alguns, a morte política é pior que aquela natural que a Bíblia resume inapelavelmente, advertindo que "tudo o que tem início tem fim". Eu, com a experiência vivida nos meus 86 anos, mais de 30 dos quais provado no terreno pantanoso da política partidária, lhe disse com ar profético: "É cedo para prever" - correndo o risco de que nos adverte Bobbio: "A arte do profeta é perigosa e é melhor ficar longe dela." Ou Eça, via Conselheiro Acácio: "O diabo do vaticínio é que depende sempre do futuro." As pesquisas pareciam dar razão ao meu amigo desolado. Dos 80% com que Lula chegara ao governo, ungido por 53 milhões de votos válidos, despencara para menos de 30% e já era vencido até no primeiro turno das próximas eleições se pretendesse a reeleição. O povo foi, aos poucos, cansando das oitivas nas CPIs, da repetição das mesmas revelações escabrosas. Já não eram novidades. Os homens da natureza de José Dirceu arranjaram um álibi. Tudo não passava de um "golpe das elites, jamais conformadas por ter no Brasil um presidente originário da pobreza". Golpe era tudo o que se apurava em CPI, cuja instauração o governo tentou impedir, e, quebrando a praxe parlamentar, fez aprovar presidente e relator da CPI parlamentares da base de sustentação governista. Chegou a ver-se repetido até pelo respeitado senador Mercadante, bem assim como pelos petistas indigentes de capacidade de admitir a verdade. De início, o presidente poupou-se de se expor em público. Velhos companheiros de Lula, da fundação do PT, trabalhadores de fábricas onde foi torneiro mecânico e líder sindical admirado, deram entrevistas a jornais de grande circulação nacional, rejeitando-o. Tentou, com sucesso, dizer-se vítima de traidores. Reconheceu de público, mas muito constrangido, que o PT praticara erros graves, pelos quais devia pagar. Não pediu desculpas à Nação vilipendiada. Toda a direção do PT foi destituída. José Dirceu, o ministro poderoso, deixou o governo, forçado pelo ultimato de Jefferson: "Sai daí, rápido, Zé." Saiu, saudando a sucessora como "companheira de armas" que só conheceu treinando guerrilha em Cuba. Ministros perderam força. Tarso Genro, honesto, pregou a "refundação" do PT. Foi malsucedido, vencido por Dirceu no Diretório. Então, o presidente voltou a fazer o que faz desde o primeiro dia de seu governo: campanha eleitoral. Eu vinha lendo, ultimamente, João Ubaldo Ribeiro. Fui notando a mudança, não dele, mas dos que ele simula freqüentar "no Bar do Lebon". Antes indignados, já agora em dúvida, admitindo a reeleição, pois, se Lula foi traído e negava de pés juntos saber o que se passava nos esgotos do PT, não era culpado. Era vítima. Meu velho amigo que profetizou a morte de Lula o ressuscitou. Assim é a humanidade. O Brasil é parte dela. Logo... Veja-se o que se dá na Rússia. A neta de Kruchev defende o avô, acusado pela autora do livro Stalin, the Second Murder de haver "assassinado postumamente" Stalin, de quem cresce a saudade do povo, "pois a nação nunca encarou os crimes de Stalin". Aqui, Frei Beto desabafa: "Poder mostrou face real de Lula" - mas fará campanha pela reeleição dele... É que, acima do respeito à ética, está o sentimento de veneração que é comum ter pelos carismáticos.
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Entrevista:O Estado inteligente
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